MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. tanto nos meio formais e/ou informais de atuação. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. ao longo da segunda metade do XX.como as Mulheres na Antiguidade.no meio científico atual . Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos . o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos.ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade.ª Dr. 1 7 . assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação. diante da diversidade de região. Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM.

deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. 8 . por exemplo. por exemplo. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração. podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega. devido a sua escassez. Diante de tal situação. os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. A Arqueologia de Gênero. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas. afastando-se do padrão tradicional. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. como objeto de pesquisa histórica. na historiografia brasileira.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. Nesse sentido. as abordagens que contemplem o tema. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher.

ª Dr. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. a existência de um ―matriarcado original‖. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é. Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. 1995: 15). ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. a fertilidade e a soberania. o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105). são esferas distintas. inclusive. a vida e a proteção da comunidade. sob orientação da Profa. aquela que vive em sociedade. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. Ao contrário. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. desde a Antigüidade até a Idade Média. Titular Dra. 1989: 22-23.NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof. do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. Em verdade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF. Neyde Theml e financiada pela CAPES. EHRENBERG. defendida em Março de 2001. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. 3 Utilizaremos. muitas vezes supondo. apontando-nos sua ligação com a natureza. GREEN. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social. A partir desses mitos. 9 . de forma alguma. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. tais mitos falam-nos das deusas celtas. evidenciando sua vivência em sociedade (cf. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado.ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. em ao longo deste trabalho. Logo.

assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. então. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. Women as focalizers of barbarism in conquest texts. 4 10 . Classical Views. Destacam eles seu caráter e bravura. ser sacerdotisas ou chefes. mas. porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. cavalos. é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos. liderar combates (tal como Boudica que. Paris: CNRS. Devemos. No entanto. eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir).s. seu vigor. que seriam por elas geridos e. as relações de gênero. S. nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes. jóias. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio. sobretudo. Se desejamos ir em busca da mulher celta. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. vasos de cerâmica ou metal. liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas). nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. sendo sacerdotisas. muitas vezes. que nos permitam analisar a posição social dessa mulher.NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. vide SAAVEDRA. independência e poder na sociedade. T. 251). XLIII. Helenos e romanos. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. n. 1995: 15). 137-150. 1985. isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. participando de banquetes e festas. sua participação política na sociedade. porque bárbara4. 18. 1999. porque poderiam elas exercer o poder. 1989: 245.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tais relatos. 59-77. profetizas ou feiticeiras. SAÏD.

contudo. que. Na maior parte dos casos. WITT.. havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. Com efeito. mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. isto é. Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral. como explica ela. a exemplo do torc e do serviço de banquete. Nesse sentido. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio.NEA/UERJ As evidências arqueológicas. pois. que. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. 5 11 . ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo. para alguns. 1996). e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud. sudoeste da Alemanha). leste da França). no primeiro milênio a.C. havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares. não sendo. de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg.tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha. Tal poderia. onde temos o casal enterradoem conjunto. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. indicam. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. formas específicas de sepultamento para homens e mulheres. sempre associados à figura masculina e. identificando-o ante a sociedade. principalmente dos enterramentos. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131. isto é. importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Porém.133). tais itens não eram de uso exclusivo masculino. marcadores de gênero e sim de status.

encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖. três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós).aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois. um kýlix ático com figuras negras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um kýlixcom verniz negro. e diversas jóias entre colares. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. ao invés. contudo. braceletes. no lado esquerdo da câmara. Como vemos na figura abaixo. adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. no norte da Cote-d‘Or. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. Propomo-nos. e uma taça (―phiále‖) de prata. aqui discutir as relações de gênero. Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. uma oenochóe de bronze etrusca. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A). tornozeleiras e fíbulas.Essa tumba. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix. composto de uma cratera de bronze laconiana. 12 . às margens do Sena. as atividades produtivas. a chamada ―dama de Vix‖.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana. Não desejamos.

Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa. posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa.Nessa linha interpretativa. mais recentemente. Fonte: Joffroy. quer com relação ao tamanho.C e início do século V a.Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖.C. consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a. 1958.. seguem também. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário. tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro. torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata. donde. Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix. 2003). os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY. por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes. prancha IV.MULHERES NA ANTIGUIDADE . chicote e argola 13 .

pois que a circulação. pendendo para a direita). por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos. tendo por base o caráter religioso da phiále. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos. interpretamos os rituais. 2003: 325-326. Esses bens. Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix. uma colônia helênica fundada em 600 a. quando expostos nos 6 14 . seriam não somente bens de grande prestígio social. distinguindo-se das ações cotidianas.NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. mas também artigos de uso cerimonial. e à cabeça torcida. do torc e do carro.. Aqui.C. Já os depósitos na tumba. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações. isto é. definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. da cratera. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. em verdade. segundo Gellner (1997). posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio. o poder. De modo semelhante. Milcent (In: ROLLEY. os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. Seguindo essa linha de raciocínio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao defeito na perna que provocaria andar claudicante. como vias de construção de identidade. O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela.

A deposição de um serviço de banquete nesta tumba. por meio dos ritos funerários. nos mitos célticos. e em especial. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio. Miranda Green (1997: 68) considera. O banquete e a hospitalidade eram. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. e que seria similar ao mundo dos vivos. segundo Wait (1995: 490). a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. no caso que ora estudamos. porém. GOSDEN. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. tornava-se necessário reorganizar. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes. à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos. mas sem que houvesse doenças. Em se tratando de depósitos intencionais. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69). não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. 9 Devemos destacar que. 15 . 1985). um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. na primeira Idade do Ferro.NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. envelhecimento ou ruína. marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem tampouco constituiria uma evidência da existência. não representaria traços de um banquete funerário. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe. ao mesmo tempo. um sistema estável de alianças de casamento (cf. não havendo. Com efeito. porém. isto é.

como no 16 . dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11. No caso desta tumba de Vix. da mesma forma. com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf. Por outro lado. mesmo. oferendas. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13.64 m de altura. é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. pagamentos.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens.‖ (KING. que a remontou em Vix (JOFFROY. JOFFROY. Possui ela decoração nas asas. 11 Essa cratera. 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. ofertado – presentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica. DRISCOLL. do tipo com asas em ― volutas‖. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. Trabalharemos. Além disso. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. assim como as alianças intertribais. 1979). pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12. Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos. nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos. Construíam. aqui. que evidenciassem seu status e prestígio e. ao redor do pescoço e na tampa/coador. p. Esse serviço de banquete era composto de importações. seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados. para conter hidromel. dessa forma. SCHEID-TISSINIER. 1988: 227-228). quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro.217). etc. 1979) – para misturar vinho ou. 1994: 167). 208 Kg). possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. simbolizassem o vínculo pessoal. 2004.

―renome‖ e distinção. Um lado do pescoço porta doze imagens. pois. portando sobre a face um elmo coríntio. à posição privilegiada desta mulher. enquanto o outro somente possui onze. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . No braço esquerdo. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. e. assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). que reforçaria seu prestígio. dos demais só podemos divisar algumas partes. e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. na cintura. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita. porém. Exaltava-se. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. Os hóplitas seguiam. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. sua força política. 1998b). em verdade. 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. por um cinto. à frente dos carros. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal. Em verdade. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique. cabelos repartidos no meio e portando um véu. 17 .NEA/UERJ Entendemos. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. ocultando-lhe os braços. 1998a. fixados com rebites sobre o vaso. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. TSETSKHLADZE. para ser exposta no enterramento da chefe. de uma mulher vestida com um péplos fechado. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita.

que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. E ao redor de todos eles. Sobre as imagens de amazonomaquia. TSETSKHLADZE. que. Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. há pseudo-inscrições. temos os guerreiros helenos à esquerda. com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. na mão direita. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas. Eram elas também associadas à prática do banquete. Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. 1998a). As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta).MULHERES NA ANTIGUIDADE . um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. E nos Em ambas as cenas. de alteridade das amazonas. 16 18 . destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. Todavia. o kýlix ático em figuras negras. e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança. protegendo-se com seus escudos e empunhando. Donde. contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade. o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. ver Tyrrell (1984). entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. No enterramento. Devemos. onde eram celebradas as vitórias. uma lança. Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem.NEA/UERJ De forma semelhante. pois. por sua vez. aqui. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16. freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. feitas somente com pontos.

outrossim. aos pés desta. à primeira vista. sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba). pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que atravessava o vale do Tessin.NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. que. casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY. Segundo Joffroy (1979: 77). vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros. possivelmente. na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin). seriam provenientes da região dos Alpes. em Pouan (Aube). no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). como sugere a análise feita por Kimmig (1999). Além desses vasos. Temos. 1979: 76-77). sua posição no enterramento. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina. Entretanto. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. 17 19 . a oenochóe etrusca. Com isso. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). nos faz atentar para a tipologia desta prestação. que teria a mesma finalidade. Esta taça recebeu cuidados especiais. 1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe. assim. os chefes de comunidades dessa região. Quer dizer. como aquela de Hochdorf. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado. havendo. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. 18 A oenochóe etrusca. que tal como a cratera. entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. Logo. tal qual as taças em cerâmica ática. Kimmig. sendo. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. tal como no Marne. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe.

essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. Concluímos. 20 . Por meio deste estudo de caso. Procuramos. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de continuidade dos laços e relações.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. destarte. mesmo. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens. demonstrando. porque as relações. Por conseguinte. retirando-os de circulação e. fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta. mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição. Em outra palavras. pois. tais como os massaliotas. que seus seguidores. na tumba. as comunidades vizinhas e os aliados distantes. mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. igualmente. de bens que simbolizassem esses laços. reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela. enfim. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. quer para o restante da população.

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Lembremos do caso de Neera. 1995: 15). ela foi O Prof. da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). Em Atenas Clássica. Dr. Dependendo do status. Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. custavam vultosas quantias (MOSSÉ. Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. Inicialmente. Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs. que dependendo de seu prestígio. apontado por Demóstenes. a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. geralmente. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade. Desta forma. E além delas.NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí. do VIII ao IV séculos a. 1986: 210). nýmphe. 2001: 61). os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. C. da família e do oîkos. C. donzela/ virgem. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas. Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). 19 26 . recém-casada. A cortesã atuava. este último seria um tipo muito comum no IV século a. podemos identificar os seguintes termos: koré. Dr. jovem. gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. sob a proteção do pai. As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . havia a concentração de prostíbulos (SALLES.

2000: 23). criado de forma oral por volta do VIII século a. Contudo. do canto. devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos. as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY. Como já mencionamos. Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte. 1999: 25). 1988: 42-43. Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé). 1999: 123). O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER. Para compreendermos o papel destes termos.NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. 6. bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. 1997: 37). Além dos termos apontados acima.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os autores mencionam ainda as escravas . KIRK. O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. 27 .doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos. poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. da dança e do ato sexual (LIMA. a guerra é o tema central do poema. Desta maneira. Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere. O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios. o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. A Ilíada é por excelência um poema de guerra. Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem. 21) em seu santuário na Acrocorinto. É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. C.

1999: 45-46). A partir da derrota de uma cidade. Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. 1995: 151). os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas. Contrariamente. Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. ao preço de suas vidas. então. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. Por meio da poesia épica. celebrando os seus grandes feitos.NEA/UERJ tais como: o gado. Cassandra não aceita se entregar à divindade. retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas. são pilhadas. privou-a da persuasão (peithó). enfrentar os perigos e a morte. a princesa Cassandra (Kassándra). 1965: 431). a bacante. ou seja. Hécuba. a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. Podemos perceber. 1990: 105). Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade. humilhado. Todas as riquezas disponíveis. ter o dom de profetizar. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO. rei de Tróia. Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. Apolo. como privilégio honorífico. 1212). Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK. a mênade 28 . ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. 1999: 31). um membro estranho em sua própria comunidade. incluindo as armas dos guerreiros vencidos. preferindo continuar virgem. Como os prêmios dos jogos fúnebres. O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. Agamêmnon. O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. Sua mãe. Entretanto.

como um animal de caça. que me evite esta nova pena. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. As Troianas. com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. Agamêmnon. a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO. seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. chefe da expedição contra Tróia.‖ (EURÍPIDES. 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. Cassandra. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo. 1035). falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe. Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra.1057). junto com Agamêmnon. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO. 955). ao palácio argivo. Todavia. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. Cassandra não consegue ter credibilidade. ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu. Cassandra ainda em posição estática é comparada. Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. Ela foi um géras. II.‖ (EURÍPIDES.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 374). Ilíada. 13. mas a pobre mulher permanece inerte. Agamêmnon. pelo Coro. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia. Antes de entrar no palácio.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. junto ao fogo sagrado. De princesa. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. As Troianas. profetisa e virgem. um presente honorífico. tu que compartilhas os êxtases dos deuses.

Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon].” (ÉSQUILO. parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida. 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. Ao descer do carro. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. ―Ainda não compreendo. (VIRET-BERNAL. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE.morada dos mortos. logo cantar minhas profecias. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. eu acho. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 .NEA/UERJ passando por um estágio de loucura. daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘. Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘. Agamêmnon. mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira. Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos. 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid. 1990: 98). após os enigmas [ainigmáton].MULHERES NA ANTIGUIDADE . As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades . Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe. 1112-1113) Nos versos seguintes. muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas. 1140). A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo. 1990: 128). um nómon ánomon. O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. 1990: 105). ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. quanto dos de Cassandra. o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra.‖ (Ibid.

(ÉSQUILO.NEA/UERJ furiosas vingadoras. Agamêmnon. Entretanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Agamêmnon. DE ROMILLY. Agamêmnon.‖ (ÉSQUILO.‖ (ÉSQUILO. 1309. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). 1995: 12). Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu. um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e. não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente. 200-205). A peça esquiliana mostra. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar. dos filhos desmembrados de Tiestes. 2001: 118) Com o fim de suas profecias. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra.‖ (ÉSQUILO. jurídicos e morais. a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. 1280). Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. as múltiplas facetas de Cassandra. Agamêmnon. mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. justamente. De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. 1038). Agamêmnon. Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. (ZAIDMAN. mesmo hesitando (DE ROMILLY. Agamêmnon. a partir do relato de Ésquilo. 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra. sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba.

HOMÈRE. Trad. II. Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. 1975. Agamemnon. Marie Delcourt-Curvers. talvez o principal. Contudo. Paris: Garnier Frères. 1996: 122). Tome V. Livre VIII. EURIPIDE. Trad. LESKY. Agamêmnon. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. segundo o poeta Ésquilo. Cambridge: Harvard University Press. Paul Mazon. Paris: Les Belles Lettres. uma rival de Clitemnestra. STRABON. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. Paris: Gallimard. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. 1273). E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. Les Troyennes. 1296.Weir Smith. 950). DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. 1962. Trad. 1978. Trad.NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon. 1964. 1995. Loeb Classical Library Vol. ESCHYLE. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. 32 . Paris: Gallimard. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. Géographie. O segundo e. Raoul Baladié. Trad. Iliade. 1274) e chegou.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo. H. Agamemnon. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. Émile Chambry.

VANOYEKE. Paris: Armand Colin. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. A. 1995. (org. Lisboa: Presença. V. 35-37. 601.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne. LIMA. FINLEY. Avignon: Musée Calvet. 1990. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av. THEML. O. LESKY. N. 1998 (1970).C. 1995. C. In: VERNANT. 1965. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego. G. F. A Tragédia Grega. ZAIDMAN. São Paulo: Perspectiva. L. En Grèce Archaïque: Géométrie. 2001. Politique et Société. KIRK. (org. Les Hésitations d‘Agamemnon. Annales. SCHEID-TISSINIER. C. Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. 1995. Cultura Popular em Atenas no V Século a. F. 1996.. Essai sur la Piété en Grèce 33 . Historia. Paris: Éditions du Seuil. A Tragédia Grega. Le Commerce des Dieux: Eusebeia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . LESSA. In: Tragédies Grecques au Fil des Ans. A. In: CAVALIER. Année. C. Rio de Janeiro: Sette Letras. As Realezas em Homero: Géras e Time. (org. 1988 (1965).). DETIENNE. C. 147-155. Paris: Les Belles Lettres.B. mai-juin. J. IRIARTE. A.S. Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique.) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. 2000. Phoînix. 20o. À Athènes. In: MOSSÉ. O Mundo de Ulisses. 1999. M.I.Madrid: Taurus. 1996 (1937). 1.-P. SALLES. ______. J. J. 1986. VIRET-BERNAL. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. 3. 425-441. Cl. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque. de Souza. E.) La Grèce Ancienne. MOSSÉ. Paris: Payot. Les Antiquités Grecques du Musée Calvet. no. Paris: EHESS. M.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY.C. janvier 1997. 1999 (1968). Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ. Brasília: Unb.

) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. 1. UNED. descubierta en el palacio real de Nínive. Assur . La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a.ª Drª. Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. 2007: 188). cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. Madrid. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib .). aprovechando la enfermedad del rey de Elam. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua. dejando al primogénito la antigua Babilonia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . España 34 .. el príncipe Asurnadinsumi. deportados o vendidos como esclavos.C. Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas. fueron llevadas cautivas a Nínive. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. recientemente conquistada. cuyos dioses principales. Y la tomó y arrasó en diciembre del 689. Los escasos supervivientes fueron expulsados. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción. centro del avispero antisirio. esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a. marchó contra Babilonia. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . En aquel momento.NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof. En aquel momento del siglo VIII a. Nabu. sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer.C. ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa. ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. cuya biblioteca. mientras que el núcleo original del reino. quedaba en manos del culto Asurbanipal. C.

esposa de Sargón II. 1973) pl. un princesa de Samaria. tenía aún cinco hijos varones conocidos. la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). Y más aún. 62. Asarhadón. afectado por una grave enfermedad crónica. Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. a la cultural o política. Seibert. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar. o arameo. Pero los hermanos mayores de Asarhadón. tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. era Naqi'a. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. capital y región anexionada por Asiria. en acadioasirio Zakutu. relieve de bronce. desde una influencia religiosa. junto con las diez tribus del norte de Israel. hijos de otras esposas. 35 . Senaquerib. ―La más pura‖. Museo del Louvre (AO 20185). 2. había nacido de su última esposa. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. con su hijo. Naqi'a. no sólo personalmente. foto de I.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio. el más joven de los cuales. cuyo nombre semítico del sur. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre.NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo.

Naqia. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. Asurbanipal. el príncipe Sinandinapli. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. 1987: 140-145). entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor. su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk. Y sin duda los utilizaron. que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . Y dos reinas le ayudaron: Un viva. intelectual y sensible . al norte de Mesopotamia. quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pero partidarios del nuevo príncipe. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. Y debieron ayudarles elementos afines arameos. decididamente antia-sirios. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. que ya había fallecido. ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen. sería para el hijo mayor de Asarhadón. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672. hijo de la reina Ešarra-hammat. Y probabilonio. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. Pero no cabe duda de que no estaban solos. Una curiosa trama. eunucos de la Corte incluidos. oniromancia incluida. Ellas debían tener numerosos partidarios. desde luego. Assur. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. que. Asurbanipal. su propia madre. difícil de cumplir.NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. y la reina-madre. la reina Ešarra-hammat.

