MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM.NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. diante da diversidade de região. 1 7 . Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres.ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade. assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação. participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas. as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que.no meio científico atual . o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos.como as Mulheres na Antiguidade. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga.ª Dr. tanto nos meio formais e/ou informais de atuação. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos . ao longo da segunda metade do XX. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . na historiografia brasileira. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. como objeto de pesquisa histórica. podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas. por exemplo. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher. deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. Nesse sentido. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. por exemplo. A Arqueologia de Gênero. devido a sua escassez. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. afastando-se do padrão tradicional. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. 8 . na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar. Diante de tal situação. os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades. as abordagens que contemplem o tema.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes.

aquela que vive em sociedade. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. são esferas distintas. 1989: 22-23. Ao contrário. Titular Dra. ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. desde a Antigüidade até a Idade Média. 3 Utilizaremos. Logo. apontando-nos sua ligação com a natureza. Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105). do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. GREEN. não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. inclusive.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a vida e a proteção da comunidade. defendida em Março de 2001. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. a existência de um ―matriarcado original‖. inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. EHRENBERG. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. 9 . sob orientação da Profa. Em verdade. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado. tais mitos falam-nos das deusas celtas. a fertilidade e a soberania.NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof. Neyde Theml e financiada pela CAPES. de forma alguma. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é. em ao longo deste trabalho.ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. evidenciando sua vivência em sociedade (cf. muitas vezes supondo.ª Dr. A partir desses mitos. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. 1995: 15). da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF.

1999. jóias. assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. sendo sacerdotisas. 4 10 . S.s. sobretudo. XLIII. Tais relatos. nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. SAÏD. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. porque bárbara4. 251). seu vigor. Paris: CNRS. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. Women as focalizers of barbarism in conquest texts.NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. Se desejamos ir em busca da mulher celta. 1995: 15). profetizas ou feiticeiras. muitas vezes. n. Classical Views. independência e poder na sociedade. sua participação política na sociedade. eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir). ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes. 1985.MULHERES NA ANTIGUIDADE . liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas). bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. 137-150. que seriam por elas geridos e. as relações de gênero. No entanto. mas. é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos. Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. 18. Helenos e romanos. porque poderiam elas exercer o poder. vasos de cerâmica ou metal. então. participando de banquetes e festas. cavalos. ser sacerdotisas ou chefes. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. liderar combates (tal como Boudica que. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio. isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. Destacam eles seu caráter e bravura. T. vide SAAVEDRA. 59-77. 1989: 245. que nos permitam analisar a posição social dessa mulher. porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. Devemos.

Tal poderia. isto é. havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares.133). tais itens não eram de uso exclusivo masculino. de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg. formas específicas de sepultamento para homens e mulheres.C. e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação. que. levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. a exemplo do torc e do serviço de banquete.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Na maior parte dos casos. 1996). ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. Com efeito.. Porém. mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. WITT. leste da França). indicam. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio. importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131. que. havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. sempre associados à figura masculina e. no primeiro milênio a. como explica ela. contudo. pois. constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. isto é. Nesse sentido.NEA/UERJ As evidências arqueológicas. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. principalmente dos enterramentos. 5 11 .tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha. identificando-o ante a sociedade. marcadores de gênero e sim de status. para alguns. onde temos o casal enterradoem conjunto. mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. não sendo. sudoeste da Alemanha). Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral.

constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana.Essa tumba. tornozeleiras e fíbulas. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A).aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois. Não desejamos. três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós). e uma taça (―phiále‖) de prata. uma oenochóe de bronze etrusca. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. Como vemos na figura abaixo. 12 . braceletes. as atividades produtivas. aqui discutir as relações de gênero. Propomo-nos. composto de uma cratera de bronze laconiana. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. e diversas jóias entre colares. Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. no lado esquerdo da câmara. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. um kýlixcom verniz negro. ao invés. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖. um kýlix ático com figuras negras. às margens do Sena.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. contudo. a chamada ―dama de Vix‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no norte da Cote-d‘Or.

C e início do século V a. os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY. torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata. 2003). Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário. seguem também. Fonte: Joffroy.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. mais recentemente. chicote e argola 13 . posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta. consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa.Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖. por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes.Nessa linha interpretativa. quer com relação ao tamanho.C. tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro. 1958. donde. prancha IV.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix. Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix.

Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio. 2003: 325-326. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía.C. Já os depósitos na tumba. uma colônia helênica fundada em 600 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. quando expostos nos 6 14 . Seguindo essa linha de raciocínio. por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos. posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. o poder. Milcent (In: ROLLEY. interpretamos os rituais. em verdade. seriam não somente bens de grande prestígio social. ao defeito na perna que provocaria andar claudicante. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. Aqui.NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações. distinguindo-se das ações cotidianas. e à cabeça torcida.. de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. da cratera. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante. segundo Gellner (1997). isto é. pendendo para a direita). mas também artigos de uso cerimonial. tendo por base o caráter religioso da phiále. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela. Esses bens. pois que a circulação. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos. De modo semelhante. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. como vias de construção de identidade. do torc e do carro.

mas sem que houvesse doenças. ao mesmo tempo. A deposição de um serviço de banquete nesta tumba.MULHERES NA ANTIGUIDADE . segundo Wait (1995: 490).NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. e que seria similar ao mundo dos vivos. marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. isto é. a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. Miranda Green (1997: 68) considera. e em especial. Com efeito. à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos. Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio. porém. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). na primeira Idade do Ferro. denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe. da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. por meio dos ritos funerários. 15 . GOSDEN. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69). 9 Devemos destacar que. tornava-se necessário reorganizar. não representaria traços de um banquete funerário. porém. portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. no caso que ora estudamos. não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. nem tampouco constituiria uma evidência da existência. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. não havendo. 1985). um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. um sistema estável de alianças de casamento (cf. nos mitos célticos. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes. freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. envelhecimento ou ruína. Em se tratando de depósitos intencionais. O banquete e a hospitalidade eram.

‖ (KING. que a remontou em Vix (JOFFROY. possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. mesmo. Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica. não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. Construíam. No caso desta tumba de Vix. 208 Kg). ofertado – presentes. oferendas. dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11.217). 11 Essa cratera. dessa forma. Possui ela decoração nas asas. assim como as alianças intertribais. Além disso. pagamentos. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13. 2004. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. Trabalharemos. aqui. 1979). como no 16 . do tipo com asas em ― volutas‖. simbolizassem o vínculo pessoal.64 m de altura. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro. 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. SCHEID-TISSINIER. 1994: 167). para conter hidromel. JOFFROY. etc. quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras. é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. Esse serviço de banquete era composto de importações. que evidenciassem seu status e prestígio e. nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12. o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos. 1988: 227-228). construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . DRISCOLL.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens. Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados. da mesma forma. p. 1979) – para misturar vinho ou. ao redor do pescoço e na tampa/coador. Por outro lado.

ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para ser exposta no enterramento da chefe. enquanto o outro somente possui onze. pois. e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. e. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). ocultando-lhe os braços. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. na cintura. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe. porém. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. cabelos repartidos no meio e portando um véu. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. 1998b). assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. em verdade. 17 . Em verdade. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. que reforçaria seu prestígio. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita. vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. por um cinto. TSETSKHLADZE. Exaltava-se. à posição privilegiada desta mulher. de uma mulher vestida com um péplos fechado.NEA/UERJ Entendemos. 1998a. ―renome‖ e distinção. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta. No braço esquerdo. à frente dos carros. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. sua força política. fixados com rebites sobre o vaso. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique. portando sobre a face um elmo coríntio. Um lado do pescoço porta doze imagens. Os hóplitas seguiam. dos demais só podemos divisar algumas partes. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita.

pois. 1998a). ver Tyrrell (1984). com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. há pseudo-inscrições. Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem. o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. TSETSKHLADZE. E nos Em ambas as cenas. aqui. Sobre as imagens de amazonomaquia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. E ao redor de todos eles. e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. Eram elas também associadas à prática do banquete. protegendo-se com seus escudos e empunhando. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. de alteridade das amazonas. As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta). feitas somente com pontos. temos os guerreiros helenos à esquerda. Todavia. 16 18 .NEA/UERJ De forma semelhante. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. por sua vez. No enterramento. que. na mão direita. contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16. destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. uma lança. não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas. Donde. um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. onde eram celebradas as vitórias. entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. Devemos. o kýlix ático em figuras negras.

1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe. Com isso. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. Temos. aos pés desta. Quer dizer. em Pouan (Aube). na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin). Entretanto. nos faz atentar para a tipologia desta prestação. 1979: 76-77). que atravessava o vale do Tessin. outrossim. possivelmente. Além desses vasos. à primeira vista. tal como no Marne. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. assim. tal qual as taças em cerâmica ática. Segundo Joffroy (1979: 77). Logo. com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba).NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. como sugere a análise feita por Kimmig (1999). que. sua posição no enterramento. casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY. o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. havendo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que tal como a cratera. a oenochóe etrusca. 17 19 . sendo. Esta taça recebeu cuidados especiais. vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros. seriam provenientes da região dos Alpes. 18 A oenochóe etrusca. os chefes de comunidades dessa região. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado. que teria a mesma finalidade. Kimmig. como aquela de Hochdorf. no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina.

mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar. Concluímos. destarte. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. tais como os massaliotas. de continuidade dos laços e relações. essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. enfim. demonstrando. Por meio deste estudo de caso. na tumba. 20 . que seus seguidores. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. retirando-os de circulação e. quer para o restante da população. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição. igualmente. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. de bens que simbolizassem esses laços.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em outra palavras. Procuramos. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela. fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. porque as relações. mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. as comunidades vizinhas e os aliados distantes. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. Por conseguinte. pois. mesmo. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder.

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Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. havia a concentração de prostíbulos (SALLES. 1995: 15). 19 26 . Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí. A cortesã atuava. C. Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). ela foi O Prof. os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs. Dr. Dependendo do status. 1986: 210).NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. podemos identificar os seguintes termos: koré. geralmente. da família e do oîkos. sob a proteção do pai. C. a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. recém-casada. Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. Desta forma. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. nýmphe. Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços. E além delas. do VIII ao IV séculos a. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade. Inicialmente. Em Atenas Clássica. jovem. este último seria um tipo muito comum no IV século a. que dependendo de seu prestígio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Dr. Lembremos do caso de Neera. apontado por Demóstenes. 2001: 61). donzela/ virgem. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. custavam vultosas quantias (MOSSÉ. até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas.

bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. 1988: 42-43. criado de forma oral por volta do VIII século a. o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé). da dança e do ato sexual (LIMA. poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. Além dos termos apontados acima. 27 . O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios. 2000: 23). Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. do canto. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. Desta maneira. o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. C. devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos. 1997: 37). A Ilíada é por excelência um poema de guerra. os autores mencionam ainda as escravas . É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. 1999: 25).NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). Como já mencionamos.doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos. 21) em seu santuário na Acrocorinto. Para compreendermos o papel destes termos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY. 1999: 123). a guerra é o tema central do poema. 6. KIRK. O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER. Contudo. Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere. Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte. Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem.

Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. 1999: 31). privou-a da persuasão (peithó). a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um membro estranho em sua própria comunidade. ou seja. Todas as riquezas disponíveis. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. ter o dom de profetizar. os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. ao preço de suas vidas. enfrentar os perigos e a morte. Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. 1999: 45-46). então. O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. 1995: 151). 1212). são pilhadas. Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. 1990: 105). preferindo continuar virgem. celebrando os seus grandes feitos. Agamêmnon. que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas. Contrariamente. a princesa Cassandra (Kassándra). Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK. Cassandra não aceita se entregar à divindade. O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO. Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade. pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. 1965: 431).NEA/UERJ tais como: o gado. a mênade 28 . Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo. Hécuba. Por meio da poesia épica. rei de Tróia. Podemos perceber. humilhado. como privilégio honorífico. Apolo. Como os prêmios dos jogos fúnebres. Sua mãe. os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas. Entretanto. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. a bacante. A partir da derrota de uma cidade. incluindo as armas dos guerreiros vencidos.

Cassandra ainda em posição estática é comparada.1057). Ela foi um géras. 955). como um animal de caça. tu que compartilhas os êxtases dos deuses. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe.MULHERES NA ANTIGUIDADE .‖ (EURÍPIDES. um presente honorífico. As Troianas. seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. Antes de entrar no palácio. pelo Coro. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. Agamêmnon. Cassandra.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO. com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia. Ilíada. Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. chefe da expedição contra Tróia. Cassandra não consegue ter credibilidade. As Troianas. Todavia. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo. ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. junto com Agamêmnon. 13. mas a pobre mulher permanece inerte. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO.‖ (EURÍPIDES. ao palácio argivo. Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. II. que me evite esta nova pena. De princesa. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. profetisa e virgem. 374). 1035). Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra. a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. Agamêmnon. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. junto ao fogo sagrado.

MULHERES NA ANTIGUIDADE .” (ÉSQUILO. um nómon ánomon. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra. quanto dos de Cassandra. A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. 1990: 128). eu acho. mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei. Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe. Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘.morada dos mortos. 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. (VIRET-BERNAL. ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos. 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo. 1990: 105). Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. 1140). Agamêmnon. parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida. O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon]. 1990: 98). após os enigmas [ainigmáton]. ―Ainda não compreendo. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE. logo cantar minhas profecias. Ao descer do carro.NEA/UERJ passando por um estágio de loucura.‖ (Ibid. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas. daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘. muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 . ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid. 1112-1113) Nos versos seguintes. As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades .

‖ (ÉSQUILO. Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e. jurídicos e morais.NEA/UERJ furiosas vingadoras. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. a partir do relato de Ésquilo. (ÉSQUILO. 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. DE ROMILLY.‖ (ÉSQUILO. 1995: 12). um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra. justamente. Agamêmnon. Agamêmnon. Agamêmnon. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba. Agamêmnon. 200-205). Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. mesmo hesitando (DE ROMILLY. A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos. De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. dos filhos desmembrados de Tiestes. 1309. 2001: 118) Com o fim de suas profecias. Agamêmnon. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . 1280). De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. (ZAIDMAN. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. Agamêmnon. a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. A peça esquiliana mostra. 1038). Entretanto. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra. as múltiplas facetas de Cassandra. Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente.‖ (ÉSQUILO. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar. 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra.

Agamemnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. 1274) e chegou. 32 . talvez o principal. Agamemnon. Géographie. Trad. Paris: Gallimard. Contudo. Trad. HOMÈRE. Trad. Loeb Classical Library Vol. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. Paris: Garnier Frères. Émile Chambry. 1978. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. 1962.Weir Smith. H. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. Cambridge: Harvard University Press. LESKY. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. II. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. 950). Raoul Baladié. 1996: 122). Trad. STRABON.NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. Les Troyennes. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. Paris: Gallimard. Livre VIII. 1964. EURIPIDE. Tome V. Paris: Les Belles Lettres. Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo. E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. Trad. Iliade. ESCHYLE. 1975. segundo o poeta Ésquilo. 1296. O segundo e. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. 1273). Marie Delcourt-Curvers. Agamêmnon. uma rival de Clitemnestra. Paul Mazon. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. 1995. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon.

Avignon: Musée Calvet. Année. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. C. In: Tragédies Grecques au Fil des Ans.I. L. 3. ZAIDMAN. (org. 35-37. 1995. À Athènes. IRIARTE. Brasília: Unb. N. no. LESKY. SCHEID-TISSINIER. Phoînix. O Mundo de Ulisses. 1990. Paris: Armand Colin. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av.. Politique et Société. Paris: Payot. Les Hésitations d‘Agamemnon.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY. En Grèce Archaïque: Géométrie. 1996. Lisboa: Presença. Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. mai-juin. 1999 (1968). de Souza. E. 1995. SALLES. Les Antiquités Grecques du Musée Calvet. M. C. FINLEY. O. As Realezas em Homero: Géras e Time. Le Commerce des Dieux: Eusebeia. 1965. Paris: EHESS. São Paulo: Perspectiva. 1986. Historia. (org.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2001. A Tragédia Grega. In: CAVALIER. In: MOSSÉ. C. A. M. G. 1995. 425-441. THEML. DETIENNE. 1998 (1970).B. Essai sur la Piété en Grèce 33 . ______. 1. 1996 (1937). janvier 1997. MOSSÉ. Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne. LESSA. J. V. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. F.C.S. Paris: Éditions du Seuil.Madrid: Taurus. 1988 (1965). A Tragédia Grega. A. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. C. (org. LIMA. J. F. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego.-P. 20o. Paris: Les Belles Lettres.) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. Cl. VIRET-BERNAL. 147-155. 2000. Annales. 1999.). Rio de Janeiro: Sette Letras. Cultura Popular em Atenas no V Século a. In: VERNANT. A. 601.C. VANOYEKE. Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique. KIRK.) La Grèce Ancienne. J.

sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer. cuya biblioteca. esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua. ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib .). Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas. C. España 34 . 1.C. recientemente conquistada. dejando al primogénito la antigua Babilonia. centro del avispero antisirio. 2007: 188).NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof. Los escasos supervivientes fueron expulsados. En aquel momento del siglo VIII a. ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. marchó contra Babilonia. Nabu. Madrid. descubierta en el palacio real de Nínive. UNED. aprovechando la enfermedad del rey de Elam.ª Drª.C. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. cuyos dioses principales. el príncipe Asurnadinsumi.) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. deportados o vendidos como esclavos..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Y la tomó y arrasó en diciembre del 689. cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino. mientras que el núcleo original del reino. fueron llevadas cautivas a Nínive. quedaba en manos del culto Asurbanipal. Assur . En aquel momento.

1973) pl. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo. desde una influencia religiosa. Asarhadón. ―La más pura‖. cuyo nombre semítico del sur. 35 . Y más aún. que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar. Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. Museo del Louvre (AO 20185).NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero. Senaquerib. la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). capital y región anexionada por Asiria. o arameo. esposa de Sargón II.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pero los hermanos mayores de Asarhadón. con su hijo. hijos de otras esposas. Naqi'a. el más joven de los cuales. relieve de bronce. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. tenía aún cinco hijos varones conocidos. 62. era Naqi'a. de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. había nacido de su última esposa. tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. afectado por una grave enfermedad crónica. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio. un princesa de Samaria. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. en acadioasirio Zakutu. a la cultural o política. junto con las diez tribus del norte de Israel. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios. 2. foto de I. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre. que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica. Seibert. no sólo personalmente.

sería para el hijo mayor de Asarhadón.MULHERES NA ANTIGUIDADE . eunucos de la Corte incluidos. Asurbanipal. Naqia. el príncipe Sinandinapli. Y dos reinas le ayudaron: Un viva. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . Pero no cabe duda de que no estaban solos. entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk. Y probabilonio. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. Assur. la reina Ešarra-hammat. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. hijo de la reina Ešarra-hammat. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. su propia madre. Ellas debían tener numerosos partidarios. quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. y la reina-madre. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas. decididamente antia-sirios. Una curiosa trama. que ya había fallecido. su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. difícil de cumplir. 1987: 140-145). al norte de Mesopotamia. oniromancia incluida. que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. intelectual y sensible . desde luego. que. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672.NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. Y sin duda los utilizaron. Asurbanipal. Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor. Y debieron ayudarles elementos afines arameos. pero partidarios del nuevo príncipe. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen.

que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. Teepo reconoce (TEEPO. en el año 673. Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur.Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina. Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones. también llamada Zakutu. y 2 Cron. la reina Ešarra-hammat. 844/3 BC] y nieta de Omri. Ataliā (KAMIL. Y no solo viva. la presencia de estas mujeres arameas. sino también económico (MELVELLE. por lo que su papel no solo fue político. aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así.MULHERES NA ANTIGUIDADE .6) ). n. la lengua de la reina de Sargón II. Naqia y Essarra-Hamat . Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE. Su sucesora. Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. sino también muerta. es el de una mujer. 1987: 140-145). Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) . 1999: 105-112). 1999: 17. Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4. la reina Naqi'a. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon. cuyo nombre significa ―La más pura". semitas del sur. 3.( 2 Reyes 11. madre de Ahaziah [c. madre del Asurbanipal. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9. se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. 22- 37 . PNA 1/II 433). Naqi´a era esposa de Sennaquerib. en la Corte asiria. el mismo nombre en acadio. La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón.NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. es claramente hebreo (cf.

lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81). (AfO 13 T4).v.v.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias. en colaboración con sacerdotes.NEA/UERJ 24). madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672). ministros y eunucos. Iabâ ) o el de Naqia (Aram. la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE. PNA 2/II s. Yabâ.7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. Y el nombre de la reina de TiglathPileser III. Ešarra-hammat fue reina de Asiria. y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no. Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645). I. magistrados. aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. No hay referencias a ella durante su vida . fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188. posiblemente.C. 1956: Ass. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal. sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real. durante cuyo reinado creció la influencia de su madre. ―pura‖). mi señor]. esposa de Asarhadón(680669). Ella construyó un palacio para su hijo. actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora . 915-9. Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER. PNA 2/I s. Naqī‘a). es tan 38 . deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM. Algo que había sucedido ya con Asarhadón. 217). que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta. 5). Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. posiblemente en Assur. 1999. STRECK. Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia.

).MULHERES NA ANTIGUIDADE . cuando al fin lo hizo. que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad. SAA 13 76 . recayó sobre su hijo más joven. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. sino lo que aquí se trata de comentar. (mi padre) reunió entonces. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. para que todos respetaran mi derecho a la sucesión. no sólo en materia de culto. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses. Lo que evidencia su importancia. 1).. los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274). pero. apoyada por los dioses Shamash y Adad. todos juntos. su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154). a los habitantes de Asiria.. su elección. no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. SAA 13 77). Cuando. Las dificultades en la Corte parecían evidentes. por orden de los dioses (. a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia. pequeños y grandes. y delante de (. a este respecto. mi padre. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. Asarhadón. 2005: 37) y numerosos servidores.. estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'. 1999: 105. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia. 5." 39 . Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib. a pesar de todos sus esfuerzos.. TEEPO.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra.

podían ser indestructibles. Que a la hora de elegir al heredero. "El día 20 de Tebet. debió recurrir. su hijo. según el Antiguo Testamento. con lo que se le acusó de traidor a su patria. Senaquerib. más allá de Khanigalbat. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. Isa 37:37. e incluso su padre. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat". la reina aramea Naqia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . debió alejarse entonces de Nínive. esta vez de Asarhadón. a fin de desacreditarle y atemorizarle. hepatoscopia incluída. en cuya elección debió influir notablemente su madre. Aunque esta vez.. perdidas a causa de los invasores tierras. llamada en acadio Zaqutu. estaba algo irritado." 132Cr 32:21. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron. Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. era el de la fallecida reina de 40 . Sin perder por ello el título de príncipe heredero. que para Parpola. que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima. C. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. a la ayuda de sus partidarios. recurriendo a la aparición de un fantasma. su dios. Assarhadón.NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes. prebendas y riquezas. Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. una vez más. 38. El día 18 de Sivan. ascendió al trono. buscando refugio en algún lugar desconocido. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta.

se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño. 7. a fines del año 669 a. como en su caso.C. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. que tal vez la añorase ahora . madre del príncipe Asurbanipal. porque no debía estar la situación muy clara. entre otras disciplina adivinatorias. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. como había sido su propio caso. nuevamente. la fallecida madre del príncipe. que su hijo pequeño le sucediese. Algo que su heredero tuvo que justificar. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan. lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre.NEA/UERJ Asarhaddon. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. El reinado de Asurbanipal. una vez más. tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. Tal vez. preocupado sin duda. el hijo menor del rey. la ciudad del dios Sin. El Príncipe recibe así. el mismo año que su otro hijo. cuando exigió a la 41 . aunque ella hubiese desaparecido. intelectual experto en adivinación por aceite. 6. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. y que la piedad del príncipe para con su madre muert. NATCP. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. su fantasma. Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal.C. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. cuya muerte debía ser muy reciente. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ešarra-hammat. estaba así sancionado por el fantasma de su madre.. a la vuelta de una expedición a Egipto. es decir. el premio por honrar la memoria de su madre. PARPOLA.. que había ordenado quien sabe si a su esposo. 1993).

a la coacción. bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). como madre del nuevo rey. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea. ritual y oficial de la reina fallecida. al juramento. que ayudada por el profeta Natan el profeta. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. como hizo en Judá el rey Asa. su suegra Naqi´a. jefe de la casa del rey y el harén real. Ella. temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. Pero el fantasma vendría en su ayuda. consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. con su madre. Así púes. El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder. era la que había permitido. Y además. madre de Asarhadón. la aristocracia y la nación asiria. Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8).MULHERES NA ANTIGUIDADE .) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. 2009: 170). como en el caso de de Betsabé . gobernando entre 913 y 873 a. aunque si su poder crecía. C. ocupó la vacante política. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. a veces el rey podía alejarla de la Corte. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón. Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. llamada Adonías. A la muerte de Ešarra-hammat.. principalmente en el harén. a la magia. Para ello hizo intervenir también a los dioses. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea.NEA/UERJ familia real. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . conservárselo. 8. que la joven llegase al lecho de su hijo. y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a. la esposa preferida de David. Según Melville.92. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. sin duda. la reina Maaca.

NEA/UERJ que conocemos. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado. rey de Asiria. no se rebelará contra su señor Asurbanipal. reina de Senaquerib. como en el caso de Natán. 2005: 36) . exorcistas y profetas.C.) Abuela de Asurbanipal (h. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera. que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón. un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio. Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera. 670 a. rey del Asiria. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey.C. rey del Asiria. pitonisas. brujas. 670 a. rey de Asiria. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él.) Madre de Asarhadón (h.710 a. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. si lo oyes y lo conoces. madre de Asarhadón. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE. referente a su nieto preferido Asurbanipal. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal. su madre y a su señor Asurbanipal. lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey.700 a. TEEPO. rey del Asiria. los prenderás y matarás y les 43 . eunucos. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h.C. 1999: 29. venga a informar a Zakutu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . C.) Esposa de Senaquerib (h. Quieran Ashur.) ―Tratado de Zakutu. ni tramarán para asesinarle.

volume 3. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project.). New Haven: Yale. 1997. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 1938. 2001. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años.NEA/UERJ traerás a Zakutu.‖. Leiden. part . 96-116.‖ WO 28. hasta un fantasma era bien recibido.C. Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. ______. ______.I. 74-90. PS . part II. American Oriental Series 15. ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra. ______. (ed. por suerte para la posteridad. su madre y a Asurbanipal. I. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. rey de Asiria. (ed. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 2002. The Basis of Israelite Marriage. Una vez más. ______. 44 . London and New York: Routledge.MULHERES NA ANTIGUIDADE . L-N. 2000. BAKER. Z. Para ello. tu señor‖. H. magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. 1978. The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI. OrNS 47. 1999. part . The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. M. H-K. BURROWS. volume 2. Women of Babylon. Gender and representation in Mesopotamia. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. DIRVEN. a cuya elección había contribuido sin duda. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. Religions in the Graeco-Roman World 138. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 2001. de las autoridades asirias.). volume 2. L.

WHITING. ______. Helsinki: The Neo-Assyrian text Corpus project. Edited by Mikko Luukko. (eds. In: JAHRTAUSEND V. Ancient Records of Assyria and Babylonia. 45 . J. A. 1999. MELVILLE.). M. CRRAI 25 = Berliner Beiträge zum Vorderen Orient 1. 1988. de. Intellectual Life of the Ancient Near East: Papers Presented at the 43 rd Rencontre assyriologique international. Sex and Gender in the Ancient Near East.). Trees. Letters from Assyrian scholars to the Kings Esarhaddon and Assurbanipal. In: Neo-Assyrian and Related Studies in Honour of Simo Parpola. Of God(s). ―The Queen in Public: Royal Women in Neo-Assyrian Art‖. State Archives of Assyria Studies 9. S. S. pp.. 1998. In: DAMERJI . ―Family Ties: Assurbanipal‘s Family Revisited‖. (1982): ―Importance et rôle des Araméens dans l'administration del l'empire assyrien‖. Politische und kulturelle Wechselbeziehungen im Alten Vorderasien vom 4. Kamil.germanischen Zentralmuseums 45. Mesopotamien und seine Nachbarn. M. 1982. 2002. The Cambridge Ancient History. vol 2. Helsinki: Neo-Assyrian Text Corpus Project. In: BOARDMAN. GARELLI. 4. Gräber assyrischer Königinnen aus Nimrud. NOVOTNY.. 2. (ed. J. 167-177 ORNAN. ―Les Dames de l‘empire assyrien‖. SINGLETARY. 200-201. Proceedings of the XLVII e Rencontre Assyriologique Internationale.175-181. ― Syria-Palestine under Achemenid Rule‖. Helsinki 2009. 1983. 1927. (ed. S. Saana Svärd and Raija Mattila. Part II.). vol. Alter Orient und Altes Testament 5/2. and Scholars. D. P. T. PNA 1/II 433 LUCKENBILL. Kevelaer: Verlag Butzon und Bercker. Renger. 437-447.). The Role of Naqia/Zakutu in Sargonid Politics. Studia Orientalia. Nissen and J. (ed.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―Inscriptions on Objects from Yaba's Tomb in Nimrud‖. Mainz. Helsinki . Second Edition. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag. J. Published By The Finnish Oriental Society 106. 1999. Jahrbuch des Römisch .NEA/UERJ ______. R. Vol. 13-18. 139167. Kings. In Prosecký. In: PARPOLA. Commentary and appendices. Prague: Academy of Sciences of the Czech Republic Oriental Institute. PARPOLA. J. bis 1.

The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. Helsinki: Helsinki University Press. ―The Neo-Assyrian word for ‗queen‘‖. La Femme dans le Proche-Orient Antique: XXXIIIe Rencontre Assyriologique Internationale. 4. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis. Nuzi Real Estate Transactions. SAA 1. Paris: Editions Recherche sur les Civilisations. 1974. ―Was Sennacherib a Feminist?‖. (ed.43. Pretoria Oriental Series 1. Studia Semitica Upsaliensia 8. A. 1987. devoted to the theme “Ethnicity in Ancient Mesopotamia”. SELMS. ―National and Ethnic Identity in the Neo-Assyrian Empire and Assyrian Identity in Post-Empire Times― In: 48th Rencontre Assyriologique Internationale. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire.). no. K. B-G. 1998. Archives and Libraries in the city of Assur. Women and their agency in the Neo-assyrian empire. 1997.). R. volume 1. 2007. Reade. 2004. Helsinki: Helsinki University Press. SAA 10. part II. 1943 TEPPO. Historia del Mundo Antiguo (Próximo Oriente y Egipto). 4.). Part I: Letters from Assyria and the West. Journal of Assyrian Academic Studies. Assyrian Prophecies.2.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1986. American Oriental Series 25. Queens household. New Haven. 4. STEELE. 2. 1999a. SAAB II/2.). 2005.). van.NEA/UERJ ______. 18. A. Leipzig.3 Daughters of kings and other royal women. . Madrid: Editorial Sanz y Torres.1 Queen‘s . SAA 9. I. 1993. Leiden 2002. 1954. pp. ______. pp.. Letters from Assyrian and Babylonian Scholars. Vol. J. 34. 40 . London. ______. S. 46 . In: DURAND. Helsinki: Helsinki University Press. VÁZQUEZ HOYS. (ed. Mª. Tesis Doctoral. volume 1. F. J. 73-76. (ed. 1987. part I. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. ______. Woman in the Ancient Near East. 1988. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. (ed. ______. O. SEIBERT. (ed.). K. The Correspondence of Sargon II. Hesinki. RADNER. PEDERSÉN. A. RADNER. -Id. (ed. 5522. Marriage and Family Life in Ugaritic Literature. 4. Assirian Royal Women.34.-M.

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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349 a 359).MULHERES NA ANTIGUIDADE . as Panateneias e também as Tesmofórias. sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. na vida religiosa da cidade. e que a beleza/ cedesse em meu semblante. a astúcia. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura. rei do Egito após a morte de Proteu. havia um par de opostos. ambigüidade de caráter. Entre as próprias mulheres.. especialmente. vs./ de que houvesse nascido um ovo branco. por diversas formas.) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. irmã de Teoclimeno. acumulava ambas as características. com quem tem uma filha. Helena. A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade. a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. Enquadra-se. emoção. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(.apesar de ser uma espartana. do marido daquela que deseja esposar. Hermíone. A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. ainda que a contragosto. como/ as cores da pintura. Teonoe. astuciosa. está sendo representada por um ateniense . portanto. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça. porém. . ou grega ou bárbara. Minha vida/ é maravilha. Helena. silenciosa. pois. estão. do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. como tudo quanto/ me aconteceu. porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem. á fealdade! (EURIPIDES. sendo a mélissa. Seguindo a ordem dos deuses. e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno. no estatuto da mulher ateniense. No entanto. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. 2007: 211-212). 1990). (FARIA. segundo Andrade (2010: 117). a boa esposa. a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução. no entanto integradas. não admira o estratagema de Helena.que baseia-se na exemplaridade doméstica. alimenta contra os gregos.. 54 .NEA/UERJ Menelau. Helena é ardilosa. parte dela o plano de salvação de ambos.

