MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que. tanto nos meio formais e/ou informais de atuação. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. diante da diversidade de região. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos .MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos. Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.ª Dr. 1 7 . ao longo da segunda metade do XX.como as Mulheres na Antiguidade.ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade. assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação.no meio científico atual .

devido a sua escassez. na historiografia brasileira. por exemplo. afastando-se do padrão tradicional. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. como objeto de pesquisa histórica. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. por exemplo. Nesse sentido. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher. a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas. podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega. as abordagens que contemplem o tema. 8 . Diante de tal situação. A Arqueologia de Gênero.

não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social. da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF. apontando-nos sua ligação com a natureza.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a existência de um ―matriarcado original‖.ª Dr. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é. tais mitos falam-nos das deusas celtas. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. 1989: 22-23. do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. 9 . defendida em Março de 2001. Neyde Theml e financiada pela CAPES. Ao contrário. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. 1995: 15). a vida e a proteção da comunidade. Titular Dra. de forma alguma. o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105).NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof. a fertilidade e a soberania.ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. desde a Antigüidade até a Idade Média. muitas vezes supondo. aquela que vive em sociedade. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. sob orientação da Profa. A partir desses mitos. são esferas distintas. inclusive. Em verdade. 3 Utilizaremos. inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. EHRENBERG. evidenciando sua vivência em sociedade (cf. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. GREEN. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado. em ao longo deste trabalho. Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. Logo.

1989: 245. porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. então. muitas vezes. Destacam eles seu caráter e bravura. isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. que nos permitam analisar a posição social dessa mulher. S. 4 10 . que seriam por elas geridos e. Helenos e romanos. 137-150. 59-77. 1985. vide SAAVEDRA. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. 1999. sendo sacerdotisas. profetizas ou feiticeiras. sua participação política na sociedade. T. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. XLIII.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes.s. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. sobretudo. vasos de cerâmica ou metal. assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. Tais relatos. porque bárbara4. nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio. Devemos. é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos. 18. Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. n. Se desejamos ir em busca da mulher celta. independência e poder na sociedade. SAÏD. 251). ser sacerdotisas ou chefes. Women as focalizers of barbarism in conquest texts. nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. jóias. participando de banquetes e festas. seu vigor. as relações de gênero. 1995: 15). Classical Views. porque poderiam elas exercer o poder. Paris: CNRS.NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. liderar combates (tal como Boudica que. liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas). mas. cavalos. bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir). No entanto.

NEA/UERJ As evidências arqueológicas. formas específicas de sepultamento para homens e mulheres. para alguns. isto é. levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. leste da França). Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral.C. havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. sudoeste da Alemanha). Com efeito. principalmente dos enterramentos. havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares. indicam. como explica ela. onde temos o casal enterradoem conjunto. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo.. contudo.133). Porém. identificando-o ante a sociedade. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio. isto é. importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. marcadores de gênero e sim de status. pois. Na maior parte dos casos. no primeiro milênio a. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. Nesse sentido. sempre associados à figura masculina e. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. tais itens não eram de uso exclusivo masculino.tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha. a exemplo do torc e do serviço de banquete. que. WITT. 1996). mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. 5 11 . e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud. Tal poderia. de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg. mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. que. não sendo.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Não desejamos. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A). 12 . um kýlixcom verniz negro. composto de uma cratera de bronze laconiana.Essa tumba. e uma taça (―phiále‖) de prata. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. Como vemos na figura abaixo.aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois. e diversas jóias entre colares. no norte da Cote-d‘Or. braceletes. encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖. as atividades produtivas. Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. no lado esquerdo da câmara. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. um kýlix ático com figuras negras. uma oenochóe de bronze etrusca. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. tornozeleiras e fíbulas. às margens do Sena.MULHERES NA ANTIGUIDADE . três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós). a chamada ―dama de Vix‖. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher. contudo. aqui discutir as relações de gênero.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. Propomo-nos. constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. ao invés.

torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata. 1958. 2003). tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro. consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a.. Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix. Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fonte: Joffroy. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa. prancha IV. donde.C. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário.C e início do século V a. por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes.Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖. quer com relação ao tamanho. os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY. seguem também. chicote e argola 13 .Nessa linha interpretativa. posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta. mais recentemente.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix.

o poder. por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos. quando expostos nos 6 14 . Seguindo essa linha de raciocínio. De modo semelhante. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía. de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois que a circulação. mas também artigos de uso cerimonial.NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. e à cabeça torcida. Esses bens. Aqui. da cratera. em verdade. Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix. Milcent (In: ROLLEY. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. seriam não somente bens de grande prestígio social. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações. pendendo para a direita). O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela. isto é. distinguindo-se das ações cotidianas. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. segundo Gellner (1997). do torc e do carro. ao defeito na perna que provocaria andar claudicante.C. interpretamos os rituais. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio.. uma colônia helênica fundada em 600 a. definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. Já os depósitos na tumba. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. tendo por base o caráter religioso da phiále. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. como vias de construção de identidade. 2003: 325-326.

15 . da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. Miranda Green (1997: 68) considera. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. 9 Devemos destacar que. a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. porém.MULHERES NA ANTIGUIDADE . marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. por meio dos ritos funerários. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe. um sistema estável de alianças de casamento (cf. não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos. tornava-se necessário reorganizar. GOSDEN. não representaria traços de um banquete funerário. isto é. e que seria similar ao mundo dos vivos. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes. envelhecimento ou ruína. denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta. segundo Wait (1995: 490). e em especial. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69).NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. na primeira Idade do Ferro. nos mitos célticos. ao mesmo tempo. porém. portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. no caso que ora estudamos. Com efeito. 1985). Em se tratando de depósitos intencionais. Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. O banquete e a hospitalidade eram. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). A deposição de um serviço de banquete nesta tumba. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio. freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. mas sem que houvesse doenças. não havendo. nem tampouco constituiria uma evidência da existência.

não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro.64 m de altura. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13. aqui.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens. Possui ela decoração nas asas. 1979). construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pagamentos. oferendas. pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12. quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras. assim como as alianças intertribais.‖ (KING. ao redor do pescoço e na tampa/coador. dessa forma. No caso desta tumba de Vix. mesmo. da mesma forma. 2004. nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. ofertado – presentes. que evidenciassem seu status e prestígio e. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica. seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados. o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos. que a remontou em Vix (JOFFROY. etc. é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. 1988: 227-228). Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos. Construíam. do tipo com asas em ― volutas‖. JOFFROY. Além disso.217). Trabalharemos. possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. 11 Essa cratera. 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. para conter hidromel. p. DRISCOLL. dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11. como no 16 . Por outro lado. 1994: 167). 1979) – para misturar vinho ou. Esse serviço de banquete era composto de importações. simbolizassem o vínculo pessoal. com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. 208 Kg). SCHEID-TISSINIER.

―renome‖ e distinção. TSETSKHLADZE. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. Em verdade. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro. sua força política. enquanto o outro somente possui onze. dos demais só podemos divisar algumas partes. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. à frente dos carros. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). na cintura. e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. Os hóplitas seguiam. 1998a. para ser exposta no enterramento da chefe. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. pois. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita. Um lado do pescoço porta doze imagens. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta. à posição privilegiada desta mulher. e. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. de uma mulher vestida com um péplos fechado. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe. No braço esquerdo. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. cabelos repartidos no meio e portando um véu. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. por um cinto. portando sobre a face um elmo coríntio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. porém. ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal.NEA/UERJ Entendemos. em verdade. 1998b). que reforçaria seu prestígio. 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita. Exaltava-se. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. 17 . fixados com rebites sobre o vaso. ocultando-lhe os braços.

pois. e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. na mão direita. onde eram celebradas as vitórias. o kýlix ático em figuras negras. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem. E nos Em ambas as cenas. que. não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas.NEA/UERJ De forma semelhante. E ao redor de todos eles. entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. protegendo-se com seus escudos e empunhando. o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. temos os guerreiros helenos à esquerda. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16. feitas somente com pontos. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. ver Tyrrell (1984). Devemos. contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade. com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. Donde. Sobre as imagens de amazonomaquia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Eram elas também associadas à prática do banquete. 16 18 . uma lança. um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. No enterramento. há pseudo-inscrições. TSETSKHLADZE. Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança. As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta). Todavia. de alteridade das amazonas. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. aqui. 1998a). por sua vez.

que tal como a cratera. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. tal qual as taças em cerâmica ática. com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. assim. 1979: 76-77). consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe. havendo. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. que. casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY.NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como sugere a análise feita por Kimmig (1999). pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). 17 19 . Com isso. que atravessava o vale do Tessin. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado. os chefes de comunidades dessa região. Esta taça recebeu cuidados especiais. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. Segundo Joffroy (1979: 77). na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin). vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros. seriam provenientes da região dos Alpes. a oenochóe etrusca. o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. 18 A oenochóe etrusca. Logo. 1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe. tal como no Marne. que teria a mesma finalidade. sua posição no enterramento. aos pés desta. possivelmente. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina. nos faz atentar para a tipologia desta prestação. sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. à primeira vista. Temos. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. Quer dizer. como aquela de Hochdorf. sendo. em Pouan (Aube). entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. Kimmig. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba). Além desses vasos. outrossim. Entretanto.

pois. de bens que simbolizassem esses laços. Por meio deste estudo de caso. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta. de continuidade dos laços e relações. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder. destarte. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. tais como os massaliotas. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. mesmo.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. enfim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens. igualmente. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar. que seus seguidores. mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. 20 . retirando-os de circulação e. fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. Em outra palavras. Concluímos. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. Procuramos. porque as relações. as comunidades vizinhas e os aliados distantes. Por conseguinte. mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. na tumba. quer para o restante da população. demonstrando.

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nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. 1986: 210). Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí. nýmphe. E além delas. C.NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. podemos identificar os seguintes termos: koré. A cortesã atuava. Inicialmente. geralmente. da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs. Em Atenas Clássica. que dependendo de seu prestígio. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas. Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. havia a concentração de prostíbulos (SALLES. até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA. Lembremos do caso de Neera. Dr. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do VIII ao IV séculos a. recém-casada. este último seria um tipo muito comum no IV século a. 1995: 15). Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. custavam vultosas quantias (MOSSÉ. Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços. Dependendo do status. Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. Dr. donzela/ virgem. jovem. 2001: 61). sob a proteção do pai. Desta forma. da família e do oîkos. apontado por Demóstenes. os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. ela foi O Prof. 19 26 . C.

É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem. Contudo.doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos. do canto. Como já mencionamos. as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY. da dança e do ato sexual (LIMA.NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). 2000: 23). Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. 27 . a guerra é o tema central do poema. 1999: 123). C. Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte. Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. KIRK. Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere. criado de forma oral por volta do VIII século a. Além dos termos apontados acima. O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios. 1997: 37). o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para compreendermos o papel destes termos. Desta maneira. devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos. O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. 1988: 42-43. bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER. além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. 6. os autores mencionam ainda as escravas . 21) em seu santuário na Acrocorinto. 1999: 25). A Ilíada é por excelência um poema de guerra.

Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. Hécuba. Sua mãe. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. como privilégio honorífico. O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. então. ao preço de suas vidas.NEA/UERJ tais como: o gado. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE. a princesa Cassandra (Kassándra). Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. a bacante. Contrariamente. 1212). são pilhadas. 1990: 105). Todas as riquezas disponíveis. Cassandra não aceita se entregar à divindade. celebrando os seus grandes feitos. rei de Tróia. pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. ou seja. Podemos perceber. os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas. ter o dom de profetizar. Agamêmnon. que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas. privou-a da persuasão (peithó). humilhado. a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. Como os prêmios dos jogos fúnebres. 1965: 431). incluindo as armas dos guerreiros vencidos. 1999: 45-46). O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. enfrentar os perigos e a morte. A partir da derrota de uma cidade. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. 1995: 151). Por meio da poesia épica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK. Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. a mênade 28 . Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade. 1999: 31). um membro estranho em sua própria comunidade. Apolo. Entretanto. Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo. preferindo continuar virgem.

Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. que me evite esta nova pena. Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra. Cassandra ainda em posição estática é comparada. com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. Ela foi um géras.‖ (EURÍPIDES. 13. Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . pelo Coro. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia. 955). Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo. As Troianas. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. II. um presente honorífico. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. Agamêmnon. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. Ilíada. Todavia.‖ (EURÍPIDES.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu.1057). chefe da expedição contra Tróia. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. como um animal de caça. ao palácio argivo. Cassandra não consegue ter credibilidade. tu que compartilhas os êxtases dos deuses. seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. As Troianas. falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe. De princesa. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas. junto ao fogo sagrado. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO. mas a pobre mulher permanece inerte. profetisa e virgem. Cassandra. 374). Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. Agamêmnon. 1035). 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. Antes de entrar no palácio. a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. junto com Agamêmnon.

1990: 98). ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas. 1990: 105). palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. Agamêmnon. As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades . Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei. 1140). A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo.‖ (Ibid. mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira. (VIRET-BERNAL.” (ÉSQUILO. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. 1112-1113) Nos versos seguintes.morada dos mortos. 1990: 128). quanto dos de Cassandra. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon]. ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid. Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘. daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘. Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe.NEA/UERJ passando por um estágio de loucura. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 . um nómon ánomon. ―Ainda não compreendo. o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra. parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida. O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE. logo cantar minhas profecias. após os enigmas [ainigmáton]. 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. Ao descer do carro. eu acho.

A peça esquiliana mostra. Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu. A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar. mesmo hesitando (DE ROMILLY. De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra.MULHERES NA ANTIGUIDADE .‖ (ÉSQUILO. 2001: 118) Com o fim de suas profecias. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba. Agamêmnon. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui.NEA/UERJ furiosas vingadoras. 1280). Agamêmnon. a partir do relato de Ésquilo. as múltiplas facetas de Cassandra. jurídicos e morais.‖ (ÉSQUILO. Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). Agamêmnon. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). (ZAIDMAN. Agamêmnon. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. DE ROMILLY. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. 1038). A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos. dos filhos desmembrados de Tiestes. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. justamente. 1995: 12). 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. Agamêmnon. 1309. 200-205). Entretanto. (ÉSQUILO. Agamêmnon. Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e.‖ (ÉSQUILO. não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente. mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra.

HOMÈRE. II. 1975. Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. 1962. STRABON. Agamemnon. Trad. 1964. Trad.NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. segundo o poeta Ésquilo. Agamêmnon. Livre VIII. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. 1978. H. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. Contudo. 1273).Weir Smith. Géographie. Paris: Les Belles Lettres. Trad. 1995. 950). Paris: Gallimard. ESCHYLE. Paul Mazon. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon. O segundo e. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. Raoul Baladié. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. 1296. 1996: 122). EURIPIDE. Cambridge: Harvard University Press. Paris: Garnier Frères. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. 32 . Tome V. Trad. LESKY. 1274) e chegou. Paris: Gallimard. Marie Delcourt-Curvers. Émile Chambry.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Trad. E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. Iliade. uma rival de Clitemnestra. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid. Agamemnon. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. talvez o principal. Les Troyennes. Loeb Classical Library Vol. Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo.

no. de Souza. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. 1996. In: VERNANT. N. Rio de Janeiro: Sette Letras. Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne.S. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av. À Athènes. 1988 (1965). Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. In: CAVALIER. V. 3.Madrid: Taurus. 1996 (1937). 1965. L. LESSA. IRIARTE. Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique.. MOSSÉ.).B. Lisboa: Presença. J. Politique et Société. SCHEID-TISSINIER. M. VIRET-BERNAL. Phoînix. 2001. In: MOSSÉ.-P. Paris: Payot. F. Année. Paris: Les Belles Lettres. M. J. ______. THEML. Le Commerce des Dieux: Eusebeia. A Tragédia Grega. 1995.I. J. 20o. DETIENNE. G. (org. As Realezas em Homero: Géras e Time. Cl. A Tragédia Grega. KIRK. 1998 (1970). 425-441. Cultura Popular em Atenas no V Século a.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY. A.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1999. 601. Brasília: Unb. 1995. C. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque. En Grèce Archaïque: Géométrie. C. 1990. São Paulo: Perspectiva. 35-37. ZAIDMAN. Historia.C. 1995. 1. Les Hésitations d‘Agamemnon. LESKY. O Mundo de Ulisses. (org. O. 147-155. (org. 1999 (1968). Les Antiquités Grecques du Musée Calvet.) La Grèce Ancienne. Essai sur la Piété en Grèce 33 . FINLEY. In: Tragédies Grecques au Fil des Ans. A.) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. Paris: Armand Colin. LIMA. Avignon: Musée Calvet. SALLES. C. 1986. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. E. janvier 1997. C. mai-juin. F. A. Annales. 2000. Paris: Éditions du Seuil.C. Paris: EHESS. VANOYEKE.

Y la tomó y arrasó en diciembre del 689. centro del avispero antisirio. quedaba en manos del culto Asurbanipal. mientras que el núcleo original del reino. sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer.C. Nabu. 2007: 188). UNED. Madrid. aprovechando la enfermedad del rey de Elam. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . recientemente conquistada. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. cuya biblioteca. La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a. ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa. el príncipe Asurnadinsumi. descubierta en el palacio real de Nínive. Los escasos supervivientes fueron expulsados. dejando al primogénito la antigua Babilonia. cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. En aquel momento del siglo VIII a. marchó contra Babilonia.NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.. el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib . Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua.) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas. ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. En aquel momento.C. deportados o vendidos como esclavos. fueron llevadas cautivas a Nínive.ª Drª. Assur . España 34 . cuyos dioses principales.). C.

junto con las diez tribus del norte de Israel. relieve de bronce. el más joven de los cuales. con su hijo. ―La más pura‖. no sólo personalmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cuyo nombre semítico del sur. Seibert. Asarhadón. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios. Museo del Louvre (AO 20185). esposa de Sargón II. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. 35 . Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. Senaquerib. hijos de otras esposas. era Naqi'a. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. 2. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar. foto de I. había nacido de su última esposa. Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. 1973) pl. tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. desde una influencia religiosa. un princesa de Samaria. El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo. tenía aún cinco hijos varones conocidos. afectado por una grave enfermedad crónica. a la cultural o política. en acadioasirio Zakutu. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. o arameo. la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. Naqi'a. que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica.NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. Pero los hermanos mayores de Asarhadón. capital y región anexionada por Asiria. de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre. 62. Y más aún. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio.

Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. decididamente antia-sirios. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. Asurbanipal. Una curiosa trama. Pero no cabe duda de que no estaban solos. intelectual y sensible . su propia madre. su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. Y debieron ayudarles elementos afines arameos. Naqia. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. Asurbanipal. Ellas debían tener numerosos partidarios. y la reina-madre. quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. 1987: 140-145). que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. pero partidarios del nuevo príncipe. desde luego. sería para el hijo mayor de Asarhadón.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. hijo de la reina Ešarra-hammat. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk. que. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672. al norte de Mesopotamia. oniromancia incluida. Assur. la reina Ešarra-hammat.NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. que ya había fallecido. el príncipe Sinandinapli. Y probabilonio. difícil de cumplir. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas. ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. Y sin duda los utilizaron. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen. eunucos de la Corte incluidos. Y dos reinas le ayudaron: Un viva. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor.

Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así. PNA 1/II 433). semitas del sur.MULHERES NA ANTIGUIDADE . n. 1987: 140-145). Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. también llamada Zakutu. en el año 673. 1999: 105-112). el mismo nombre en acadio. 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE. Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. la lengua de la reina de Sargón II. 22- 37 . sino también económico (MELVELLE. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur. 3. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. sino también muerta. Y no solo viva. que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. madre de Ahaziah [c. Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) . Ataliā (KAMIL. Su sucesora. 1999: 17. 844/3 BC] y nieta de Omri. es el de una mujer.( 2 Reyes 11. Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones.Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina. Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). madre del Asurbanipal. por lo que su papel no solo fue político. Naqia y Essarra-Hamat . se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4.6) ). en la Corte asiria. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9. y 2 Cron. Naqi´a era esposa de Sennaquerib. cuyo nombre significa ―La más pura". es claramente hebreo (cf. la presencia de estas mujeres arameas.NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. Teepo reconoce (TEEPO. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon. aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. la reina Naqi'a. La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón. la reina Ešarra-hammat.

Algo que había sucedido ya con Asarhadón. (AfO 13 T4). PNA 2/II s. Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER. ministros y eunucos. STRECK. la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE. Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188. Yabâ. que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81). 1999. durante cuyo reinado creció la influencia de su madre. Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias. Iabâ ) o el de Naqia (Aram.v. Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia. fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. es tan 38 . deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM. 1956: Ass. Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645). 217). 915-9. ―pura‖). No hay referencias a ella durante su vida . Naqī‘a).v.7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. posiblemente en Assur. lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta.NEA/UERJ 24). PNA 2/I s. aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672).C. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r. sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Y el nombre de la reina de TiglathPileser III. 5). Ešarra-hammat fue reina de Asiria. mi señor]. I. Ella construyó un palacio para su hijo. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal. actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora . posiblemente. magistrados. esposa de Asarhadón(680669). y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no. en colaboración con sacerdotes.

su elección. Lo que evidencia su importancia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cuando al fin lo hizo. estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. TEEPO. a pesar de todos sus esfuerzos. no sólo en materia de culto. los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274). y delante de (." 39 . para que todos respetaran mi derecho a la sucesión. Las dificultades en la Corte parecían evidentes. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra. sino lo que aquí se trata de comentar. recayó sobre su hijo más joven. no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. todos juntos. pequeños y grandes. su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154). a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre.). 5. a este respecto. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. 1999: 105. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. pero. a los habitantes de Asiria. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. SAA 13 76 . SAA 13 77). 2005: 37) y numerosos servidores. Cuando. Asarhadón. por orden de los dioses (. 1).. que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad... apoyada por los dioses Shamash y Adad. (mi padre) reunió entonces. mi padre.. Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE.

una vez más. "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc. hepatoscopia incluída. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. la reina aramea Naqia. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima. El día 18 de Sivan." 132Cr 32:21. perdidas a causa de los invasores tierras. estaba algo irritado. e incluso su padre. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes. C.NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. esta vez de Asarhadón. en cuya elección debió influir notablemente su madre. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron. recurriendo a la aparición de un fantasma. debió recurrir. prebendas y riquezas. ascendió al trono. que para Parpola. según el Antiguo Testamento. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. podían ser indestructibles. buscando refugio en algún lugar desconocido. era el de la fallecida reina de 40 . Senaquerib. que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio.. "El día 20 de Tebet. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta. Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. su hijo. Assarhadón. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat". Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón. Aunque esta vez. Que a la hora de elegir al heredero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Isa 37:37. 38. a la ayuda de sus partidarios. a fin de desacreditarle y atemorizarle. más allá de Khanigalbat. con lo que se le acusó de traidor a su patria. llamada en acadio Zaqutu. Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. Sin perder por ello el título de príncipe heredero. su dios. debió alejarse entonces de Nínive. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico.

el premio por honrar la memoria de su madre. cuando exigió a la 41 . intelectual experto en adivinación por aceite. el mismo año que su otro hijo. Ešarra-hammat. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto).. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. a fines del año 669 a. preocupado sin duda.NEA/UERJ Asarhaddon.. lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre. como había sido su propio caso. la fallecida madre del príncipe.C. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. que tal vez la añorase ahora . PARPOLA. se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño. su fantasma. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. El Príncipe recibe así. porque no debía estar la situación muy clara. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. 6. cuya muerte debía ser muy reciente. Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte. el hijo menor del rey. madre del príncipe Asurbanipal. es decir. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. como en su caso. 7.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aunque ella hubiese desaparecido. la ciudad del dios Sin. entre otras disciplina adivinatorias. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal. y que la piedad del príncipe para con su madre muert. nuevamente. a la vuelta de una expedición a Egipto. El reinado de Asurbanipal. que había ordenado quien sabe si a su esposo. El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. Algo que su heredero tuvo que justificar. NATCP. 1993).C. tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. Tal vez. que su hijo pequeño le sucediese. estaba así sancionado por el fantasma de su madre. una vez más. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan.

la aristocracia y la nación asiria. principalmente en el harén. A la muerte de Ešarra-hammat. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea.) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. 2009: 170). Para ello hizo intervenir también a los dioses. que ayudada por el profeta Natan el profeta. sin duda. y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos.92. debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8). a veces el rey podía alejarla de la Corte. como madre del nuevo rey. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. la esposa preferida de David. Según Melville. como en el caso de de Betsabé .MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ familia real. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. a la coacción. El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder. C. al juramento. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. la reina Maaca. ocupó la vacante política. con su madre. Pero el fantasma vendría en su ayuda. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. jefe de la casa del rey y el harén real. gobernando entre 913 y 873 a. como hizo en Judá el rey Asa. consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a. 8. Así púes. a la magia. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón. ritual y oficial de la reina fallecida. Ella. que la joven llegase al lecho de su hijo. su suegra Naqi´a.. bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). Y además. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea. llamada Adonías. aunque si su poder crecía. era la que había permitido. conservárselo. Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. madre de Asarhadón.

exorcistas y profetas. rey del Asiria. no se rebelará contra su señor Asurbanipal. que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón.C. 2005: 36) . lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey.C. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal.) Madre de Asarhadón (h. reina de Senaquerib. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado. pitonisas. como en el caso de Natán. eunucos.) Abuela de Asurbanipal (h.C.) Esposa de Senaquerib (h. un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera. si lo oyes y lo conoces. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey. madre de Asarhadón.710 a. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él.700 a. los prenderás y matarás y les 43 .) ―Tratado de Zakutu.NEA/UERJ que conocemos. su madre y a su señor Asurbanipal. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h. rey de Asiria. rey del Asiria. brujas. venga a informar a Zakutu. TEEPO. rey de Asiria. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal. ni tramarán para asesinarle. 1999: 29. rey del Asiria. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE. Quieran Ashur. referente a su nieto preferido Asurbanipal. 670 a. C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 670 a. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera.

tu señor‖. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. L. volume 2. Gender and representation in Mesopotamia. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años. PS . London and New York: Routledge. por suerte para la posteridad. OrNS 47. volume 2. BURROWS. Z. rey de Asiria.).‖ WO 28.NEA/UERJ traerás a Zakutu.‖. Religions in the Graeco-Roman World 138.C. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. Leiden. Women of Babylon. magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. volume 3. 96-116. ______. H-K. hasta un fantasma era bien recibido. Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. su madre y a Asurbanipal. 1938. L-N. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. 1997. (ed. 74-90. 1999. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. part . ______. 2001. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. (ed. H. part . ______. M. ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra. a cuya elección había contribuido sin duda. American Oriental Series 15.I. 2000. BAKER. 2001.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). 44 . The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 2002. de las autoridades asirias. part II. DIRVEN. Una vez más. Para ello. The Basis of Israelite Marriage. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. ______. 1978. I. New Haven: Yale. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI.

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução.apesar de ser uma espartana. . rei do Egito após a morte de Proteu. portanto. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça. Enquadra-se. irmã de Teoclimeno. do marido daquela que deseja esposar. a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. como tudo quanto/ me aconteceu.349 a 359). na vida religiosa da cidade. astuciosa. Helena.NEA/UERJ Menelau. 1990). sendo a mélissa. especialmente. estão. no estatuto da mulher ateniense. segundo Andrade (2010: 117). porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias. no entanto integradas. está sendo representada por um ateniense . do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade./ de que houvesse nascido um ovo branco. e que a beleza/ cedesse em meu semblante. Entre as próprias mulheres. pois. parte dela o plano de salvação de ambos. a boa esposa. Hermíone. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Seguindo a ordem dos deuses. a astúcia. porém.. por diversas formas. 2007: 211-212). Helena é ardilosa. A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos. No entanto. silenciosa. não admira o estratagema de Helena. sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. (FARIA. ainda que a contragosto.. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. Minha vida/ é maravilha. como/ as cores da pintura. Helena. pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. havia um par de opostos. Teonoe. com quem tem uma filha.que baseia-se na exemplaridade doméstica. alimenta contra os gregos. 54 . emoção. acumulava ambas as características.) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. á fealdade! (EURIPIDES. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem. as Panateneias e também as Tesmofórias. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(. ou grega ou bárbara. ambigüidade de caráter. vs. e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno.

26 55 . a que está em Tróia com Páris. obviamente. para a esposa legítima do cidadão ateniense. na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. Proteu. sendo ainda possível. vs. para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. como as concubinas ou palákinas. Porém. espécie de fantasma. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. lutando contra um só pretendente. jamais de uma mesma mulher. primeiramente. as pornaí e as escravas. Helena é Penélope. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes. sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. (EURIPIDES.. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. Digamos que há uma Helena que é Helena. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a. a mélissa. eidolon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a.1329 a 1309) No entanto. da infidelidade. há uma outra Helena. Ali ela espera o tempo passar. Bustamante. a esposa por excelência. Helena. Portanto.C. e mesmo a mélissa. as hetairas. É o protótipo da mulher fiel. encaminha para o Egito. porém. da ruptura de contrato. que o desposa e permanece com ele até ser resgatada. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. e que Hera. Enquanto a outra. presente na bibliografia. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro.. Nosso olhar volta-se assim. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. Teoclimeno. permanecendo.NEA/UERJ irmão.C. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C.

Helena. tanto no espaço público quanto no privado. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. portanto. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus. o ponto focal do conflito. em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário. rainha de Esparta. para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. é. mas não a vemos destacar-se no campo político. que se destacavam no campo político.50 a 54). Helena é uma rainha.. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a. estruturas próprias (VERNANT. a terra. (EURIPIDES. que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes. VIDAL-NAQUET. ou seja. entre outras notáveis.C./ para livrar a nossa mãe. Helena. como dissemos anteriormente. possuem sentido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 56 . No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. Tragédias não são mitos.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia. Segunda a autora. sua atuação está limitada. vs. intenção. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. princesas./ do fardo de uma multidão inútil. ao espaço de atuação de uma boa esposa. Menelau lá governa por haver se casado com ela. para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica.

ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. num mito hesiódico. ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . A primeira diz que 57 . 1999: 23). primeira mulher. a manifestação de características típicas das mulheres. mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário. à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. a primeira mulher. e Zeus destinou-a à punição da raça humana. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza. criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena. (VERNANT. a destreza manual. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. e posteriormente retomado por Menelau. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. um duplo seu. 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. o ardil. A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. foi levado por Páris a Tróia. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. VIDAL-NAQUET. Pandora é. ignorado do agente. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade. Foi criada por Hefesto e Atena. com o auxílio de todos os outros deuses. sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. por ordem de Zeus. a graça. Pois. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. a capacidade de persuadir e outras qualidades. a mentira.NEA/UERJ Na tragédia Helena.

de Amorgos. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra.C. a outra era dissimulada.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 27 58 . e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. Ao comparar a mulher e os animais. o causador da guerra. consequentemente. carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. a outra não trabalhava. a lista de deficiências é imensa. Ainda que este seja o transgressor. no século VII a. Esta é a Eva da Atenas do século V a. mudando constantemente de sentimentos. a ―real‖. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖. Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas. a outra se banhava em excesso. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha.C. o infiel. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides.. uma roubava. intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. Uma gostava da sujeira. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade. a outra era ardilosa e astuta. uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. Desta forma. assim como a água altera sua forma. a mélissa. feito de éter. pois esta é ainda mulher e. uma comia as carnes consagradas. presença física. uma falava demais.. De qualquer maneira. segundo o recipiente em que é colocada.

que traiu o marido. O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. Não fosse o estratagema de Hera. sendo. e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. portanto. nem determinada como em Helena. é acima de tudo. Em As Troianas. vemos a sua volta para casa. Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. 2007: 91-92). É descrita como fútil. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. sua imortalização quando Apolo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2006: 119). querendo ou não. há um clima geral de rancor contra Helena. que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. a salva de ser assassinada por Orestes. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade. tornando-se mais superficial. a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio. 28 59 . inevitável que este a possuísse. Recatada. abandonou-o para seguir a Páris. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. Helena está junto das cativas.. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖. inclusive a rainha Hécuba.NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. assim deveria ser a esposa ideal. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. mentirosa. como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. mas não é vista como uma igual por estas. tornando-a protetora dos navegantes.. vaidosa. Em Orestes. ―Não é tão arguta como em Troianas. uma vez que. Nesta tragédia. 1638 a 1642). ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. ―mas. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis. silenciosa e discreta. a personagem recebeu um tratamento mais duro. (EURIPIDES. enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. vs. Porém. Até porque. e por fim. a pedido de Zeus. o reencontro com a filha. a tragédia não é dissociada do espaço político. portanto. Orestes. ainda que não o seja em carne e osso. mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la.

aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista. o imaginário. Eurípides ao apresentar mulheres fortes. assim. espectadores. culturais. ainda que nas entrelinhas. a tradição e as representações sociais. acerca destas mulheres. políticas. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. ativas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. representadas obviamente por atores masculinos. assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. de modo que. são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. 2007: 49). possíveis. nos permite reconhecer.NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. comedidas. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. 29 60 . traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou. que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas. motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público. que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. Muito.C. vias diversas. A relação entre a memória. Fedra. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. e ―apresenta tanto heroínas depravadas. determinadas. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. Macária)‖ (FARIA. 2006: 83). nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares. vingativas. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. (Estenóbeia. mais provavelmente. concede voz. Ifigênia. pois Eurípides coloca no palco. rebeldes. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. prudentes em cumprir suas funções. O tragediógrafo trás a público. do imaginário29 ateniense do século V a. são ao contrário.

M. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental. possivelmente traído por uma de suas esposas. até a atualidade. 61 . como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável. das origens de tudo o que se conhece e que. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se. Ainda que.de S. sigamos então com Helena. Helena.. Rio de Janeiro: Mauad. de caráter fraco. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas.P: Labeca – MAE/USP. 1986.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. Mas. LESSA. novamente. Tradução de José Eduardo do Prado Kelly. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. da C. R. o tempo do princípio (2001: 11). Sendo. consequentemente. como Medéia. Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica. ao ser reinterpretada pelo teatro. por exemplo. configuram neste sentido. dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. Rio de Janeiro: Agir.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense.M. o cinema. Helena. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE.(Orgs. a novela – entendida no sentido televisivo . F. sempre tendenciosa à mentira e à traição. 2010.) Memória e Festa. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES. S.M. de forma geral. Segundo Mircea Eliade. povoa a literatura. BUSTAMANTE. como observado anteriormente. como dito anteriormente. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial. 2005. a música.

R. O Imaginário. 1990. NÓLIBOS. A..C.. ______. 2007. FERREIRA.M. 1994. F. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense. LOWENTHAL. Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero. Belo Horizonte: Autêntica. São Paulo: Perspectiva. M. El Pasado es un Pais Exraño. 2006. CHARTIER. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. FERREIRA. Rio de Janeiro: Bertrand. 2006. A História Cultural. 1992. Rio de Janeiro. Campinas. THEML. A. 2010.P. 62 . São Paulo: Martins Fontes. I. LESSA. O poder do Mito. VERNANT. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. Ken.S. ELIADE. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. DETIENNE.L. G. S. 1998.) La Grèce au Féminin. 2001. FINLEY. A Grécia Antiga. P. CAMPBELL. Pierre. Coimbra: F.. de M. DURAND. São Paulo: Perspectiva. Goiânia: UFG. Rio de Janeiro: DIFEL. 1998. E. de S. A. R. J. SAMARA. Sp: Papirus. M. FLOWERS. Paulina T. FARIA. A invenção da mitologia. História & Gênero.U. São Paulo: Alameda. 2003. São Paulo: Martins Fontes.). Mito e Realidade. M. MATOS. CARDOSO. J. K. José R. Paris: Lês Belles Lettres. 1997.. 2004. São Paulo: EDUC. São Paulo: Associação Palas Athena.L. Entre práticas e representações. 2005. R. (Orgs. Lisboa: Edições 70. 1998.NEA/UERJ BUSTAMANTE. Rio de Janeiro: Mauad... Z. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. LESKY. DOWDEN. Brasilia: Jose Olympio: UnB. São Paulo: Perspectiva. M. 2003. Albin. (Org. 2000. Porto Alegre: UFRGS. GRIMAL. 1991. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. VIDAL-NAQUET. Betty Sue (Org. 1990. Madrid: Akal. 2000. Entre o Sagrado e o Profano. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. SOIHET. J. A tragédia grega. Nicole (Org. GONÇALVES. Rio de Janeiro: Zahar. ______. DUARTE. Gênero em Debate. 2009. Os usos da mitologia grega. Moses. 1999. R.).. Aspectos da Antiguidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . da C. David. LORAUX. Labirintos do Mito.C.

de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. CLAUDIA QUINTA. T. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. ouve meus rogos. (org. e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. E desatadas pelos ombros as tranças. Deusa. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.ª Dr. Sou inocente. delineando suas imagens e seus corpos. nas artes etc. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos. A perspectiva dos Estudos Culturais. que és pura. se inocente sou. no caso específico da sociedade romana antiga. 31 Segundo K. familiar. Woodward.. na antropologia. Nas últimas décadas. WOODWARD. K. In: SILVA. aceito a morte. IV). negam-no. Se me fores contrária.) Identidade e Diferença.. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades. sejam individuais ou coletivas e. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. que um teu prodígio O comprove e me salve.T. na sociologia. quanto por meio de formas de exclusão social ‖.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem. ensinando-lhes seus lugares. decide. eu. têm sua base no complexo sistema religioso romano31. E meu contrato por piedade aceita. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fasti.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Sinal é que a mereço.NEA/UERJ MAGNA MATER. . os ordenamentos jurídico. político etc. 2008:40. ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Ó tu. 30 63 . Petrópolis: Vozes. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual.

WOODWARD. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Religion and Gender: Embedded patterns. 32 KING. de poder. veiculando normas e valores. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação. 2008:40.).. quanto por meio de formas de exclusão social‖. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX. A perspectiva dos Estudos Culturais. termo que. universalmente33..E.. cit. religiões criaram e legitimaram os gêneros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Petrópolis: Vozes.. segundo Ursula King. de autoridade. In: MEDDE.) 32. fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. (edd.). ser aceita como norma por mulheres e homens. 64 . designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. In: SILVA.T..NEA/UERJ mundo. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (. p. pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões. portanto. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. reforçaram-nos (.. A sociedade romana era androcêntrica. op. T..A. U. T. A Companion to Gender History. e que deveria. (org. 33 KING. The Blackwell Publishing Ltd. K. Religião e gênero não são apenas análogos. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. WIESNER-HANKS. existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível. 73.) Identidade e Diferença. 2004: 71.). interwoven frameworks. e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais. M. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples.

BELTRÃO. B. numa visão hipercrítica moderna. criou-se um consenso de que. A. C. após o fim da monarquia. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35. G. Considerando que não houve. os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito. grosso modo.M. C. tem sua tradução e expressão no plano religioso34. e tudo o que seria (para nós) político. ―impedimento‖ que. C. TACLA. BELTRÃO. E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. 34 65 .V. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖.NEA/UERJ ou vícios passados. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político. Rio de Janeiro: Mauad X. ainda comum entre os próprios antiquistas. quando lidamos com um mito. Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos. se expressa como ―escrúpulo‖. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas. na sociedade romana. se não equivocada. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. percebemos que esta visão moderna é. pela proibição ou pelo temor reverencial. A. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. In: MENDES.cf. no mínimo. Ano I.(orgs. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço.) Experiências Politeístas. Os atos rituais romanos são. temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF). que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. nos traz problemas suplementares. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. C. In: LIMA.) Repensando o Império Romano. redutora. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos. a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia. A Religião na urbs. (org. SILVA. 1. e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo. 2006. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. 2008. Cadernos do CEIA. A cf. Há muito que avaliar. Particularmente no caso dos mitos romanos.. Em linhas gerais. De fato. no.. N.

queiramos ou não. e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana. estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia. vistos como falhas do grupo familiar. 1-8). nas mentes das gerações que os ouviam. veiculando e instituindo recorrentemente. Nenhuma religião. sociedade e instituições são. identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina. Lívio ( AUC XXXIV. como os papeis sociais de gênero. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. por exemplo. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs. censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖. na essência. Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante. 36 66 . Os mitos femininos romanos são. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). Religião. termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. E. em suma. assim como nenhum gênero. é uma categoria de análise estável e a-histórica. ou mesmo da sociedade como um todo. o ideal romano da castidade feminina. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. ver.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –. e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. narrativas que podemos considerar político-religiosas. somos herdeiros sob muitos aspectos. eram modelos de vícios fundamentais. portanto. criado por T.

. Clodia escrevia poesias em grego. nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. nem progenitores como eu. assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta. um modelo para a matrona. o filósofo. o Censor. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição). posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino. reprovando a irmã do tribuno.. a principal testemunha de acusação. também relato por Lívio. em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. em 186 a. Do mesmo modo. A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. Cael.. A acusação radicava. Clodia era a principal testemunha de acusação. ancestral de Clodio. concretamente. em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis. que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (. pontuado por elementos teatrais. o caso das Bacchanalia.C. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. 14. sendo considerada 67 . Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. assumindo o papel de Ápio Claudio. ou Claudia Metelli38.)? (Cícero. à época casada com Cecílio Metelo.34). Clodia Metelli. 37 M. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia. investindo contra P. já que nossas imagines viris não a comovem. Clodio Pulcher. Cícero. ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia. cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. Clodia Pulchra. M. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana.

O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios. Cícero. BELTRÃO. dedicados somente ao prazer. Um mês depois do Pro Caelio. cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia. a partir de então. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. Disponível em: http://www. o nome da gens Claudia. como nobres degenerados. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. sua antepassada. AJP 103 (1982): 299-304. Cecílio Metelo Celer. Os irmãos Clodios. é Claudia Quinta. um mito político-religioso em Roma.pdf. Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. C. LEACH.univlille3. Cícero investia contra seu principal desafeto da época. v. Q. União da Vitória: FAFIUV. SALZMAN. 2007. que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. C.revistamirabilia.NEA/UERJ por desonrar. Clodia foi casada com seu primo. BELTRÃO. Colóquios . R.revue. e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. Ciências e Letras (FAFIUV). M. à bebida. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero. the Megalenses and the Defense of Caelius. 40 cf. A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. E. O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. Mirabilia 3 (2003). Atacando a Clodia. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio. com seu comportamento ―imoral‖. membros da mais alta nobreza romana.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor.htm 68 . Dictynna 4. como Cícero e Catão o Jovem. 2007. W.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações.com/Numeros/Num3/artigos/art2. Disponível em: http://dictynna. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. 39 cf. 1: 56-62. matrona que se tornará.

Outro rito era a lauatio. XIII. 27). P. censura a Clodio por não ter. havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41. e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. Jogos realizados durante o festival das Megalensia. e Cícero. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. Cipião. O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a.. pensamos. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril. um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. A data do discurso é significativa. Q. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har. Cibele. sobre o qual repousa. merecendo a menção de Cícero no discurso.NEA/UERJ Foi então. 41 69 . nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados. Cibele43. Claudia. que tem como primeiro dever mantê-los. cumprido com os deveres de seu ofício. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando edil curul. pela supervisão dos Jogos. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia]. nem teu próprio sacerdócio. Os edis eram responsáveis. riacho perto de Roma. novamente uma referência aos Ludi Megalenses. no início dos Ludi Megalenses.C. aceita em No mesmo discurso. Desse modo. resp. cuja antiga austeridade era. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. incluindo mimos (os ludi Megalenses). A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). na passagem. nem a edilidade curul42. ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas. dentre outras. o banho ritual da deusa no Almo. em honra da Magna Mater. No De haruspicum responsis.

fortíssimo. em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖. provavelmente. para Cícero. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio. e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. com seu apelo tradicional à fides.11). radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46. então. também deixou a estátua ilesa.C. para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal. conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45. 44 70 . Cícero utiliza. O argumento de Cícero era. ocorrido em 111 a. escapara a um incêndio no templo. quando os quindecimuiri sacris faciundis. desta feita em 3 a. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família. declararam que as divindades romanas. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício. que não chegou até nós. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia. Em geral. 45 Esta estátua. The Classical Journal 96. No seio do embate contra os Clodios.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal. Claudia Quinta é. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos.. bem como. 46 cf.8. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Um novo incêndio no templo. LEEN. um modelo de castidade. consultados pelo Senado.2 (2000-01): 141-162. portanto. 1.C. A. sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater. um modelo de emulação para mulheres romanas.

As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . agora. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. como a tradição registra. Lívio.). e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. que jamais enfrentara um combate naval. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo. levando Cartago a aceitar um tratado de paz. cidade fundada pelos fenícios no século IX a. mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago.C. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates. centros agrícolas na Campânia. Após vencer a I Guerra Púnica. além de comunidades pastoris nos Apeninos.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília. A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio. Roma era. senhora da Itália. da Sardenha e da Córsega (237 a. Roma. com Cartago47. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. agora. no norte da África.C.). As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. ilha situada entre Roma e Cartago. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a. Aproveitando as dificuldades de Cartago. C). XXIX.C. Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília. Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. Nosso contexto. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. agora direto. cidades etruscas. 14. E a II Guerra Cartago. pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. 47 71 . Roma ocupou também a Sardenha. agravado pelo contato. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização. 9).C.

Durkheim apud WOODWARD. Só em 211 a. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a.NEA/UERJ Púnica. ―a religião é algo eminentemente social. A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual.C. a guerra de Aníbal (218-201).MULHERES NA ANTIGUIDADE . A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. verdadeiros tanques de guerra. com seus arsenais e minas de prata. 48 72 . Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó. Aníbal... Os itálicos. Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas. que incluía seus temíveis elefantes. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão. abandonando a península itálica.. seguiu-se uma guerra de desgaste. a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses. ficaram apavorados. trouxe grandes dificuldades para Roma48.C.C. por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. causando graves problemas sociais na Itália. manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖. sendo destinados a estimular.C. se dirigiu para a Itália meridional.). na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal..C. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos. Finalmente. o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a. chegando a atravessar os Alpes. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. 41. que se instalou em Cápua. enfraquecendo o poder da urbs. então. Derrotados em Zama. respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. A partir de 215 a. op cit. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam. segundo a tradição. perto de Cartago. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês. invadindo a Itália pelo noroeste. foi um marco.. Em 209 a. recuperou Tarento e Cartagena. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. p.C. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas. A derrota romana em Cannae (216 a. recomendado o culto de Cibele aos romanos. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem. que nunca tinham visto um elefante. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. de um festival. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. 49 Segundo Durkheim. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade.

simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana. os galli. Pela documentação percebemos que.. p.(orgs.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade. e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50..C.NEA/UERJ pleiteantes. em 191 a. Segundo Erick Gruen51.) Repensando o Império Romano. 50 73 . a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. Cipião Nasica e por Claudia Quinta. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf. 1990.M.. N. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53. 2006:146.61. quando chegou a Roma. E. cit. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖.. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. a Magna Mater chegou a Óstia em 204. A Religião na urbs. O favor divino. Ann. poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago.1). 27. In: MENDES. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis. 53 BELTRÃO. No mesmo momento. sendo recebida por P. 51 GRUEN. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden. 3. 52 GRUEN. op. G. Studies in Greek Culture and Roman Policy.V. Por sua vez. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais. Tácito. S. líder das matronas romanas. A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes. P. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: . sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano. no Palatino. os efésios. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões. SILVA. C. Rio de Janeiro: Mauad X.

Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. as aldeias dos Montes Albanos. Cividale del Friuli. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. Mas o termo 54 55 74 .NEA/UERJ cuidadosamente controlados.3). e é certamente preferível a sincretismo.v. além de ter sido domesticada como Magna Mater. a extensa Alba. E. onde seu filho. podem explicar a cidade mítica. Então. I Latini e gli altri popoli del Lazio. COLONNA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e.g. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado. Este termo enfatiza a integração. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso. 2. s. tb. J. In: Itália Omnium Terrarum Alumna.P. Virgil and Augustus‖. existentes desde o período do Bronze. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa. T. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana. sua autodenominação. suas vestes e penteados femininos. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. cf. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ. Fasti 4.S. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. ou neto. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns. uma montanha próxima de Tróia55. como o festival do Latiar. 2008: 9-26. MARTINEZ-PINNA. celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano.247-72 de Ovídio. interpres). Ver. Desse modo. Rom. ver os Fasti 4. fundaria Alba Longa. – Pisa: Edizioni ETS. contudo. a introdução do culto era uma inovação dramática. ―Cybele. ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. simultaneamente. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. 43. inaceitável para a tradição romana. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. Ant. Milano: Scwegwiler. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen. de certo modo. cf. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. 57 Interpretatio. Dion. reunindo os povos latinos.I. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. Ovídio. Wiseman.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. a mítica predecessora de Roma56. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia. se o culto era novo e. 1988. Italia y Roma desde una perspectiva legendária.19. Hal. derivado de interpres. e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. G. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas.

se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental. por mais brava que seja. op. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio. e sua interpretatio. a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode. por fim.) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. Ressalte-se sua instalação no Palatino. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. em seu poema político-filosófico De rerum natura. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas. como sustenta Gruen. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma. ao mesmo tempo. 75 . e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58. e o estudo de inovações religiosas. cit. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago. 26.MULHERES NA ANTIGUIDADE . chocavam-se politicamente com frequência. E é ainda com essas também tem seus limites.. p. então.. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. 58 Gruen.. à época da II Guerra Púnica. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. A urbs estava unida por seus mais destacados membros.NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. Gruen chama. e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖.

. anda muito longe da verdade‖ (RN. apesar da interpretatio. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. pulam em cadência... Apesar de seu ceticismo epicurista.. 643-44)... II. Grupos armados (. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia. silenciosa. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham.) Tocam tambores tensos. alegres como sangue (. no meio de um respeitoso temor. segundo os antigos costumes sagrados. apesar de tão belo e tão bem imaginado. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal. II. RN. levada através da cidade. revela-nos que Cibele. porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. chamaram-lhe Mãe do Ida. com generosa oferta.. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros. e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . homens armados acompanham a grande mãe. sempre foi 59 76 . Por isso. as mãos fazem soar. Vários povos. os fieis. côncavos címbalos. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. beneficia os mortais com sua calada proteção. no entanto.. (. tudo isso. (.) Logo que. à volta. 600-642). e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio. Juntaram-lhe eunucos.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras.. que lhe faz dizer ―.). No festival da Magna Mater.. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria. segundo dizem.) vão lutando entre si. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59. as tubas cantam roucas suas ameaças. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor.

. no dia que antecede os Idos de abril. e em BEARD. 1996: 28-74.. NORTH & PRICE. Dentre elas. op. XXIX. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. um nome se sobressaía. 77 . VI. R.vol.5-14). Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino. NORTH & PRICE. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus. e. In: ______.. cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle. vol. em TURCAN. op.. cit. 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia. de uma a outra sem falhas. e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. que foram chamados Megalensia (T. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres. no Palatino. 96 ss. após ser retirada com segurança.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa. e houve um lectisternium.cit. a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L. Sua reputação que. Oxford: The Blackwell Publishing Ltda.1..g. Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e. (. (.) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória. p. o de Claudia Quinta. The cults of the Roman Empire. entregá-la às matronas para ser levada. considerada uma deusa estrangeira. para onde a estátua de Cibele era levada61.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril. As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão. p. 96 ss. 14...L.. The Great Mother and her Eunuchs. como a tradição registra. e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus. até Roma. 1.). 62 Segundo Varrão. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la. Este era um dia de festival.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lívio. 15) e em BEARD. e Jogos. na Frigia62. (.

com base na tradição. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento. cavaleiros. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. Em versões posteriores. entre as matronas. por seus escrúpulos religiosos. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. (Ovídio. A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama. Fasti. 78 . o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. e a preparação da cidade para receber a deusa. Cícero. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. Em Ovídio (Fasti. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. Assim. antes de Lívio. A figura de Cibele. são elementos significativos para nós. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação. no desenvolvimento do mito. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. IV. quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. exigia. Esta versão de T. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres. para ser aceita. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. e seu culto demandava controle. nada comenta sobre esta suposta reputação. senado. sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖. de ―todas as matronas‖. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta. a matrona com prévia reputação duvidosa. IV. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta.

e as que. do antigo Clauso prole. a crer no mal propendem todos. todos no empenho Põem mais que humano esforço. e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. virgens. Contudo. rompe da turba. Delirante todos a crêem. Com os olhos fitos na divina imagem. Sobre a cabeça a verte por três vezes. cansam. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos. enche d‘água as palmas côncavas. Tão bela quanto ilustre. pura na vida. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta. De torpeza era ré na voz da fama. Claudia. Chega ao Tibre. Lá vão correndo em confusão festiva. ó Vesta.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. . noivas. De hora a hora o descrédito medrava. Por três vezes as mãos aos céus levanta. se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. Virgens velam no altar teu santo lume. ouve meus rogos. Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ajoelha. Que prol. Matronas. 79 . Sem ousar a surdir. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. E desatadas pelos ombros as tranças. suam. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também. Dos penteados seus. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos.

invocando a Magna Mater. puxa manso a corda O que refiro é. então. Pela acclamatio de Claudia Quinta. que ainda hoje espanta em cena. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. Deusa. Quando o barco encalha. a deusa testemunha sua virtude.(. Na poesia de Ovídio. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. Sou inocente. asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes. Scheid. por exemplo. Claudia Quinta. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. muitas vezes. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente. complementados com fórmulas verbais e. e o discurso verbal é inseparável da ação. o ritual é performativo. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas. aceito a morte. Ante o povo a protege. negam-no. eu. Sobe uníssono aos céus clamor fervente. pedindo que. Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora.NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos. de quem. Ó tu. os oficiantes liam os textos. e ergue seus braços. torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. que és pura... e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta. solta-o e o conduz ao porto. muitos levantavam calúnias. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . Segundo J. os rituais incluíam fórmulas imperativas. Se me fores contrária. Sinal é que a mereço. Claudia Quinta se separa da multidão. puxando o cabo do barco. se fosse casta. que um teu prodígio O comprove e me salve. a glorifica. Fasti IV. de puras mãos deixa levar-te – Diz.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. havia uma jovem de origem nobre.) (Ovídio. Seus atos eram. Geralmente. se inocente sou. decide. O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. encalha num banco de areia.

Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. altares decorados. confirmavam a crença de seus fiéis. belos animais com chifres ornados. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. clamo). A mesma aclamação podia ser. por vezes. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. proclamo. propiciavam o favor da divindade. J. invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. mas também a aprovação verbal desta audiência. quanto no uso de neologismos. As acclamationes visavam. repetida. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos.) remete à vocalização. performances musicais. não se podia voltar atrás. ou seja.v. 64 O termo acclamatio. na presença de uma audiência. desta feita extraverbais. mesas enfeitadas etc. eram as roupas brilhantes. pois. tanto na estrutura rítmica. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. Indianapolis: Indiana University Press. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano. e sinais aromáticos de perfumes e incensos. An introduction to Roman Religion. 2003:98. de figuras como a hipérbole e outras. bem como outras derivações (exclamo. Assim. s. coroas e guirlandas. Bloomington. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas. vinho e carnes queimando no altar. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual. contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. Outros elementos importantes dos rituais. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas. preces. expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos. derivado de clamo/clamare. 81 . reclamo etc. com o sentido de ―criar versos‖. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. os celebrantes eram cuidadosos. e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade. por exemplo.

Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. 17) Paris: Les Belles Lettres. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. de reconciliar alguém com uma divindade ou.-C. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum. Este. portanto. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. um dos ritos relacionados à guerra em Roma.a.C. ou público. Le Collège Pontifical (3ème s. Ph. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual. em primeiro lugar.C. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. ou seja. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine. The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. Un procès politique en 61 av. a divindades de povos inimigos. As acclamationes podem ser vistas. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome. 1981. decidindo que o caso fora nefas. b) a função testemunhal. Segundo Cícero. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67. J. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado. TATUM. MOREAU. 1999: 62-86. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas.NEA/UERJ assuntos religiosos65. J. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio. irmão de Clodia Metelli. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias.C. mas também serviam para impressionar a audiência. J. como performances orais endereçadas às divindades. em Roma. de l‘École Française de Rome. a instauratio. Brepols Publishers. Ver esp. realizado no acampamento militar romano. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão. F. W. remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. 1982 : 58-62 . 65 82 . e SCHEID. e J. Podemos VAN HAEPEREN. 6-7 avril 1978) Coll. ou seja. D »Etudes anciennes.-4ème s. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio. contudo. Paris : Palais Farnese.p.(Coll. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. e c) a função de instauratio (repetição). Clodiana religio. mais frequentemente. durante a cerimônia da Bona Dea. de um ritual em espaços cerimoniais. que prometia domicílio e/ou culto. em rituais como a euocatio66. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar. Era .MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto.

Dictynna 4. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d. John North e Simon Price70 e. 2 (A Sourcebook). Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69. 71 LEACH. Claudia. Religions of Rome. 38.A. posteriormente. de uma relação privilegiada com uma deidade. VI. sob o Aventino: 68…uel tu. por exemplo. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. Disponível em: http://dictynna. A narrativa ovidiana desenvolveu-se. Eleanor W. Elegia 4. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza. NORTH. uxor Fulvi Flacci.C.univlille3. W. Naturalis historia. o Antigo. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen).F. na margem do Tibre. E.. J. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade. iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio..R. 10.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. que realiza um milagre68. 51-52. Propércio. e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. que residiria na observância dos deveres familiares. PRICE. Cambridge: Cambridge University Press. 2007. 1998: 45-46. S.pdf 83 . A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma. M. a matrona romana encontraria sua gloria. Mary Beard. electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret. turritae rara ministra deae: Propercio. consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade. 70 BEARD.MULHERES NA ANTIGUIDADE . vol..NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste.revue.

sentada num trono. A deusa está vestida com um véu. ou seja. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. nascida livre ou liberta..MULHERES NA ANTIGUIDADE . e projeta-se numa plataforma. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. 72 84 . ao modo da deusa. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta. mas provavelmente pertence. em um navio. a um ramo da gens Claudia.org/images/raia_images/claudia_syntyche.C. Esta figura também está velada e usa um chiton.jpg ) O altar. com uma provável aedicula atrás dela. com o chiton e o himation. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele.vroma.NEA/UERJ (fonte http://www. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas. datado do século I d. a deusa surge no centro. Na imagem.

1. próprio aos rituais agrícolas. ver: BEARD. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo. Rio de Janeiro. o prolongamento ígneo da luz.NEA/UERJ E. lhes era conferido um caráter de incolumidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. Esta associação teve um longo sucesso. no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal..g. geração em potencial. O fogo das Vestais era. Religions of Rome. 2007. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard. podemos dizer que as Vestais. em Herodiano (Hist. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. Cambridge: Cambridge University Press. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. até a modernidade. do devir dos elementos e de toda história. Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― . num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. 70 (1980): 12-27. e a consciência desta oposição. como tal. Se eram mulheres com privilégios cívicos. M. não tinham o cândido significado das meninas. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros. como surge. nem o das matronas. v. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. para os homens romanos a principal virtude feminina. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. HORVAT. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa. 11)74. NORTH & PRICE. 73 85 . No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. portanto. que remeteria a um regaço materno. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. Se eram matronas. na poesia e na pintura através dos séculos. seria antes uma poção sagrada do que um alimento.73. P. protagonista da criação e. para tal.‖ cf.C. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais. e a quem era facultado observar a vida pública. os Di consenti. as Vestais eram revestidas de sacralidade.. e. no século II d. o eram da terra. exercendo o fascínio do interdito. mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos. e. especialmente em representações imagéticas. sempre elegantemente paramentadas. Phoînix 13. Quanto ao mola salsa. 2. que na vida doméstica faziam o pão. geração consumada. corpo da família. BEARD. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade. materializado pela exigência férrea de castidade. pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado. 1998: 45. cf.

observar esta figura.NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos. A casa familiar (domus) romana é um santuário. está na base do regramento romano de gênero. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76.v. aspectos centrais da reforma augustana. que implica propriedade e patrimônio. que são. Importa. no casamento. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. escravos. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico. do culto dos maiores. E a mulher. agora. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. portanto. instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. garantia a continuidade. A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. familia 76 86 . sem maiores considerações a laços sentimentais. com a ênfase positiva na castidade feminina. e os principais ritos famuli. que não corresponde à virgindade. por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. exaltando a figura da matrona. Com o passar do tempo. por meio da geração de filhos homens. de onde deriva o nome família: ERNOUT. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. de forma quadrangular. não podia pertencer a mais de um culto familiar. s. Em um altar (ara) de pedra. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. já que a matrona.MULHERES NA ANTIGUIDADE . próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados. o laço religioso é o fundamento da família. MEILLET. A tradição da religio domestica. ambos. Do mesmo modo. local no qual residia o Lar familiaris. que teve um impacto direto em suas principais instituições. com seus Lares e Penates.

MULHERES NA ANTIGUIDADE .). E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana. na prática. ritos de passagem à idade adulta etc. Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher. definia a identidade masculina.A. apesar de. The Blackwell Publishing Ltd.. A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado. preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade. como sabemos. (edd. 77 87 . por exemplo. sua propriedade mantinha-se no domus de origem. M. presididos pelo paterfamilias (casamentos. a pública e a privada. Paul Halsall diz: . A mulher. 2004: 293. A Companion to Gender History. que adquiria o manus sobre ela. Do paterfamilias. e apenas ele era um cidadão completo.. é considerada débil. manumissões. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. T. A uirtus é. Na verdade. por sua natural falta de uirtus. O poder de agir em ambas as esferas. significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo. In: MEDDE. tem a mesma raiz de uir (homem).NEA/UERJ familiares ocorriam. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família. Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖. seus filhos e seus escravos (patria potestas). e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. WIESNER-HANKS. uma qualidade exclusivamente masculina. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. tangendo HALSALL.. portanto.).E. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. P.

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes. Gentili e Perusino 2000. Jessen 1914. contida em um vaso de c. ainda. um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós. inclino-me a acreditar que as imagens de c. talvez. Corti 1998. Meyer 1980. 245 –333 (especialmente. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia. Mastronarde 2002:44-57. de fato. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos. que segura serpentes em cada uma de suas mãos. Belloni 1981.85 1. então. certamente. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. HalmTisserant 1993. Neils 1990. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. Griffiths 2006. 400 a. primeiramente atestadas em c. de modo muito semelhante. de Canosa di Puglia.C. Lesky 1931. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia. para entender os contextos e significações de tais aquisições.. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé. Parry 1992. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma). Clauss e Johnston 1997. Ogden 2008:27-38.530. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto. Schmidt 1992. Moreau 1994.C. conferir Heydemann 1986. Zinserling-Paul 1979. Candido 2010. em vasos. 86LIMC Medeia 3-6. 87 LIMC Medeia 29.87 Por isso. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. Direcionar. GaggadisRobin 2000). resta-nos pouco para contextualizá-los. Vojatzi 1982. 312-15. por sua vez. Tupet 1976. Contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre um par de serpentes que olham para ela. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. 330 a. Gantz 1993:358-73. 95 . Moreau e Turpin 2000:ii. façam alusão ao episódio da carruagem. Braswell 1988:6-23. 2009:78-93.86 Se estas. Simon 1954. Séchan 1927.C. A maioria das evidências principais é iconográfica. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro). É válido notar que uma descrição dessa mesma cena.

não era bom o suficiente para um artista falisco que. Iason 71 (c. 58. 57. 34-7. não intimidadora. 36 (c. 27-30. em diante. 58. portanto. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar. 73-4. 55. Iason 72. 12.400 a. conferiam-lhes uma aparência surpreendente. combinadas com as asas. então. 39. deu asas as suas serpentes. de galinhas. especificamente.. 63. 38. 52. 53. em diferentes configurações. 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35. Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖. 62. 11.C. 113.). Isto. 115. ou não descartadas.C. 96-7. 42. 105. no entanto. Iason 73 = Medeia 37. uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico. 92 LIMC Medeia 46. 18. de maneira muito próxima. 88 96 . na segunda metade do quarto século a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de boa qualidade.400 a.400 a.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante.90 As serpentes não aparecem com asas. 91 LIMC Medeia 39. 38..).C. 67-9. correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a. 70. 80. 107. 114. muitas das quais. 117. parecendo. 400 a. 119. 64. a partir de c. efetivamente.C. nesses vasos. em mente. 112. Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que.C. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d. No próprio texto. 118.C. 55. Medeia 29.88 Desde c. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. 50-1. porém.C.91 As serpentes mantiveram suas asas. tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c. ter sido elaborado tendo a peça. 48.89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares.C. 108. igualmente.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas.).C.. uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor. 51.400 a. 116. 460 a. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão. como as Erinyes (Erínias). que eram frequentemente representadas. 41.). 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c.