Naqi´a era esposa de Sennaquerib. Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así. sino también muerta. 1999: 17. Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur. madre del Asurbanipal. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. y 2 Cron. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. es el de una mujer.6) ). 844/3 BC] y nieta de Omri. Su sucesora. Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). la presencia de estas mujeres arameas. semitas del sur. también llamada Zakutu. sino también económico (MELVELLE. es claramente hebreo (cf. 1987: 140-145).Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina. la lengua de la reina de Sargón II.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4. madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. 22- 37 . en la Corte asiria. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9. Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones. Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) . Ataliā (KAMIL. cuyo nombre significa ―La más pura". 3. en el año 673. Naqia y Essarra-Hamat . La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón.NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. por lo que su papel no solo fue político. Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. 1999: 105-112). 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE.( 2 Reyes 11. la reina Ešarra-hammat. Teepo reconoce (TEEPO. PNA 1/II 433). la reina Naqi'a. que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. Y no solo viva. el mismo nombre en acadio. madre de Ahaziah [c. n. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon.

Ešarra-hammat fue reina de Asiria. deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM.v. ―pura‖). Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. esposa de Asarhadón(680669). Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188. Algo que había sucedido ya con Asarhadón. Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias. en colaboración con sacerdotes. 217). PNA 2/II s. 5). aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. Y el nombre de la reina de TiglathPileser III. magistrados. PNA 2/I s. 1999.v. Naqī‘a).7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. posiblemente.C. actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora . la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE. 915-9.NEA/UERJ 24). y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no. es tan 38 . mi señor].MULHERES NA ANTIGUIDADE . que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta. Yabâ. fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81). lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. 1956: Ass. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal. madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672). (AfO 13 T4). posiblemente en Assur. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r. STRECK. Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER. Iabâ ) o el de Naqia (Aram. ministros y eunucos. sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real. durante cuyo reinado creció la influencia de su madre. No hay referencias a ella durante su vida . Ella construyó un palacio para su hijo. Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia. I. Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645).

. cuando al fin lo hizo. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. todos juntos. apoyada por los dioses Shamash y Adad. Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib. Lo que evidencia su importancia.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r.. no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. pequeños y grandes. pero. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE. a este respecto. SAA 13 77). a pesar de todos sus esfuerzos. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. a los habitantes de Asiria..).MULHERES NA ANTIGUIDADE . TEEPO." 39 . Cuando. 1). y delante de (.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra. sino lo que aquí se trata de comentar. su elección. (mi padre) reunió entonces. su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154). 2005: 37) y numerosos servidores. recayó sobre su hijo más joven. Las dificultades en la Corte parecían evidentes. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia. Asarhadón. SAA 13 76 . interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad. por orden de los dioses (. no sólo en materia de culto. 5. estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'.. que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274). 1999: 105. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. mi padre. para que todos respetaran mi derecho a la sucesión. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre.

Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. su hijo. hepatoscopia incluída. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima. Assarhadón. prebendas y riquezas. según el Antiguo Testamento. Sin perder por ello el título de príncipe heredero. estaba algo irritado. que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat". Que a la hora de elegir al heredero. El día 18 de Sivan. C. era el de la fallecida reina de 40 . con lo que se le acusó de traidor a su patria. "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc.. la reina aramea Naqia. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes." 132Cr 32:21. Aunque esta vez.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e incluso su padre. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico. su dios. 38. perdidas a causa de los invasores tierras. a fin de desacreditarle y atemorizarle. "El día 20 de Tebet. más allá de Khanigalbat. a la ayuda de sus partidarios. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. debió alejarse entonces de Nínive. Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón. Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. recurriendo a la aparición de un fantasma. Senaquerib. esta vez de Asarhadón. en cuya elección debió influir notablemente su madre. que para Parpola. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. debió recurrir.NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. podían ser indestructibles. buscando refugio en algún lugar desconocido. una vez más. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. Isa 37:37. llamada en acadio Zaqutu. ascendió al trono.

una vez más. Algo que su heredero tuvo que justificar. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. El reinado de Asurbanipal. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal.. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. que su hijo pequeño le sucediese. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. cuya muerte debía ser muy reciente. PARPOLA. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto). el premio por honrar la memoria de su madre. madre del príncipe Asurbanipal.. que había ordenado quien sabe si a su esposo. Tal vez. lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estaba así sancionado por el fantasma de su madre. la ciudad del dios Sin. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. la fallecida madre del príncipe. NATCP. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. El Príncipe recibe así. el mismo año que su otro hijo. Ešarra-hammat. 7. 1993). Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte. como en su caso.C. porque no debía estar la situación muy clara. y que la piedad del príncipe para con su madre muert. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. intelectual experto en adivinación por aceite. 6. nuevamente. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan. cuando exigió a la 41 . es decir.NEA/UERJ Asarhaddon. entre otras disciplina adivinatorias. se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño. tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. el hijo menor del rey. como había sido su propio caso.C. que tal vez la añorase ahora . aunque ella hubiese desaparecido. preocupado sin duda. a fines del año 669 a. El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. a la vuelta de una expedición a Egipto. su fantasma.

a la coacción. con su madre.MULHERES NA ANTIGUIDADE . jefe de la casa del rey y el harén real. principalmente en el harén. ritual y oficial de la reina fallecida. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón. que la joven llegase al lecho de su hijo. un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8). Así púes. a veces el rey podía alejarla de la Corte. Y además.NEA/UERJ familia real. ocupó la vacante política. a la magia. y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos.) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. A la muerte de Ešarra-hammat. El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder. como hizo en Judá el rey Asa. que ayudada por el profeta Natan el profeta. Pero el fantasma vendría en su ayuda. 8. aunque si su poder crecía. era la que había permitido.. la esposa preferida de David. Para ello hizo intervenir también a los dioses. conservárselo. bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. la reina Maaca. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . Según Melville. llamada Adonías. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. Ella. 2009: 170). La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a. gobernando entre 913 y 873 a. Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. la aristocracia y la nación asiria. al juramento. madre de Asarhadón. su suegra Naqi´a.92. como madre del nuevo rey. sin duda. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. C. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea. como en el caso de de Betsabé .

MULHERES NA ANTIGUIDADE .) Esposa de Senaquerib (h. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h. 1999: 29. ni tramarán para asesinarle. TEEPO.) ―Tratado de Zakutu. exorcistas y profetas. los prenderás y matarás y les 43 . un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio.C. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE. venga a informar a Zakutu. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. eunucos. si lo oyes y lo conoces. rey de Asiria.710 a. como en el caso de Natán. lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey. C. no se rebelará contra su señor Asurbanipal.700 a. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera.) Madre de Asarhadón (h. rey de Asiria. que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado.NEA/UERJ que conocemos. 2005: 36) . 670 a. su madre y a su señor Asurbanipal. reina de Senaquerib. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey. rey del Asiria. referente a su nieto preferido Asurbanipal.C. 670 a. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal. pitonisas.) Abuela de Asurbanipal (h. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él. rey del Asiria. brujas. Quieran Ashur. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal. rey del Asiria.C. madre de Asarhadón. Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera.

PS . part . 1997. tu señor‖. The Basis of Israelite Marriage.‖. 2000. ______. I. 1978. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. part II. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. volume 3. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. part . Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. Religions in the Graeco-Roman World 138. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. por suerte para la posteridad. 1999.C. BURROWS. 2001. hasta un fantasma era bien recibido. Z. (ed. New Haven: Yale.MULHERES NA ANTIGUIDADE . H. Gender and representation in Mesopotamia.‖ WO 28. ______. volume 2. magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. ______. L.). Para ello. H-K. OrNS 47. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 2001.). Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 44 . BAKER. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. (ed.NEA/UERJ traerás a Zakutu. The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. ______. L-N. M. 96-116. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. volume 2. Una vez más. London and New York: Routledge. Leiden. American Oriental Series 15. ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra. 74-90. Women of Babylon.I. de las autoridades asirias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI. 2002. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. rey de Asiria. a cuya elección había contribuido sin duda. 1938. su madre y a Asurbanipal. DIRVEN.

1983. ―Inscriptions on Objects from Yaba's Tomb in Nimrud‖. Commentary and appendices. 1988. In: DAMERJI . Helsinki 2009. 45 . PARPOLA. Vol. Helsinki: The Neo-Assyrian text Corpus project. J. The Role of Naqia/Zakutu in Sargonid Politics. Alter Orient und Altes Testament 5/2. (ed. 139167. P. and Scholars. Published By The Finnish Oriental Society 106. (1982): ―Importance et rôle des Araméens dans l'administration del l'empire assyrien‖. J. Ancient Records of Assyria and Babylonia.). ―The Queen in Public: Royal Women in Neo-Assyrian Art‖. ― Syria-Palestine under Achemenid Rule‖. The Cambridge Ancient History. R. 1982. 437-447.. Part II. Kamil. J. S. 2002.175-181. 1999. Sex and Gender in the Ancient Near East. Jahrbuch des Römisch . Renger. Studia Orientalia. 2. 200-201. SINGLETARY. In Prosecký. S. T. Prague: Academy of Sciences of the Czech Republic Oriental Institute. 167-177 ORNAN. vol. S. Mainz. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag. WHITING. GARELLI. Proceedings of the XLVII e Rencontre Assyriologique Internationale. Politische und kulturelle Wechselbeziehungen im Alten Vorderasien vom 4. vol 2. 4. bis 1. Saana Svärd and Raija Mattila. M.). In: PARPOLA. (eds. MELVILLE. ______.). CRRAI 25 = Berliner Beiträge zum Vorderen Orient 1.). Edited by Mikko Luukko. PNA 1/II 433 LUCKENBILL.NEA/UERJ ______. Trees. Helsinki: Neo-Assyrian Text Corpus Project. J. NOVOTNY. Kevelaer: Verlag Butzon und Bercker. Intellectual Life of the Ancient Near East: Papers Presented at the 43 rd Rencontre assyriologique international.. M.germanischen Zentralmuseums 45. (ed. State Archives of Assyria Studies 9. In: Neo-Assyrian and Related Studies in Honour of Simo Parpola. 13-18. Of God(s).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Second Edition. D. Gräber assyrischer Königinnen aus Nimrud. In: BOARDMAN. de. (ed. In: JAHRTAUSEND V. ―Les Dames de l‘empire assyrien‖. Nissen and J. Letters from Assyrian scholars to the Kings Esarhaddon and Assurbanipal. A. pp. Mesopotamien und seine Nachbarn. ―Family Ties: Assurbanipal‘s Family Revisited‖. 1927. Kings. 1999. 1998. Helsinki .

2004. 1987.43. ―The Neo-Assyrian word for ‗queen‘‖. 1997. (ed. RADNER. Women and their agency in the Neo-assyrian empire. 4. volume 1. Marriage and Family Life in Ugaritic Literature.). Nuzi Real Estate Transactions. B-G. 34. 1954.). 46 . 1974. Reade. SAA 9. 2. Tesis Doctoral. STEELE. ______. Queens household. A. PEDERSÉN. London. SAAB II/2. 73-76. Assyrian Prophecies. American Oriental Series 25.). SEIBERT. -Id. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. The Correspondence of Sargon II. (ed. VÁZQUEZ HOYS. 2005. SELMS. K.NEA/UERJ ______. part II. A. Madrid: Editorial Sanz y Torres.-M.). A. (ed. I. Helsinki: Helsinki University Press.).. 1999a. . Historia del Mundo Antiguo (Próximo Oriente y Egipto). ______.2. RADNER. SAA 10. pp. 4. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 1998. (ed. 4. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis. part I. ______. 5522. Paris: Editions Recherche sur les Civilisations. no. 1943 TEPPO. O. 18. J. Hesinki. Leipzig. 4. Leiden 2002. Part I: Letters from Assyria and the West. devoted to the theme “Ethnicity in Ancient Mesopotamia”. Helsinki: Helsinki University Press.). S. Assirian Royal Women. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. SAA 1. ―Was Sennacherib a Feminist?‖. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. K. J. Helsinki: Helsinki University Press. La Femme dans le Proche-Orient Antique: XXXIIIe Rencontre Assyriologique Internationale. Woman in the Ancient Near East.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1993. 2007. 1987. Archives and Libraries in the city of Assur. 1988. volume 1. Pretoria Oriental Series 1. In: DURAND. ______. 1986. (ed. Studia Semitica Upsaliensia 8. R. New Haven. ―National and Ethnic Identity in the Neo-Assyrian Empire and Assyrian Identity in Post-Empire Times― In: 48th Rencontre Assyriologique Internationale. van. Vol. Journal of Assyrian Academic Studies.34. pp. F.3 Daughters of kings and other royal women.1 Queen‘s . Letters from Assyrian and Babylonian Scholars. (ed. Mª. 40 .

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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1990). ainda que a contragosto. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos. porém. como tudo quanto/ me aconteceu.. estão. irmã de Teoclimeno. Teonoe. na vida religiosa da cidade. no entanto integradas. as Panateneias e também as Tesmofórias. pois. e que a beleza/ cedesse em meu semblante. (FARIA. A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade. ou grega ou bárbara.MULHERES NA ANTIGUIDADE . porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias.NEA/UERJ Menelau. não admira o estratagema de Helena. a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução. Seguindo a ordem dos deuses. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(. Helena. pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. havia um par de opostos. do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. Minha vida/ é maravilha.) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. ambigüidade de caráter. está sendo representada por um ateniense . especialmente./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno. por diversas formas. silenciosa. com quem tem uma filha.que baseia-se na exemplaridade doméstica. como/ as cores da pintura. vs. Helena é ardilosa. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem./ de que houvesse nascido um ovo branco. . A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. a boa esposa. astuciosa. segundo Andrade (2010: 117). Entre as próprias mulheres. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça.349 a 359). acumulava ambas as características. No entanto. Helena. rei do Egito após a morte de Proteu. a astúcia. alimenta contra os gregos.apesar de ser uma espartana. sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. emoção. Enquadra-se. 2007: 211-212).. do marido daquela que deseja esposar. a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura. Hermíone. parte dela o plano de salvação de ambos. sendo a mélissa. á fealdade! (EURIPIDES. portanto. no estatuto da mulher ateniense. 54 .

sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica. porém. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro. a esposa por excelência. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem.C. vs. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste. e mesmo a mélissa.NEA/UERJ irmão. Teoclimeno. como as concubinas ou palákinas. a que está em Tróia com Páris. Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. há uma outra Helena. eidolon. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes. e que Hera.. jamais de uma mesma mulher. encaminha para o Egito. a mélissa. espécie de fantasma. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. permanecendo. Nosso olhar volta-se assim. para a esposa legítima do cidadão ateniense. da infidelidade. presente na bibliografia. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. primeiramente.C. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a. Proteu. lutando contra um só pretendente.1329 a 1309) No entanto. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. Enquanto a outra. Portanto. É o protótipo da mulher fiel. Helena. Ali ela espera o tempo passar.. as hetairas. Porém. Digamos que há uma Helena que é Helena. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. 26 55 . na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. as pornaí e as escravas. para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. da ruptura de contrato. Helena é Penélope. que o desposa e permanece com ele até ser resgatada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo ainda possível. (EURIPIDES. contudo. Bustamante. obviamente. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a.

em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário. vs. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. intenção. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. Helena. Helena é uma rainha. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus. princesas. rainha de Esparta. como dissemos anteriormente./ do fardo de uma multidão inútil. No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. o ponto focal do conflito.C. 56 . que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes.. a terra. sua atuação está limitada. tanto no espaço público quanto no privado. portanto. para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica. estruturas próprias (VERNANT. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente. ou seja. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. Tragédias não são mitos. possuem sentido. que se destacavam no campo político. Segunda a autora.50 a 54). VIDAL-NAQUET. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra. entre outras notáveis. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia. Helena. mas não a vemos destacar-se no campo político.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres. (EURIPIDES. ao espaço de atuação de uma boa esposa.MULHERES NA ANTIGUIDADE ./ para livrar a nossa mãe. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. Menelau lá governa por haver se casado com ela. é.

Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário. a graça. a manifestação de características típicas das mulheres. ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. a mentira. A primeira diz que 57 . com o auxílio de todos os outros deuses. ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . o ardil. A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos. Foi criada por Hefesto e Atena. criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. um duplo seu. (VERNANT. num mito hesiódico. a primeira mulher. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza. Pandora é. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade. temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. e Zeus destinou-a à punição da raça humana. Pois. foi levado por Páris a Tróia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e posteriormente retomado por Menelau. ignorado do agente. 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal.NEA/UERJ Na tragédia Helena. a capacidade de persuadir e outras qualidades. 1999: 23). à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. por ordem de Zeus. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. primeira mulher. sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. a destreza manual. VIDAL-NAQUET.

uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite. presença física.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mudando constantemente de sentimentos. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade. Ao comparar a mulher e os animais. a ―real‖. De qualquer maneira. pois esta é ainda mulher e. feito de éter.. Ainda que este seja o transgressor. a mélissa.C. consequentemente. uma comia as carnes consagradas. o causador da guerra. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. Uma gostava da sujeira. Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense. uma falava demais.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas. Desta forma. assim como a água altera sua forma. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. a lista de deficiências é imensa. no século VII a. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. Esta é a Eva da Atenas do século V a. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra. 27 58 .. e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. a outra se banhava em excesso.C. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha. a outra não trabalhava. a outra era ardilosa e astuta. o infiel. a outra era dissimulada. carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides. uma roubava. segundo o recipiente em que é colocada. de Amorgos.C.

ainda que não o seja em carne e osso. e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. vemos a sua volta para casa. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. vaidosa. mentirosa. enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. sendo. Até porque. sua imortalização quando Apolo. Recatada. inevitável que este a possuísse. 2006: 119). Nesta tragédia. Não fosse o estratagema de Hera. é acima de tudo. como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. Orestes. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . abandonou-o para seguir a Páris. vs..NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis. a tragédia não é dissociada do espaço político. (EURIPIDES. a salva de ser assassinada por Orestes.. 2007: 91-92). Helena está junto das cativas. assim deveria ser a esposa ideal. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade. ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. há um clima geral de rancor contra Helena. Em As Troianas. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. a personagem recebeu um tratamento mais duro. 1638 a 1642). a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. É descrita como fútil. portanto. 28 59 . o reencontro com a filha. uma vez que. que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. e por fim. ―mas. querendo ou não. O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. portanto. que traiu o marido. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. Porém. Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. inclusive a rainha Hécuba. tornando-se mais superficial. nem determinada como em Helena. silenciosa e discreta. mas não é vista como uma igual por estas. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio. tornando-a protetora dos navegantes. ―Não é tão arguta como em Troianas. a pedido de Zeus. Em Orestes.

Eurípides ao apresentar mulheres fortes. Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. o imaginário. acerca destas mulheres. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. do imaginário29 ateniense do século V a. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. Macária)‖ (FARIA. representadas obviamente por atores masculinos. nos permite reconhecer. traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou.C. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. de modo que.NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. prudentes em cumprir suas funções. 2006: 83). ativas. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. A relação entre a memória. a tradição e as representações sociais. são ao contrário. rebeldes. Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. possíveis. concede voz. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público. vias diversas. pois Eurípides coloca no palco. vingativas. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. espectadores. Fedra. mais provavelmente. (Estenóbeia. que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. determinadas. comedidas. culturais. O tragediógrafo trás a público. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. e ―apresenta tanto heroínas depravadas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2007: 49). motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário. Ifigênia. ainda que nas entrelinhas. que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. assim. políticas. 29 60 . Muito. aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas.