Porém. e que Hera.C. da ruptura de contrato. Proteu.. espécie de fantasma. obviamente. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes. porém. da infidelidade. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. Enquanto a outra.1329 a 1309) No entanto. Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. que o desposa e permanece com ele até ser resgatada. as pornaí e as escravas. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. (EURIPIDES. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste.NEA/UERJ irmão.. as hetairas. Bustamante. e mesmo a mélissa. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. eidolon. sendo ainda possível. contudo. lutando contra um só pretendente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nosso olhar volta-se assim. É o protótipo da mulher fiel. jamais de uma mesma mulher. como as concubinas ou palákinas. Teoclimeno. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica. para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. há uma outra Helena. presente na bibliografia. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. Helena. na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. vs. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. Helena é Penélope. Portanto. encaminha para o Egito.C. a mélissa. para a esposa legítima do cidadão ateniense. a que está em Tróia com Páris. a esposa por excelência. primeiramente. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a. sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro. Ali ela espera o tempo passar. 26 55 . Digamos que há uma Helena que é Helena. permanecendo.

para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres. mas não a vemos destacar-se no campo político. Helena. a terra./ do fardo de uma multidão inútil. portanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tanto no espaço público quanto no privado. Menelau lá governa por haver se casado com ela. Helena. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. Segunda a autora.C. para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica. 56 . intenção. Helena é uma rainha. que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. princesas. sua atuação está limitada.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a. que se destacavam no campo político. em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário. No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. rainha de Esparta. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. ao espaço de atuação de uma boa esposa. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra. VIDAL-NAQUET.50 a 54). como dissemos anteriormente. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus. o ponto focal do conflito. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. Tragédias não são mitos./ para livrar a nossa mãe. estruturas próprias (VERNANT. é. vs. possuem sentido. ou seja.. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia. entre outras notáveis. (EURIPIDES.

1999: 23).NEA/UERJ Na tragédia Helena. e posteriormente retomado por Menelau. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena. ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . A primeira diz que 57 . sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. ignorado do agente. criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais. a capacidade de persuadir e outras qualidades. foi levado por Páris a Tróia. a destreza manual. e Zeus destinou-a à punição da raça humana. mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário. 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. VIDAL-NAQUET. Foi criada por Hefesto e Atena. a manifestação de características típicas das mulheres. temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. a mentira. Pois. A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. por ordem de Zeus. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. Pandora é. a primeira mulher. ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (VERNANT. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. a graça. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. num mito hesiódico. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. primeira mulher. à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. com o auxílio de todos os outros deuses. um duplo seu. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. o ardil. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza.

a mélissa. a outra era ardilosa e astuta. o causador da guerra. assim como a água altera sua forma. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha. a ―real‖. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides. Ainda que este seja o transgressor. segundo o recipiente em que é colocada. de Amorgos..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta é a Eva da Atenas do século V a. Uma gostava da sujeira. o infiel.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas.C. a outra era dissimulada. 27 58 . uma falava demais. Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense.C. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. uma roubava. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade. a outra se banhava em excesso. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. Desta forma. e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a.C. a outra não trabalhava. carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra. mudando constantemente de sentimentos. pois esta é ainda mulher e. a lista de deficiências é imensa.. De qualquer maneira. consequentemente. uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. uma comia as carnes consagradas. feito de éter. Ao comparar a mulher e os animais. no século VII a. presença física. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖.

é acima de tudo. assim deveria ser a esposa ideal.NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. e por fim. portanto. ainda que não o seja em carne e osso. tornando-se mais superficial. mentirosa. Orestes. É descrita como fútil. a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio. 28 59 . vaidosa. mas não é vista como uma igual por estas. Até porque. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade. ―Não é tão arguta como em Troianas. a tragédia não é dissociada do espaço político. Porém. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. portanto. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. Helena está junto das cativas. nem determinada como em Helena. ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. a salva de ser assassinada por Orestes. Em Orestes. a pedido de Zeus. silenciosa e discreta. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖. Nesta tragédia. há um clima geral de rancor contra Helena. inclusive a rainha Hécuba. Recatada. sua imortalização quando Apolo. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. 1638 a 1642). mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la. uma vez que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . querendo ou não. inevitável que este a possuísse. ―mas. e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. 2007: 91-92). enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. Em As Troianas. a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. tornando-a protetora dos navegantes.. vs. que traiu o marido. como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. abandonou-o para seguir a Páris. o reencontro com a filha. Não fosse o estratagema de Hera. a personagem recebeu um tratamento mais duro. (EURIPIDES. Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. 2006: 119). que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. sendo.. vemos a sua volta para casa. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis.

Macária)‖ (FARIA. ainda que nas entrelinhas. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. culturais. determinadas. aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. Eurípides ao apresentar mulheres fortes. nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares. traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou. Muito. 2007: 49).NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. prudentes em cumprir suas funções. representadas obviamente por atores masculinos. a tradição e as representações sociais. Ifigênia. são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. acerca destas mulheres. são ao contrário.C. assim. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. de modo que. O tragediógrafo trás a público. Fedra. que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. possíveis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . vias diversas. motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público. rebeldes. nos permite reconhecer. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. mais provavelmente. A relação entre a memória. vingativas. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. comedidas. 2006: 83). Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista. concede voz. (Estenóbeia. espectadores. que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. 29 60 . do imaginário29 ateniense do século V a. pois Eurípides coloca no palco. políticas. o imaginário. Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. ativas. e ―apresenta tanto heroínas depravadas.

61 .P: Labeca – MAE/USP. M. Rio de Janeiro: Mauad. 2010.M.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense. como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável. como dito anteriormente. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas. 1986. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES. a música. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. sigamos então com Helena. Tradução de José Eduardo do Prado Kelly. a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental. sempre tendenciosa à mentira e à traição. LESSA. como observado anteriormente. BUSTAMANTE. de forma geral. Sendo. consequentemente. o cinema. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. Rio de Janeiro: Agir. novamente.(Orgs. das origens de tudo o que se conhece e que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. o tempo do princípio (2001: 11). por exemplo. a novela – entendida no sentido televisivo . os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial. Helena. S. configuram neste sentido. Helena.de S. como Medéia. Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. até a atualidade. de caráter fraco. Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica. da C. F.M. R. possivelmente traído por uma de suas esposas. Segundo Mircea Eliade. Ainda que. ao ser reinterpretada pelo teatro. dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se. povoa a literatura.) Memória e Festa.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. 2005. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela..

Z. Lisboa: Edições 70. K. THEML.. Rio de Janeiro: Mauad. Belo Horizonte: Autêntica. 1990.P. A invenção da mitologia. VIDAL-NAQUET. Brasilia: Jose Olympio: UnB. 1999. R. Campinas.NEA/UERJ BUSTAMANTE. Porto Alegre: UFRGS. 62 . 1998. A Grécia Antiga. LORAUX. Nicole (Org. FINLEY. 2001. NÓLIBOS. SOIHET. José R.C. 2006. Os usos da mitologia grega. DUARTE. da C.C. Gênero em Debate. Rio de Janeiro: DIFEL.. São Paulo: EDUC.. ______.L. CHARTIER. Ken. A História Cultural. 1998.U. Betty Sue (Org. 1994. 1997. Aspectos da Antiguidade. A tragédia grega. VERNANT. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva. 2007. 2004. El Pasado es un Pais Exraño. SAMARA. 1998. Rio de Janeiro: Bertrand. 2010. Coimbra: F. Paris: Lês Belles Lettres. Rio de Janeiro. A. Rio de Janeiro: Zahar. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Perspectiva.). R. FERREIRA. São Paulo: Perspectiva. Entre o Sagrado e o Profano. 1992. J. O Imaginário. de S. Labirintos do Mito. São Paulo: Alameda. MATOS. 2003. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. LESKY.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. Sp: Papirus. GRIMAL. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero. Goiânia: UFG. (Orgs. Paulina T. P. David. S. Pierre.) La Grèce au Féminin. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. O poder do Mito. 2009. Mito e Realidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE .S. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense.. R. 2003. de M. FLOWERS. G. M. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. F. Albin.L. DURAND. São Paulo: Martins Fontes. CARDOSO. LESSA. ELIADE. M. LOWENTHAL. M. DETIENNE. ______. M. Madrid: Akal. FARIA.. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. DOWDEN. GONÇALVES. Moses. São Paulo: Associação Palas Athena. FERREIRA. CAMPBELL. História & Gênero. A. E. R. 2000. J. A. 1991.). 1990. Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher. I. J. Entre práticas e representações.M. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. 2006. (Org.. 2005. 2000..

e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. decide. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. aceito a morte. político etc. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história. 2008:40.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem.T.. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. Nas últimas décadas. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. Petrópolis: Vozes. têm sua base no complexo sistema religioso romano31. CLAUDIA QUINTA. na antropologia. familiar. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. Se me fores contrária. ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. eu.) Identidade e Diferença. Deusa. nas artes etc. que és pura. negam-no. (org. Fasti. delineando suas imagens e seus corpos. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. IV). no caso específico da sociedade romana antiga. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História. quanto por meio de formas de exclusão social ‖. K. se inocente sou. A perspectiva dos Estudos Culturais. 30 63 . sejam individuais ou coletivas e. . Woodward. ensinando-lhes seus lugares.MULHERES NA ANTIGUIDADE .ª Dr. que um teu prodígio O comprove e me salve.. os ordenamentos jurídico. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual.NEA/UERJ MAGNA MATER. 31 Segundo K. In: SILVA. Sinal é que a mereço. ouve meus rogos. Sou inocente. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos. E meu contrato por piedade aceita. T. na sociologia. E desatadas pelos ombros as tranças. de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. Ó tu. WOODWARD.

WIESNER-HANKS. A perspectiva dos Estudos Culturais. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. de poder. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. termo que.. Religion and Gender: Embedded patterns. 2008:40. portanto. A sociedade romana era androcêntrica. religiões criaram e legitimaram os gêneros. WOODWARD. K. (org. 73.. e que deveria. fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. 64 .) Identidade e Diferença.. T.A. In: MEDDE. A Companion to Gender History. quanto por meio de formas de exclusão social‖. ser aceita como norma por mulheres e homens. M. U. reforçaram-nos (. pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões. op. (edd. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (. T. 2004: 71. veiculando normas e valores. The Blackwell Publishing Ltd.. p. Religião e gênero não são apenas análogos. cit..).T. universalmente33. 32 KING. interwoven frameworks. Petrópolis: Vozes. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação.E. e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais.. designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. In: SILVA. segundo Ursula King.).NEA/UERJ mundo. de autoridade. existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível.).. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples. 33 KING. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX.MULHERES NA ANTIGUIDADE .) 32.

Cadernos do CEIA. TACLA. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖. A. C.M. 1. De fato. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. N. Há muito que avaliar. Rio de Janeiro: Mauad X. se expressa como ―escrúpulo‖. nos traz problemas suplementares.) Repensando o Império Romano. redutora.NEA/UERJ ou vícios passados. ainda comum entre os próprios antiquistas. no.V. na sociedade romana. Os atos rituais romanos são.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos. C. se não equivocada. e tudo o que seria (para nós) político. A. BELTRÃO. que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. A Religião na urbs. e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo.cf. no mínimo. 34 65 . a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia. 2008. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. Particularmente no caso dos mitos romanos.(orgs. Em linhas gerais. SILVA. BELTRÃO. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35. G. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF). temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas. In: LIMA. tem sua tradução e expressão no plano religioso34. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito.. C. ―impedimento‖ que. pela proibição ou pelo temor reverencial. Considerando que não houve. B. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas. (org. 2006. após o fim da monarquia. E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. A cf. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos. C.. numa visão hipercrítica moderna.) Experiências Politeístas. criou-se um consenso de que. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político. quando lidamos com um mito. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço. grosso modo. Ano I. In: MENDES. percebemos que esta visão moderna é.

E. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –. Lívio ( AUC XXXIV. eram modelos de vícios fundamentais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. por exemplo. Os mitos femininos romanos são. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. na essência. veiculando e instituindo recorrentemente. portanto. e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante. e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs. criado por T. como os papeis sociais de gênero. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. em suma. nas mentes das gerações que os ouviam. assim como nenhum gênero. queiramos ou não. censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖. o ideal romano da castidade feminina. somos herdeiros sob muitos aspectos. sociedade e instituições são. 1-8). ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). 36 66 . Nenhuma religião. ou mesmo da sociedade como um todo. o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina. ver. posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖. narrativas que podemos considerar político-religiosas. é uma categoria de análise estável e a-histórica. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. vistos como falhas do grupo familiar. Religião.

reprovando a irmã do tribuno. ancestral de Clodio. M. a principal testemunha de acusação. nem progenitores como eu. Cícero. Clodia escrevia poesias em grego. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. investindo contra P. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. 37 M. em 186 a. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. pontuado por elementos teatrais. 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus). já que nossas imagines viris não a comovem. posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino.)? (Cícero. cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. à época casada com Cecílio Metelo. Clodia Metelli. Clodia era a principal testemunha de acusação. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. um modelo para a matrona. assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta. o Censor.. o filósofo.34).MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia.. também relato por Lívio. A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. A acusação radicava. em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana. Cael. Clodia Pulchra. o caso das Bacchanalia. Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição). numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos.. que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (. Clodio Pulcher. sendo considerada 67 . concretamente.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia.C. em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis. 14. Do mesmo modo. ou Claudia Metelli38. assumindo o papel de Ápio Claudio.

A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. Cecílio Metelo Celer. Um mês depois do Pro Caelio. BELTRÃO. 1: 56-62. Cícero. SALZMAN. como Cícero e Catão o Jovem. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias. v. Mirabilia 3 (2003).fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. C. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. R. como nobres degenerados. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. Clodia foi casada com seu primo. que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. Q. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. AJP 103 (1982): 299-304. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio. Disponível em: http://www.pdf. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. um mito político-religioso em Roma. 2007. LEACH. é Claudia Quinta. um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia.revistamirabilia. C. 40 cf. Disponível em: http://dictynna. O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia.htm 68 . Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações. matrona que se tornará. sua antepassada. cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. membros da mais alta nobreza romana. Dictynna 4.com/Numeros/Num3/artigos/art2. o nome da gens Claudia. com seu comportamento ―imoral‖. Colóquios . BELTRÃO.univlille3. a partir de então. União da Vitória: FAFIUV.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dedicados somente ao prazer. 2007. Cícero investia contra seu principal desafeto da época. 39 cf. M. O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. Ciências e Letras (FAFIUV). à bebida.revue. E. Os irmãos Clodios. W.NEA/UERJ por desonrar. the Megalenses and the Defense of Caelius. Atacando a Clodia. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela.

O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a. um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. e Cícero. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas. e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. Cibele. Claudia. riacho perto de Roma. em honra da Magna Mater. Desse modo. 41 69 .. P. com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. A data do discurso é significativa. merecendo a menção de Cícero no discurso. 27). nem a edilidade curul42. censura a Clodio por não ter. resp. nem teu próprio sacerdócio. na passagem. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril.NEA/UERJ Foi então. pensamos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . novamente uma referência aos Ludi Megalenses. que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). Cibele43. Q. no início dos Ludi Megalenses.C. cumprido com os deveres de seu ofício. Cipião. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma. incluindo mimos (os ludi Megalenses). Os edis eram responsáveis. Jogos realizados durante o festival das Megalensia. o banho ritual da deusa no Almo. No De haruspicum responsis. pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41. que tem como primeiro dever mantê-los. XIII. aceita em No mesmo discurso. Outro rito era a lauatio. sobre o qual repousa. quando edil curul. nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). dentre outras. era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. pela supervisão dos Jogos. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. cuja antiga austeridade era. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia].

sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater. 45 Esta estátua. conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal. Em geral. consultados pelo Senado. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. um modelo de emulação para mulheres romanas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fortíssimo. A. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos.C. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. bem como. 46 cf. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. também deixou a estátua ilesa. The Classical Journal 96. O argumento de Cícero era. declararam que as divindades romanas.2 (2000-01): 141-162. escapara a um incêndio no templo. LEEN. e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. um modelo de castidade. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio. para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal. provavelmente. 1.C. No seio do embate contra os Clodios. com seu apelo tradicional à fides.11). quando os quindecimuiri sacris faciundis. portanto. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício. Claudia Quinta é. radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46. Cícero utiliza.8. em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana. ocorrido em 111 a. então. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família.. para Cícero. 44 70 . que não chegou até nós. Um novo incêndio no templo. desta feita em 3 a.

agora direto. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. XXIX. ilha situada entre Roma e Cartago. no norte da África. E a II Guerra Cartago.). 47 71 . A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio. mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago. centros agrícolas na Campânia. Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Roma era. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização. agora. 14. como a tradição registra. agora.).C. Lívio. Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília. 9). e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater. senhora da Itália. que jamais enfrentara um combate naval. Nosso contexto. Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. cidades etruscas. além de comunidades pastoris nos Apeninos. com Cartago47. Aproveitando as dificuldades de Cartago. Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. da Sardenha e da Córsega (237 a. levando Cartago a aceitar um tratado de paz. Após vencer a I Guerra Púnica. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo.C. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais. Roma ocupou também a Sardenha.C.C. precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília. cidade fundada pelos fenícios no século IX a. As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. agravado pelo contato. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates. C).

respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a. A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. A derrota romana em Cannae (216 a. que nunca tinham visto um elefante. Finalmente. o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica. Derrotados em Zama. a guerra de Aníbal (218-201).... causando graves problemas sociais na Itália. seguiu-se uma guerra de desgaste. segundo a tradição. que incluía seus temíveis elefantes. invadindo a Itália pelo noroeste. foi um marco. na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões. então. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos. com seus arsenais e minas de prata. Em 209 a. sendo destinados a estimular. Só em 211 a. A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual. enfraquecendo o poder da urbs. manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas. p. chegando a atravessar os Alpes. recomendado o culto de Cibele aos romanos. Durkheim apud WOODWARD. verdadeiros tanques de guerra. recuperou Tarento e Cartagena. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. A partir de 215 a. perto de Cartago.C. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão.C. Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó. de um festival.. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes. 41. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade. ―a religião é algo eminentemente social.C. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês. Aníbal. 49 Segundo Durkheim. Os itálicos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 48 72 . a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses. op cit.C. se dirigiu para a Itália meridional. ficaram apavorados. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem.).C. que se instalou em Cápua. trouxe grandes dificuldades para Roma48. por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas. abandonando a península itálica..NEA/UERJ Púnica.C.

no Palatino. N. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. 51 GRUEN. os galli. op. Segundo Erick Gruen51. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano. líder das matronas romanas.1). 2006:146. Tácito.. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais. sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké. A Religião na urbs.M. quando chegou a Roma. Rio de Janeiro: Mauad X. os efésios.. Studies in Greek Culture and Roman Policy. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: . C. sendo recebida por P. 3. 52 GRUEN.. 1990. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos. simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. O favor divino. em 191 a. 53 BELTRÃO. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden.. Cipião Nasica e por Claudia Quinta. P.C. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . S.NEA/UERJ pleiteantes. E.V. 50 73 . SILVA.) Repensando o Império Romano. In: MENDES. Ann. cit. Pela documentação percebemos que. e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50.61. sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana. G. Por sua vez.(orgs. poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago. No mesmo momento. ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade. a Magna Mater chegou a Óstia em 204. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões. p. a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖. 27. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53.

cf. sua autodenominação. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. – Pisa: Edizioni ETS. Cividale del Friuli. Wiseman.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. onde seu filho. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. derivado de interpres. simultaneamente. existentes desde o período do Bronze. se o culto era novo e. e é certamente preferível a sincretismo. 2008: 9-26. ver os Fasti 4. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ.I. celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano. MARTINEZ-PINNA. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. a introdução do culto era uma inovação dramática. contudo. E. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso. cf. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. Milano: Scwegwiler. a extensa Alba. de certo modo. podem explicar a cidade mítica. 1988. Ant. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen. T. como o festival do Latiar. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. ou neto. J. reunindo os povos latinos.v.g.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. Rom. COLONNA. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas. ―Cybele. Italia y Roma desde una perspectiva legendária.247-72 de Ovídio. Fasti 4. Desse modo. fundaria Alba Longa. e. 2. Dion. uma montanha próxima de Tróia55. s.P. Hal. Virgil and Augustus‖. In: Itália Omnium Terrarum Alumna. as aldeias dos Montes Albanos. além de ter sido domesticada como Magna Mater. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa. Mas o termo 54 55 74 . tb. Ver. 57 Interpretatio. 43. suas vestes e penteados femininos. G. inaceitável para a tradição romana. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns.NEA/UERJ cuidadosamente controlados. Então.3).19. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia. Ovídio. a mítica predecessora de Roma56. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. I Latini e gli altri popoli del Lazio. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado.S. Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. Este termo enfatiza a integração. interpres).

) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. Ressalte-se sua instalação no Palatino. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística. ao mesmo tempo. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas.. e o estudo de inovações religiosas. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. E é ainda com essas também tem seus limites. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio.. à época da II Guerra Púnica. a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. cit. chocavam-se politicamente com frequência. em seu poema político-filosófico De rerum natura. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial.. 58 Gruen. por mais brava que seja. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs. provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental. então. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode. e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago. por fim.NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. 75 . p. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma. e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58. e sua interpretatio. como sustenta Gruen. Gruen chama. op. nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. 26. A urbs estava unida por seus mais destacados membros.

643-44). Grupos armados (. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. homens armados acompanham a grande mãe. as mãos fazem soar.. os fieis. 600-642). levada através da cidade. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. alegres como sangue (. apesar de tão belo e tão bem imaginado.).. que lhe faz dizer ―. Apesar de seu ceticismo epicurista. com generosa oferta. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria. no meio de um respeitoso temor.. segundo dizem. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59.) vão lutando entre si. e. silenciosa. anda muito longe da verdade‖ (RN. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham. sempre foi 59 76 . Por isso. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros. Juntaram-lhe eunucos. II. II. (. RN.. tudo isso... apesar da interpretatio. revela-nos que Cibele.. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor. beneficia os mortais com sua calada proteção. No festival da Magna Mater. segundo os antigos costumes sagrados. côncavos címbalos. à volta.) Tocam tambores tensos. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal.. porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. (. chamaram-lhe Mãe do Ida. no entanto. Vários povos.. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia. e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio.) Logo que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pulam em cadência. as tubas cantam roucas suas ameaças.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras..

até Roma. R.1. (.. Dentre elas. VI.g.. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres. NORTH & PRICE. na Frigia62. e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. vol. (. Lívio. a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L. e houve um lectisternium. 15) e em BEARD. em TURCAN. o de Claudia Quinta. Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino. p.. e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus.. In: ______. um nome se sobressaía. no Palatino. Sua reputação que. considerada uma deusa estrangeira. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus.cit. 96 ss. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la. 62 Segundo Varrão.. The Great Mother and her Eunuchs.. op. para onde a estátua de Cibele era levada61. NORTH & PRICE. cit. e Jogos. Oxford: The Blackwell Publishing Ltda.L. entregá-la às matronas para ser levada.vol.) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória. 1996: 28-74. Este era um dia de festival. e em BEARD.. 96 ss. As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão. no dia que antecede os Idos de abril. após ser retirada com segurança.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril. 77 . de uma a outra sem falhas. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. p. como a tradição registra. Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e. que foram chamados Megalensia (T. e. 1. The cults of the Roman Empire.5-14).). cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa. (. 14.. op. XXIX.

de ―todas as matronas‖. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento. A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama. o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. no desenvolvimento do mito. Cícero. e seu culto demandava controle. Em Ovídio (Fasti. e a preparação da cidade para receber a deusa. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. são elementos significativos para nós. quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. Em versões posteriores. (Ovídio. cavaleiros. Fasti. O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres. A figura de Cibele. senado. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. a matrona com prévia reputação duvidosa. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos. para ser aceita. Assim. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta. IV. com base na tradição. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. Esta versão de T. 78 . sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. nada comenta sobre esta suposta reputação. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. antes de Lívio. sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. exigia. por seus escrúpulos religiosos. IV. entre as matronas.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

do antigo Clauso prole. Sem ousar a surdir. enche d‘água as palmas côncavas.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. E desatadas pelos ombros as tranças. Virgens velam no altar teu santo lume. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também. Dos penteados seus. Contudo. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. Com os olhos fitos na divina imagem. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam. Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar. 79 . Lá vão correndo em confusão festiva. todos no empenho Põem mais que humano esforço. Claudia. e as que. Tão bela quanto ilustre. noivas. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos. De hora a hora o descrédito medrava. virgens. Por três vezes as mãos aos céus levanta. Delirante todos a crêem. rompe da turba.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Chega ao Tibre. Sobre a cabeça a verte por três vezes. a crer no mal propendem todos. ó Vesta. . ajoelha. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos. suam. De torpeza era ré na voz da fama. Matronas. pura na vida. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria. Que prol. cansam. ouve meus rogos.

torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. Segundo J. complementados com fórmulas verbais e. a glorifica. se inocente sou. os rituais incluíam fórmulas imperativas. negam-no. e ergue seus braços. que és pura. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas.NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. havia uma jovem de origem nobre. se fosse casta. que ainda hoje espanta em cena.. Na poesia de Ovídio. Sou inocente. por exemplo. muitas vezes. de puras mãos deixa levar-te – Diz. Claudia Quinta se separa da multidão. pedindo que. puxa manso a corda O que refiro é. portanto. o ritual é performativo. Se me fores contrária. invocando a Magna Mater. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta.(. aceito a morte. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Scheid. Sinal é que a mereço. e o discurso verbal é inseparável da ação. que um teu prodígio O comprove e me salve. Geralmente. e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63.. solta-o e o conduz ao porto. então. Sobe uníssono aos céus clamor fervente. Fasti IV. asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes. Claudia Quinta. a deusa testemunha sua virtude. decide. Seus atos eram. muitos levantavam calúnias. os oficiantes liam os textos. puxando o cabo do barco. Ó tu. eu. Ante o povo a protege. seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos.) (Ovídio. de quem. Deusa. Pela acclamatio de Claudia Quinta. Quando o barco encalha. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. encalha num banco de areia.

J. 81 . por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . altares decorados. Indianapolis: Indiana University Press. A mesma aclamação podia ser. contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual. e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade. expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. 2003:98. na presença de uma audiência. ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. propiciavam o favor da divindade. por vezes. Bloomington.v. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. Assim. preces. derivado de clamo/clamare. invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. e sinais aromáticos de perfumes e incensos.) remete à vocalização. Outros elementos importantes dos rituais. clamo). de figuras como a hipérbole e outras. pois. bem como outras derivações (exclamo. belos animais com chifres ornados. As acclamationes visavam. confirmavam a crença de seus fiéis. An introduction to Roman Religion. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas. performances musicais. eram as roupas brilhantes. mas também a aprovação verbal desta audiência. vinho e carnes queimando no altar. s. 64 O termo acclamatio. repetida. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos. coroas e guirlandas. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos. reclamo etc. com o sentido de ―criar versos‖. não se podia voltar atrás. os celebrantes eram cuidadosos. desta feita extraverbais. tanto na estrutura rítmica. ou seja. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. proclamo. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. quanto no uso de neologismos. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas. mesas enfeitadas etc. Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos.

Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. Ver esp. contudo. 1981. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio.p. e SCHEID. F. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual. Era . um dos ritos relacionados à guerra em Roma. b) a função testemunhal. durante a cerimônia da Bona Dea.(Coll.C. J.C. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. de um ritual em espaços cerimoniais. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67.-C. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum. irmão de Clodia Metelli. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio. em Roma. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado. 1982 : 58-62 . de l‘École Française de Rome. 65 82 . MOREAU. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. a instauratio. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. TATUM.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine. Clodiana religio. D »Etudes anciennes. mais frequentemente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Paris : Palais Farnese. Este. e c) a função de instauratio (repetição). remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram.C. Le Collège Pontifical (3ème s. mas também serviam para impressionar a audiência. que prometia domicílio e/ou culto. em primeiro lugar. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. de reconciliar alguém com uma divindade ou. J.a. portanto. ou seja. Ph. W. The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. Podemos VAN HAEPEREN. realizado no acampamento militar romano. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar. ou público. J.-4ème s. 1999: 62-86. 17) Paris: Les Belles Lettres. Segundo Cícero. decidindo que o caso fora nefas. Brepols Publishers. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória. Un procès politique en 61 av. e J. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. 6-7 avril 1978) Coll. portanto. em rituais como a euocatio66. Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. como performances orais endereçadas às divindades.NEA/UERJ assuntos religiosos65. a divindades de povos inimigos. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias. ou seja. As acclamationes podem ser vistas.

Dictynna 4. Disponível em: http://dictynna. posteriormente. 51-52. electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade. M. o Antigo. NORTH.revue. A narrativa ovidiana desenvolveu-se. Propércio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 71 LEACH. Claudia.NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste. e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza.C.. consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma.R.. 70 BEARD. Religions of Rome.A. 2 (A Sourcebook). VI. Mary Beard. PRICE. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater.F. S. uxor Fulvi Flacci. a matrona romana encontraria sua gloria. na margem do Tibre. E. que residiria na observância dos deveres familiares. Naturalis historia. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. sob o Aventino: 68…uel tu. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d.. iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio. 10. vol. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade. 1998: 45-46. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen). turritae rara ministra deae: Propercio.univlille3. John North e Simon Price70 e. Eleanor W. por exemplo. A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma. de uma relação privilegiada com uma deidade. Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69. Elegia 4. 2007. J. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. 38. Cambridge: Cambridge University Press. que realiza um milagre68.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. W.pdf 83 .

mas provavelmente pertence.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. ao modo da deusa. nascida livre ou liberta. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. em um navio. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom. A deusa está vestida com um véu.org/images/raia_images/claudia_syntyche. a um ramo da gens Claudia. ou seja.NEA/UERJ (fonte http://www. a deusa surge no centro. datado do século I d.jpg ) O altar. e projeta-se numa plataforma.C. 72 84 . com o chiton e o himation. Na imagem. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. Esta figura também está velada e usa um chiton. sentada num trono. com uma provável aedicula atrás dela.vroma. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto.

Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― . mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas. O fogo das Vestais era. 1. 70 (1980): 12-27. Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal. cf. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos. não tinham o cândido significado das meninas. as Vestais eram revestidas de sacralidade. protagonista da criação e. 73 85 . no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. BEARD. e a consciência desta oposição.C.‖ cf. Se eram matronas.. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais.g. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard. o prolongamento ígneo da luz. e. do devir dos elementos e de toda história. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo.NEA/UERJ E. 11)74. P. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. nem o das matronas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em Herodiano (Hist.. geração em potencial. e. Rio de Janeiro. Esta associação teve um longo sucesso. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. para tal. geração consumada. o eram da terra. próprio aos rituais agrícolas. 1998: 45. ver: BEARD. Cambridge: Cambridge University Press. exercendo o fascínio do interdito. 2. que remeteria a um regaço materno. Quanto ao mola salsa. portanto. No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. como tal. Phoînix 13. pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado. que na vida doméstica faziam o pão. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. materializado pela exigência férrea de castidade. podemos dizer que as Vestais. os Di consenti. HORVAT. NORTH & PRICE. no século II d. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. como surge. lhes era conferido um caráter de incolumidade. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. Se eram mulheres com privilégios cívicos. v. corpo da família.73. e a quem era facultado observar a vida pública. seria antes uma poção sagrada do que um alimento. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. especialmente em representações imagéticas. na poesia e na pintura através dos séculos. para os homens romanos a principal virtude feminina. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. até a modernidade. 2007. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros. M. Religions of Rome. sempre elegantemente paramentadas.. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa.

agora. o laço religioso é o fundamento da família. com seus Lares e Penates. local no qual residia o Lar familiaris. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. Com o passar do tempo. Em um altar (ara) de pedra. de forma quadrangular. MEILLET. Importa. observar esta figura. próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados. que não corresponde à virgindade. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. portanto. de onde deriva o nome família: ERNOUT. que são. já que a matrona. A tradição da religio domestica. no casamento. por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. ambos. aspectos centrais da reforma augustana. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. que teve um impacto direto em suas principais instituições.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por meio da geração de filhos homens. não podia pertencer a mais de um culto familiar.NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. garantia a continuidade. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. exaltando a figura da matrona. escravos. familia 76 86 . instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. do culto dos maiores. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico. sem maiores considerações a laços sentimentais. Do mesmo modo. que implica propriedade e patrimônio. A casa familiar (domus) romana é um santuário.v. está na base do regramento romano de gênero. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. e os principais ritos famuli. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. com a ênfase positiva na castidade feminina. E a mulher. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. s.

Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖.NEA/UERJ familiares ocorriam.. A mulher. e apenas ele era um cidadão completo. é considerada débil. Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma. Paul Halsall diz: . P. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado. A uirtus é. In: MEDDE. que adquiria o manus sobre ela. preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade. presididos pelo paterfamilias (casamentos.. por exemplo.E. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. M. Na verdade.. (edd. a pública e a privada.). WIESNER-HANKS. apesar de. tem a mesma raiz de uir (homem). definia a identidade masculina. 77 87 . O poder de agir em ambas as esferas.). T. na prática. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. seus filhos e seus escravos (patria potestas). The Blackwell Publishing Ltd. como sabemos. sua propriedade mantinha-se no domus de origem. ritos de passagem à idade adulta etc. por sua natural falta de uirtus. portanto. tangendo HALSALL.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher. A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. manumissões. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família. A Companion to Gender History. Do paterfamilias. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. 2004: 293. A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo. uma qualidade exclusivamente masculina.A.