95 e serpentes poderiam.). Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. 100.96 Nas cenas de Triptólemo.T: Medeia 1321. ou 400 a. sugere que ela possuía a habilidade de voar.C.400 a. 105. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c.). embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e.C. e que. em uma reencenação distinta da peça.. 114. LIMC Triptolemos 91. 480 a. se não na performance original de 431 a.C. entretanto. 470 – c. contudo. efetivamente identifica aí uma linha de influências. 480 a. cf.. debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos. 111. anterior a c.C. 95Hypothesis. certamente.NEA/UERJ escapa de Corinto. O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c. Eurípedes Medeia. Se. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia. 116 (c. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo.C. a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser. por exemplo.C. neste contexto. não obstante. e o contexto. aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições.). Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia. de fato. demonstrada na Hypothesis. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes. e Mastronarde. que se refere.C. apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. foi somente em 431 a. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. ter aparecido no palco. 450 a. presumivelmente. frequentemente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . efetivamente.94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. novamente. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N. a uma introdução de uma peça. 97 .C. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é.

esp.99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele. uma vez colhidas. LIMC Iason 22-54. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4. Apolônio Argonáutica 4.C.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson. Hyginus Fabulae 22. Medeia 2-4.9.26).C. ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena. então. p.48.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Medeia. tornando-se jovens de novo.54-121.97 Outra tradição interessante conta que.123-66. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas. Ferécides F31 Fowler.242-50. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. As Nuvens 749a. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c. Diodoro da Sicília 4. a Jasão roubar o velo.98 2. 98 . dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. em 431 a. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. Em versões tardias. Argonáutica Órfica887-1021.24 Bond.ii. Eurípedes Medeia 480-2. Naupactica FF6. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo. igualmente. então. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é. Metamorfose 7. Valério Flaco Argonáutica 8. caísse no sono. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque. 236-7.23. O cheiro das plantas..179-237. Aristófanes. 99Píndaro Ode Pítica 4. semeada com plantas mágicas e nocivas. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. 8 West.149-58. Ovídio Metamorfose 7. 100LIMC Iason 32. [Apolodoro] Biblioteca 1. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes. Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão.100 Com base nessa imagem. permitindo. com a ajuda da filha do rei. que jamais dormia. 480-70 a.

representa uma mulher com veu. 103Homero Ilíada 20. 660-40 a..C. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a. 42. [Apolodoro] Bibliotheca 2. LIMC Hesione 6. tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e um fragmento de Mimnermo.). crua embora eloquente.32.C. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio. Ovídio Metamorfose 11. no caminho para fora da boca do dragão. em que Medeia.2. sugere que ele. Duas outras peças do século VII a. abrindo caminho para sair da boca do animal.451-578. Outra possibilidade é a de que Jasão. Diodoro da Sicília 4.C.C. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea. 470-8. como Hércules fez com kētos102 em Tróia. Helânico F26b Fowler.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem.6. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. 632-29 a.C. Valério Flaco Argonáutica 2.T: Iason 30-1 (vii a.105 O fragmento de Mimnermo de c. ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c. então. a fim de matá-lo por dentro. Hyginus Fabulae 31 and 89. 99 .T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas.4.199-215. A imagem contida na ânfora de Caere.. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão.101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito. até que Jasão conseguisse lutar e resistir. provavelmente.‖106 101LIMC 102N. sem resistência e acabado. 106Mimnermus F11 West. através de suas drogas. ou pelo menos metade dele. deliberadamente. 105LIMC Medeia 2. monstro marinho gigante enviado por Poseidon. 33-5. [Licofron] Alexandra 31-6.145-8. encontrando-se. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças. Philostratus Minor Imagines 12. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão. já teria sido totalmente engolido.5. 104N.9.

).C. c. primeiramente. ao contrário.C. de fato.500 a.380-60 a. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças.). ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c. ainda. como é encontrado no conjunto de fontes do século V a.C.).).). 16 (450-25 a.). é digno de nota que Ládon é. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e. É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs.).C. As fontes literárias e iconográficas do quinto século a.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas. Medeia.C.C.C. 490 a. ele poderia. na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro). anteriores a Medeia de Eurípedes.). os touros de fogo. qualquer outra como. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse. 500 a. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. 450 a. por exemplo. Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida...C.). 15 (450-400 a.C. ao contrário. Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia. LIMC Ladon i 13 (c. seguramente. a começar com a taça de Douris. 100 .NEA/UERJ Mas em relação à ânfora. ou em relação aos guerreiros nascidos da terra. Atena ou Afrodite. Ladon i 12 (450-30 a.107 Quanto ao fragmento de Mimnermo.C. 500 a. de deusas como Hera. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou. 500 a. como nós veremos a seguir.C. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão. 480-70 a. ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes.C.

Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono. (Píndaro Ode Pítica 4. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo. Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes.C. quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo. feito pelos golpes de ferramentas de ferro.MULHERES NA ANTIGUIDADE .220-23. aparentemente inerte. e nos perguntarmos se Jasão.NEA/UERJ de Medeia. eventualmente. o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn). permitindo. ainda. a matadora de Pélias.108 Com base nisso. que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. o filho maravilhoso de Hélios. mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. Este. Arcesilau. 101 . contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela.. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa. de talvez apenas alguns anos antes. então.: Imediatamente Eetes. Com dispositivos (technais). está sendo vomitado pelo dragão. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. Medeia. Pois ele recaía em um pequeno bosque. O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente. ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra. O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos.. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. podemos olhar para a taça de Douris. tendo atuado sozinho. nesta batalha. e levou consigo Medeia com sua cooperação. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes. Ao contrário.

eu indiquei para vocês a luz da libertação‖.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. então. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. enquanto ela fugia com os Argonautas.112 Em seguida. relata que o dragão fora morto por Jasão.109 Um conciso fragmento de Ferécides. a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes..C. Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c.113 Essa narrativa. ele caísse no sono. portanto.. não há nenhum sinal de Medeia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que mostra Jasão. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados. também. pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite. Nesta. Ferécides F31 Fowler. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54. 111 Herodorus FGrH 31 F53. 113 Naupactica F8 West. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes. aparentemente. na tradição posterior.NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade. com a ajuda de Afrodite. não há. referência à participação direta de Medeia. enquanto Atena observa novamente a cena. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente.C. igualmente. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes. Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete". Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão. na qual nós podemos ou não. 470-60 a. sozinho. dentro do contexto.114 É possível que esta afirmação. possibilitando a fuga dos Argonautas.111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam. 454 a. 109 110 102 . após ter feito amor com ela. mais uma vez. fazendo com que. c. acreditar. supostamente. Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas.C. 114 Eurípedes Medeia 480-2.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a. LIMC Iason 36.

. Valério Flaco.C. Valério Flaco Argonáutica 8. 118 Píndaro Ode Pítica 4. provavelmente. Hyginus e na Argonáutica Órfica. Na Naupactica ( séc V a. segurando uma phialē. 120 LIMC Iason 38. 1191-1267. segurando uma caixa de ervas.C.C. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e.118 Estamos pisando em terreno mais firme.-Apolodoro.121 Apolônio Argonáutica 4. 119 LIMC Iason 40. encontra-se também presente em Ovídio.115 Mais à frente. Orphic Argonautica 887-933.415 a. portanto.23.C. Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma. caia em sono . emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c. a mensagem parece ter sido a de que Medeia.C. [Apolodoro] Biblioteca 1. quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c.?). permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa. 117 LIMC Iason 37.116 Iconograficamente.128.149-58.MULHERES NA ANTIGUIDADE .1026-62. uma cratera em formato de sino da Apúlia c.9..120 Como já vimos.69-121. Hyginus Fabulae 22. 380-60 a. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. 270-45 a. Argonáutica Órfica 3.). cf.NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. 121 Naupactica FF6 e 8 West. ela pode ser atestada desde c.220-3. LIMC Iason 39.119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente.117 Contudo. Ovídio Metamorfose 7. ps. representa uma Medeia bem orientalizada. de modo que ele.360 a. então. teria feito uso de suas drogas. já que o dragão está visivelmente acordado. da mesma maneira. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo). 115 116 103 .. em vez de fazer o animal dormir. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida. 41-2. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão. após ter feito sexo com ela.

380-60 a. por vezes. 380-60 a. a Morte. ele próprio. 127 [Apolodoro] Biblioteca 1.). uma técnica similar é usada: Jasão.C. presumivelmente em forma líquida.145-66. mas o seu papel é. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu. então. Novamente.124 Em Ovídio. em sua totalidade. 47b.23. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros. 360 a. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c.127 No sentido oposto ao da tradição.C. de uma maneira bárbara. invocando o Sono e Hécate.MULHERES NA ANTIGUIDADE . repetindo três vezes o feitiço.C. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. 42-3. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. praticamente e inteiramente reduzido. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal. Hyginus Fabulae 22. ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro.‘125 Para Valerius Flaccus.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. 125 Ovídio Metamorfose 7. em seguida.69-121. 122 123 104 . 41.). a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse. senhora do subterrâneo.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. já que o poema favorece a atuação de Orfeu. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono. 126 Valério Flaco Argonáutica 8. tiradas de uma caixa de medicamentos.). 124 Apolônio Argonáutica 4.149-58. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo. É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas. e por último. 360 a. 39.123 Em Apolônio.C. lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu. ela continua untando.9. LIMC Iason 38 (c. LIMC Iason 40 (c. no dragão. fornecido por Medeia.). 46.

apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado. Em ambos os casos. 3.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. em todos os casos. "maçãs" e "ovelhas".1396-1407.113. tesouros estes.128 Nas duas circunstâncias. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2. consequentemente. [Eratóstenes] Catasterismi 1. 128 129 105 . Nos dois casos. que significa. Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs).26-7.C.5. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf.132 Pediásimo. 470-60 a.NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão.4. 133Pediásimo 11. a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens. schol. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca. As Hespérides eram personagens ambivalentes. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a. que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente.g.) e Diodoro 4. Fontes tardias. A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida.C. Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em sua forma canônica. de acordo com algumas variantes. vigia e guarda um tesouro de ouro. as quais ele nomeia individualmente. igualmente. uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta. e talvez. 131 Apolônio Argonáutica 4. semelhantemente.11.39. portanto. Teócrito 3. Primeiro mitógrafo vaticano 1. 130 E. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130). Não surpreende.133 Entretanto. curiosamente interligados. com o conto Ládon é próxima.40. conectados pelo termo mēla. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW.

pelo menos desde c. 136Diodoro 4.8 = LIMC Hesperides 64. 30. 36. 135Ferécides F16c Fowler. 550 a. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas.NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias. 2726. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda. Primeiro mitógrafo vaticano 1. de fato. No caso de Medeia. 454 a. ou pelo menos. 7 (c. 41. 3.137 e. No entanto. Ladon i 6. 106 . distraindo-a com comida e bebidas.C. Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava.C. A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica. 28 (?). a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente. Nas imagens de 380-60 a.500 a. em seguida. o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. No caso das Hespérides. a fim de roubarem as maçãs.136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c. 380-60 a. 470-60 a. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4.138 Mas é somente no período de c. enquanto o gesto poderia. em diante. 139LIMC Iason 40.C. 9. Hesperides 2.2-1. em teoria.C. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . como veremos). como veremos em breve.MULHERES NA ANTIGUIDADE .134 Ferécides. 2717. 138LIMC Herakles 2692.27.C.135 De acordo com algumas tradições (não todas. 137Pausânias 6.139 A este respeito.). encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente.484..29.38. 63. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta.C. caia no sono. c. 2707a. enquanto 134LIMC Herakles 2703..

142 Em uma imagem de c. similarmente..145 e em outras delas erōtes assiste à cena. uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro. 350-30 a. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs).C. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos. evidentemente. 340 a. 62. então. 34-5. 145 LIMC Hesperides 26 (410 a. tal como Medeia eventualmente foi. então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida. uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela. após ter-se apaixonado por ele.C. 107 .C.C.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. quando o dragão que jamais dorme.C. enquanto no outro. Ladon i 9. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos. 4.NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha. Em uma imagem no início do século IV a. o próprio Héracles pega as maçãs. a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e.C. 63. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a.141 Em uma imagem de c. faz-se visível.). 142LIMC Herakles 2726.). 350 a.144 Especula-se frequentemente que.146 Se essa hipótese estiver correta. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides.. deixar seus olhos caírem no sono‖. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor. de qualquer tipo.C. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente. Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs.. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2. 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38.143 Em duas imagens de c.. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma. 33-5.).147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida. uma Hespéride. guardião dos valiosos frutos. 29-31. semelhantemente. Herakles 2719.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 36. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules.

tal como as Hespérides.149 Portanto. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides. de maneira intrigante. a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148.NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir). portanto. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides. para as Hespérides em relação a Ládon.C.). do que vice-versa. embora. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta. a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana.?). 149 Virgílio Eneida 4. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides. untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras. a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que. 148 108 .C. supostamente uma conhecida sua. Homero Ilíada 11. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. Aí. a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil. está a mais remota terra dos Etíopes. Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). Mas de qualquer forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dessa. 550 a. nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado. e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore. Nostoi F6 West (c. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe.738-41 (‗Agamede‘). onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas. O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c. 630 a. em todo o caso. Logo. alimenta e toma conta de uma serpente.480-6.

C.v. em Istambul. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. e que. oikouros ophis: Heródoto 8. no início do século IV a.não existem maçãs. em um vestido oriental. tal como diversas outras divindades. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente. aparece representado em uma cópia do século IV a. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes).). a presença de Ládon. Esse deus observa com interesse E.C. a serpentes..41..C. embora esteja prestes a fazê-lo. οἰκουρὸν ὄφιν. permanece sem um mito. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas. Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada. a personificação da Saúde. tampouco. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a. Aí. Higeia. que apesar de ter se perdido no tempo. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas. da iconografia de Higeia. Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol.. Pausânias 9.410 a. jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c. é claro.150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto.151 4. Hesíquio s. de alguma forma. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas sua iconografia é distinta. árvores e.NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz. 151 LIMC Medeia 70. Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta.C. sendo a mais proeminente de todas.40. representa Medeia. nunca.g. Asclépio. o seu próprio pai e companheiro. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado.C. vívida e largamente consistente. 150 109 .

Na medida em que a serpente bebe. até como um animal de estimação. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides. seu atributo. 110 . ao menos. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz. desde avatar ou símbolo. Schol. ao alimentar a serpente. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente. a serpente. A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. Já que a relação de Higeia e. e de Fórcis. Entre essas figuras femininas. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura. que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. também seria um irmão das próprias Hespérides. até mesmo de inscrições.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais. exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes. De acordo com Hesíodo. o arquétipo de monstro marinho. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. Apolônio Argonáutica 4.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98. Como tal. no tocante a Higeia. em outras palavras.1399. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ainda.

A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo. fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia. portanto. dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. s. por isso.‖155 Ela. enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar. δράκων. segundo alguns etimologistas antigos (ou. Salus e Valetudo). δέρκομαι). é também evidente. à época de Valério Flaco.77-8. de qualquer maneira. “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. 154 111 . ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum. ainda que com retidão ou com artimanhas. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão. Etymologicum Parvum.62-3. significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf.v. em sentido maior ou menor. essa serpente é. elas próprias. A própria Medeia.154 Se as Hespérides. 156 Valério Flaco Argonáutica 8. igualmente. já que o próprio nome drakōn. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda). não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. um aspecto de si mesma. à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides]. Higeia. bizantinos) e modernos. 5. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. Certamente. é uma virgem até ser seduzida por Jasão. 155 Valério Flaco Argonáutica 8. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas.NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e. Etymologicum Magnum.

Se a hydria proveniente de Caere de c. você está predestinado a vivenciar um dia cruel. Em breve. 112 . Mas. Heródoto 8. Pelo menos. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense. eu não matei você. pobre desafortunado. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair.41.93-103.NEA/UERJ o abraça. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos. embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto. então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que. LIMC Medeia 2. antes de Valério Flaco. 380-60 a. Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes. Então. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra. como foi primeiramente atestado em vasos de c. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial. sobre um elemento externo.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. de qualquer maneira. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias. Ai de mim. não está representando nem Medeia nem as Hespérides.157 Por quanto tempo. (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão.C.C. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel. seja qual for o caso.MULHERES NA ANTIGUIDADE .660-40 a. eu imploro. hesitantemente.

113 . então previa-se o oposto. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós.160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo). pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa.C. uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares. é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida. Elas teriam surgido de Píton em Delfos. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad. Luciano Da Astrologia 23. Em relação ao primeiro. na qual a sacerdotisa pítia. que obviamente pertence ao período pós-Píton.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11.161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem. quão intensas foram as raivas. e estas eram os animais de estimação do deus. Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras. o momento Apolíneo do oráculo. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos.2. Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão. O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a.

3. uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio. e que iríamos.C. O dragão. Plínio História Natural 8. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que. cuja condição de virgindade era também. carregam.140-293.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em cestas. Em sua carta a sua esposa. Floro 1. Aulo Gélio 7. deixando os demais bolos para as formigas.18. 207 d. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18. um pré-requisito. naturalmente. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. 162 114 .C. (anterior. ou seja. e comia somente o bolo daquelas que eram. aos escritos de Eliano). Valério Máximo 1. Eliano nos dá outro relato do rito. Sílio Púnica 6. 162 Quanto aos cultos. virgens. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖. posteriormente. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar.. No início do século III d.36-7. Aqui. escrita em c. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco. Se elas se mantivessem castas. Ele conta que em certos dias.C. nós podemos supor. por sua vez. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia). Arnóbio Adversus Nationes 7. pedacinhos de comida. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã. estão embrulhados no pano.8 ext.NEA/UERJ águas quentes. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração.46. enfrentar os perigos como resultado. sendo devorada pela criatura). por Lúcio Róscio Fabato.19. portanto. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais.

165 6.NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era. junto ao dragão (draco). as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos.164 Um texto anônimo do século V. magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas.. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto. Privado de suas ofertas. conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema. então. um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço. os romanos.6.3 Atos de Silvestre A (1). Ele. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1. o destruiu.D. 115 . o dragão soprou seu hálito fétido no ar. e que uma vez por vez. então. na verdade. e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio. sob o governo cristão de Constantino. PL 51. na virada do século IV para o V). são indicadas tendo como base sua virgindade‘. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio. (?). De Promissionibus.C. matando.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a. no final do século IV a. acredita-se. Os Atos de Silvestre.835. p. compostos primeiramente. De Promissionibus.163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica.

166 167 116 . não uma pedra.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles. O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio. 170 Diodoro 4.203. mas o seu elmo.29. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos.170 8. 488-91. Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes). contemporâneo de Apolônio de Rodes.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina. sobretudo. desde a terra dos Hiperbóreos. 1176-1224. o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas. [Apolodoro] Biblioteca 1.1354.51.9. 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx).355-643. Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias. Apolônio Argonáutica 3. 169 Valério Flaco Argonáutica 7. 1246-67.401-21. Horácio Epodes 17.71. 8. aos Marsi. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra. Lucano Farsália 6. As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion.NEA/UERJ respeito166. como parte de sua elaborada descrição de Pélias.169 7. Claramente.23.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol. 1026-62.467-72. Em um episódio singular.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Virgílio Eclogues 8. 631-4. 171 Ovídio Metamorfose 7.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto.g. 172 E. Apolônio Argonáutica 3. isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia. 168 Valério Flaco Argonáutica 7.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada.106-8.

Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera.174 Desde Sílio Itálico em diante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos. em meados do século IV.750. teria sido elevada à condição e status de uma deusa. a Hidra. Sílio Punica 8. ‗a filha de Eetes‘. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima. com a referida deusa.495-99. porém. Sílio diz que Angítia. e que. portanto. ou ainda. 9. De tal modo. A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf. por tal razão. tendo combatido doenças com sua arte de curar. faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino. onde se localizava o santuário de sua deusa especial. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce. a Píton. completa. no final do século IV d. ao seu próprio dragão de Cólquida. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent).759-60. é claro.176 Sérvio Honorato. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. à serpente controlada por Ofiúco. ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida. e como domar animais venenosos tocando neles. também anguis.175 Solino.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea. e.27-9. No entanto. Ela recorre. Sêneca Medeia 684-705.NEA/UERJ Fucino. serpente). conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium).C. e até mesmo restaurando a vida nas pessoas. 117 . Solino 2.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7. Angítia..

C. Hyginus De astronomia 2. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses.477.v μασχαλίσθηναι. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26.181 11. pode ser lido.180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto. assim. 118 . tem de pagar uma dívida para com a natureza‘. cf. no século II d. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões. ao invés de somente uma única serpente. Suda s. Elas permanecem lá até hoje. e se alguma delas acaba saindo. Eurípedes Ion 987-96. oferece um exemplo bem conhecido disto. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento. a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘.. Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona. tal como consta na Eneida. onde seu irmão Apsirto foi enterrado. uma praga de cobras. Virgílio Eneida 5.95-6. Apolônio Argonáutica 4. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida.NEA/UERJ 10.179 O que temos nesse caso. Por um lado. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e. Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. Respondendo aos seus pedidos. Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. em forma de cobra.12 (citing Euhemerus). em certo nível.

4. 1996 (565-50 a.. a taça de Douris) e 36. 585-75 a. Ferécides 22ab Fowler. 2002 (c.C.11. 2005-6.C. 120-2. 440-30 a.C. 600-595 a. 2029 (c.187 Belerofonte que mata a Quimera. Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela. 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell. Homero Ilíada 2.C. 21. Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2. LIMC Herakles 1991 (c. 194 Virgílio Eneida 2. 8 is ca.17.63-6 e 84-90.). LIMC Gigantes 389. LIMC Harmonia 1 (c.C.).). 1995 (c. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc. etc.). 2003-4 (c.MULHERES NA ANTIGUIDADE .VI a.199-231 (com Sérvio ad loc.44-7. 3. 314. Kadmos i 7-9 (no.C.). 590 a.).C. da mesma forma.).3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8.289. 132. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911.). 35. 500-480 a. 2010 (c.C). 189 LIMC Iason 32 (c. 440 a. 480-70 a. 500 a. Ferécides FGrH F11 Fowler.70. 19.C. 2000 (c. Lucano 9. Ésquilo Fórcides F261 TrGF.184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes.C. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6. Jasão que mata o dragão de Cólquida.C.3.).186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas.1. 2008 (c.). Ode Pítica 7. Quinto Smirneo Posthomerica 12.189 Muito frequentemente. 460 a. [Apolodoro] Biblioteca 3. 550).185 Héracles que mata a Hidra.C. 23 26a. 1990 (= Athena 11. 192 LIMC Gigantes 311-12 (c. 190 Homero Ilíada 5. c. 440-35 a.C. 151 (675-50 a. Higínio Fábula 30. cf.) 24 (início do II d. Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol.).666-70.722.C.). 600-590 a. Helânico F51ab Fowler. 1992 (c. 183 184 119 . etc.C.190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia .C.444-97. 12. LIMC Perseus 113.).) 428 (iv-iii a. 263-70). 15 (= Harmonia 1).).C. 185 Píndaro Ode Pítica 10. é claro.).C. 16 (ca. 1999 (c. Em uma ordem estreita.C.370-50 a.).C.). com schol.6-26. 186 Hesíodo Teogonía 313-18.188 e.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes).274. 188 Píndaro Olímpio 13.193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3. 460-50 a.29-48. 520-10 a. cf.).192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse.741-2. 530 a.C. as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa. 500-490 a. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf.). Pausânias 5. LIMC Gigantes 425 (c.

196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral.14.v. Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes. Etymologicum Magnum s.v. que Heródoto. οἰκουρὸς ὄφις.197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes).199 E de acordo com Filóstrato.). Eurípedes Ion 16-28. 195 196 120 . Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo.41. LIMC Aglauros 19 (c.195 Na cidade de Atenas.C. 32 (final do séc. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c. Entretanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE .24.C.C. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio. ―A deusa [Atena].. parece até identificar como a própria deusa. 36 (c.C. tanto em suas narrativas como também na iconografia. frequentemente.). com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. Erechtheus 30 (c. 440-30 a. certa vez. Ἐρεχθεύς. Hyginus Astronomica 2. Plutarco Temístocles 10. 199 Pausânias 1. 197 Amelesagoras FGrH 330 F1. criou um drakōn entre os atenienses‖. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s. possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio. Ovídio Metamorfose 2. ela.). Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol. o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). de fato.24. Ἐρεχθεύς.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon. 435-30 a. 450-40 a.13. 200 Filóstráto Apolônio 7.). a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena.v.C.7.561. os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia.).200 De fato. [Apolodoro] Biblioteca 3. LIMC Kekrops 34. 500 a.NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua. V a. ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope. 198 Heródoto 8.14. Etymologicum Magnum s. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas. apresentam fortes paralelos. [Apolodoro] Biblioteca 3.

‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33. ‗Medeia‘ RE 15. M. GENTILI. Paris. 1988. Uma vez levada para a Itália.R. as Hespérides e Medeia podem todas. O. 1998. Baltimore. não obstante. 1886. 121 . 289-320.K. ‗Iason‘ RE ix. PERUSINO. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar.. B. (eds. 75-71. a deusa-serpente dos Marsi. Medea. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides. Princeton. Medéia. A.. Medea.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1931. GANTZ. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. A guide to literary and artistic sources. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas. 1997. HEYDEMANN. 1993. In : Moreau e Turpin 2000:ii. CLAUSS. identificada com a própria Angítia. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. Higeia. 1914. GRIFFITHS.). 29-65. (eds. 1993.). 1981. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade. E. GAGGADIS-ROBIN. The Myth of Medea and the Murder of Children. 2 vols. mas. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides. Westport CT. Medeia foi. Referências Bibliográficas BELLONI.J. e S. J. a sua própria mitologia. V.. Medea nella letteratura e nell” arte. inclusive. por sua vez. A sua interação com o dragão de Cólquida. 2006. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. Early Greek Myth. T. Rio de Janeiro.NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena.I. L. não somente assemelhada como. L. Berlin. Venice. Londres. Cannibalisme et immortalité. LESKY. B. H. CANDIDO. Jason in Kolchis. Johnston. pode ter. M. Contudo. HALM-TISSERANT. JESSEN. F.1. 2010. BRASWELL. mito e Magia: a imagem através do tempo. CORTI. 2000. na forma pela qual a conhecemos. Halle.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1976. 1992. H. Wizards and the Dead in the Ancient World. Thelxis: Magic and imagination in Greek myth and poetry. ______. 1990. 629-38. . Lanham. Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds. Witches. J. Paris. SCHMIDT. ZINSERLING-PAUL. 407-63.Montpellier. Medeia und die Peliaden. 2002. 1990. Cambridge. 1992. 1979. SIMON. PARRY. 1982. L. TURPIN. Paris. Euripides. 1980. Frühe Argonautenbilder. 234-310. La magie. J. A. NEILS. OGDEN. M. MOREAU.). (LIMC) MASTRONARDE. A.M. Magic. H. ‗Medeia‘ LIMC vi. D. ‗Zum Bild der Medeia in der antiken Kunst‘ Klio 61. (eds. 203-27. VOJATZI. ‗Die Typen der Medeadarstellungen in der antiken Kunst‘ Gymnasium 61. ‗Iason‘ LIMC v. ______. TUPET. E. M.1. SECHAN. Zurich e Munich.-C. V. Würzburg. 2000.. MEYER. 2009.NEA/UERJ Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae 1981-99.-M. i. 1954. Le mythe de Jason et Médée. 2008. 4 vols. MD. La magie dans la poésie latine. Londres. 9 vols in 18 parts. Rome. New York.1: 386-98.‗La légende de Médée‘ REG 40. Night‟s Black Agents. Le va-nu-pied et la sorcière. Des origins à la fin du règne d‟Auguste. 1927. D. 122 . Medea. A Sourcebook. 1994.

estreada em 1709. Dr. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar. 1991. Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Bisneta. esposa e mãe de césares. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine.‖ Ann. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203. esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus. Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto.ª Ms. L. naturalmente. que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana. 204 Sobre a produção historiográfica. Ela é a principal. XIV. nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. 3. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq. p. A figura de Agripina.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. foi dedicada a Agripina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . especialmente durante o século XX. bolsista da UFOP.ª Sarah F. 201 123 .3556-3574. contamos 49 personagens femininas. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. Segundo o historiador Tácito. 9. considerada como um exemplum. irmã. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. Para um exemplo notável destas reapropriações. capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos. que dá título à peça. Nos livros XIII a XVI. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical. mas que a mataria. apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana. Fábio Faversani201 Prof. filha. e foi estudada largamente ao longo da história204. ver: WALLACE.

Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. Deste modo. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. Por isso. Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam. I. em todos os casos. As personagens femininas. mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. Ou seja. gêneros e funções . todas elas. não há transgressão206.NEA/UERJ menções a mulheres. considerando que elas eram peças do jogo político do império.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército. In: FELDHERR. como por exemplo. 1992: 130-154. masculino e política em contraposição a privado. Entretanto. a relação entre público. denotam o caráter de exemplaridade. gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política. feminino e doméstico ser de extrema importância. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais. esta é uma definição básica da transgressão feminina. por exemplo. ou seja. no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política. 69.como. como por exemplo. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. 205 124 . embora a percepção da divisão de espaços. elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. nem sempre apresentam comportamento com características viris205. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende. é considerada como transgressão do comportamento feminino. uma transgressão. cf: BAUMAN. como apresentada pelas fontes. torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores. Mas.) 206 MILNOR. 2009: 277.

em outros casos. estão relacionadas a homens virtuosos. 59%. não por acaso. como veremos. apresenta valor por vezes positivo. partindo das personagens femininas.NEA/UERJ uma linha. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. ou seja. notamos que 29. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. aparecem somente uma vez na narrativa. ambivalentes. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. Em outras palavras. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. a figura feminina mais frequente na narrativa. Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. para além das características individuais das personagens. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. embora considerada ícone da transgressão. A própria figura de Agripina. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. como por exemplo. Ademais. Tácito as caracteriza também pela 125 . por vezes negativo e. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. pois. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. aberta a negociações e a sobreposições. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza. é mencionada em 31 capítulos. Muitas delas. o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. Percebemos que. mas não o fazem. Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas. Já Agripina.

em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. temos Árria Menor209. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. Ou seja. XV. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖. Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. Dentre as mulheres leais aos maridos. 207 208 126 . esposa de Rubélio Plauto. como já ressaltamos acima. quando ele foi forçado a sair de Roma. ou seja. XVI. Ann. esposa de Traseia Peto. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. auxiliam na caracterização de outras personagens. Dentre estas. como se ligadas umas às outras. 209 Ann. Ann. Por fim. que quis imitar a mãe e morrer com o marido. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. 22. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. XIV. Assim. Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. de maneira que. 34. temos Antístia208. Além dessas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em outras palavras. 71. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. Para explorar esta hipótese. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. que também o acompanhou.

16. foi persuadida por Traseia. parentes corajosos.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. Ou seja. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. constantes generi. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos. Ep. poderia persuadi-la a continuar viva).NEA/UERJ sendo que Tácito. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. ―Peto. Entretanto. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . esposas seguiram os maridos no exílio. o que não interferiu na reputação elevada do casal. além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. neste dilema. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro. famosa pela frase ―Paete. não dói‖. ambição). uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos. vaidade. ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus. além de perpetuar a imagem da mulher honrada. 3. 127 . 13. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. mas sua lealdade vai além. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. Comitatae profugos liberos matres. supremae clarorum uirorum necessitates. Árria Maior. genros perseverantes. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes. faz aumentar a glória deste. as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. Acresça-se que neste caso. non dolet‖211. Plínio. no prefácio das Histórias. o único que. Traseia negou esta glória a Árria. No entanto. escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos.

A lealdade das esposas. 53. Lólia Paulina215. associada a estes. Calpurnia. de Ann. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. XIII. 22.2. ver: Ann. 212 213 128 . O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. filha de Druso. Tiberius. 2. Júlia213. Ao comparar. XI. 12. evidencia tais virtudes. Tácito não especifica se é Júlia. inspirava ainda mais compaixão. e Popeia216. 1 . o foco da narrativa. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. XIV. XIV. 216 Ann. ver: Ann. Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. Ou seja. Diferente das esposas leais. filha de Germânico.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). neste momento. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa.NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. que foi condenada ao desterro por Tibério. ou Júlia. por ter aproximadamente 20 anos. Vejamos. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. apenas para narrar suas ações de lealdade. XIV. 214 Ann.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente. que também foram desterradas. outra vítima de Agripina Menor. 63 Ann. destacamos: Agripina Maior212. foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. Não por acaso. 63. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. é a injustiça sofrida por Octávia. estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes. destas. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). XII. 43. 12 215 Ann. XIV. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. a segunda esposa de Nero). (mãe de Popeia. Tácito ressalta que Octávia.

Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio.NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude. O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. O César proferiu as acusações frente ao senado. depois da morte da mãe. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. que sofreram injustiças semelhantes. e uma vez durante o principado de Nero. dentre elas estava Calpúrnia. Elas foram acusadas no ano de 49218. certa vez.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lólia Paulina. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. e. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. e Lólia Paulina. também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). e Calpúrnia foi. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. já no início do casamento. o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina. elogiada por Cláudio. (Ann. resolvemos retroceder um pouco. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. ou seja. Tácito relata que. e deste modo. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII. As acusações foram forjadas por Agripina. e foi sentenciada à morte. mas sua sentença foi o desterro. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. 12. Nero perdoou algumas vítimas de Agripina.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). percebemos que as personagens Calpúrnia. Agripina não é uma má esposa por si. Portanto. XIV. 3) 218 129 . Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. que foi chamada do desterro.