Tradução de José Eduardo do Prado Kelly.de S.M. Sendo. R. Helena.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. Rio de Janeiro: Agir. Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. como Medéia. Ainda que. 2010. como dito anteriormente. como observado anteriormente. Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica. a música. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a novela – entendida no sentido televisivo . de caráter fraco.P: Labeca – MAE/USP. dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. 61 . de forma geral. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial. até a atualidade.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense. o tempo do princípio (2001: 11). como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável. das origens de tudo o que se conhece e que. os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial. o cinema. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se. sempre tendenciosa à mentira e à traição. 2005. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. S. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. consequentemente.) Memória e Festa. da C. sigamos então com Helena. LESSA. F. a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas. configuram neste sentido. povoa a literatura.M. 1986.. BUSTAMANTE. Rio de Janeiro: Mauad. novamente. Mas. por exemplo. Helena. ao ser reinterpretada pelo teatro. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. possivelmente traído por uma de suas esposas. Segundo Mircea Eliade. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES.(Orgs. M.

O Imaginário.) La Grèce au Féminin. R. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. M. M. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero. FERREIRA. THEML. História & Gênero. 1991. Rio de Janeiro: Zahar. CAMPBELL.. (Orgs. M. 2005. Madrid: Akal. A tragédia grega. GONÇALVES. O poder do Mito. FARIA.C. 1992. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. DOWDEN. Paris: Lês Belles Lettres. 2006. José R. 2000. ELIADE. Mito e Realidade. 2006. Sp: Papirus. FINLEY. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Associação Palas Athena.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. 2000. 2007. J. R. CHARTIER. (Org.L. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense. São Paulo: Perspectiva. A História Cultural. I. 1997. M. Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher. de M.. NÓLIBOS. Gênero em Debate. 1998. de S. Ken. Belo Horizonte: Autêntica. A invenção da mitologia. S. Paulina T. David. F. P. LESSA. 1990. SOIHET. GRIMAL.C. Betty Sue (Org. 2010. 1999.U. Moses.L. 62 . FERREIRA. Pierre. da C.. VERNANT. R. 1998. São Paulo: Perspectiva. 2003. Labirintos do Mito.. LOWENTHAL.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lisboa: Edições 70. ______. 2003. VIDAL-NAQUET.). A Grécia Antiga. Z. Rio de Janeiro: Mauad. São Paulo: Alameda. Campinas. A.P. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a.. 1994. CARDOSO. Entre práticas e representações. A. Brasilia: Jose Olympio: UnB. LESKY. MATOS. Entre o Sagrado e o Profano. LORAUX. DURAND. 2009. R.S. Porto Alegre: UFRGS. Os usos da mitologia grega.M.). Rio de Janeiro. SAMARA. Aspectos da Antiguidade. Nicole (Org.. 2001. El Pasado es un Pais Exraño.. Rio de Janeiro: Bertrand. J. São Paulo: Perspectiva. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. 1990. São Paulo: EDUC. São Paulo: Martins Fontes. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. DETIENNE. K. Goiânia: UFG. E. Albin. 2004. J. A. DUARTE. Rio de Janeiro: DIFEL. 1998. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. FLOWERS. ______. Coimbra: F.NEA/UERJ BUSTAMANTE. G.

T. quanto por meio de formas de exclusão social ‖. que és pura. no caso específico da sociedade romana antiga.. nas artes etc. familiar.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. A perspectiva dos Estudos Culturais. na sociologia.. Petrópolis: Vozes. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História. WOODWARD. têm sua base no complexo sistema religioso romano31.NEA/UERJ MAGNA MATER. In: SILVA. Se me fores contrária. negam-no. Deusa. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história. Fasti. E desatadas pelos ombros as tranças. se inocente sou. . eu. Nas últimas décadas. ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. político etc. Sou inocente.ª Dr. Ó tu. 30 63 . Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. que um teu prodígio O comprove e me salve. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.) Identidade e Diferença. Woodward. E meu contrato por piedade aceita. delineando suas imagens e seus corpos. sejam individuais ou coletivas e. 2008:40. (org. de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. Sinal é que a mereço. na antropologia. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. decide. os ordenamentos jurídico. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. K. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .T. aceito a morte. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. CLAUDIA QUINTA. ouve meus rogos. ensinando-lhes seus lugares. IV). 31 Segundo K.

The Blackwell Publishing Ltd. designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. 2008:40. T. portanto. (edd. pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões.).E.) 32. de poder. interwoven frameworks. A Companion to Gender History. 32 KING. ser aceita como norma por mulheres e homens. Religion and Gender: Embedded patterns. T.. Petrópolis: Vozes. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença.. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação.A. (org. M. veiculando normas e valores. In: MEDDE. segundo Ursula King. 73. cit. K.. universalmente33.NEA/UERJ mundo. WIESNER-HANKS. 64 . e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais. 33 KING. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (. termo que. e que deveria. religiões criaram e legitimaram os gêneros.. 2004: 71. A sociedade romana era androcêntrica.. op. existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível. Religião e gênero não são apenas análogos. In: SILVA.) Identidade e Diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. reforçaram-nos (. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX. WOODWARD.. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. quanto por meio de formas de exclusão social‖.).. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples.). U.T. de autoridade.

G. ―impedimento‖ que. Em linhas gerais. A. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas. Particularmente no caso dos mitos romanos. N. BELTRÃO. criou-se um consenso de que. A Religião na urbs. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. após o fim da monarquia. (org.(orgs. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço. In: MENDES.MULHERES NA ANTIGUIDADE . C. TACLA. 1. tem sua tradução e expressão no plano religioso34.. E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político. nos traz problemas suplementares.) Repensando o Império Romano. C. C. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos.NEA/UERJ ou vícios passados. a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia. quando lidamos com um mito. SILVA. Rio de Janeiro: Mauad X.V. pela proibição ou pelo temor reverencial. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. B. Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF). De fato. que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. no mínimo. 2006. A cf. e tudo o que seria (para nós) político. Cadernos do CEIA. se expressa como ―escrúpulo‖. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35. Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖.. In: LIMA. C.) Experiências Politeístas. 34 65 . 2008. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. redutora. grosso modo.M. numa visão hipercrítica moderna. Há muito que avaliar.cf. ainda comum entre os próprios antiquistas. e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo. BELTRÃO. Os atos rituais romanos são. Ano I. se não equivocada. os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito. na sociedade romana. A. Considerando que não houve. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. no. percebemos que esta visão moderna é.

Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖. Os mitos femininos romanos são. assim como nenhum gênero. ver. portanto. somos herdeiros sob muitos aspectos. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana. identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina. ou mesmo da sociedade como um todo. Nenhuma religião. vistos como falhas do grupo familiar. em suma. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sociedade e instituições são. eram modelos de vícios fundamentais. E. ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). na essência. narrativas que podemos considerar político-religiosas. 36 66 . censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖. estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. criado por T.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade. termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. por exemplo. queiramos ou não. o ideal romano da castidade feminina. é uma categoria de análise estável e a-histórica. Religião. nas mentes das gerações que os ouviam. como os papeis sociais de gênero. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia. e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. Lívio ( AUC XXXIV. 1-8). veiculando e instituindo recorrentemente. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . A acusação radicava. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. ancestral de Clodio. ou Claudia Metelli38.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos. nem progenitores como eu. em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis. o caso das Bacchanalia. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. à época casada com Cecílio Metelo. já que nossas imagines viris não a comovem. o filósofo. Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia. Do mesmo modo. Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. Clodia escrevia poesias em grego.C. 14. assumindo o papel de Ápio Claudio. Cícero. nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. também relato por Lívio. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição).. em 186 a. ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia.)? (Cícero. que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (. a principal testemunha de acusação. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino. reprovando a irmã do tribuno. A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. investindo contra P. 37 M. concretamente. Clodia era a principal testemunha de acusação. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. um modelo para a matrona. em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino. 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus). sendo considerada 67 . Cael. o Censor. Clodia Pulchra.. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana.. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. Clodia Metelli. Clodio Pulcher. cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. M. pontuado por elementos teatrais.34). assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta.

C. um mito político-religioso em Roma. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. Atacando a Clodia.univlille3. que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. Os irmãos Clodios.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia.htm 68 . Dictynna 4. Disponível em: http://www. the Megalenses and the Defense of Caelius. Colóquios . 40 cf. União da Vitória: FAFIUV. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. à bebida. SALZMAN. v. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. a partir de então. e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela.revistamirabilia. com seu comportamento ―imoral‖. R. 1: 56-62. sua antepassada. W. é Claudia Quinta. um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero. 2007. M. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias. matrona que se tornará.revue. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. Clodia foi casada com seu primo. como Cícero e Catão o Jovem. Q. Cícero.pdf. Mirabilia 3 (2003). A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. dedicados somente ao prazer. BELTRÃO. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. AJP 103 (1982): 299-304. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. LEACH. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. membros da mais alta nobreza romana. O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios. E. Cícero investia contra seu principal desafeto da época.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. 2007. Um mês depois do Pro Caelio. como nobres degenerados. Disponível em: http://dictynna. C. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. 39 cf. Cecílio Metelo Celer. o nome da gens Claudia. O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. BELTRÃO.com/Numeros/Num3/artigos/art2.NEA/UERJ por desonrar. Ciências e Letras (FAFIUV).

que tem como primeiro dever mantê-los. XIII. cumprido com os deveres de seu ofício. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41.C. aceita em No mesmo discurso. novamente uma referência aos Ludi Megalenses. merecendo a menção de Cícero no discurso. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia]. quando edil curul. 27). pela supervisão dos Jogos. um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. nem teu próprio sacerdócio. censura a Clodio por não ter. A data do discurso é significativa. em honra da Magna Mater. A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). sobre o qual repousa.. cuja antiga austeridade era. incluindo mimos (os ludi Megalenses). ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma. O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a. riacho perto de Roma. P. o banho ritual da deusa no Almo. com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. no início dos Ludi Megalenses. Claudia. Os edis eram responsáveis. nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados. No De haruspicum responsis. e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril. Q.NEA/UERJ Foi então. Outro rito era a lauatio. Jogos realizados durante o festival das Megalensia. na passagem. 41 69 . dentre outras. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. pensamos. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas. resp. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Cibele. nem a edilidade curul42. e Cícero. Cibele43. Cipião. Desse modo.

C. quando os quindecimuiri sacris faciundis. um modelo de castidade. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. 46 cf.C. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício. com seu apelo tradicional à fides. bem como. O argumento de Cícero era. portanto. declararam que as divindades romanas. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família. The Classical Journal 96. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. Um novo incêndio no templo. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. então. também deixou a estátua ilesa. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos.2 (2000-01): 141-162. 44 70 . para Cícero. consultados pelo Senado. em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal. um modelo de emulação para mulheres romanas. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia. conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45. Cícero utiliza. escapara a um incêndio no templo. LEEN. radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46. Em geral. 1. 45 Esta estátua. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas.8. provavelmente. No seio do embate contra os Clodios. que não chegou até nós. fortíssimo. Claudia Quinta é. e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. A. sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater.11).MULHERES NA ANTIGUIDADE . desta feita em 3 a. ocorrido em 111 a. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio. para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal.. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖.

). centros agrícolas na Campânia. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo. Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. C). Roma. As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. como a tradição registra. agora. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater. cidades etruscas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. levando Cartago a aceitar um tratado de paz.C. e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. agravado pelo contato. além de comunidades pastoris nos Apeninos.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. agora direto. XXIX. com Cartago47. cidade fundada pelos fenícios no século IX a. Roma ocupou também a Sardenha. 9). Roma era. Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. E a II Guerra Cartago. mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago. Após vencer a I Guerra Púnica. 14. senhora da Itália. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização. 47 71 . Lívio. Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília.C.). Nosso contexto. que jamais enfrentara um combate naval. A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. da Sardenha e da Córsega (237 a. As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. Aproveitando as dificuldades de Cartago. precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília. ilha situada entre Roma e Cartago. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. no norte da África. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais. agora.C.C.

por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. então. trouxe grandes dificuldades para Roma48. Em 209 a.C.C. Finalmente.NEA/UERJ Púnica. sendo destinados a estimular.). manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖. na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões.. a guerra de Aníbal (218-201). 48 72 . que incluía seus temíveis elefantes. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. com seus arsenais e minas de prata. A derrota romana em Cannae (216 a.C. de um festival. perto de Cartago. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a. recuperou Tarento e Cartagena. Aníbal.. A partir de 215 a. causando graves problemas sociais na Itália. verdadeiros tanques de guerra. a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses. op cit. respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. chegando a atravessar os Alpes.. que nunca tinham visto um elefante. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal. seguiu-se uma guerra de desgaste. A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. enfraquecendo o poder da urbs. ficaram apavorados. 49 Segundo Durkheim.C. segundo a tradição. abandonando a península itálica. que se instalou em Cápua. p. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão. recomendado o culto de Cibele aos romanos. A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas. foi um marco. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês.C. Derrotados em Zama. Os itálicos. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade. Durkheim apud WOODWARD.. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem. Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó. o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica. se dirigiu para a Itália meridional. 41. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas. Só em 211 a. invadindo a Itália pelo noroeste.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. ―a religião é algo eminentemente social.. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa.

a Magna Mater chegou a Óstia em 204. 52 GRUEN. Por sua vez.) Repensando o Império Romano. os efésios. Pela documentação percebemos que. O favor divino. Tácito. p. SILVA. A Religião na urbs.M. sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana. em 191 a. sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké.. 3. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. sendo recebida por P. 53 BELTRÃO.. Studies in Greek Culture and Roman Policy. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: .(orgs. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden. 50 73 . cit. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos.C. 2006:146. líder das matronas romanas. op. N. 51 GRUEN. ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade.1).V. In: MENDES. G.. quando chegou a Roma. C. P. 27. Cipião Nasica e por Claudia Quinta. Ann. Rio de Janeiro: Mauad X. No mesmo momento. poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano. a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais. simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. no Palatino. 1990. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖. S. os galli. Segundo Erick Gruen51.61.. E. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53.NEA/UERJ pleiteantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes.

Dion.v. Ant. a mítica predecessora de Roma56. Este termo enfatiza a integração. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns. Italia y Roma desde una perspectiva legendária. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. a extensa Alba. existentes desde o período do Bronze. Então. Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. fundaria Alba Longa. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. suas vestes e penteados femininos. inaceitável para a tradição romana. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. 43. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. – Pisa: Edizioni ETS. ou neto.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. ver os Fasti 4. J.P. podem explicar a cidade mítica. G. derivado de interpres. Rom. Hal. a introdução do culto era uma inovação dramática. de certo modo. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana. se o culto era novo e. Wiseman. Ver. Mas o termo 54 55 74 . Cividale del Friuli. 1988. simultaneamente. T. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia. MARTINEZ-PINNA. tb. e. interpres). Ovídio. I Latini e gli altri popoli del Lazio. Desse modo. In: Itália Omnium Terrarum Alumna. e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. 2. Milano: Scwegwiler. Fasti 4.g. Virgil and Augustus‖.19.S. 57 Interpretatio. cf.I. ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. 2008: 9-26. uma montanha próxima de Tróia55. sua autodenominação. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa. COLONNA.247-72 de Ovídio. cf. reunindo os povos latinos. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado. s. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. ―Cybele. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. e é certamente preferível a sincretismo. as aldeias dos Montes Albanos. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. onde seu filho.NEA/UERJ cuidadosamente controlados.3). celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso. E. como o festival do Latiar. além de ter sido domesticada como Magna Mater. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas.

58 Gruen. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas. por fim.. e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖. por mais brava que seja. op..) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. Ressalte-se sua instalação no Palatino. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística. em seu poema político-filosófico De rerum natura. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial. 75 . provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. então. cit. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio. Gruen chama. E é ainda com essas também tem seus limites. como sustenta Gruen. e sua interpretatio. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. A urbs estava unida por seus mais destacados membros. a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões. chocavam-se politicamente com frequência. à época da II Guerra Púnica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao mesmo tempo. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma. e o estudo de inovações religiosas. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs.NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58.. p. 26.

à volta. silenciosa. RN.. que lhe faz dizer ―.. Vários povos. homens armados acompanham a grande mãe. Apesar de seu ceticismo epicurista. no entanto.. revela-nos que Cibele. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros. levada através da cidade. (.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras. Por isso.) Tocam tambores tensos. (. as tubas cantam roucas suas ameaças.). tudo isso. 600-642). os fieis.. apesar da interpretatio. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. Juntaram-lhe eunucos. e. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59. sempre foi 59 76 .. II.. anda muito longe da verdade‖ (RN.MULHERES NA ANTIGUIDADE ..) Logo que. pulam em cadência. e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio.. alegres como sangue (. 643-44). Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia. porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham. no meio de um respeitoso temor. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal. segundo os antigos costumes sagrados. com generosa oferta. as mãos fazem soar. II. Grupos armados (.. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. No festival da Magna Mater. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor.) vão lutando entre si. beneficia os mortais com sua calada proteção. côncavos címbalos.. segundo dizem. apesar de tão belo e tão bem imaginado. chamaram-lhe Mãe do Ida.

como a tradição registra. e Jogos. até Roma. e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. 1996: 28-74. Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino. entregá-la às matronas para ser levada.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril.5-14). no Palatino. XXIX. p. e houve um lectisternium.. e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus. após ser retirada com segurança. 1. Dentre elas.g. 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus..) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória. de uma a outra sem falhas. cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle. As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão. em TURCAN..). Oxford: The Blackwell Publishing Ltda. NORTH & PRICE. um nome se sobressaía. o de Claudia Quinta. 96 ss.MULHERES NA ANTIGUIDADE . The cults of the Roman Empire. Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e. In: ______. 77 . 62 Segundo Varrão. 96 ss. VI. Lívio. op. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres. 15) e em BEARD. (. 14. Este era um dia de festival. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. na Frigia62.. Sua reputação que. R. para onde a estátua de Cibele era levada61.. The Great Mother and her Eunuchs. cit..L. op.vol.. e.1. vol.cit. e em BEARD. (.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa. considerada uma deusa estrangeira. que foram chamados Megalensia (T. no dia que antecede os Idos de abril.. NORTH & PRICE. (. p. a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L.

Em versões posteriores. cavaleiros. e seu culto demandava controle. exigia. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. Em Ovídio (Fasti. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. por seus escrúpulos religiosos. Esta versão de T. o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. antes de Lívio. de ―todas as matronas‖. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos. nada comenta sobre esta suposta reputação. entre as matronas. para ser aceita. A figura de Cibele. A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama. com base na tradição. IV. 78 . quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. (Ovídio. são elementos significativos para nós. senado. IV. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta. Assim. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. e a preparação da cidade para receber a deusa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. no desenvolvimento do mito. Fasti. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético. a matrona com prévia reputação duvidosa. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. Cícero. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta.

e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ó Vesta. ouve meus rogos. a crer no mal propendem todos. Sobre a cabeça a verte por três vezes. suam. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria. todos no empenho Põem mais que humano esforço. De hora a hora o descrédito medrava. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também. cansam. pura na vida. enche d‘água as palmas côncavas. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos. Claudia.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. Virgens velam no altar teu santo lume. rompe da turba. . Tão bela quanto ilustre. noivas. E desatadas pelos ombros as tranças.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Com os olhos fitos na divina imagem. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta. Que prol. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. Por três vezes as mãos aos céus levanta. Contudo. De torpeza era ré na voz da fama. Lá vão correndo em confusão festiva. Matronas. Sem ousar a surdir. do antigo Clauso prole. se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar. Dos penteados seus. ajoelha. Chega ao Tibre. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos. virgens. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. 79 . e as que. Delirante todos a crêem.

NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63. e o discurso verbal é inseparável da ação. os oficiantes liam os textos. a deusa testemunha sua virtude.) (Ovídio. decide. Scheid. Na poesia de Ovídio. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que és pura. Deusa. Geralmente. por exemplo. negam-no. aceito a morte. Ó tu. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas. Pela acclamatio de Claudia Quinta. pedindo que. que ainda hoje espanta em cena. invocando a Magna Mater. a glorifica. portanto.. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta. Seus atos eram. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. de puras mãos deixa levar-te – Diz. Claudia Quinta se separa da multidão. puxando o cabo do barco. torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. Sou inocente. Se me fores contrária.(. então. Claudia Quinta. solta-o e o conduz ao porto. Quando o barco encalha. muitos levantavam calúnias. seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos. encalha num banco de areia. Sinal é que a mereço. Ante o povo a protege. e ergue seus braços. que um teu prodígio O comprove e me salve. asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes. complementados com fórmulas verbais e. os rituais incluíam fórmulas imperativas.. havia uma jovem de origem nobre. Segundo J. se inocente sou. Sobe uníssono aos céus clamor fervente. se fosse casta. Fasti IV. o ritual é performativo. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. de quem. puxa manso a corda O que refiro é. eu. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. muitas vezes. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente.

invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. As acclamationes visavam. An introduction to Roman Religion. ou seja. e sinais aromáticos de perfumes e incensos. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual. Indianapolis: Indiana University Press. altares decorados. preces. na presença de uma audiência. expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo.v. de figuras como a hipérbole e outras. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. por vezes. por exemplo. pois. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas.) remete à vocalização. 2003:98. com o sentido de ―criar versos‖. proclamo. A mesma aclamação podia ser. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos. repetida. ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. quanto no uso de neologismos. derivado de clamo/clamare. 64 O termo acclamatio.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos. Bloomington. performances musicais. belos animais com chifres ornados. tanto na estrutura rítmica. não se podia voltar atrás. propiciavam o favor da divindade. Assim. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas. mas também a aprovação verbal desta audiência. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos. 81 . mesas enfeitadas etc. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo. confirmavam a crença de seus fiéis. vinho e carnes queimando no altar. Outros elementos importantes dos rituais. desta feita extraverbais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os celebrantes eram cuidadosos. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano. s. bem como outras derivações (exclamo. clamo). e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade. contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. eram as roupas brilhantes. reclamo etc. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual. J. coroas e guirlandas. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade.

TATUM. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória. 65 82 .NEA/UERJ assuntos religiosos65. durante a cerimônia da Bona Dea.C. remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. Un procès politique en 61 av. MOREAU. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome. de um ritual em espaços cerimoniais. um dos ritos relacionados à guerra em Roma. Era . W. Clodiana religio. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. D »Etudes anciennes. Segundo Cícero. de l‘École Française de Rome. Ph.-C. portanto. As acclamationes podem ser vistas. The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. b) a função testemunhal. portanto. irmão de Clodia Metelli. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67.-4ème s.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine. contudo. 1999: 62-86.(Coll. Brepols Publishers. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram. 17) Paris: Les Belles Lettres. 1981.p. e SCHEID. a divindades de povos inimigos. mas também serviam para impressionar a audiência. em Roma. a instauratio. decidindo que o caso fora nefas. em primeiro lugar. F. de reconciliar alguém com uma divindade ou. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. que prometia domicílio e/ou culto. Paris : Palais Farnese. ou seja. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum.MULHERES NA ANTIGUIDADE . realizado no acampamento militar romano. mais frequentemente. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual. em rituais como a euocatio66. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar.C. 6-7 avril 1978) Coll.a. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. 1982 : 58-62 . ou público. e J. ou seja.C. e c) a função de instauratio (repetição). J. Le Collège Pontifical (3ème s. J. Podemos VAN HAEPEREN. Este. Ver esp. como performances orais endereçadas às divindades. J. Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio.

pdf 83 . 2 (A Sourcebook). 38. NORTH. 51-52. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen). E. Cambridge: Cambridge University Press. A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma. que residiria na observância dos deveres familiares. na margem do Tibre. 70 BEARD. W.. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade. M. Mary Beard. posteriormente. Claudia. Propércio.A. 1998: 45-46. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. John North e Simon Price70 e. o Antigo.revue. J.F. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. Elegia 4.. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. por exemplo. Religions of Rome. Naturalis historia. de uma relação privilegiada com uma deidade. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade. A narrativa ovidiana desenvolveu-se. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza.NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste. 2007. electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret. turritae rara ministra deae: Propercio. Eleanor W. VI. PRICE. e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta. iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio. Dictynna 4. Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69.C.univlille3. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d.. vol. que realiza um milagre68. 71 LEACH.R. 10. consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma. a matrona romana encontraria sua gloria. uxor Fulvi Flacci.MULHERES NA ANTIGUIDADE . S. Disponível em: http://dictynna. sob o Aventino: 68…uel tu.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor.

datado do século I d. com uma provável aedicula atrás dela. Esta figura também está velada e usa um chiton. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. ou seja.jpg ) O altar. nascida livre ou liberta. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. ao modo da deusa. e projeta-se numa plataforma.. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas.MULHERES NA ANTIGUIDADE .vroma. a deusa surge no centro. mas provavelmente pertence. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto. com o chiton e o himation.org/images/raia_images/claudia_syntyche. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom.NEA/UERJ (fonte http://www. A deusa está vestida com um véu.C. a um ramo da gens Claudia. sentada num trono. em um navio. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta. Na imagem. 72 84 .

do devir dos elementos e de toda história. em Herodiano (Hist. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais. M.‖ cf. corpo da família. para os homens romanos a principal virtude feminina. 1998: 45. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. Se eram mulheres com privilégios cívicos. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. até a modernidade. nem o das matronas. cf. O fogo das Vestais era. materializado pela exigência férrea de castidade. as Vestais eram revestidas de sacralidade.NEA/UERJ E. geração em potencial. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade. portanto. no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. seria antes uma poção sagrada do que um alimento. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo. Cambridge: Cambridge University Press. num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. ver: BEARD. mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas. o eram da terra. para tal. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros. BEARD. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. Esta associação teve um longo sucesso. NORTH & PRICE. como tal. Rio de Janeiro. não tinham o cândido significado das meninas. 70 (1980): 12-27. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento.73. v. 11)74. e. geração consumada. Religions of Rome. podemos dizer que as Vestais.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― . pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado. P. 2007. No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal.. no século II d. o prolongamento ígneo da luz. lhes era conferido um caráter de incolumidade. que na vida doméstica faziam o pão. Quanto ao mola salsa. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos. e a quem era facultado observar a vida pública. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. e.g. próprio aos rituais agrícolas. protagonista da criação e. que remeteria a um regaço materno. na poesia e na pintura através dos séculos.. como surge. e a consciência desta oposição. os Di consenti. 73 85 . Phoînix 13.. sempre elegantemente paramentadas. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. 2. especialmente em representações imagéticas. Se eram matronas. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. HORVAT. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. exercendo o fascínio do interdito. 1.

Em um altar (ara) de pedra. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. o laço religioso é o fundamento da família. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. está na base do regramento romano de gênero. que não corresponde à virgindade. s. já que a matrona. instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. portanto. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. E a mulher. não podia pertencer a mais de um culto familiar. ambos. agora. MEILLET. familia 76 86 . Importa. local no qual residia o Lar familiaris. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76. A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. Com o passar do tempo. que implica propriedade e patrimônio. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. A casa familiar (domus) romana é um santuário. no casamento. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. garantia a continuidade. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. escravos. de forma quadrangular. com seus Lares e Penates. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. que são. que teve um impacto direto em suas principais instituições. por meio da geração de filhos homens.NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos. sem maiores considerações a laços sentimentais. do culto dos maiores. observar esta figura. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. de onde deriva o nome família: ERNOUT. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. aspectos centrais da reforma augustana. próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados.v. com a ênfase positiva na castidade feminina. exaltando a figura da matrona. Do mesmo modo. A tradição da religio domestica. e os principais ritos famuli.

NEA/UERJ familiares ocorriam. uma qualidade exclusivamente masculina. definia a identidade masculina. 2004: 293. por exemplo. que adquiria o manus sobre ela. A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. portanto. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. M... tem a mesma raiz de uir (homem). A uirtus é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . T.. presididos pelo paterfamilias (casamentos. Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖. Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher.A. The Blackwell Publishing Ltd. A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. (edd. a pública e a privada. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. como sabemos. tangendo HALSALL. P. seus filhos e seus escravos (patria potestas).E. Paul Halsall diz: . Do paterfamilias. A mulher.). e apenas ele era um cidadão completo. é considerada débil. por sua natural falta de uirtus. In: MEDDE. preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade. ritos de passagem à idade adulta etc.). E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. Na verdade. e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma. significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo. sua propriedade mantinha-se no domus de origem. WIESNER-HANKS. na prática. A Companion to Gender History. apesar de. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. 77 87 . manumissões. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família. O poder de agir em ambas as esferas. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado.

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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Lesky 1931.530. de fato. entre um par de serpentes que olham para ela. Parry 1992. 330 a. de modo muito semelhante. então.NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes.. resta-nos pouco para contextualizá-los.C. Tupet 1976. um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós. Gentili e Perusino 2000.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inclino-me a acreditar que as imagens de c. para entender os contextos e significações de tais aquisições. 95 . contida em um vaso de c. Simon 1954. Schmidt 1992.C. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro). Gantz 1993:358-73. A maioria das evidências principais é iconográfica. façam alusão ao episódio da carruagem. Neils 1990. Belloni 1981. conferir Heydemann 1986.85 1. ainda. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto.C. talvez. Meyer 1980. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia. Corti 1998. Vojatzi 1982. Clauss e Johnston 1997. primeiramente atestadas em c. Contudo. Jessen 1914. 2009:78-93. 86LIMC Medeia 3-6. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. HalmTisserant 1993. É válido notar que uma descrição dessa mesma cena. GaggadisRobin 2000). Mastronarde 2002:44-57. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé. Ogden 2008:27-38. Direcionar.86 Se estas. 312-15. Moreau e Turpin 2000:ii. Zinserling-Paul 1979. 400 a. Braswell 1988:6-23. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia. certamente. que segura serpentes em cada uma de suas mãos. 87 LIMC Medeia 29. Moreau 1994. Candido 2010.87 Por isso. Séchan 1927. 245 –333 (especialmente. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. por sua vez. de Canosa di Puglia. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma). Griffiths 2006. em vasos. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos.

62. no entanto. nesses vasos.90 As serpentes não aparecem com asas. 116.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante. 118. 41. na segunda metade do quarto século a.400 a. 117. então.C. 27-30.. 58.C. 50-1. muitas das quais. uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor. 38. 18. 38. 57. 115.C. 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35. não era bom o suficiente para um artista falisco que. 73-4. 88 96 . 460 a.C. 107. portanto.400 a. como as Erinyes (Erínias). correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar. 91 LIMC Medeia 39. conferiam-lhes uma aparência surpreendente. em mente. de maneira muito próxima. Medeia 29. 34-7. efetivamente. Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que. igualmente. que eram frequentemente representadas.C. 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c.C.). ter sido elaborado tendo a peça. 105. combinadas com as asas. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares. 400 a. parecendo. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d. 63.C. 58. ou não descartadas. 51. 113. No próprio texto. tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c.). em diferentes configurações. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. não intimidadora.).). Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖.C. 55. 114. 39.89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. porém. Isto. 80. 53. em diante. 36 (c. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Iason 71 (c. Iason 72. especificamente.88 Desde c. 64. a partir de c. 48. de galinhas.C. 67-9.400 a. 96-7. de boa qualidade. 112. 70. 119. 11. 55. uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico. deu asas as suas serpentes. 42. 108. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a. Iason 73 = Medeia 37.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas. 12...400 a. 52. 92 LIMC Medeia 46.91 As serpentes mantiveram suas asas.

que se refere. sugere que ela possuía a habilidade de voar.C. neste contexto. anterior a c. Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. a uma introdução de uma peça. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c. foi somente em 431 a. Eurípedes Medeia.). 95Hypothesis.C.C. 480 a. O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c. 111. Se..95 e serpentes poderiam. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N.C. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser. de fato. aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições. efetivamente.). certamente. 470 – c. e o contexto.). 97 . presumivelmente.C.. por exemplo. e Mastronarde.400 a. LIMC Triptolemos 91. ter aparecido no palco. 450 a. demonstrada na Hypothesis. não obstante. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. novamente. embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem. ou 400 a. frequentemente. efetivamente identifica aí uma linha de influências. entretanto.C.C. 114. 105.C.96 Nas cenas de Triptólemo. apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. 116 (c. contudo.NEA/UERJ escapa de Corinto. Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia. 480 a. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia.T: Medeia 1321. debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo.94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. em uma reencenação distinta da peça. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes. se não na performance original de 431 a. 100. e que. cf.

100LIMC Iason 32. semeada com plantas mágicas e nocivas.123-66. 8 West. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. então. permitindo. Ovídio Metamorfose 7. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. que jamais dormia. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é. Argonáutica Órfica887-1021.179-237. 98 .242-50. tornando-se jovens de novo. ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse. Apolônio Argonáutica 4.9. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido. Em versões tardias. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes. 480-70 a. Ferécides F31 Fowler.C. p. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena.. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. Eurípedes Medeia 480-2. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4. a Jasão roubar o velo.97 Outra tradição interessante conta que. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c. igualmente. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas. Medeia 2-4.26).99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo. 99Píndaro Ode Pítica 4. Naupactica FF6.23. LIMC Iason 22-54. caísse no sono. 236-7. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. Metamorfose 7. Valério Flaco Argonáutica 8. Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão. dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. uma vez colhidas.100 Com base nessa imagem. Hyginus Fabulae 22.C. [Apolodoro] Biblioteca 1. Diodoro da Sicília 4.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aristófanes. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque.149-58. com a ajuda da filha do rei. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes.98 2. Medeia. As Nuvens 749a.48. em 431 a. esp. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson. O cheiro das plantas.24 Bond.ii. então.54-121.

então. [Apolodoro] Bibliotheca 2. até que Jasão conseguisse lutar e resistir.6..101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito. Hyginus Fabulae 31 and 89. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. no caminho para fora da boca do dragão.4.C.199-215. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a. sugere que ele. ou pelo menos metade dele. através de suas drogas. 104N. 660-40 a.T: Iason 30-1 (vii a. deliberadamente.T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas. como Hércules fez com kētos102 em Tróia.C. em que Medeia. a fim de matá-lo por dentro. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão. 632-29 a. Helânico F26b Fowler. 105LIMC Medeia 2. 33-5. Diodoro da Sicília 4.. Philostratus Minor Imagines 12.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão. Ovídio Metamorfose 11. Valério Flaco Argonáutica 2.C. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças.C.105 O fragmento de Mimnermo de c. encontrando-se.145-8. LIMC Hesione 6. ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c.‖106 101LIMC 102N. provavelmente.5. 103Homero Ilíada 20. e um fragmento de Mimnermo. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão. 99 . já teria sido totalmente engolido.9.451-578. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea.2. 42.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A imagem contida na ânfora de Caere.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem.32. sem resistência e acabado.). crua embora eloquente.C. tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante. 106Mimnermus F11 West. Duas outras peças do século VII a. 470-8. abrindo caminho para sair da boca do animal. monstro marinho gigante enviado por Poseidon. Outra possibilidade é a de que Jasão. [Licofron] Alexandra 31-6. representa uma mulher com veu.

. anteriores a Medeia de Eurípedes. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças. 15 (450-400 a. c. qualquer outra como.).C. As fontes literárias e iconográficas do quinto século a..). Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. ainda. 500 a.C.. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo.). Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia. como é encontrado no conjunto de fontes do século V a. 16 (450-25 a.C. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e. ao contrário. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c. Medeia. É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs.107 Quanto ao fragmento de Mimnermo. 450 a.C. Atena ou Afrodite. seguramente. estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar.C. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c.).MULHERES NA ANTIGUIDADE . primeiramente.C.C. 490 a. é digno de nota que Ládon é.500 a. ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c.). LIMC Ladon i 13 (c.C. os touros de fogo.380-60 a.C. a começar com a taça de Douris. Ladon i 12 (450-30 a. de deusas como Hera. ou em relação aos guerreiros nascidos da terra. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou.C. ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes. como nós veremos a seguir. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida. 500 a.C.C. 480-70 a.C.). por exemplo. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c. 100 . 500 a.).NEA/UERJ Mas em relação à ânfora.). na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro). e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas. ao contrário. de fato.). ele poderia.

a matadora de Pélias. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes. permitindo. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. Arcesilau. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa. que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. Ao contrário.. o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos. O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos.C. Com dispositivos (technais). feito pelos golpes de ferramentas de ferro.108 Com base nisso. Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. ainda. podemos olhar para a taça de Douris. ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn). mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. Medeia. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo. está sendo vomitado pelo dragão.: Imediatamente Eetes. contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela. O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente. quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo. aparentemente inerte.NEA/UERJ de Medeia..220-23. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. e nos perguntarmos se Jasão. nesta batalha. então. Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de talvez apenas alguns anos antes. eventualmente. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. (Píndaro Ode Pítica 4. Pois ele recaía em um pequeno bosque. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes. tendo atuado sozinho. 101 . o filho maravilhoso de Hélios. e levou consigo Medeia com sua cooperação. Este.

111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam.112 Em seguida. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão. acreditar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com a ajuda de Afrodite.C. também. Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete". Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c.114 É possível que esta afirmação. que mostra Jasão.NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente. enquanto ela fugia com os Argonautas. dentro do contexto.. 454 a. LIMC Iason 36. Nesta. 111 Herodorus FGrH 31 F53. supostamente. Ferécides F31 Fowler.. Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes. c. enquanto Atena observa novamente a cena. eu indiquei para vocês a luz da libertação‖. possibilitando a fuga dos Argonautas. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes. sozinho.C. não há nenhum sinal de Medeia.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54. ele caísse no sono. pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite. então. igualmente. relata que o dragão fora morto por Jasão. 114 Eurípedes Medeia 480-2. na tradição posterior. não há. Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a. na qual nós podemos ou não. mais uma vez. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados. portanto. fazendo com que. 109 110 102 . 113 Naupactica F8 West. 470-60 a. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes. após ter feito amor com ela. a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. aparentemente.109 Um conciso fragmento de Ferécides.113 Essa narrativa. referência à participação direta de Medeia.C.