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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Belloni 1981. Gentili e Perusino 2000. Vojatzi 1982.87 Por isso. Moreau 1994. Mastronarde 2002:44-57. Griffiths 2006. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que segura serpentes em cada uma de suas mãos. entre um par de serpentes que olham para ela. contida em um vaso de c. Lesky 1931. Contudo. façam alusão ao episódio da carruagem.530. de fato. certamente. Simon 1954. 86LIMC Medeia 3-6. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. Schmidt 1992. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma).. 245 –333 (especialmente. para entender os contextos e significações de tais aquisições. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro).C. Gantz 1993:358-73. 400 a. Moreau e Turpin 2000:ii. Direcionar. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé. Séchan 1927. Braswell 1988:6-23. ainda. Meyer 1980. 95 . primeiramente atestadas em c. em vasos. de modo muito semelhante. Neils 1990. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto. resta-nos pouco para contextualizá-los. É válido notar que uma descrição dessa mesma cena. A maioria das evidências principais é iconográfica.C. inclino-me a acreditar que as imagens de c. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos. 87 LIMC Medeia 29.85 1. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós. por sua vez. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. Jessen 1914. Zinserling-Paul 1979. Corti 1998.NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes. conferir Heydemann 1986. de Canosa di Puglia. Parry 1992. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. Tupet 1976. GaggadisRobin 2000). talvez. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia. Ogden 2008:27-38. HalmTisserant 1993.86 Se estas.C. 330 a. Candido 2010. então. Clauss e Johnston 1997. 2009:78-93. 312-15.

tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c. parecendo. 114. 117.). Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que. correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão. então. 70. não era bom o suficiente para um artista falisco que.C. 48. No próprio texto.C. 55. deu asas as suas serpentes.C. 113.MULHERES NA ANTIGUIDADE .400 a.C. 105. 57. Iason 71 (c.. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d. 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c. 63.400 a. 51. 115. 11. a partir de c.400 a. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar. 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35. ou não descartadas. ter sido elaborado tendo a peça. 67-9.400 a. 80. de boa qualidade.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante. 39.90 As serpentes não aparecem com asas. igualmente. Medeia 29. 38.C. de galinhas. 64. 112. portanto.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas.88 Desde c. 12. uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico. 460 a. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. nesses vasos. em mente. 62.. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a. 58.C. em diante. Iason 73 = Medeia 37. muitas das quais. que eram frequentemente representadas.).C. 88 96 . Isto. Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖. especificamente. 73-4.. 53. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares.91 As serpentes mantiveram suas asas. Iason 72. 107. não intimidadora.C. 27-30. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão. 58. efetivamente. 50-1. em diferentes configurações. de maneira muito próxima. conferiam-lhes uma aparência surpreendente.). combinadas com as asas. 38. 36 (c. na segunda metade do quarto século a. 119. 92 LIMC Medeia 46.89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. 118. 91 LIMC Medeia 39.).C. 116. como as Erinyes (Erínias). 96-7. 400 a. 55. uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor. 42. 34-7. porém. 108. 41. no entanto. 52. 18.

aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições. 111.C.400 a. 105. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes. 100. Se. presumivelmente. não obstante. frequentemente. contudo. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia. apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. certamente. e que. entretanto.NEA/UERJ escapa de Corinto. neste contexto. 116 (c. foi somente em 431 a. efetivamente identifica aí uma linha de influências. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c.94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. 480 a. ter aparecido no palco.C. 114. Eurípedes Medeia. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e. por exemplo. 480 a...C.).C. cf. a uma introdução de uma peça. a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser. que se refere. demonstrada na Hypothesis. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é. de fato. embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem.96 Nas cenas de Triptólemo. anterior a c. Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. 470 – c. 450 a. e o contexto. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. se não na performance original de 431 a. 97 .). O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c. em uma reencenação distinta da peça.C. efetivamente.T: Medeia 1321. novamente.95 e serpentes poderiam. sugere que ela possuía a habilidade de voar. LIMC Triptolemos 91.C. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e Mastronarde.C. 95Hypothesis. Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia.). debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos. ou 400 a.C.

26).149-58. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. Metamorfose 7.9. ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena. 236-7. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes. Diodoro da Sicília 4. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. semeada com plantas mágicas e nocivas. que jamais dormia. Argonáutica Órfica887-1021. Aristófanes. Apolônio Argonáutica 4. As Nuvens 749a. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque.23. Ferécides F31 Fowler. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4. então. p. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. em 431 a. a Jasão roubar o velo. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes. [Apolodoro] Biblioteca 1. Medeia 2-4. Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão. 98 .98 2.48. Valério Flaco Argonáutica 8. Naupactica FF6. igualmente. 99Píndaro Ode Pítica 4. tornando-se jovens de novo. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é.C. LIMC Iason 22-54. 100LIMC Iason 32. O cheiro das plantas.99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele.100 Com base nessa imagem. Hyginus Fabulae 22. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo. Ovídio Metamorfose 7. esp.123-66. dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. Eurípedes Medeia 480-2. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em versões tardias. 480-70 a. com a ajuda da filha do rei.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson.. Medeia.97 Outra tradição interessante conta que.54-121. uma vez colhidas. caísse no sono.24 Bond.C.242-50.179-237. 8 West.ii. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c. permitindo. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida. então. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas.

representa uma mulher com veu. através de suas drogas. Helânico F26b Fowler. ou pelo menos metade dele. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio.199-215.145-8. Hyginus Fabulae 31 and 89.‖106 101LIMC 102N.2. Philostratus Minor Imagines 12.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem.4. 33-5. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão. Outra possibilidade é a de que Jasão.5.6. abrindo caminho para sair da boca do animal. 660-40 a. provavelmente. 99 . sugere que ele.C. já teria sido totalmente engolido. sem resistência e acabado.. 632-29 a. como Hércules fez com kētos102 em Tróia. deliberadamente. então. crua embora eloquente. tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante.451-578. [Licofron] Alexandra 31-6. A imagem contida na ânfora de Caere. 103Homero Ilíada 20. LIMC Hesione 6.. monstro marinho gigante enviado por Poseidon. 470-8. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças. ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c. até que Jasão conseguisse lutar e resistir.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.9.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão. 42. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão.). Valério Flaco Argonáutica 2. no caminho para fora da boca do dragão. Diodoro da Sicília 4. e um fragmento de Mimnermo. encontrando-se. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. em que Medeia.C.32.C. [Apolodoro] Bibliotheca 2. Ovídio Metamorfose 11. 104N. 105LIMC Medeia 2. a fim de matá-lo por dentro. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a.105 O fragmento de Mimnermo de c.T: Iason 30-1 (vii a.101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito.T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas. 106Mimnermus F11 West.C. Duas outras peças do século VII a.

ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes.NEA/UERJ Mas em relação à ânfora. 450 a. qualquer outra como. seguramente. Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. a começar com a taça de Douris.).).C.500 a. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão.C.). e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas. ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c. 15 (450-400 a. os touros de fogo.107 Quanto ao fragmento de Mimnermo. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças. 500 a.C. na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro). Medeia. ao contrário. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c. Ladon i 12 (450-30 a. 16 (450-25 a. primeiramente.C.).).C.C. As fontes literárias e iconográficas do quinto século a.C. de deusas como Hera. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida. como nós veremos a seguir.). estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar.C. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e. de fato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . anteriores a Medeia de Eurípedes.C.C.. é digno de nota que Ládon é..). LIMC Ladon i 13 (c. ainda. Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia. c.C. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou. 500 a. ou em relação aos guerreiros nascidos da terra.380-60 a. 480-70 a. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse..). É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs. Atena ou Afrodite.C. como é encontrado no conjunto de fontes do século V a. ao contrário. por exemplo. 490 a. 100 .C. 500 a.). ele poderia.

podemos olhar para a taça de Douris. ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra. Com dispositivos (technais). eventualmente. tendo atuado sozinho.: Imediatamente Eetes. Arcesilau.. permitindo. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono. então. a matadora de Pélias. e levou consigo Medeia com sua cooperação. (Píndaro Ode Pítica 4. ainda. O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente.108 Com base nisso.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. está sendo vomitado pelo dragão. mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. e nos perguntarmos se Jasão.NEA/UERJ de Medeia. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes.C. Pois ele recaía em um pequeno bosque. o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes. 101 . quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo. contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela.. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos. Medeia. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn). Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. de talvez apenas alguns anos antes.220-23. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa. Este. Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão. feito pelos golpes de ferramentas de ferro. Ao contrário. aparentemente inerte. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo. nesta batalha. o filho maravilhoso de Hélios.

111 Herodorus FGrH 31 F53. Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes. enquanto Atena observa novamente a cena. igualmente. Nesta. 470-60 a.C. portanto. na qual nós podemos ou não. também. mais uma vez. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão. supostamente. relata que o dragão fora morto por Jasão. Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete". a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes. não há nenhum sinal de Medeia.C.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a. Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas.. pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite. então. 113 Naupactica F8 West.112 Em seguida. enquanto ela fugia com os Argonautas. após ter feito amor com ela.111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam. possibilitando a fuga dos Argonautas. que mostra Jasão. fazendo com que. 454 a. c. Ferécides F31 Fowler. ele caísse no sono. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados. com a ajuda de Afrodite. referência à participação direta de Medeia. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes. 109 110 102 . Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente. sozinho. LIMC Iason 36.113 Essa narrativa..C. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. não há.109 Um conciso fragmento de Ferécides.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 114 Eurípedes Medeia 480-2. dentro do contexto.NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54. acreditar.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes.114 É possível que esta afirmação. na tradição posterior. eu indiquei para vocês a luz da libertação‖. aparentemente.

149-58. após ter feito sexo com ela. segurando uma caixa de ervas. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma.116 Iconograficamente.121 Apolônio Argonáutica 4. Hyginus e na Argonáutica Órfica. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e. segurando uma phialē.117 Contudo. 119 LIMC Iason 40. já que o dragão está visivelmente acordado.360 a.118 Estamos pisando em terreno mais firme.C. 120 LIMC Iason 38. a mensagem parece ter sido a de que Medeia. Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite..119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. uma cratera em formato de sino da Apúlia c. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida.115 Mais à frente. provavelmente. Valério Flaco Argonáutica 8. Hyginus Fabulae 22.120 Como já vimos. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. ela pode ser atestada desde c.C.. Ovídio Metamorfose 7. 1191-1267. 117 LIMC Iason 37. 121 Naupactica FF6 e 8 West.NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. em vez de fazer o animal dormir. ps.).23. [Apolodoro] Biblioteca 1.128. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente. de modo que ele. caia em sono . emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c. Valério Flaco. representa uma Medeia bem orientalizada.220-3.C. quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. da mesma maneira.9. teria feito uso de suas drogas. 118 Píndaro Ode Pítica 4.1026-62. Orphic Argonautica 887-933. 115 116 103 .. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão. 380-60 a. LIMC Iason 39. cf. 41-2. então. permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa.-Apolodoro.?).C. Argonáutica Órfica 3. Na Naupactica ( séc V a.415 a. encontra-se também presente em Ovídio.69-121. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo). 270-45 a.

em sua totalidade. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal. a Morte. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono. então. de uma maneira bárbara. já que o poema favorece a atuação de Orfeu. 125 Ovídio Metamorfose 7. 360 a.C.). 47b.C. 41. fornecido por Medeia.123 Em Apolônio. tiradas de uma caixa de medicamentos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .380-60 a. Novamente. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse. invocando o Sono e Hécate. senhora do subterrâneo. Hyginus Fabulae 22. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo.149-58. lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu. e por último. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c. LIMC Iason 40 (c.145-66.69-121. ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros. 124 Apolônio Argonáutica 4.).23. presumivelmente em forma líquida. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu. 39. 42-3.). 127 [Apolodoro] Biblioteca 1. uma técnica similar é usada: Jasão. 122 123 104 . em seguida.C.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. mas o seu papel é. repetindo três vezes o feitiço. 380-60 a. 360 a.C. 46. no dragão. praticamente e inteiramente reduzido.124 Em Ovídio.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. por vezes. a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c. LIMC Iason 38 (c. ela continua untando.‘125 Para Valerius Flaccus. 126 Valério Flaco Argonáutica 8.). ele próprio.9.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas.127 No sentido oposto ao da tradição.

Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3. uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c.C.40. em sua forma canônica. igualmente. as quais ele nomeia individualmente.1396-1407.113. 3.) e Diodoro 4. "maçãs" e "ovelhas". e talvez. a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf.11.133 Entretanto. em todos os casos. Não surpreende.g. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca. 128 129 105 .132 Pediásimo. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2. Primeiro mitógrafo vaticano 1. 130 E. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW. Em ambos os casos. conectados pelo termo mēla.39. de acordo com algumas variantes.4. A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida. Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs). consequentemente. Teócrito 3. Nos dois casos. Fontes tardias. vigia e guarda um tesouro de ouro. curiosamente interligados.26-7. As Hespérides eram personagens ambivalentes. portanto. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a. [Eratóstenes] Catasterismi 1.5. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta. que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente. 131 Apolônio Argonáutica 4.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 470-60 a. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130).C. que significa. tesouros estes. 133Pediásimo 11. apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado.NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão. semelhantemente.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. schol. com o conto Ládon é próxima.128 Nas duas circunstâncias.

136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4.8 = LIMC Hesperides 64.. 138LIMC Herakles 2692.C.C. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . enquanto o gesto poderia.135 De acordo com algumas tradições (não todas. Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava.27. em seguida. em diante. No caso de Medeia. 136Diodoro 4. como veremos em breve. pelo menos desde c. c.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 470-60 a. Ladon i 6. caia no sono.29. 9. 139LIMC Iason 40. 137Pausânias 6. No caso das Hespérides. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c. Nas imagens de 380-60 a.C. 3. 2717. 36. enquanto 134LIMC Herakles 2703.500 a. 106 . o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente. Hesperides 2.C..134 Ferécides. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas.484. a fim de roubarem as maçãs. No entanto.C. 30. 2707a. 2726. A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica. 550 a. Primeiro mitógrafo vaticano 1. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta. distraindo-a com comida e bebidas. 454 a. de fato. 7 (c.2-1. 380-60 a. em teoria. ou pelo menos.38.139 A este respeito. 28 (?). encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente.137 e.138 Mas é somente no período de c.NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias.). como veremos). 63. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda. 135Ferécides F16c Fowler. 41.C.

C. 63.NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha.). 62. Herakles 2719. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules. então. 142LIMC Herakles 2726.C.147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida. guardião dos valiosos frutos. 4. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e.C. Em uma imagem no início do século IV a. 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38.C.C. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro.C. quando o dragão que jamais dorme.143 Em duas imagens de c. evidentemente... 145 LIMC Hesperides 26 (410 a. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos. enquanto no outro.146 Se essa hipótese estiver correta. então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor. 33-5.141 Em uma imagem de c. uma Hespéride. 350 a. similarmente. deixar seus olhos caírem no sono‖. 29-31. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs). Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs.). 34-5. Ladon i 9. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela. após ter-se apaixonado por ele. 36. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma. semelhantemente. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos. o próprio Héracles pega as maçãs.. uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore. a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2.144 Especula-se frequentemente que. faz-se visível. de qualquer tipo.145 e em outras delas erōtes assiste à cena. 107 .C.. 340 a.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. 350-30 a.142 Em uma imagem de c. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente. tal como Medeia eventualmente foi.).

630 a. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe. portanto. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides. nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado. onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas. 149 Virgílio Eneida 4. em todo o caso. a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. de maneira intrigante.C.149 Portanto. Homero Ilíada 11. a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana.C. supostamente uma conhecida sua. untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras. Nostoi F6 West (c.). Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora. dessa. a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que.NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir). Mas de qualquer forma.?). Logo. 550 a. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta.480-6. O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c. do que vice-versa. e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore. está a mais remota terra dos Etíopes. para as Hespérides em relação a Ládon. tal como as Hespérides.738-41 (‗Agamede‘). Aí. À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148. 148 108 . alimenta e toma conta de uma serpente. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides.

Esse deus observa com interesse E. oikouros ophis: Heródoto 8. de alguma forma. Pausânias 9. no início do século IV a. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas. jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c. Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta. vívida e largamente consistente.g. sendo a mais proeminente de todas. Higeia.150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente.40.C. permanece sem um mito. a presença de Ládon. Asclépio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nunca.410 a..NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. Hesíquio s. o seu próprio pai e companheiro. é claro.C. árvores e. οἰκουρὸν ὄφιν. e que. em um vestido oriental. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia. 151 LIMC Medeia 70. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela.C. mas sua iconografia é distinta.).C. Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol.41. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon.não existem maçãs. tal como diversas outras divindades. a serpentes. em Istambul.151 4. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a. 150 109 .C. a personificação da Saúde. que apesar de ter se perdido no tempo.. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes). Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada.. Aí. tampouco. embora esteja prestes a fazê-lo. representa Medeia.v. aparece representado em uma cópia do século IV a. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas. da iconografia de Higeia.

também seria um irmão das próprias Hespérides. exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes. Como tal. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. Apolônio Argonáutica 4. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. no tocante a Higeia.1399.MULHERES NA ANTIGUIDADE . desde avatar ou símbolo. 110 . A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno. Entre essas figuras femininas. ao menos. Schol. De acordo com Hesíodo.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais. ao alimentar a serpente. As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98. ainda. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. até como um animal de estimação. até mesmo de inscrições. Já que a relação de Higeia e. a serpente. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz. que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. seu atributo.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. em outras palavras. Na medida em que a serpente bebe. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. o arquétipo de monstro marinho. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura. e de Fórcis. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides.

62-3. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. de qualquer maneira. portanto. um aspecto de si mesma.v. Certamente. por isso. bizantinos) e modernos. já que o próprio nome drakōn. segundo alguns etimologistas antigos (ou. A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo. A própria Medeia. à época de Valério Flaco.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. 154 111 . s. é também evidente. dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento. Etymologicum Magnum. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas. significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf. δράκων. igualmente. a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. 156 Valério Flaco Argonáutica 8. à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides].NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. em sentido maior ou menor. enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão. Etymologicum Parvum. 5. ainda que com retidão ou com artimanhas. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda). 155 Valério Flaco Argonáutica 8. elas próprias.154 Se as Hespérides. Higeia. δέρκομαι). “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. essa serpente é. é uma virgem até ser seduzida por Jasão. também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). Salus e Valetudo).‖155 Ela. ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum. pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e.77-8. fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia.

embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8.41. Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. de qualquer maneira. eu imploro.C. como foi primeiramente atestado em vasos de c. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias. Heródoto 8. Se a hydria proveniente de Caere de c. eu não matei você.NEA/UERJ o abraça. LIMC Medeia 2. 380-60 a. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel. Em breve. Pelo menos. não está representando nem Medeia nem as Hespérides. Ai de mim.660-40 a.93-103. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade.157 Por quanto tempo. Então. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra. seja qual for o caso. antes de Valério Flaco. hesitantemente. 112 . (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão. então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial.C. pobre desafortunado. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense. Mas.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício. você está predestinado a vivenciar um dia cruel.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sobre um elemento externo.

Em relação ao primeiro.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras. Luciano Da Astrologia 23. Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. então previa-se o oposto. uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão. quão intensas foram as raivas.161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno. O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a. 113 . embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas. e estas eram os animais de estimação do deus.C. o momento Apolíneo do oráculo. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad. é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. Elas teriam surgido de Píton em Delfos.2. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11.160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo). na qual a sacerdotisa pítia. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida. que obviamente pertence ao período pós-Píton.

Arnóbio Adversus Nationes 7. portanto. e comia somente o bolo daquelas que eram. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã. um pré-requisito. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração.36-7. nós podemos supor. 162 114 . ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE . No início do século III d. estão embrulhados no pano.C. por sua vez. e que iríamos. uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio. Sílio Púnica 6. pedacinhos de comida. cuja condição de virgindade era também. Ele conta que em certos dias. Plínio História Natural 8.46. em cestas. Floro 1. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar.3. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia). escrita em c. Em sua carta a sua esposa.19. Valério Máximo 1. carregam. por Lúcio Róscio Fabato.18. sendo devorada pela criatura).NEA/UERJ águas quentes. Aulo Gélio 7. Eliano nos dá outro relato do rito.. Se elas se mantivessem castas. posteriormente. (anterior.8 ext.140-293. virgens. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram.C. naturalmente. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó. 207 d. deixando os demais bolos para as formigas. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que. aos escritos de Eliano). O dragão.C. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖. Aqui. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18. 162 Quanto aos cultos. enfrentar os perigos como resultado. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco.

acredita-se. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco. como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a. matando. magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas.163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica.NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. (?). Ele. Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era.MULHERES NA ANTIGUIDADE . PL 51. p. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio. os romanos. no final do século IV a. as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos. junto ao dragão (draco). mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1.835.6.165 6. compostos primeiramente. são indicadas tendo como base sua virgindade‘. e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio.C. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto. o destruiu. De Promissionibus. conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. De Promissionibus. na verdade. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. 115 . sob o governo cristão de Constantino. então.3 Atos de Silvestre A (1).. Os Atos de Silvestre. então.D. o dragão soprou seu hálito fétido no ar. um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço. Privado de suas ofertas. e que uma vez por vez.164 Um texto anônimo do século V. na virada do século IV para o V).

aos Marsi. Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes). 166 167 116 . 169 Valério Flaco Argonáutica 7. não uma pedra. 1026-62.170 8. 170 Diodoro 4. Claramente. isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia. sobretudo. 8.106-8. 488-91.203.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol.71.NEA/UERJ respeito166. 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx). As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion.355-643.g. 1246-67. Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39.51. 1176-1224.1354.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina. desde a terra dos Hiperbóreos.401-21.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles.29. Horácio Epodes 17. contemporâneo de Apolônio de Rodes. Lucano Farsália 6. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias. [Apolodoro] Biblioteca 1. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra. Em um episódio singular.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 631-4. como parte de sua elaborada descrição de Pélias. Apolônio Argonáutica 3.467-72.23. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto. O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio. o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas. Apolônio Argonáutica 3. mas o seu elmo. 171 Ovídio Metamorfose 7.9.169 7.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada. 172 E. Virgílio Eclogues 8. 168 Valério Flaco Argonáutica 7.

C.NEA/UERJ Fucino. ao seu próprio dragão de Cólquida. à serpente controlada por Ofiúco. No entanto. e que. A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca. e até mesmo restaurando a vida nas pessoas. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima. foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos. conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium). a Hidra. porém. Angítia. em meados do século IV. com a referida deusa.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea.176 Sérvio Honorato. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. serpente).. Ela recorre. 9.27-9. tendo combatido doenças com sua arte de curar. Solino 2. completa. faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino.174 Desde Sílio Itálico em diante. e como domar animais venenosos tocando neles. a Píton.759-60. 117 . também anguis. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce. teria sido elevada à condição e status de uma deusa. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent). onde se localizava o santuário de sua deusa especial. ‗a filha de Eetes‘. no final do século IV d. De tal modo. ou ainda.175 Solino. portanto.750. e. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7. Sêneca Medeia 684-705. por tal razão.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7. Sílio Punica 8. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera.495-99. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf. Sílio diz que Angítia. é claro. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

118 . Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e. tem de pagar uma dívida para com a natureza‘.. e se alguma delas acaba saindo. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘. ao invés de somente uma única serpente. Elas permanecem lá até hoje. Apolônio Argonáutica 4.NEA/UERJ 10. em certo nível.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26. Respondendo aos seus pedidos. tal como consta na Eneida. cf. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão. Virgílio Eneida 5. Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras. em forma de cobra. uma praga de cobras. Suda s. pode ser lido.477. assim. Por um lado. Eurípedes Ion 987-96. Hyginus De astronomia 2. onde seu irmão Apsirto foi enterrado.95-6. no século II d. Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente. Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba.C.179 O que temos nesse caso.181 11.v μασχαλίσθηναι. oferece um exemplo bem conhecido disto.12 (citing Euhemerus).180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento.

).C. 480-70 a.). 183 184 119 . Lucano 9.). LIMC Gigantes 425 (c.) 428 (iv-iii a.193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3.3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8.C.741-2. 194 Virgílio Eneida 2. Quinto Smirneo Posthomerica 12. Ferécides FGrH F11 Fowler.3. Ferécides 22ab Fowler. 550).6-26. 190 Homero Ilíada 5.C).) 24 (início do II d. 192 LIMC Gigantes 311-12 (c. Kadmos i 7-9 (no. Ésquilo Fórcides F261 TrGF. 590 a.63-6 e 84-90. 460 a.C. 500-480 a. 1999 (c.187 Belerofonte que mata a Quimera. cf. 1990 (= Athena 11.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes). 263-70). 35. Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol.44-7. 314.17. Helânico F51ab Fowler. 1995 (c.).). LIMC Herakles 1991 (c. 2008 (c.289. 2003-4 (c.C. etc. 2010 (c. 530 a.C.C.4. 520-10 a. 186 Hesíodo Teogonía 313-18. 2000 (c.722.186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas.C.).C. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf.).666-70. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911.VI a. Em uma ordem estreita.70. 15 (= Harmonia 1).. 500 a.). 19.). com schol. Jasão que mata o dragão de Cólquida.11. 1992 (c.274. 8 is ca. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc.C. 185 Píndaro Ode Pítica 10. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6.).190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia . 440-35 a.29-48. etc.C. 120-2. a taça de Douris) e 36.C. Pausânias 5.C.185 Héracles que mata a Hidra. 16 (ca.C.192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse. as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa.). Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela. 12. Homero Ilíada 2. 600-590 a.1. LIMC Gigantes 389. 585-75 a.).). 132. Higínio Fábula 30. 3.). 21.). 2002 (c.184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes. 600-595 a.188 e.C. 188 Píndaro Olímpio 13.). 1996 (565-50 a.C. [Apolodoro] Biblioteca 3. da mesma forma.189 Muito frequentemente.). 2029 (c. é claro. 440 a.199-231 (com Sérvio ad loc.370-50 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ode Pítica 7. 440-30 a. LIMC Harmonia 1 (c.C. 2005-6.C. 23 26a.C. Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2. 500-490 a. c.C. 189 LIMC Iason 32 (c. 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell. LIMC Perseus 113.444-97.). 151 (675-50 a. cf. 460-50 a.).C.

. Hyginus Astronomica 2. 200 Filóstráto Apolônio 7.14.).14. Plutarco Temístocles 10.196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral. 197 Amelesagoras FGrH 330 F1. Erechtheus 30 (c. com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. que Heródoto.195 Na cidade de Atenas.C. 435-30 a. [Apolodoro] Biblioteca 3. LIMC Aglauros 19 (c.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo. 450-40 a. 199 Pausânias 1. de fato. frequentemente. 36 (c. parece até identificar como a própria deusa.13.NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua. Ἐρεχθεύς.).7. criou um drakōn entre os atenienses‖.561.C.). os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia. οἰκουρὸς ὄφις.C. ―A deusa [Atena].197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes). [Apolodoro] Biblioteca 3.24. ela.). V a.v. 500 a.v. a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena.v. tanto em suas narrativas como também na iconografia. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas.24. Eurípedes Ion 16-28. LIMC Kekrops 34. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c. 440-30 a.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon. 32 (final do séc. 198 Heródoto 8.). Entretanto. Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol.C. Etymologicum Magnum s. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s. Etymologicum Magnum s.200 De fato. ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope.41. possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio. certa vez. Ovídio Metamorfose 2. o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). Ἐρεχθεύς. Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio. 195 196 120 .199 E de acordo com Filóstrato. apresentam fortes paralelos.

‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33. O. 1993. HEYDEMANN. Medea. 1931. F. JESSEN. Cannibalisme et immortalité. a sua própria mitologia. CANDIDO. T. 2000.. mas.. HALM-TISSERANT.NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena. não obstante. 1886. CLAUSS. H. 1988. In : Moreau e Turpin 2000:ii. Uma vez levada para a Itália. Princeton. GAGGADIS-ROBIN.J. 121 . L. na forma pela qual a conhecemos. (eds. inclusive. ‗Iason‘ RE ix. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas. A sua interação com o dragão de Cólquida. Jason in Kolchis. 1997. M. M. 1998. E. não somente assemelhada como. BRASWELL. B. Medeia foi. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. B. Early Greek Myth. GRIFFITHS. 75-71. por sua vez. pode ter. Berlin. identificada com a própria Angítia. GENTILI. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides. The Myth of Medea and the Murder of Children. Baltimore. Contudo. L. PERUSINO. J. mito e Magia: a imagem através do tempo. 2010. 2006.R. 1993. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões. Venice. ‗Medeia‘ RE 15. (eds. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade.I.MULHERES NA ANTIGUIDADE . V. Referências Bibliográficas BELLONI. LESKY.).1. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. e S. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. Medea nella letteratura e nell” arte. 2 vols. A guide to literary and artistic sources.. 29-65. Higeia. 1914. 289-320. Medéia. CORTI. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar. a deusa-serpente dos Marsi. 1981. Paris. GANTZ. Westport CT. Rio de Janeiro. Halle. A. Medea. Johnston.).K. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. Londres. as Hespérides e Medeia podem todas. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides.

1990. D. ‗Iason‘ LIMC v. PARRY. MD. (eds. H. Paris. ‗Die Typen der Medeadarstellungen in der antiken Kunst‘ Gymnasium 61.-C. A. Cambridge. Paris.-M. Rome. E. . 4 vols. SCHMIDT. 1982. H. 1992.1: 386-98.. L. New York. MEYER. J. D. 2002. ______. Londres. 9 vols in 18 parts. OGDEN. Thelxis: Magic and imagination in Greek myth and poetry. 1954. SIMON. Lanham. La magie. 2008. M.Montpellier.NEA/UERJ Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae 1981-99. NEILS. ZINSERLING-PAUL. Würzburg. Medea. 1980. 1927. Des origins à la fin du règne d‟Auguste. Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds. 234-310. A Sourcebook. SECHAN. 2000.M. ______.MULHERES NA ANTIGUIDADE . i.). ‗Medeia‘ LIMC vi. V. Night‟s Black Agents. (LIMC) MASTRONARDE. Le mythe de Jason et Médée. MOREAU. Magic. La magie dans la poésie latine. A. J. Le va-nu-pied et la sorcière. 407-63. Medeia und die Peliaden. ‗Zum Bild der Medeia in der antiken Kunst‘ Klio 61. TURPIN.1. Euripides. TUPET. 629-38. VOJATZI. 1994. Wizards and the Dead in the Ancient World. 122 . Witches. Frühe Argonautenbilder. 1992. 1979. 1976. 2009. 1990. 203-27.‗La légende de Médée‘ REG 40. M. Zurich e Munich.

Fábio Faversani201 Prof. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina. capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos. apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana. 9.3556-3574. 3.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine. Nos livros XIII a XVI. que dá título à peça. XIV. Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto. esposa e mãe de césares. A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq.ª Ms. nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). 201 123 . L. bolsista da UFOP. considerada como um exemplum. Para um exemplo notável destas reapropriações. e foi estudada largamente ao longo da história204. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical. foi dedicada a Agripina.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus. Ela é a principal. estreada em 1709. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203.‖ Ann. mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. Bisneta. 204 Sobre a produção historiográfica. especialmente durante o século XX. 1991. Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar. Segundo o historiador Tácito. naturalmente. p. Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano.ª Sarah F. irmã. filha. quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). contamos 49 personagens femininas. A figura de Agripina. mas que a mataria. ver: WALLACE.

Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. nem sempre apresentam comportamento com características viris205. 2009: 277. denotam o caráter de exemplaridade. gêneros e funções . como por exemplo. mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende. Deste modo. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política. Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. cf: BAUMAN. torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores. As personagens femininas.como. a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais. 205 124 . no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. uma transgressão. 1992: 130-154. In: FELDHERR.) 206 MILNOR. embora a percepção da divisão de espaços. em todos os casos. ou seja. todas elas. masculino e política em contraposição a privado. a relação entre público. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. não há transgressão206. esta é uma definição básica da transgressão feminina. é considerada como transgressão do comportamento feminino.NEA/UERJ menções a mulheres. Entretanto. como apresentada pelas fontes. Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam. 69. I. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). Ou seja. feminino e doméstico ser de extrema importância. como por exemplo. Por isso. por exemplo. considerando que elas eram peças do jogo político do império. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército.

Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. como veremos. foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza. quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. aparecem somente uma vez na narrativa. ou seja. como por exemplo. apresenta valor por vezes positivo. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino. notamos que 29. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. 59%. em outros casos. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais. mas não o fazem. não por acaso. para além das características individuais das personagens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Muitas delas. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área. Tácito as caracteriza também pela 125 .NEA/UERJ uma linha. a figura feminina mais frequente na narrativa. é mencionada em 31 capítulos. por vezes negativo e. Percebemos que. estão relacionadas a homens virtuosos. embora considerada ícone da transgressão. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. Já Agripina. A própria figura de Agripina. aberta a negociações e a sobreposições. Em outras palavras. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. pois. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. Ademais. partindo das personagens femininas. pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas. ambivalentes.

Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. Ou seja. que também o acompanhou. em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo. Dentre estas. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. Assim. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana. XIV. 22. Dentre as mulheres leais aos maridos. Para explorar esta hipótese. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. esposa de Traseia Peto. temos Árria Menor209. auxiliam na caracterização de outras personagens. XVI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 207 208 126 . quando ele foi forçado a sair de Roma. que quis imitar a mãe e morrer com o marido. 34. Ann. esposa de Rubélio Plauto. 209 Ann. 71. Em outras palavras. como se ligadas umas às outras. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. Ann. Por fim. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. ou seja. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖. Além dessas.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. de maneira que. como já ressaltamos acima. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. XV. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. temos Antístia208.

ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. genros perseverantes. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. Entretanto. No entanto. 13. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. Plínio. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. faz aumentar a glória deste.16. o que não interferiu na reputação elevada do casal. uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. poderia persuadi-la a continuar viva). as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. ambição).MULHERES NA ANTIGUIDADE . 3. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa. Árria Maior. não dói‖. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro. constantes generi. vaidade. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. 127 . parentes corajosos. foi persuadida por Traseia. esposas seguiram os maridos no exílio. escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes. além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. ―Peto. Comitatae profugos liberos matres. o único que. famosa pela frase ―Paete. non dolet‖211. Acresça-se que neste caso. além de perpetuar a imagem da mulher honrada. a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. neste dilema. Traseia negou esta glória a Árria. mas sua lealdade vai além. Ep. Ou seja. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos. supremae clarorum uirorum necessitates.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. no prefácio das Histórias. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos.NEA/UERJ sendo que Tácito.