Messalina. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. 60 e 62. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. 221 Ann. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. mãe da segunda esposa de Nero. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. 4. é mencionada em três capítulos: Ann. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador. notamos que a personagem de Popeia. capítulo 43. Seguindo esta mesma lógica. 222 Ann. Deste modo. a lembrança do episódio. XIV. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. Como exemplos. neste momento da narrativa. XI. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. Suílio. a escrava leal de Octávia. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama.NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. Entretanto. Tácito narra que algumas. quando relata as acusações feitas a P. As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. Tácito retoma o episódio no livro XIII. por decorrência. História Romana. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. devido à dor. já estava estabelecida. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. e Acerrônia222. 1-2. a escrava desleal de Agripina. aliás. 5-6. Para se separar de Octávia.‖ (Ann. 3-4) 220 130 . já havia sido morta neste momento do relato. 223 Tácito não cita este nome. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. Uma das escravas. LXII 13. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais. que. por ser aliado de Messalina. XIV. mas o encontramos em Dio Cassius. 4. através de seus atos cruéis e. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. neste ponto do relato. 60. citamos Pythias221. XIV.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

O plano de Nero falhou. Nesta perspectiva. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. então. 51 e 57. apresenta raciocínio servil e. fazem parte do exemplum que o senhor representa. As interações não são circunstâncias isoladas. as interações não só reforçam as características individuais. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. como temos visto. uma existência virtuosa ou viciosa. ficou calada e se pôs a nadar até a margem. modelo vicioso. a liberta foi PARKER. 225 226 131 . Em contraposição. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. In: JOSHEL. num ato de esperteza. Interessante notar. gritou que ela era Agripina. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. mas diferente daquelas. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos. modelo virtuoso. nos exempla de escravos leais. mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. Acerrônia. ela também aparece duas vezes na narrativa226. 1998. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. 167. Envolvida na conspiração pisoniana. Assim. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. ou seja. MURNAGHAN. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste. percebendo toda a trama. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. mas criam em seu conjunto. Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. Mas em Tácito. p. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. 1960: 48. simplesmente o fazem. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. 227 DAITZ. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. Acerrônia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ambicioso e desleal. Ann. XV. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. portanto. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente. Agripina. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar.NEA/UERJ Holt Parker225. Deste modo. a escrava de Agripina.

que sem sofrer tortura alguma. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. qui indicio praevenisset. o que. 54. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. XV. lhe aconselhou o pior. se o denunciava ou não.228 Os escravos leais. como mulher. Tácito narra que ela. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito.NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados. Em dúvida. Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais. no início do texto. no caso dela. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais. Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada. Milicho. 54-55. Tácito compara a conduta dela. at praemia penes unum fore. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. ao adotar um comportamento excepcional. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas. 2003: 71. 4) 228 132 . 57. multosque adstitisse libertos ac servos. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana. XV. Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa. 2. denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. demonstram a superação de sua natureza. e muitas vezes perverte estas mesmas regras. e também fazem parte da natureza feminina. equestres e cidadãos romanos.‖ (Ann. assim como as esposas leais. XV. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat. 231 Ann. significa uma transgressão. 230 JOLY. que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil.‖ (Ann.MULHERES NA ANTIGUIDADE . resolveu pedir conselhos a sua esposa. liberto de Cevino.) 229 Como já ressaltamos.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Milicho. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. cf: POMEROY. como também o controle sobre os residentes desta. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora). 233 133 . igualmente ambicioso e desleal ao patrono. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores. considerando tanto a casa. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. os ganhos seriam maiores. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. 235 DIXON. Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. como por exemplo. enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). Aqui. reservada ao paterfamilias. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. 2001: 95. 1998: 87-93. que é reconhecida na materfamilias. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233. 234 SALLER. Todavia.NEA/UERJ denunciar. pois apesar de possuir honor. Entretanto. obedecendo aos deveres da ―amizade‖. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. ela não detinha a potestas (autoridade). 1995: 149-163. o denunciou. como o fato da mulher ter direito à propriedade. escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres. mas que se faz ausente no escravo. propriedade física. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. claramente. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais.

Um exemplo é Júnia Silana. e Júnia Silana foi desterrada.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). segundo. 2008: 291. RODRIGUES. 238 Ann. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. 21 e 22 do livro XIII. XIII. devido à ausência de herdeiros masculinos e. devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. primeiro. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. viúva. Júnia Silana aparece associada à Domícia. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. uma mulher rica. Essas personagens com menor visibilidade. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. tinha acesso à casa imperial.19. mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato. que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. tia de Nero. e sem filhos. 236 237 134 . Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder. dentre eles estava o liberto Páris. segundo Tácito. Domícia parece não ter sofrido punição. Inimigas de Agripina. A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. XIV. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. principalmente através de Ann. 19. XIII. 12. 21 e 22. Ao mesmo tempo. estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. Agripina conseguiu provar sua inocência. Deste modo. Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. Nos capítulos 19. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237.

por exemplo. Claudii Caesaris filia. 53. no livro XV. 23 e XV. In: HAWLEY. elucidativas. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula.NEA/UERJ casamentos e filhos. o prestígio destas matronas foi. logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio. Aelia Paetina. são. LEVICK: 178. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. como por exemplo.. sua avó. LEVICK: 187. ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239.comitante Antonia. Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. XIII. Ela aparece pela primeira vez no livro XIII. o que explica a recorrência CORBIER. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. além da avó paterna Lívia. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes.. XI. 135 . Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. Como nos lembra Corbier243. de certo modo. De acordo com os planos da conspiração pisoniana. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. ad eliciendum vulgi favorem. Retomando as personagens com menos visibilidade. depois de sua ascensão.. Claudia Antonia e Claudia Octavia. depois da pretendida morte de Nero. percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241. 53. o casamento de Nero com Octávia. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto. Cláudio. 242 ―. filha de Claudio e sua primeira esposa. XV.‖ (Ann.. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242. 241 Ann. relacionada a uma falsa denúncia de conspiração. mandou divinizar Lívia240. 3-4) 243 CORBIER. ex-marido de Claudia Antonia. Claudius. 2. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio. 239 240SUETONIUS. pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César. sobre este ponto. Curiosamente. In: HAWLEY. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro.

Ademais. 2006. Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. 244 Ann. 60-61. fazendo uso de personagens femininas. 8 PLINY. XIV. 1989. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero. além de denotar os meios utilizados por Tácito para. uma vez que além de mulheres. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. como indivíduos. v. 136 . portanto. ricas ou pobres. de Tácito. 1951. The younger. elas são também aristocratas ou escravas. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas. Cambridge: Harvard University Press. Histoires. (Loeb Classical Library). estabelecendo. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. (Loeb Classical Library). as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. Cambridge: Harvard University Press. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. 1925. Walsh. Complete Letters. SUETONIUS.1. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. v. como identidades se construindo em oposição. 2 vv. Dio. G.C. Roman History. Oxford: Oxford University Press. Texte établi et traduit par Henri Goelzer. Translated by J. Translated by P. Rolfe. Lives of the Caesars. como pudemos observar. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla. TACITE. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. Translated by Earnest Cary.

PARKER. pp. 1937. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire. Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. In: Reading Roman Women. Andrew (ed.178193. The Cambridge Companion to The Roman Historians. p. Women in Tacitus. Gerión. 2001. São Paulo: Edusp. Nuno Simões. v. Kristine Gilmartin.69-156. Sandra R. Sheila (ed. Cambridge: Cambridge University Press. 1995. núm. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. (Loeb Classical Library). Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. Suzanne. 30-52. Holt. Tacitus‘ Technique of Character Portrayal.). Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. CORBIER.149-189. Annals. Richard and LEVICK. Translated by John Jackson. Sheila (ed. and MURNAGHAN. Women and politics in Ancient Rome. London: Routledge. DAITZ. Kristina. pp.1. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles. WALLACE.). Sandra R. 26.NEA/UERJ TACITUS. In: JOSHEL. pp. 1995. Richard. 1991. RODRIGUES. The American Journal of Philology. Whores. v. Cambridge: Harvard University Press. Sarah B. pp. and MURNAGHAN.276-287. 2008.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). Richard. DIXON.87-93. 81. pp. MILNOR. Cláudio e Nero. London: Routledge. In: Goddesses. Stephen G. London: Routledge. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. SALLER.157-178. 1960. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. JOLY. Women in Antiquity: New assessments.281-295. p. London: Duckworth. 1903–1986. 2009. In: JOSHEL. 137 . New York: Shocken books. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. Women in Roman Historiography. and Slaves: Women in Antiquity. Wives. 1998. Tácito e a metáfora da escravidão. 2003. Barbara.5: 3556–3574. POMEROY. Madrid. ANRW II 33. London: Routledge. In: HAWLEY. pp. Fábio Duarte. In: FELDHERR. 1992. 1998. Mireille.

pela sua singularidade. as cenas que representam o trígōnon.NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. Dr. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. uma harpa de forma triangular. chamam-nos a atenção.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 245 246 138 . De acordo com o registro arqueológico. Professor de História Antiga. a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. parciais ou integrais. A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais. da Universidade Federal de Pelotas. segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2). salvo entre as Musas. Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto. registrada desde os primórdios da civilização suméria. no terceiro milênio antes de nossa era. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática.

Londres. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247.2). inv. datado de 2600 a 2400. Fonte: SPYCKET. mostra harpista animando banquete (detalhe).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Meados do terceiro milênio. 121199. serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. ― uma caixa de madeira. 1989 : 32-33. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur. Conforme Kátia Pozzer (2007: 147.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. Proveniente das tumbas reais de Ur. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. Fonte: SPYCKET. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli. 247 139 . 1989: 34-35. Acredita-se que este objeto. Londres. Museu Britânico. Museu Britânico. com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz. fig. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖. conchas e calcário vermelho. recoberta de betume. em forma de cabeça de touro.

de fato. ao final do século sétimo. Mármore de Paros. mesmo nestes autores. Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. 2800 a 2300 a.C. Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. 140 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . como um estrangeirismo. inv. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto. Alceu. Anacreonte e Píndaro. Mas. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica. É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto. esse instrumento aparecia como uma novidade. 3908.).Fonte: Foto do autor. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros. Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Proveniente de Keros.NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). a Safo.

Heinhard. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. a pēktís e a mágadis.MULHERES NA ANTIGUIDADE .)248. aluno ou mestre. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros. três tipos de harpa. 1991. e a Linos. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional. MAAS. Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. apontados ambos também como pai dele. Athenische Abteilung 54. 1994: 304. não angular. SNYDER. A cultura grega do período clássic o. amante. para Comotti. dispensando o uso do plêktron. 1983: 57-71. Os textos arcaicos e clássicos citavam. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. o trígōnon. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. De modo geral. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. Museu aparece com freqüência associado às Musas. Segundo Pierre Grimal. de quem seria filho. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. a Apolo. tais como Antiphemos ou Eumolpos. a Tamiras. 1989: 147-151. Na iconografia ática. verbete ―Musée‖). associado a Orfeu. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. termo derivado do verbo psállein. 248 141 . então. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito. ―Griechische Harfen‖. como membro da confraria musical divina. Para West. 164-193. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. e duas outras formas. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. por sua vez. 1992: 70-74. p. 1929. o termo psaltría. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. COMOTTI. de quem seria aluno. requintes orientais. por sua vez. A iconografia ática. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento.

The Education. enquanto o professor. (org. O. Em torno de 420-10. apresentando Museu com um trígōnon. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. sentado sobre um klismós. estudados por Giuliana Ricioni. No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia. numa kýlix de Paris. comum nos vasos da segunda metade do século quinto. aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo.. p. É assim que encontramos Museu. Pýxis. encontramos uma pequena série de vasos áticos. está abrindo um rolo.: MURRAY. produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século.NEA/UERJ e ao ambiente escolar. Figura 4 . Paris. Tamiras toca kithára. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). In: BOARDMAN. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas.Museu toca trígōnon. Louvre. nu. 430-20. entre seis Musas (uma com lýra.) The Oxford History of the Classical World. G 457. Kýlix.Fonte: Foto do autor. simboliza o jovem ateniense livre. o pintor nos surpreende. Oswyn. 249 142 . 227. De certa forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . GRIFFIN. ―Life and Society in Classical Greece. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra. outra com rolo) e Apolo. olhando um díptykhos aberto. J. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos.‖.249 Nessa mesma perspetiva. Oxford. Bib. Figuras vermelhas. J. Atenas. Museu Nacional. c/fig. 19.636. Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo. & MURRAY.

Para 398/70bis). Ca. (ARV² 623/70bis. tal qual às Musas. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon. 2) Hydría. a harpa (RICCIONI. 11. 460-450. ―cítara de berço‖ no campo. quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). Retornando à classificação organológica. 440. Figuras vermelhas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pintor de Peleu.251 Hydría. Museu Britânico. 2391. Pintor de Villa Giulia.: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas.: MAAS. pr. Add² 319) Londres. Descrição: Mousaios com lýra. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. Bib. Melousa com aulós. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos. Para 443. 1989: 163. 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora. Berlim. 250 143 .1a-c. Roma. fig. Terpsichore com pēktís. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação. E 271. (ARV² 1039/13. à cultura e à educação. 64917. Figuras vermelhas.15. enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís. Villa Giulia. sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. Bib. Figuras vermelhas. usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos. Staatliche Antikesammlungen. 1986: 730-744) 250.NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto. SNYDER.

4) Oinokhóe. ao mesmo tempo. 81953. V.360. Alabastro. Final do séc. Ápula.252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense. 11. nos idos dos anos 430-20. Nápoles. IV. 00. Figuras vermelhas. fr. Museu Britânico. 252 144 . Ápula. Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. Museo Archeologico. 1554. IV. Lucaniana. Ápulo. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc. IV. Museo Nazionale. fr. Séc. 69. 77-Edmonds e Platão comediógrafo. Eupolis. constataremos um desacordo entre ambas. Figuras vermelhas. 42-Edmonds.6. Figuras vermelhas. Phérekrates. Nápoles. Ruvo. pr. indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. IV. aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina. Na iconografia ática do Estilo Clássico. Ápula. apesar da sincronia existente (Sófocles. 81392. IV. A representação do trígōnon. E 271. Séc. Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático.Fonte: CVA Museu Britânico 3. V e do séc. Séc. Ânfora. figura iconográfica que. III I c. 412Pearson. Boston.MULHERES NA ANTIGUIDADE .1a-c. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. Figuras vermelhas. 1.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. 3) Ânfora. Em torno de 440. Figuras vermelhas. Metropolitan Museum of Arts. Nova Iorque. a harpa.10-14-Edmonds). Séc. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13). ―cítara de berço‖ suspensa. Londres. Figuras vermelhas. 2) Cratera em cálice. fr.21.63. Museum of Fine Arts. Museo Nazionale. notadamente o trígōnon.

MAAS. SNYDER. em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais. Fonte: Foto do autor. junto com as cenas de kômos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contra 165 exemplos catalogados.NEA/UERJ ―cidadãs‖. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas. Jovem reclinado. em mãos de uma cortesã. Museu Nacional.C. de longe. atribuída ao Pintor de Eretria. Trata-se de uma khoûs ática. Atenas. no entanto. da lýra (CERQUEIRA. O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. Pintor de Eretria.425-420 a. 2001). Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas. Nos textos coetâneos. 145 . e. 2000: 36. 1989: 150). durante um sympósion. Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem. reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). datada de aproximadamente 425-20. casualmente. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa. as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos. 15308.Banquete. inv. Figura 6 . esse exemplar foi consumido no mercado local. a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. Um único vaso. em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. Figuras vermelhas. Khoûs ática.

defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. fr. uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco. Num outro fragmento de Eupolis. acompanhando as tradicionais aulētrídes. Constitui-se. Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. como os demais. que registrei. 139-Edmonds). O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. 2009: 26-29. 253 146 . as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. no único exemplo iconográfico. 69.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tocadoras de trígōnon.10-14-Edmonds). Eupolis. tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. 51. 40. bem como do týmpanon. 14. assim. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. ásperos julgamentos morais. da psaltría. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis. De qualquer modo. nos textos antigos.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. outros à comédia. associando-as à pecha da prostituição. termo frequentemente usado. fr.638. fr. No último quartel do século quinto. não para ser tocada pelos convivas. 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. 63-64. Ver: MILES. que trouxe novidades musicais e que recebeu. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. 77-Edmonds). Assim. Alguns o associam à poesia trágica. conforme West (1992: 79).

cat. 334). afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. cat. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. 2001. the standing position of the harpist also appears unlikely. em BUNDRICK. 332). haja vista não haver relação alguma. 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation. 334) appear contrary to reality. 2001. whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA. Sheramy D. cat. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pintor do Banho (ARV2 1126/6. cat. pr.255 Esse argumento é improcedente. there are anomalies. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. on MMA 16. however. 2001. 2001. As has been pointed out elsewhere. Bundrick. 332. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA.73 (CERQUEIRA. Fonte: West.22.NEA/UERJ Figura 7 . Cerqueira. Figuras vermelhas. diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos. 16. 2001. because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing. em coerência com suas interpretações simbolistas.‖ 255 147 . Add2 332) Período: 430-20. Metropolitan Museum of Art. cat. the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair.73. 1992. não correspondendo a uma situação cotidiana real. Lébēs gamikós.

se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. por sua vez. afinal. deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. A falta de exatidão no desenho do trígōnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico. na categoria de musicista-cortesã. na medida em que não há referência literária alguma. O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais.. A disseminação da arte da harpa. o Pintor do Banho. no rol das prostitutas. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico. O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer. tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais. de uma situação social a outra. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista. a retrata como digna noiva ou esposa. E. mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido.NEA/UERJ iconografia.. deslizando de um grupo social a outro. Efetivamente. E. pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída. 148 . Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos. Contudo.2)256. entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. de modo geral.

por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto. não o representarem. 2000: 181-182). Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. como o quer Bundrick. de outro lado.NEA/UERJ ático o fez. antes ou depois dele. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. a kithára e o aulós. como aquele da Magna Grécia? Ora. mesmo que idealizado. como ocorreu com a lýra. com a única exceção do Pintor de Eretria. É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. lekanídēs. mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa. cofres. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. que passava a ser a sua (ZEVI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1938: 366-369). nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida. SNYDER. alábastroi. indica seguramente a 149 . kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía. a forte associação simbólica da harpa às Musas. os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas. Com base nessas considerações. apesar de os pintores. a forte associação simbólica do aulós à prostituição.

cat.1-3). 1995: 225). 2001. Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. Essa análise. o banquete. Todavia. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira. assim. não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. cat. na terceira cena. a anakalyptēría. 6. na manhã após a noite de núpcias. na outra. pr. não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. ela está sentada sobre o leito nupcial. a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 334) apresentam a harpista numa situação diferente. Já no lébēs de Atenas (Figura 8). como é comum nessa forma de superfície cilíndrica. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder. Seguramente. para uma noiva. alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. quando. 150 . como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. a noiva aparece retratada como harpista. E. ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. cenas seqüenciadas. temos. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). Por outro. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. A figura central está sentada sobre um klismós. mesmo não retratando o momento da epaulía. 1972. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. 1995: 226). O vaso de Würzburg. Enfim. ela já era considerada esposa. sua presença traria outras conotações. porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon.NEA/UERJ epaulía. Ela está desconfortavelmente de pé. tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada. Por um lado. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. 2001. No caso da pýxis. ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. acompanhada por outra moça. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias.

A cena traz claramente uma representação da apaulía. cat. 2001. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. 8. a recepção de presentes. Lébēs gamikós. Mulher toca harpa de pé. como o talentoso Pintor do Banho. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva. procuravam fazer variações temáticas. Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. 24. a lýra.Mulheres no gineceu. o aulós.Atenas. especificamente o bárbitos. a phórminx 151 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figuras vermelhas. Os pintores mais criativos e requisitados. evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais. Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía. Preparativos para casamento ou recepção de presentes. cat. 2000. Bundrick. 334. a noiva poderia saber tocar algum instrumento. Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina. fig.NEA/UERJ Figura 8 . retratada aqui como aulētrís. Fonte: Foto do autor. presentes para a noiva. 14791 (1171). chegando o momento de se casar.Fonte: Cerqueira. Museu Nacional. Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420.

Todavia. sugere que. mais que isso. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos.NEA/UERJ ou o trígōnon. à kithára ou ao bárbitos. na Atenas da época do Pintor do Banho. a pēktís e a mágadis). na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos. a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. entre os gregos. em uma pýxis do Pintor de Meidias. terracotas). comparativamente ao aulós. As convergências param por aí. na cultura grega. apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu. tocando harpa. constatamos. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. A iconografia sugere que. ao feminino. em certos contextos sociais. por via de regra. à lýra. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista). Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. É interessante observar que. é um instrumento para ser tocado por mulheres. associado às Musas (Figura 4). nos últimos anos do século quinto. 152 . tocado pela própria noiva ou por uma convidada. Considerações finais A harpa. a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . De resto. A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. como um estrangeirismo. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. a existência de convergências e divergências. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina. foi um instrumento menos usual. A principal convergência é a vinculação da harpa. pintura de vasos. contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias.

na pinturas de vasos. inclusive durante os festejos da epaulía. por sua vez. mulheres bem-nascidas. Constata-se. é tocado tanto pelo personagem central. tão logo se espalhou entre os atenienses. De outro lado. a indignidade da prostituição. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8). retratado no ambiente do gineceu. no ambiente mitológico. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. para os pintores de vasos áticos. no caso. O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. na cerâmica ática conhecida por nós. é tocado por alguma Musa. em Atenas. em seus divertimentos no gineceu. com a exceção de Museu. 2001: 198). nunca aparece. a dignidade do gineceu e das Musas. tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . e das Musas. Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. No gineceu. Assim. De fato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma pēktís – trata-se portanto. uma cortesã-harpista. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. CERQUEIRA. caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. ainda. de uma psaltría. foi vista como um instrumento refinado.2. A pēktís.NEA/UERJ ambiente. até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. nas últimas décadas do século quinto. Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos. no ambiente humano. é sobretudo um instrumento do gineceu. quanto por um personagem secundário. de que tanto nos falam os textos. No ambiente mitológico. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. entre os pintores de vasos áticos. podemos dizer que a harpa. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa.

que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. como instrumento para entretenimento no gineceu. No entanto. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. 154 . Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses. identificando convergências e divergências. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. entre os gregos. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos. a comparação com a cerâmica italiota. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. possibilitou-nos ver a cristalização. da harpa como instrumento feminino. indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido. O estudo da harpa nos permitiu.NEA/UERJ parentes. O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural. Finalmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de outro. Ao mesmo tempo. assim. entre as mulheres bem-nascidas. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes. sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto.

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sob orientação da Profa. Essa mudança. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente. Assim. Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR. Renata Senna Garraffoni. que. sobretudo das individualidades desse sexo. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. Assim.com 258 157 . que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense.) Prof. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. resultou no aparecimento do termo Gênero.NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. como proposto por uma historiografia tradicional. Portanto. O debate crítico acerca da História das Mulheres. Dra. fruto da busca de novos campos de interesse da História. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil. para a historiadora Joan Scott.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tem seu perfil construído ao longo da história. Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino. lilianemeryt@hotmail. tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo. 1990: 7). Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT.C. gsbalthazar@gmail. 1550-1070 A. faz parte de seu papel socialmente construído. longe de ser tratado como vítima. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto. Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof.

tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito. E é nesse contexto. portanto. Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana. ou melhor. 1990: 07).. (LESKO.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. 260 158 . que ―(. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia. desde a origem. 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. até o final do século XX. determinar a existência de sociedades ginecocráticas.260 Leiam-se. a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado. (.. Nessa premissa. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais. Para além desses aspectos. ou nada. a ver com o outro sexo‖ (SCOTT.). tenha muito pouco.) assim se apresentava a mulher egípcia. Assim. que. a aparente proeminência das mulheres egípcias. na Antiguidade. sendo resultado de uma criação masculina. a experiência de um sexo..MULHERES NA ANTIGUIDADE . o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖. por exemplo.. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada.. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens. De fato. 1990: 16). as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(. pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖..

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). Por fim. que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. nessa perspectiva. em especial pelas mães. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real. No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. é uma clara recorrência a uma história das origens. concedidas às mulheres de sangue real. onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina. Nesse contexto. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. essa linha historiográfica entende. Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 . um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. Há trabalhos. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. e a matrilinearidade. tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. que refutam tais teorias. por exemplo. Para tanto. contudo. originado no seio dos estudos feministas. 1996: 23-24). Acredita-se. uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. A egiptóloga. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação. como foi o caso do Egito. Nessa perspectiva. como o da inglesa Gay Robins. onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher.NEA/UERJ Esse pensamento. ou ―teoria da herdeira‖. não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. em um estudo sobre a XVIII Dinastia. corroboram com este processo matrilinear.

as representações humanas. assim como nas outras fases da vida. no Egito antigo. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas. iconográficas e textuais). 261 160 .. precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER.261 são provenientes de diferentes contextos. mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. Sendo assim. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. John & MÁLEK. 1980. é importante entender que. Oxford: Phaidon. segundo Liliane Coelho. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino. contudo. Assim. tradicionalmente datada de c. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres. 2005: 205). 3000-332 a.C. a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES. foram produzidas pela elite masculina egípcia. Jaromir. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA. as mulheres [egípcias]. Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. embora respeitadas como membros da família. é importante ter em mente que. 30-52. na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nessa perspectiva. Atlas of Ancient Egypt.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres. 2008: 65). p. De fato.

retirado do Papiro Chester Beatty IV. Segundo a visão de mundo egípcia.. traduz uma visão idealiza do feminino.C. do que construir uma tumba em uma necrópole. A mulher era sempre representada de maneira ideal. e que reflete o ponto de vista masculino. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO. entretanto. é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade.C. 15501070 a. . Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. O Reino Médio (c. e desta maneira. por exemplo. a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. em conjunto com aquelas do Reino Novo.). e as composições desta época. por meio de cópias. 2040-1640 a. Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor. O objetivo deste trabalho. Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia. Durante o Reino Novo (c. então. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2009: 162). associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente. inclusive. que as traduziram e revelaram ao público atual. 161 . ao longo dos períodos históricos que se sucederam. formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. ao ser produzida por homens. seus nomes durarão para sempre. A literatura. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios..NEA/UERJ por homens.que prediziam o que estava por vir. até chegarmos ao Reino Novo. de maneira contínua. e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos.) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. assim como a arte.

Os nomes de Senu e de seu pai.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dependendo da função à qual se aplica o texto. Dentro da literatura fantástica. assim. que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários.Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido. (ARAÚJO. 262 162 .. segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). .. enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê. Tendo em vista tais considerações. crianças que conservassem seu nome. 2000: 280). e. mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras... analisamos composições que podem ser classificadas.Um homem morre.. 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo. seu cadáver vira pó. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. 2005. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO. como literatura fantástica.Eles não planejaram deixar herdeiros. foram eternizados por meio do texto escrito. filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO. ou a nota final de um texto. . por fim. .NEA/UERJ embora tivessem partido. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes. literatura gnômica. Mitos e Lendas: Antigo Egipto. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar. Em um dos contos do Papiro Westcar262. Luís Manuel de. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções. para este artigo. Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu.. Lisboa: Livros e Livros. que escreveram. a literatura lírica. tendo completado sua vida. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas. todos os seus contemporâneos perecem. gênero do qual fazem parte os poemas de amor.

foi castigada. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. contudo. Anpu. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. Anpu voltou para casa. Nesta história. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde. e a esposa deste. Certo dia. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. associada ao adultério. que passara um tempo com o faraó. que o servidor deveria colocar no lago do jardim. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. Furioso com a atitude de sua mulher. 263 163 . Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. Bata vivia com seu irmão mais velho. cujo nome não é citado. sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. após a explicação do ocorrido ao faraó.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. Certo dia. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. Bata negou-se. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. A mulher. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. datado do final da XIX Dinastia. no entanto. O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. sendo perseguido por Anpu. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema. transformado em um animal de verdade. Bata foi interpelado pela cunhada. Quando saía da propriedade. o levou para o fundo. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. e seguiu seu caminho. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. na estação da semeadura. assim como na história de Ubaoner. respondendo que a considerava como uma mãe. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse. Avisado pelo jardineiro. O sacerdote.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e eles sumiram para sempre. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. A mulher.

Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela. O final da história. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. Ra enviou as deusas Ísis. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. Ao final do conto. que foi deixado propositalmente na casa por elas. mãe e provedora. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. No conto. Depois de levá-la consigo. contudo. pois as consequências poderiam ser trágicas. Temos. que mentira a respeito do artefato. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. para auxiliar a mulher na hora do parto. que era um bem precioso para os antigos egípcios. Em ―O nascimento dos príncipes‖. e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. acompanhadas por Khnum. Apaixonado por ela. 164 . já que este poderia ir atrás da esposa. após muitas transfigurações. composição que data da XIX Dinastia. que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. Nesta história. nas três situações ilustradas nestes contos. Néftis. Sahure e Neferirkare –. Bata a avisou que não se aproximasse do mar. Em outro conto do Papiro Westcar. filhos de Ra. sem uma autorização do marido. é apresentada a imagem da mulher ideal. foi perdido. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. Reddjedet. e que por isso acabaram punidas. o faraó pesou em matar Bata. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. é narrada a história de Reddjedet. A mulher. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água.NEA/UERJ Em outro momento. Assim. Meskhenet e Heket.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. no entanto. no mesmo conto. mas certo dia. no entanto. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este. desobedecendo às ordens do marido. Falsidade. por sua vez. então. a mulher aparece como a mãe e provedora.

Verdade foi então abandonado num local rochoso. Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres.. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada.. segundo ele. e deveria ser sempre um 165 . são outras: nestes casos. que só soube quem era seu pai muito tempo depois.NEA/UERJ mas. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e. no segundo. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any. no entanto. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. não a fixe quando ela passa. este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo.) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade. O comportamento mais marcante. deveria ser bem nutrida. Verdade e a mulher tiveram um filho. Juntos. a mulher apresenta uma falha: no primeiro. pois ―. 2000: 251-252). de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. às mulheres desconhecidas..‖ (ARAÚJO. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres. porém.. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2001: 35). 2000: 252). em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada. e no qual foi encontrado por uma mulher. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO. não a conheça carnalmente (. Nos dois últimos casos. aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―. com o tempo.. ela aparece como o ideal feminino. Nos dois. onde ficou protegido. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. alguém não conhecida na sua cidade... quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor.. já rapaz. sejam elas esposas. por não revelar. é o da mãe. A esposa. também. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens. neste caso. por exemplo. a mulher é mostrada como a mãe protetora.) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. Sabendo da verdade. Ptah-hotep. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa.

e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele. Ou seja. sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e. Comportamentos que não devem ser seguidos. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada.C. produzidos por homens. a mulher aparece como sofredora. para este sábio.NEA/UERJ exemplo a ser seguido. Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c. (mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO. Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa.. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. Fica demonstrado. 2000: 221). deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO.) Sê bom para ela (durante) algum tempo.. Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. contudo: ―não a julgues. não a repilas. que a imagem feminina nos textos. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS. 2000: 252). não deveriam ocupar posições de poder. a mulher deveria servir ao homem. 166 . então. no início do Reino Novo. tal qual o das esposas e. na ―Sátira das Profissões‖. Trata-se de uma comparação feita por Khéti. Por último. e aparece. mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta. consequentemente. 1640-1550 a. assim como elas. As concubinas. assim.) –. 2001: 35). Em apenas um caso analisado. Ptah-hotep aconselha. assim. todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. na literatura gnômica. também mereciam um tratamento especial. é marcada pela idealização. Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 256-257). alegre e conhecida pelos de sua cidade (. da vida após a morte. Para ele.

tais como espaços e objetos construídos. A literatura. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. como os textos analisados anteriormente. representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. constroem uma imagem idealizada da mulher –. a que aqui se refere. As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco. traduzindo emoções. sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. que apresentam uma linguagem mais refinada. atualmente em Dublin. chamando a atenção. por meio de práticas sociais. são sutis e difíceis de capturar. Posener (apud ARAÚJO. a sensibilidade feminina de maneira aguçada. divide-os em poemas de fala masculina. do Museu Egípcio de Turim. Papiro Harris 500. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado. As sensibilidades. Papiro Turim 1996. pautada nesta distinção. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. tão em voga neste período. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. 2007: 10). 2000: 302). e Óstraco do Cairo 1266+25218. nestes casos. discursos. conservado no Museu Britânico. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. ou do homem ou da mulher. e poemas de fala feminina. por sua vez. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. Portanto. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 . a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. 2007: 226). mas eles transmitem. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301).MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite. Os amantes nunca se tratam pelo nome. Barbara Lesko. imagens e materialidades. 2000: 302) argumenta que os banquetes. a saber: Papiro Chester Beatty I.

ao contrário das masculinas. Observa-se. como é visível no sexto poema do conjunto. 168 . em sua maioria velado e platônico. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz. sensibilidades. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO. 2000: 307). seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. Assim. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. também faz com que o ―coração palpite‖.. como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. 2000: 304). é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados.. sensibilidades que correspondem ―(. De fato. o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO. Deusa de Ouro. pois. ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. eu o beijarei na frente dos que o cercam (.. Esta urgência.. contudo. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento. narrativa. deviam ser velados.. as falas femininas dos Poemas de Amor. que o simples fato de pensar no homem amado. medos. Tais sentimentos. percepções sobre o mundo e é. apreensões. 2000: 307). 2000: 308-9). Ó. 2000: 306). onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado. da necessidade da presença do ―irmão‖.) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖. Deste modo. meu coração. no quarto poema do mesmo conjunto. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. pois a mulher espera que ―(. e por isso pede ―ó.)‖ (ARAÚJO. pelas quais aquela relação originária é organizada. as fontes literárias. 2007: 10)... neste caso específico os Poemas de Amor. traduzem um amor sensível. vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. também.). não palpites‖ (ARAÚJO. o que desperta nela ―extrema alegria‖.NEA/UERJ anseios.) às manifestações do pensamento ou do espírito. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó.

servindo-te meu amor‖. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. o estudo destes poemas. de sua singularidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seu gosto pelo detalhe fútil. 264 169 . por mais ‗insubstancial‘ que seja. O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. tão repleto de sentido. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). compreende-se. paixões. 2000: 317). do Papiro Harris 500. tê-lo ―como esposo. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. Nesse sentido. embora essa o absorva preponderantemente. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. quando o amor faz surgir. antes de qualquer coisa. idéias e ideologias‖. Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). é a vida do homem inteiro. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. a vida de todo homem. não há nenhum homem. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. Nela. colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. com seu tom de confidência. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade. Desta forma. E. portanto. ao capturar um pássaro do Punt. que viva tão somente na cotidianidade. 2000: 316). 2000: 317). sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO. ao contrário. desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. na mulher do quinto poema.NEA/UERJ Os Poemas de Amor. Pretende. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. utilizados na época. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. Na linguagem comum. o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. daquele ―insignificante‖. que a vida cotidiana é. Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. de sua personalidade. pois ―Todos a vivem. ou seja. com o teu braço no meu braço.