Na Naupactica ( séc V a. permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa. a mensagem parece ter sido a de que Medeia.C.360 a. da mesma maneira.. Argonáutica Órfica 3.121 Apolônio Argonáutica 4.118 Estamos pisando em terreno mais firme. provavelmente. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão..C. encontra-se também presente em Ovídio.69-121. segurando uma caixa de ervas.23. Valério Flaco Argonáutica 8. ela pode ser atestada desde c. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. ps.117 Contudo. 121 Naupactica FF6 e 8 West. teria feito uso de suas drogas. segurando uma phialē. 118 Píndaro Ode Pítica 4. após ter feito sexo com ela.C.?). quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c. 41-2.220-3. representa uma Medeia bem orientalizada. caia em sono . emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c. 380-60 a.C.-Apolodoro. em vez de fazer o animal dormir. 120 LIMC Iason 38.C.. cf. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente.115 Mais à frente. portanto. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e. Hyginus Fabulae 22. de modo que ele. já que o dragão está visivelmente acordado. 115 116 103 . 119 LIMC Iason 40.119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. LIMC Iason 39. Orphic Argonautica 887-933. 1191-1267. Valério Flaco.9. Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma.120 Como já vimos. então.149-58.MULHERES NA ANTIGUIDADE .1026-62. 117 LIMC Iason 37.128.415 a.116 Iconograficamente.). uma cratera em formato de sino da Apúlia c. Hyginus e na Argonáutica Órfica. Ovídio Metamorfose 7. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo).NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. [Apolodoro] Biblioteca 1. 270-45 a.

de uma maneira bárbara.124 Em Ovídio.380-60 a. senhora do subterrâneo. 41. praticamente e inteiramente reduzido. a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu. em seguida.). já que o poema favorece a atuação de Orfeu.149-58. LIMC Iason 38 (c.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. 47b.9. 124 Apolônio Argonáutica 4. em sua totalidade. LIMC Iason 40 (c. 126 Valério Flaco Argonáutica 8. ele próprio. e por último. ela continua untando. 125 Ovídio Metamorfose 7.). lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu. 42-3. 360 a. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. então. repetindo três vezes o feitiço. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono.). ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro. invocando o Sono e Hécate.C. 380-60 a.C.). É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas. fornecido por Medeia.127 No sentido oposto ao da tradição. no dragão. mas o seu papel é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tiradas de uma caixa de medicamentos. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c. Hyginus Fabulae 22.69-121.123 Em Apolônio.‘125 Para Valerius Flaccus.145-66. a Morte. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. Novamente.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. 39. 360 a.C. 46. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros. 122 123 104 .23. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal. uma técnica similar é usada: Jasão. por vezes.C. 127 [Apolodoro] Biblioteca 1. presumivelmente em forma líquida. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse.

que significa. de acordo com algumas variantes. conectados pelo termo mēla.11. com o conto Ládon é próxima. [Eratóstenes] Catasterismi 1. Em ambos os casos.39. semelhantemente. igualmente. Teócrito 3. e talvez. 130 E. apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado. 470-60 a. A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida. em todos os casos. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta. 133Pediásimo 11. 128 129 105 . As Hespérides eram personagens ambivalentes. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Não surpreende. Nos dois casos.40. 3.133 Entretanto.NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão.5. schol. 131 Apolônio Argonáutica 4.) e Diodoro 4.26-7. consequentemente. Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3. curiosamente interligados. Primeiro mitógrafo vaticano 1. vigia e guarda um tesouro de ouro. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2.C. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130).128 Nas duas circunstâncias. as quais ele nomeia individualmente. Fontes tardias. em sua forma canônica. a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens.4. Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs).g. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf. "maçãs" e "ovelhas". que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente. tesouros estes. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW.C. portanto.132 Pediásimo. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c.113.1396-1407.

136Diodoro 4. 28 (?). a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente.C. a fim de roubarem as maçãs. 470-60 a.137 e. No caso de Medeia. 380-60 a. 550 a. como veremos). No caso das Hespérides.139 A este respeito. encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente. como veremos em breve. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal. 138LIMC Herakles 2692. ou pelo menos. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . Nas imagens de 380-60 a.134 Ferécides. 139LIMC Iason 40.8 = LIMC Hesperides 64. distraindo-a com comida e bebidas. 41.C. caia no sono. No entanto.). Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava.NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias. 3.135 De acordo com algumas tradições (não todas. 9.27.C. Hesperides 2. A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica.484. 106 . 2707a. 36. Ladon i 6. 135Ferécides F16c Fowler..38. pelo menos desde c. 2717. Primeiro mitógrafo vaticano 1.MULHERES NA ANTIGUIDADE .500 a. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c.2-1.C. em seguida. o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. enquanto 134LIMC Herakles 2703. 137Pausânias 6. em teoria. 2726.136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida. de fato. c.C. enquanto o gesto poderia. 30..138 Mas é somente no período de c. em diante. 454 a. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta. 7 (c.C. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4.29. 63. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda.

a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a. uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro.C.C. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma. então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida.. 34-5. 36. Em uma imagem no início do século IV a. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos..147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida. de qualquer tipo. 62. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos. enquanto no outro. 340 a.). guardião dos valiosos frutos.C. Herakles 2719.C. 142LIMC Herakles 2726. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs).).C. uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore. 145 LIMC Hesperides 26 (410 a.145 e em outras delas erōtes assiste à cena. deixar seus olhos caírem no sono‖. 350 a. uma Hespéride. evidentemente.. 4. Ladon i 9..C. faz-se visível.141 Em uma imagem de c. 350-30 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38. similarmente. quando o dragão que jamais dorme.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. o próprio Héracles pega as maçãs. 29-31. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente.144 Especula-se frequentemente que. 63. semelhantemente. Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs. após ter-se apaixonado por ele.142 Em uma imagem de c. 33-5. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides.). 107 .NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha. então. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a.143 Em duas imagens de c. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e. tal como Medeia eventualmente foi.C.146 Se essa hipótese estiver correta.

nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado. Aí.738-41 (‗Agamede‘). a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana.C. embora. Homero Ilíada 11. supostamente uma conhecida sua. de maneira intrigante. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe. portanto. a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148.?). untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras. a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nostoi F6 West (c. do que vice-versa. a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que. Logo. tal como as Hespérides. Mas de qualquer forma. alimenta e toma conta de uma serpente. onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas. e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore.480-6. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides. O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c. 148 108 .NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir).). em todo o caso. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides.C.149 Portanto. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides. para as Hespérides em relação a Ládon. está a mais remota terra dos Etíopes. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. 149 Virgílio Eneida 4. 550 a. 630 a. dessa.

v. no início do século IV a.C. representa Medeia. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes). vívida e largamente consistente. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a. tampouco. mas sua iconografia é distinta.C.41. de alguma forma. Higeia. Esse deus observa com interesse E. embora esteja prestes a fazê-lo. e que. jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c. da iconografia de Higeia.). é claro. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente.g. 151 LIMC Medeia 70. em um vestido oriental.C. Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol.151 4. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. a personificação da Saúde. 150 109 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Asclépio.40. Pausânias 9. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas.. a presença de Ládon. a serpentes. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela. aparece representado em uma cópia do século IV a. Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada. tal como diversas outras divindades. Aí.não existem maçãs. nunca. οἰκουρὸν ὄφιν. Hesíquio s. permanece sem um mito. árvores e.C.410 a.. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia. sendo a mais proeminente de todas.150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto. oikouros ophis: Heródoto 8. em Istambul. que apesar de ter se perdido no tempo.C.NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente.. o seu próprio pai e companheiro. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon. Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta.

ao menos. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno. Na medida em que a serpente bebe. a serpente. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. e de Fórcis. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. o arquétipo de monstro marinho. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura. até mesmo de inscrições. desde avatar ou símbolo. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. Apolônio Argonáutica 4. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente. que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. De acordo com Hesíodo. ainda. até como um animal de estimação. no tocante a Higeia. também seria um irmão das próprias Hespérides. 110 . Entre essas figuras femininas. seu atributo. Como tal. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente. Já que a relação de Higeia e. Schol.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. em outras palavras.1399.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. ao alimentar a serpente. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98.

um aspecto de si mesma. Salus e Valetudo).MULHERES NA ANTIGUIDADE . fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia. à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides]. dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas. por isso. “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. Etymologicum Magnum. segundo alguns etimologistas antigos (ou. ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum. já que o próprio nome drakōn. é uma virgem até ser seduzida por Jasão. s. δέρκομαι). também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). essa serpente é. Etymologicum Parvum. δράκων. elas próprias. Certamente. pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e. A própria Medeia. ainda que com retidão ou com artimanhas. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão. 156 Valério Flaco Argonáutica 8. enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar. Higeia. 154 111 . bizantinos) e modernos.NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda).62-3. 5.154 Se as Hespérides. igualmente. de qualquer maneira. A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. portanto. significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf. à época de Valério Flaco. em sentido maior ou menor.v. a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. 155 Valério Flaco Argonáutica 8. é também evidente.‖155 Ela.77-8.

Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade.NEA/UERJ o abraça. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. de qualquer maneira. você está predestinado a vivenciar um dia cruel. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel.660-40 a. 380-60 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.93-103. não está representando nem Medeia nem as Hespérides. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão. antes de Valério Flaco. eu imploro. eu não matei você. LIMC Medeia 2. Se a hydria proveniente de Caere de c. Ai de mim. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense. pobre desafortunado.157 Por quanto tempo. seja qual for o caso. hesitantemente. sobre um elemento externo. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial. Em breve. Heródoto 8. 112 .41.C. Pelo menos. embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra. Mas. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos. Então. como foi primeiramente atestado em vasos de c. então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que.

tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad.160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo).161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno. Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas. é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. que obviamente pertence ao período pós-Píton. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem.2. quão intensas foram as raivas. o momento Apolíneo do oráculo. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11. na qual a sacerdotisa pítia. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a. então previa-se o oposto. 113 .C.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem. Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras. Elas teriam surgido de Píton em Delfos. uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos. embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós. Em relação ao primeiro. e estas eram os animais de estimação do deus. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. Luciano Da Astrologia 23. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

NEA/UERJ águas quentes. Sílio Púnica 6.18.46. sendo devorada pela criatura). aos escritos de Eliano). Aulo Gélio 7.MULHERES NA ANTIGUIDADE . escrita em c.C. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. deixando os demais bolos para as formigas. pedacinhos de comida. (anterior. um pré-requisito. enfrentar os perigos como resultado.36-7. Ele conta que em certos dias. em cestas. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a.140-293.C. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18.. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram. portanto. 207 d. Se elas se mantivessem castas. e comia somente o bolo daquelas que eram. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖. naturalmente. Valério Máximo 1. O dragão. Aqui. posteriormente.19. por Lúcio Róscio Fabato. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘.8 ext. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração. estão embrulhados no pano. Floro 1. Plínio História Natural 8. No início do século III d. por sua vez. ou seja. virgens. 162 Quanto aos cultos.3. Arnóbio Adversus Nationes 7. Eliano nos dá outro relato do rito. carregam. e que iríamos. Em sua carta a sua esposa. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó. cuja condição de virgindade era também. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia). 162 114 .C. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais. nós podemos supor. uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que.

na virada do século IV para o V). PL 51..163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco.D. na verdade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio. as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. De Promissionibus.165 6.NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. o dragão soprou seu hálito fétido no ar. os romanos.3 Atos de Silvestre A (1).164 Um texto anônimo do século V. compostos primeiramente. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. no final do século IV a. 115 . um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço. Privado de suas ofertas. o destruiu. p. (?). magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas. mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema.835. e que uma vez por vez. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto. Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era.6. então.C. sob o governo cristão de Constantino. junto ao dragão (draco). Os Atos de Silvestre. então. Ele. matando. e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio. acredita-se. são indicadas tendo como base sua virgindade‘. De Promissionibus.

169 Valério Flaco Argonáutica 7.71. isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia. 8. sobretudo. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos. O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio. 168 Valério Flaco Argonáutica 7.g. contemporâneo de Apolônio de Rodes.203. Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39. Virgílio Eclogues 8. [Apolodoro] Biblioteca 1. aos Marsi.355-643.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles. Em um episódio singular. 488-91. 1026-62. As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion. Apolônio Argonáutica 3.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1246-67. desde a terra dos Hiperbóreos.23. Horácio Epodes 17. 171 Ovídio Metamorfose 7.169 7.29.NEA/UERJ respeito166. mas o seu elmo. Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes). Lucano Farsália 6.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada. 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx).9. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra.170 8. 1176-1224. Claramente. não uma pedra.467-72.401-21.51. Apolônio Argonáutica 3. o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas. como parte de sua elaborada descrição de Pélias.106-8.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias. 170 Diodoro 4.1354.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol. 172 E. 631-4. 166 167 116 .

ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida. onde se localizava o santuário de sua deusa especial. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent). e.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7. no final do século IV d. por tal razão. também anguis. Sílio diz que Angítia. e até mesmo restaurando a vida nas pessoas.495-99. serpente).27-9. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. Sêneca Medeia 684-705.NEA/UERJ Fucino. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce. com a referida deusa.750. 117 . Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera. a Hidra.175 Solino. teria sido elevada à condição e status de uma deusa. foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea. Angítia. à serpente controlada por Ofiúco. ‗a filha de Eetes‘. tendo combatido doenças com sua arte de curar. porém. faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino. portanto. ao seu próprio dragão de Cólquida. ou ainda. Solino 2. No entanto. em meados do século IV. Ela recorre. 9.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e como domar animais venenosos tocando neles. completa. e que. é claro.759-60. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf. conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium). Sílio Punica 8.. A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca.176 Sérvio Honorato. De tal modo. a Píton.174 Desde Sílio Itálico em diante.C.

Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. Eurípedes Ion 987-96. no século II d.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao invés de somente uma única serpente. Elas permanecem lá até hoje.477. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento. Apolônio Argonáutica 4.v μασχαλίσθηναι. Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba. onde seu irmão Apsirto foi enterrado.. Por um lado.95-6. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras. assim. Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. cf. pode ser lido. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘. e se alguma delas acaba saindo.179 O que temos nesse caso. Hyginus De astronomia 2. 118 . em certo nível. Respondendo aos seus pedidos.C. Suda s. em forma de cobra.NEA/UERJ 10.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26. subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e.12 (citing Euhemerus). tal como consta na Eneida. oferece um exemplo bem conhecido disto.181 11. a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. Virgílio Eneida 5. uma praga de cobras.180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto. Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente. tem de pagar uma dívida para com a natureza‘. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida.

192 LIMC Gigantes 311-12 (c. 35. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911.4. 2005-6. 530 a. 314.666-70.). 520-10 a. LIMC Perseus 113.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). 500 a.C).C.C. 2010 (c. 1990 (= Athena 11.63-6 e 84-90.C. Quinto Smirneo Posthomerica 12. Ferécides FGrH F11 Fowler.17. LIMC Gigantes 425 (c.).29-48. 263-70).193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3.188 e. 500-480 a.C. 8 is ca. 480-70 a.).). etc.) 428 (iv-iii a.192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse. 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell. 440-35 a. 600-595 a. Lucano 9.741-2. as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa.C.444-97. 1996 (565-50 a.185 Héracles que mata a Hidra. 2002 (c. 460-50 a. 190 Homero Ilíada 5. 12. 19.C. cf. com schol.).C. 600-590 a. 550).722.C. Ode Pítica 7. 21. Jasão que mata o dragão de Cólquida.189 Muito frequentemente.).C. 186 Hesíodo Teogonía 313-18. Pausânias 5. 120-2. 2008 (c. 188 Píndaro Olímpio 13. 132. 151 (675-50 a. 16 (ca. a taça de Douris) e 36. 460 a. 440 a. 15 (= Harmonia 1). Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2.C.3.C.186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas. 590 a.370-50 a. LIMC Herakles 1991 (c.).). 1999 (c.).).). c.C. é claro.).C.70. 1995 (c. etc. 194 Virgílio Eneida 2.. LIMC Gigantes 389.6-26. 2003-4 (c.). [Apolodoro] Biblioteca 3. 185 Píndaro Ode Pítica 10. 183 184 119 . Homero Ilíada 2.C. 1992 (c. 2000 (c.). cf.190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia .274.44-7. 23 26a. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes).C.). Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol.3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8.184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes.VI a. 585-75 a. 500-490 a.187 Belerofonte que mata a Quimera.1. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc. da mesma forma. Em uma ordem estreita.). Ésquilo Fórcides F261 TrGF.).C. 3. Higínio Fábula 30. Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela. 189 LIMC Iason 32 (c. 440-30 a.11. LIMC Harmonia 1 (c.).C. Helânico F51ab Fowler. Kadmos i 7-9 (no. Ferécides 22ab Fowler. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf. 2029 (c.) 24 (início do II d.C.289.C.C.199-231 (com Sérvio ad loc.

197 Amelesagoras FGrH 330 F1. LIMC Aglauros 19 (c.199 E de acordo com Filóstrato. 195 196 120 . o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio. 32 (final do séc. Plutarco Temístocles 10. 435-30 a. a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena. 199 Pausânias 1. Erechtheus 30 (c.197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes).)..). [Apolodoro] Biblioteca 3. Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol. ―A deusa [Atena]. tanto em suas narrativas como também na iconografia. 500 a. Hyginus Astronomica 2.v. Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo.v. Etymologicum Magnum s.NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio.14. Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes. 440-30 a. criou um drakōn entre os atenienses‖. Etymologicum Magnum s. de fato. com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. Ovídio Metamorfose 2. ela. [Apolodoro] Biblioteca 3.200 De fato. 450-40 a. 200 Filóstráto Apolônio 7.C. 36 (c.195 Na cidade de Atenas.C. os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia.). apresentam fortes paralelos.C. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c.C.C. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s. certa vez. Eurípedes Ion 16-28. frequentemente.24.561.). οἰκουρὸς ὄφις.24.196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral. parece até identificar como a própria deusa.41.13. Entretanto.7. 198 Heródoto 8. Ἐρεχθεύς. LIMC Kekrops 34.).MULHERES NA ANTIGUIDADE . ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas.v. que Heródoto. V a.14. Ἐρεχθεύς.

NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena. 1886. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. 2006. 1931. Berlin. LESKY.). 1998. 2000. Referências Bibliográficas BELLONI. a sua própria mitologia. mas. não somente assemelhada como. por sua vez. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides. ‗Medeia‘ RE 15. B. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. The Myth of Medea and the Murder of Children. 2 vols. GANTZ.. L. Higeia. BRASWELL. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade. CANDIDO. Halle. B. Johnston. Jason in Kolchis. as Hespérides e Medeia podem todas. a deusa-serpente dos Marsi. 1993. Baltimore. GAGGADIS-ROBIN.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1914. (eds. Rio de Janeiro. não obstante.. 1997. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar. Venice. 289-320. 121 . H. Medea nella letteratura e nell” arte. Contudo. HEYDEMANN. CORTI. e S. ‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33. Londres. inclusive. Medea.I. na forma pela qual a conhecemos. In : Moreau e Turpin 2000:ii. Uma vez levada para a Itália. CLAUSS. 1993. PERUSINO. mito e Magia: a imagem através do tempo. GRIFFITHS. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões. ‗Iason‘ RE ix.. Medeia foi. pode ter. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas. 1981. 2010. Cannibalisme et immortalité. F. 75-71.K.). Westport CT. A. identificada com a própria Angítia. 29-65.R. JESSEN. Medea. M. O. Princeton. Medéia. M. J. Early Greek Myth. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. 1988. L. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. HALM-TISSERANT. E. A guide to literary and artistic sources. Paris. T. GENTILI. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides. (eds.1. A sua interação com o dragão de Cólquida.J. V.