Não por acaso.2. Calpurnia. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. 63 Ann. o foco da narrativa. Diferente das esposas leais. Ao comparar. 12. XIV. evidencia tais virtudes. ver: Ann. XIII. Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. XII. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa. foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. 12 215 Ann. Lólia Paulina215. outra vítima de Agripina Menor. apenas para narrar suas ações de lealdade. neste momento. Ou seja. associada a estes. filha de Germânico. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). 212 213 128 . 1 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Vejamos. de Ann. 63. filha de Druso. XIV. Tácito não especifica se é Júlia. XIV. O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente. 22. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. por ter aproximadamente 20 anos. 2. a segunda esposa de Nero). Júlia213. destacamos: Agripina Maior212. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes. que foi condenada ao desterro por Tibério. 43. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. XIV. Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. (mãe de Popeia. Tiberius. ou Júlia. 53. ver: Ann. O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. é a injustiça sofrida por Octávia. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. que também foram desterradas. 214 Ann.NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. e Popeia216. 216 Ann. A lealdade das esposas. inspirava ainda mais compaixão. destas. estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. XI.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). Tácito ressalta que Octávia.

e Lólia Paulina. 12. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. XIV. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. depois da morte da mãe. o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. que sofreram injustiças semelhantes. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. dentre elas estava Calpúrnia. O César proferiu as acusações frente ao senado. Portanto. que foi chamada do desterro.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). Nero perdoou algumas vítimas de Agripina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. Agripina não é uma má esposa por si. (Ann. e uma vez durante o principado de Nero. mas sua sentença foi o desterro. também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. percebemos que as personagens Calpúrnia. e. resolvemos retroceder um pouco. Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII. Tácito relata que. já no início do casamento. Elas foram acusadas no ano de 49218. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio. Lólia Paulina. e deste modo. ou seja. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. e Calpúrnia foi. 3) 218 129 . e foi sentenciada à morte. Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. certa vez. As acusações foram forjadas por Agripina. elogiada por Cláudio.NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude.

quando relata as acusações feitas a P.‖ (Ann. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador. 1-2. neste ponto do relato. mãe da segunda esposa de Nero. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. Seguindo esta mesma lógica. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. por ser aliado de Messalina. por decorrência. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. já havia sido morta neste momento do relato. aliás. a escrava desleal de Agripina. 4. 223 Tácito não cita este nome. As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. História Romana. e Acerrônia222. que. 222 Ann. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 60. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. capítulo 43. XIV. Suílio. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio. neste momento da narrativa. através de seus atos cruéis e. 3-4) 220 130 . devido à dor. Messalina. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama. citamos Pythias221. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. 5-6. LXII 13. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. Uma das escravas. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais. 221 Ann. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. Para se separar de Octávia.NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. mas o encontramos em Dio Cassius. XIV. Tácito retoma o episódio no livro XIII. Tácito narra que algumas. a escrava leal de Octávia. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. é mencionada em três capítulos: Ann. Deste modo. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. a lembrança do episódio. 60 e 62. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. notamos que a personagem de Popeia. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. Como exemplos. já estava estabelecida. XIV. 4. XI. Entretanto.

227 DAITZ. mas criam em seu conjunto. a escrava de Agripina. 1998. In: JOSHEL. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. 167. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste. p. então.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. 51 e 57. 225 226 131 . modelo vicioso. Acerrônia. as interações não só reforçam as características individuais. apresenta raciocínio servil e. XV. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos. Ann. ambicioso e desleal. percebendo toda a trama. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. Acerrônia.NEA/UERJ Holt Parker225. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. Deste modo. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. como temos visto. num ato de esperteza. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor. uma existência virtuosa ou viciosa. simplesmente o fazem. ela também aparece duas vezes na narrativa226. MURNAGHAN. modelo virtuoso. 1960: 48. portanto. ficou calada e se pôs a nadar até a margem. mas diferente daquelas. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. fazem parte do exemplum que o senhor representa. Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. Agripina. nos exempla de escravos leais. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. As interações não são circunstâncias isoladas. gritou que ela era Agripina. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar. Envolvida na conspiração pisoniana. Em contraposição. Assim. ou seja. a liberta foi PARKER. Interessante notar. Mas em Tácito. O plano de Nero falhou. Nesta perspectiva.

Milicho. o que.‖ (Ann. que sem sofrer tortura alguma.NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados. XV. e também fazem parte da natureza feminina. qui indicio praevenisset. Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. se o denunciava ou não.228 Os escravos leais. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. 54-55. e muitas vezes perverte estas mesmas regras. resolveu pedir conselhos a sua esposa. Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais. 4) 228 132 . liberto de Cevino. Em dúvida. 57. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. 231 Ann. que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. Tácito narra que ela. 230 JOLY. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais. 54.) 229 Como já ressaltamos. demonstram a superação de sua natureza. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. 2003: 71. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. multosque adstitisse libertos ac servos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada. no início do texto. 2. denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros. assim como as esposas leais. XV. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. ao adotar um comportamento excepcional. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana. como mulher. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232. no caso dela.‖ (Ann. Tácito compara a conduta dela.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil. at praemia penes unum fore.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum. equestres e cidadãos romanos. significa uma transgressão. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat. XV. lhe aconselhou o pior.

1995: 149-163. escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. que é reconhecida na materfamilias. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. como também o controle sobre os residentes desta.NEA/UERJ denunciar. reservada ao paterfamilias. ela não detinha a potestas (autoridade). como o fato da mulher ter direito à propriedade. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. igualmente ambicioso e desleal ao patrono. Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. 233 133 . considerando tanto a casa. claramente. 1998: 87-93. 235 DIXON. Milicho. pois apesar de possuir honor. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. os ganhos seriam maiores. o denunciou. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. 234 SALLER. como por exemplo. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora). importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. Aqui. propriedade física. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. mas que se faz ausente no escravo. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais. enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). obedecendo aos deveres da ―amizade‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores. Todavia. Entretanto. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. cf: POMEROY. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres. 2001: 95.

Deste modo. 21 e 22. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder. principalmente através de Ann. Um exemplo é Júnia Silana. XIV. Agripina conseguiu provar sua inocência. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. 236 237 134 . mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato. que. e Júnia Silana foi desterrada. dentre eles estava o liberto Páris. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2008: 291. tia de Nero. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. tinha acesso à casa imperial.19. Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. uma mulher rica. estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. 21 e 22 do livro XIII. Nos capítulos 19. Júnia Silana aparece associada à Domícia. A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. devido à ausência de herdeiros masculinos e. 12. 238 Ann. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. XIII. primeiro. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. 19. Essas personagens com menor visibilidade.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. Ao mesmo tempo. RODRIGUES. XIII. segundo. Inimigas de Agripina. e sem filhos. viúva. segundo Tácito. Domícia parece não ter sofrido punição.

depois de sua ascensão. 53. XV. Cláudio. o que explica a recorrência CORBIER. elucidativas. 53. percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241. Claudii Caesaris filia.comitante Antonia. 3-4) 243 CORBIER.NEA/UERJ casamentos e filhos. são. Claudia Antonia e Claudia Octavia. no livro XV. 2. filha de Claudio e sua primeira esposa. LEVICK: 178. Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. o casamento de Nero com Octávia. Retomando as personagens com menos visibilidade. ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração.. como por exemplo.. Curiosamente. e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. 23 e XV.‖ (Ann. depois da pretendida morte de Nero. além da avó paterna Lívia. 239 240SUETONIUS. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula. de certo modo. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. Aelia Paetina. In: HAWLEY. De acordo com os planos da conspiração pisoniana. LEVICK: 187. sobre este ponto. 241 Ann.. pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. Claudius. Como nos lembra Corbier243. ad eliciendum vulgi favorem. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio. relacionada a uma falsa denúncia de conspiração. 135 . 242 ―. XI. XIII. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro. por exemplo. In: HAWLEY. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto. Ela aparece pela primeira vez no livro XIII.. Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. ex-marido de Claudia Antonia. mandou divinizar Lívia240. sua avó. o prestígio destas matronas foi.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

XIV. portanto. uma vez que além de mulheres. (Loeb Classical Library). v. 1925. Walsh. elas são também aristocratas ou escravas. 1951. SUETONIUS. 1989. Complete Letters. ricas ou pobres. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. 8 PLINY. 244 Ann. Cambridge: Harvard University Press.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. G. 136 . The younger. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla. Ademais. Rolfe. como indivíduos. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas. as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. como pudemos observar. 2 vv. além de denotar os meios utilizados por Tácito para. (Loeb Classical Library). Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. Cambridge: Harvard University Press. 60-61. Translated by J. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. como identidades se construindo em oposição. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. Lives of the Caesars. de Tácito. Oxford: Oxford University Press. Histoires.C. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. Texte établi et traduit par Henri Goelzer. Translated by Earnest Cary. Roman History. Dio. fazendo uso de personagens femininas. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. Translated by P. estabelecendo. v. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero.1. 2006. TACITE. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino.

Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. Whores. Sheila (ed. Mireille. pp. 81. Women in Antiquity: New assessments.87-93. DAITZ. Cambridge: Harvard University Press. MILNOR. Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. Gerión. 1995. Sheila (ed. 1998.178193. In: JOSHEL. Richard. Madrid. Women in Tacitus. In: FELDHERR. 2009.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1992.NEA/UERJ TACITUS. pp. núm. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. Stephen G. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. London: Routledge. Cláudio e Nero. Cambridge: Cambridge University Press. DIXON. In: Reading Roman Women. pp. pp.157-178. Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. SALLER. Barbara. (Loeb Classical Library). 1903–1986. Holt. Annals. Andrew (ed. Kristina. v. RODRIGUES. Nuno Simões. 1960. London: Routledge. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire. ANRW II 33. and MURNAGHAN. The Cambridge Companion to The Roman Historians. 1995. Women in Roman Historiography. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. and Slaves: Women in Antiquity. Richard and LEVICK. 2008. v. Wives. CORBIER. Sarah B.149-189. In: Goddesses.69-156. pp. 1998. 30-52. POMEROY. Sandra R. São Paulo: Edusp. New York: Shocken books. 137 . 1991. 26. 1937. 2001. In: JOSHEL. and MURNAGHAN. p. Translated by John Jackson. London: Routledge.).). Suzanne. London: Duckworth. Fábio Duarte. In: HAWLEY. Tacitus‘ Technique of Character Portrayal.276-287. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles.).1. p. Sandra R.5: 3556–3574. Women and politics in Ancient Rome. London: Routledge. pp.281-295. JOLY. PARKER. Kristine Gilmartin. Tácito e a metáfora da escravidão. Richard. WALLACE. The American Journal of Philology. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. 2003.

as cenas que representam o trígōnon. a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina. 245 246 138 . uma harpa de forma triangular. A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais. segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2). parciais ou integrais. Dr. da Universidade Federal de Pelotas. Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto. no terceiro milênio antes de nossa era. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. registrada desde os primórdios da civilização suméria.MULHERES NA ANTIGUIDADE . chamam-nos a atenção. De acordo com o registro arqueológico. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. pela sua singularidade. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática.NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. salvo entre as Musas. Professor de História Antiga.

Conforme Kátia Pozzer (2007: 147. Proveniente das tumbas reais de Ur. Londres. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. Museu Britânico.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖. recoberta de betume.2).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Londres. 1989: 34-35. conchas e calcário vermelho. 1989 : 32-33. 121199. Meados do terceiro milênio. em forma de cabeça de touro. 247 139 . fig. Fonte: SPYCKET. mostra harpista animando banquete (detalhe). Acredita-se que este objeto. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli. Museu Britânico. serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. datado de 2600 a 2400. ― uma caixa de madeira. Fonte: SPYCKET. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247. inv. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur. com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz.

NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). ao final do século sétimo. a Safo. É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. 3908. 2800 a 2300 a. esse instrumento aparecia como uma novidade. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros. sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto. Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Alceu. de fato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. 140 . inv. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica. Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. Mas. Proveniente de Keros. Mármore de Paros.C. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. como um estrangeirismo.Fonte: Foto do autor. mesmo nestes autores. Anacreonte e Píndaro.).

1991. como membro da confraria musical divina. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento. 1929. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –. três tipos de harpa. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. COMOTTI. Museu aparece com freqüência associado às Musas. Segundo Pierre Grimal. p. ―Griechische Harfen‖. Na iconografia ática. Heinhard. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito.)248. dispensando o uso do plêktron. não angular. requintes orientais. por sua vez. 1983: 57-71.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento. amante. a pēktís e a mágadis. aluno ou mestre. Para West. de quem seria aluno. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. 1994: 304. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos. associado a Orfeu. termo derivado do verbo psállein. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. e duas outras formas. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. por sua vez. MAAS. a Tamiras. para Comotti. então. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. o termo psaltría. 164-193. Athenische Abteilung 54. A iconografia ática. De modo geral. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. e a Linos. SNYDER.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. verbete ―Musée‖). 1989: 147-151. de quem seria filho. o trígōnon. A cultura grega do período clássic o. 248 141 . 1992: 70-74. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST. tais como Antiphemos ou Eumolpos. a Apolo. Os textos arcaicos e clássicos citavam. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. apontados ambos também como pai dele. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional.

O. está abrindo um rolo. olhando um díptykhos aberto. Oswyn. Em torno de 420-10. nu. GRIFFIN. simboliza o jovem ateniense livre. J. De certa forma. apresentando Museu com um trígōnon.: MURRAY.) The Oxford History of the Classical World.636. encontramos uma pequena série de vasos áticos. In: BOARDMAN. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo. 249 142 . ―Life and Society in Classical Greece. Figuras vermelhas. Museu Nacional. de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. comum nos vasos da segunda metade do século quinto.Fonte: Foto do autor. entre seis Musas (uma com lýra.‖. outra com rolo) e Apolo. Oxford. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas. (org.. G 457.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo. numa kýlix de Paris. Kýlix. Pýxis.NEA/UERJ e ao ambiente escolar. É assim que encontramos Museu. produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé. 227. o pintor nos surpreende. 430-20. p. sentado sobre um klismós. Paris. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia. 19. enquanto o professor. J.Museu toca trígōnon. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos. c/fig. The Education. Louvre. & MURRAY. estudados por Giuliana Ricioni. Tamiras toca kithára. Bib. Atenas.249 Nessa mesma perspetiva. Figura 4 .

15. 1989: 163. ―cítara de berço‖ no campo. a harpa (RICCIONI. Retornando à classificação organológica. E 271.: MAAS. 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora. Figuras vermelhas. 2391. Villa Giulia. Pintor de Peleu. 250 143 . 64917. Melousa com aulós. à cultura e à educação. Bib. Bib. Ca. pr.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 11. usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos.251 Hydría. 440. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras.NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. Descrição: Mousaios com lýra. 1986: 730-744) 250. Add² 319) Londres. Staatliche Antikesammlungen. sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. SNYDER. fig. Figuras vermelhas. (ARV² 1039/13. 460-450. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. Berlim. Para 443.1a-c. 2) Hydría. Roma. tal qual às Musas. Para 398/70bis). quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto.: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. (ARV² 623/70bis. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon. Museu Britânico. Pintor de Villa Giulia. Terpsichore com pēktís. Figuras vermelhas.

IV. Phérekrates. aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina. Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático. Figuras vermelhas. Séc. Figuras vermelhas. Nova Iorque.63. III I c. ―cítara de berço‖ suspensa. Figuras vermelhas. IV. Nápoles. Séc. 1554. A representação do trígōnon. Ápulo.1a-c. Metropolitan Museum of Arts. 3) Ânfora. indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. 1. Lucaniana. pr. IV. Londres. Museo Nazionale. fr. Ânfora. 412Pearson. Figuras vermelhas. 81392. Museum of Fine Arts. Ápula. Ruvo. fr. Museo Archeologico.Fonte: CVA Museu Britânico 3. Ápula. notadamente o trígōnon. 2) Cratera em cálice. 69. Final do séc. Museo Nazionale. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc. 81953. 77-Edmonds e Platão comediógrafo. Séc. 252 144 . 42-Edmonds.252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense. Alabastro. 00. IV.10-14-Edmonds). Eupolis. V. Figuras vermelhas. E 271.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. V e do séc. ao mesmo tempo. figura iconográfica que. apesar da sincronia existente (Sófocles. IV. Na iconografia ática do Estilo Clássico. 4) Oinokhóe. a harpa. Em torno de 440. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. fr.21. nos idos dos anos 430-20. Museu Britânico. Figuras vermelhas. 11. Nápoles. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13). constataremos um desacordo entre ambas.6. Ápula.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Séc.360. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. Boston.

atribuída ao Pintor de Eretria. Pintor de Eretria. 145 . Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem. datada de aproximadamente 425-20. Fonte: Foto do autor. de longe. reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). Figura 6 . inv. 2001). da lýra (CERQUEIRA. Nos textos coetâneos. Jovem reclinado. esse exemplar foi consumido no mercado local. as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). SNYDER. Figuras vermelhas. contra 165 exemplos catalogados. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa.425-420 a. Atenas.MULHERES NA ANTIGUIDADE .Banquete. no entanto. Trata-se de uma khoûs ática. 1989: 150). junto com as cenas de kômos. O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos. Museu Nacional. 15308. 2000: 36. em mãos de uma cortesã. Um único vaso. a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. MAAS. Khoûs ática. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas. e. casualmente. em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais.NEA/UERJ ―cidadãs‖. em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. durante um sympósion. Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas.C.

Assim. que registrei. não para ser tocada pelos convivas. Tocadoras de trígōnon. conforme West (1992: 79). 63-64. 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. De qualquer modo. bem como do týmpanon. tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion. Ver: MILES. 2009: 26-29. 51. fr. Alguns o associam à poesia trágica. Constitui-se. no único exemplo iconográfico.10-14-Edmonds).638. acompanhando as tradicionais aulētrídes. 77-Edmonds). 253 146 . provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. da psaltría. assim. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. associando-as à pecha da prostituição. 40. 69. uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. 139-Edmonds). Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. outros à comédia. No último quartel do século quinto. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. Num outro fragmento de Eupolis. termo frequentemente usado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fr. defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu. 14. nos textos antigos. fr. ásperos julgamentos morais. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis. que trouxe novidades musicais e que recebeu. como os demais. Eupolis.

cat. on MMA 16. Metropolitan Museum of Art. cat. Lébēs gamikós. 2001.255 Esse argumento é improcedente.NEA/UERJ Figura 7 . pr. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. Fonte: West. 2001. 332. 332). whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation. the standing position of the harpist also appears unlikely. Sheramy D. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA.73. 1992.‖ 255 147 . 2001. 16. 334) appear contrary to reality. cat. em BUNDRICK. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame. As has been pointed out elsewhere. cat. 334). Bundrick. afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização. there are anomalies. Add2 332) Período: 430-20. em coerência com suas interpretações simbolistas. cat. however.22. 2001.73 (CERQUEIRA. Pintor do Banho (ARV2 1126/6. diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. 2001. Cerqueira. because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing. the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figuras vermelhas. haja vista não haver relação alguma. não correspondendo a uma situação cotidiana real.

deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. de modo geral. o Pintor do Banho.. O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais.. E. a retrata como digna noiva ou esposa. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. por sua vez. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais. 148 . de uma situação social a outra. afinal. mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída. na categoria de musicista-cortesã. A disseminação da arte da harpa. pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico.2)256. Contudo. se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. A falta de exatidão no desenho do trígōnon. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido. o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico. Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos. entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. deslizando de um grupo social a outro. Efetivamente. E. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no rol das prostitutas. O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer.NEA/UERJ iconografia. na medida em que não há referência literária alguma.

lekanídēs. mesmo que idealizado. É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. alábastroi. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa. a forte associação simbólica do aulós à prostituição. como aquele da Magna Grécia? Ora. 1938: 366-369). como ocorreu com a lýra. não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa. como o quer Bundrick. a kithára e o aulós. kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas. Com base nessas considerações. de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. antes ou depois dele. indica seguramente a 149 . quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. que passava a ser a sua (ZEVI. com a única exceção do Pintor de Eretria. a forte associação simbólica da harpa às Musas. não o representarem. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. 2000: 181-182). Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. cofres. SNYDER.NEA/UERJ ático o fez. nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida. de outro lado. apesar de os pintores.

ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. No caso da pýxis. 1995: 225). alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. na terceira cena. Todavia. não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. 2001. não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. Por outro. cat. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. na outra. pr. mesmo não retratando o momento da epaulía. A figura central está sentada sobre um klismós. cat. como é comum nessa forma de superfície cilíndrica.1-3). Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. Por um lado. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. a anakalyptēría. ela já era considerada esposa. 150 . sua presença traria outras conotações. 1972. 6.NEA/UERJ epaulía. temos. na manhã após a noite de núpcias. como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). quando. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Essa análise. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias. a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. para uma noiva. 334) apresentam a harpista numa situação diferente. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. assim. porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon. Ela está desconfortavelmente de pé. Já no lébēs de Atenas (Figura 8). a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría. 2001. Seguramente. acompanhada por outra moça. ela está sentada sobre o leito nupcial. o banquete. ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. O vaso de Würzburg. Enfim. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira. a noiva aparece retratada como harpista. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER. flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada. E. cenas seqüenciadas. 1995: 226).

evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais. Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. Lébēs gamikós. 8. 2001. especificamente o bárbitos. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina. fig. 2000. 24.Mulheres no gineceu. a recepção de presentes.NEA/UERJ Figura 8 . cat. Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420. a lýra. presentes para a noiva. a noiva poderia saber tocar algum instrumento. 334. Mulher toca harpa de pé. 14791 (1171). Figuras vermelhas. chegando o momento de se casar. retratada aqui como aulētrís. Os pintores mais criativos e requisitados. A cena traz claramente uma representação da apaulía. procuravam fazer variações temáticas. Fonte: Foto do autor. o aulós. Preparativos para casamento ou recepção de presentes. Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía. cat.Fonte: Cerqueira.Atenas. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como o talentoso Pintor do Banho. a phórminx 151 . Bundrick. Museu Nacional.

tocando harpa. nos últimos anos do século quinto. ao feminino. mais que isso. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. tocado pela própria noiva ou por uma convidada. 152 . A iconografia sugere que. De resto. a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa. a pēktís e a mágadis). A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina. A principal convergência é a vinculação da harpa. a existência de convergências e divergências. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos. é um instrumento para ser tocado por mulheres. apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu. A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sugere que. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. em certos contextos sociais. em uma pýxis do Pintor de Meidias. foi um instrumento menos usual. por via de regra. Todavia. na cultura grega. entre os gregos. Considerações finais A harpa. como um estrangeirismo. comparativamente ao aulós. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos. contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias. Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. à lýra. na Atenas da época do Pintor do Banho. pintura de vasos.NEA/UERJ ou o trígōnon. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista). associado às Musas (Figura 4). a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. à kithára ou ao bárbitos. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. É interessante observar que. constatamos. As convergências param por aí. terracotas).

caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. no caso. tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . é tocado tanto pelo personagem central. no ambiente humano. No gineceu. De fato. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. Constata-se. De outro lado. nunca aparece. A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). para os pintores de vasos áticos.NEA/UERJ ambiente. quanto por um personagem secundário. 2001: 198). no ambiente mitológico. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. é sobretudo um instrumento do gineceu. Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. mulheres bem-nascidas. é tocado por alguma Musa. CERQUEIRA. podemos dizer que a harpa. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos. com a exceção de Museu. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa. A pēktís. a indignidade da prostituição. uma cortesã-harpista. entre os pintores de vasos áticos. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. No ambiente mitológico. Assim. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8).2. na cerâmica ática conhecida por nós. inclusive durante os festejos da epaulía. de que tanto nos falam os textos. a dignidade do gineceu e das Musas. e das Musas. foi vista como um instrumento refinado. ainda. em Atenas. em seus divertimentos no gineceu. uma pēktís – trata-se portanto. na pinturas de vasos. tão logo se espalhou entre os atenienses.MULHERES NA ANTIGUIDADE . retratado no ambiente do gineceu. nas últimas décadas do século quinto. por sua vez. de uma psaltría.

indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido. que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural. Finalmente. sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto.NEA/UERJ parentes. No entanto. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. da harpa como instrumento feminino. entre os gregos. Ao mesmo tempo. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. entre as mulheres bem-nascidas. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. possibilitou-nos ver a cristalização. fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. de outro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O estudo da harpa nos permitiu. assim. a comparação com a cerâmica italiota. 154 . como instrumento para entretenimento no gineceu. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. identificando convergências e divergências. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos. Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses.

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Renata Senna Garraffoni. Assim. longe de ser tratado como vítima. resultou no aparecimento do termo Gênero. lilianemeryt@hotmail. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto. sob orientação da Profa. Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR. 1550-1070 A.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente. que. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. faz parte de seu papel socialmente construído. para a historiadora Joan Scott. Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof. que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica. gsbalthazar@gmail. Essa mudança. Assim.NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo. O debate crítico acerca da História das Mulheres.) Prof. sobretudo das individualidades desse sexo. tem seu perfil construído ao longo da história.C. fruto da busca de novos campos de interesse da História. como proposto por uma historiografia tradicional. Portanto. Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino.com 258 157 . Dra. 1990: 7).

a experiência de um sexo.260 Leiam-se. Assim. Para além desses aspectos. De fato. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens.). até o final do século XX. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais. na Antiguidade. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais. tenha muito pouco. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos. desde a origem. Nessa premissa. tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito. sendo resultado de uma criação masculina. ou nada. ou melhor. a aparente proeminência das mulheres egípcias.. 1990: 16).. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada. (. pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT. o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖... 1990: 07). a ver com o outro sexo‖ (SCOTT. determinar a existência de sociedades ginecocráticas.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖. 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. que. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado. as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(.. portanto. por exemplo.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. 260 158 . (LESKO..MULHERES NA ANTIGUIDADE .) assim se apresentava a mulher egípcia. Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana. que ―(. a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado. E é nesse contexto. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia.

tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. Acredita-se. onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina. Há trabalhos. em especial pelas mães. originado no seio dos estudos feministas. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. Nesse contexto. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real. Nessa perspectiva. não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. em um estudo sobre a XVIII Dinastia. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. que refutam tais teorias. que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). 1996: 23-24). Para tanto. Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 . onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher. por exemplo. nessa perspectiva. ou ―teoria da herdeira‖. essa linha historiográfica entende. é uma clara recorrência a uma história das origens. a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. A egiptóloga. como foi o caso do Egito. contudo. e a matrilinearidade. como o da inglesa Gay Robins. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação. concedidas às mulheres de sangue real.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Esse pensamento. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. corroboram com este processo matrilinear. Por fim.

2005: 205). John & MÁLEK. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico. Oxford: Phaidon. na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. tradicionalmente datada de c. Sendo assim. 30-52. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres.261 são provenientes de diferentes contextos. De fato. 1980. a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES. é importante ter em mente que. 261 160 . segundo Liliane Coelho. precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino. 2008: 65). Assim. as representações humanas. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA.C. Nessa perspectiva. iconográficas e textuais). as mulheres [egípcias]. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas. no Egito antigo. Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. p. embora respeitadas como membros da família. foram produzidas pela elite masculina egípcia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres. contudo.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. assim como nas outras fases da vida. 3000-332 a. Jaromir. é importante entender que. mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. Atlas of Ancient Egypt..

C. 2040-1640 a. A literatura. de maneira contínua. em conjunto com aquelas do Reino Novo. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios. traduz uma visão idealiza do feminino. 15501070 a. foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor. seus nomes durarão para sempre. por exemplo.. retirado do Papiro Chester Beatty IV. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO. é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia.NEA/UERJ por homens. ao ser produzida por homens. A mulher era sempre representada de maneira ideal. entretanto. então.) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. e que reflete o ponto de vista masculino. . 2009: 162).. ao longo dos períodos históricos que se sucederam.). O Reino Médio (c.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia.C. por meio de cópias. que as traduziram e revelaram ao público atual. inclusive. Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. e desta maneira. associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente. formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. Segundo a visão de mundo egípcia. Durante o Reino Novo (c. Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. O objetivo deste trabalho. 161 . já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos. até chegarmos ao Reino Novo. a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. assim como a arte.que prediziam o que estava por vir. e as composições desta época. do que construir uma tumba em uma necrópole.

que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários. literatura gnômica. As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras. a literatura lírica. gênero do qual fazem parte os poemas de amor. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções.Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido. seu cadáver vira pó. Dentro da literatura fantástica. . filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO.. Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes.NEA/UERJ embora tivessem partido. Mitos e Lendas: Antigo Egipto.. dependendo da função à qual se aplica o texto. Luís Manuel de.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2005. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖.. enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. todos os seus contemporâneos perecem. Em um dos contos do Papiro Westcar262. assim.. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas. tendo completado sua vida. .Eles não planejaram deixar herdeiros. crianças que conservassem seu nome. 262 162 . 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo. mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. ou a nota final de um texto. analisamos composições que podem ser classificadas. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO.Um homem morre. por fim. que escreveram.. como literatura fantástica. . segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê. para este artigo. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. e. Os nomes de Senu e de seu pai. (ARAÚJO. Lisboa: Livros e Livros.. foram eternizados por meio do texto escrito. Tendo em vista tais considerações. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar. 2000: 280).

transformado em um animal de verdade. Nesta história. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. Bata vivia com seu irmão mais velho. Quando saía da propriedade. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. 263 163 . assim como na história de Ubaoner. Avisado pelo jardineiro. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães. foi castigada. A mulher. no entanto. O sacerdote. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde. e eles sumiram para sempre. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. o levou para o fundo. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. que passara um tempo com o faraó. Bata foi interpelado pela cunhada. Anpu. sendo perseguido por Anpu. O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. respondendo que a considerava como uma mãe. Certo dia. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse. Anpu voltou para casa. contudo. datado do final da XIX Dinastia. Furioso com a atitude de sua mulher. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. associada ao adultério. e a esposa deste. na estação da semeadura. Certo dia. Bata negou-se. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A mulher. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. que o servidor deveria colocar no lago do jardim. e seguiu seu caminho. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. cujo nome não é citado. após a explicação do ocorrido ao faraó.

já que este poderia ir atrás da esposa. Falsidade. Depois de levá-la consigo. acompanhadas por Khnum. para auxiliar a mulher na hora do parto. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. Bata a avisou que não se aproximasse do mar. Em ―O nascimento dos príncipes‖. mãe e provedora. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Temos. Sahure e Neferirkare –. no mesmo conto. desobedecendo às ordens do marido. Nesta história. que foi deixado propositalmente na casa por elas. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este. a mulher aparece como a mãe e provedora. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. Ao final do conto. e que por isso acabaram punidas. composição que data da XIX Dinastia. Apaixonado por ela. Reddjedet. nas três situações ilustradas nestes contos. pois as consequências poderiam ser trágicas. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. sem uma autorização do marido. após muitas transfigurações. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. é apresentada a imagem da mulher ideal. Néftis. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água. então. A mulher. mas certo dia. Em outro conto do Papiro Westcar. o faraó pesou em matar Bata. que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. no entanto. Ra enviou as deusas Ísis. Assim. foi perdido. no entanto. Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela. contudo. é narrada a história de Reddjedet. que mentira a respeito do artefato. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. No conto. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. O final da história.NEA/UERJ Em outro momento. filhos de Ra. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. 164 . pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. por sua vez. Meskhenet e Heket. que era um bem precioso para os antigos egípcios.

onde ficou protegido. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres. já rapaz. Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres. O comportamento mais marcante. pois ―. segundo ele. este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa.) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. Nos dois. A esposa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não a fixe quando ela passa. Sabendo da verdade. aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―.. 2000: 251-252). sejam elas esposas. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens. por não revelar. às mulheres desconhecidas. são outras: nestes casos. deveria ser bem nutrida. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any. alguém não conhecida na sua cidade.‖ (ARAÚJO.. Verdade e a mulher tiveram um filho. 2000: 252).. que só soube quem era seu pai muito tempo depois. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa. é o da mãe. ela aparece como o ideal feminino.) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. Verdade foi então abandonado num local rochoso. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. também. e no qual foi encontrado por uma mulher. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO. quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor. com o tempo. de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha. a mulher é mostrada como a mãe protetora. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada.NEA/UERJ mas... neste caso. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (. no entanto. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada. no segundo.. por exemplo. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias. a mulher apresenta uma falha: no primeiro. Juntos. porém.. Nos dois últimos casos. 2001: 35). desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade. e deveria ser sempre um 165 . não a conheça carnalmente (. Ptah-hotep..

assim. Por último. produzidos por homens. Em apenas um caso analisado. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele. consequentemente. (mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO. na literatura gnômica. Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher. todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO.NEA/UERJ exemplo a ser seguido.) –. a mulher deveria servir ao homem. e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e. Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. assim como elas. não deveriam ocupar posições de poder. e aparece. não a repilas. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. Trata-se de uma comparação feita por Khéti. assim. no início do Reino Novo. alegre e conhecida pelos de sua cidade (. Para ele. Fica demonstrado..) Sê bom para ela (durante) algum tempo. da vida após a morte. então. contudo: ―não a julgues. que a imagem feminina nos textos. Comportamentos que não devem ser seguidos. é marcada pela idealização. para este sábio. 1640-1550 a. mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta. na ―Sátira das Profissões‖. também mereciam um tratamento especial. tal qual o das esposas e.. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. 2001: 35). Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c. 2000: 256-257). a mulher aparece como sofredora. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada. Ptah-hotep aconselha. Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa. As concubinas. 166 . 2000: 252). 2000: 221). Ou seja. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep.C.

pautada nesta distinção. divide-os em poemas de fala masculina. como os textos analisados anteriormente. e poemas de fala feminina. são sutis e difíceis de capturar. 2000: 302). Portanto. mas eles transmitem. 2000: 302) argumenta que os banquetes. a que aqui se refere. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. nestes casos. tão em voga neste período. que apresentam uma linguagem mais refinada. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. A literatura. 2007: 226). As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco.NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite. Papiro Harris 500. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. Posener (apud ARAÚJO. tais como espaços e objetos construídos. discursos. conservado no Museu Britânico. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301). a sensibilidade feminina de maneira aguçada. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. constroem uma imagem idealizada da mulher –. do Museu Egípcio de Turim. a saber: Papiro Chester Beatty I. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado. sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. Barbara Lesko. traduzindo emoções. imagens e materialidades. chamando a atenção. por sua vez. As sensibilidades. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . por meio de práticas sociais. atualmente em Dublin. Os amantes nunca se tratam pelo nome. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. e Óstraco do Cairo 1266+25218. ou do homem ou da mulher. 2007: 10). Papiro Turim 1996.

ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (. contudo. onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado. 2000: 304). Ó.. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deusa de Ouro. apreensões. que o simples fato de pensar no homem amado. percepções sobre o mundo e é..NEA/UERJ anseios. sensibilidades que correspondem ―(. 2000: 306). 2000: 308-9). Deste modo. narrativa. seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. as fontes literárias. não palpites‖ (ARAÚJO. se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz. ao contrário das masculinas. deviam ser velados.)‖ (ARAÚJO. 2000: 307). o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO. as falas femininas dos Poemas de Amor. pois. em sua maioria velado e platônico. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. De fato.. no quarto poema do mesmo conjunto.. é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. também.) às manifestações do pensamento ou do espírito. traduzem um amor sensível. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO. medos. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento. Tais sentimentos.. da necessidade da presença do ―irmão‖. o que desperta nela ―extrema alegria‖.) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖. também faz com que o ―coração palpite‖. 2007: 10).. como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó. e por isso pede ―ó. pois a mulher espera que ―(. pelas quais aquela relação originária é organizada. como é visível no sexto poema do conjunto.). 2000: 307). Observa-se. 168 . Esta urgência. sensibilidades. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. eu o beijarei na frente dos que o cercam (.. meu coração. neste caso específico os Poemas de Amor..

e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. 2000: 317). o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). Desta forma. antes de qualquer coisa. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. de sua singularidade. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. na mulher do quinto poema. o estudo destes poemas. 2000: 316). Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. Nela. E.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 264 169 . quando o amor faz surgir. que viva tão somente na cotidianidade. seu gosto pelo detalhe fútil. do Papiro Harris 500. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. de sua personalidade. portanto. não há nenhum homem. utilizados na época. por mais ‗insubstancial‘ que seja. servindo-te meu amor‖. ao contrário. 2000: 317). desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. a vida de todo homem. ou seja. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO.NEA/UERJ Os Poemas de Amor. é a vida do homem inteiro. pois ―Todos a vivem. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade. Nesse sentido. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. com seu tom de confidência. Na linguagem comum. embora essa o absorva preponderantemente. compreende-se. idéias e ideologias‖. O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. daquele ―insignificante‖. com o teu braço no meu braço. Pretende. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. paixões. ao capturar um pássaro do Punt. que a vida cotidiana é. tão repleto de sentido. Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). tê-lo ―como esposo.

acima citado. 265 170 . venero Hator. explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. Percebe-se. dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. De todas as fontes que contêm estes poemas. após.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. se faz presente no cotidiano dos egípcios. Logo. bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. por exemplo. 2000. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante.. a sutil sensualidade da conquista. cultuo sua majestade. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. 2000: 323). que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. a magia. O quinto poema. A aflição do amor não correspondido. contudo. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. segue-se o pedido. contado por um sicômoro. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços. Neste. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. O terceiro poema. vem. cuja fala se direciona ao casal. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo. 1995: 99). em tal poema. 2000: 306) e.NEA/UERJ A religiosidade. louvo a Senhora do Céu. que esperavam. cada poema começa com o nome de uma árvore. personalidades e funções. o amor. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996.). meu irmão. ―Ao invocá-la. cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. a sexualidade. meu amor. Neste. 325). olha para mim!‖ (ARAÚJO. a música. a dança. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. Ó.. e este se estendeu durante todo o período faraônico. meu irmão. (. travestida em preces à deusa Hator265. O resultado foi uma multifacetada deusa. a maioria dos poemas é de fala masculina. traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. pois incorpora diversas características. a fertilidade e o nascimento. particularmente para as mulheres (ROBINS. a saber.

NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO. Sergio Donadoni (1994: 217). contudo. espero por aquele que me despreza‖. evidencia sensibilidades passadas. a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. sentimento este capaz de resistir aos séculos. as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. Este estudo. A crença egípcia na vida após a morte. as múltiplas formas de sensibilidades. como os monumentos e a literatura.). tão distantes temporalmente de nós. há cerca de seis mil anos. expressas nos Poemas de Amor. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo. ouvidos atentos. de maneira geral. transmitida por testemunhos de várias ordens. ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (. é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto. Em outras palavras. 2000: 319). mas. comumente. assim. as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. em especial. 2009: 12). acerca dos Poemas de Amor de fala feminina.. As diversas formas de enterramento. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. por sua cultura singular. às vezes. o que ocasionou o seu desaparecimento.. como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR. ainda hoje. Consequentemente. pela localização das cidades em zonas de inundação. O que demonstra que. sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . mantendo-se. De fato. 2000: 305). Olhos na estrada. isto é. percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. revelam como estas mulheres.

no caso. enfim. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema. entende-se. e. Portanto. com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário. inscrita nos poemas aqui analisados.. Portanto. ao contrário da tendência apontada por Donadoni.MULHERES NA ANTIGUIDADE . consequentemente. a análise dos poemas de amor. Nesse sentido. tentar entender as sensibilidades. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. Assim.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos. que ressalta a paixão pela vida. ou melhor. Pensar nas sensibilidades. 1994: 12). Assim. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI. 172 . ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida.. Nessa premissa. Em suma: (. com o seu cotidiano. a fala feminina.NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. como as pirâmides e os textos funerários. um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade. 2003: 58). faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I. com o presente texto. implícitas nas entrelinhas dos poemas. das trajetórias de vida.

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milagres.com 266 175 . Desde os relatos bíblicos. Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga. porém. por duas tendências principais. presumir que o Talmud não é. A mais preponderante tem sido sem dúvida.representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI.ª Dr. mesclado de misticismo e obscuridade. em 9 de novembro de 2010. Literaturas e Cultura Judaica (USP).NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof. A outra é a do misticismo. alegoricamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. A diferença entre as duas correntes reside. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário. (GLASMAN. através de sua longa história. escritora.br ou janebg@hotmail. encontramos mitos e lendas que. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ. também. compõem um acervo da ordem do fantástico. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. a do racionalismo . janeglasman@terra.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética. mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião. 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica.com. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado. sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá. que gerou incontáveis interpretações e releituras. oposta ao conhecimento. Um corpus de lendas. NEA -UERJ. complementares uma da outra. na ênfase dada à lógica e à mágica‖. Anjos. É falso. ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. principalmente.

protagonizando a literatura da Cabalá. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. Lilith e Dibuk. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. não leite. o nascimento de um mito Há 4. Seus peitos são cheios de veneno.268 Na etimologia hebraica. sem dúvida. Ela é. senhor das tempestades.NEA/UERJ personagens como o Golem. a raiz Lil. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. C. por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. que significa vento. tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. Na Suméria. no nome de Enlil (deus sumério do Ar. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a. através do misticismo judaico. Suas origens remontam à demonologia babilônica. uma personagem bastante controversa. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças. A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu. 268 176 . que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana. era 2/3 deus e 1/3 humano. Lilith. figurando nas imaginações míticas de escritores. O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. do raio e do trovão).000 anos Lilith tem vagado pela terra. aparece. Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite. depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. Segundo o mito. e autor de feitos sobre-humanos. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. Os relatos de sua biografia são contraditórios. artistas e poetas.

identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270. Em seu jardim às margens do Rio Eufrates. quando um vil triunvirato se apodera da árvore. Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si. o bravo Gilgamesh mata a serpente.C. no entanto. sumério ou assírio. deusa do amor. Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica. Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro). conhecida como o Relevo Burney..MULHERES NA ANTIGUIDADE . O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney. datado de cerca de 1950 a. Neste baixo-relevo em terracota.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco. ‖269 Usando armadura pesada.NEA/UERJ Num episódio. ambos empregados Traduzi de Kramer. fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto". a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro)." Gilgamesh corre para ajudar Inana. 1938. Os planos de Inana quase são frustrados.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. um modo convencional de transporte para residentes do submundo. Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos.NEA/UERJ em cerimônias religiosas. XVIII a. acadêmicos identificaram a figura como Inana. que integra atualmente o acervo do Louvre272. onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder. descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura.C. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos.C. Datando do oitavo ou sétimo século a. IX a. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. sabemos que ela é uma deusa. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta. aparentemente curvando-os à sua vontade. 272 Mais recentemente. Porém. Em primitivos encantamentos contra Lilith. Afinal. ela voa com asas de demônio. teria sido transformada em demônio em época posterior. por exemplo.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. há uma placa de parede de pedra calcária. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. séc. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). Além disso. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271. no topo da Estela de Hamurábi (séc. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas. 271 178 . como muitos deuses de povos vencidos. ao que parece. que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes. British Museum).C. Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei.

perda da virgindade ou parto . e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas.C. casamento. No texto bíblico Na Bíblia. uma demônia foi creditada como responsável. 179 .). O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos. A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith. em Isaias 34. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos. egípcios. que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz. ela é mencionada só uma vez." (Isaias 34: 14). As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor. Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. No Capítulo 34. A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança.‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais). que migrou para o mundo dos antigos hititas. De acordo com este poema apocalíptico poderoso.menarca. podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. referidos frequentemente como Primeiro Isaias. por exemplo. na Síria.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. os primeiros 39 capítulos do livro. ela temeria ser reconhecida e partiria.NEA/UERJ pedra‖ em turco). Por todo o livro. e achará pouso para si. Presumivelmente. que contém uma menção horrível de Lilith. israelitas e gregos. ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias. Fez uma aparência solitária na Bíblia. e Lilith descansará ali.MULHERES NA ANTIGUIDADE . אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ . pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. se Lilith visse seu nome escrito na placa.povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação. Em situações críticas na vida da mulher. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil. em 1933. Com o tempo.

não havendo menção da coruja. tradução inglesa da bíblia. esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖. comparativamente. traduz lilith como "o pio da coruja". Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. As traduções também diferem para se'ir: é bode.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. a Versão King James. e Lilith aparece na Canção para um Sábio. A seita de Qumran absorveu demonologia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto". O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. 273 180 . se lilith é um animal indeterminado.NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. Se lilith é uma demônia. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas. se'ir é um bode. então se'ir é uma espécie de demônio. criatura da noite e bruxa273. mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith. lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. mas a situa em lugares desolados. A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith. demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. Talvez dada a sua longa associação à noite. como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono).

Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral. O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções. Liliths.C. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d. 11.4-6a // frag.MULHERES NA ANTIGUIDADE . frequentemente apenas de versos individuais ou de partes. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas. demônios. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. no singular. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos.. somente porções do mesmo em inúmeras passagens.). Provavelmente não é apenas uma licença poética. e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias. ao contrário de Isaias. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. 10. mais ou menos literal. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. o Sábio. Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517. 274 275 181 . e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia.. após o cativeiro da Babilônia no século VI a.C.. Quando. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. corujas e chacais. tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras.NEA/UERJ ―E Eu.

expulsando-os nus. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. o Talmud informa. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas. De acordo com folclore popular. Lilith atacava mesmo os homens casados e. de cerca de 600 d. por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b). como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. os vasos de encantamento.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais.. também souberam de Lilith.C. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur. espíritos. O demônio feminino da noite é Lilith. para combatê-la. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. 182 . noite adentro. Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. Por vezes. Adão transtornado separa-se de Eva. Babilônia. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth. um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas. mostram em que pessoas comuns acreditavam. circundada por um texto profilático em aramaico. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante. Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. As referências talmúdicas a Lilith são poucas. demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a).

NEA/UERJ matavam crianças humanas. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. Invocando o nome de Deus. É um texto anônimo. O jovem filho do rei está doente. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original. Solomon Shechter. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus. embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. com 22 episódios. considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs. no entanto. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. como Lilith. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo. É uma coleção de provérbios e máximas. depois que um erudito inglês. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações.MULHERES NA ANTIGUIDADE . correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico.. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos. antes de Eva. ela recebeu características novas e mais sinistras. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia. 277 183 . Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. Neste vaso em particular. Entre os séculos VIII e X d. Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão. enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi. teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. Na Idade Média. como os da Literatura bíblica de Sabedoria. Até certo ponto.C. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. que causam doença e morte. pode voar e tem atração por sexo. Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico.

tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus. No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). adm (Adam = Adão. Lilith ganha 184 . Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. mas ele insiste que este é seu lugar. Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. associado com a raiz hebraica de "ser". No Alfabeto. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu. A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz. Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. eles são semelhantes em importância.NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". por outro lado. Logo o casal humano começa a discutir. no Dia da Expiação. Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas. traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado. não tenta dominar ninguém. Deus forma outra pessoa da terra. Então Lilith alça vôo e vai-se. o nome inefável do Senhor. uma fêmea chamada Lilith. Lilith foge para espaços desertos.A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. Em teologia e prática judaica. por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Durante os dias do Templo de Jerusalém. O nome de Deus YHWH. Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso. só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano. Lilith. adamah = terra). mas nenhum realmente ouve o outro.

o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. forjando um acordo com Deus e os anjos. ambos perdem. reivindicando que foi criada para ferir crianças. Ironicamente. mas também uma mãe incrivelmente fértil. que a aprova e a nomeia Eva. animais e finalmente a mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. homem é criado primeiramente. Quando eles a encontram no Mar Vermelho. Mas mesmo sendo quem parte. Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. Aparentemente. Para que os anjos não a afoguem no mar. Em Gênesis 2. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. plantas. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). ela se recusa a retornar ao Éden. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças. Para GAINES (2009). Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. Três anjos são enviados à procura de Lilith. sem reconciliar. formando a mulher de uma costela sua. Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. Nesta versão. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. Em Gênesis 1. Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). Uma interpretação tradicional desta 185 . é ela que se sente rejeitada e zangada. ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal.NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. os seres vivos aparecem numa ordem específica. No fim. A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. Deus apresenta a mulher a Adão. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. seguido por plantas. no entanto.

a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico. ridiculariza a Bíblia. Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva.uma vez com homem. comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas. flatulência e cópula por animais. De fato. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden. compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico). é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação. Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. usando fontes anteriores. Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar.então devem ter sido duas mulheres. Neste contexto. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história.NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele. 186 . outra vez da costela do homem . O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada. no entanto. Por esta razão. Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada. o Talmud e outras exegeses rabínicas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deus cria a mulher duas vezes . no fim. mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas. de todos os mitos de Lilith.

como os tratamentos anteriores de Lilith. A porção feminina do ser humano era unida no lado. pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios. e a interpretação desta passagem no Talmud. A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. A Shekhiná. Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. chamada Samael ou Asmodeus. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b).NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico. então Lilith é a mãe da apostasia de Israel.MULHERES NA ANTIGUIDADE . à imagem de Deus Ele criou-o." em Gênesis 1: 27. a serpente e o líder dos anjos caídos. mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). No Zohar. O Zohar. também aparece no Talmud. A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. chamado Shekhiná279. concebe suas crianças e então as infecta com doença. então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele". inspira sua luxúria. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. macho e fêmea Ele os criou"). Lilith vai-se embora. É associado com Satã. criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith. a vê como uma sedutora de homens inocentes. Em vários pontos. Adão é uma de suas vítimas. 279 187 . Se a Shekhiná é a mãe de Israel. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. Esta porção desprendida é "a Lilith original.

e causa grande tristeza a Deus. na literatura e nas artes. Podemos citar os nomes de Goethe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca. causadora pragas. outro testamento ao poder duradouro da demônio. Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden. homossexualidade e vampirismo. devoradora de crianças. através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280. noturna.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. Dante Gabriel Rossetti. Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus. etc. a cobra. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão. Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. Lilith e Eva". a emprestar-lhe uma forma de réptil. O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. Robert Browning. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida. por exemplo. John Collier. 280 188 . quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith. John Keats. depravação. Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos.

jan/jun 98.org:80/e-features/lilith. New York: Schocken Books. Janet Howe. Samuel N. ISTARJ. Com comentários de Rashi. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. Eisenstein. GLASMAN. As peregrinações de Lilith continuam hoje. nº 2. 1948. SCHOLEM. KRAMER. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. 1993.bibarch. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal. em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review. 189 . Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada. com efeito. Jane Bichmacher de. 1915). vol. São Paulo: Trejger Editores. trans. CHUMASH. March/April 2009. 17 vols. 1. ano II. Rio de Janeiro. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher.asp acesso em 21/5/09. Chicago: University of Chicago. Esta criatura alada da noite é. Zohar: The Book of Splendor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. 35–49. on line http://www. pp. 1963.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem.D. Revista IDEA. Assyriological Studies 10. 1938. GAINES. 1998. Isidore Epstein. Lilith: Seductress. À medida que crescemos e mudamos com os milênios. Gershom. London: Soncino. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J. Bíblia.

) nos concentraremos principalmente na 18a. de um modo geral. e 30 a. Seja estando a frente. notadamente membros da família real.C. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba. Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe. Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. entre 1550 e 1070 a.C. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida. relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr). Entretanto. tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale). Dr. do Núcleo de Estudos em História Medieval. O primeiro. ou seja. Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG. Coord. apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes.NEA/UERJ SENHORA DA CASA. O segundo como divindade. apesar da inconstância. Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). 281 190 . Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity). Assim sendo. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. o que Prof.C. Por último a mulher na condição de monarca. Momento em que a mulher. Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). 19a e 20a dinastias.

pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito. Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. Elemento igualmente interessante era o matrimônio. Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. 1993: 2). todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas. Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades. Assim. De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. esposa do faraó Akhenaton —. 2000: 104). rainhas ou parentes próximos).MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar. com o general Horemheb que assim. Assim sendo. Assim sendo. os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 . Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti. tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher.

Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores.) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz. é possível. senão já teria escrito à minha mãe.).C. Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele. Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. seja ele masculino ou feminino. Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele. Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134). 2000: 301-330). perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO. 1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro. Assim. 192 . sou tomada pelo amor que sinto por ele. De fato ele é um tolo. Por outro lado. através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO.C. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras. Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços. o tormento apodera-se de mim. Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum. mas sou como ele.NEA/UERJ VIII a.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. ―sair para fazer compras‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. para que contemple tua beleza. Em certa medida não é tão diferente de hoje. ó meu irmão (ARAUJO. Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . toda minha família te aclamará em uníssono. sobretudo. entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. eles te aclamarão. que no caso da mulher. pode não configurar uma prática de contratos sem amor. 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. 1990:5). bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. cuidava do lar e dos filhos.NEA/UERJ Ó. Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. mas 193 . pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio. à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades. Ou mesmo ―escolhendo-o‖. meu irmão. meu pai e minha mãe ficarão encantados. É claro que a posição social. e como tal. cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. as causas poderiam ser relativas ao adultério.

Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. 194 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt). Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos. pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso. 2400 a.C. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos. o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância. Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. 1990:5). (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt). mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade. mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos.NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia. Mênfis. Assim sendo.). Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. Apesar de raros. algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia. Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas.

Em um dos mitos relativo à deusa Isis. Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. característica específica de deuses como Ra/Atum. e Tefnut. Por outro lado. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. 195 . Em outro mito. obtém do deus Ra seu nome secreto. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina. pois esta havia se voltado contra ele. Thot. o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e.NEA/UERJ Hermópolis. Isis faz o impossível. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. a grande maga. embriagando-se ao bebê-lo. Ptah. Tebas e Elefantina. O deus Ra. no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. 2000: 93). através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. representação da umidade e de aspecto feminino. neste contexto. Ou seja. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. o poder de Ra. foi posto um fim a destruição (GRALHA. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar. O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. este casal gera Osíris e Isis. possuía o aspecto destrutivo do raio solar. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim sendo. é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. o que confere um poder significativo a Isis.

sobretudo após o seu falecimento. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. 196 . fossem cultuadas como divindades. não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres. LESKO. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). notadamente rainhas. 1994. (ver NOBLECOURT. E ao que parece. a deusa Ahmés-Nefertari.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entrada para as 12 horas da noite. Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. Na estela abaixo. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida. com apoio de sua mãe. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. prosperidade e saúde‖. a rainha Ahmés-Nefertari. Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste.

197 .NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari. 2002: 98). entretanto. e o caso de Nefertiti. que ao se tornando faraó. estabeleceu seu culto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . É o caso de Hatshepsut. 1993: 123. que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. GRALHA. O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum. O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. rainha do faraó Akhenaton. o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas.

Na primeira. fazer incenso) incenso para Amon-Ra. Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut). Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em um segundo bloco. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo. entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois. far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida. O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca. A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon. Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. Nesta cena. 198 .NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. O caso mais conhecido. Thutmés III.

ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. algumas rainhas teriam sido faraós. Hatshepsut. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. a tríade da religião de Aton era invertida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono). dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton. Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. Para que tal possibilidade fosse afastada. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus. Thetisheri (17ª dinastia). era necessário que o futuro monarca. não configurando usurpação e muito menos regência.) O Egito. Ahmés Nefertari. pudesse estar ligado às duas linhagens. Tiy. não poderia ser palco de um novo conflito. Pela primeira e única vez. ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. Segundo Gay 199 . como deus único. filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. ou seja.NEA/UERJ No culto de Amarna. Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo. No entanto. Torna-se mais claro. Nefertiti (18ª dinastia).C. Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica). os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. Ou seja. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. agora interno. o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião. Contudo. mãe de Queóps (4ª dinastia).

pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei.). 5354). a tese de Amanda Weidemann (UFF. 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a. esposa de Akhenaton. 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. a posição de rainha. com o jovem rei Thutmés III.C. Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. É possível. Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993. não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP. com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993. Mãe. Esposa.C. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti. 44-51). 200 . através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó.C. uma forma de monarquia dual. Como rainha ela parecia ter grande poder. que a idéia de um governo conjunto. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados. 2005). 139-140).NEA/UERJ Robins..). dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa). Filha. 2007) O culto a Arsione II Filadelfo. não configurando uma co-regência tradicional. Entretanto. e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF. complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000.

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foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura. de seu cotidiano e de suas percepções e valores. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp. étnicas. a história daqueles até então dela excluídos. Professora da Universidade Sagrado Coração. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples. focos de minhas análises. Nesse ambiente. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. à masculinidade e ao conceito de sexualidade. uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes. Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes. tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. sexuais e de gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof. em sua área de conhecimento. Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir.ª Dr. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. já não mais limitada às expressões das elites brancas. Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo. título desse livro. bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade. 282 203 . religiosas. Bauru/SP. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas.

as estátuas. 244-266. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos. E. Passato Prossimo. Michigan: Ann Arbor. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. a iconografia. Donne in Atene e Roma. formas de atuação política e os fundamentos. 1987. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. The public role of Pompeian women. 3. a numismática. as tumbas funerárias. também ganharam valor documental as inscrições. e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. D.283 Embora em menor número. p. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e. Phoenix. Donne romane da Tacita a Sulpicia. Milano: Feltrinelli. composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. Com esse olhar. 1978. bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. CHERRY. n.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a busca de maior liberdade. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. Torino: Giulio Einaudi. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. desde então. v. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. S. Sobre a História Antiga Romana. 204 . 1990. BERNSTEIN. 44. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. 1998. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. S. CANTARELLA. no Estado e no espaço público.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. além dos tradicionais escritos oficiais. F.

M. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. AJAH. p. LEVICK. B. 185-201. apresentando diferentes e mesmo DUBY. v.. v. pp. TREGGIARI. In: HAWLEY. 1993.) História das mulheres no Ocidente. London: Routledge. P. PERROT. Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. In: Schiavitù. H. MURNAGHAN. S. (Eds. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. Roma: L´Erma. M. S. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século.) Women‟s life in Greece and Rome. N.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias.) Women & slaves in Greco-Roman culture.. 1976. R. pp. Tradução de Coelho. 4. London: Routledge.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1982. 1.. Berlin: Mann. H. AJAH. desde a década de 1980. Jobs for women. KAMPEN. 205 . Questions on women domestics in the Roman west. Women in Antiquity. 1. mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. et alli. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. A. S.284 Entretanto. Questions on women domestics in the Roman west. M. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. G. 47 bis. 1981. 12691278. p. LeGALL. In: Schiavitù. A Antiguidade. 1981. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História. 1992: 09). Roma: L´Erma. livres e escravas  em seus ofícios e na política local. 1976. aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. V. 1. Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO. Image and status: Roman working women in Ostia. R. S. TREGGIARI. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. FRANCO. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. LEFKOWITZ. 1995 e JOSHEL. 1981. 284 Cf. M. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. 1970. FANT. KATZ. C. Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum. J. Jobs for women. (Dir. Porto: Afrontamento. 185-201. 76-104. M.. TREGGIARI. S. 76-104. S. 123-130. G. 1998. 2000. TREGGIARI. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. (Eds. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. R. P. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. REL. B.

a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. 1998 e Bessa. justamente. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. Com isso. Feitosa. É justamente nesse ponto. para além das essências. A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. pode-se citar Costa e Bruschini. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. Desta maneira. A distinção está. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. 1992. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. tanto no Brasil como no exterior. Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino. fixas e universais. no tratamento privilegiado das mulheres. Silva. grupos étnicos e tradições culturais. Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. o papel de comando e domínio. sexuais.NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes. 285 206 . onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. Pedro e Grossi. 2003. nas relações Como exemplo. 1998. elas são diferentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. 1998. Funari. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas.

―mas das disputas. Em função disso. ver Scott.. Nesse aspecto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de um poder masculino sobre o feminino. faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher. 1988 e 1995. as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher. Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas.. resultantes não de um consenso social. Nesse aspecto.287 Como enfatiza Matos. denunciada pelo feminismo. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. Piscitelli. muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. Formuladas entre os grupos sociais. Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero. de seu uso para a sociedade romana antiga. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT. uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289). a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. 2009. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. Para Jean Scott. dentre outros aspectos.NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. Western. Baxter. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder. em nível discursivo e social. 287 207 . ou não. 2001. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . 1995: 88). ―existem muitos gêneros. gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele.

A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. egípcios. 1992: 35. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. béticos. Esse imenso império emaranhado de latinos. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d. complementares ou de prestígio (MACHADO. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. pode-se considerar que as relações de gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. ou seja. masculino. O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖. apresenta diversidades jurídicas. entre tantos outros. neutro e consensual. 2009: 287). gálatas. étnicas. por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. MATTOSO. conferindo-lhes um sentido descritivo. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. Desta maneira. com grande variedade de povos.NEA/UERJ 1995: 86-87). 1995: 180. sexo. dácios. 1994: 44). Contudo. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. Diante disso. Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. 2009: 283). de idade. 1997: 13). além dos vínculos de poder. germanos. que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. a da existência do feminino e do masculino 208 . Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. SKINNER. 1988: 192). podem ser de reciprocidade. obscurece a percepção de diferentes poderes. mas presente na trama histórica‖ (MATOS. gregos. econômicas.

Libertos. livres. L. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. 2010. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. ou com a homossexualidade (MATOS. como nova categoria. Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas. noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. escravos. e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. 289 Cf. 2005 e Feitosa e Garraffoni. p. é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. Boswell (1990). mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher. com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1990: 595-596). por exemplo. de 1997. 67). que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. A ênfase de Skinner. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado.288 Destarte. Feitosa. cf. desocupados.. 1997: 25). já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino.NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. Aliado a esse. with special attention to finding evidence of how marginal populations  women. 2009: 289). C. Para Maria Izilda Matos. slaves. parasitas da elite. é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order. 288 209 . dominadores e virtuosos. enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes. Hallett e Skinner (1997). das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto.

à medida que a atividade ―lícita‖. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. por exemplo. Assim. Segundo Walters. a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. músicos e corredores de bigas. 1981. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. por exemplo. tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. e a partir de uma determinada prática sexual. Se. também. 3. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. libertos. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. Além disso. Grimal. Justiniano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em restrições jurídicas e políticas291. Autores modernos como. terra. ator. a integridade do Vir consolidar-se-ia. ―normal‖. diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. 2. que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. cf. O simples fato de ser gladiador. por um lado. mas de idades e categorias sociais diferenciadas como.NEA/UERJ profissionais. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. 1997: 30). por outro. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. por exemplo. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. prostituta ou dono de bordel já implicava. por exemplo. 290 210 . Cf. a iniciar por sua própria identificação. Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). D. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. Garraffoni 2005. Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001).

Embora satirizado por Suetônio. pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares. 1997: 51). um dos mais importantes da política romana. solteiras ou viúvas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que. 211 .NEA/UERJ aristocráticos. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. o pensamento dessa elite romana. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. que indicava a não penetração de outro cidadão. em De vita duodecim Caesarum (I. segundo Suetônio. L). o que punha todas as mulheres em condição inferior. Desta maneira. Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. e de mulheres aristocráticas. publicamente. à superioridade bélica. casadas. Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. jovem ou adulto. bem como a conquista. A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem.

CIL. 4227. 295 Pomari . Aliarii. Efusivas declarações podem ser encontradas. IV. 241. 2966. 180. vendedor de roupas e jóias294. CIL. CIL. 3478. CIL. IV. IV. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam.MULHERES NA ANTIGUIDADE . CIL. 5380. 206. em suas escritas. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. comentado a seguir. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. Aurificis. dentre aqueles que partilhavam desse universo. 480. 3529. IV. 368. CIL. 373. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. IV. cotidianamente. IV. IV. IV. CIL. 4888. Inserida e construída nesse âmbito do labor. 485. aproximando a vida de populares à condição de infamia. Culinari. Unguentari. a funções autônomas de professor. IV. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. 202. 275 (professor). 373. 3130. Entretanto. 429. Caupones. 7749. 293 294 212 . 4472/3 (Oficina dos Atti). padeiros. 3485. Galinarii. como esta deixada a Taine. Muliones. CIL. 134. 998. IV. CIL.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. Pistori. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. Lignari. Agricolae. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. CIL. alfaiate. 183. 97. IV. lenhadores. ajudantes de cozinha. CIL. IV. IV. tecelões. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. vendedores de alho e de aves. 2005: 184). Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). de vitória. ourives. 4102/03/07/09/12/18/20. 336. 710. na parede de uma casa: Cf. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. 7669/71/74 (joalheiro). 490. o mundo do trabalho. 609. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. CIL. cocheiros. oficinas e padarias293. 4100. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. 960. conotações diferentes às aristocráticas. 113. perfumistas. CIL. 951. IV. CIL.

IV. IV. 8137) Oxalá pereça. domina. I 9. minha dulcíssima amada. Desta maneira expressou-se Secundo. ut me ames (CIL. ou que foram um dia neles conquistados. As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas. Já na inscrição CIL. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. Amo tanto a Taine. senhora. 1. 8364) Secundo a sua querida Prima. Peço. 213 . em uma linguagem simples e direta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por meio do relacionamento amoroso. 4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. doce amor. feitas por homens que. 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf. uma saudação cordial. em obras da historiografia. Rogo. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). Am. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. pedem o amor da mulher estimada. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. IV.NEA/UERJ Dulcis amor. indicado no próprio CIL. IV.

no desejo. IV. A frase de Fortunato. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. Cirurgião. além de indicar a satisfação de um conquistador. 37. vi e venci Antusa297. Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. uini.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na tarefa de focar a diversidade.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. Suetônio. cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t. A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito. ou idealizados por eles e para eles. Mas. uidi. Calpurnia te diz. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. Assim. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. Val(e) (CIL. hinc vine veni vide Anthusa (CIL. Aqui vim. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. o local e o específico. IV. o heterogêneo. Saudações. 230) Fortunato fodeu. interagiam em ambientes de trabalho. de lazer e por meio das paredes da cidade. Inscrição encontrada na Casa do 214 . 297 César: ueni. na Via Consolare.

mas também por meio das sensibilidades..]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos. segundo Scott. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. nem só pelos movimentos demográficos. [. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183).NEA/UERJ cotidiano. atitudes e embates em suas relações sociais. econômicas. é preciso reescrever a História (MATTOSO. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos. formulam múltiplos vínculos. na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. Assim. a questão de gênero. conceitos. mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais. ambigüidades e obstáculos. embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. mas de estudá-las em conjunto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a partir de seus valores. o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . Portanto. mas relacional e analítica. masculinos e femininos. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens. ou seja. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖. comportamentos. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. das sociabilidades. Como considera Mattoso. das tensões. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. do imaginário e do discurso. visões e espaços sociais. Desta maneira.. culturais e políticas.