O terceiro poema. personalidades e funções. por exemplo. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. a saber. após. 2000: 323). A aflição do amor não correspondido. acima citado. Neste. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. cada poema começa com o nome de uma árvore. particularmente para as mulheres (ROBINS. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. Neste. a música. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços. contudo. cuja fala se direciona ao casal. O quinto poema. Percebe-se. e este se estendeu durante todo o período faraônico. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo. dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. o amor. por exemplo.. vem. a fertilidade e o nascimento. traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. travestida em preces à deusa Hator265. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996. Logo. venero Hator. ―Ao invocá-la. em tal poema. louvo a Senhora do Céu. a maioria dos poemas é de fala masculina. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante. segue-se o pedido. que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. O resultado foi uma multifacetada deusa. 1995: 99). a sexualidade. meu irmão. cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. contado por um sicômoro.. 325). que esperavam. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. Ó. De todas as fontes que contêm estes poemas. meu irmão. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. se faz presente no cotidiano dos egípcios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois incorpora diversas características. cultuo sua majestade. meu amor. a magia. explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. 265 170 . a sutil sensualidade da conquista.). (. 2000: 306) e. olha para mim!‖ (ARAÚJO. 2000. a dança.NEA/UERJ A religiosidade.

o que ocasionou o seu desaparecimento.. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. Em outras palavras. Este estudo. evidencia sensibilidades passadas. De fato. contudo. comumente. revelam como estas mulheres. sentimento este capaz de resistir aos séculos. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo. Sergio Donadoni (1994: 217). é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. 2000: 305). assim.NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO. sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. tão distantes temporalmente de nós. mantendo-se. transmitida por testemunhos de várias ordens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Olhos na estrada. como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR. ouvidos atentos. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. pela localização das cidades em zonas de inundação. 2009: 12). como os monumentos e a literatura. isto é. às vezes. percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. expressas nos Poemas de Amor. espero por aquele que me despreza‖. acerca dos Poemas de Amor de fala feminina. 2000: 319). As diversas formas de enterramento. por exemplo. as múltiplas formas de sensibilidades.). Consequentemente.. por sua cultura singular. foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto. A crença egípcia na vida após a morte. em especial. mas. há cerca de seis mil anos. ainda hoje. marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. de maneira geral. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas. as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. O que demonstra que. o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (.

e. enfim. ao contrário da tendência apontada por Donadoni. implícitas nas entrelinhas dos poemas. com o seu cotidiano. tentar entender as sensibilidades. inscrita nos poemas aqui analisados. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres. Em suma: (. Assim. Nesse sentido. ou melhor.. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. 1994: 12). as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida. 2003: 58). É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO. Nessa premissa. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI. que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. Pensar nas sensibilidades. com o presente texto. com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário. Portanto.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos.. 172 . a análise dos poemas de amor. das trajetórias de vida. a fala feminina. no caso. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I.NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. consequentemente. um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade. se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. como as pirâmides e os textos funerários. que ressalta a paixão pela vida. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. Assim. entende-se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Portanto. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema.

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encontramos mitos e lendas que.NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof. a do racionalismo . porém.com 266 175 . Um corpus de lendas. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário. mesclado de misticismo e obscuridade. que gerou incontáveis interpretações e releituras. A outra é a do misticismo. janeglasman@terra. sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá. Desde os relatos bíblicos. alegoricamente.representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI. (GLASMAN. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico.com. na ênfase dada à lógica e à mágica‖. escritora. NEA -UERJ.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Anjos. em 9 de novembro de 2010. A mais preponderante tem sido sem dúvida. também. presumir que o Talmud não é. complementares uma da outra. mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião. Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética.br ou janebg@hotmail. oposta ao conhecimento. principalmente. pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado.ª Dr. compõem um acervo da ordem do fantástico. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). através de sua longa história. 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica. ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ. por duas tendências principais. Literaturas e Cultura Judaica (USP). milagres. A diferença entre as duas correntes reside. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. É falso.

Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite. Suas origens remontam à demonologia babilônica. artistas e poetas. uma personagem bastante controversa. A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu.268 Na etimologia hebraica. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. 268 176 . tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. não leite. a raiz Lil. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças. O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. Na Suméria.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Os relatos de sua biografia são contraditórios. por exemplo. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. C. Ela é. e autor de feitos sobre-humanos. do raio e do trovão). protagonizando a literatura da Cabalá. depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. sem dúvida. era 2/3 deus e 1/3 humano. que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana.000 anos Lilith tem vagado pela terra. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. Lilith e Dibuk. que significa vento. Lilith. através do misticismo judaico. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. Segundo o mito. figurando nas imaginações míticas de escritores. aparece. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. no nome de Enlil (deus sumério do Ar. o nascimento de um mito Há 4.NEA/UERJ personagens como o Golem. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a. Seus peitos são cheios de veneno. senhor das tempestades.

Em seu jardim às margens do Rio Eufrates. no entanto. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco. de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si.NEA/UERJ Num episódio. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. Os planos de Inana quase são frustrados. identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270. O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore. 1938. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. datado de cerca de 1950 a. ‖269 Usando armadura pesada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. conhecida como o Relevo Burney. sumério ou assírio.. quando um vil triunvirato se apodera da árvore. Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. Neste baixo-relevo em terracota. fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto"." Gilgamesh corre para ajudar Inana. Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro).C. ambos empregados Traduzi de Kramer. o bravo Gilgamesh mata a serpente. a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro). deusa do amor.

O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. British Museum). XVIII a. aparentemente curvando-os à sua vontade. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas. ela voa com asas de demônio.C. como muitos deuses de povos vencidos. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. Afinal.C. Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. 272 Mais recentemente. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos. ao que parece. sabemos que ela é uma deusa. 271 178 . há uma placa de parede de pedra calcária. que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. Além disso. descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). Datando do oitavo ou sétimo século a. Porém. Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos. teria sido transformada em demônio em época posterior. que integra atualmente o acervo do Louvre272. séc. acadêmicos identificaram a figura como Inana. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra. no topo da Estela de Hamurábi (séc. onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder.C. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. Em primitivos encantamentos contra Lilith. um modo convencional de transporte para residentes do submundo. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei. IX a.NEA/UERJ em cerimônias religiosas.

que contém uma menção horrível de Lilith. Em situações críticas na vida da mulher. Fez uma aparência solitária na Bíblia.‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais). uma demônia foi creditada como responsável. Presumivelmente. Com o tempo. No Capítulo 34. ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos. na Síria. em 1933. ela é mencionada só uma vez. referidos frequentemente como Primeiro Isaias.NEA/UERJ pedra‖ em turco).povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação. e Lilith descansará ali. A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança. podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith. Por todo o livro.)." (Isaias 34: 14). No texto bíblico Na Bíblia. e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. se Lilith visse seu nome escrito na placa. 179 . אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ .C. casamento. israelitas e gregos. De acordo com este poema apocalíptico poderoso. egípcios. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas. por exemplo. e achará pouso para si. que migrou para o mundo dos antigos hititas. O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor. perda da virgindade ou parto . Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil. que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz. ela temeria ser reconhecida e partiria. em Isaias 34.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os primeiros 39 capítulos do livro.menarca.

esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas. enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica. demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As traduções também diferem para se'ir: é bode. Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. se'ir é um bode. então se'ir é uma espécie de demônio. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. se lilith é um animal indeterminado. mas a situa em lugares desolados. a Versão King James. Talvez dada a sua longa associação à noite. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono). não havendo menção da coruja. O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto".NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. criatura da noite e bruxa273. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. traduz lilith como "o pio da coruja". Se lilith é uma demônia.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. tradução inglesa da bíblia. e Lilith aparece na Canção para um Sábio. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. A seita de Qumran absorveu demonologia. A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. 273 180 . comparativamente. O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física.

C. somente porções do mesmo em inúmeras passagens..NEA/UERJ ―E Eu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 274 275 181 . tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos. e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias. ao contrário de Isaias. no singular. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu. O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag. 11.). e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico. corujas e chacais. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto.. Provavelmente não é apenas uma licença poética.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções. 10. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia. frequentemente apenas de versos individuais ou de partes.C. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural. mais ou menos literal. demônios. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. Quando.. Liliths. após o cativeiro da Babilônia no século VI a. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas. Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517.4-6a // frag. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. o Sábio. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d.

um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a). também souberam de Lilith. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth. Por vezes. E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. os vasos de encantamento. circundada por um texto profilático em aramaico. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. Lilith atacava mesmo os homens casados e. Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante.C. O demônio feminino da noite é Lilith. Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b). De acordo com folclore popular. de cerca de 600 d. Babilônia. As referências talmúdicas a Lilith são poucas. para combatê-la. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. mostram em que pessoas comuns acreditavam.. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. expulsando-os nus. noite adentro. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o Talmud informa. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur.NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio. Adão transtornado separa-se de Eva. 182 . Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas. espíritos. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas.

Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos.C. Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. como os da Literatura bíblica de Sabedoria. Neste vaso em particular. pode voar e tem atração por sexo. Na Idade Média. É um texto anônimo.NEA/UERJ matavam crianças humanas. considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs. depois que um erudito inglês. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos. 277 183 . ela recebeu características novas e mais sinistras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo. Até certo ponto. com 22 episódios.. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus. no entanto. antes de Eva. Entre os séculos VIII e X d. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia. É uma coleção de provérbios e máximas. Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem. Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico. Solomon Shechter. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. O jovem filho do rei está doente. embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga. Invocando o nome de Deus. como Lilith. que causam doença e morte.

associado com a raiz hebraica de "ser". uma fêmea chamada Lilith. o nome inefável do Senhor. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso. O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado. só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano.NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. adamah = terra). mas nenhum realmente ouve o outro. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus. Logo o casal humano começa a discutir. por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. Em teologia e prática judaica.A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. No Alfabeto. Deus forma outra pessoa da terra. Durante os dias do Templo de Jerusalém. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). não tenta dominar ninguém. no Dia da Expiação. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz. por outro lado. traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus. Lilith. Lilith ganha 184 . Então Lilith alça vôo e vai-se. No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. O nome de Deus YHWH. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". adm (Adam = Adão. eles são semelhantes em importância. Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. Lilith foge para espaços desertos. A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico. Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. mas ele insiste que este é seu lugar. Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas.

Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. Em Gênesis 1. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal. Três anjos são enviados à procura de Lilith. Para GAINES (2009). A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. Uma interpretação tradicional desta 185 .NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. Aparentemente. Em Gênesis 2. No fim. Ironicamente. sem reconciliar. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. seguido por plantas. animais e finalmente a mulher. homem é criado primeiramente. ambos perdem. Mas mesmo sendo quem parte. animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). Quando eles a encontram no Mar Vermelho. O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. forjando um acordo com Deus e os anjos. os seres vivos aparecem numa ordem específica. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. no entanto. Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. Para que os anjos não a afoguem no mar. Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. que a aprova e a nomeia Eva.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nesta versão. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). mas também uma mãe incrivelmente fértil. plantas. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças. reivindicando que foi criada para ferir crianças. Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. ela se recusa a retornar ao Éden. 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. formando a mulher de uma costela sua. é ela que se sente rejeitada e zangada. Deus apresenta a mulher a Adão.

NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele. O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas. Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. o Talmud e outras exegeses rabínicas. apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. outra vez da costela do homem . comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden.uma vez com homem. Por esta razão. Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico). no entanto. usando fontes anteriores. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história. 186 . sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada. flatulência e cópula por animais. Deus cria a mulher duas vezes . ridiculariza a Bíblia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no fim.então devem ter sido duas mulheres. Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. De fato. é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente. Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação. mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época. de todos os mitos de Lilith. Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar. a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico. Neste contexto. A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva.

A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. concebe suas crianças e então as infecta com doença. A Shekhiná. Lilith vai-se embora. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. chamado Shekhiná279. Adão é uma de suas vítimas. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. Em vários pontos. mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). macho e fêmea Ele os criou"). Se a Shekhiná é a mãe de Israel. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. A porção feminina do ser humano era unida no lado. a vê como uma sedutora de homens inocentes. 279 187 ." em Gênesis 1: 27. No Zohar. A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. O Zohar. chamada Samael ou Asmodeus. que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele". então Lilith é a mãe da apostasia de Israel.NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b). cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico. Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. inspira sua luxúria. É associado com Satã. como os tratamentos anteriores de Lilith. Esta porção desprendida é "a Lilith original. pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith. à imagem de Deus Ele criou-o. Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. a serpente e o líder dos anjos caídos. também aparece no Talmud. criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. e a interpretação desta passagem no Talmud.

Podemos citar os nomes de Goethe. depravação. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão. a emprestar-lhe uma forma de réptil. Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. a cobra. Dante Gabriel Rossetti. O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus. e causa grande tristeza a Deus. Lilith e Eva". Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos. homossexualidade e vampirismo. John Collier. 280 188 . Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. devoradora de crianças. na literatura e nas artes.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida. outro testamento ao poder duradouro da demônio. noturna. por exemplo. em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca.MULHERES NA ANTIGUIDADE . através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280. John Keats. etc. Robert Browning. causadora pragas. quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith.

on line http://www. Chicago: University of Chicago.org:80/e-features/lilith. Janet Howe. 1993. Bíblia. 1. Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada. Gershom. March/April 2009. London: Soncino. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. Lilith: Seductress. trans. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher. Com comentários de Rashi. SCHOLEM. 1948. 35–49. quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal. 189 . 1998. Esta criatura alada da noite é. Eisenstein. Rio de Janeiro. jan/jun 98. As peregrinações de Lilith continuam hoje. com efeito. 1915).bibarch. CHUMASH.asp acesso em 21/5/09. À medida que crescemos e mudamos com os milênios.D.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem. ano II. KRAMER. ISTARJ. GLASMAN. vol. pp. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. Jane Bichmacher de. Samuel N.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 17 vols. 1963. Assyriological Studies 10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. Isidore Epstein. em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. Zohar: The Book of Splendor. New York: Schocken Books. nº 2. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review. 1938. Revista IDEA. GAINES. Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. São Paulo: Trejger Editores.

o que Prof. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. notadamente membros da família real. O primeiro. apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes.) nos concentraremos principalmente na 18a. Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale).C. apesar da inconstância. 19a e 20a dinastias. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a. Dr. Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. Coord. Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe. Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre 1550 e 1070 a. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher. do Núcleo de Estudos em História Medieval. Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity).NEA/UERJ SENHORA DA CASA. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof.C. relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr). Entretanto. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. Seja estando a frente.C. do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). e 30 a. Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG. Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). O segundo como divindade. 281 190 . Assim sendo. de um modo geral. Por último a mulher na condição de monarca. Momento em que a mulher. ou seja.

Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher. 2000: 104). Assim sendo. os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 . todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento. 1993: 2). Elemento igualmente interessante era o matrimônio. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas. com o general Horemheb que assim. Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. Assim. De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades. esposa do faraó Akhenaton —. pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito. rainhas ou parentes próximos). Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. Assim sendo. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento.NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar.

Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores. 192 .C. De fato ele é um tolo. seja ele masculino ou feminino.). Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele. Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. 2000: 301-330). Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele. Assim. Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum. sou tomada pelo amor que sinto por ele. é possível. 1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro.) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz. Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços.C. através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO.NEA/UERJ VIII a. mas sou como ele. o tormento apodera-se de mim. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Por outro lado. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134). Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. senão já teria escrito à minha mãe. perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO.

sobretudo. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. ―sair para fazer compras‖. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos. Em certa medida não é tão diferente de hoje. pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio. pode não configurar uma prática de contratos sem amor. que no caso da mulher. as causas poderiam ser relativas ao adultério. É claro que a posição social. entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. para que contemple tua beleza.NEA/UERJ Ó. eles te aclamarão. à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades. 1990:5). meu pai e minha mãe ficarão encantados. meu irmão. e como tal. mas 193 . Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. cuidava do lar e dos filhos. ó meu irmão (ARAUJO. A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. toda minha família te aclamará em uníssono. mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro. Ou mesmo ―escolhendo-o‖.

mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas. Assim sendo. 194 . Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt). pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt). Mênfis. Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade.NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos. Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. Apesar de raros. Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos. algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia. 1990:5).). o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. 2400 a.C. Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos.

Thot. 195 . neste contexto. Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. O deus Ra. no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos. embriagando-se ao bebê-lo. Isis faz o impossível. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. Assim sendo. Em um dos mitos relativo à deusa Isis. Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. obtém do deus Ra seu nome secreto. 2000: 93). o que confere um poder significativo a Isis.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e.NEA/UERJ Hermópolis. foi posto um fim a destruição (GRALHA. o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar. característica específica de deuses como Ra/Atum. o poder de Ra. pois esta havia se voltado contra ele.MULHERES NA ANTIGUIDADE . este casal gera Osíris e Isis. Por outro lado. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina. é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. a grande maga. Tebas e Elefantina. e Tefnut. Ptah. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. representação da umidade e de aspecto feminino. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. Ou seja. Em outro mito. possuía o aspecto destrutivo do raio solar.

com apoio de sua mãe. a deusa Ahmés-Nefertari. LESKO. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres. 196 . não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. (ver NOBLECOURT.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. E ao que parece. Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste. Na estela abaixo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. 1994. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida. prosperidade e saúde‖. Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). entrada para as 12 horas da noite. fossem cultuadas como divindades. notadamente rainhas. sobretudo após o seu falecimento. a rainha Ahmés-Nefertari.

e o caso de Nefertiti. rainha do faraó Akhenaton. O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estabeleceu seu culto. 2002: 98). entretanto. o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas. 197 . que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. que ao se tornando faraó.NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari. GRALHA. O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. É o caso de Hatshepsut. 1993: 123.

Em um segundo bloco. entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois. 198 . sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca. far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida.NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. Thutmés III. O caso mais conhecido. Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo. O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. Na primeira. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca. A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut). Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. Nesta cena. fazer incenso) incenso para Amon-Ra.

Segundo Gay 199 . ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. não poderia ser palco de um novo conflito. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. agora interno. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica). filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. Tiy. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus. como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. a tríade da religião de Aton era invertida. Torna-se mais claro. os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. algumas rainhas teriam sido faraós. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. pudesse estar ligado às duas linhagens. Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono).C. ou seja. não configurando usurpação e muito menos regência. mãe de Queóps (4ª dinastia).) O Egito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton. o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião. como deus único. era necessário que o futuro monarca. Para que tal possibilidade fosse afastada. ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. Contudo. Ahmés Nefertari. Nefertiti (18ª dinastia).NEA/UERJ No culto de Amarna. Ou seja. No entanto. Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. Thetisheri (17ª dinastia). o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. Pela primeira e única vez. Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. Hatshepsut. Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo.

Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. 200 . com o jovem rei Thutmés III.). 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei. 2007) O culto a Arsione II Filadelfo. 2005). dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa). não configurando uma co-regência tradicional. Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a.). Mãe. Como rainha ela parecia ter grande poder. a posição de rainha. através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó. esposa de Akhenaton. que a idéia de um governo conjunto. uma forma de monarquia dual. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti.C. não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. É possível. a tese de Amanda Weidemann (UFF.. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados. complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000. 5354).NEA/UERJ Robins. Entretanto. 139-140). Filha.C. e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF. Esposa.C. Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. 44-51). Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo. com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a. algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993.

P. Peter A. Ciro Flamarion. Press. 2002. As Egípcias: Retrato de Mulheres do Egito Faraônico. Dimitri.Austin. Pittsburgh (PA): The Carnegie Museum of Natural History.. 115-132. (eds. David. Akhenaten and the Religion of Light. Hachette. 1993. Escritos para a Eternidade: A literatura no Egito faraônico. Erichin (RS). A Família vista através da iconografia funerária privada egípcia da primeira parte da XVIII dinastia (meados do século XVI a meados do seéculo XIV a. 2000. ______.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deuses. pp. E. Dominic. Fowler (Illustrator ). University of Texas Press. O Egito no Tempo de Ramses. Tânia Pelegrini. Gay e Ann S. Whitney. P. Pierre. 1990. 201 . MEEKS. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press 1997. Múmias e Ziguratts. CARDOSO. Habitus. Faraós e o Poder.London: Thames & Hudson. Proportion and Style in Ancient Egyptian Art. A Vida Sexual no Antigo Egito. Paris. MONTET. 1989. 1999. HORNUNG. Brasília: UNB. NOBLECOURT. GRALHA. Julio. MONTSERRAT. inédito ______.C.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO. 1990. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1997. Cambridge: Published by Cambridge University. O‘CONNOR. The Canonical Tradition in Ancient Egyptian Art(Cambridge New Art History and Criticism). 1999.). Sex and Society in Graeco-Roman Egypt. Lise. 1994. Christian. SP: Cia das Lestras. 1989. 1996. La Vie Quotidienne des Dieux Ëgyptiens. Rio de Janeiro: Barroso.NY:Cornell Univ.) Estudos de Arqueologia Histórica..A. Chronicle of the Pharaohs. In: Funari. A Mulher no Tempo dos Faraós. 1994 ______.P. 2000. Trad. DAVIS. Porto Alegre:EDIPUCRS. A Cultura Material do Cotidiano: Espaço Urbano e Moradias no Egito Faraônico. 2005. JACQ. The Art of Ancient Egypt. London: Keagan Paul International. Erik. Deuses. 1 ed. ROBINS. Rio de Janeiro: Imago Ed. MANNICHE. Fogolari. Emanuel. CLAYTON. SP: Papirus Editora. Ancienty Egypt Society. Christiane D.

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religiosas. Nesse ambiente. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura. à masculinidade e ao conceito de sexualidade. em sua área de conhecimento. título desse livro.ª Dr. étnicas. 282 203 . e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns. Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp. Professora da Universidade Sagrado Coração. de seu cotidiano e de suas percepções e valores. Bauru/SP. a história daqueles até então dela excluídos. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas. Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS. sexuais e de gênero. uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes.NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. focos de minhas análises. bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. já não mais limitada às expressões das elites brancas. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo.

também ganharam valor documental as inscrições. S. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. 244-266. Com esse olhar. as estátuas. a iconografia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. F. Donne romane da Tacita a Sulpicia. as tumbas funerárias. D.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. S. CHERRY. Phoenix. The public role of Pompeian women. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. 3. a numismática. no Estado e no espaço público. E. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos. 1998. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos. 1978. Torino: Giulio Einaudi. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. além dos tradicionais escritos oficiais. Michigan: Ann Arbor. 1990.283 Embora em menor número. Sobre a História Antiga Romana. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. formas de atuação política e os fundamentos. 1987. bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. 204 . Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. 44. a busca de maior liberdade. e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. Donne in Atene e Roma. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. desde então. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica. Passato Prossimo. CANTARELLA. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. p. v. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. Milano: Feltrinelli. BERNSTEIN. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. n.

Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO. 1976. FRANCO.. desde a década de 1980. 4. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. FANT. TREGGIARI. 76-104. C. H. V. 1995 e JOSHEL. S. B. 1. S. Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. (Eds. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século.) História das mulheres no Ocidente. pp. G. 1992: 09). R. Roma: L´Erma. 1981. et alli. Berlin: Mann. 1982. 1976. M. S. 1970. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. 185-201. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. MURNAGHAN. In: Schiavitù. LeGALL. mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. J. KAMPEN. 76-104. R. v. Questions on women domestics in the Roman west. Women in Antiquity.MULHERES NA ANTIGUIDADE . In: Schiavitù. 1981. (Eds. 1. 1. M. 205 . Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum.) Women‟s life in Greece and Rome. A Antiguidade. (Dir. S. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. Questions on women domestics in the Roman west. KATZ. A. 12691278. TREGGIARI. London: Routledge. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. LEVICK. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História. P. M. P. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. M. R. apresentando diferentes e mesmo DUBY. In: HAWLEY. N. LEFKOWITZ. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. 185-201. Roma: L´Erma.. p. S. M. Tradução de Coelho. B.. 1981. Jobs for women. AJAH. 47 bis. Jobs for women. TREGGIARI. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. Porto: Afrontamento. S. pp. 123-130. livres e escravas  em seus ofícios e na política local. TREGGIARI. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. REL. 1993. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico.) Women & slaves in Greco-Roman culture.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias. v. PERROT. H. 284 Cf. p. Image and status: Roman working women in Ostia. 2000.284 Entretanto.. G. 1998. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. London: Routledge. AJAH.

2003. por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. 1998 e Bessa. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes. 1992. o papel de comando e domínio. 1998. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. Com isso. onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. A distinção está. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. para além das essências. as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. Desta maneira.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285. É justamente nesse ponto. sexuais. Feitosa. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas. 285 206 . grupos étnicos e tradições culturais. tanto no Brasil como no exterior. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. justamente. elas são diferentes. 1998. Funari. pode-se citar Costa e Bruschini. no tratamento privilegiado das mulheres. Silva. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. nas relações Como exemplo. fixas e universais. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. Pedro e Grossi. a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino.

mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. ou não. ―existem muitos gêneros. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. 1988 e 1995. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289). pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele. 287 207 . as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões. de seu uso para a sociedade romana antiga. resultantes não de um consenso social. em nível discursivo e social. uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. Western. de um poder masculino sobre o feminino. Baxter.. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. Nesse aspecto. Nesse aspecto. a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição.. 2001. ver Scott. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder. Para Jean Scott. Em função disso. denunciada pelo feminismo. Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero. Formuladas entre os grupos sociais. Piscitelli. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . 2009. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas. faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. 1995: 88). gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. dentre outros aspectos. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT.287 Como enfatiza Matos. muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. ―mas das disputas.

béticos. dácios. profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖. pode-se considerar que as relações de gênero. 2009: 283). muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. além dos vínculos de poder.NEA/UERJ 1995: 86-87). mas presente na trama histórica‖ (MATOS. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d. Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. masculino. 1992: 35. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. 1997: 13). Diante disso. apresenta diversidades jurídicas. 2009: 287). podem ser de reciprocidade. gálatas. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. 1988: 192). O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. ou seja. egípcios. MATTOSO. obscurece a percepção de diferentes poderes. gregos. com grande variedade de povos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . complementares ou de prestígio (MACHADO. 1994: 44). sexo. de idade. entre tantos outros. conferindo-lhes um sentido descritivo. além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. neutro e consensual. germanos. a da existência do feminino e do masculino 208 . econômicas. Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. étnicas. Contudo. Esse imenso império emaranhado de latinos. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. SKINNER. por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. 1995: 180. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. Desta maneira.

Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas. Aliado a esse. ou com a homossexualidade (MATOS. como nova categoria. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado. de 1997. C. slaves. A ênfase de Skinner. com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele. 67). cf. parasitas da elite. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto. 2010. Feitosa. escravos. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. desocupados. Boswell (1990). 289 Cf. é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order. 2009: 289). dominadores e virtuosos. p. mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher.288 Destarte. que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino. Libertos. livres. e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. L. Hallett e Skinner (1997). 288 209 . é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. Para Maria Izilda Matos. 1997: 25). 1990: 595-596). 2005 e Feitosa e Garraffoni.. enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes.NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . with special attention to finding evidence of how marginal populations  women.

que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. terra. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). também. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. por exemplo. Segundo Walters. Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001). por exemplo. e a partir de uma determinada prática sexual. Cf. por exemplo. 1981. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. por exemplo. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. à medida que a atividade ―lícita‖. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. Autores modernos como. em restrições jurídicas e políticas291.NEA/UERJ profissionais. por outro. mas de idades e categorias sociais diferenciadas como. diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. libertos. 3. 2. tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. ―normal‖. ator. Justiniano. Assim. 290 210 . Além disso. 1997: 30). a iniciar por sua própria identificação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a integridade do Vir consolidar-se-ia. prostituta ou dono de bordel já implicava. músicos e corredores de bigas. O simples fato de ser gladiador. puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. cf. por um lado. Grimal. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. D. Se. Garraffoni 2005. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna.

o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. o pensamento dessa elite romana. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. 211 . bem como a conquista. E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas. Embora satirizado por Suetônio. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. solteiras ou viúvas. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. em De vita duodecim Caesarum (I. um dos mais importantes da política romana. à superioridade bélica. A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem. jovem ou adulto. publicamente. e de mulheres aristocráticas. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. 1997: 51). Desta maneira. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. que indicava a não penetração de outro cidadão. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. segundo Suetônio. por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares.MULHERES NA ANTIGUIDADE . era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. o que punha todas as mulheres em condição inferior. Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. casadas. L). Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘.NEA/UERJ aristocráticos. pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas.

cotidianamente. conotações diferentes às aristocráticas. IV. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. 485. CIL. Lignari. 998. 3485. 480. CIL. CIL. de vitória. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. vendedor de roupas e jóias294. CIL. 960. 183. 293 294 212 . 710. IV. Efusivas declarações podem ser encontradas. CIL.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aproximando a vida de populares à condição de infamia. Pistori. 3478. IV. CIL. 4472/3 (Oficina dos Atti). 336. oficinas e padarias293. vendedores de alho e de aves. CIL. CIL. 4100. 2005: 184). 295 Pomari . IV. CIL. 206. ajudantes de cozinha. 4227. IV. ourives. 113. 368. Culinari. lenhadores. IV. na parede de uma casa: Cf. 429. Entretanto. Galinarii. IV. padeiros. como esta deixada a Taine. cocheiros. IV. em suas escritas. perfumistas. 373. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. 951. IV. IV. 202. Inserida e construída nesse âmbito do labor. 5380. alfaiate. Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). 3130. CIL. IV. CIL. Muliones. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. 180. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. Aurificis. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam. 7669/71/74 (joalheiro). Unguentari. CIL. CIL. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. IV. IV. 609. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. 3529. 275 (professor). comentado a seguir. IV. 134. 373. 490. CIL. a funções autônomas de professor. o mundo do trabalho. 4888. 97. Caupones. Agricolae.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. dentre aqueles que partilhavam desse universo. 7749. Aliarii. 241. 2966. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. tecelões. 4102/03/07/09/12/18/20.

IV. em obras da historiografia. IV. uma saudação cordial. em uma linguagem simples e direta. Rogo. I 9. senhora. minha dulcíssima amada. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. IV. 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha. Já na inscrição CIL.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Desta maneira expressou-se Secundo. 213 . Am. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. 4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). Peço. IV. domina. As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas. ou que foram um dia neles conquistados.NEA/UERJ Dulcis amor. 1. feitas por homens que. pedem o amor da mulher estimada. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. 8364) Secundo a sua querida Prima. doce amor. 8137) Oxalá pereça. indicado no próprio CIL. por meio do relacionamento amoroso. Amo tanto a Taine. registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. ut me ames (CIL.

Mas. uini. hinc vine veni vide Anthusa (CIL. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. na Via Consolare. 297 César: ueni. uidi. de lazer e por meio das paredes da cidade. além de indicar a satisfação de um conquistador. Suetônio. o heterogêneo. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. 37. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito. IV. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. IV. Val(e) (CIL. Aqui vim. a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. na tarefa de focar a diversidade. Calpurnia te diz. A frase de Fortunato. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t. no desejo.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Inscrição encontrada na Casa do 214 . o local e o específico. Assim. 230) Fortunato fodeu. interagiam em ambientes de trabalho. A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites. vi e venci Antusa297. Saudações. Cirurgião. ou idealizados por eles e para eles.

Como considera Mattoso. mas relacional e analítica. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. ou seja. masculinos e femininos. segundo Scott. Assim. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. comportamentos. das sociabilidades. a partir de seus valores. é preciso reescrever a História (MATTOSO. do imaginário e do discurso. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos.. embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas. Desta maneira. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens. mas também por meio das sensibilidades.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem só pelos movimentos demográficos. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. mas de estudá-las em conjunto. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183). culturais e políticas. a questão de gênero. visões e espaços sociais. mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais.]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos.NEA/UERJ cotidiano. formulam múltiplos vínculos. atitudes e embates em suas relações sociais. [. das tensões. o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. conceitos. nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. econômicas.. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. ambigüidades e obstáculos. Portanto.

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. la Salvaje. Prometeo.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto.200.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata. hermana de Apolo. portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. 2009. P. la que recorre los bosques. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses. sino desde una dimensión antropológica. intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad. Es la cazadora. Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo. de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 . tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico. consagrada a la virginidad eterna.ª Dr. distancia que debe medirse Prof. La muerte en los ojos. donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural. no campo da Filosofia Antiga. J.ª Dr. Buenos Aires.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven.299 A. no sólo desde una perspectiva política.NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. 300 Esta introducción.MULHERES NA ANTIGUIDADE . acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo. histórica o económica. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof. la Parthenos pura. 299 Vernant.