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quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. XIV. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina.3556-3574. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano. naturalmente. A figura de Agripina. considerada como um exemplum. Para um exemplo notável destas reapropriações. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. filha. 1991. apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana. mas que a mataria. Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana. especialmente durante o século XX. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. e foi estudada largamente ao longo da história204. foi dedicada a Agripina. contamos 49 personagens femininas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. Segundo o historiador Tácito. esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus. 9. que dá título à peça. Fábio Faversani201 Prof. 3. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203. A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. esposa e mãe de césares.ª Ms. Dr. bolsista da UFOP.ª Sarah F. L. estreada em 1709. irmã. Bisneta. capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos. Ela é a principal. 201 123 . Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto. ver: WALLACE.‖ Ann. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical. 204 Sobre a produção historiográfica. mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. Nos livros XIII a XVI.

esta é uma definição básica da transgressão feminina. nem sempre apresentam comportamento com características viris205. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército. Ou seja. gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política. Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. masculino e política em contraposição a privado. como por exemplo.NEA/UERJ menções a mulheres. Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam. em todos os casos. I. no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política. In: FELDHERR. Entretanto. 69.MULHERES NA ANTIGUIDADE . elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. uma transgressão. ou seja. mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). por exemplo. feminino e doméstico ser de extrema importância. é considerada como transgressão do comportamento feminino. Por isso. todas elas. As personagens femininas.) 206 MILNOR. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. 205 124 . 1992: 130-154. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa. a relação entre público. torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores.como. embora a percepção da divisão de espaços. como apresentada pelas fontes. 2009: 277. como por exemplo. considerando que elas eram peças do jogo político do império. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende. cf: BAUMAN. denotam o caráter de exemplaridade. Mas. não há transgressão206. gêneros e funções . Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. Deste modo. a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais.

Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas. a figura feminina mais frequente na narrativa. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. mas não o fazem. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. 59%. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais. partindo das personagens femininas. Percebemos que. aberta a negociações e a sobreposições. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. Ademais. Em outras palavras. como por exemplo. Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. Já Agripina. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. para além das características individuais das personagens. por vezes negativo e.NEA/UERJ uma linha. ambivalentes. pois. Muitas delas. é mencionada em 31 capítulos. o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. aparecem somente uma vez na narrativa. A própria figura de Agripina. apresenta valor por vezes positivo. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. notamos que 29. em outros casos. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. embora considerada ícone da transgressão. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área. ou seja. Tácito as caracteriza também pela 125 . foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. como veremos. não por acaso. estão relacionadas a homens virtuosos. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Ou seja. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. esposa de Traseia Peto. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. temos Antístia208. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. XVI. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo. 22. de maneira que. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. Em outras palavras. 34. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. como se ligadas umas às outras. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. que também o acompanhou. temos Árria Menor209. Para explorar esta hipótese. que quis imitar a mãe e morrer com o marido. 71. Por fim. quando ele foi forçado a sair de Roma. Ann. Ann. XV. Dentre estas. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada. 209 Ann. ou seja. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. como já ressaltamos acima. auxiliam na caracterização de outras personagens. 207 208 126 . esposa de Rubélio Plauto. Dentre as mulheres leais aos maridos. Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. Assim. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . XIV.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. Além dessas.

as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa. no prefácio das Histórias. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. No entanto. poderia persuadi-la a continuar viva). foi persuadida por Traseia. a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. Ou seja. uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. ―Peto. famosa pela frase ―Paete. além de perpetuar a imagem da mulher honrada. non dolet‖211. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos. mas sua lealdade vai além. esposas seguiram os maridos no exílio. neste dilema. Comitatae profugos liberos matres. constantes generi. não dói‖. 3. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 13. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos.16. supremae clarorum uirorum necessitates. faz aumentar a glória deste. Traseia negou esta glória a Árria. ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. Ep. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus. 127 .NEA/UERJ sendo que Tácito. vaidade. parentes corajosos. Entretanto. o único que. genros perseverantes. Acresça-se que neste caso. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. Plínio. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. o que não interferiu na reputação elevada do casal. ambição). além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. Árria Maior.

neste momento. Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. por ter aproximadamente 20 anos. destacamos: Agripina Maior212.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). Tiberius. e Popeia216. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. 63 Ann. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa. destas. ver: Ann. foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. 2. 216 Ann.2. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. associada a estes. inspirava ainda mais compaixão. Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. o foco da narrativa. 12 215 Ann. 22. evidencia tais virtudes. 1 . 43. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes. filha de Germânico. Lólia Paulina215. é a injustiça sofrida por Octávia. Tácito não especifica se é Júlia. que foi condenada ao desterro por Tibério. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. XIII. (mãe de Popeia. ou Júlia. O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. XIV. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. a segunda esposa de Nero). Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. 12. que também foram desterradas. 63. XIV. XIV. O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. XI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 212 213 128 . XIV. filha de Druso. 214 Ann. Não por acaso. de Ann. Tácito ressalta que Octávia. Calpurnia. 53. outra vítima de Agripina Menor. Ao comparar.NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. apenas para narrar suas ações de lealdade. Ou seja. Diferente das esposas leais. Vejamos. estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). Júlia213. XII. A lealdade das esposas. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. ver: Ann.

o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. que foi chamada do desterro. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII. As acusações foram forjadas por Agripina.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). e. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. elogiada por Cláudio.NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. 12. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas. XIV. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. mas sua sentença foi o desterro. dentre elas estava Calpúrnia. resolvemos retroceder um pouco. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. Lólia Paulina. e Lólia Paulina. ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tácito relata que. Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. e deste modo. percebemos que as personagens Calpúrnia. Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio. (Ann. 3) 218 129 . e uma vez durante o principado de Nero. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina. Agripina não é uma má esposa por si. já no início do casamento. também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). Nero perdoou algumas vítimas de Agripina. e foi sentenciada à morte. depois da morte da mãe. certa vez. O César proferiu as acusações frente ao senado. Elas foram acusadas no ano de 49218. Portanto. que sofreram injustiças semelhantes. e Calpúrnia foi.

XIV. Tácito narra que algumas. Suílio. XIV. citamos Pythias221. História Romana. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. notamos que a personagem de Popeia. 223 Tácito não cita este nome. capítulo 43. por ser aliado de Messalina. Tácito retoma o episódio no livro XIII. Uma das escravas. Seguindo esta mesma lógica. 1-2. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. XIV. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. quando relata as acusações feitas a P. é mencionada em três capítulos: Ann. neste ponto do relato. a escrava leal de Octávia. mãe da segunda esposa de Nero. 4. já estava estabelecida. devido à dor. Deste modo. Como exemplos. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. já havia sido morta neste momento do relato. 221 Ann. 5-6. Para se separar de Octávia. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. e Acerrônia222. através de seus atos cruéis e. Entretanto. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador. LXII 13. 222 Ann. 4. 3-4) 220 130 .‖ (Ann.NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. XI. a lembrança do episódio. Messalina. que. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. aliás. por decorrência. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223. neste momento da narrativa. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. 60 e 62. mas o encontramos em Dio Cassius. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. 60. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama. a escrava desleal de Agripina.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Acerrônia. ela também aparece duas vezes na narrativa226. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. fazem parte do exemplum que o senhor representa. uma existência virtuosa ou viciosa. ambicioso e desleal. p. mas criam em seu conjunto. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. gritou que ela era Agripina. Deste modo. apresenta raciocínio servil e. num ato de esperteza. nos exempla de escravos leais. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente. a escrava de Agripina. 227 DAITZ. As interações não são circunstâncias isoladas. 51 e 57. Em contraposição. Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. Interessante notar. XV. O plano de Nero falhou. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor. Assim. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. modelo virtuoso. In: JOSHEL. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. ou seja. Ann. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. percebendo toda a trama. 1960: 48. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. Nesta perspectiva. mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. Acerrônia. Envolvida na conspiração pisoniana. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. MURNAGHAN. 1998. como temos visto. mas diferente daquelas. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos. as interações não só reforçam as características individuais. Agripina. ficou calada e se pôs a nadar até a margem.NEA/UERJ Holt Parker225. então. simplesmente o fazem. Mas em Tácito. 167. a liberta foi PARKER. modelo vicioso. portanto. 225 226 131 .

Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa. 54. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. que sem sofrer tortura alguma. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. demonstram a superação de sua natureza. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais.) 229 Como já ressaltamos. XV. no caso dela. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil. liberto de Cevino. Tácito compara a conduta dela. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais. XV.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tácito narra que ela. 231 Ann. Milicho. denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros.‖ (Ann. 230 JOLY.228 Os escravos leais. e muitas vezes perverte estas mesmas regras.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas. 2003: 71. resolveu pedir conselhos a sua esposa. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232.NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados. 4) 228 132 . qui indicio praevenisset. ao adotar um comportamento excepcional. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana. no início do texto. e também fazem parte da natureza feminina. que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. como mulher. 54-55. at praemia penes unum fore. lhe aconselhou o pior. 2. XV. o que. equestres e cidadãos romanos. 57.‖ (Ann. Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. significa uma transgressão. se o denunciava ou não. Em dúvida.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. assim como as esposas leais. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. multosque adstitisse libertos ac servos.

escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. pois apesar de possuir honor. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. cf: POMEROY. como o fato da mulher ter direito à propriedade. os ganhos seriam maiores. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais. igualmente ambicioso e desleal ao patrono. Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. Milicho. as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233. como também o controle sobre os residentes desta. o denunciou. Todavia. ela não detinha a potestas (autoridade). 233 133 . Aqui. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores. reservada ao paterfamilias. mas que se faz ausente no escravo. 1995: 149-163. enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). considerando tanto a casa. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora).NEA/UERJ denunciar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . obedecendo aos deveres da ―amizade‖. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. propriedade física. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. 2001: 95. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres. 235 DIXON. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. que é reconhecida na materfamilias. 1998: 87-93. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. 234 SALLER. como por exemplo. Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. claramente. Entretanto.

19. e Júnia Silana foi desterrada. Inimigas de Agripina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. que. principalmente através de Ann. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237. dentre eles estava o liberto Páris. Essas personagens com menor visibilidade. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. tinha acesso à casa imperial. 2008: 291. A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder. primeiro. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. 236 237 134 . 21 e 22 do livro XIII. Júnia Silana aparece associada à Domícia. Ao mesmo tempo. 238 Ann. mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). XIII. como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. 21 e 22. 12. Deste modo. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. XIV. uma mulher rica. RODRIGUES. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. Nos capítulos 19. Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. e sem filhos. Agripina conseguiu provar sua inocência. segundo Tácito. segundo. devido à ausência de herdeiros masculinos e. tia de Nero. Um exemplo é Júnia Silana. Domícia parece não ter sofrido punição.19. viúva. devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. XIII.

sua avó.comitante Antonia. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. 241 Ann. mandou divinizar Lívia240. 242 ―. 239 240SUETONIUS.. percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241. Cláudio. no livro XV. relacionada a uma falsa denúncia de conspiração. Claudia Antonia e Claudia Octavia. filha de Claudio e sua primeira esposa. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. XIII. 53. 3-4) 243 CORBIER. o prestígio destas matronas foi. o que explica a recorrência CORBIER. elucidativas.. depois da pretendida morte de Nero. Curiosamente. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro. XV.. Claudius. In: HAWLEY. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula. como por exemplo. por exemplo. De acordo com os planos da conspiração pisoniana.‖ (Ann. In: HAWLEY. 2. ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio. XI. 135 . pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. LEVICK: 187. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes. o casamento de Nero com Octávia. são. Ela aparece pela primeira vez no livro XIII. ex-marido de Claudia Antonia. Retomando as personagens com menos visibilidade. e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239. sobre este ponto.NEA/UERJ casamentos e filhos. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto. depois de sua ascensão. Aelia Paetina. de certo modo. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. Como nos lembra Corbier243. logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. 53. além da avó paterna Lívia. ad eliciendum vulgi favorem. Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. Claudii Caesaris filia. LEVICK: 178.. 23 e XV. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César.

Dio. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. 244 Ann. estabelecendo. de Tácito. TACITE. Translated by J. Translated by P. XIV. (Loeb Classical Library). Cambridge: Harvard University Press. como pudemos observar. v. elas são também aristocratas ou escravas. as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas. Walsh. v. Cambridge: Harvard University Press. 2 vv. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. Translated by Earnest Cary. G. Texte établi et traduit par Henri Goelzer. como identidades se construindo em oposição. 2006. Rolfe. Oxford: Oxford University Press. (Loeb Classical Library).MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. Lives of the Caesars. 1925.C. 8 PLINY. portanto. Complete Letters. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. como indivíduos. fazendo uso de personagens femininas. 1951. Ademais. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. 136 . 60-61. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla.1. ricas ou pobres. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. uma vez que além de mulheres. 1989. The younger. Histoires. além de denotar os meios utilizados por Tácito para. SUETONIUS. Roman History.

núm. 2001. WALLACE.281-295. 1998. Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. 2008. Cláudio e Nero. 30-52. Suzanne. Fábio Duarte. pp. v. Wives. Women and politics in Ancient Rome. 26. 1995. pp. and MURNAGHAN. JOLY. Kristine Gilmartin. Women in Tacitus. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations.69-156. London: Routledge.5: 3556–3574. In: HAWLEY. London: Duckworth. The American Journal of Philology. Women in Antiquity: New assessments.NEA/UERJ TACITUS.). pp. Madrid. Holt. São Paulo: Edusp. 1995. Sandra R. Cambridge: Cambridge University Press. Women in Roman Historiography. 2009. DIXON. Sheila (ed. ANRW II 33. Barbara. 1991. (Loeb Classical Library). London: Routledge. Andrew (ed. p. RODRIGUES. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles.87-93. PARKER.178193. 1903–1986. Whores. London: Routledge. Annals.157-178. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. Richard and LEVICK.276-287. 81.).149-189. Richard. 2003. MILNOR. Translated by John Jackson. In: Reading Roman Women. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire. Sheila (ed. 1960. Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. CORBIER. 1998. Tácito e a metáfora da escravidão. Cambridge: Harvard University Press. Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. Stephen G. pp. p. The Cambridge Companion to The Roman Historians. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN.1. Sarah B. Nuno Simões. New York: Shocken books. Mireille. and MURNAGHAN. v. SALLER. In: FELDHERR.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. 1992. London: Routledge. and Slaves: Women in Antiquity. POMEROY. In: Goddesses. In: JOSHEL. 137 . Tacitus‘ Technique of Character Portrayal. DAITZ. Kristina. Richard. In: JOSHEL. pp. pp.). Sandra R. 1937. Gerión.

salvo entre as Musas. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. Professor de História Antiga. uma harpa de forma triangular. a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. as cenas que representam o trígōnon. registrada desde os primórdios da civilização suméria.NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática. De acordo com o registro arqueológico. parciais ou integrais. pela sua singularidade. A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais. 245 246 138 . da Universidade Federal de Pelotas. no terceiro milênio antes de nossa era. segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2). chamam-nos a atenção. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. Dr.

Fonte: SPYCKET. Museu Britânico. Londres. Fonte: SPYCKET. Londres. datado de 2600 a 2400. 1989 : 32-33. inv. 247 139 . com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖. mostra harpista animando banquete (detalhe). 1989: 34-35.2). Meados do terceiro milênio. Proveniente das tumbas reais de Ur. fig.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. 121199. Conforme Kátia Pozzer (2007: 147. ― uma caixa de madeira. Museu Britânico. em forma de cabeça de touro. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. recoberta de betume.MULHERES NA ANTIGUIDADE . serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. Acredita-se que este objeto. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247. conchas e calcário vermelho. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli.

Fonte: Foto do autor.). É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. inv. 3908. como um estrangeirismo. Alceu. Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. Mármore de Paros. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros. Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. 140 .C. 2800 a 2300 a. Proveniente de Keros. sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas. de fato. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica. Mas.NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). esse instrumento aparecia como uma novidade. mesmo nestes autores. a Safo. Anacreonte e Píndaro. ao final do século sétimo.

De modo geral. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. SNYDER. Museu aparece com freqüência associado às Musas. para Comotti. 1929. apontados ambos também como pai dele.)248. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. Na iconografia ática. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. Athenische Abteilung 54. e duas outras formas. o trígōnon. Os textos arcaicos e clássicos citavam. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento. 1989: 147-151. não angular. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. 1991.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros. Para West. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. o termo psaltría. 248 141 . seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos. Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. por sua vez. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional. a Apolo. 1992: 70-74. como membro da confraria musical divina. amante. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. A iconografia ática. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. a pēktís e a mágadis. três tipos de harpa. associado a Orfeu. p. 1983: 57-71. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. de quem seria filho. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. dispensando o uso do plêktron. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito. de quem seria aluno. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. então. a Tamiras. aluno ou mestre. MAAS. tais como Antiphemos ou Eumolpos. e a Linos. 1994: 304. por sua vez. termo derivado do verbo psállein. COMOTTI. Heinhard. ―Griechische Harfen‖. verbete ―Musée‖). requintes orientais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo Pierre Grimal. A cultura grega do período clássic o. 164-193.

636.249 Nessa mesma perspetiva. enquanto o professor. ―Life and Society in Classical Greece.‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre seis Musas (uma com lýra. aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas. Bib. Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo. Kýlix. sentado sobre um klismós. O. simboliza o jovem ateniense livre. numa kýlix de Paris. Oswyn. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). Oxford. está abrindo um rolo.Museu toca trígōnon. Tamiras toca kithára.) The Oxford History of the Classical World. olhando um díptykhos aberto. o pintor nos surpreende. 430-20. Em torno de 420-10. nu. p. The Education. De certa forma. É assim que encontramos Museu. (org.: MURRAY. Louvre. Atenas. encontramos uma pequena série de vasos áticos.NEA/UERJ e ao ambiente escolar.Fonte: Foto do autor. & MURRAY. J. 227. GRIFFIN. de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. J. Paris. Pýxis. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia. In: BOARDMAN. 19. comum nos vasos da segunda metade do século quinto. apresentando Museu com um trígōnon. Museu Nacional. Figura 4 . produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século. Figuras vermelhas. G 457. 249 142 . c/fig. outra com rolo) e Apolo. estudados por Giuliana Ricioni. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé..

(ARV² 1039/13. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação.1a-c. Ca.: MAAS.: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. ―cítara de berço‖ no campo. Berlim. Retornando à classificação organológica. Roma. usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos. SNYDER. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos. Figuras vermelhas. Para 443. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon. (ARV² 623/70bis. Descrição: Mousaios com lýra. tal qual às Musas. quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). 1989: 163. 1986: 730-744) 250. Terpsichore com pēktís. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto. 460-450. Pintor de Villa Giulia. Villa Giulia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 440. 2) Hydría. Staatliche Antikesammlungen. enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís. Figuras vermelhas. sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas. a harpa (RICCIONI. Bib.15.251 Hydría.NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. Para 398/70bis). Bib. Pintor de Peleu. 250 143 . fig. E 271. Melousa com aulós. 64917. 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora. 11. Add² 319) Londres. 2391. Museu Britânico. Figuras vermelhas. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. pr. à cultura e à educação. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras.