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de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 . portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. La muerte en los ojos. 300 Esta introducción.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no sólo desde una perspectiva política. consagrada a la virginidad eterna. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad. tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico. distancia que debe medirse Prof. la que recorre los bosques. Buenos Aires. 299 Vernant. histórica o económica. hermana de Apolo. intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES.. la Salvaje. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata.ª Dr. acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja. J. sino desde una dimensión antropológica. Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo.299 A. 2009.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto. donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural.200. Es la cazadora. P. no campo da Filosofia Antiga.ª Dr. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo. la Parthenos pura. Prometeo.

y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. el modo de aproximarse o de alejarse. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. lo semejante y lo desemejante. de considerarlo. en primer lugar. Antropología de la Grecia Antigua 220 . aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. La problemática transita. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. sin duda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . L. en el modo de concebir al otro. la continuidad y la discontinuidad. raro.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. fundamentalmente. A partir de esta tensión que borda la trama cultural. que se juegan. La metáfora impacta. inédito. Es esta distancia lo que determina los dos planos. incluso por el propio temor. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. poco común. por una dimensión ontotopológica. Pensar y 301 Gernet. A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301.

al tiempo que niega esa extrañeza radical. su paradojal fascinación y su inusual presencia. puntualmente en el topos de Artemisa. lo legal y lo ilegal. identidad. extraño por extranjero y extranjero por extraño. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. regido por las pautas de la semejanza. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. conservación. desde su lógica áltera.NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad. homogeneidad. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. tópico que hemos puesto en juego. familiar y conocida. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. lo moral y lo inmoral. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. A la luz del marco teórico precedente. horadando las certezas que lo Mismo otorga. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo. en el límite. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. Lo normal y lo anormal. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. en el margen donde claudican las propias certezas. 221 . en su doble acepción de lugar y condición.MULHERES NA ANTIGUIDADE . una diosa ―aparentemente‖ marginal. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. alejándose del imaginario que ella misma genera. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad. que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad.

W. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna. se relaciona con los hiperbóreos. enlazada con la lógica del parto. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. Tal como sostiene Otto. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. 50. Los dioses de Grecia. Artemisa: las huellas de la distancia. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. Otto. Diosa virgen.NEA/UERJ B. sin ser ella misma madre. y. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. no obstante. 67. maternal y delicadamente solícita. Presencia paradojal que. La misma distancia habla de su condición virginal. p. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. W. es ella quien preside la ritualidad femenina. p. Los dioses de Grecia. tensionando la díada cercano-lejano. desde la distancia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Alejada de la función materna en su calidad de virgen. al igual que su hermano. alejada de todo contacto. Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino. tal como la describe Otto. sólo pobladas por animales salvajes. La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías. 222 . cumple una función íntima. ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función. que sí se 302 303 Otto. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. Diosa vinculada a la naturaleza. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal. no es la gran madre universal. solitarias. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. Del mismo modo. delinea el topos de lo Mismo.. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes. de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. tal como hemos intentado referir. sino instituyentes del topos identitario. a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. se juega en los márgenes de la lejanía. Artemisa. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. no obstante. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. Alejada del matrimonio. una diosa civilizadora por excelencia. tanto del individuo. como términos constituyentes de la configuración identitaria. Artemisa es una divinidad que. como de la sociedad en su conjunto. donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. es. en última instancia. Términos no sólo constituyentes. asimismo. Dicha configuración se articula. en su identidad civilizadora. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 .NEA/UERJ entregan al amor. La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. en el marco de la lógica identitaria que se impone. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. de la dominancia de una sobre otra. C. de los lugares poblados. Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. lo civilizado y lo salvaje. y.

no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos. la tierra cultivada de la no cultivada. que instituye la custodia de los territorios. entre un topos firme. Artemisa civilizadora. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios. o bien permanece. como los pantanos o las ciénagas. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. se ha retirado. de distinta densidad topológica. la geografía humanizada de la no humanizada. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. pero también de distinta densidad antropológica. deviniente y móvil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Así. El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado. sino un conjunto de lugares liminales. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. o bien. a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. lo culto y lo bárbaro. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada. lo humano y lo salvaje. el espacio otro es el espacio no cultivado. marcados por la noción de límite.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. de margen que delimita espacios heterogéneos. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras. dejando un topos anegado. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. donde el agua. El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica. asiento de la ciudad y otro acuoso. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. lógica 224 . de confín. capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores.

implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra. Se trata de una acción cosmificante. Lejos de ser un territorio improvisado. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico. prepara el pasaje al meson. el matrimonio. configurando sus límites. disponer. en un topos donde se coloca lo que es de todos. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige. gobierna y manda sobre todos los espacios. 304 225 . gobernar. el parto. preparar. convirtiendo a la ciudad en un espacio común.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. la ciudad es un kosmos. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica. los mismos y los otros. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que. desde cierto lugar marginal. El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . La ciudad tiene sus exigencias. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. Artemisa ordena el espacio. Ordenar. La ciudad es un espacio reglado. arregla las condiciones del tránsito. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. la batalla. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. que responde a la anarquía del azar. D. guardiana del orden. arreglar. celebrar. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. que exige orden para su constitución y organización.

en tanto involucrada directa en el orden de la misma. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. entonces allí están los hermanos. puede consultarse el libro de Marcel Detienne. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. ya que su acción es productora de efectos. por su propia precariedad antropológica. también vela por el triunfo de la sophrosyne. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica. la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. En cierto sentido. desde sus peculiaridades identitarias. el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. entre lo humano y lo bestial. constructor de ciudades. En el marco de la expansión colonial griega. Apolo con su función legislativa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 305 226 . Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. rasgos que suponen. es. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. la guardiana del orden. desde sus territorialidades singulares. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano. entre lo mismo y lo otro. Apolo con el cuchillo en la mano. hijos ambos de Zeus y Leto. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. Esto abre una dimensión política de la diosa. a su vez. Interviene allí. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema. Si los hombres. como su hermano. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad. Artemisa política. en su dimensión de nomothetes. en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. no saben delimitar fronteras. reconocer al Apolo de los caminos.

Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. Aretemisa es la gran conductora. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. 24. de la niñez a la adultez. El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. p. D. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone. la batalla. de la vida misma. Es una justa entre hombre y bestia. conductora del parto y por ende. lleva de una orilla a otra. para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. La muerte en los ojos. la oportunidad. Artemisa preside la caza‖306. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. el momento oportuno. sino también la guerra. observa que se cumplan sus regulaciones.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. produce el pasaje de un estado a otro. educa a las niñas en vista de su formación de esposas. por ejemplo. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos.1. dirige la transición de una categoría a otra. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. Como otras tantas actividades que la vida social propone. la coyuntura favorable.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre lo humano y lo no humano. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación. Artemisa conductora.P. de convertirse él mismo en presa. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos. J. para medir la conducta del varón prudente. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. 227 . Es el espacio de consolidación de la virilidad. es el kairos. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura. celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento.

aunando en su función la dupla saber-poder. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. J. Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. a la adolescencia. lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. culturalmente valorada y socialmente observada. vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. más precisamente. la función de la diosa es imprescindible. lo incivilizado y lo civilizado. 24. Artemisa conoce las reglas del tránsito. El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede. como digna hermana de Apolo. por así decirlo. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral. Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque. Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro. Artemisa no es el salvajismo.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas.P. D. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan. p. La muerte en los ojos. Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. porque la caza permite atravesarlas. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. Artemisa legisladora. lo bestial y lo humano. 2. 228 .

La función de la diosa es altamente calificada. frontera entre dos topoi. como la diosa. de la niña a la parthenos. antes de dar ese paso. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. La función tampoco conoce de sexos. y el mundo adulto. espacialidades y roles atribuidos. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa. Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. una vez más.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil.NEA/UERJ sueña. 308 229 . virgen. como estructura isomorfa308. ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. Una vez más su lugar es el topos de la frontera. pura. La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano. sociopolítica. los jóvenes. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. Del niño al joven. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. funcional al dispositivo político. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior. Su función se vuelve. como ciudadela a proteger y el orden del oikos. casi animal. categorías. estatutos. como arte de administración del oikos. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería.

despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina.P. J. En efecto. las bestias de los hombres. lo animal y lo humano. abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. Facilita la entrada al mundo de la mismidad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 230 . vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. 25. la consolidación de lo Mismo. p. distingue. La muerte en los ojos. esto es de la condición de niña o cachorra. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. discierne. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito. distingue entre lo femenino y lo masculino. Para ello. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente. Artemisa pedagoga. Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. En cambio. al configurar las consolidaciones identitarias. Artemisa instituye.NEA/UERJ liminar. lo niño y lo adulto. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. plasmada en la organización de la ciudad. incierta y equívoca. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. instalándolas en la comunidad civilizada. los jóvenes de los adultos. sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. asume el campo lexical del verbo krino. para hacerse osas. distribuidoras de roles y funciones. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. D. reglada por sus instituciones. No sólo al pasaje de estadios y registros. 3. Conductora del tránsito. Alejadas de sus hogares. obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. en última instancia. todavía no están cristalizadas309.

ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante. En efecto. la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. guerra. Presente en la caza. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual. parto. conductora del parto y del nacimiento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 231 . Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. articulada con el nacimiento.NEA/UERJ misma. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. visible en el parto. preside el parto. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. caza. Artemisa es una diosa nomádica. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. desde la primera infancia. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. la única capaz de parir. matrimonio. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. insistente en la guerra. el alumbramiento constituye el momento más animal. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. hasta la madurez del alumbramiento. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia. La Artemisa Lochia. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. pasajes. acompaña el desplazamiento. más sanguíneo de la institución matrimonial. confusa. las bestias devuelven su rostro otro. Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. completando su función de nodriza. Artemisa.

Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. bestial. despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia.parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. 4. en el inicio de una vida atravesada por la cultura. imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar. Si Artemisa cumple una función socio-política. al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. La muerte en los ojos. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta. natural. Su contacto con la animalidad. gemidos. aunque. en un primer momento. el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería. 29. D.P.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. 232 . es ahora la mujer la que. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. marcada en el presente trabajo más de una vez. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. El parto es el momento oportuno. dolores. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio. p. imágenes de ese mundo salvaje. no civilizado aún. gritos. J.

velando por ella. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. en ese ámbito Otro. observar. p. Mucho ha costado delimitar las fronteras. vigilar. atender.MULHERES NA ANTIGUIDADE . y la impulsan brutalmente al salvajismo311.P. precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica. mantener. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. 30. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. guardar. 233 . Artemisa cumple. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. conservar. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra.NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. estar de guardia o centinela. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant. una vez más. hybris. ni subjetiva. con el imperativo del verbo fulasso. tener cuidado de. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa. por su posible des-orbitancia. ni territorial. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros. proteger. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado. ni moral. J. La muerte en los ojos. dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. Guardiana de los órdenes. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. estar en guardia o con cuidado. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. custodiar. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos. Artemisa guardiana. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico. Magnífico abanico semántico. Por ello debe velar Artemisa. El salvajismo constituye un estado otro.

Tal como sostiene Vernant. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. el deguello sangriento de la bestia. Conclusiones Sin duda la Antropología. de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas. no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. en el momento crítico. La muerte es también un acto cultural. La muerte no escapa a las generales de la ley. de una muerte salvaje. La problemática transita por una cuestión topológica. […]en la intersección de los dos campos. Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. tanto desde el pasado como en la actualidad. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad. Por lo tanto allí está Artemisa. la paz y la batalla.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana. 31. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. la sphage. territorios. La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. según su cualificación antropológica. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. E. en una situación liminal. con su esbelta talla.P. J. velando por la lucha digna. 234 . p.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 312 Vernant. La muerte en los ojos.

como Grund. entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. inconmovible para toda construcción identitaria. exclusión. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia. con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. supone cierta cartografía. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. 313 Vernant. Cazadora. Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo. como modo de conjurar su peligrosidad. cierta distribución de los sujetos en el espacio. territorializarla y manejarla tecnológicamente. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. 31.P. La otredad no escapa a la regla. de la extrañeza. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder. secuestro. territorios. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme.MULHERES NA ANTIGUIDADE . partera. p. se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad. cimiento. salvadora de la guerra y la batalla. En el corazón de esta preocupación. Los topoi. nodriza. La muerte en los ojos. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. Visibilizarla. J. que incluye prácticas de internamiento. 235 . o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. espacios.

Librairie Garnier Frères. Akal. Los dioses de Grecia. W. C. Taurus. s/d REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLOMBANI. Antropología de la Grecia antigua. 1999. 1969 OTTO. Barcelona. ______. 2001. F. 1973. Las Palabras y las Cosas Siglo XXI. 236 . Taurus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Buenos Aires. Editorial Gredos. FOUCAULT. 1968 GARRETA. VERNANT. Buenos Aires. . M. M. Mito y pensamiento en la Grecia antigua. 2000. Paris.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL XENOPHON (Jenofonte). Madrid. Buenos Aires: Editorial Caligraf. Madrid. Maestros de Verdad en la Grecia Arcaica. Foucault y lo político. Prometeo. Historia de la religiosidad griega.Apolo con el cuchillo en la mano: Una aproximación experimental al politeísmo griego. Madrid. 1986. 2001. México.C. C.E. Madrid. Textos de Antropología. Anabase. ______. Buenos Aires. M. NILSSON. M. Ariel. La muerte en los ojos. Editorial Eudeba. 2009 DETIENNE. 1981. M. P. La trama cultural. y BELLELI. L.Èconomique. GERNET.-P. J..

gratidão e reciprocidade. 28-35. Charis e philia. 1. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão. nomos. Sobre o assunto da datação da Hécuba. R. condicionar a opinião pública. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. segundo uma perspectiva individual e colectiva.ª Dr. desde logo. Stanton (1995). vide R. colectiva e pessoal. Com a ruína. baixam os braços. G.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Schubert (2000). 96-99. philia. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. enfim. os princípios que a tradição consagrou. e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. Meridor (1978). em primeiro plano. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate. por exemplo. 11-33. aliciar o apoio das massas. 1. 315 Embora a data da peça não seja precisa. 314 237 . com insistência. tudo indica que seja anterior a 423 a. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. perante os Aqueus vencedores que. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. lá se detêm. 1. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA . Em diversos tons e contextos. ‗Hecuba‘s revenge‘. C. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. Mnemosyne 48. coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala. no acampamento aqueu na Trácia.A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. dike. American Journal of Philology 99. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes.ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. axioma são avaliados na pureza do seu sentido. impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. vide P. o quadro e os agentes que interagem. É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. tornam-se polémicos. valores como charis. de regresso à pátria. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316.

Hécuba. o exemplar completo do retórico contemporâneo. a solidariedade. ou permeada de afecto. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. 669 -. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. sem pátria‟.NEA/UERJ sobrepõem. impõe-se um conflito de culturas. perante a homenagem devida a Aquiles. com Agamémnon. a velha rainha de Tróia. cativa. estrangeira.MULHERES NA ANTIGUIDADE . decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais. sofre do mesmo mal. como um processo de alianças políticas. onde Gregos. Mais do que envolvê-la. Troianos e Bárbaros se polemizam. com habilidade oratória. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). No meio do mesmo descalabro social. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. susceptíveis e frágeis na sua contingência. Entendida. um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana. despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro). que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. como se os grandes princípios universais. Por fim. O que vale a vida de uma jovem. símbolo extremo da ruína humana. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. um traço superior de civilização. em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos. para mais mulher. o 238 . inimiga. a philia torna-se um processo destrutivo. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. Entrelaçada com charis e philia. de respeito pela vida e coesão humanas. o primeiro dos heróis. se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. sem marido. prática e salvadora.

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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M. Helping friends and arming enemies. além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. o seu novo interlocutor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. Cf.. para Eurípides. Entra naquilo que Ch. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . Cambridge. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. Steidle (1968). igualmente bárbaro. Transactions of the American Philological Association 120. vingativa. e que se repete. como é a posição defendida por W. Transactions of the American Philological Association 14. Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. cit. activa. The Athenian homicide law in the age of the Orators. J. 109. o motivo retórico que cruza a peça. op. G. designa por factores de ‗unidade temática‘. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. Schubert. Blundell (1989). ‗Hecuba and nomos‘. de contrapor. D. Conacher. Como se. Nussbaum (1986). mais ou menos incoerente. uma outra. cf. P. Studien zum antiken Drama.NEA/UERJ amigo e aliado. 416. na sua aposta. M. 30-44. 320 246 . Kirkwood (1980). Hécuba muda simplesmente de tom. determinada. D. o chefe supremo dos Aqueus. de dois temas distintos. A study in Sophocles and Greek ethics. se. a philia exige um código retributivo. quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. ‗Violence and the other: Greek. Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. mesmo assim. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima. no seu desrespeito pela vida Como é sabido. a uma primeira Hécuba. Munich. 1-2. Segal (1990). Cambridge. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse.. W. passa a dar prioridade à vingança. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. M. M. no código moral grego. cf. Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. op. 322 Na verdade. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância. 87-88. MacDowell (1963). cit. 321 Não se trata. com simetria de argumentos. 1. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem.

sob as aparências. com ele. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. cit. coloca o desrespeito pelos mortos. Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia. após a impiedade e o assassínio. E numa escala ascendente. que traz enfim ao de cima. o seu lado mais tenebroso e. Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. The heroic Muse. na alma da rainha de Tróia. mas. mais uma vez. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. 323 247 . uma argumentação pragmática e amoral.. do convívio à sua mesa.‟ Dentro de igual princípio. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. Baltimore and London. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. e da distinção de uma afinidade particular (793-796). de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805). Torna-se.NEA/UERJ humana. op. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. ‗a lei‘. absoluto. nomos. que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos. Como afirma D. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi.MULHERES NA ANTIGUIDADE . evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. usados para com Ulisses. a súplica. deixa os Gregos insusceptíveis324. agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . 324 Segal. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. superior a todas as hierarquias humanas. 83. 124. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). mas que vence. incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem. é um valor divino.

como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços. as noites partilhadas. por interesses pequenos e condenáveis. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio. Hécuba remata num apelo. cit. respeitador dos princípios da piedade. como podem ser distorcidos e amesquinhados.MULHERES NA ANTIGUIDADE . comprometido. todos a um tempo. Philia é. como Ulisses. O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). aos teus joelhos.philia e charis.NEA/UERJ ao seu dispor.. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. Na sua nova abordagem da causa que defende. perante o exército. encarnada num gesto falante de súplica. teria todo o prazer em agradar a Hécuba. se vê enleado em compromissos. 832)325. se não parecesse. 123. na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita. neste caso.. mas ao retomá-los. contra Polimestor. a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. nem da sua hierarquização em sociedade. mãos. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). cabelos. pés. justiça e hospitalidade (852853). charis. os abraços de amor (828829). peado por Segal. Mas pouco importa. discreta e apagada. do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social. vou usá-lo‘. o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça. Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri. uma última palavra. na rhesis de Hécuba. com todo o tipo de argumentos‘. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio. mas também ele. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. como a desejável punição para quem prevarica. op. Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. A passagem abrupta. E só depois do fulgor desta Persuasão. Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860). é ainda devida à justiça (844-845). o apelo a Cípris. mostra como são relativos no seu mérito. mantém-se fiel aos valores em discussão. por entre lágrimas e apelos. sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. 325 248 . para se prenderem. o reconhecimento face a uma amante. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. por artes de Dédalo ou de um deus. quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita.

cada argumento do adversário (1187-1196). em momento de crise. como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. à luz da evidência. Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político.MULHERES NA ANTIGUIDADE . É simples a intervenção de Hécuba. Resta um último agon. suprimindo-lhes de vez o inimigo. parece. Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. De resto. a philia. a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . invocado como justificação para um assassinato. despojada de argumentos. 1175-1177). orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados. A philia invocada por Polimestor. por qualquer habilidade retórica. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada.NEA/UERJ interesses em conflito. e um gesto de protecção para com o seu povo. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. a verdade crua. que é. O bom senso e uma louvável prudência (1137). Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. pura falácia (1197-1201). os senhores de Tróia (1228-1232). com cuidadosa simetria. Polimestor não pode. só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime. em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). como ponto de partida para o argumento da legitimidade. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136). Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. no meio de uma controvérsia de valores. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. com Agamémnon por juiz (1129-1131). que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. uma evidência. tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235). assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144. no limite. Hécuba desmonta. quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. Despida de uma capa de dignidade. entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito. chama-se ‗ouro‘. Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. entre Hécuba e Polimestor. negar o homicídio de que é acusado.

Mnemosyne 48. 1. 1. M. Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva.MULHERES NA ANTIGUIDADE . SCHUBERT. Classical Quarterly 16. 1961. American Journal of Philology 99. Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. porque à ventura. Transactions of the American Philological Association 14. 250 . ‗Hecuba and nomos‘.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira. STANTON. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. compete representar um nomos tradicional. 1. 2000. G. é óbvio que aos primeiros. Lisboa. 109-131. C. BLUNDELL. W. opõem também Bárbaros contra Gregos. ______. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. ‗Violence and the other: Greek. Cambridge. J. F. Baltimore and London. G. 30-44. SEGAL. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. MERIDOR. female and barbarian. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. 193-219. não faltam os amigos‘. Helping friends and arming enemies. The heroic Muse. quando encarnados pelos Troianos. 11-33. 2005. W. M. SILVA. 1-26. R. 120. que. American Journal of Philology 82. R. 28-35. Ensaios sobre Eurípides. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. Transactions of the American Philological Association 1990. 1987. 1989. ‗Euripides‘ Hecuba‘. M. NUSSBAUM. 1978. 1966. D. A study in Sophocles and Greek ethics. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘. incapaz de persistir nos valores solidários. KOVACS. 1995. In Euripides ‗Hecuba‘. M. A. Cambridge. ‗Hecuba‘s revenge‘. H. enquanto dura. P. CONACHER. D. além de confrontarem comportamentos e princípios. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. 'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. 1986. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. 96-99. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS. Eranos 81 (1983) 13-20. KIRKWOOD. 1980. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64.

326 251 . marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖. Além disso. Era necessário que se apontasse.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga. distorcendo a realidade sobre a família árabe. impedindo. que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. muitas vezes. o perigo da contaminação doutrinária. Desta maneira. evitando assim. muitas vezes. Na campanha difamatória. uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖. a questão sexual.ª Dr. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo. sem dúvida. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade. ganhou uma grande importância. a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos. Maomé era retratado como um lúbrico ancião. formando a Umma. a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta. como no mundo contemporâneo. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. Mas. Nesta estratégia. Ela era a base da própria identidade coletiva. ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Após a sua morte. A demonização do ―outro‖ é.

A pesquisa em outras fontes. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . egípcia. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. judaica. além de permitir a poligamia. não gozavam de nenhum direito. podia comerciar e dispor de seus bens. a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. daremos o devido mérito ao Profeta. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. O Profeta quis proteger a mulher. Tal fato não deve causar admiração. isto nem sempre tenha ocorrido. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. ao contrário do que se pensa. persa. A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. tentou melhorar a situação da mulher. pela própria natureza das fontes. Assim. herança mesopotâmica. na prática. Embora. pois isto significava uma perda financeira. cujos autores eram soberanos e vizires. A partir da época dos abássidas. quando da consumação do casamento seria entregue a esta. O costume tribal. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. Sabemos que o Profeta. helenística e. A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. até mesmo caucasiana. Os homens podiam casar-se 252 . devido pelo homem à mulher. Maomé para evitar isto. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. o que de certa maneira. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. sendo considerados meras propriedades. se um número expressivo de meninas nascesse. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo. embora.NEA/UERJ ocorre. Para muitos. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. redigidos numa linguagem pública e oratória.

graças aos lucros auferidos na atividade comercial. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. Pelo menos. na qual Maomé havia nascido. era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. Mas. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade. como já acima já mencionamos. Mas. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação. dividindo com estes a mensagem recebida. 253 . tratando-as com crueldade também deve ser repensada. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. Foi deste modo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão. é o que podemos depreender . Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. embora. podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. para que o aconselhasse. embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. principalmente. que lhe propôs o casamento. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. e. pois se para os olhos da cultura ocidental. á dos coraixitas. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. já havia enviuvado duas vezes. Khadija. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas. assim se chamava ela. Mas. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão.

Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. discordando assim da postura de seus maridos. tendo o casal tido seis filhos. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional. Mas. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. Assim. mas no caso de Khadija. O que aponta para isto é o fato de que.. Contudo. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca. Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. entre os que apoiavam o Profeta. Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e.NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. se para nós. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. como Taif. isto. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e. mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva. mas também em cidades . até então havia lhe conferido o status de Deus único.MULHERES NA ANTIGUIDADE . onde existia um importante templo da deusa al-Lat. 254 . quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. mas ninguém. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa. Assim. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval.

de uma vez por todas. prima e cunhada de Suhayl. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa . chefe dos Amir. uma criança de seis anos de idade. constituindo-se a monogamia numa exceção. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta. A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. embora para alguns estes possam parecer estranhos.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. imagem esta que. Abu Bakr. 255 . Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. Contudo. Assim. a qual não contou com a presença da noiva. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade.nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. muitas vezes utilizado para promover alianças. a sua filha Aisha. o que não causaria nenhuma estranheza no meio social.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. ao longo do tempo o criticassem e. o tio de Maomé. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente. mas tentando aproximar-se dele. -. de forma nenhuma corresponde à realidade. uma vez que a poligamia era uma prática comum. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. Mas. ou até mesmo pervertidos. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele. após este haver se recusado. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. Após a morte de Khadija. dirimindo conflitos.

Assim. Mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . já se dispunham à ação. Além disso. os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas. Hafsah.e. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia. protegia melhor seus membros. um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças. conseguiu fugir sem ser notado. Desta maneira. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. Todos juntos participariam do assassinato. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. Sua vida em Meca corria um grande perigo. tornava-se fortemente reprovável. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. sabendo ler e escrever. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca. levara a formação de uma conspiração para matá-lo. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. segundo relatos era culta como seu pai. numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência. o que lhe garantiria uma maior proteção.NEA/UERJ Como já afirmamos. Por isso. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos. Para isso. como foi o caso da jovem de dezoito anos.Umar. deveriam contentar-se com uma indenização. uma vez que. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. As batalhas e. No dia combinado.

O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. o quadro era bem outro. desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. mas visava. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa. a cada homem só era permitido ter quatro esposas. de nenhum modo. Mas. ou seja. Nas zonas urbanas. contudo restringindo-a. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e assim mesmo. Tais determinações. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho. os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. Não se tratava. uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia. Ao longo do tempo. de proporcionar prazer sexual a estes. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos. o que significava um enorme gasto. Deste modo. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. 257 . A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. isto sim. a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. a proteção daquelas. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal. A explicação é de ordem econômica. uma vez que. o que significou para o noivo uma nova aliança política. ao qual só os poderosos poderiam arcar. sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas.

tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. somente uma ausência de recusa. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa. Contudo. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos. este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. loucura. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino. até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece. fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. irmão ou na falta destes um membro da família. uma vez que. por outro lado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. Além disso. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. que variou ao longo do tempo. como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. quando analisamos a questão do divórcio. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens. Na questão da repartição da herança. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. contudo. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. Mas. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. ou mesmo.

Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a não ser que este se convertesse. o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. Assim. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia.NEA/UERJ masculinos. contrariamente. sem exigir a conversão. embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação. O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. Mas. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. até mesmo de primeiro grau. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. Podia apenas tê-la como concubina. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio. Mas. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos. Para conjurar este mal. embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido. O Islã admite o casamento entre primos. apelava-se também para a endogamia. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. 259 . emancipasse a mãe. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava.

O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge. por isso mesmo. A existência da poligamia. sendo quase desconhecido no mundo rural. adquirindo certos direitos. Diferentemente do casamento. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e. a permissão do concubinato e a própria existência do harém. À princípio a concubina não deveria procriar. ela é enorme. que deveria ser realizado numa festa. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. o que não é de admirar. Sendo assim. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima.MULHERES NA ANTIGUIDADE . leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. a primeira. repreensíveis. Mas. na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. que amenizavam sua condição servil. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. O adultério. limitado a quatro. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente. aumentando o seu preço no mercado. quando ela engravidava e dava a luz mudava de status. quando descoberto. quando praticado entre duas pessoas casadas. Além disso. 260 . Mas. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. o número de concubinas era ilimitado. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. o que explica a clausura em que vivia. de quem o marido exigia seriedade. tornando-se um-al-walad. uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal.

não parece ter sido alvo de discriminação e ódio.NEA/UERJ Embora. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. Mas. a pergunta se impõe. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. para a visão ocidental. Assim. que. 261 . apesar dos esforços de Maomé. Embora. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. principalmente as celebrações de casamento. nunca pela prostituição. a prostituição. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema. Mas. No mundo muçulmano. jamais foi erradicada. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. Na cidade de Caiurão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício. Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. não há nada de mais falso. Mas. Mas. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato. contudo. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática.

‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais. sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. Mas. fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo. ela. ―mãe de fulano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Além disso. é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher. apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana. o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. Tal situação. Na verdade. onde se pode. as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. equivalente as termas romanas. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana. No caso. a vida religiosa não lhe era vedada. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote. 262 . A mulher vivia encerrada em sua casa. descendentes e irmãos. ser mãe de meninos . quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe. o que nem sempre ocorria. A maternidade conferia uma importância e segurança. que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. o que fazia com que durante sua vida.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân. Apesar. pois tal como os homens. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes. mais do que de meninas. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. localizadas em Meca e Madina. praticamente só visse homens. além do seu marido.

Contudo. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada. Primeiramente. ficando atrás dos homens.4. Violência e Religião: Cristianismo.). acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura.198. sem medo de errar. Rio de Janeiro: Ed. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres. Maria Clara Luccheti (org.MULHERES NA ANTIGUIDADE . PUC-Rio. por exemplo. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas. São Paulo: Loyola. ela é praticamente inexistente. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo. 263 . gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante. como as que habitavam a zona rural. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. Ao finalizarmos este modesto trabalho. proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. para as mulheres ―trabalhadoras‖. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. p. infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327. Mas. 24. 2001.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. Então. pois. a formulação de uma outra pergunta se impõe.

gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que. Deste modo. Finalmente. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. a misoginia é patente. na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas. As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . isto é. que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e. tradição esta oriunda do judaísmo. isto é. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica. não poderia. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais. uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. 264 . Embora.NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. direcionadas para regiões específicas. a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio. a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso. Nas duas primeiras religiões citadas. livres de anacronismos e preconceito. contudo.

S. São Paulo : Loyola .NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA.Tradução William Lagos. A sexualidade no Islã.2010 BINGEMER. Violência e Religião. Paulo: Cia das Letras.Islã. Albert. Paul. 2001 265 . 2002 SONN. Maomé uma biografia do Profeta. Abdelwahab. S. André. Tâmara. Tradução Andréia Guerrini. Rio de Janeiro : José Olympio. 2001 BLANQUIS. BURGUIERE . 2006 KAREN. Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. In: História da Família. Lisboa: Terramar. Uma breve história do Islã.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tradução Marcos Santarrita. Maria Clara Lucchetti(org). 2006 HOURANI. São Paulo: Globo. 1996 BOUHDIBA. A família no Islã. Rio de Janeiro : PUC-Rio. Armstrong.Paulo: Cia das Letras.Porto Alegre : RS: L &PM. Uma história dos povos árabes. Thierry.

Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. ao longo da história.NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. Segundo Rachel Soihet. a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo. Na década de 90. destinadas a eterna subordinação a figura masculina. O debate em torno da opressão sobre a mulher. mas intensas. tanto do século XIX quanto do século XX. Judith M.1998: 99). O movimento social feminista. ou seja. A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude. foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History . Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET. o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. 2006: 54). na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ.1995:09).MULHERES NA ANTIGUIDADE . 328 266 .

porém.NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL. não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero. ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder. sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. desde os anos 60. entretanto buscar a motivação dos fenômenos. sem. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 . usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher. 1995: 11). o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal. tanto no passado quanto no presente. assumindo um caráter descritivo. buscando as origens da dominação masculina. O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado. desde a década de 70. 1988: 141). que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. Por outro lado. 1997: 279). 1995: 10).MULHERES NA ANTIGUIDADE . se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia." (SCOTT. O termo têm sido. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher.

a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher. As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho. A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero. mas. Gero com Engendering Archaeology. ou seja. não antecede a organização social. Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. Conkey e Joan M. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI. 1988: 146).women and Prehistory (Oxford. A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. ou seja. Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. por vezes se contradizem. parecem paralelas e/ou se tornam complementares. A proposta norte-americana representada por Margaret W. O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e. torna-se inseparável. nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no gênero feminino. No continente americano caracterizou-se por duas vertentes. Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual. por outras. 1998: 10). como tal. As duas vertentes. 2003: 27).NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 . Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo.

NEA/UERJ trazer para debate a interação social. Segundo Conkey. 1997: 415). Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação. Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. modelo histórico e cultural. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . especifico da vertente anglo-americana. Segundo Conkey. Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa. a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino. as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte. a mulher na história. Enquanto que o masculino está relacionado a caça. a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. agricultura e cuidados com a família.

1997: 414). 1991: 07). O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911). Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia. Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993). As pesquisadoras perceberam que. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado. Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil. A pesquisadora C. O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. como os de Marie Huot (1892). Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. No século XIX.NEA/UERJ anglo-saxão. 2006: 54). 1997: 423). O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX.

a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. implicações políticas. ou seja. através de suas escolhas e abordagens. sepulturas e representação imagética. dependendo do 271 . Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. 2007: vii). estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. A ação da mulher tem sido visível na arqueologia. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros. mas não de forma isolada.NEA/UERJ diferenciação. 2003: 19) . tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. Seguindo a proposta de abordagem interacionista. pois existem diferentes papeis sociais. sociais e econômicas. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. classe. Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos. identidade e etnicidade. 2003: 01). Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero. a pesquisadora Elizabeth M. dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL. em particular tempo e lugar. existem muitos caminhos para abordagem do tema. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes. Para Sarah W.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça. A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI.

ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. epigrafia e imagens parietais através da comparação. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. afrescos e cerâmica. particularmente. de formas diferentes. Em arqueologia. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade. citamos as mulheres representadas. primordial para os estudos da arqueologia de gênero. do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. Entretanto. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas.NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. de negociação. 2007: 10). A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas. Como por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. Segundo Elizabeth M. Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento. As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia.

confronto. Para E. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final.Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social. recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada.M. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia. O estudo de caso torna-se muitas vezes. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. 2007: 12). espera-se apreender as relações de tensão. A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino.NEA/UERJ normas. A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado. As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero. A partir dessa perspectiva.. identificando o espaço de produção.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours. não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa.NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. posicionamo-nos no sentido de acreditar. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. Por fim. e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. As referências que a escritora faz são muito precisas. Conhece. apesar de todos estes dados a favor. inclusive dando os nomes dos beneficiados. só para as mais íntimas. pelo que foi dito mais acima.MULHERES NA ANTIGUIDADE . posição de Dom Laporte. devido à idade avançada das suas testemunhas. Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. confidenciara. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. nos sinaliza em direção à terceira opção. nos seus pormenores. Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós). Mas. Em algumas passagens. os milagres realizados pela santa. com detalhes precisos. A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia). datas e fatos. além de usar o texto de Venâncio Fortunato. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências. que Baudonívia conviveu com Radegunda. Contudo. 281 . compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. respectivamente. faz citações diretas. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. portanto. já que não estariam destituídos de sentido. seguida por Franca Consolino. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese. colocando-se. excelente mesmo.

podemos citar a famosa Questão Franciscana. 335 Se. o próprio milagre realizado. o termo passará a designar ―virtude‖. na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina. o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. o herói nas línguas neolatinas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 37-38). 334 282 . no latim cristão. Portanto. sob a pena de Fortunato. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto. (SILVA: 2011. ela é a santa que se isola do mundo. que por sua tenacidade. Assim. na humildade do seu proceder junto às companheiras. viril. em reconhecimento pelas suas virtudes335. que objetiva apresentar. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir.NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. mas. Como exemplo desta prática. poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. que. comparando-o com o de autores masculinos. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. à primeira vista. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis. aqui. imersa em seus jejuns e mortificações. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto). força de vontade. no caso da santa é levado ao extremo. CHARRONE: 2007. abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. 183-185. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. por extensão. E. por outro. mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. uma imagem unificada do santo. fazendo dela um modelo da mulher forte.

Já quanto a Baudonívia. Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. diga-se de passagem. Ela está. sua morte e seu funeral. conversartio. da narrativa de Venâncio Fortunato. já que para Leonardi (1991. na época de Radegunda. ela lançava. Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. Sua postura diante de Radegunda. mesmo do mosteiro. Dito em outras palavras: a vida no século. nota anterior. Nossa autora apenas menciona. 283 . que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . difere enormemente tanto nos objetivos. a quem não se cansa de chamar de rainha.. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖. portanto. o processo de adoção da vida 336 V. sem se deter nos detalhes. ―por piedade e caridade‖ (cap. tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. o modelo religioso de Poitiers. II). as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos. de forma a construir seu modelo. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. mesmo dentro dos muros monásticos. onde não mais vivia. escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. como na apresentação dos temas. o olhar para o mundo externo. ela vai além do proposto no seu Prólogo. mais inclinada a mostrar que. mas com o qual parecia extremamente preocupada. alguns dos quais seus enteados. miracula. com as querelas envolvendo os soberanos francos. 70). Em seu texto. quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. já que ela continua a ser rainha. ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir.NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. a vida de penitências e mortificações da santa. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). conversio.

aí. grupo étnico ao 284 . escrita por Venâncio Fortunato.NEA/UERJ religiosa ou conversão. tentando defender o templo. bastante interessante. Neste episódio. e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours. dizendo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . onde ―foi mais celestial que terrena‖ . seu comportamento quando no século. por onde passava. Seu casamento com Clotário é descrito como breve. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. Os Francos reagem. admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha. entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. nos levaria a perceber. que. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século. Aliás. com tenacidade e vigor.. destruía símbolos. enquanto [. dois séculos antes. uma certa tensão. inspirada. ante seus rogos. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. dedicação e lealdade profunda à realeza. ou melhor. Baudonívia demonstra respeito. bendizeram ao Senhor. perseverando imóvel. o capítulo 2. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. Destaca-se. qualquer que seja o soberano mencionado. Feito isto. o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre. por sua vez. Uma outra leitura. em oposição ao Rei celestial. nesta parte da narrativa. ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. os povos firmassem a paz entre si. na defesa da religião cristã. no texto de Sulpício Severo. 1). que levava a Cristo em seu coração. ídolos e templos pagãos. sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo.] a santa rainha.. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours. Pelo contrário.

(.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 5). permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. até pelo contraste. 3) e é. como já mencionamos mais atrás. não se esquecendo do título mundano que carregava. Aqui. 5. aqui. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps.. rechaçou um amor 285 . 4). o mais áspero. Neste lugar. pois sofria muito com sua ausência. e de ―bem-aventurada rainha‖. A doação do rei da villa de Saix.. 16 e 19). 8. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖. Estaríamos já. cap. para o qual Radegunda voltava às costas. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖. estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖. passou por cima da doçura de um esposo. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. A se destacar. que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato.) impôs-se o tormento do jejum. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. também. uma expressão. tomada de empréstimo a Fortunato. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente. Na seqüência. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia. Baudonívia utiliza. 9. na ocasião. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento. quando ele narra as orações noturnas da santa. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖. ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. sua corte e signatários pertenciam. 13. chama a atenção. também.NEA/UERJ qual o rei Clotário. à turíngia e católica Radegunda. pela primeira vez. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. também. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário. assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio.

com ênfase para o tema nupcial. então. para ele extremamente humilhante. Diante de tudo isto.. das bodas com o rei celeste. passando a viver da prática da humildade. em vez de seu nome.. Já vivendo no mosteiro. ―o excelso rei‖. usava de severidade permanente. para Baudonívia. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio. Germano. compaixão.NEA/UERJ mundano. Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. caridade. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. e da situação.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. juntamente com seu filho Sigiberto. É eleita abadessa. 5). de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖. em Poitiers (cap.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. onde a ―santa rainha. quando a quis chamar. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos). um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro. e para as suas qualidades de bondade. mas renuncia ao cargo. na aceitação das limitações alheias. exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap. castidade. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. Paradoxalmente. para entregar-se ao ―celestial esposo‖. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. caridade. A atitude que. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. a quem pede perdão. chamada Eodegunda. recorre ao bispo de Paris. ingressa‖. desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo. Radegunda. Na narrativa. na prática. 8). assim como para seu arrependimento. destaques para a amargura do rei. pobreza. que quer recuperá-la. abandona seus bens. humildade. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. enquanto para si.

curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome). escrevendolhes pedindo paz. o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha. enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. após sua abdicação do cargo de abadessa. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). já fosse viúva. 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada. a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. de ―França‖. apesar de já estar na vida religiosa. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. durante um ano. os reis são denominados de excelsos. ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. Uma ausência importante. e também aos altos dignatários. em uma visão. contemplou. um ano antes de seu trânsito. acompanhada pela comunidade. 20 (de como. mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. quando. Aqui. é a da abadessa Inês. ou que. Neste mesmo capítulo. 15 (de como um ilustre varão. chamado Leão. 17 (acerca de seus emissários. anteriormente. da paz e da guerra entre os reis merovíngios. no mosteiro. a quem busca pacificar. a filha espiritual de Radegunda. abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). obedecendo a uma ordem sua. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . aqui.NEA/UERJ pelas outras. pela ocasião. Se. na obra de Baudonívia. esta se encontra totalmente superada. além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda. a fez fugir). recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda).MULHERES NA ANTIGUIDADE . também.

o poder sobre os elementos. este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. a ―boa governadora‖ que. como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. também. Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico. V). com a devida honra. 338 288 . depois da sua morte. para não deixar suas ovelhas abandonadas. as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado. que entronizasse. por Baudonívia. os jejuns. ―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda. apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. o fez na Gália. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. visões)337. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. acaba por ordenar ao bispo de Tours. poder sobre demônios. Comparada a Helena. domínio sobre a natureza. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor. que fez com que fosse chamada. a expulsão dos demônios. a bem-aventurada Radegunda‖. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. sempre que estes se colocam como entraves as suas ações. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. Da mesma forma. a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. de são Mames e de outros santos).NEA/UERJ (curas. Eufronio. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. pelas relíquias e méritos. Na continuação do capítulo. Ela é a ―provedora ótima‖. o que assim se fez‖. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. Suas armas são sempre a oração contínua. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. sobre os elementos naturais.

um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. o momento em que escrevia. Gregório (23 e 24). sendo. afligido por qualquer tipo de enfermidade. de sés origines au 19 e siècle. Emmanuelle. Há. o mosteiro. os olhos dos cegos recobram a luz. a língua dos mudos retorna a sua função. igualmente. reforçando. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. La politique territoriale des reines mérovingiennes. O que mais? Todo aquele que. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário). principalmente a Sigiberto e sua esposa. Disponível em: http://cour-de-france. Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. pois.fr. Assim. devido à presença do santo lenho. e remete à realização dos milagres para o presente. não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios. na ausência do bispo local. suas exéquias. Acesso em: 10/07/2011. volta curado pela virtude da santa cruz (cap. assim. Documents. chegar com fé.NEA/UERJ celestial‖. e de garantir a sua sobrevivência material. senhora. pelo bispo de Tours. Os ouvidos surdos se abrem. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais. e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339. realizadas. 339 289 . études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [.] ali. se tornaria um centro de peregrinação para curas. entre lágrimas e com profunda dor. seu trânsito (21 e 22).. 16). os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os demônios são postos em fuga. Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra. a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. os coxos andam.. como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos.

Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. para sempre. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. Para finalizar. seja na evangelização dos pagãos. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. 2006. Oviedo. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. Règle des Vierges. VENANZIO FORTUNATO. 290 . In: PEJENAUTE RUBIO. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. 170-273. La Vida de Santa Radegunda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A Radegunda de Baudonívia mantém. pp. aquilo que o povo cristão espera dele. Francisco. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap.NEA/UERJ a rainha santa. In: ---. uma consciência política. Roma: Città Nuova. para o reino de Cristo. e seu ascetismo acentuado. as palavras de Baudonívia. 1977. 56. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. de forma permanente. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. seja no socorro ao sofrimento humano. Oeuvres pour les Moniales. seja na relação com os poderosos do mundo. Oeuvres Monastiques. escrita por Baudonivia. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. 313-360. Paris: Éditions du CERF. a quem não se cansa de pedir pela paz. p. Vita di Radegonda di Poitiers. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers. Vida de Santa Radegunda. perdemos no presente século uma senhora. 1988. In ---. CÉSAIRE D‘ARLES. daqui. mas enviamos. Tome I. uma mãe.

Minerva. Les Élites Féminines au Aut. Ana Belén Sánchez.). (ed. XXXI. 2011. pp. Archivum. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin. 2010. KRUEGER.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. pp. 174-189. BOESCH GAJANO. 57. LEONARDI. Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. pp. Historiographie. Santidade. La santità.MULHERES NA ANTIGUIDADE . La Mujer Medieval. Sagrado/Profano. 2005. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. pp. Maria Regina (org.uaemex. 287-300 _____. PRIETO. Roma: Viella. pp. 2010. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Acesso em: 03/04/2012. courts and households. 289-340. 18.fr/IMG/pdf/joye. 63-74. 1999. JOYE. Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato. Disponível em: http://lamop. 2003. 171-186. Moyen Age. Sylvie. Baudonivia. La educación de la mujer antes del año 1000. 13. LX. pp. PEJENAUTE Rubio. Storia della santità nel cristianesimo occidentale. A History of Women‟s Writing in France (ed. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. F.2. Anna et al. Roma: Viella. F.pdf. In: STEPHENS. 25-45. 1999. Roberta. 291 .). Sofia.). 1987. VAUCHEZ. André. In: Mythos/Logos. João Paulo. 2007. Madrid: Alianza. Miriam Lourdes I. 69-94.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. _____. Laterza. Cambridge: Cambridge University Press. In: CANDIDO. Paris: LAMOP/CNRS. Roma-Bari. 2003. Claudio. la biógrafa. Esperienze religiose nel Medioevo. Acesso em: 03/04/2012. CHARRONE. The French Middle Ages. 12. Disponível em: http://redalyc. pp. 2000. Valladolid. SILVA.pdf. 2005. 20-40. Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices. pp. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación.univparis1. Female voices in convents. In: BERTINI. Oviedo. Sonya.

como Helena. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. como em As Bacantes. e se comportam de forma beligerante. Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos.ª Dr. Penélope. 177). pois estas não constituíram narrativas privadas. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes. Odisseu. e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção. romperam com o contato masculino. para se constituir. 340 292 . aparecem usualmente em grupo. Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres. no sentido de viverem dentro do gineceu.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof. no Rio Grande do Sul. Conhecemos as mulheres livres muito menos.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. Antígona ou Medeia. que podem ser consideradas domésticas. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. vinculadas à casa. que certamente são mais bem estudadas. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. As amazonas. e não individualmente. as companheiras do deus Dioniso. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. nem sequer seus nomes. constituindo tíasos. Na Grécia dos documentos literários. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. sendo conhecidas como guerreiras. e as menades.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. ou menades. e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. contra a família e a cidade de Tebas. certamente abre uma discussão quanto às variações.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tragédia de Eurípides341. o outro conjunto. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. é presumidamente do final de sua carreira. que terminaria um ano mais tarde. compartilhada com outros helenistas. e o das ―tebanas enlouquecidas‖. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso. em 404. Além de nos criar um problema formal. à loucura e ao milagre. neste caso. Mas a idéia de Trabulsi (2004). do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística. 293 . Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V. claramente presente no coro de Bacas. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico. no caso d‘―as mulheres‖. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖.NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido. as companheiras que seguem o jovem deus. ao poder. e que são as que respondem no coro. Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. de caráter eminentemente político. nitidamente distinto do das mulheres do deus. o vinho. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo.

e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. para isso. 342 294 . ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. as com ou sem kýrios. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso). nas Metamorfoses. ser reclusa ao interior do oikos. seus significados. que implica desde ser virgem. submissa e leal. portanto. Ele foi escolhido. a questão de gênero colocada. Para este último ponto. mas elas o acompanham livremente. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. decidem contar histórias. personagens femininas da narrativa. até ser silenciosa. se discute sobre o poder342. roupas sem amarras. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis. e articulada à relação do dionisismo com o poder. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. Certo que. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão. basicamente. o representante legal do sexo masculino responsável. passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. possibilidade de existência histórica. problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. o que já modifica o estatuto na base.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Além disso. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. citado na epígrafe. o que corrobora sua erudição.NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. contamos com o livro de Trabulsi. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖. que será motivo de discussão adiante por comparação. as mineides. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese.

na cena imediata que antecede sua morte. Trabalho árduo e gigantesco. em geral. Ou seja. mesmo se cultuado em Delfos. habita o santuário no inverno. e das tebanas. Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. e as bacas o reconhecerão como 295 . Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. e. A importância da distinção de gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . numa inversão visível e risível. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. de Agave. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. preparam a catástrofe que se segue. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. a rainha mãe de Penteu. próprio dos alívios cômicos de Eurípides. aqueles que. a gestora principal da ação trágica. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. Em Bacas. e o espaço sagrado fica vazio. às novas alternativas que o culto deste deus aporta. aponta que. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. Dioniso é o deus marginal por excelência.NEA/UERJ As outras questões. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. neste caso especialmente acentuada. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu. e a aderência à prática de seus cultos e. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. problema que ocupa a centralidade da peça. e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. e nem ao de nenhuma outra. até mesmo o maior dos homens da cidade. acaba como mulher. pois jamais será uma mulher. exigem uma busca às fontes antigas. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. o rei. selvagem e avesso às práticas normativas. e como elas reagem. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. o rei. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. à espera de novas futuras investigações.

No menadismo. protegidas.6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. já que matando Penteu. pois sangue familiar foi derramado. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. 177). são consideradas inferiores porque.entre o seu poder e o do rei atual. Com a sua perseguição. ou enquanto. matou seu filho. Agave. reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador.. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 .1168-1175) ―Bacas da Ásia (.) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖. Aquela é sua terra de origem. uma mãe. e pensando ter caçado um leão. seguidoras de Dioniso. de Eurípides. imortal agressão de Hera à minha mãe‖. tecendo e atendendo as necessidades domésticas.. o que acentua um conflito de poder .) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado. estas. um sacrilégio. foi executado um regicídio e. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv. as domésticas. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade. Ela chama e anuncia (VV. ao mesmo tempo. pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe. ignoram os rituais dionisíacos. como em As Bacantes. aqui mais gravemente por se tratar da própria família. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. venturosa caçada (. estas bacas. Observemos que os mitos. não são mais mulheres comuns. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. numa posição servil.. mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas..MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ seu inimigo. E inclusive para as iniciadas. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. caça e assassinato na montanha.

manipulando-as segundo a sua vontade. grosso modo. Dão valor intenso à vida.45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações..36). Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel.‖ e. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. bárbaras entre os gregos. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais. quantas cadméias mulheres havia. por fim. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas. Pesa sobre sua mãe uma má fama. as mulheres do cortejo de Dioniso. se houver reação negativa. portanto. As outras. é explícita (v. atacarei chefiando as loucas‖.. que justifica tais maneiras de agir. são primos. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. passaram por um processo que. Penteu. Sua alternativa. não que Dioniso o queira. e que certamente é um processo de afastamento radical. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. conforme Dioniso (v. portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior.32 . As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. sendo. não só no comportamento. sendo extático e inebriante. mulheres que o seguem desde a Ásia. e ele anuncia no v. O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖.NEA/UERJ semeado por Cadmo. como também na ética. e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. e toda fêmea semente. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―habitam as montanhas aturdidas‖.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. nem de mim se lembra nas preces‖. enlouqueci de seus lares”. na sua prática aproximando vida e morte. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. poderíamos denominar ―iniciático‖. não persegue o lugar instituído do rei (v. Seu tipo de poder.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas.

mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. propriamente o coro no sentido dialogal. sátiros. Estão livres de homens. Nosso estudo. desde o início.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nos vasos de figuras vermelhas. de estilo mais antigo. se remete à análise desta ambivalência. pelo movimento rítmico pulsante. embora de mesma matriz referencial. os cidadãos de Agamêmnon. quase inumana. portanto. ou como máscara teatral. E. Até a produção deste texto. Dioniso representado tanto em forma humana. como as da apolínea Kassandra. segundo o mensageiro da tragédia. e em grande número. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. existem as que estão sendo arrancadas com 298 . quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. Conhecem e ―dominam‖ a loucura. embora não dessexuadas. “kyrios”. como menades. como em estátua votiva. nosso conhecimento. e sim pela dança. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. Percebemos que. da montanha. as mulheres de Corinto de Medeia. A dança exprime o corpo feliz. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos.NEA/UERJ de conceber e parir. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades. vinho. tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. o corpo envolto em serpentes. de peplos soltos. Seus corpos dobram. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. que infelizmente é muito lacunar. portanto. mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. As ménades serão. pela violência do revide. Em Bacas não. os marinheiros de Filoctetes. no imaginário clássico ático. “mania”. o cortejo dionisíaco. de alguma forma. Muitas cenas diferentes aparecem. Fazem a pedra produzir mel. água. tanto nos vasos de figuras negras. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. seja histórico ou literário. das mulheres domésticas. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. leite. vivem soltas na zona selvagem. quanto. diferentes das ―outras‖. nitidamente construída na tragédia Bacas. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. mas não por convulsões dolorosas da visão profética.

Edônios344. M. F. já aparece num artigo de 1940. segundo TRABULSI. (b) os das Proitidas e das Miníades. nota 54. 176).124. Também Apolodoro. sua tarefa doméstica de maior alcance. 343 299 . XIV. 1988. 258. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. narra o episódio de Licurgo. segundo DETIENNE. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. Histórias Variadas III.125.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Metamorfoses. sobre o Menadismo343. posteriormente. Biblioteca. 38. amplamente tratado por Trabulsi. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review. Ésquilo. M. segundo TRABULSI. 1988.125. 5. em uma tragédia perdida. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas.NEA/UERJ furor de dentro de suas casas. 42. 2002.33. de Dodds. X. 347 Antonino Liberalis. 349 Eliano. IV. XIV. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. Metamorfoses. 344 Ésquilo. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. 31. Questões Gregas. 274). 69-81 ed. 258. rei dos edônios. p. pois ele persegue as amas de Dioniso. Mette. nota 6 do cap. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. p. 345 Apolodoro. segundo DETIENNE. que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. nota 6 do cap. nota 50. 2004.J. v. H. III. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. 346 Plutarco. Este fenômeno de resistência a Dioniso. 299 E-300 A.1. M. (c) o de Penteu. Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. 1988. Antonino Liberalis347. nota 49. 175). e do tear. Ovídio348 e em Eliano349. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. p. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. 2004. p. 348 Ovídio. segundo DETIENNE. p.

que Dioniso encontra seu primeiro adversário. os edônios o levam. no monte Pangeu. o rei dos edônios. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas. desta vez.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar.29). a dançar. Assassino de seu próprio filho. Dioniso o faz voltar à razão. Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. terra suposta de suas origens nãogregas. e estivesse manchado com o sangue familiar. corta os sarmentos e o pé da vinha. golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro. Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura. Licurgo recebe uma última punição. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. Licurgo. Por sua vez. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. o telhado é tomado por um delírio báquico. rei-delirante. onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas. para o interior das florestas geladas. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. amarrado. o bando de sátiros aprisionado. que profetiza pela voz de uma mulher. à maneira de Apolo nas alturas de 300 . até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. Levanta o machado de dois gumes. põe-se a balançar. persegue o jovem deus assustado. Mas Licurgo. dispersa as portadoras de tirso. desta vez partindo de Apolo. Dioniso o leva até seu filho. ataca as amas de Dioniso. cercado por seus sacerdotes. Como tivesse executado um ato sacrílego. As bacantes são acorrentadas. Turvando sua visão. quer derrubar a vinha. o Delirante (mainómenos). Licurgo entra em delírio.

terá purificado a região. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres. Outra narrativa é a das Proitidas. em As bacantes. Ifinoe e Ifianassa. A cidade condenou Licurgo. como Proitos. Nem Licurgo e seus descendentes.NEA/UERJ Delfos. e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. mas pela força de cavalos. Proitos então cede.30). de passagem. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. que este número é quase uma constante nesses mitos. também são em número de três. já que as filhas de Cadmo. ele organiza corridas de perseguição 301 . Teseu. atravessada por pathos. a mãe de Penteu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora com alto teor dramático. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco. em número de três. Assim como as Miníades. como a de Hipólito. como em Bacas. num primeiro momento. Lisipe. elas vagam por toda parte e. Acometidas de mania. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29. o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. Proitos. entre as quais Agave. Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos. Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. morte política. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto). matam seus filhos. nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. condenado por seu pai. Observemos. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra. adivinho que conhece o remédio para o mal. como as Miníades. que é um homem muito jovem). elas não aceitam os ritos de Dioniso. Nesta narrativa. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo. Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são.

cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. a sorte cai em Leucipo. na região da Beócia. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus. dilacera a carne de seu próprio filho. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno. Aristipe e Alcitoe. Apavoradas diante de tais prodígios. são mortos. filhas do rei de Orcômeno. com a ajuda de suas irmãs. se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. as de Proitos e as 302 . depois de matar seu filho. Finalmente elas deixam a montanha.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Elas não lhe dão atenção. as filhas de Mínias.NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. leopardo. e o primeiro. E perturba-as com suas metamorfoses: touro. Leucipe. leão. Mínias. Temos ainda um terceiro documento narrativo. Sob a máscara de uma jovem. colocam. Leucipe. reis. que balançam. As três Miníades. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. em Tebas e em Orcômeno. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. Arsipe e Alcatoe. O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu. as três. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento. ―Sem perda de tempo. ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus. segundo Eliano. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. sortes em um vaso. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. segundo Antonino Liberalis. as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso.

mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. dominadas por uma força maniática. avô de Dioniso e de Penteu. são levadas a deixar a casa e a matar os filhos. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖. O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos. são levadas a experimentar o estado báquico. ressaltando a ligação das três jovens com a casa. no Párodo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Quando Cadmo pergunta (v. fiam a lã ou tecem os fios. num castigo peculiar. princesas. O sexo masculino é o primeiro alvo. todos estão sendo chamados. Em Eurípides.Só nós pensamos bem. O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. Mas que ritos seriam estes. 195) ―.Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v... o velho rei da cidade. que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas.) Somente as Mineides. sem a consciência do que estão fazendo.NEA/UERJ de Cadmo. demonstra que todos devem acorrer. quanto às mulheres recalcitrantes. dançará a terra toda. quando as bacas. mas sem anuência. conforme descritas 303 . convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. à montanha. pois aos homens pertence o poder político. 69). elas terminam as narrativas impuras. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te. os outros mal‖. estas são iniciadas sem iniciação. em analogia com o morcego. em sua casa. não como verdadeiras menades. Elas são levadas à montanha. 196) ―. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência. mas não podem permanecer entre as bacas. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha.

A estas ele reserva o exílio. é que se descortina a verdade e ela consegue. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. toda coberta de sangue humano. configurando a distinção que. que incluem um aumento significativo de força física. Nem o antigo rei e sua esposa. e. o que não é o caso das filhas. uma fúria assassina. é praticado por sociedades femininas (2002. que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. carregando sua cabeça até a cidade. potente analogia do poder real. podem ficar em solo tebano. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar. e.NEA/UERJ por Diodoro. embora estivessem todas na mesma região da montanha. O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . e a ordem de Dioniso é implacável. depois de esforços por parte do pai. uma potência transmutadora. com requintes de elaboração.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. assim como nas outras histórias. uma vez na montanha. Este estranho rito. impuras. Harmonia. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. o que. filial. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. a família cadméia está desfeita. 272). pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres. tias do deus. são oficiantes de estranhos prodígios. e o mata. e sem alternativas de redenção. e neste drama. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. Cadmo. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. para a história da cultura. Apenas então. Agave. A mãe deste. parte com um futuro promissor pela frente. enxergar literalmente o ocorrido. assume proporções significativas. As mulheres desta tragédia. descrito nas Bacantes. nas últimas décadas. por fim.

DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. TRABULSI. pp. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. in REEDER. 1983. As Bacas. Poder e Sociedade. Thomas. Desde então. 1986. Erwin R. São Paulo: Escuta. KERENYI. Princeton: Princeton University Press. Dionisismo. a discussão mudou de nomes. qual seja. visíveis no Menadismo. Roberto. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art. Mexico:Fondo de Cultura Económica. Its Developement in Black-Figure Vase Painting. Os Gregos e o Irracional. mas o sintoma é o mesmo. desagregação pelo abandono destas forças. 2002. 2004. Dioniso a Céu Aberto. José Antonio Dabdab. 1995. CARPENTER. Erwin.E. CALASSO.381 a 392. Wilfred G. São Paulo: Companhia das Letras.NEA/UERJ gerações. 1988. Marcel. ―Maenads‖. São Paulo: Hucitec. e as figuras femininas também. Cornelia Isle e WATSON. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON. Ellen. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. DODDS. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. Carol. Oxford: Clarendon Press. 305 . Pandora – Women in Classical Greece.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Belo Horizonte:UFMG. 1991. destas potências que são arcaicas e imemoriais. DETIENNE. 1995..

RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. por exemplo. e mais especificamente. 2003: 111-122. da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. ao longo das últimas décadas. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). Fábio de Souza Lessa.Dr. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. 1997: 197. 1986: 17). Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. ainda. GUYONVARC‘H & LE ROUX. A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca. sobretudo por um público não-acadêmico. sob a orientação da Prof. os druidas. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. É membro do LHIA (UFRJ). em parte. especialmente devido à celtomania 351 e. COLLIS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pode-se dizer que. [re]descoberta. A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas. mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. CUNLIFFE. Adriene Baron Tacla. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS. 2006: 73. ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações.NEA/UERJ IDENTIDADES.ªDrª. completamente anacrônica. igualmente. podemos claramente identificar 350 306 . [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. 2003: 117). CUNLIFFE. de que teriam sido os celtas. a ideia. 1999: 161). 2008: 42-44. Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais.

NEA/UERJ feministas que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2006a: 165-172. iguala-se aos homens em diversos aspectos. publicações impressas ou digitais. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. a mulher celta que pega em armas. isto é. primeiramente. portanto. (3) o anacronismo. sobretudo. como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. 307 . Gostaria. Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO. por fim. basta direcionar o olhar. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. que intervém em interesses masculinos. na maioria dos casos. de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades. participa de disputas. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas.AMIM. acredito que argumentações de tal natureza. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência. muitas vezes. encontros. majoritariamente. ainda nos dias atuais. associações e sociedades. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. para produções como as de Markale (1986). por exemplo. as quais. a respeito das mulheres celtas. sobretudo. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e. 2010). de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. são advindas. no Brasil (cf. em linhas gerais. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. da documentação escrita na Antiguidade. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo. e que. um aumento significativo de eventos. A meu ver. festivais de música. as mulheres gregas. que se faz ser obedecida. força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. vem. Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. 1989: 63). 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal. seitas e grupos pseudo-religiosos. Em linhas gerais. a celtomania pode ser qualificada. além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. como veremos a seguir. Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas.

dentre outros. não é. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações. entretanto. quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. WELLS. Assim sendo. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. Diodoro da Sicília. nesses relatos.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. como a cultura material –. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. Plutarco. Logo. Em vez de buscar. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. apresentam-nos. ao invés de meramente desconsiderar tais relatos. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. Esses textos. outro tipo de documentação de natureza distinta. 308 . como veremos a seguir. em especial. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. políticas. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. 2002: 109). como muitos pensam. esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. igualmente. isto é. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. em autores como. Estrabão. algumas dificuldades e desafios singulares. Amiano Marcelino. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN. 2004: 09. comumente designadas como celtas. Tácito. então. unicamente. ainda.

uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise. então. que possuímos nos dias atuais. a respeito das mulheres celtas. de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo.NEA/UERJ diversas. Em outras palavras. perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. FILHO. chama a ajuda de sua esposa. nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente.CUNLIFFE. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. Trata-se. em batalha. 2008: 12-3). Não se trata. (XV. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. por exemplo. Ao confrontar os escritos. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. 2003: 139-145). Para não alongar muito este texto. organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos. portanto. 12. um gaulês.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. desejo discernir comparáveis. como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA. 309 . consideradas como vivendo em estado de barbárie. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. ou o que caracterizaria os celtas como tais. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. assim. não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. buscando.

as mulheres.‖ (IV. elas mesmas. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. navegavam em certas ocasiões para o continente. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres .‖ (V. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis.6) Citando Possidônio. 4. 4.MULHERES NA ANTIGUIDADE . onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. Nenhum homem. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho.me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário. por sua vez. por sua vez. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. eles possuem suas mulheres as quais. 310 . mas elas também a eles se igualam em força física. colocava os pés em tal ilha.‖ (IV. contudo.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr. existe uma ilha habitada somente por mulheres.)/ Geographia (lat) (V. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.

(XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. O marido. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. (XXII) – Relato sobre Chiomara.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. em segredo. um dos mais poderosos homens da Galácia. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. no final.)/ De Mulierum Virtutibus (lat. esposa de Ortiagon. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 . com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho.MULHERES NA ANTIGUIDADE .) (III. não tendo conseguido engravidar. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. Os dois morrem.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. inclusive em questões militares.

e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. Depois de ter se aproveitado de Chiomara.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. sua própria honra e valor ao seu marido. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas. (III. visando assim a obter riquezas em troca. (XIV.C. 35) Relato sobre Boudicca. ela dá a última palavra. após a morte de Prasutagus. A troca de fato se dá. após os romanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . terem derrotado os gálatas em 189 a. mulher que tomou o poder. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. rainha dos icenos. porém Chiomara.. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. Boudicca. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. chefe dos Catuvellauni. assim. toma a 312 . no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. provando. seu marido. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido.

assumindo para si funções vitais políticas. igualmente. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. Plutarco e Tácito). ainda. perigosas. que tais relatos constituem-se em discursos e. Deve-se ter em mente. (I. assassinas e vingativas. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. mencionadas por Tácito). estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. Camma.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: .essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança.‖ Pode-se. que tais representações construídas em relação às 313 . destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. fazem parte de discursos particulares. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. Estrabão. portanto. causando. portanto. em comando. primeiramente. . contudo. dessa forma. seriam bastante imprevisíveis. Cartimandua e Boudica). violentas. na concepção dos autores. o poder de liderança e comando militar – havendo. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. indomáveis. quase sempre. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. Essas características. em geral.elas. .

dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas.. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. consequentemente. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inclusive. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. 314 . 1996: 18). constituem-se como representações – com implicações políticas. antes de tudo.) presume algum antecedente oriental. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. como pela tradição e educação desses indivíduos. mais enquanto discursos possíveis do que. os celtas. existem nos textos gregos e latinos. Isto é. propriamente ditas. 1996: 33). poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. se dão. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. Nesse sentindo. em sua maioria. 1996: 32). Ou seja. Não nos falta. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. tanto através da escrita.. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. algum conhecimento prévio do Oriente. sociais e culturais. 2003: 12) e. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. Dessa forma. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. de certa maneira. 1976: 114).NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. que é difundido.

os celtas só podem ser pensados como os Outros. ainda. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. sim. Esta definição. por isso. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. Em outras palavras. 2001: 222. a um determinado grupo social. 1998: 100) 352 315 . Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. Assim. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. a meu ver. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. (BLUNDELL. Esses discursos. a uma tradição. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. autocontrolados e civilizados. construir noções próprias de identidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . devam ser entendidos.NEA/UERJ ―realidades concretas‖. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. 2002: 105). por sua vez. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. seria sustentada pela imagem do outro. consequentemente. mas. portanto. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. antes de tudo. especialmente. também necessitam. destacando seus atributos de barbárie. HARTOG. quanto como. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. indivíduos pertencentes a uma sociedade. como construções culturais (WELLS. 1999). por sua vez. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. necessitavam estar sob o controle masculino352. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. tanto como indivíduos.

no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353.. contudo. O autor analisa.NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . 2003: 79). correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. Conclui-se daí que.sejam elas bárbaras ou não. por sua vez. Parece-me que.. dentro da concepção clássica. o mesmo princípio poderia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . limitadas à interioridade do espaço doméstico. por sua vez. na visão dos autores antigos. atualmente. Isto. [. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. de construírem uma noção particular de barbárie. a imagem da mulher bárbara é. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. consequentemente. a mais comum na arte imperial romana. A construção de tal alteridade. ou seja. 353 316 . de certa maneira. não estando. 2003: 55-60). ser aplicado aos romanos. entendido aqui como não-civilizado. na concepção desses autores. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano.] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. de fato. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. A autora demonstra que. ainda. 1998: 95). Segundo Iain Ferris (2003: 54). portanto. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL.

estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens.‖ (IV. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. 2003: 80). mas elas também a eles se igualam em força física.‖ (V. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. 4.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres .me refiro ao fato de 317 . (V. chama a ajuda de sua esposa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. por sua vez. um gaulês. 12.NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. em batalha. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. (XV. eles possuem suas mulheres as quais.

elas mesmas. Nenhum homem. as mulheres. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. inclusive em questões militares. por sua vez. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento.)/ De Mulierum 318 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha.6) Citando Possidônio.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. (III. colocava os pés em tal ilha.‖ (IV.NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. 4. existe uma ilha habitada somente por mulheres. navegavam em certas ocasiões para o continente.

Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. terem derrotado os gálatas em 189 a. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça.. O marido. (XXII) – Relato sobre Chiomara. um dos mais poderosos homens da Galácia. no final. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. esposa de Ortiagon.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. o centurião negocia a devolução 319 . com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Virtutibus (lat. após os romanos. em segredo. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. não tendo conseguido engravidar. Os dois morrem. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente.

a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. A troca de fato se dá. ela dá a última palavra. rainha dos icenos. (XIV. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 . a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. (III. sua própria honra e valor ao seu marido. após a morte de Prasutagus. visando assim a obter riquezas em troca. porém Chiomara. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. assim. provando. 35) Relato sobre Boudicca. seu marido. Boudicca. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. chefe dos Catuvellauni. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. mulher que tomou o poder.

indomáveis. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. Plutarco e Tácito). perigosas. violentas. quase sempre. .NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo. Camma. (I. 321 . 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. causando. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. em comando. . assumindo para si funções vitais políticas. Cartimandua e Boudica). militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. o poder de liderança e comando militar – havendo. na concepção dos autores.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. igualmente. mencionadas por Tácito).MULHERES NA ANTIGUIDADE . seriam bastante imprevisíveis. dessa forma.‖ Pode-se. em geral. Estrabão. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: .essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. assassinas e vingativas. portanto.elas.

) presume algum antecedente oriental. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. como pela tradição e educação desses indivíduos. inclusive. portanto. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. tanto através da escrita. que é difundido. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. se dão.NEA/UERJ Essas características. primeiramente. em sua maioria. Dessa forma.. que tais relatos constituem-se em discursos e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. ainda. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. fazem parte de discursos particulares. 1996: 33). acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. contudo. 1976: 114). Não nos falta. Nesse sentindo. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. 2003: 12) e. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. consequentemente. Deve-se ter em mente. 1996: 32). algum conhecimento prévio do Oriente. constituem-se como representações – com implicações políticas. 1996: 18). com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . sociais e culturais.. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID.

Isto é. sim. autocontrolados e civilizados. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. Em outras palavras. devam ser entendidos. de certa maneira. destacando seus atributos de barbárie. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. 2002: 105). Esta definição. tanto como indivíduos. 1999). indivíduos pertencentes a uma sociedade. por sua vez.NEA/UERJ das mulheres celtas. 2001: 222. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. necessitavam estar sob o controle masculino354. construir noções próprias de identidade. seria sustentada pela imagem do outro. por isso. Ou seja. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. HARTOG. a meu ver. quanto como. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. como construções culturais (WELLS. especialmente. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. por sua vez. a um determinado grupo social. os celtas. os celtas só podem ser pensados como os Outros. também necessitam.MULHERES NA ANTIGUIDADE . antes de tudo. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. a uma tradição. mas. Assim. mais enquanto discursos possíveis do que. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. Esses discursos. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . antes de tudo. portanto. Embora tal Ressalta-se. propriamente ditas. ainda. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. ―realidades concretas‖. existem nos textos gregos e latinos. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo.

ser aplicado aos romanos. portanto. o mesmo princípio poderia. de certa maneira. (BLUNDELL. ainda. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência .MULHERES NA ANTIGUIDADE . consequentemente. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. dentro da concepção clássica. consequentemente. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. 2003: 55-60). o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. A autora demonstra que. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. 324 . algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. limitadas à interioridade do espaço doméstico. de fato. 1998: 100) 355 O autor analisa. entendido aqui como não-civilizado. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. contudo. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. atualmente. a mais comum na arte imperial romana. de construírem uma noção particular de barbárie.NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. não estando.sejam elas bárbaras ou não. Segundo Iain Ferris (2003: 54). no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355. na concepção desses autores. tratam de homens não eram e. A construção de tal alteridade. Parece-me que. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. a imagem da mulher bárbara é. na visão dos autores antigos. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. por sua vez. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. 1998: 95). ou seja.

esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD. é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. por sua vez. sempre situados à margem do universo. então. Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. portanto. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 . situando. Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades. de fato. 2003: 80). 2003: 79). acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. tal como aos costumes e ritos de comensalismo. visando a facilitar a compreensão de minha argumentação. Conclui-se daí que: [. Por outro lado. demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações. assim. Em outras palavras. Isto. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. vê-se. na concepção dos autores helenos e latinos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o mesmo acontece em relação às mulheres celtas. influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. 1985: 139-150). no caso. bárbaros.. Suzanne Saïd (1985). também. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão. Elaborei. Isto é. Defendo. como restritos ao universo masculino. por sua vez. o que. que. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. ou lógica argumentativa. por excelência.]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. o mesmo mecanismo.. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas.

356 326 . assumiriam filhos. Nenhum.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência. 39). portanto. excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero. V. 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO.na medida em Sim – já que as funções Zelo.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas. ao contrário de virtudes. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Estrabão Sim . V. BH. A coragem/ espírito destemido (DIODORO. BH. não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. cargos e funções de poder.

decidem públicas. no caso em alguns casos por de Roma. na verdade. senso questões palavra final em debates. Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra. no caso de de Boudicca. reinando sobrevalece com o auxílio a família.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. si só.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de justiça. 2004: 09. Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice. não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. Sendo assim. negociações intervêm disputas. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . 2002: 109). Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. Nem tampouco é estranho que esses autores. assuntos militares. WELLS. Assim sendo. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN. as circunstâncias. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem.

mais efetivamente. que busca. seletivo e exagerado. espero ter sido capaz de chamar a atenção. Minha intenção de contribuição. ainda que pequena sob diversos aspectos. 253). 1989: 152. comumente. de certa forma. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções. tais construções devido a motivações das mais variadas357. com este volume. ARNOLD. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. O que surge. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível. inclusive. resume-se. observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa. pode-se. nesse sentido. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. Assim.NEA/UERJ (cf. que possui variabilidades de acordo com o tempo. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. ainda. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. uma matrona romana e que. é uma caricatura. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. também. o estereótipo deve ser sempre generalizado. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. masculinas. resulte em uma ginecocracia. espaço e grupos sociais. embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. 357 328 . SAÏD. Tentei. Consequentemente. em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. portanto. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas. (RANKIN. 2003: 11). sem que isso. 2002: 147. naturalmente. cultura material. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. dentro de uma metodologia comparativa. portanto. 251. e como todas as caricaturas. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural. ainda. 1995: 153. 2002: 109) e que manipulavam. Contudo. WEELS. 1985: 150). acredito.

Trad: Anthony R. ______. III). 2000. Oldfather. STRABO. Acredito. (Vol. é social. 1999. 1917. por conseguinte. On the Bravery of Women. 1935. TACITUS. Birley. C. ______. H. Books 14-19). assim. São. Oxford: Oxford University Press. Portadoras de virtudes importantes ou não. assim. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero. (Vol. I. The Annals. cultural e discursivamente produzido‖. Fyfe e D. ainda. Trad. variando segundo as sociedades ou. de acordo com diferentes momentos de sua história.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999. Library of History. Trad: Frank Cole Babbitt. as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. DIODORUS SICULUS. Rolfe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. textuais ou imagéticos). Oxford: Oxford University Press. II). III) Trad: C. Trad: J. London: Loeb Classical Library. assim como toda identidade. Geography (Vol. Dísponível em: http://www. H.NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. 329 . Trad: W. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. S. 1931. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS.: Horace Leonard Jones.perseus. London: Loeb Classical Library. ___________.tufts. que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G. Moralia. The Histories. History (vol. 1997. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. detentoras de marcas dessa ex-centricidade. Agricola.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). consequentemente.02. London: Harvard University Press. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade. In: PLUTARCH. London: Loeb Classical. na visão daqueles que as relatam. a alteridade da alteridade. Levene.

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como Messalina e Agripina. 358 332 . uma matrona real. as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. a matrona Pudentila. Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). Dra. Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila. Pudentila. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. também orientado por esta professora. ou ao extravagante e cruel. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas. como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. como expressa Moses Finley (1991. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. a estas informações foram acrescidas leituras. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. extremamente interessante como documento para o tema. e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. mais conhecida como Apologia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 149). Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca). Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. Profa. É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica. escrito por Apuleio. rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado.NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado.

com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico. sponsalia. LXXIII). Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente.359 Mas. para uma abordagem de gênero como construção relacional. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. passou pela cidade de Oea (atual Trípoli.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. a família do marido falecido de Pudentila. relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. portanto seu cunhado. Sicinio Claro. Apologia.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. LXIX). Após o casamento. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia. 1980: 170). acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. 5-6. segundo Bradley (1991: 93). Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. 1954). formada por membros da elite local de Oea (GUEY. a viúva Emília Pudentila. segundo as indicações de Apuleio. Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe. 359 333 . gênero e etnicidade. Apuleio. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres. Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖. rompendo a noção biológica do sexo. há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. Tratar sobre Apuleio é fundamental. entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. LXVIII. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. LXXII. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila. Apologia. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. Assim. por isso. Na autodefesa de Apuleio desta acusação.

cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE. Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. 1990: 352). Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos. paterfamilias. Casamento. por isso eram respeitadas e honradas. uma deusa feminina. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos. concubinas. deveriam ser mães e se casarem. como protetora do lar. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. Feito isso. preparadas para receberem um dia um marido.NEA/UERJ com Pudentila. prostitutas. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana. se remete a essas romanas honradas. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila. mulheres oriundas das famílias abastadas. 360 334 . mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. As matronas eram protegidas por leis e decretos. a seguir.MULHERES NA ANTIGUIDADE . além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. e as libertas. Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. matresfamilias. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. Assim. Dessa forma. quando dão alguma informação sobre mulheres. A maioria das fontes latinas. tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. Às matronas romanas. dependia do casamento. escravas. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. Portanto. Faremos. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. A designação jurídica de uma mãe de família. dançarinas. assim como a de um pai de família.

no caso da morte deste. Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes. colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu. produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. com membros das camadas populares. o casamento sine manus. No período republicano. De acordo com Bradley (1991: 85). p. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher. através da Lei Canuléia de 445 a. 271). O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. ainda mais enriquecidos. neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. 1971: 55).. 1991: 65). o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas. como se fosse uma de suas filhas (loco filiae).NEA/UERJ romanos. as mulheres estavam sob o poder do pai ou. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. de um parente agnado mais próximo. levou à criação de uma nova forma de casamento. prevalecendo a forma de casamento sine manu. ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. Assim. Em geral. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99). Conforme Norbert Rouland (1997. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . havia gradativamente se transformado. uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido. já no século II d.C. Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão). introduziram-se novos costumes.

Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos.C. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública.C.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento. O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos. talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio. assim também eram os casos de divórcios. que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. mas de suas famílias (CROOK. 1991: 06). Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas.) exigiam dos cidadãos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1967: 105). Assim. Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink. 336 . homens e mulheres. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento. que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio. Dessa forma. demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a. 1991: 79). ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL. mais casamentos são também encontrados. que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. Discordamos porque. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias. e diz que o filósofo Sêneca. não sendo uma decisão individual do casal. no qual viveram Apuleio e Pudentila. no I século. elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar.-14 d.

as mulheres romanas não recebiam nome individual. De acordo com Finley (1991: 151). apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. como citamos na Introdução. ou ser uma mulher emancipada. Aemilia Pudentilla. ―primeira‖. ela passaria para a potestas de seu sogro. este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio.NEA/UERJ primeiramente. com a morte deste. os mais frequentes no período. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem. Segundo informações da Apologia. sob a tutela do filho Ponciano. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . ―segunda‖. provavelmente. Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu. ou Emília Pudentila. o que era possível no período. Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. podendo também ficar sem tutor por certo momento. acrescidos de termos como ―mais velha‖.‖ Na Apologia (LXVIII. e em segundo lugar porque. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com a morte deste. podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. Neste sentido. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio. deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. não muito sutilmente. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. Porém. conforme Finley (1991: 151-152). ―mais nova‖. mas apenas frações de uma família. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. já que. ―é como se os romanos quisessem sugerir. Seu nome. só temos informações sobre Pudentila na Apologia.

as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. tive que convencê-la. Apologia. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191). já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva. se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse. por este estar sempre contra ela..C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 338 . Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [. assim como as demais citações da Apologia. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem. A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo.362 Neste sentido. Talvez fosse este o caso de Pudentila.NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona. [. Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada. 362 Esta citação. havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento.C-14 d. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu. com muita resistência de sua parte.] (APULEIO. após as leis do Imperador Augusto (27 a. estando viúva. movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias. tios e primos. Caso a mulher com sua mãe. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d.C.] Depois da morte de seu filho Ponciano. Pudente.). na forma cum manu. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento. ela escapava do controle dos seus irmãos. XCIX.. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor. Neste sentido. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento. para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido.. 3-5).. foi traduzida por nós. ou seja.) regulamentando o casamento. Sicinio.

porém. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. tios e primos de seu marido. podendo contrair um novo casamento à vontade. apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. a favor do matrimônio. como marido. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. talvez seja 339 . estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. já que. 184) se a mulher não tivesse filhos. a mais frequente do momento.C. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho. 1991: 76). Apologia. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. segundo Carcopino (1990: 107). 2). não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio. eu. Assim. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio. tinham direito de dispor de suas heranças.NEA/UERJ viúva. ela escapava do controle dos irmãos. Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. p. que. não necessitando nem da autorização de seu filho. podendo deixar parte para o marido. C. se mostrou. as mulheres do século II d. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. não o deixe sem amparo (APULEIO. Conforme Yan Thomas (1990. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. casada em regime cum manu. segundo Apuleio.

como boa matrona. tinha. assim. 8-9). Explicou-lhe. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano. mediante sua prolongada viuvez. todos os motivos de sua decisão. por vontade dos deuses. ponto por ponto. que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Como bem nos indica Hunink (1988: 282). deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. 5-6). LXX. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. com desprezo de sua própria saúde. Apologia.. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. depois disso. Nas passagens abaixo.NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. se fosse emancipada. o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou. posto que. A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. Apologia.] (APULEIO. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde. e em outras da Apologia.. que. Ao mesmo tempo. colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. Além disso. combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. pois. Que. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual. LXXIII. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 .

cujos bens. no caso das viúvas. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. ao fim. uma casa grande. Segundo a historiografia. de seu próprio patrimônio. aconselhei. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio. segundo dizem meus adversários. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. ademais.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. Aconselhei minha esposa. azeite de oliva 341 . supostamente. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. em forma de terras tachadas por baixo. segundo a avaliação de seus próprios filhos. repito. Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. e logrei convencê-la. Na segunda passagem citada acima. eu havia gastado completamente. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. o que ajudaria. alguns campos férteis. 1991: 266). conforme seus acusadores alegam. não estando sob a força de seus poderes mágicos. e uma grande quantidade de trigo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aconselhei-a que lhes desse. Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX. provida de toda abundância. cevada. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades.

XCIII. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez. Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal.] (Apologia.. SILVA. LXVIII.] (Apologia.. Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa. privada do uso habitual do matrimônio. Novamente. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época. tomada por graves transtornos. a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363. Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada. 363 342 . mesmo em meio à situação dramática da acusação. Como exemplo. 5).. Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES. 3-4). temos o trecho da obra citado abaixo.. 2).] esta mulher prudente.. debilitada pela prolongada abstinência. ao descrever Pudentila. se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [. CARVALHO. [. esta mãe extraordinariamente responsável [. sem dar lugar a falatórios. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa. de forma que chega a parecer exagerada. Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual. como as atenienses.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1997: 14). LXIX. Assim. Conforme Rousselle (1990: 386)..NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. segundo os olhares masculinos da elite.

contida e extremamente preocupada com seus filhos. Sendo assim. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia. Como uma defesa. portanto. Assim. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa. tais como os tipos de seus dois casamentos. da visão masculina de Apuleio. a disposição sobre sua própria herança. foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila. Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. uma matrona virtuosa. contendo. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa. a obra é repleta de recursos retóricos. Considerações finais Como percebemos. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. como uma mãe zelosa. Para compreender melhor a situação de Pudentila. sua situação jurídica. obviamente. 343 . conforme o objetivo que pretendeu. estiveram presentes nas descrições da Apologia. etc.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época. acima de tudo. seu cuidado com os filhos. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. estamos diante. Neste sentido.

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e mais óbvia. é uma figura mitológica .1 (OTP 1). mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess. As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável . Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. optei por mudar apenas alguns poucos tópicos. Dr. The Old Testament Pseudepigrapha. que lembraria um Homero rude. além do mais. notadamente de minha tese de doutoramento. 346 . Sibyllinische Weissagungen. A primeira. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra.por várias razões -. 1983-1985.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof. As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária. Doutor em Teologia. Em segundo lugar. de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus. já que trata-se. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. para que não tivesse de parafrasear a mim próprio. 364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília. é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica. não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖.lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. como é comum no mundo pagão antigo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Collins na obra de Charlesworth supracitada. e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. Berlin: Heimeran. Charlesworth (ed. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda. 1985). New York: Doubleday. Vol. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H.0. bem entendido) . dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos. As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo. 1951.).

Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. Oxford: Clarendon Press. entre outros -. Em suma.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal .sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente.A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso . 1990. outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses. permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico . P. pois: 1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . compulsão profética como castigo .em suma. 2. teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. dão testemunho de uma coleção de textos estranha.106. Potter. 3. desde temas até personagens). David S.V a.C. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 . o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto. entre os autores antigos. mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física). para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos. Se não for exagerado. mas sua longevidade é surpreendente. 365 347 .já se possa afirmar que no séc.Falam abertamente de sexo e matrimônio. Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. como disse). Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle. o termo designasse uma figura profética apenas. casamento. E não dispomos.vide Hystaspes e Apolo. aos olhos de um observador moderno. os OrSib são os que mais falam de sexo. para isso. 366 Nota com mss.

temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas. VanderKam. e não por luxúria (Jb 4:17-19). Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖.NEA/UERJ constitui-se. Pp. Greek Religion. Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. A Man for all Generations. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. recomendo James C. MA: Harvard University Press. por assim dizer. as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. nesse sentido. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses. interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos. o Testamento de Ruben (Test12Rub). Como observa Burkert. com seu grego macarrônico. 369 Walter Burkert. ao contrário dos OrSib. Noutro pseudepígrafo notável.3. 1995. 368 De cultu feminarum 1. não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro. Há de se fazer uma ressalva . num certo sentido. na figura mais notável na apocalíptica. no entanto. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos).116-118. juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. 367 348 . Hystaspes ou Apolo).112 ss. no Livro etiópico de Enoch (1En). Enoch.a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. Pp. convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. Cambridge.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. A mulher surge noutros apocalipses. os anjos que pecaram contra a criação de Deus. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes. Columbia: University of South Carolina Press. Assim. 1985. retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368). Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres.

As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371). 370 349 . a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. que nomeia ―Sabbe‖. O deus nada fez. Aurelio Peretti. eventualmente. mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo. sendo esta última a de existência mais duvidosa. Tornara-se tão encarquilhada que passou. e que podem mesmo estar associadas. a Ciméria e a Tiburtina. incompletos ou negados.12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. nos legou uma Descrição da Grécia na qual. como os profetas pré-exílicos. 1943. pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna. Firenze: La Nuova Italia. a de Samos. 22. Portanto. a de Cumae. ao baru cananeu370. as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. Dt 23:3-6). Como outros cultos ou práticas extáticas.também chamada de ―helespontina‖. tornou-se cada vez mais velha.NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas). no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru. até que por fim restara apenas sua voz. boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. ―frigia‖ ou ―troiana‖. a líbia (lembrando que o termo compreendia. uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo). 371 Pausânias. na Antigüidade. um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. O baru era. Nas Metamorfoses. na forma em que os conhecemos. pela proximidade dessas localizações). no livro 10. Apolo concedeu o favor. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. 14. a eritréia (da Ásia Menor . a caber num vasinho (ampulla). Balaão (Nm 22:4-5. Cf. como o nabi (―profeta‖). A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. Embora os OrSib sejam. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

186. a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis. Davila. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer. Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. The Provenance of the Pseudepigrapha. James R. Feitas todas essas ressalvas. 372 350 . 2005. Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. não pode ser acidental. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões. 5:51372. e podem ter sido escritos entre 30 a.C. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas.e. renovada graças ao Possivelmente uma glosa.único personagem de origem pagã na literatura examinada. P. 3:1-7. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. ou um de teor legalístico a Baruch. bem como a natureza prazerosa dessa experiência. mas Deus me anuncia cada coisa.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais.): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas. 13:1-5 e o fragmento 8. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa. a Sibila . 2:340. Em termos de preparação visionária. e 250 d. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ . as passagens mais importantes são OrSib 2:1. cf.C. Jewish.i. 11:315-324. a Sibila. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o uso da mesma figura.

que me compele de dentro. pobre de mim. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens.NEA/UERJ favor divino. ou ―ASC‖ . estúpida [que sou]. mas sim do remorso por uma vida mal vivida. como 2:340: Ai. A Sibila indicada.. e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [.―altered state of consciousness‖ . pode implicar uma camada redacional mais antiga.como em 4Ezra 5:20.e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a.. que tem os querubins como trono. ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar. 351 . pois meu coração está cansado por dentro. eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pecadora e promíscua. de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão. OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia . Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito.] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖.C. celestial. que era o de um homem rico. que trovoas nas alturas. eu me fechei para os necessitados.fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia . quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno). Isso contrasta com outras passagens sibilinas.

The Method and Message of Jewish Apocalyptic . uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [. Russell. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras. Assim. que não desanime deles.. nesse contexto. 1964.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado. Mas quando ele se aproximar dos livros. pare agora meu adorável discurso. Pp. príncipe374. Mas. estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos. David S. o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária. eu. Philadelphia: The Westminster Press.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que sou amiga íntima de Ísis [. e portanto podemos falar de possessão nesse caso.NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. A passagem repete certo número de temas já conhecidos. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito.: Três vezes desgraçada. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo. uma redação judaica para o trecho. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs).142 ss. 374 Epíteto de Deus. Ainda em OrSib 5:52 ss.. Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata.. 373 352 .. mas garanta uma pausa agradável. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura.

C. retornando ao tema das origens da Sibila. p. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O divino Deus também me pressiona muito. Um fragmento do qual sabemos muito pouco.ex. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos. para a vida e para a morte375. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. diz ela. Heráclito nos diz que ―A Sibila. acerca do domínio real. Ele que deu o poder a reis. é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum. para Deus: ‗Por quê. o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila]. com voz enlouquecida. a proclamar essas coisas aos reis. proferindo coisas das quais não se deve rir. Ecl 3:2 ss. Pela franqueza do trecho. ó mestre. pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede. 375 376 353 . e deles o tomou de volta. localizado no Discurso aos santos de Constantino. por mais que eu relute. novamente para cantar uma palavra grande e incrível. Por fim. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. erguida sobre a Terra. sem adornos e sem perfumes. E. Jr 4:19 ss.NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d.. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf.).

judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que. era comum à apocalíptica judaica.independência quanto ao mundo doméstico.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares).8 dos OrSib). Pp. vol. As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. Feia (por imprudência ou desleixo). questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento . que tal proeza em termos autorais (ou melhor. a Sibila exibe comportamento semelhante . Collins na edição de Charlesworth dos OTP. por outro lado. Nesse sentido. contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus). é mediante o recurso à pseudonímia mas este. ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns. de substratos pagãos a textos puramente cristãos.). a Heráclito.317-326.como no fr. sem atrativos femininos. quer nas descrições mais antigas. proveniência ou localização geográfica378). negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno). até o momento carece de investigação mais detalhada. quer nos OrSib. não existindo consenso quanto à sua datação.1. ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas aqui. Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. como disse no início do texto.12. um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido . 377 378 354 . portanto. pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos. até mesmo a possibilidade de ter permanecido.NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377. em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras. se o faz. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila. Jr 20:7 é ótimo exemplo. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade. fr. romanos.

1982. Religious Ecstasy. afinal de contas. The Old Testament Pseudepigrapha. the Tiburtine Sibyl in Greek Dress. ―The place of the Fourth Sybil in the development of the Jewish Sibyllina‖ In: Journal of Jewish Studies 25. ALEXANDER. Seers. o fato dela ser uma mulher introduz algumas curiosidades no texto. COLLINS. ______.afinal. de modo muito semelhante ao dos demais visionários da tradição apocalíptica do judaísmo do Segundo Templo. John J.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Gunnel. BURKERT. por assim dizer. ANDRÉ. de quem estamos falando? Do autor ou autores ―reais‖ ou do personagem retratado? Aqui também a Sibila comporta-se. James H. nos coloca diante do obstáculo definitivo ao tratarmos de um texto e seu autor . 1967. Stockholm: Almqvist & Wiksell International. é uma mulher. o texto dos OrSib.1. BUITENWERF. Book III of the Sibylline oracles and its Social Setting. Washington: Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. 2003.e essa pessoa. mais uma vez. The Oracle of Baalbek. Greek Religion. Nils (ed. Rieuwerd. que não são suficientes para que se possa tratá-la como. Studien zur Überlieferung des Neuen Testamentes und seines Textes / Arbeiten zur neutestamentliche Textforschung. 1997. 1985. o visionário de 4Ezra . ―Ecstatic Prophesy in the Old Testament‖ In: HOLM. Walter. ―Introduction‖ [aos Oráculos sibilinos] In: CHARLESWORTH. Kurt. digamos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAND. 1967. Berlin: Walter de Gruyter. compõe-se de oráculos sombrios anunciados em primeira pessoa . Cambridge.mas tampouco são irrelevantes para que se deva desconsiderar que. A pseudepigrafia.NEA/UERJ Sibila pode perfeitamente ter sido um personagem feminino que tomou forma literária pelas mãos de homens. Paul J.). ―Das Problem der Anonymität und Pseudonymität in der christlichen Literatur der ersten beiden Jahrhunderte‖ In: ALAND. ______. Finland. Based on Papers read at the Symposium on Religious Ecstasy held at Abo.). no texto. 355 . Leiden: Brill. (ed. New York: Doubleday. MA: Harvard University Press. 1974. 1983-1985.). Leiden / New York / Köln: Brill. Vol. tal como o temos. on the 26th-28th of August 1981. Sibyls and Sages in Hellenistic-Roman Judaism. Kurt (ed.

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gobernante de Halicarnaso.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores. las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. en sentido similar. da Universidad Nacional Autónoma de México. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer. Las fuentes son abundantes. me refiero a las helenas. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut. Dr. los Professor de Filosofia Antiga. entre las griegas Artemisia. 379 358 . no menos excepcionales. pero en las primeras democracias. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . otras mujeres. Por una extraña paradoja. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. ninguna mujer se adjudicó realmente el poder. entre las que se encuentran las fuentes escritas. protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas. De entre las mujeres de la antigüedad. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente.

el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. III i 1275 a 22-24). Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES. Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense. 9). Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–. El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo. El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. al tener control sobre el voto. Política. 1. Sea como fuere. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. La constitución de los atenienses. Luego. que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. Y es que el pueblo. cuando menos Aristóteles lo plantea así. Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general. El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . el derecho de apelación al tribunal.

y cuidarse de no sufrir esto él mismo. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN. no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa. [. esposas y madres de los ciudadanos.. Sin embargo. Las funciones principales de las ciudadanas.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. 71 e).. siguiendo el razonamiento de Mossé. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar..] podría. Menón. se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. significar que [Jantipa. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO. existen ciudadanos y ciudadanas. Politis y aste son los femeninos de polites y astos.. el hogar u oikos. Menón. La constitución de los atenienses. 42). hija o madre de atenienses. En Atenas clásica pues. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres. en el diálogo epónimo..NEA/UERJ buscado deliberadamente. La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES.] Aste estaría en relación con el derecho de familia. pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. hijas. afirma: [. Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean. Si quieres la virtud de la mujer.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [. 2002: 15-16). El lugar de las mujeres es el espacio privado.. Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 .

2. como afirma explícitamente Menón. Por lo tanto. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano. regresa a sus actividades tradicionales. Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. Es recluido en prisión (Critón). ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. ciudadana en tanto que politis y aste. y cuando retorna. Combate en las batallas libradas por su polis. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social. Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates. De joven discute con filósofos mayores (Parménides). En lo que respecta a 361 . Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología). Esta doble ciudadanía. 1991: 155) como la política y la judicatura. y alternar en el poder corresponde a los varones. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón. la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. 2011: 218). y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). Finalmente es ejecutado (Fedón). Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos. La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras).

perteneció. Filopon. Estobeo. Eliano. Cicerón. Sócrates. Jenofonte. Plutarco. Ateneo. incluyen nombres de la talla de Aristipo. a pesar de ser originaria de Mileto. Libanio. Temistio. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. Teodoreto. Aspasia. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. la segunda de Mileto y la última de Mantinea. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. Luciano. Epicteto. las otras proceden de poleis diferentes. Olimpiodoro. Platón. al círculo intelectual ilustrado ateniense. Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. Galeno. una politis (CALERO. Diógenes Laercio. quien la amó tierna y apasionadamente. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. se afincó en Atenas. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. fue mujer de Pericles. 3. Tzetzes y Valerio Máximo. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 .NEA/UERJ las mujeres. según el exhaustivo estudio de Inés Calero. Marco Aurelio. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten. no a Diótima. enseñó retórica en Atenas. Suda. Cirilo. Sinesio. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. Jerónimo. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente. tanto como a la democracia. Jantipa. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. a diferencia de las otras dos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2003: 1516). y procreó con él. Aspasia y Diótima. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. Tertuliano. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa.

Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD. por ejemplo. Pero lo importante es que. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. ajena a las actividades en las que sí participa su esposo. 4. Al vernos.NEA/UERJ [.con su hijo en brazos y sentada a su lado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . la Apología. Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos.. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. 1980: 45). El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales. Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. ‗!Ay. 26 y 33). Fedón. en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES. Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio.. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. esto es. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. XXIX. su lugar es el hogar. A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él. 60 a-b). aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia. Sin embargo. y a Jantipa -ya la conoces. corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta. ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. Su discurso Contra Afobo. La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado. Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . Los discursos privados de Demóstenes. Sócrates!.

y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. p. existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer. Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza. pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente. un proceso por impiedad. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN. o al de las ya difuntas (VIAL. algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA. Jurídicamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Menéxeno. frecuentó su casa. 1985: 48). pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. al menos en algunas esferas judiciales. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. sufrió. consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno. 1977: 323-330). La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. 426). Y Aspasia de Mileto. 1994. Plutarco. quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. Nicias. con sujetos bien conocidos. entre ellos. p. Trasíbulo o Terames (BREMMER. 1994: 85). porque vivía de 364 . David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. 2010: 39). protagonista de uno de los diálogos de Platón. pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. y de Pericles mismo. ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. XLI). Lamachus. pues el mismo Sócrates. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. como Protágoras y Sócrates. 249 d). a pesar de ser originaria de Mileto. 1981.

Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes. Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia.. XXIV). a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. y por medio de ellos. lo confirman muchas fuentes. mujer y extranjera en Atenas. 1994: 84). XXIV). lo cual no es incompatible ni con que. Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. Solana afirma [.] que Aspasia fue maestra de oratoria. a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos. y en particular de Pericles. en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ.. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey.. sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO. como eran poderosos y de autoridad. años antes de unirse con Aspasia. Ahora bien. es indudable que la actividad política del estratego ateniense.] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad.. a través de Pericles. 1994: XXIX).NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO. Pericles.MULHERES NA ANTIGUIDADE . y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos. le exigiría una capacidad retórica adecuada. Sucintamente. pero esta milesia. Pericles.

esposa y madre de ciudadanos. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. labores imprescindibles para la existencia de las poleis. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. C. Sin embargo. Sea como fuere. creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes. Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad. Jantipa. es una ciudadana ateniense.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. entre otras fuentes posibles. estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. a partir de los diálogos de Platón. hija. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica. a. Sucintamente. 366 . a través de ésta. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. con actividad política del más alto nivel.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos.

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deusas. . rainhas. mas. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade.Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. feiticeiras ou profetisas. guerreiras. a partir da cultura material. santuários e artefactos arqueológicos escavados. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram.

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