La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. inédito. Pensar y 301 Gernet. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. sin duda. por una dimensión ontotopológica. aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. incluso por el propio temor. A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. fundamentalmente. L. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. Es esta distancia lo que determina los dos planos. La metáfora impacta. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301. en primer lugar. poco común. la continuidad y la discontinuidad. de considerarlo. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. en el modo de concebir al otro. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. el modo de aproximarse o de alejarse. La problemática transita. Antropología de la Grecia Antigua 220 . El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. lo semejante y lo desemejante. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. raro. que se juegan.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. A partir de esta tensión que borda la trama cultural. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia.

para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. alejándose del imaginario que ella misma genera. 221 . en el límite. una diosa ―aparentemente‖ marginal. lo moral y lo inmoral. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. Lo normal y lo anormal. En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. extraño por extranjero y extranjero por extraño. en el margen donde claudican las propias certezas. al tiempo que niega esa extrañeza radical. lo legal y lo ilegal. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. su paradojal fascinación y su inusual presencia. horadando las certezas que lo Mismo otorga. desde su lógica áltera. conservación. que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. A la luz del marco teórico precedente. regido por las pautas de la semejanza. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. puntualmente en el topos de Artemisa. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. homogeneidad. familiar y conocida. en su doble acepción de lugar y condición. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. tópico que hemos puesto en juego. identidad. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad.

222 . ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. Otto. cumple una función íntima. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. La misma distancia habla de su condición virginal. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna. y. sin ser ella misma madre. Diosa vinculada a la naturaleza. Los dioses de Grecia. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. Tal como sostiene Otto. p. se relaciona con los hiperbóreos. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. no obstante. W. al igual que su hermano. Diosa virgen. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función.MULHERES NA ANTIGUIDADE . maternal y delicadamente solícita. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal. alejada de todo contacto. 67. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302. Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. p. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. Alejada de la función materna en su calidad de virgen. 50. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras. desde la distancia. tal como la describe Otto. tensionando la díada cercano-lejano. no es la gran madre universal. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. solitarias. que sí se 302 303 Otto. enlazada con la lógica del parto. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. W. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. es ella quien preside la ritualidad femenina. Artemisa: las huellas de la distancia. Presencia paradojal que. Los dioses de Grecia.NEA/UERJ B. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. sólo pobladas por animales salvajes.

donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. de la dominancia de una sobre otra. Términos no sólo constituyentes. como términos constituyentes de la configuración identitaria. en el marco de la lógica identitaria que se impone. en su identidad civilizadora. tanto del individuo. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes. asimismo. C. tal como hemos intentado referir. sino instituyentes del topos identitario. como de la sociedad en su conjunto. He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. Del mismo modo. Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería. una diosa civilizadora por excelencia. de los lugares poblados.MULHERES NA ANTIGUIDADE . en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 . La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. y. en última instancia. a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. no obstante. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. Artemisa es una divinidad que.. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. delinea el topos de lo Mismo. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. Artemisa. lo civilizado y lo salvaje.NEA/UERJ entregan al amor. es. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. Dicha configuración se articula. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. se juega en los márgenes de la lejanía. Alejada del matrimonio. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes.

lo culto y lo bárbaro. la geografía humanizada de la no humanizada. donde el agua. dejando un topos anegado. o bien. Así. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. deviniente y móvil. pero también de distinta densidad antropológica. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. Artemisa civilizadora. o bien permanece. marcados por la noción de límite. que instituye la custodia de los territorios. el espacio otro es el espacio no cultivado. capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores. no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. de distinta densidad topológica. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos. El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado. lo humano y lo salvaje. la tierra cultivada de la no cultivada. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. de margen que delimita espacios heterogéneos. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos. se ha retirado. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. entre un topos firme. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. sino un conjunto de lugares liminales. asiento de la ciudad y otro acuoso. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada. de confín. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. lógica 224 . como los pantanos o las ciénagas.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

la batalla. 304 225 . preparar. el parto. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. el matrimonio. Artemisa ordena el espacio. celebrar. allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. convirtiendo a la ciudad en un espacio común. que exige orden para su constitución y organización. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que. El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica. arregla las condiciones del tránsito. que responde a la anarquía del azar. la ciudad es un kosmos. D.MULHERES NA ANTIGUIDADE . disponer. guardiana del orden. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. La ciudad tiene sus exigencias. implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra. prepara el pasaje al meson. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. La ciudad es un espacio reglado. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos. desde cierto lugar marginal. gobierna y manda sobre todos los espacios. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. Ordenar. configurando sus límites. los mismos y los otros. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. Se trata de una acción cosmificante. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. en un topos donde se coloca lo que es de todos. gobernar. Lejos de ser un territorio improvisado. arreglar. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico.

Esto abre una dimensión política de la diosa. no saben delimitar fronteras. Apolo con su función legislativa. constructor de ciudades. entre lo mismo y lo otro. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano. Apolo con el cuchillo en la mano. reconocer al Apolo de los caminos. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. puede consultarse el libro de Marcel Detienne. la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. rasgos que suponen. Artemisa política. desde sus territorialidades singulares. Interviene allí. es. entre lo humano y lo bestial. la guardiana del orden. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. hijos ambos de Zeus y Leto. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. Si los hombres. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. a su vez. En cierto sentido. 305 226 . en su dimensión de nomothetes. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. también vela por el triunfo de la sophrosyne. por su propia precariedad antropológica. desde sus peculiaridades identitarias. en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. como su hermano. en tanto involucrada directa en el orden de la misma. entonces allí están los hermanos. Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. En el marco de la expansión colonial griega. ya que su acción es productora de efectos.

el momento oportuno. produce el pasaje de un estado a otro. Artemisa conductora. por ejemplo. observa que se cumplan sus regulaciones. de la niñez a la adultez. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. Como otras tantas actividades que la vida social propone. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. la oportunidad. Es una justa entre hombre y bestia. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre lo humano y lo no humano. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos. 227 . p. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. Es el espacio de consolidación de la virilidad. La muerte en los ojos.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone. celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento. es el kairos. para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. educa a las niñas en vista de su formación de esposas. sino también la guerra. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón. dirige la transición de una categoría a otra. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. conductora del parto y por ende. Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant.1. de la vida misma. lleva de una orilla a otra. D. 24. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura. El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. Artemisa preside la caza‖306. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. J. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. Aretemisa es la gran conductora. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos. de convertirse él mismo en presa. para medir la conducta del varón prudente. la coyuntura favorable. la batalla.P. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación.

Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. más precisamente. Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. culturalmente valorada y socialmente observada. vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. a la adolescencia. La muerte en los ojos. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. porque la caza permite atravesarlas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. J. Artemisa conoce las reglas del tránsito. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede. lo bestial y lo humano. 228 . momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. lo incivilizado y lo civilizado. D. aunando en su función la dupla saber-poder. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque. como digna hermana de Apolo. Artemisa no es el salvajismo. Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan. la función de la diosa es imprescindible. lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas. Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral. p. 2.P. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. Artemisa legisladora. 24. por así decirlo.

La función tampoco conoce de sexos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. como estructura isomorfa308. y el mundo adulto. frontera entre dos topoi. como la diosa. La función de la diosa es altamente calificada. los jóvenes. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa. Del niño al joven. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil. virgen. estatutos. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería. Su función se vuelve. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. espacialidades y roles atribuidos. una vez más. pura. categorías. de la niña a la parthenos. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. antes de dar ese paso. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior. funcional al dispositivo político. La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. 308 229 . casi animal. sociopolítica. como ciudadela a proteger y el orden del oikos. Una vez más su lugar es el topos de la frontera.NEA/UERJ sueña. La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. como arte de administración del oikos. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano.

incierta y equívoca. distribuidoras de roles y funciones. En efecto. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito. 25. distingue entre lo femenino y lo masculino. los jóvenes de los adultos. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente. instalándolas en la comunidad civilizada. En cambio.P. La muerte en los ojos. D. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. Para ello. al configurar las consolidaciones identitarias.NEA/UERJ liminar. J. obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. Conductora del tránsito. distingue. 230 . asume el campo lexical del verbo krino. No sólo al pasaje de estadios y registros. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. 3. lo niño y lo adulto. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. discierne. para hacerse osas. Artemisa pedagoga. lo animal y lo humano. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. la consolidación de lo Mismo. Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. en última instancia. despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina. esto es de la condición de niña o cachorra. p. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. las bestias de los hombres. Artemisa instituye. Alejadas de sus hogares. reglada por sus instituciones. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. Facilita la entrada al mundo de la mismidad. vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. plasmada en la organización de la ciudad. todavía no están cristalizadas309. sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos.

matrimonio. las bestias devuelven su rostro otro. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia. más sanguíneo de la institución matrimonial. La Artemisa Lochia. desde la primera infancia. conductora del parto y del nacimiento. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual. articulada con el nacimiento. Artemisa. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. la única capaz de parir. completando su función de nodriza. parto. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. el alumbramiento constituye el momento más animal. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. pasajes. la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. Presente en la caza. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. En efecto. confusa. Artemisa es una diosa nomádica. Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. caza. ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. 231 . preside el parto. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. hasta la madurez del alumbramiento.NEA/UERJ misma. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. insistente en la guerra. acompaña el desplazamiento. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. visible en el parto. Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. guerra. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante.

El parto es el momento oportuno. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. p. el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería. D. gemidos.NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. J. 29. 4. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aunque. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio. Si Artemisa cumple una función socio-política. marcada en el presente trabajo más de una vez. no civilizado aún. Su contacto con la animalidad. 232 . Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta.parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. La muerte en los ojos. bestial. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. natural. en el inicio de una vida atravesada por la cultura.P. imágenes de ese mundo salvaje. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia. despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. gritos. dolores. es ahora la mujer la que. en un primer momento.

hybris. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . con el imperativo del verbo fulasso. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant. Guardiana de los órdenes. guardar. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra. estar de guardia o centinela.P. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. una vez más. Artemisa guardiana. proteger. J. conservar. y la impulsan brutalmente al salvajismo311. por su posible des-orbitancia. custodiar. La muerte en los ojos. Magnífico abanico semántico. vigilar. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros. 30. p. Artemisa cumple. 233 .NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. mantener. ni moral. ni subjetiva. estar en guardia o con cuidado. velando por ella. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. Mucho ha costado delimitar las fronteras. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos. tener cuidado de. ni territorial. El salvajismo constituye un estado otro. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. atender. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. en ese ámbito Otro. observar. Por ello debe velar Artemisa. precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica.

En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas. La muerte no escapa a las generales de la ley. Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. 312 Vernant.MULHERES NA ANTIGUIDADE . el deguello sangriento de la bestia. La muerte en los ojos. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. la sphage. territorios. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. La problemática transita por una cuestión topológica. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana. Por lo tanto allí está Artemisa. en el momento crítico. J. no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad.P. la paz y la batalla. con su esbelta talla. según su cualificación antropológica. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar. velando por la lucha digna. La muerte es también un acto cultural. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. 234 . La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. 31. […]en la intersección de los dos campos. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. en una situación liminal. de una muerte salvaje. E. tanto desde el pasado como en la actualidad. y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. p. Conclusiones Sin duda la Antropología. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. Tal como sostiene Vernant.

Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme. cimiento. nodriza. 31. 235 . se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. como modo de conjurar su peligrosidad. o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. 313 Vernant. J. espacios. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes. cierta distribución de los sujetos en el espacio. secuestro. Cazadora. entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen. territorializarla y manejarla tecnológicamente. serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. territorios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . supone cierta cartografía.P. con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. como Grund. salvadora de la guerra y la batalla. Visibilizarla. En el corazón de esta preocupación. Los topoi. La muerte en los ojos. p.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. inconmovible para toda construcción identitaria. La otredad no escapa a la regla. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. exclusión. que incluye prácticas de internamiento. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia. partera. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder. de la extrañeza.

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o quadro e os agentes que interagem. Stanton (1995). desde logo. a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. 1. tornam-se polémicos. tudo indica que seja anterior a 423 a. 315 Embora a data da peça não seja precisa. vide R. Meridor (1978).A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. American Journal of Philology 99. segundo uma perspectiva individual e colectiva. nomos. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes. por exemplo. É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. C. colectiva e pessoal. 314 237 . coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala.ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. Mnemosyne 48.ª Dr. axioma são avaliados na pureza do seu sentido. de regresso à pátria. Sobre o assunto da datação da Hécuba. impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. ‗Hecuba‘s revenge‘. vide P. E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão. baixam os braços. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. 1. philia. no acampamento aqueu na Trácia. em primeiro plano. G. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate. gratidão e reciprocidade. aliciar o apoio das massas. Com a ruína. dike. 1. R. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316. Charis e philia. Em diversos tons e contextos. e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. condicionar a opinião pública.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA . ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. 28-35.MULHERES NA ANTIGUIDADE . lá se detêm. 11-33. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. perante os Aqueus vencedores que. 96-99. os princípios que a tradição consagrou. enfim. Schubert (2000). com insistência. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis. valores como charis.

como um processo de alianças políticas. com Agamémnon. Hécuba. impõe-se um conflito de culturas. ou permeada de afecto. Mais do que envolvê-la. que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. a philia torna-se um processo destrutivo. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro). como se os grandes princípios universais. se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. sem pátria‟. 669 -. símbolo extremo da ruína humana. No meio do mesmo descalabro social. a solidariedade. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica. Entrelaçada com charis e philia. sem marido. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). O que vale a vida de uma jovem. o 238 . despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições.NEA/UERJ sobrepõem. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. prática e salvadora.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cativa. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. Por fim. susceptíveis e frágeis na sua contingência. de respeito pela vida e coesão humanas. um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana. Entendida. para mais mulher. com habilidade oratória. Troianos e Bárbaros se polemizam. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. o exemplar completo do retórico contemporâneo. um traço superior de civilização. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais. em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. onde Gregos. inimiga. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. perante a homenagem devida a Aquiles. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. o primeiro dos heróis. a velha rainha de Tróia. estrangeira. sofre do mesmo mal. decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos.

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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na sua aposta. 1-2. D. de dois temas distintos. mais ou menos incoerente. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse. op. mesmo assim. op. J. M. Studien zum antiken Drama. Munich. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. Kirkwood (1980). no seu desrespeito pela vida Como é sabido. o seu novo interlocutor. Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. como é a posição defendida por W. P. o chefe supremo dos Aqueus. The Athenian homicide law in the age of the Orators.NEA/UERJ amigo e aliado. determinada. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância. Como se.. 321 Não se trata. M. 30-44. é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem. quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. a philia exige um código retributivo. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . Entra naquilo que Ch. e que se repete. Conacher. no código moral grego. Schubert. MacDowell (1963). Helping friends and arming enemies. cf. para Eurípides. activa. Hécuba muda simplesmente de tom. com simetria de argumentos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cit. 416. W. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima. D. Blundell (1989). Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. Transactions of the American Philological Association 14. de contrapor. 87-88. igualmente bárbaro. vingativa. passa a dar prioridade à vingança. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. o motivo retórico que cruza a peça. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. designa por factores de ‗unidade temática‘. M. Transactions of the American Philological Association 120. cf. G. se. 322 Na verdade. Segal (1990). Cambridge. cit. ‗Hecuba and nomos‘. M. 109. A study in Sophocles and Greek ethics. além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘. ‗Violence and the other: Greek.. Cambridge. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. Steidle (1968). 320 246 . a uma primeira Hécuba. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. 1. Cf. Nussbaum (1986). está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. uma outra.

incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem. The heroic Muse. Baltimore and London. superior a todas as hierarquias humanas. evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. Torna-se. a súplica. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805).MULHERES NA ANTIGUIDADE . 83. e da distinção de uma afinidade particular (793-796). do convívio à sua mesa. cit. ‗a lei‘.‟ Dentro de igual princípio. Como afirma D. que traz enfim ao de cima. Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. 124. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. é um valor divino. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. coloca o desrespeito pelos mortos. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos.. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. 324 Segal. 323 247 . Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia. o seu lado mais tenebroso e. com ele. absoluto. deixa os Gregos insusceptíveis324.NEA/UERJ humana. na alma da rainha de Tróia. nomos. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. usados para com Ulisses. Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. após a impiedade e o assassínio. uma argumentação pragmática e amoral. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi. mas. mas que vence. E numa escala ascendente. op. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . sob as aparências. agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima. mais uma vez.

cit. 832)325. o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri. por interesses pequenos e condenáveis. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. mostra como são relativos no seu mérito. mas também ele. é ainda devida à justiça (844-845). charis. Na sua nova abordagem da causa que defende. A passagem abrupta. teria todo o prazer em agradar a Hécuba. cabelos. 325 248 . Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. contra Polimestor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social. vou usá-lo‘. neste caso. se não parecesse. op. justiça e hospitalidade (852853). a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). E só depois do fulgor desta Persuasão. peado por Segal. o apelo a Cípris. com todo o tipo de argumentos‘. na rhesis de Hécuba. as noites partilhadas. aos teus joelhos. Mas pouco importa. como podem ser distorcidos e amesquinhados. todos a um tempo. O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). os abraços de amor (828829). discreta e apagada. mantém-se fiel aos valores em discussão. mãos. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio. como Ulisses. se vê enleado em compromissos. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio.philia e charis. Philia é. perante o exército.. 123. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça.NEA/UERJ ao seu dispor. o reconhecimento face a uma amante. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita. por artes de Dédalo ou de um deus. Hécuba remata num apelo. na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita. para se prenderem. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços. uma última palavra. encarnada num gesto falante de súplica. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. comprometido. Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860). sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. nem da sua hierarquização em sociedade. por entre lágrimas e apelos.. pés. como a desejável punição para quem prevarica. respeitador dos princípios da piedade. mas ao retomá-los.

em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. como ponto de partida para o argumento da legitimidade. despojada de argumentos. parece. O bom senso e uma louvável prudência (1137). entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito. só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136). negar o homicídio de que é acusado. os senhores de Tróia (1228-1232). Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. É simples a intervenção de Hécuba. A philia invocada por Polimestor. invocado como justificação para um assassinato. a verdade crua. Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . por qualquer habilidade retórica. a philia. no limite. orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados.NEA/UERJ interesses em conflito. Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144. a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. cada argumento do adversário (1187-1196). com cuidadosa simetria. à luz da evidência. que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. Polimestor não pode. que é. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. entre Hécuba e Polimestor. Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político. Despida de uma capa de dignidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1175-1177). tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235). Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. Hécuba desmonta. De resto. suprimindo-lhes de vez o inimigo. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada. no meio de uma controvérsia de valores. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. pura falácia (1197-1201). e um gesto de protecção para com o seu povo. uma evidência. em momento de crise. com Agamémnon por juiz (1129-1131). como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. Resta um último agon. chama-se ‗ouro‘.

Baltimore and London. Transactions of the American Philological Association 1990. 1. SCHUBERT. J. 2005. American Journal of Philology 99. G. C. A study in Sophocles and Greek ethics. 1987. R. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS. Lisboa. Cambridge. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. SILVA. Ensaios sobre Eurípides. R. M. M. 96-99. D. 1986. 1978. 1966. STANTON. Cambridge. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. F. BLUNDELL. CONACHER. H. Transactions of the American Philological Association 14. ‗Euripides‘ Hecuba‘. NUSSBAUM. é óbvio que aos primeiros. além de confrontarem comportamentos e princípios. American Journal of Philology 82. 28-35. 1980. porque à ventura. Helping friends and arming enemies. 1. 193-219. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. 1989. ‗Hecuba‘s revenge‘. 'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. 1961. M. P. D. G. M. female and barbarian. Mnemosyne 48. opõem também Bárbaros contra Gregos. ‗Violence and the other: Greek. In Euripides ‗Hecuba‘. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. 1. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘. enquanto dura. 120. Eranos 81 (1983) 13-20. que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. MERIDOR. quando encarnados pelos Troianos. SEGAL. 30-44. W. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. incapaz de persistir nos valores solidários. Classical Quarterly 16. 2000. 11-33. Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva. ‗Hecuba and nomos‘. compete representar um nomos tradicional. The heroic Muse. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. 1995. KIRKWOOD. 109-131. W. 1-26. KOVACS. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. não faltam os amigos‘. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. ______. 250 . A.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira.

326 251 . a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos. Após a sua morte. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo. Mas. muitas vezes. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. impedindo. a questão sexual. A demonização do ―outro‖ é. formando a Umma. sem dúvida. a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. Nesta estratégia. marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. distorcendo a realidade sobre a família árabe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. Maomé era retratado como um lúbrico ancião. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos.ª Dr. ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano. Na campanha difamatória. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. evitando assim. Era necessário que se apontasse. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade. o perigo da contaminação doutrinária. ganhou uma grande importância. Além disso. Ela era a base da própria identidade coletiva. muitas vezes. mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖. Desta maneira. como no mundo contemporâneo. uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖.

se um número expressivo de meninas nascesse. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. Para muitos. embora. até mesmo caucasiana.NEA/UERJ ocorre. devido pelo homem à mulher. herança mesopotâmica. tentou melhorar a situação da mulher. isto nem sempre tenha ocorrido. cujos autores eram soberanos e vizires. O costume tribal. A partir da época dos abássidas. helenística e. pois isto significava uma perda financeira. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. egípcia. judaica. redigidos numa linguagem pública e oratória. ao contrário do que se pensa. persa. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. Sabemos que o Profeta. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo. daremos o devido mérito ao Profeta. o que de certa maneira. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo. na prática. O Profeta quis proteger a mulher. A pesquisa em outras fontes. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. sendo considerados meras propriedades. A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. Maomé para evitar isto. podia comerciar e dispor de seus bens. além de permitir a poligamia. quando da consumação do casamento seria entregue a esta. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. não gozavam de nenhum direito. Os homens podiam casar-se 252 . Assim. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. Embora. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. pela própria natureza das fontes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tal fato não deve causar admiração.

Mas. graças aos lucros auferidos na atividade comercial. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. Mas.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. é o que podemos depreender . era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo. podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. dividindo com estes a mensagem recebida. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto. á dos coraixitas. 253 . Pelo menos. e. tratando-as com crueldade também deve ser repensada. para que o aconselhasse. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. Mas. embora. já havia enviuvado duas vezes. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação. na qual Maomé havia nascido. que lhe propôs o casamento. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. Khadija. principalmente. como já acima já mencionamos. Foi deste modo. assim se chamava ela.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois se para os olhos da cultura ocidental. que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão. embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas.

o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos. como Taif. 254 . Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. Contudo. as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. tendo o casal tido seis filhos. mas no caso de Khadija.NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional. Assim. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e. mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca. onde existia um importante templo da deusa al-Lat. entre os que apoiavam o Profeta. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. O que aponta para isto é o fato de que. Mas. mas também em cidades . se para nós. Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio.. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval. mas ninguém. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. isto. Assim. Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. até então havia lhe conferido o status de Deus único. discordando assim da postura de seus maridos.

muitas vezes utilizado para promover alianças. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. Após a morte de Khadija. Assim. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. Mas.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade. 255 .nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. uma vez que a poligamia era uma prática comum. uma criança de seis anos de idade. constituindo-se a monogamia numa exceção. de forma nenhuma corresponde à realidade. ou até mesmo pervertidos. Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah. embora para alguns estes possam parecer estranhos. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. imagem esta que. mas tentando aproximar-se dele. Mas. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. Contudo. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente. -. reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa .MULHERES NA ANTIGUIDADE . a qual não contou com a presença da noiva. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. a sua filha Aisha. o tio de Maomé. dirimindo conflitos. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. chefe dos Amir. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. o que não causaria nenhuma estranheza no meio social. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. ao longo do tempo o criticassem e. após este haver se recusado. Abu Bakr. prima e cunhada de Suhayl. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. de uma vez por todas.

tornava-se fortemente reprovável.NEA/UERJ Como já afirmamos. uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. Assim. os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas. o que lhe garantiria uma maior proteção. As batalhas e. sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Além disso. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. protegia melhor seus membros. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. levara a formação de uma conspiração para matá-lo. Para isso. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. já se dispunham à ação. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . segundo relatos era culta como seu pai. como foi o caso da jovem de dezoito anos. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. Por isso. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. Sua vida em Meca corria um grande perigo. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta.Umar.e. Hafsah. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas. Mas. sabendo ler e escrever. uma vez que. No dia combinado. conseguiu fugir sem ser notado. deveriam contentar-se com uma indenização. Desta maneira. Todos juntos participariam do assassinato. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca.

Ao longo do tempo. A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . Não se tratava. O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. 257 . sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa. contudo restringindo-a. a cada homem só era permitido ter quatro esposas. A explicação é de ordem econômica. Deste modo. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal. ou seja.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho. isto sim. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia. desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. de proporcionar prazer sexual a estes. mas visava. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens. uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos. ao qual só os poderosos poderiam arcar. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos. uma vez que. a proteção daquelas. de nenhum modo. Nas zonas urbanas. Mas. o quadro era bem outro. o que significava um enorme gasto. e assim mesmo. o que significou para o noivo uma nova aliança política.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas. Tais determinações.

fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação. uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. contudo. Além disso. tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas. uma vez que. Contudo. após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos. quando analisamos a questão do divórcio. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. loucura. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança. por outro lado. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. Mas. que variou ao longo do tempo. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. ou mesmo. A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade. Na questão da repartição da herança. irmão ou na falta destes um membro da família. como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. somente uma ausência de recusa.

o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia. A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. sem exigir a conversão. O Islã admite o casamento entre primos. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. Mas. O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. emancipasse a mãe. Para conjurar este mal. 259 . Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido. Mas. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio. até mesmo de primeiro grau. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica. contrariamente. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ masculinos. Podia apenas tê-la como concubina. embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. a não ser que este se convertesse. apelava-se também para a endogamia. Assim.

por isso mesmo. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. que amenizavam sua condição servil. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. Diferentemente do casamento. Sendo assim. O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. quando ela engravidava e dava a luz mudava de status. ela é enorme. o que explica a clausura em que vivia. aumentando o seu preço no mercado. As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo quase desconhecido no mundo rural. quando praticado entre duas pessoas casadas. que deveria ser realizado numa festa. quando descoberto. a permissão do concubinato e a própria existência do harém. a primeira. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. adquirindo certos direitos. tornando-se um-al-walad. limitado a quatro. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. A existência da poligamia.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. o número de concubinas era ilimitado. uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. Mas. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima. Mas. o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge. de quem o marido exigia seriedade. uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal. 260 . À princípio a concubina não deveria procriar. O adultério. o que não é de admirar. repreensíveis. Além disso. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente.

Mas. Mas. estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes. nunca pela prostituição. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício. Embora. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema.NEA/UERJ Embora. não parece ter sido alvo de discriminação e ódio. jamais foi erradicada. não há nada de mais falso. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 261 . No mundo muçulmano. uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima. contudo. Mas. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. principalmente as celebrações de casamento. O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. Assim. Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. que. apesar dos esforços de Maomé. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. para a visão ocidental. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. Na cidade de Caiurão. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. Mas. a prostituição. a pergunta se impõe.

mais do que de meninas. apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. 262 . Apesar. além do seu marido. criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher. localizadas em Meca e Madina. Na verdade. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. equivalente as termas romanas. quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe. onde se pode. sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. Além disso. No caso. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes. praticamente só visse homens. pois tal como os homens. Tal situação. A mulher vivia encerrada em sua casa. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. o que nem sempre ocorria. A maternidade conferia uma importância e segurança. descendentes e irmãos. o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. ―mãe de fulano. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân. Mas. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. ser mãe de meninos . a vida religiosa não lhe era vedada. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote.‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. o que fazia com que durante sua vida. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. ela. fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo.

seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas. Rio de Janeiro: Ed. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. pois. infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327. 263 . como as que habitavam a zona rural.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada.4. PUC-Rio. a formulação de uma outra pergunta se impõe. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. São Paulo: Loyola. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante.198. sem medo de errar. por exemplo. Então. gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. ficando atrás dos homens. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo.). Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito. Primeiramente. p. Contudo. Maria Clara Luccheti (org. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. Violência e Religião: Cristianismo. acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. para as mulheres ―trabalhadoras‖. Mas. 2001. 24. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres. ela é praticamente inexistente. Ao finalizarmos este modesto trabalho.

As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais. contudo. Embora. direcionadas para regiões específicas. Nas duas primeiras religiões citadas. a misoginia é patente. gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que. isto é. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas. Deste modo. livres de anacronismos e preconceito. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso. 264 . uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem. a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica. Finalmente. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e. tradição esta oriunda do judaísmo. isto é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio.NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. não poderia.

Rio de Janeiro : PUC-Rio.Paulo: Cia das Letras. Rio de Janeiro : José Olympio. Albert. Paulo: Cia das Letras. Uma história dos povos árabes. 2002 SONN. Maomé uma biografia do Profeta. 2006 KAREN. S. Tradução Marcos Santarrita. André. 1996 BOUHDIBA. Paul. Lisboa: Terramar.Islã.Tradução William Lagos. Tradução Andréia Guerrini.NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA. BURGUIERE . Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. Uma breve história do Islã. 2001 BLANQUIS. Violência e Religião. Abdelwahab.Porto Alegre : RS: L &PM. A sexualidade no Islã. 2001 265 . In: História da Família. São Paulo : Loyola . Maria Clara Lucchetti(org).2010 BINGEMER. São Paulo: Globo. S. Thierry. 2006 HOURANI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A família no Islã. Tâmara. Armstrong.

foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History . a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 2006: 54).NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. 328 266 . Judith M.1998: 99). ou seja. o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. Segundo Rachel Soihet. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo.1995:09). O movimento social feminista. ao longo da história. na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas. teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS. Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. Na década de 90. destinadas a eterna subordinação a figura masculina. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET. O debate em torno da opressão sobre a mulher. tanto do século XIX quanto do século XX. a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM.a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. mas intensas.

Por outro lado." (SCOTT. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. assumindo um caráter descritivo. sem. se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia. 1997: 279). não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder. ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. O termo têm sido. buscando as origens da dominação masculina. porém. o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. 1988: 141). entretanto buscar a motivação dos fenômenos. sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado. Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 . O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal. 1995: 11). desde a década de 70. 1995: 10).NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. desde os anos 60. tanto no passado quanto no presente. usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos.

As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. 2003: 27). No continente americano caracterizou-se por duas vertentes.women and Prehistory (Oxford. Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e. por outras. A proposta norte-americana representada por Margaret W. não antecede a organização social. por vezes se contradizem. Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo. a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. Conkey e Joan M. Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual.NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. 1998: 10). 1988: 146). ou seja. mas. nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET. A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero. parecem paralelas e/ou se tornam complementares.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero. como tal. no gênero feminino. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI. ou seja.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. Gero com Engendering Archaeology. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho. torna-se inseparável. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher. Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. As duas vertentes. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 .

1997: 415). 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um. O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino. as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. Enquanto que o masculino está relacionado a caça. Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. a mulher na história. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY. Segundo Conkey.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . especifico da vertente anglo-americana. a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada.NEA/UERJ trazer para debate a interação social. Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação. a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte. agricultura e cuidados com a família. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo Conkey. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino. modelo histórico e cultural. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa.

1997: 414). Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado.NEA/UERJ anglo-saxão. como os de Marie Huot (1892). As pesquisadoras perceberam que. O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911). as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil. Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino. 1997: 423). Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993). O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. No século XIX.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . 2006: 54). Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia. 1991: 07). dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT. A pesquisadora C.

a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage. A ação da mulher tem sido visível na arqueologia. dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL.NEA/UERJ diferenciação. através de suas escolhas e abordagens. mas não de forma isolada. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. sepulturas e representação imagética. sociais e econômicas. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. existem muitos caminhos para abordagem do tema. implicações políticas. classe. 2003: 19) . Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos. estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. identidade e etnicidade. Para Sarah W. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. 2007: vii). dependendo do 271 . ou seja. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros. em particular tempo e lugar. a pesquisadora Elizabeth M. Seguindo a proposta de abordagem interacionista. Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero. pois existem diferentes papeis sociais. 2003: 01). A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI. Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça.

citamos as mulheres representadas. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. primordial para os estudos da arqueologia de gênero. As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia. Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento. 2007: 10). de formas diferentes. do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas. afrescos e cerâmica. nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade. Segundo Elizabeth M. Entretanto. Em arqueologia.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. de negociação. Como por exemplo. particularmente. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. epigrafia e imagens parietais através da comparação.

. A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada. A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado. A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 . As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia. O estudo de caso torna-se muitas vezes.NEA/UERJ normas. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia.M. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar.Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. Para E. identificando o espaço de produção. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social. 2007: 12). confronto. A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . espera-se apreender as relações de tensão. A partir dessa perspectiva.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. pelo que foi dito mais acima. que Baudonívia conviveu com Radegunda. só para as mais íntimas. As referências que a escritora faz são muito precisas. seguida por Franca Consolino. posicionamo-nos no sentido de acreditar. posição de Dom Laporte. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese. inclusive dando os nomes dos beneficiados. ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours.NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. colocando-se. além de usar o texto de Venâncio Fortunato. portanto. A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia). não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. apesar de todos estes dados a favor. Mas. faz citações diretas. 281 . devido à idade avançada das suas testemunhas. confidenciara. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. Por fim. nos seus pormenores. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. excelente mesmo. Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós). deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. Contudo. datas e fatos. nos sinaliza em direção à terceira opção. e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. com detalhes precisos. Conhece.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. já que não estariam destituídos de sentido. respectivamente. Em algumas passagens. os milagres realizados pela santa. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências.