81392. fr. Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático. Séc. Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. fr. Em torno de 440. 2) Cratera em cálice. fr. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13). aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina. V. Metropolitan Museum of Arts.360. A representação do trígōnon. 42-Edmonds. indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. Eupolis. Figuras vermelhas. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. nos idos dos anos 430-20. Alabastro. Phérekrates.63. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. 1554. E 271. IV. 252 144 . Museo Nazionale. apesar da sincronia existente (Sófocles. Ruvo.6. ―cítara de berço‖ suspensa. Museo Nazionale.252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. Ápula. V e do séc.1a-c. constataremos um desacordo entre ambas. ao mesmo tempo. IV. 1. Séc. Figuras vermelhas. IV. IV. III I c.21. Boston. Séc. Nova Iorque. Ânfora. 3) Ânfora.Fonte: CVA Museu Britânico 3. Ápula. Figuras vermelhas. Lucaniana. 4) Oinokhóe. a harpa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figuras vermelhas. 77-Edmonds e Platão comediógrafo. Na iconografia ática do Estilo Clássico. Londres. Museu Britânico. figura iconográfica que. 11.10-14-Edmonds). Figuras vermelhas. Museum of Fine Arts. Final do séc. pr. Figuras vermelhas. 69. Nápoles. 412Pearson. Ápulo. IV. Séc. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc. Nápoles. Ápula. notadamente o trígōnon. Museo Archeologico. 00. 81953.

em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas. 2001). Jovem reclinado. a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas. casualmente. Nos textos coetâneos. esse exemplar foi consumido no mercado local.NEA/UERJ ―cidadãs‖. que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos.425-420 a.Banquete. datada de aproximadamente 425-20. no entanto. 2000: 36. inv. atribuída ao Pintor de Eretria. 145 . em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa. Fonte: Foto do autor. contra 165 exemplos catalogados. 1989: 150). junto com as cenas de kômos. da lýra (CERQUEIRA. Figura 6 . Figuras vermelhas. Museu Nacional. e. Pintor de Eretria. O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. 15308.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em mãos de uma cortesã. de longe. durante um sympósion. as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). Trata-se de uma khoûs ática. Khoûs ática. reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). SNYDER. Atenas.C. MAAS. Um único vaso. Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem.

Tocadoras de trígōnon. Alguns o associam à poesia trágica. 77-Edmonds). que registrei. fr. assim. bem como do týmpanon.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. 139-Edmonds).10-14-Edmonds). Eupolis. 253 146 . Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. conforme West (1992: 79). De qualquer modo. da psaltría. que trouxe novidades musicais e que recebeu. 63-64. nos textos antigos. 51. No último quartel do século quinto. fr. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes. as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion. termo frequentemente usado. não para ser tocada pelos convivas. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. como os demais. 14. Num outro fragmento de Eupolis. Assim.638. no único exemplo iconográfico. ásperos julgamentos morais. fr. uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco. 2009: 26-29. provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. associando-as à pecha da prostituição. 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. acompanhando as tradicionais aulētrídes. 69. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis. Ver: MILES.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Constitui-se. outros à comédia. 40.

332). diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. 16. cat. haja vista não haver relação alguma. 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation. 2001. afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização. cat.‖ 255 147 . however. em BUNDRICK. Lébēs gamikós. Sheramy D. cat. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. 334). As has been pointed out elsewhere. não correspondendo a uma situação cotidiana real.255 Esse argumento é improcedente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2001. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA.22. Metropolitan Museum of Art. cat. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing. 2001. 2001. Cerqueira. the standing position of the harpist also appears unlikely. cat. on MMA 16. Pintor do Banho (ARV2 1126/6. there are anomalies. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame.73 (CERQUEIRA. 1992. Fonte: West. whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. pr. 332.NEA/UERJ Figura 7 . Figuras vermelhas. em coerência com suas interpretações simbolistas.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair. 2001. Add2 332) Período: 430-20. Bundrick. 334) appear contrary to reality.73.

Efetivamente. por sua vez. tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa.2)256. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista. pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas. O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais. Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos.. A falta de exatidão no desenho do trígōnon. 148 . de modo geral. O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido.NEA/UERJ iconografia. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico. de uma situação social a outra. na categoria de musicista-cortesã. se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. o Pintor do Banho. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída.. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais. deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. no rol das prostitutas. deslizando de um grupo social a outro. entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. na medida em que não há referência literária alguma. Contudo. E. E. afinal. o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico. A disseminação da arte da harpa. a retrata como digna noiva ou esposa.

julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. lekanídēs. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. alábastroi. a forte associação simbólica da harpa às Musas. indica seguramente a 149 . de outro lado. como o quer Bundrick. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. 1938: 366-369). a kithára e o aulós. É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. como aquele da Magna Grécia? Ora. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. a forte associação simbólica do aulós à prostituição. SNYDER. por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto.NEA/UERJ ático o fez. cofres. não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía. não o representarem. os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas. mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa. na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 181-182). que passava a ser a sua (ZEVI. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. antes ou depois dele. com a única exceção do Pintor de Eretria. mesmo que idealizado. Com base nessas considerações. como ocorreu com a lýra. apesar de os pintores. nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida.

Seguramente. na outra. 2001. temos. Por um lado. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira. A figura central está sentada sobre um klismós. cat. cat. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. a noiva aparece retratada como harpista. ela está sentada sobre o leito nupcial. 334) apresentam a harpista numa situação diferente. Por outro. assim. Ela está desconfortavelmente de pé. ela já era considerada esposa. como é comum nessa forma de superfície cilíndrica. 2001. Já no lébēs de Atenas (Figura 8). porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon. o banquete. Enfim.NEA/UERJ epaulía. 1995: 226).1-3). quando. para uma noiva. ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. 1972. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). pr. na manhã após a noite de núpcias. flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. a anakalyptēría. alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. 150 . ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. E. 1995: 225). Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría. na terceira cena.MULHERES NA ANTIGUIDADE . No caso da pýxis. tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada. não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. mesmo não retratando o momento da epaulía. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder. a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. Todavia. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias. como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. Essa análise. sua presença traria outras conotações. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. 6. O vaso de Würzburg. cenas seqüenciadas. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. acompanhada por outra moça.

8. a lýra. Museu Nacional. Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía. 2001. Os pintores mais criativos e requisitados. Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420. Figuras vermelhas. Fonte: Foto do autor. fig. Preparativos para casamento ou recepção de presentes. 24. cat. procuravam fazer variações temáticas. a recepção de presentes. 2000.Mulheres no gineceu. especificamente o bárbitos. o aulós. evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais.Atenas. a phórminx 151 . cat. Bundrick. Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. 334. presentes para a noiva. Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina. A cena traz claramente uma representação da apaulía.Fonte: Cerqueira. a noiva poderia saber tocar algum instrumento. Mulher toca harpa de pé.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Figura 8 . retratada aqui como aulētrís. Lébēs gamikós. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva. 14791 (1171). chegando o momento de se casar. como o talentoso Pintor do Banho.

sugere que. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. A principal convergência é a vinculação da harpa. mais que isso. constatamos. Considerações finais A harpa. As convergências param por aí. terracotas). apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu. De resto. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos. ao feminino. à lýra. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. na Atenas da época do Pintor do Banho. comparativamente ao aulós. foi um instrumento menos usual. a pēktís e a mágadis). na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A iconografia sugere que. entre os gregos. associado às Musas (Figura 4).NEA/UERJ ou o trígōnon. em uma pýxis do Pintor de Meidias. tocado pela própria noiva ou por uma convidada. à kithára ou ao bárbitos. Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. como um estrangeirismo. tocando harpa. é um instrumento para ser tocado por mulheres. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista). contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias. em certos contextos sociais. A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura. na cultura grega. a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa. nos últimos anos do século quinto. pintura de vasos. a existência de convergências e divergências. Todavia. a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. É interessante observar que. por via de regra. 152 . A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina.

caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. é tocado por alguma Musa. podemos dizer que a harpa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no ambiente mitológico. Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. mulheres bem-nascidas. tão logo se espalhou entre os atenienses. para os pintores de vasos áticos. nunca aparece. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa. retratado no ambiente do gineceu. ainda. no caso. 2001: 198). O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8). de que tanto nos falam os textos. De outro lado. em Atenas.NEA/UERJ ambiente. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. é tocado tanto pelo personagem central. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. No gineceu. tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . nas últimas décadas do século quinto. até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. na cerâmica ática conhecida por nós. no ambiente humano. inclusive durante os festejos da epaulía. Assim. em seus divertimentos no gineceu. de uma psaltría. a dignidade do gineceu e das Musas. com a exceção de Museu. CERQUEIRA. A pēktís. foi vista como um instrumento refinado. na pinturas de vasos. quanto por um personagem secundário. é sobretudo um instrumento do gineceu. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. Constata-se. No ambiente mitológico. a indignidade da prostituição. uma cortesã-harpista. Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos.2. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). e das Musas. uma pēktís – trata-se portanto. De fato. por sua vez. entre os pintores de vasos áticos.

NEA/UERJ parentes. Ao mesmo tempo. Finalmente. como instrumento para entretenimento no gineceu. possibilitou-nos ver a cristalização. O estudo da harpa nos permitiu. que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. 154 . de outro. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim. entre as mulheres bem-nascidas. fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. No entanto. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. entre os gregos. sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto. a comparação com a cerâmica italiota. O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos. Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural. identificando convergências e divergências. Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses. da harpa como instrumento feminino. indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido.

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NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil. faz parte de seu papel socialmente construído. Assim. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo. sob orientação da Profa. sobretudo das individualidades desse sexo. O debate crítico acerca da História das Mulheres.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense. Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof. tem seu perfil construído ao longo da história. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS. Renata Senna Garraffoni. Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino. Portanto. 1990: 7). como proposto por uma historiografia tradicional. fruto da busca de novos campos de interesse da História. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente.C. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto.) Prof. que. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Essa mudança. resultou no aparecimento do termo Gênero. 1550-1070 A. Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR. Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT. para a historiadora Joan Scott. longe de ser tratado como vítima.com 258 157 . Assim. gsbalthazar@gmail. lilianemeryt@hotmail. Dra. que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica.

a experiência de um sexo. ou nada. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens. as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado..). determinar a existência de sociedades ginecocráticas.260 Leiam-se. tenha muito pouco. a ver com o outro sexo‖ (SCOTT. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais. tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito.. até o final do século XX. De fato. 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana.. (LESKO. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia. a aparente proeminência das mulheres egípcias. Para além desses aspectos. por exemplo. ou melhor.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖. E é nesse contexto.. que ―(. o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖. Nessa premissa.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT. 1990: 16).) assim se apresentava a mulher egípcia. sendo resultado de uma criação masculina. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais.. a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado. 260 158 . que. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada. na Antiguidade. portanto. desde a origem. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos.. 1990: 07).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim. (.

Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). Nesse contexto. por exemplo. é uma clara recorrência a uma história das origens. onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher.NEA/UERJ Esse pensamento. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. como o da inglesa Gay Robins. concedidas às mulheres de sangue real. essa linha historiográfica entende. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação. e a matrilinearidade. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real. como foi o caso do Egito. onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina. Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. em especial pelas mães. Acredita-se. que refutam tais teorias. um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. ou ―teoria da herdeira‖. originado no seio dos estudos feministas. Para tanto. Há trabalhos. que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. corroboram com este processo matrilinear. No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. Nessa perspectiva. em um estudo sobre a XVIII Dinastia. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. 1996: 23-24). Por fim. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. nessa perspectiva. contudo. A egiptóloga. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .

precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER. mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. é importante ter em mente que. as mulheres [egípcias]. a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA. Assim. segundo Liliane Coelho. p. 2008: 65). Sendo assim. Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino.. 2005: 205). contudo. Jaromir.261 são provenientes de diferentes contextos. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. embora respeitadas como membros da família.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as representações humanas. John & MÁLEK. 261 160 . iconográficas e textuais). De fato. Nessa perspectiva. é importante entender que. foram produzidas pela elite masculina egípcia.C. na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico. 1980. assim como nas outras fases da vida. Atlas of Ancient Egypt. no Egito antigo. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres. mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. tradicionalmente datada de c. 30-52. 3000-332 a. Oxford: Phaidon.

2009: 162).C.NEA/UERJ por homens.. 2040-1640 a. Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. . e desta maneira. ao ser produzida por homens. do que construir uma tumba em uma necrópole. e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos. por exemplo. retirado do Papiro Chester Beatty IV. associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente. e que reflete o ponto de vista masculino. formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios.). inclusive. Durante o Reino Novo (c. 161 .) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. por meio de cópias. e as composições desta época. A mulher era sempre representada de maneira ideal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A literatura. de maneira contínua. ao longo dos períodos históricos que se sucederam. O Reino Médio (c. a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO. em conjunto com aquelas do Reino Novo.C. traduz uma visão idealiza do feminino. Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. O objetivo deste trabalho. 15501070 a.que prediziam o que estava por vir. Segundo a visão de mundo egípcia. entretanto. que as traduziram e revelaram ao público atual. é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade.. assim como a arte. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia. Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia. já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. seus nomes durarão para sempre. até chegarmos ao Reino Novo. foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor. então.

Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu. que escreveram.Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido. dependendo da função à qual se aplica o texto. segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê. seu cadáver vira pó. (ARAÚJO. . 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo.. foram eternizados por meio do texto escrito. 262 162 . Mitos e Lendas: Antigo Egipto. literatura gnômica. todos os seus contemporâneos perecem. mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. . enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖.NEA/UERJ embora tivessem partido. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO.. Lisboa: Livros e Livros. analisamos composições que podem ser classificadas.. 2005. filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO. crianças que conservassem seu nome.MULHERES NA ANTIGUIDADE . .Um homem morre. por fim. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas. gênero do qual fazem parte os poemas de amor. 2000: 280). Luís Manuel de.Eles não planejaram deixar herdeiros.. Os nomes de Senu e de seu pai. ou a nota final de um texto. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. Dentro da literatura fantástica. Tendo em vista tais considerações. que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários. para este artigo. Em um dos contos do Papiro Westcar262. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes. e. como literatura fantástica. a literatura lírica. tendo completado sua vida.. assim. As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras..

respondendo que a considerava como uma mãe. no entanto. cujo nome não é citado. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. e eles sumiram para sempre. Avisado pelo jardineiro. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse. foi castigada. Anpu voltou para casa. e seguiu seu caminho. Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. assim como na história de Ubaoner. e a esposa deste. O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. na estação da semeadura. datado do final da XIX Dinastia.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. Bata negou-se. Bata vivia com seu irmão mais velho. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. O sacerdote. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. Quando saía da propriedade. Certo dia. o levou para o fundo. Nesta história. A mulher. sendo perseguido por Anpu. 263 163 . após a explicação do ocorrido ao faraó. Anpu. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. associada ao adultério. Bata foi interpelado pela cunhada. A mulher. que o servidor deveria colocar no lago do jardim. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. transformado em um animal de verdade. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes. Furioso com a atitude de sua mulher. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. Certo dia. que passara um tempo com o faraó.

Sahure e Neferirkare –. Bata a avisou que não se aproximasse do mar. que era um bem precioso para os antigos egípcios. no mesmo conto. então. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. filhos de Ra. que mentira a respeito do artefato. foi perdido. Néftis. e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. Ra enviou as deusas Ísis. Nesta história. No conto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . após muitas transfigurações. Em ―O nascimento dos príncipes‖. Temos. nas três situações ilustradas nestes contos. Falsidade. Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela. o faraó pesou em matar Bata. para auxiliar a mulher na hora do parto. Ao final do conto. Em outro conto do Papiro Westcar. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este.NEA/UERJ Em outro momento. contudo. sem uma autorização do marido. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. já que este poderia ir atrás da esposa. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. Meskhenet e Heket. A mulher. Depois de levá-la consigo. por sua vez. é narrada a história de Reddjedet. no entanto. pois as consequências poderiam ser trágicas. a mulher aparece como a mãe e provedora. Apaixonado por ela. mas certo dia. composição que data da XIX Dinastia. que foi deixado propositalmente na casa por elas. Reddjedet. O final da história. Assim. desobedecendo às ordens do marido. mãe e provedora. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. 164 . no entanto. e que por isso acabaram punidas. acompanhadas por Khnum. pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. é apresentada a imagem da mulher ideal.

às mulheres desconhecidas. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada. Sabendo da verdade. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. a mulher é mostrada como a mãe protetora. e no qual foi encontrado por uma mulher. pois ―. são outras: nestes casos. Nos dois. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any. e deveria ser sempre um 165 .. deveria ser bem nutrida. aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―. ela aparece como o ideal feminino. Nos dois últimos casos. no entanto. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. porém. onde ficou protegido. também. Verdade e a mulher tiveram um filho. já rapaz.. a mulher apresenta uma falha: no primeiro. desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade.. segundo ele. 2001: 35). por não revelar..) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias.NEA/UERJ mas. não a conheça carnalmente (. Verdade foi então abandonado num local rochoso. 2000: 251-252). com o tempo.. não a fixe quando ela passa. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens.. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. no segundo. Juntos. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa. Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada. em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO... A esposa.) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. por exemplo. sejam elas esposas. quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor. O comportamento mais marcante. 2000: 252). de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha.‖ (ARAÚJO. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e. é o da mãe. neste caso. Ptah-hotep. este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo. que só soube quem era seu pai muito tempo depois. alguém não conhecida na sua cidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

. então. deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO. e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. assim. Comportamentos que não devem ser seguidos. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep. Por último. contudo: ―não a julgues. Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. na literatura gnômica. 166 . assim como elas. Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher. Para ele. Trata-se de uma comparação feita por Khéti. na ―Sátira das Profissões‖. não deveriam ocupar posições de poder. 2000: 252). Ptah-hotep aconselha. é marcada pela idealização. Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa. e aparece. a mulher aparece como sofredora.) –. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele. (mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO. 2000: 256-257). a mulher deveria servir ao homem. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS. da vida após a morte. As concubinas. tal qual o das esposas e. também mereciam um tratamento especial. para este sábio. 2001: 35). 2000: 221). Fica demonstrado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ou seja. produzidos por homens. assim.NEA/UERJ exemplo a ser seguido. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada. consequentemente. 1640-1550 a. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e. Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c. alegre e conhecida pelos de sua cidade (. que a imagem feminina nos textos. não a repilas. mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. no início do Reino Novo.C.. Em apenas um caso analisado.) Sê bom para ela (durante) algum tempo.

constroem uma imagem idealizada da mulher –. traduzindo emoções.NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite. como os textos analisados anteriormente. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado. Posener (apud ARAÚJO. do Museu Egípcio de Turim. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 . tais como espaços e objetos construídos. e poemas de fala feminina. a que aqui se refere. As sensibilidades. Portanto. discursos. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. Os amantes nunca se tratam pelo nome. 2007: 226). que apresentam uma linguagem mais refinada. mas eles transmitem. pautada nesta distinção. sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. divide-os em poemas de fala masculina. Barbara Lesko. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. a sensibilidade feminina de maneira aguçada. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. são sutis e difíceis de capturar. por meio de práticas sociais. nestes casos. 2000: 302). atualmente em Dublin. As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco. A literatura. a saber: Papiro Chester Beatty I. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. tão em voga neste período. ou do homem ou da mulher. Papiro Harris 500. e Óstraco do Cairo 1266+25218. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. imagens e materialidades. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301). 2007: 10). conservado no Museu Britânico. Papiro Turim 1996. 2000: 302) argumenta que os banquetes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por sua vez. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. chamando a atenção.

se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados. medos..) às manifestações do pensamento ou do espírito. como é visível no sexto poema do conjunto. percepções sobre o mundo e é. narrativa. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz. neste caso específico os Poemas de Amor. Deste modo. 2000: 308-9). sensibilidades. apreensões. no quarto poema do mesmo conjunto.. contudo. Tais sentimentos. em sua maioria velado e platônico.... Deusa de Ouro. 2000: 304). sensibilidades que correspondem ―(. 2000: 307)..MULHERES NA ANTIGUIDADE . também faz com que o ―coração palpite‖. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó.NEA/UERJ anseios. e por isso pede ―ó. como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. o que desperta nela ―extrema alegria‖.. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. eu o beijarei na frente dos que o cercam (. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento.)‖ (ARAÚJO. é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. 2007: 10). Esta urgência. seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. Assim. deviam ser velados. as fontes literárias. De fato. que o simples fato de pensar no homem amado. ao contrário das masculinas.).) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖.. 2000: 307). meu coração. 168 . vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. traduzem um amor sensível. não palpites‖ (ARAÚJO. pois. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO. da necessidade da presença do ―irmão‖. Observa-se. as falas femininas dos Poemas de Amor. 2000: 306). ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (. Ó. o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO. também. pois a mulher espera que ―(. onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado. pelas quais aquela relação originária é organizada.

e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. Desta forma. ao contrário. antes de qualquer coisa. por mais ‗insubstancial‘ que seja. servindo-te meu amor‖. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. 2000: 317). portanto. 264 169 . o estudo destes poemas. 2000: 317). tão repleto de sentido. E. a vida de todo homem. daquele ―insignificante‖. ao capturar um pássaro do Punt. 2000: 316). utilizados na época. Pretende. do Papiro Harris 500. Nela. colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. compreende-se. não há nenhum homem. de sua personalidade. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. seu gosto pelo detalhe fútil. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). pois ―Todos a vivem. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. Nesse sentido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. idéias e ideologias‖. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico.NEA/UERJ Os Poemas de Amor. sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO. com seu tom de confidência. paixões. na mulher do quinto poema. que viva tão somente na cotidianidade. tê-lo ―como esposo. de sua singularidade. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. que a vida cotidiana é. Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. com o teu braço no meu braço. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. quando o amor faz surgir. é a vida do homem inteiro. Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). Na linguagem comum. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade. ou seja. embora essa o absorva preponderantemente.