(SILVA: 2011. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto). que. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. no caso da santa é levado ao extremo. comparando-o com o de autores masculinos. o herói nas línguas neolatinas. o próprio milagre realizado. abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. imersa em seus jejuns e mortificações. no latim cristão. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. por extensão. poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. à primeira vista. mas. CHARRONE: 2007.NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. ela é a santa que se isola do mundo. que objetiva apresentar. em reconhecimento pelas suas virtudes335. por outro. força de vontade. Portanto. 183-185. na humildade do seu proceder junto às companheiras. uma imagem unificada do santo. na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina. o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. viril. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. 37-38). Como exemplo desta prática. fazendo dela um modelo da mulher forte. mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. aqui. 334 282 . podemos citar a famosa Questão Franciscana. Assim. sob a pena de Fortunato. 335 Se. que por sua tenacidade. supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. E. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o termo passará a designar ―virtude‖. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis.

ela vai além do proposto no seu Prólogo.. ―por piedade e caridade‖ (cap. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos.NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. ela lançava. sem se deter nos detalhes. de forma a construir seu modelo. com as querelas envolvendo os soberanos francos. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖. a quem não se cansa de chamar de rainha. difere enormemente tanto nos objetivos. a vida de penitências e mortificações da santa. já que ela continua a ser rainha. na época de Radegunda. Ela está. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. diga-se de passagem. Dito em outras palavras: a vida no século. conversio. conversartio. escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. já que para Leonardi (1991. mesmo do mosteiro. tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. Já quanto a Baudonívia. mas com o qual parecia extremamente preocupada. em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. da narrativa de Venâncio Fortunato. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). o modelo religioso de Poitiers. Nossa autora apenas menciona. onde não mais vivia. sua morte e seu funeral. Sua postura diante de Radegunda. intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. assim. nota anterior. mesmo dentro dos muros monásticos. II). que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. Em seu texto. miracula. Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. portanto. o olhar para o mundo externo. o processo de adoção da vida 336 V. mais inclinada a mostrar que. as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época. alguns dos quais seus enteados. 283 . ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como na apresentação dos temas. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. 70).

perseverando imóvel. ou melhor. grupo étnico ao 284 . pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. Seu casamento com Clotário é descrito como breve. qualquer que seja o soberano mencionado. enquanto [. dois séculos antes. bastante interessante.. os povos firmassem a paz entre si. destruía símbolos. na defesa da religião cristã. onde ―foi mais celestial que terrena‖ . ante seus rogos. bendizeram ao Senhor. que. Destaca-se. com tenacidade e vigor. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours. Baudonívia demonstra respeito. ídolos e templos pagãos. Neste episódio. nos levaria a perceber. seu comportamento quando no século. tentando defender o templo. Pelo contrário. aí. 1). entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. no texto de Sulpício Severo. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. por sua vez. nesta parte da narrativa. Feito isto. sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo. inspirada. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖.NEA/UERJ religiosa ou conversão. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século.. por onde passava. o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dedicação e lealdade profunda à realeza.] a santa rainha. que levava a Cristo em seu coração. admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha. Aliás. em oposição ao Rei celestial. a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. escrita por Venâncio Fortunato. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. Uma outra leitura. o capítulo 2. uma certa tensão. dizendo. Os Francos reagem.

(. 8. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato. 5. sua corte e signatários pertenciam. para o qual Radegunda voltava às costas. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps. assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio. Na seqüência. Estaríamos já. não se esquecendo do título mundano que carregava. 5). pela primeira vez. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A se destacar. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖. também. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário. estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖. chama a atenção. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento.. A doação do rei da villa de Saix. 3) e é. pois sofria muito com sua ausência. rechaçou um amor 285 . também. tomada de empréstimo a Fortunato. o mais áspero. 4). diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖.) impôs-se o tormento do jejum. também. até pelo contraste. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. uma expressão. e de ―bem-aventurada rainha‖. Aqui. quando ele narra as orações noturnas da santa. permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. cap. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente. Baudonívia utiliza. 13. aqui. passou por cima da doçura de um esposo.NEA/UERJ qual o rei Clotário. ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. à turíngia e católica Radegunda. 16 e 19).. na ocasião. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. Neste lugar. 9. como já mencionamos mais atrás.

Diante de tudo isto. Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . e da situação. na prática. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. humildade. exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap. em Poitiers (cap. A atitude que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . É eleita abadessa. ingressa‖. Germano. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos). juntamente com seu filho Sigiberto.. abandona seus bens. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. Paradoxalmente. de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖. em vez de seu nome. Já vivendo no mosteiro. usava de severidade permanente. das bodas com o rei celeste. caridade. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio.. assim como para seu arrependimento. Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro. chamada Eodegunda. 5). para Baudonívia. mas renuncia ao cargo. desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo.NEA/UERJ mundano. e para as suas qualidades de bondade.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. com ênfase para o tema nupcial. onde a ―santa rainha. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. destaques para a amargura do rei. a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. então. Radegunda. recorre ao bispo de Paris. enquanto para si. pobreza. a quem pede perdão. caridade. na aceitação das limitações alheias. para entregar-se ao ―celestial esposo‖. castidade. 8). para ele extremamente humilhante. Na narrativa. compaixão. que quer recuperá-la. ―o excelso rei‖. passando a viver da prática da humildade. quando a quis chamar.

da paz e da guerra entre os reis merovíngios. Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). 20 (de como. Se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a fez fugir). 15 (de como um ilustre varão. contemplou. escrevendolhes pedindo paz. um ano antes de seu trânsito. esta se encontra totalmente superada. aqui. Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). e também aos altos dignatários. Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. após sua abdicação do cargo de abadessa. Uma ausência importante. pela ocasião. durante um ano. 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada. ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. quando. é a da abadessa Inês. obedecendo a uma ordem sua. já fosse viúva. abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. Neste mesmo capítulo. no mosteiro. a filha espiritual de Radegunda. em uma visão.NEA/UERJ pelas outras. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda. a quem busca pacificar. apesar de já estar na vida religiosa. Aqui. ou que. os reis são denominados de excelsos. também. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. 17 (acerca de seus emissários. 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras. recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda). curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome). remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . na obra de Baudonívia. mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. de ―França‖. anteriormente. chamado Leão. a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. acompanhada pela comunidade. o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha.

que fez com que fosse chamada. os jejuns. pelas relíquias e méritos. Da mesma forma. visões)337. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. 338 288 . obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que.NEA/UERJ (curas. é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. depois da sua morte. a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. Ela é a ―provedora ótima‖. o poder sobre os elementos. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. V).MULHERES NA ANTIGUIDADE . poder sobre demônios. o fez na Gália. acaba por ordenar ao bispo de Tours. Comparada a Helena. sobre os elementos naturais. também. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. domínio sobre a natureza. para não deixar suas ovelhas abandonadas. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão. a expulsão dos demônios. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. a bem-aventurada Radegunda‖. apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. Na continuação do capítulo. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . Eufronio. por Baudonívia. ―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda. sempre que estes se colocam como entraves as suas ações. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. Suas armas são sempre a oração contínua. a ―boa governadora‖ que. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor. com a devida honra. que entronizasse. de são Mames e de outros santos). as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico. o que assim se fez‖.

sendo. senhora. suas exéquias. devido à presença do santo lenho. se tornaria um centro de peregrinação para curas. os coxos andam. Acesso em: 10/07/2011. Assim. assim. reforçando. pelo bispo de Tours.. études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. o momento em que escrevia. o mosteiro. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais. a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339.. e de garantir a sua sobrevivência material. 16). Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra. e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). Há. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. Documents. Disponível em: http://cour-de-france. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário).NEA/UERJ celestial‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Os ouvidos surdos se abrem. um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. a língua dos mudos retorna a sua função. de sés origines au 19 e siècle. volta curado pela virtude da santa cruz (cap. seu trânsito (21 e 22). O que mais? Todo aquele que. como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos. e remete à realização dos milagres para o presente. La politique territoriale des reines mérovingiennes. chegar com fé. os demônios são postos em fuga. os olhos dos cegos recobram a luz. a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. entre lágrimas e com profunda dor. pois. Gregório (23 e 24). afligido por qualquer tipo de enfermidade. principalmente a Sigiberto e sua esposa.fr. na ausência do bispo local.] ali. realizadas. Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. igualmente. Emmanuelle. 339 289 . não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios. os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões.

Vida de Santa Radegunda. 313-360. uma mãe. In ---. Oeuvres Monastiques. 290 . Francisco. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. Vita di Radegonda di Poitiers. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. Tome I. de forma permanente. aquilo que o povo cristão espera dele. para o reino de Cristo. A Radegunda de Baudonívia mantém. pp. seja na evangelização dos pagãos. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. CÉSAIRE D‘ARLES. Para finalizar. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖. VENANZIO FORTUNATO. para sempre. seja na relação com os poderosos do mundo. uma consciência política.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Roma: Città Nuova. Paris: Éditions du CERF. Oviedo. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. p. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. perdemos no presente século uma senhora. mas enviamos. seja no socorro ao sofrimento humano. escrita por Baudonivia. 2006.NEA/UERJ a rainha santa. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. e seu ascetismo acentuado. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. 1988. Oeuvres pour les Moniales. as palavras de Baudonívia. In: ---. 56. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. a quem não se cansa de pedir pela paz. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers. 170-273. In: PEJENAUTE RUBIO. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. 1977. daqui. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap. La Vida de Santa Radegunda. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. Règle des Vierges.

Ana Belén Sánchez. Santidade. CHARRONE. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin. pp. Moyen Age. Female voices in convents.pdf.pdf. 63-74. 2007. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. LEONARDI. 2010. SILVA. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. Enciclopédia Einaudi. 25-45. KRUEGER. 2005.). Disponível em: http://lamop. 1999. Sagrado/Profano. Anna et al. PRIETO. Acesso em: 03/04/2012. Sonya. 20-40. La educación de la mujer antes del año 1000. Les Élites Féminines au Aut. la biógrafa. Disponível em: http://redalyc. pp. Roberta. 2003. pp. Madrid: Alianza. 2005. VAUCHEZ. Claudio. 2000. 2010. Historiographie. pp. In: Mythos/Logos. Oviedo. pp. 289-340. Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato. 287-300 _____.univparis1.fr/IMG/pdf/joye. 18. 2003. La Mujer Medieval. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. André. João Paulo.). Archivum. A History of Women‟s Writing in France (ed. pp. Sofia. 69-94. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ. F. Roma-Bari. _____.). 2011.uaemex. pp. Valladolid. pp. Laterza.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. Acesso em: 03/04/2012. F. LX. Baudonivia. Storia della santità nel cristianesimo occidentale. In: BERTINI. PEJENAUTE Rubio. Paris: LAMOP/CNRS. 171-186. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación. In: STEPHENS. 291 . Roma: Viella. The French Middle Ages. In: CANDIDO. Cambridge: Cambridge University Press.2. 1999. 174-189.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 12. Miriam Lourdes I. JOYE. Esperienze religiose nel Medioevo. XXXI. courts and households. Minerva. Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices. BOESCH GAJANO. Maria Regina (org. 13. 1987. Sylvie. La santità. 57. (ed. Roma: Viella.

as companheiras do deus Dioniso. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. constituindo tíasos. 177). Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos. como em As Bacantes. que podem ser consideradas domésticas. no sentido de viverem dentro do gineceu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo conhecidas como guerreiras. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. e se comportam de forma beligerante. como Helena. e não individualmente. Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres. que certamente são mais bem estudadas. Conhecemos as mulheres livres muito menos. 340 292 . e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. Penélope. As amazonas. pois estas não constituíram narrativas privadas.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof. aparecem usualmente em grupo. Odisseu. Antígona ou Medeia. e as menades. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. nem sequer seus nomes. e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. Na Grécia dos documentos literários. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar.ª Dr. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. vinculadas à casa. romperam com o contato masculino. para se constituir. no Rio Grande do Sul.

pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖. e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V. as companheiras que seguem o jovem deus. certamente abre uma discussão quanto às variações. à loucura e ao milagre. e que são as que respondem no coro. neste caso. de caráter eminentemente político. no caso d‘―as mulheres‖. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. que terminaria um ano mais tarde. contra a família e a cidade de Tebas. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido.NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. e o das ―tebanas enlouquecidas‖. Mas a idéia de Trabulsi (2004). o outro conjunto. ou menades. o vinho. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 293 . do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. ao poder. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico. claramente presente no coro de Bacas. Além de nos criar um problema formal. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. nitidamente distinto do das mulheres do deus. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo. visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. compartilhada com outros helenistas. em 404. é presumidamente do final de sua carreira. tragédia de Eurípides341. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso.

citado na epígrafe. Ele foi escolhido. mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso). se discute sobre o poder342. mas elas o acompanham livremente. portanto. Além disso. ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. que será motivo de discussão adiante por comparação. problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. as mineides. e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. seus significados. a questão de gênero colocada. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis. basicamente. Para este último ponto. submissa e leal. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. as com ou sem kýrios. e articulada à relação do dionisismo com o poder. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese. personagens femininas da narrativa. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. decidem contar histórias. 342 294 . que implica desde ser virgem. ser reclusa ao interior do oikos.NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. o que já modifica o estatuto na base. o que corrobora sua erudição. para isso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . até ser silenciosa. possibilidade de existência histórica. e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. Certo que. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖. contamos com o livro de Trabulsi. nas Metamorfoses. roupas sem amarras. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. o representante legal do sexo masculino responsável.

NEA/UERJ As outras questões. à espera de novas futuras investigações. até mesmo o maior dos homens da cidade. numa inversão visível e risível. mesmo se cultuado em Delfos. e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. o rei. habita o santuário no inverno. em geral. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. Dioniso é o deus marginal por excelência. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. acaba como mulher. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. e nem ao de nenhuma outra. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. o rei. pois jamais será uma mulher. Em Bacas. problema que ocupa a centralidade da peça. visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. A importância da distinção de gênero. a gestora principal da ação trágica. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. Ou seja. Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. às novas alternativas que o culto deste deus aporta. aponta que. e as bacas o reconhecerão como 295 . na cena imediata que antecede sua morte. selvagem e avesso às práticas normativas. aqueles que. exigem uma busca às fontes antigas. e a aderência à prática de seus cultos e. preparam a catástrofe que se segue. e. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. a rainha mãe de Penteu. próprio dos alívios cômicos de Eurípides. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. e das tebanas. e o espaço sagrado fica vazio. e como elas reagem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Trabalho árduo e gigantesco. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu. de Agave. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. neste caso especialmente acentuada.

estas bacas. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv. protegidas. as domésticas... estas. numa posição servil.6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. o que acentua um conflito de poder .. um sacrilégio. ignoram os rituais dionisíacos. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. Aquela é sua terra de origem. Observemos que os mitos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . E inclusive para as iniciadas. não são mais mulheres comuns. ao mesmo tempo. de Eurípides. 177). aqui mais gravemente por se tratar da própria família. tecendo e atendendo as necessidades domésticas.NEA/UERJ seu inimigo. matou seu filho. Com a sua perseguição. uma mãe.entre o seu poder e o do rei atual. reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador. foi executado um regicídio e. ou enquanto. e pensando ter caçado um leão. pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe.) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖. seguidoras de Dioniso. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade.. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto. pois sangue familiar foi derramado. venturosa caçada (. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. Agave.) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado. já que matando Penteu. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 . como em As Bacantes. mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas. caça e assassinato na montanha.1168-1175) ―Bacas da Ásia (. No menadismo. são consideradas inferiores porque. Ela chama e anuncia (VV. imortal agressão de Hera à minha mãe‖.

bárbaras entre os gregos. As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. e ele anuncia no v. Sua alternativa.. Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos.. não que Dioniso o queira. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais. sendo extático e inebriante. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. conforme Dioniso (v. são primos.32 . que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel. mulheres que o seguem desde a Ásia. nem de mim se lembra nas preces‖. portanto. O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso. Dão valor intenso à vida.NEA/UERJ semeado por Cadmo. sendo.‖ e. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. como também na ética. manipulando-as segundo a sua vontade. Pesa sobre sua mãe uma má fama.MULHERES NA ANTIGUIDADE .45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações. poderíamos denominar ―iniciático‖.36). as mulheres do cortejo de Dioniso. atacarei chefiando as loucas‖.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv. Seu tipo de poder. quantas cadméias mulheres havia. Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. não persegue o lugar instituído do rei (v. que justifica tais maneiras de agir. e toda fêmea semente. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. é explícita (v. e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior. As outras. Penteu. e que certamente é um processo de afastamento radical. na sua prática aproximando vida e morte. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . ―habitam as montanhas aturdidas‖. por fim. não só no comportamento. passaram por um processo que. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. enlouqueci de seus lares”.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. grosso modo. se houver reação negativa. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas.

leite. desde o início. seja histórico ou literário. Dioniso representado tanto em forma humana. “kyrios”.NEA/UERJ de conceber e parir. de peplos soltos. segundo o mensageiro da tragédia. Percebemos que. quase inumana. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades. portanto. os cidadãos de Agamêmnon. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. Nosso estudo. da montanha. nitidamente construída na tragédia Bacas. se remete à análise desta ambivalência. vinho. embora de mesma matriz referencial. portanto. e em grande número. mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. Fazem a pedra produzir mel. as mulheres de Corinto de Medeia. tanto nos vasos de figuras negras. Muitas cenas diferentes aparecem. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. pela violência do revide. de alguma forma. de estilo mais antigo. embora não dessexuadas. quanto. Conhecem e ―dominam‖ a loucura. A dança exprime o corpo feliz. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. pelo movimento rítmico pulsante. mas não por convulsões dolorosas da visão profética. no imaginário clássico ático. e sim pela dança. E. sátiros. Estão livres de homens. nos vasos de figuras vermelhas. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos. água. Em Bacas não. como menades. os marinheiros de Filoctetes. como em estátua votiva. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. o cortejo dionisíaco. existem as que estão sendo arrancadas com 298 . ou como máscara teatral. Até a produção deste texto. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. das mulheres domésticas. vivem soltas na zona selvagem. Seus corpos dobram. diferentes das ―outras‖. propriamente o coro no sentido dialogal. nosso conhecimento. mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. “mania”. tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. como as da apolínea Kassandra.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As ménades serão. que infelizmente é muito lacunar. quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. o corpo envolto em serpentes.

33. Histórias Variadas III. p. segundo TRABULSI. H. 349 Eliano. 2004. nota 6 do cap. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. M. 42. 38. segundo DETIENNE. já aparece num artigo de 1940. 299 E-300 A. em uma tragédia perdida. sobre o Menadismo343. Também Apolodoro. 5. narra o episódio de Licurgo. Mette. 258. rei dos edônios. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. 1988. Antonino Liberalis347. 345 Apolodoro. 258. segundo DETIENNE. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. nota 54. 175). nota 50. M. 69-81 ed. 344 Ésquilo. IV. de Dodds. p. p. nota 49. Ésquilo. (b) os das Proitidas e das Miníades. X. Este fenômeno de resistência a Dioniso.125. Metamorfoses. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. Ovídio348 e em Eliano349. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. 346 Plutarco. 176). Edônios344. v. 348 Ovídio. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. p. M. 2002.1. 1988.NEA/UERJ furor de dentro de suas casas. 274). 343 299 . amplamente tratado por Trabulsi. pois ele persegue as amas de Dioniso. III. Questões Gregas. posteriormente. que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. (c) o de Penteu. XIV. Biblioteca. 31. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review. 1988.124. segundo DETIENNE. nota 6 do cap. 2004. sua tarefa doméstica de maior alcance. Metamorfoses. 347 Antonino Liberalis. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas. e do tear.J. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. segundo TRABULSI. XIV. p.MULHERES NA ANTIGUIDADE .125. F.

Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura.29). Licurgo entra em delírio. terra suposta de suas origens nãogregas. Por sua vez. que profetiza pela voz de uma mulher. Levanta o machado de dois gumes. Dioniso o leva até seu filho. Licurgo. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas. o Delirante (mainómenos). onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. Turvando sua visão. dispersa as portadoras de tirso. Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. o telhado é tomado por um delírio báquico. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. rei-delirante. amarrado. põe-se a balançar. Licurgo recebe uma última punição. ataca as amas de Dioniso. no monte Pangeu. para o interior das florestas geladas. desta vez. o bando de sátiros aprisionado. que Dioniso encontra seu primeiro adversário. corta os sarmentos e o pé da vinha. persegue o jovem deus assustado. Dioniso o faz voltar à razão. e estivesse manchado com o sangue familiar. à maneira de Apolo nas alturas de 300 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos. golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro. Assassino de seu próprio filho. Como tivesse executado um ato sacrílego. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. o rei dos edônios. mas. Mas Licurgo. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. os edônios o levam. cercado por seus sacerdotes.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. a dançar. quer derrubar a vinha. desta vez partindo de Apolo. As bacantes são acorrentadas.

Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder. Acometidas de mania. mas pela força de cavalos. o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. como a de Hipólito. em número de três. Ifinoe e Ifianassa. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra. a mãe de Penteu. em As bacantes. como as Miníades. num primeiro momento. Lisipe. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo. embora com alto teor dramático. Teseu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . terá purificado a região. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres. Nem Licurgo e seus descendentes. já que as filhas de Cadmo. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco.30). Proitos então cede. Outra narrativa é a das Proitidas. A cidade condenou Licurgo. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. Proitos. entre as quais Agave. Assim como as Miníades. que este número é quase uma constante nesses mitos. que é um homem muito jovem). elas vagam por toda parte e.NEA/UERJ Delfos. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto). e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. Nesta narrativa. condenado por seu pai. como em Bacas. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. também são em número de três. de passagem. Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são. elas não aceitam os ritos de Dioniso. adivinho que conhece o remédio para o mal. Observemos. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29. nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. como Proitos. morte política. matam seus filhos. Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos. atravessada por pathos. ele organiza corridas de perseguição 301 .

Sob a máscara de uma jovem. dilacera a carne de seu próprio filho. cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. Apavoradas diante de tais prodígios. a sorte cai em Leucipo. As três Miníades. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. depois de matar seu filho. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno. leão. Temos ainda um terceiro documento narrativo.NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. filhas do rei de Orcômeno. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. ―Sem perda de tempo. reis. Leucipe. as três. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. Leucipe. e o primeiro. segundo Eliano. colocam. Aristipe e Alcitoe. em Tebas e em Orcômeno. Elas não lhe dão atenção. as de Proitos e as 302 . as filhas de Mínias. se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso. são mortos. com a ajuda de suas irmãs. na região da Beócia. Finalmente elas deixam a montanha. sortes em um vaso. segundo Antonino Liberalis. Mínias. E perturba-as com suas metamorfoses: touro. Arsipe e Alcatoe. leopardo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu. ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. que balançam.

fiam a lã ou tecem os fios. são levadas a deixar a casa e a matar os filhos. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. os outros mal‖..Só nós pensamos bem.) Somente as Mineides. onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖. mas sem anuência. 69).Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v. dançará a terra toda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estas são iniciadas sem iniciação. demonstra que todos devem acorrer. não como verdadeiras menades.NEA/UERJ de Cadmo. O sexo masculino é o primeiro alvo. Em Eurípides. que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te. em analogia com o morcego. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. 196) ―. o velho rei da cidade. princesas. quanto às mulheres recalcitrantes. Quando Cadmo pergunta (v. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva. mas não podem permanecer entre as bacas. sem a consciência do que estão fazendo. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha. dominadas por uma força maniática. quando as bacas. convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. avô de Dioniso e de Penteu. num castigo peculiar. todos estão sendo chamados. à montanha. no Párodo. são levadas a experimentar o estado báquico. Elas são levadas à montanha. O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos. pois aos homens pertence o poder político. elas terminam as narrativas impuras. 195) ―. em sua casa. conforme descritas 303 . ressaltando a ligação das três jovens com a casa.. Mas que ritos seriam estes.

e o mata. para a história da cultura.NEA/UERJ por Diodoro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. parte com um futuro promissor pela frente. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. enxergar literalmente o ocorrido. assume proporções significativas. uma potência transmutadora. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. que incluem um aumento significativo de força física. devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. Agave. O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. Cadmo. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. A mãe deste. assim como nas outras histórias. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar. podem ficar em solo tebano. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . Este estranho rito. potente analogia do poder real. filial. e neste drama. 272). embora estivessem todas na mesma região da montanha. é praticado por sociedades femininas (2002. com requintes de elaboração. tias do deus. Harmonia. por fim. o que não é o caso das filhas. depois de esforços por parte do pai. As mulheres desta tragédia. nas últimas décadas. carregando sua cabeça até a cidade. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. a família cadméia está desfeita. Apenas então. são oficiantes de estranhos prodígios. e. toda coberta de sangue humano. descrito nas Bacantes. o que. uma vez na montanha. configurando a distinção que. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. A estas ele reserva o exílio. que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. impuras. e a ordem de Dioniso é implacável. Nem o antigo rei e sua esposa. é que se descortina a verdade e ela consegue. e. e sem alternativas de redenção. uma fúria assassina. pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres.

305 . ―Maenads‖. São Paulo: Companhia das Letras. As Bacas. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. 1983. Marcel. TRABULSI. qual seja. José Antonio Dabdab. Pandora – Women in Classical Greece. Erwin R. Princeton: Princeton University Press. Desde então. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art. visíveis no Menadismo. 1988. 1991. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. 2004. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva. in REEDER. CARPENTER. São Paulo: Hucitec.381 a 392. Roberto. pp. Its Developement in Black-Figure Vase Painting.NEA/UERJ gerações. Belo Horizonte:UFMG.E. mas o sintoma é o mesmo. a discussão mudou de nomes. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. DODDS. destas potências que são arcaicas e imemoriais. Mexico:Fondo de Cultura Económica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON. KERENYI. Poder e Sociedade. 1995. Oxford: Clarendon Press. Os Gregos e o Irracional. DETIENNE. 2002. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. São Paulo: Escuta. Ellen. Erwin. Cornelia Isle e WATSON. As Núpcias de Cadmo e Harmonia.. Dioniso a Céu Aberto. 1986. Carol. Wilfred G. desagregação pelo abandono destas forças. Thomas. e as figuras femininas também. 1995. CALASSO. Dionisismo.

Adriene Baron Tacla. 1997: 197. 1986: 17). ainda. de que teriam sido os celtas. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. os druidas.ªDrª. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. especialmente devido à celtomania 351 e.Dr. 1999: 161). afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. Pode-se dizer que. A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca. e mais especificamente. Fábio de Souza Lessa. ao longo das últimas décadas. sobretudo por um público não-acadêmico. 2003: 111-122. podemos claramente identificar 350 306 . Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. 2008: 42-44. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro. igualmente. GUYONVARC‘H & LE ROUX. É membro do LHIA (UFRJ). CUNLIFFE. por exemplo.NEA/UERJ IDENTIDADES. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações. 2003: 117). ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ. A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas. em parte. completamente anacrônica. [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. 2006: 73. da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. COLLIS. a ideia. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS. [re]descoberta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sob a orientação da Prof. CUNLIFFE.

da documentação escrita na Antiguidade.AMIM. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. na maioria dos casos. participa de disputas. além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. um aumento significativo de eventos. 1989: 63). para produções como as de Markale (1986). Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. encontros. por exemplo.NEA/UERJ feministas que. majoritariamente. a respeito das mulheres celtas. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e. são advindas. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência.MULHERES NA ANTIGUIDADE . força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. A meu ver. 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal. a celtomania pode ser qualificada. no Brasil (cf. muitas vezes. de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades. de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. sobretudo. que intervém em interesses masculinos. Em linhas gerais. publicações impressas ou digitais. e que. vem. ainda nos dias atuais. Gostaria. festivais de música. seitas e grupos pseudo-religiosos. 307 . as quais. isto é. primeiramente. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. a mulher celta que pega em armas. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. 2010). Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO. 2006a: 165-172. como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. associações e sociedades. sobretudo. como veremos a seguir. basta direcionar o olhar. (3) o anacronismo. portanto. que se faz ser obedecida. em linhas gerais. acredito que argumentações de tal natureza. por fim. as mulheres gregas. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas. iguala-se aos homens em diversos aspectos.

unicamente. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. por exemplo. comumente designadas como celtas. esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. apresentam-nos. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. Amiano Marcelino. em autores como. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis. como muitos pensam. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. políticas. como a cultura material –. Diodoro da Sicília. em especial. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. 2002: 109). algumas dificuldades e desafios singulares. Logo.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. dentre outros. ao invés de meramente desconsiderar tais relatos. isto é. Assim sendo. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. não é. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. Em vez de buscar. igualmente. 308 . Esses textos. nesses relatos. 2004: 09. entretanto. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. Tácito. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. WELLS. Plutarco. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações. como veremos a seguir. então. outro tipo de documentação de natureza distinta. ainda. Estrabão.

Para não alongar muito este texto. 2008: 12-3). Em outras palavras. portanto.NEA/UERJ diversas. um gaulês. 309 . organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos. 12. FILHO. a respeito das mulheres celtas. É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA. por exemplo. ou o que caracterizaria os celtas como tais. buscando. assim. (XV. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf. Não se trata.CUNLIFFE. Ao confrontar os escritos. chama a ajuda de sua esposa. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. consideradas como vivendo em estado de barbárie. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. Trata-se. então. em batalha. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. desejo discernir comparáveis. 2003: 139-145). de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo. que possuímos nos dias atuais. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente. uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . eles possuem suas mulheres as quais. contudo. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr. 4. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros.‖ (IV. por sua vez. elas mesmas. 4. mas elas também a eles se igualam em força física. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.‖ (V. navegavam em certas ocasiões para o continente.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . Nenhum homem.me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário.‖ (IV. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. colocava os pés em tal ilha. existe uma ilha habitada somente por mulheres. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. as mulheres.)/ Geographia (lat) (V. por sua vez. 310 . onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha.6) Citando Possidônio.

Os dois morrem. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. (XXII) – Relato sobre Chiomara.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. (XXI) – Relato sobre Stratonice que.) (III. esposa de Ortiagon. não tendo conseguido engravidar. um dos mais poderosos homens da Galácia. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. inclusive em questões militares. O marido. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 . no final. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e.)/ De Mulierum Virtutibus (lat.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em segredo. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria.

ela dá a última palavra. rainha dos icenos. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. seu marido. provando. (III. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. terem derrotado os gálatas em 189 a. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo. 35) Relato sobre Boudicca. após os romanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas.C. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. mulher que tomou o poder. porém Chiomara. A troca de fato se dá. chefe dos Catuvellauni. assim. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela.. após a morte de Prasutagus. Boudicca. visando assim a obter riquezas em troca. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. (XIV. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. sua própria honra e valor ao seu marido. toma a 312 .

conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. em comando. indomáveis. o poder de liderança e comando militar – havendo. assumindo para si funções vitais políticas. primeiramente. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. (I. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. que tais relatos constituem-se em discursos e. . portanto. igualmente. Essas características. em geral. Camma.elas. seriam bastante imprevisíveis. causando. portanto. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quase sempre. Plutarco e Tácito). Cartimandua e Boudica). descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. dessa forma.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. ainda.‖ Pode-se. fazem parte de discursos particulares. perigosas. Deve-se ter em mente. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. violentas. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. . contudo. assassinas e vingativas. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. Estrabão. que tais representações construídas em relação às 313 . mencionadas por Tácito). na concepção dos autores.

2003: 12) e. propriamente ditas. constituem-se como representações – com implicações políticas. como pela tradição e educação desses indivíduos. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. existem nos textos gregos e latinos. 1996: 33). representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. de certa maneira. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. algum conhecimento prévio do Oriente. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. consequentemente. Isto é. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. em sua maioria. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. Ou seja.NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. Não nos falta. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade.) presume algum antecedente oriental. que é difundido. mais enquanto discursos possíveis do que. 1976: 114). os celtas. 314 . inclusive. 1996: 32). 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. tanto através da escrita.. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. se dão..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. 1996: 18). Dessa forma. sociais e culturais. Nesse sentindo. antes de tudo.

quanto como. antes de tudo. Esta definição. indivíduos pertencentes a uma sociedade. tanto como indivíduos. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. consequentemente. também necessitam.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. a meu ver. por sua vez. Esses discursos. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. HARTOG. (BLUNDELL. especialmente. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. por sua vez. por isso. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. a uma tradição. autocontrolados e civilizados. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. 2002: 105).NEA/UERJ ―realidades concretas‖. seria sustentada pela imagem do outro. a um determinado grupo social. portanto. Em outras palavras. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. sim. os celtas só podem ser pensados como os Outros. construir noções próprias de identidade. como construções culturais (WELLS. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. destacando seus atributos de barbárie. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. 1999). necessitavam estar sob o controle masculino352. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. devam ser entendidos. Assim. mas. 1998: 100) 352 315 . ainda. 2001: 222.

NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. [.sejam elas bárbaras ou não.] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. a imagem da mulher bárbara é. 353 316 . A autora demonstra que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. ainda. limitadas à interioridade do espaço doméstico. de construírem uma noção particular de barbárie. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural.. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. portanto. A construção de tal alteridade. Isto. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. entendido aqui como não-civilizado. não estando. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade.. O autor analisa. na concepção desses autores. de fato. atualmente. contudo. Conclui-se daí que. de certa maneira. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353. na visão dos autores antigos. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. dentro da concepção clássica. 1998: 95). correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. 2003: 79). ser aplicado aos romanos. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. por sua vez. a mais comum na arte imperial romana. Segundo Iain Ferris (2003: 54). consequentemente. ou seja. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. o mesmo princípio poderia. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . Parece-me que. 2003: 55-60). o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. por sua vez.

NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. 2003: 80). (V. mas elas também a eles se igualam em força física.‖ (IV.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. por exemplo. um gaulês. 4. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências.me refiro ao fato de 317 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . chama a ajuda de sua esposa. 12. por sua vez. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los.‖ (V. eles possuem suas mulheres as quais. em batalha. (XV.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. Nenhum homem. inclusive em questões militares.)/ De Mulierum 318 .‖ (IV. as mulheres. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.6) Citando Possidônio. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. 4. por sua vez. (III.NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr. existe uma ilha habitada somente por mulheres. navegavam em certas ocasiões para o continente. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. elas mesmas. colocava os pés em tal ilha.

Depois de ter se aproveitado de Chiomara.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. após os romanos. o centurião negocia a devolução 319 . no final. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano. esposa de Ortiagon. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho.NEA/UERJ Virtutibus (lat. não tendo conseguido engravidar.C. Os dois morrem. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. um dos mais poderosos homens da Galácia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. (XXII) – Relato sobre Chiomara. terem derrotado os gálatas em 189 a. (XXI) – Relato sobre Stratonice que.. O marido. em segredo.

(III. A troca de fato se dá. porém Chiomara. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. Boudicca. mulher que tomou o poder. após a morte de Prasutagus. seu marido. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. assim. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. ela dá a última palavra. rainha dos icenos. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 . sua própria honra e valor ao seu marido. (XIV.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 35) Relato sobre Boudicca. provando. visando assim a obter riquezas em troca.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. chefe dos Catuvellauni. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma.

Cartimandua e Boudica). assassinas e vingativas.elas.‖ Pode-se. (I.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo. assumindo para si funções vitais políticas. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. portanto. dessa forma. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. seriam bastante imprevisíveis. . como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. quase sempre. o poder de liderança e comando militar – havendo. mencionadas por Tácito).essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. na concepção dos autores. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. causando. em geral. perigosas. violentas. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. indomáveis. em comando. igualmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . . Plutarco e Tácito). uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. Camma. Estrabão. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . 321 .

que é difundido. 1996: 18). sociais e culturais. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. inclusive. constituem-se como representações – com implicações políticas. algum conhecimento prévio do Oriente.. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. ainda. 2003: 12) e. consequentemente. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis.) presume algum antecedente oriental. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. em sua maioria. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. 1976: 114). Dessa forma. primeiramente. Não nos falta.NEA/UERJ Essas características. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. contudo.. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. como pela tradição e educação desses indivíduos. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. 1996: 33). conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. Deve-se ter em mente. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. se dão. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. tanto através da escrita. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. fazem parte de discursos particulares. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. Nesse sentindo. 1996: 32). dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. portanto. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. que tais relatos constituem-se em discursos e.

os celtas só podem ser pensados como os Outros. ―realidades concretas‖. antes de tudo. construir noções próprias de identidade. indivíduos pertencentes a uma sociedade. sim. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. Esta definição. a uma tradição. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. devam ser entendidos. por isso. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. ainda. mais enquanto discursos possíveis do que. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. a um determinado grupo social. portanto. Esses discursos. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. autocontrolados e civilizados. os celtas. quanto como. 1999). Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam.NEA/UERJ das mulheres celtas. propriamente ditas. tanto como indivíduos. Isto é. mas. Assim. também necessitam. Ou seja. a meu ver. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. como construções culturais (WELLS. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. HARTOG. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. 2002: 105). diferentes do Nós-Mediterrâneo e. destacando seus atributos de barbárie. especialmente. 2001: 222. existem nos textos gregos e latinos. Em outras palavras. antes de tudo. por sua vez. Embora tal Ressalta-se. por sua vez. seria sustentada pela imagem do outro. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. de certa maneira.MULHERES NA ANTIGUIDADE . necessitavam estar sob o controle masculino354.

no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355. Parece-me que. a imagem da mulher bárbara é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não estando. 1998: 100) 355 O autor analisa. A autora demonstra que.sejam elas bárbaras ou não. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . ainda. entendido aqui como não-civilizado. 1998: 95). o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. de fato. (BLUNDELL. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. limitadas à interioridade do espaço doméstico. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. de certa maneira. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. o mesmo princípio poderia. ou seja. atualmente. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. Segundo Iain Ferris (2003: 54). portanto. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. a mais comum na arte imperial romana. tratam de homens não eram e. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. consequentemente. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. na concepção desses autores. de construírem uma noção particular de barbárie. contudo.NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. consequentemente. 324 . ser aplicado aos romanos. 2003: 55-60). na visão dos autores antigos. por sua vez. dentro da concepção clássica. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. A construção de tal alteridade.

tal como aos costumes e ritos de comensalismo. Defendo. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos. como restritos ao universo masculino. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 . assim. Isto é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por sua vez. então. 2003: 80). que. Em outras palavras. situando. bárbaros. portanto. Suzanne Saïd (1985). visando a facilitar a compreensão de minha argumentação. o mesmo acontece em relação às mulheres celtas.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. na concepção dos autores helenos e latinos.. no caso. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. o que. 1985: 139-150). demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações. por sua vez. Elaborei. esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD.]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. sempre situados à margem do universo.. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas. Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades. Por outro lado. Conclui-se daí que: [. por excelência. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão. é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. Isto. o mesmo mecanismo. também. ou lógica argumentativa. de fato. acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. 2003: 79). vê-se.

V.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência. excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero. portanto. V. 39). 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO. Nenhum. BH. BH. não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. 356 326 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .na medida em Sim – já que as funções Zelo. Estrabão Sim . assumiriam filhos. A coragem/ espírito destemido (DIODORO. ao contrário de virtudes. cargos e funções de poder. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e.

Nem tampouco é estranho que esses autores. não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. senso questões palavra final em debates. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . reinando sobrevalece com o auxílio a família. no caso em alguns casos por de Roma. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. as circunstâncias. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN. assuntos militares. si só. 2002: 109). Sendo assim. decidem públicas. de justiça. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. Assim sendo. Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens. no caso de de Boudicca.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. negociações intervêm disputas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . WELLS. Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice. Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra. na verdade. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem. 2004: 09.

em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. comumente. seletivo e exagerado. por exemplo. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. ainda que pequena sob diversos aspectos. embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. Tentei. cultura material. dentro de uma metodologia comparativa. (RANKIN. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. tais construções devido a motivações das mais variadas357. naturalmente. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções. SAÏD. inclusive. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural. mais efetivamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que possui variabilidades de acordo com o tempo. acredito. ainda. 2002: 109) e que manipulavam. também. 1985: 150). 1995: 153. Assim. de certa forma. que busca. resulte em uma ginecocracia. 1989: 152. portanto. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. 2002: 147. o estereótipo deve ser sempre generalizado. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas. e como todas as caricaturas. com este volume. 2003: 11). WEELS. O que surge. Contudo. masculinas. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. pode-se. portanto. nesse sentido. espaço e grupos sociais. resume-se. 253). ainda. sem que isso. 251. uma matrona romana e que. é uma caricatura. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa.NEA/UERJ (cf. 357 328 . Minha intenção de contribuição. ARNOLD. Consequentemente. espero ter sido capaz de chamar a atenção. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível.

Acredito.NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. Trad. Trad: W. Agricola. ______. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade. assim como toda identidade. Trad: Frank Cole Babbitt. Books 14-19). H. DIODORUS SICULUS. C. On the Bravery of Women. 329 . por conseguinte. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS. textuais ou imagéticos). consequentemente. In: PLUTARCH. Library of History. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero.: Horace Leonard Jones. II). cultural e discursivamente produzido‖. S.tufts. Trad: J. assim. London: Loeb Classical Library. que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G. Fyfe e D.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999. Oxford: Oxford University Press. Portadoras de virtudes importantes ou não. Geography (Vol. na visão daqueles que as relatam. 1917. Oldfather.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. History (vol. TACITUS. The Histories. The Annals. variando segundo as sociedades ou. I. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. Levene. London: Loeb Classical Library. ______. Rolfe. Moralia. assim. Birley. Dísponível em: http://www. 1935. 2000. a alteridade da alteridade. 1931.02. Trad: Anthony R. é social. 1997. III) Trad: C. Oxford: Oxford University Press. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. III). London: Loeb Classical. London: Harvard University Press. detentoras de marcas dessa ex-centricidade.perseus. São. (Vol. de acordo com diferentes momentos de sua história. ainda.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). 1999. nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. (Vol. ___________. STRABO. H.

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Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas. É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica. 149). Dra. Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila. e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos.NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. a estas informações foram acrescidas leituras. Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado. como Messalina e Agripina. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca). como expressa Moses Finley (1991. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. Pudentila. 358 332 . extremamente interessante como documento para o tema. como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio. ou ao extravagante e cruel. escrito por Apuleio. na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. também orientado por esta professora. Profa. uma matrona real. mais conhecida como Apologia. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. a matrona Pudentila.

Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe.359 Mas. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila. 359 333 . LXIX). Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico. Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. rompendo a noção biológica do sexo. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. Sicinio Claro. Assim. Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. Apuleio. há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. 1980: 170). LXXIII). Após o casamento. Apologia. LXXII.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. 5-6. a família do marido falecido de Pudentila. Na autodefesa de Apuleio desta acusação. um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖. sponsalia. 1954). Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente. segundo Bradley (1991: 93). na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. gênero e etnicidade. Tratar sobre Apuleio é fundamental. acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia. segundo as indicações de Apuleio. por isso. para uma abordagem de gênero como construção relacional. passou pela cidade de Oea (atual Trípoli. em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. LXVIII. relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. portanto seu cunhado. formada por membros da elite local de Oea (GUEY. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres. Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista. a viúva Emília Pudentila. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. Apologia.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. a seguir. se remete a essas romanas honradas. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. Às matronas romanas. como protetora do lar. mulheres oriundas das famílias abastadas. dançarinas. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. escravas. mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. dependia do casamento. A designação jurídica de uma mãe de família. Faremos. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos.NEA/UERJ com Pudentila. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. assim como a de um pai de família. Dessa forma. quando dão alguma informação sobre mulheres. para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. concubinas. 360 334 . tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. Assim. por isso eram respeitadas e honradas. além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma deusa feminina. deveriam ser mães e se casarem. preparadas para receberem um dia um marido. 1990: 352). Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. paterfamilias. As matronas eram protegidas por leis e decretos. Portanto. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila. e as libertas. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. Feito isso. Casamento. matresfamilias. A maioria das fontes latinas. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana. prostitutas. Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos.

. 1991: 65). através da Lei Canuléia de 445 a. No período republicano. Conforme Norbert Rouland (1997. Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos. Em geral. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão). neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes.NEA/UERJ romanos.C. o casamento sine manus. levou à criação de uma nova forma de casamento. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido. como se fosse uma de suas filhas (loco filiae). de um parente agnado mais próximo.C. O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu. já no século II d. 1971: 55). o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . prevalecendo a forma de casamento sine manu. ainda mais enriquecidos. introduziram-se novos costumes. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher. p. De acordo com Bradley (1991: 85). no caso da morte deste. as mulheres estavam sob o poder do pai ou. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. havia gradativamente se transformado. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99). 271). com membros das camadas populares. o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas.

comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento. ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL. Dessa forma. assim também eram os casos de divórcios. Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY. mais casamentos são também encontrados. pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink.C. 1967: 105). demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. e diz que o filósofo Sêneca. talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio. As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a. 1991: 79). Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. mas de suas famílias (CROOK. homens e mulheres. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos. não sendo uma decisão individual do casal. Discordamos porque. Assim. principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos.C. 336 . elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar.-14 d.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento. no I século. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias. que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio. que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. no qual viveram Apuleio e Pudentila. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública. 1991: 06).) exigiam dos cidadãos.

provavelmente. Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. já que. ela passaria para a potestas de seu sogro. podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos. como citamos na Introdução. ou Emília Pudentila. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . o que era possível no período. conforme Finley (1991: 151-152). Segundo informações da Apologia. Seu nome. as mulheres romanas não recebiam nome individual. não muito sutilmente. só temos informações sobre Pudentila na Apologia. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. Neste sentido. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. ―segunda‖. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem. faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. podendo também ficar sem tutor por certo momento. sob a tutela do filho Ponciano. ―é como se os romanos quisessem sugerir. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio. apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. acrescidos de termos como ―mais velha‖. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. com a morte deste. os mais frequentes no período. com a morte deste. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. e em segundo lugar porque. ―primeira‖. este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. De acordo com Finley (1991: 151). deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. mas apenas frações de uma família. ou ser uma mulher emancipada. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. Aemilia Pudentilla. Porém. ―mais nova‖. Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio.‖ Na Apologia (LXVIII.NEA/UERJ primeiramente.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

C. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d.] Depois da morte de seu filho Ponciano. Pudente. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem. assim como as demais citações da Apologia. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Neste sentido. Talvez fosse este o caso de Pudentila. ela escapava do controle dos seus irmãos. XCIX. ou seja. Sicinio. na forma cum manu. se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse.. com muita resistência de sua parte.C.362 Neste sentido.) regulamentando o casamento. por este estar sempre contra ela. 362 Esta citação. havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento. foi traduzida por nós. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191).C-14 d.] (APULEIO. tios e primos. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento. A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo. Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada. 338 . mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido. estando viúva. as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu.. para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. 3-5). Apologia.NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona.). Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [.. após as leis do Imperador Augusto (27 a. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento.. movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias. Caso a mulher com sua mãe. [. tive que convencê-la. já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva.

ela escapava do controle dos irmãos. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina. Assim. se mostrou. sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. 184) se a mulher não tivesse filhos. Apologia.NEA/UERJ viúva. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. Conforme Yan Thomas (1990. já que. segundo Apuleio. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu. C. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. as mulheres do século II d. p. 1991: 76). podendo contrair um novo casamento à vontade. segundo Carcopino (1990: 107). não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não o deixe sem amparo (APULEIO. como marido. talvez seja 339 . porém. a mais frequente do momento. estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. tinham direito de dispor de suas heranças. podendo deixar parte para o marido. 2). não necessitando nem da autorização de seu filho. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. a favor do matrimônio. apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã. Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. eu. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio.C. que. casada em regime cum manu. tios e primos de seu marido.

e em outras da Apologia. todos os motivos de sua decisão. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 .NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. assim. o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou. LXXIII. Ao mesmo tempo. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde.. Que. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. Apologia. Explicou-lhe. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual. que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa. tinha. Além disso. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano. posto que. LXX. 5-6). deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. Nas passagens abaixo. Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. mediante sua prolongada viuvez.MULHERES NA ANTIGUIDADE . depois disso. como boa matrona. ponto por ponto. que. combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. 8-9). por vontade dos deuses.] (APULEIO. com desprezo de sua própria saúde. Como bem nos indica Hunink (1988: 282). colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil. pois. se fosse emancipada. Apologia..

Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. uma casa grande. e logrei convencê-la. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. aconselhei. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. o que ajudaria. segundo a avaliação de seus próprios filhos. de seu próprio patrimônio. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. alguns campos férteis. não estando sob a força de seus poderes mágicos. eu havia gastado completamente. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. Na segunda passagem citada acima. supostamente. e uma grande quantidade de trigo. ao fim. Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. conforme seus acusadores alegam. 1991: 266). no caso das viúvas. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX. repito. Aconselhei minha esposa.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. Segundo a historiografia. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. cevada. Aconselhei-a que lhes desse. ademais. azeite de oliva 341 . a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . provida de toda abundância. em forma de terras tachadas por baixo. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. segundo dizem meus adversários. cujos bens.

. [. Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada. a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363. mesmo em meio à situação dramática da acusação. Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa. LXIX. segundo os olhares masculinos da elite. Assim.. 1997: 14). como as atenienses. tomada por graves transtornos. Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. 2). ao descrever Pudentila. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez. temos o trecho da obra citado abaixo. sem dar lugar a falatórios. 3-4). Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal.. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES.. Novamente.. debilitada pela prolongada abstinência. SILVA. privada do uso habitual do matrimônio. Como exemplo. Conforme Rousselle (1990: 386). 5). CARVALHO. LXVIII. XCIII. 363 342 . se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [.. de forma que chega a parecer exagerada.NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época.] (Apologia. esta mãe extraordinariamente responsável [.MULHERES NA ANTIGUIDADE .] (Apologia.] esta mulher prudente. Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa.

a disposição sobre sua própria herança. Assim. 343 . contida e extremamente preocupada com seus filhos. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia. Sendo assim. estamos diante. portanto. Como uma defesa. obviamente. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. acima de tudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seu cuidado com os filhos. da visão masculina de Apuleio. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa. Considerações finais Como percebemos. tais como os tipos de seus dois casamentos. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio. etc. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. estiveram presentes nas descrições da Apologia. sua situação jurídica. Neste sentido. portanto. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. Para compreender melhor a situação de Pudentila. Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. contendo. a obra é repleta de recursos retóricos. uma matrona virtuosa. conforme o objetivo que pretendeu. Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila. como uma mãe zelosa.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa. foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época.

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para que não tivesse de parafrasear a mim próprio. em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária.). optei por mudar apenas alguns poucos tópicos. 1983-1985. além do mais.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda. A primeira. já que trata-se. como é comum no mundo pagão antigo. é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica. As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria.por várias razões -. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library. The Old Testament Pseudepigrapha. Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos. e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. Collins na obra de Charlesworth supracitada. bem entendido) . não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H. 364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sibyllinische Weissagungen.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof.0. que lembraria um Homero rude.1 (OTP 1). notadamente de minha tese de doutoramento. 1951. 346 .lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. é uma figura mitológica . As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo. As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. Doutor em Teologia. New York: Doubleday. Vol. de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus. Charlesworth (ed. Berlin: Heimeran. Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. Dr. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra. Em segundo lugar. dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável . e mais óbvia. mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess. 1985).

vide Hystaspes e Apolo. como disse). compulsão profética como castigo . casamento. 1990. Oxford: Clarendon Press. 366 Nota com mss. 365 347 .106. entre outros -. Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. Potter. dão testemunho de uma coleção de textos estranha.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 . Se não for exagerado. mas sua longevidade é surpreendente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle. o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto.em suma.sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente.já se possa afirmar que no séc. Em suma. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina. entre os autores antigos.Falam abertamente de sexo e matrimônio.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal . para isso. aos olhos de um observador moderno.C. embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física). para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos. P. David S.Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. 2. o termo designasse uma figura profética apenas. os OrSib são os que mais falam de sexo. 3. desde temas até personagens). teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. E não dispomos.A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso . mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). pois: 1.V a. permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico . outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses.

MA: Harvard University Press. Pp. recomendo James C. e não por luxúria (Jb 4:17-19).116-118. mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. 368 De cultu feminarum 1. temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas. Columbia: University of South Carolina Press. não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro. Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. Noutro pseudepígrafo notável. VanderKam. no Livro etiópico de Enoch (1En). A mulher surge noutros apocalipses.NEA/UERJ constitui-se. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos). convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . 367 348 .a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. Cambridge.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖. Como observa Burkert. Enoch. no entanto. A Man for all Generations. Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres.112 ss. 1985. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses. os anjos que pecaram contra a criação de Deus. Pp. Assim. Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo. o Testamento de Ruben (Test12Rub). Hystaspes ou Apolo). ao contrário dos OrSib. o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. Greek Religion. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes. 1995.MULHERES NA ANTIGUIDADE . interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos.3. retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368). Há de se fazer uma ressalva . com seu grego macarrônico. nesse sentido. por assim dizer. 369 Walter Burkert. na figura mais notável na apocalíptica. num certo sentido. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais.

Aurelio Peretti. sendo esta última a de existência mais duvidosa. mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo. como o nabi (―profeta‖). a de Cumae. Apolo concedeu o favor. na Antigüidade. a Ciméria e a Tiburtina. Nas Metamorfoses. Portanto. a eritréia (da Ásia Menor . incompletos ou negados. O deus nada fez. Firenze: La Nuova Italia. desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. ―frigia‖ ou ―troiana‖. A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. pela proximidade dessas localizações). 371 Pausânias.NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas). as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último. a caber num vasinho (ampulla). tornou-se cada vez mais velha. 1943. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo). um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. Embora os OrSib sejam. na forma em que os conhecemos. As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371).12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. 14. Dt 23:3-6). que nomeia ―Sabbe‖. O baru era. Balaão (Nm 22:4-5. e que podem mesmo estar associadas. pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna. Como outros cultos ou práticas extáticas. 370 349 . boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. eventualmente. a líbia (lembrando que o termo compreendia. até que por fim restara apenas sua voz. A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nos legou uma Descrição da Grécia na qual. a de Samos.também chamada de ―helespontina‖. Tornara-se tão encarquilhada que passou. 22. como os profetas pré-exílicos. Cf. no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). no livro 10. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. ao baru cananeu370.

186. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. a Sibila . 13:1-5 e o fragmento 8.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais. o uso da mesma figura. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas. mas Deus me anuncia cada coisa.e. 2005. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer.C. The Provenance of the Pseudepigrapha. não pode ser acidental. P. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão. James R. cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a Sibila. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa.único personagem de origem pagã na literatura examinada.i. a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar. 3:1-7. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ . e podem ter sido escritos entre 30 a. Feitas todas essas ressalvas. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens. 11:315-324. as passagens mais importantes são OrSib 2:1. 5:51372. Davila. Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. ou um de teor legalístico a Baruch. 2:340. 372 350 . renovada graças ao Possivelmente uma glosa.C. bem como a natureza prazerosa dessa experiência.): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas. Em termos de preparação visionária. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas. Jewish. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões. e 250 d.

. de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão.. A Sibila indicada.fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia .NEA/UERJ favor divino. que me compele de dentro. Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo. eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. estúpida [que sou]. pode implicar uma camada redacional mais antiga. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens. O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei. quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno). ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar. como 2:340: Ai.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito. e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [. OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia .MULHERES NA ANTIGUIDADE . que tem os querubins como trono. pobre de mim.como em 4Ezra 5:20. ou ―ASC‖ . mas sim do remorso por uma vida mal vivida.C. 351 . que era o de um homem rico. pois meu coração está cansado por dentro. Isso contrasta com outras passagens sibilinas. eu me fechei para os necessitados.e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a. celestial. pecadora e promíscua.―altered state of consciousness‖ .] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖. que trovoas nas alturas.

.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que não desanime deles. David S. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado.. The Method and Message of Jewish Apocalyptic . Philadelphia: The Westminster Press. uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [. e portanto podemos falar de possessão nesse caso. pare agora meu adorável discurso. Mas. mas garanta uma pausa agradável. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura. 374 Epíteto de Deus. uma redação judaica para o trecho. 373 352 . o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária. nesse contexto. 1964.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs).NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. A passagem repete certo número de temas já conhecidos. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito. príncipe374.142 ss. Russell. Mas quando ele se aproximar dos livros. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras. eu. estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos. Pp. que sou amiga íntima de Ísis [. Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata.: Três vezes desgraçada. Assim... Ainda em OrSib 5:52 ss.

novamente para cantar uma palavra grande e incrível. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum. Ecl 3:2 ss. é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. Jr 4:19 ss.ex.). por mais que eu relute. acerca do domínio real.C. Pela franqueza do trecho. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf. pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila].NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d. localizado no Discurso aos santos de Constantino. e deles o tomou de volta. proferindo coisas das quais não se deve rir. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. para a vida e para a morte375. erguida sobre a Terra. O divino Deus também me pressiona muito. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos. retornando ao tema das origens da Sibila. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. 375 376 353 . Por fim. diz ela. Heráclito nos diz que ―A Sibila. ó mestre. p. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas.. Um fragmento do qual sabemos muito pouco. para Deus: ‗Por quê. Ele que deu o poder a reis. a proclamar essas coisas aos reis. E. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja. com voz enlouquecida. sem adornos e sem perfumes.

depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade. Mas aqui.8 dos OrSib). era comum à apocalíptica judaica. 377 378 354 . Feia (por imprudência ou desleixo). a Sibila exibe comportamento semelhante . ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns. a Heráclito.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares). não existindo consenso quanto à sua datação.como no fr. se o faz. judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que. vol. Jr 20:7 é ótimo exemplo. é mediante o recurso à pseudonímia mas este.317-326. como disse no início do texto. portanto.1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quer nos OrSib. As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito. Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. fr. de substratos pagãos a textos puramente cristãos. Collins na edição de Charlesworth dos OTP. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. proveniência ou localização geográfica378). pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila.12. quer nas descrições mais antigas. até o momento carece de investigação mais detalhada. Pp. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras.). negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno). contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus).NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377. por outro lado. um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido . até mesmo a possibilidade de ter permanecido. questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento . ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor. que tal proeza em termos autorais (ou melhor. sem atrativos femininos. Nesse sentido. romanos.independência quanto ao mundo doméstico.

digamos. Studien zur Überlieferung des Neuen Testamentes und seines Textes / Arbeiten zur neutestamentliche Textforschung. Book III of the Sibylline oracles and its Social Setting. Paul J.NEA/UERJ Sibila pode perfeitamente ter sido um personagem feminino que tomou forma literária pelas mãos de homens. the Tiburtine Sibyl in Greek Dress. nos coloca diante do obstáculo definitivo ao tratarmos de um texto e seu autor . New York: Doubleday. The Oracle of Baalbek. ―Ecstatic Prophesy in the Old Testament‖ In: HOLM. por assim dizer. ______. Leiden / New York / Köln: Brill. Washington: Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. John J. ANDRÉ. Walter. Based on Papers read at the Symposium on Religious Ecstasy held at Abo. A pseudepigrafia. Rieuwerd. Nils (ed. 2003. The Old Testament Pseudepigrapha. tal como o temos. Berlin: Walter de Gruyter. MA: Harvard University Press.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Finland. 1983-1985. ―Introduction‖ [aos Oráculos sibilinos] In: CHARLESWORTH. no texto. Sibyls and Sages in Hellenistic-Roman Judaism. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAND. que não são suficientes para que se possa tratá-la como. 1985. Leiden: Brill. 1982. de modo muito semelhante ao dos demais visionários da tradição apocalíptica do judaísmo do Segundo Templo. Greek Religion. 1974. Cambridge.). ―Das Problem der Anonymität und Pseudonymität in der christlichen Literatur der ersten beiden Jahrhunderte‖ In: ALAND. Gunnel. on the 26th-28th of August 1981. ―The place of the Fourth Sybil in the development of the Jewish Sibyllina‖ In: Journal of Jewish Studies 25. 355 . COLLINS. Religious Ecstasy.e essa pessoa. afinal de contas.mas tampouco são irrelevantes para que se deva desconsiderar que. o texto dos OrSib. Stockholm: Almqvist & Wiksell International.). ALEXANDER. Kurt. BUITENWERF. Vol. de quem estamos falando? Do autor ou autores ―reais‖ ou do personagem retratado? Aqui também a Sibila comporta-se. 1997. compõe-se de oráculos sombrios anunciados em primeira pessoa . Seers. 1967.1. (ed.afinal. o visionário de 4Ezra . é uma mulher. ______. 1967. Kurt (ed. mais uma vez. o fato dela ser uma mulher introduz algumas curiosidades no texto. James H.). BURKERT.

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A Man for all Generations. Columbia: University of South Carolina Press.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1995. James C.NEA/UERJ VANDERKAM. 357 . Enoch.

las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. entre las que se encuentran las fuentes escritas. algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas. 379 358 . otras mujeres. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente. no menos excepcionales. da Universidad Nacional Autónoma de México. en sentido similar. pero en las primeras democracias.MULHERES NA ANTIGUIDADE . me refiero a las helenas. Por una extraña paradoja. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. gobernante de Halicarnaso. Dr. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer. De entre las mujeres de la antigüedad. Las fuentes son abundantes. ninguna mujer se adjudicó realmente el poder. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. entre las griegas Artemisia. los Professor de Filosofia Antiga.

cuando menos Aristóteles lo plantea así. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo. Y es que el pueblo. El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES. el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. III i 1275 a 22-24). La constitución de los atenienses. El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. el derecho de apelación al tribunal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense. Luego. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES. Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas. Sea como fuere. 1. al tener control sobre el voto. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. 9). que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios. y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa. Política.

La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES...NEA/UERJ buscado deliberadamente.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN. el hogar u oikos. hija o madre de atenienses. siguiendo el razonamiento de Mossé. Sin embargo.] podría. La constitución de los atenienses. El lugar de las mujeres es el espacio privado. Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean. Menón. hijas. y cuidarse de no sufrir esto él mismo. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO. 2002: 15-16). mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [.] Aste estaría en relación con el derecho de familia. Politis y aste son los femeninos de polites y astos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 . no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa. En Atenas clásica pues. en el diálogo epónimo.. 42).. se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. 71 e). pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. Menón. Si quieres la virtud de la mujer. afirma: [. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres. Las funciones principales de las ciudadanas.. existen ciudadanos y ciudadanas. [.. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar. significar que [Jantipa. esposas y madres de los ciudadanos.

Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos. Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social. Esta doble ciudadanía. ciudadana en tanto que politis y aste. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). Por lo tanto. 2011: 218). De joven discute con filósofos mayores (Parménides). regresa a sus actividades tradicionales. Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. y alternar en el poder corresponde a los varones. El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. Finalmente es ejecutado (Fedón).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología). ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana. Combate en las batallas libradas por su polis. la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖. 2. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). Es recluido en prisión (Critón). y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres. Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates. En lo que respecta a 361 . Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras). como afirma explícitamente Menón. y cuando retorna. 1991: 155) como la política y la judicatura.

perteneció. a diferencia de las otras dos. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 . tanto como a la democracia. Platón. Tzetzes y Valerio Máximo. Suda. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. y procreó con él. Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. enseñó retórica en Atenas. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente. Cirilo. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. la segunda de Mileto y la última de Mantinea. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. Aspasia y Diótima. se afincó en Atenas. Olimpiodoro. Jenofonte. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. Tertuliano. fue mujer de Pericles. Jerónimo. Plutarco. al círculo intelectual ilustrado ateniense.NEA/UERJ las mujeres. Aspasia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sinesio. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. a pesar de ser originaria de Mileto. Cicerón. Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. quien la amó tierna y apasionadamente. Ateneo. Marco Aurelio. según el exhaustivo estudio de Inés Calero. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa. Libanio. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. Diógenes Laercio. Teodoreto. Jantipa. no a Diótima. Estobeo. Sócrates. una politis (CALERO. Galeno. Filopon. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten. 2003: 1516). las otras proceden de poleis diferentes. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. Luciano. Eliano. 3. Temistio. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. incluyen nombres de la talla de Aristipo. Epicteto.

Los discursos privados de Demóstenes. en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. Al vernos. aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia. Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 26 y 33). Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. Fedón.NEA/UERJ [. la Apología.. ‗!Ay. 4. Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres. ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN. El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales. ajena a las actividades en las que sí participa su esposo. narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta..con su hijo en brazos y sentada a su lado. XXIX. 1980: 45). A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él. Sócrates!. esto es. su lugar es el hogar. por ejemplo. corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente. Su discurso Contra Afobo. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. Pero lo importante es que. 60 a-b). Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. y a Jantipa -ya la conoces. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. Sin embargo.

El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN. ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. sufrió. con sujetos bien conocidos. p. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. 249 d). 1994: 85). quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. Trasíbulo o Terames (BREMMER. p. existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS. a pesar de ser originaria de Mileto. David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. al menos en algunas esferas judiciales.MULHERES NA ANTIGUIDADE . algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA. un proceso por impiedad. pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno. 1981. porque vivía de 364 . Menéxeno. como Protágoras y Sócrates. XLI). y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer. pues el mismo Sócrates.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. Plutarco. Y Aspasia de Mileto. 426). sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente. Nicias. protagonista de uno de los diálogos de Platón. Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. frecuentó su casa. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. 1977: 323-330). y de Pericles mismo. Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza. 2010: 39). o al de las ya difuntas (VIAL. 1994. La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. 1985: 48). entre ellos. Lamachus. Jurídicamente.

Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia. Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. 1994: XXIX). Solana afirma [. Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes. XXIV). años antes de unirse con Aspasia.. a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . a través de Pericles. lo confirman muchas fuentes.. sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO.] que Aspasia fue maestra de oratoria. y en particular de Pericles. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey.MULHERES NA ANTIGUIDADE .] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad. le exigiría una capacidad retórica adecuada. Sucintamente. XXIV).. Pericles. como eran poderosos y de autoridad. pero esta milesia. mujer y extranjera en Atenas. a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. Ahora bien. lo cual no es incompatible ni con que. y por medio de ellos. Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos. es indudable que la actividad política del estratego ateniense. y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [.NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO. Pericles. 1994: 84). en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos..

es una ciudadana ateniense. entre otras fuentes posibles. Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. Sucintamente. con actividad política del más alto nivel. Sin embargo. estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. C. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. a partir de los diálogos de Platón. la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. esposa y madre de ciudadanos. Jantipa. una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. labores imprescindibles para la existencia de las poleis. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. 366 . Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos. a. a través de ésta. Sea como fuere. hija. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos. creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

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deusas. feiticeiras ou profetisas. mas. santuários e artefactos arqueológicos escavados. .Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. a partir da cultura material. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade. rainhas. guerreiras. Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram.

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