325). 1995: 99). dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo. ―Ao invocá-la. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996. por exemplo. a música. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. 2000: 323). cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. A aflição do amor não correspondido. travestida em preces à deusa Hator265. O resultado foi uma multifacetada deusa. cultuo sua majestade. acima citado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . venero Hator. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. meu irmão. (. particularmente para as mulheres (ROBINS. cuja fala se direciona ao casal. 265 170 . explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. contado por um sicômoro. segue-se o pedido. personalidades e funções. Neste. que esperavam. se faz presente no cotidiano dos egípcios. a maioria dos poemas é de fala masculina. contudo. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. o amor. Percebe-se. O terceiro poema. a dança. 2000: 306) e. louvo a Senhora do Céu.NEA/UERJ A religiosidade.). pois incorpora diversas características. Ó.. bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. e este se estendeu durante todo o período faraônico.. a saber. De todas as fontes que contêm estes poemas. em tal poema. a sexualidade. meu irmão. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. O quinto poema. a magia. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante. Logo. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. a sutil sensualidade da conquista. que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. vem. Neste. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços. por exemplo. a fertilidade e o nascimento. após. 2000. traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. meu amor. olha para mim!‖ (ARAÚJO. cada poema começa com o nome de uma árvore.

contudo. tão distantes temporalmente de nós. O que demonstra que. Consequentemente. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas. sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto.. Sergio Donadoni (1994: 217). expressas nos Poemas de Amor. De fato. pela localização das cidades em zonas de inundação. há cerca de seis mil anos. é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. acerca dos Poemas de Amor de fala feminina. o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (. ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. mas. percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. A crença egípcia na vida após a morte. espero por aquele que me despreza‖. como os monumentos e a literatura. comumente. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo. por sua cultura singular. as múltiplas formas de sensibilidades. marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. ouvidos atentos. às vezes.). transmitida por testemunhos de várias ordens. As diversas formas de enterramento. as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. 2009: 12). sentimento este capaz de resistir aos séculos. por exemplo. como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim. de maneira geral.NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO. revelam como estas mulheres. a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. Em outras palavras. em especial. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. isto é. 2000: 305). evidencia sensibilidades passadas. 2000: 319). Olhos na estrada. Este estudo. ainda hoje.. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. o que ocasionou o seu desaparecimento. mantendo-se.

que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. com o presente texto. entende-se. Assim. ou melhor.NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. tentar entender as sensibilidades. Em suma: (.. Portanto. Nesse sentido. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI. 172 . 1994: 12). faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I. ao contrário da tendência apontada por Donadoni. Pensar nas sensibilidades. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. a análise dos poemas de amor. ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. das trajetórias de vida. a fala feminina. implícitas nas entrelinhas dos poemas. com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário. se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. Nessa premissa. consequentemente. como as pirâmides e os textos funerários. e.. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO. Assim.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos. enfim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inscrita nos poemas aqui analisados. 2003: 58). com o seu cotidiano. um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. no caso. Portanto. que ressalta a paixão pela vida.

(Dissertação de Mestrado) DONADONI. BALTHAZAR. O Homem Egípcio. Júlia S. Sergio.NEA/UERJ Ó. O Cotidiano e a História. In: SILVA. 2009. São Paulo: Paz e Terra. 1996. príncipe do meu coração! Tão doces são as horas com você. HELLER. Christiane. Campinas: Papirus. Escrito para a Eternidade: A Literatura no Egito Faraônico. Porto Alegre: FFCH-PUCRS. MATOS. 2010.3. BUTLER. Providence: Scribe. Margaret Marchiori. 2009. Oxford: Phaidon. LESKO. Atlas of Ancient Egypt. BAKOS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (Monografia de Bacharelado) ______. Recto 7. Luís Manuel de. John & MÁLEK. 1996: 45) DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL ARAÚJO. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAINES. In: DONADONI. Niterói: UFF. 1980. Elas fluem de mim para a eternidade. 2010. Ensaios sobre Plutarco: Leituras LatinoAmericanas. Margaret M. BALTHAZAR. Liliane Cristina. 2001. Plutarco e Cleópatra. Cleópatra. Mitos e Lendas: Antigo Egipto. pp. 1994. Na tristeza e na alegria. 2008. 1994. ARAÚJO. Jaromir. LESKO. Fábio Vergara. Sergio. Pelotas: Editora da UFPel. Começa quando deito com você.C. Fatos e Mitos do Antigo Egito. 2000. The Remarkable Women of Ancient Egypt. A Mulher no Reino Médio (c. Judith.). 2005. Diálogos com o Mundo Faraônico. Vida Pública e Vida Privada no Egito do Reino Médio (c. Rio Grande: Editora da FURG. In: BAKOS. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Gregory S. Agnes. COELHO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Gregory da Silva. ______. NOBLECOURT. 2040-1640 a. Barbara. Você exaltou meu coração (Papyrus Chester Beatty I. 173 . Poder e Sedução: A Imagem Através do Tempo. Lisboa: Livros e Livros. 215-136. Porto Alegre: EdIPUCRS. O Morto. Maria Aparecida de Oliveira & CERQUEIRA. Emanuel. Brasília: UNB. 2008. 2040-1640).. A Mulher no Tempo dos Faraós.. Lisboa: Editora Presença.

2005. 174 . Niterói: UFF. Gênero: Uma Categoria Útil de Análise Histórica. Haydée..NEA/UERJ OLIVEIRA. jul/dez. 1990. Sandra Jatahy e LANGUE. Frédérique.C. Gay. nº 16. Esposa Irmã: Um Estudo Iconográfico acerca da condição da Mulher no Antigo Egito Durante a XIX Dinastia (1307-1196 a. Joan. 2007.C. Women in Ancient Egypt.). (Tese de Doutorado). ROBINS. PESAVENTO. Sandra J. Filha. WATTERSOM. Cambridge: Harvard University Press. Amanda B. Niterói: UFF. WIEDEMANN. Mãe. Women in Ancient Egypt. 1996. Educação e Realidade. Singulares e Identidades Sociais. vº 2. Porto Alegre: Editora da UFRGS. 2007. A Questão do Gênero na Literatura Egípcia do IIº Milênio a. pp. 5-22. Bárbara. Reflections of Woman in the New Kindom : Ancient Egyptian Art from the British Museum. O Caso de Deir el-Medina. SCOTT.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Porto Alegre. Sensibilidades na História: Memórias. 1998. Sensibilidades: Escrita e Leitura da Alma PESAVENTO. (Tese de Doutorado). 1995. Van Siclen Books: San Antonio. London: Wrens Park. ______.

que gerou incontáveis interpretações e releituras. Desde os relatos bíblicos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof. também. principalmente. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética. escritora. complementares uma da outra. É falso. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ. compõem um acervo da ordem do fantástico.com 266 175 . Literaturas e Cultura Judaica (USP). presumir que o Talmud não é.com. Um corpus de lendas. mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). NEA -UERJ.br ou janebg@hotmail. pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado. a do racionalismo . sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá. oposta ao conhecimento. mesclado de misticismo e obscuridade. Anjos. alegoricamente. janeglasman@terra. ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. por duas tendências principais. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário. Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga. (GLASMAN.representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI. em 9 de novembro de 2010. A mais preponderante tem sido sem dúvida.ª Dr. milagres. A diferença entre as duas correntes reside. encontramos mitos e lendas que. A outra é a do misticismo. fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. através de sua longa história. porém. 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica. na ênfase dada à lógica e à mágica‖.

tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. Lilith e Dibuk. Na Suméria. Lilith. Seus peitos são cheios de veneno. A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu. através do misticismo judaico. depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. do raio e do trovão). uma personagem bastante controversa. Suas origens remontam à demonologia babilônica. O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. Ela é. Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite.000 anos Lilith tem vagado pela terra. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. a raiz Lil. que significa vento. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a. no nome de Enlil (deus sumério do Ar. era 2/3 deus e 1/3 humano. e autor de feitos sobre-humanos. protagonizando a literatura da Cabalá. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. C. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. artistas e poetas. Segundo o mito. por exemplo. aparece. não leite.268 Na etimologia hebraica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . figurando nas imaginações míticas de escritores.NEA/UERJ personagens como o Golem. 268 176 . sem dúvida. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. senhor das tempestades. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. o nascimento de um mito Há 4. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana. Os relatos de sua biografia são contraditórios. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças.

o bravo Gilgamesh mata a serpente. Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. Os planos de Inana quase são frustrados. Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. 1938. Em seu jardim às margens do Rio Eufrates. fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto". O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . conhecida como o Relevo Burney. de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney. Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro).. deusa do amor. a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro).C. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. no entanto." Gilgamesh corre para ajudar Inana.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco. identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ambos empregados Traduzi de Kramer. sumério ou assírio. quando um vil triunvirato se apodera da árvore. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica. ‖269 Usando armadura pesada. do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. Neste baixo-relevo em terracota. datado de cerca de 1950 a.NEA/UERJ Num episódio.

Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder.C. como muitos deuses de povos vencidos.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. teria sido transformada em demônio em época posterior. acadêmicos identificaram a figura como Inana. 272 Mais recentemente. Porém. British Museum). IX a.C. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta. no topo da Estela de Hamurábi (séc. Além disso. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). XVIII a. Em primitivos encantamentos contra Lilith. Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes.NEA/UERJ em cerimônias religiosas. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. aparentemente curvando-os à sua vontade. séc. Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos. um modo convencional de transporte para residentes do submundo. sabemos que ela é uma deusa. O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. que integra atualmente o acervo do Louvre272. Afinal. por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura. ela voa com asas de demônio. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. Datando do oitavo ou sétimo século a. ao que parece. 271 178 . há uma placa de parede de pedra calcária.C. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas.

No texto bíblico Na Bíblia. referidos frequentemente como Primeiro Isaias. ela temeria ser reconhecida e partiria.‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais). e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. No Capítulo 34. אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ . A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith. ela é mencionada só uma vez." (Isaias 34: 14). se Lilith visse seu nome escrito na placa. por exemplo. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas. e achará pouso para si. pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. egípcios.C. que contém uma menção horrível de Lilith. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos. na Síria.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. Fez uma aparência solitária na Bíblia.povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação. Por todo o livro. que migrou para o mundo dos antigos hititas. uma demônia foi creditada como responsável. Em situações críticas na vida da mulher. Com o tempo. perda da virgindade ou parto . A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança. podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. em 1933. O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos. os primeiros 39 capítulos do livro. Presumivelmente. e Lilith descansará ali. israelitas e gregos. em Isaias 34. casamento. ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias.menarca.NEA/UERJ pedra‖ em turco). 179 . De acordo com este poema apocalíptico poderoso.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil. As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor.

enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica. criatura da noite e bruxa273. então se'ir é uma espécie de demônio. mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. se'ir é um bode.NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. Talvez dada a sua longa associação à noite.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. 273 180 . não havendo menção da coruja. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. mas a situa em lugares desolados. como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono). se lilith é um animal indeterminado. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith. traduz lilith como "o pio da coruja". a Versão King James. A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith. comparativamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tradução inglesa da bíblia. Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto". A seita de Qumran absorveu demonologia. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. e Lilith aparece na Canção para um Sábio. esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖. demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. Se lilith é uma demônia. As traduções também diferem para se'ir: é bode. O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física.

. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. demônios. 10..). e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções. no singular.C. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas.NEA/UERJ ―E Eu.. corujas e chacais. ao contrário de Isaias. somente porções do mesmo em inúmeras passagens. Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural. Quando. após o cativeiro da Babilônia no século VI a. frequentemente apenas de versos individuais ou de partes. tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. 11. Provavelmente não é apenas uma licença poética. Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. o Sábio. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. Liliths. O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag.4-6a // frag. mais ou menos literal. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto. 274 275 181 . e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu.

pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante. O demônio feminino da noite é Lilith. Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. expulsando-os nus. Lilith atacava mesmo os homens casados e. Adão transtornado separa-se de Eva. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. circundada por um texto profilático em aramaico. também souberam de Lilith. E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. noite adentro.NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). As referências talmúdicas a Lilith são poucas. mostram em que pessoas comuns acreditavam. De acordo com folclore popular. demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a).C. como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. 182 . de cerca de 600 d. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth.. Babilônia. o Talmud informa. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado. Por vezes. os vasos de encantamento. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. para combatê-la. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio. espíritos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b). os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas.

Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico. Invocando o nome de Deus. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações. É uma coleção de provérbios e máximas. Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos. enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos. ela recebeu características novas e mais sinistras. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. pode voar e tem atração por sexo. Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original.NEA/UERJ matavam crianças humanas. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Entre os séculos VIII e X d. no entanto. Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem.. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi. O jovem filho do rei está doente. que causam doença e morte. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus. É um texto anônimo. correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico. embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga. antes de Eva. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. depois que um erudito inglês. considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs. Solomon Shechter. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). como Lilith. 277 183 . Neste vaso em particular. com 22 episódios. teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. como os da Literatura bíblica de Sabedoria.C. Na Idade Média. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. Até certo ponto.

NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu. Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus. Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. Lilith foge para espaços desertos. Deus forma outra pessoa da terra. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". uma fêmea chamada Lilith. Então Lilith alça vôo e vai-se.A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. adm (Adam = Adão. Lilith. Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. o nome inefável do Senhor. associado com a raiz hebraica de "ser". O nome de Deus YHWH. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. No Alfabeto. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado. Lilith ganha 184 . Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas. mas nenhum realmente ouve o outro. Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. Logo o casal humano começa a discutir. no Dia da Expiação. por outro lado. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. não tenta dominar ninguém. Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. Em teologia e prática judaica. A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico. mas ele insiste que este é seu lugar. eles são semelhantes em importância. Durante os dias do Templo de Jerusalém. adamah = terra). tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus.

animais e finalmente a mulher. Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. No fim. Quando eles a encontram no Mar Vermelho. Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). Para GAINES (2009). ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal. Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. formando a mulher de uma costela sua.NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. Mas mesmo sendo quem parte. que a aprova e a nomeia Eva.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seguido por plantas. o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. sem reconciliar. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. Uma interpretação tradicional desta 185 . no entanto. Em Gênesis 2. os seres vivos aparecem numa ordem específica. Ironicamente. Deus apresenta a mulher a Adão. homem é criado primeiramente. O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. é ela que se sente rejeitada e zangada. animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). mas também uma mãe incrivelmente fértil. Aparentemente. ambos perdem. Para que os anjos não a afoguem no mar. A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. plantas. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). Em Gênesis 1. ela se recusa a retornar ao Éden. reivindicando que foi criada para ferir crianças. forjando um acordo com Deus e os anjos. Três anjos são enviados à procura de Lilith. Nesta versão. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças.

Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico). O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. flatulência e cópula por animais. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas. A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva. Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden. ridiculariza a Bíblia. apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada. de todos os mitos de Lilith.NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas. no entanto. Neste contexto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época. De fato. 186 . comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. no fim. sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada. o Talmud e outras exegeses rabínicas. é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. outra vez da costela do homem . Por esta razão. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história.então devem ter sido duas mulheres. a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação. usando fontes anteriores. Deus cria a mulher duas vezes . Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar.uma vez com homem. compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico.

inspira sua luxúria. macho e fêmea Ele os criou"). à imagem de Deus Ele criou-o. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. chamada Samael ou Asmodeus. concebe suas crianças e então as infecta com doença. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b). que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). Esta porção desprendida é "a Lilith original. 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. É associado com Satã. e a interpretação desta passagem no Talmud. Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. A porção feminina do ser humano era unida no lado. como os tratamentos anteriores de Lilith. a vê como uma sedutora de homens inocentes. também aparece no Talmud. A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith. Lilith vai-se embora. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. A Shekhiná. mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal." em Gênesis 1: 27.MULHERES NA ANTIGUIDADE . chamado Shekhiná279. Em vários pontos. Se a Shekhiná é a mãe de Israel. então Lilith é a mãe da apostasia de Israel. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios. O Zohar.NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele". 279 187 . No Zohar. Adão é uma de suas vítimas. a serpente e o líder dos anjos caídos.

devoradora de crianças. outro testamento ao poder duradouro da demônio. Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. John Keats. Dante Gabriel Rossetti. em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos. depravação. a emprestar-lhe uma forma de réptil. 280 188 . por exemplo. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão. Lilith e Eva". noturna. Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus. homossexualidade e vampirismo. Podemos citar os nomes de Goethe. John Collier. quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. e causa grande tristeza a Deus. a cobra. Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. etc. na literatura e nas artes. causadora pragas. Robert Browning. através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280. Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden.

org:80/e-features/lilith. com efeito. New York: Schocken Books.bibarch. Assyriological Studies 10. quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal. Rio de Janeiro. 35–49. ano II. jan/jun 98.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem. Gershom. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. pp. 1938. 17 vols. ISTARJ. London: Soncino. 1993. À medida que crescemos e mudamos com os milênios. Samuel N. 1948. 189 . vol. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher. Esta criatura alada da noite é. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. Com comentários de Rashi. 1963. GAINES. Lilith: Seductress. pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada. Isidore Epstein. São Paulo: Trejger Editores. Janet Howe.D. Eisenstein. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review. 1998. CHUMASH. trans. on line http://www.asp acesso em 21/5/09. GLASMAN. 1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J. Zohar: The Book of Splendor. Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. KRAMER. Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. Jane Bichmacher de. March/April 2009. SCHOLEM. Bíblia. 1915). em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. Chicago: University of Chicago.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Revista IDEA. As peregrinações de Lilith continuam hoje. nº 2.

Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity). Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe.C. Momento em que a mulher. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. apesar da inconstância. Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr). apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes. Entretanto. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a. Dr. e 30 a. 19a e 20a dinastias.NEA/UERJ SENHORA DA CASA. notadamente membros da família real. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida. Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. Seja estando a frente. 281 190 . O segundo como divindade. do Núcleo de Estudos em História Medieval. Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG. tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale). Coord. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Assim sendo. ou seja.C.) nos concentraremos principalmente na 18a. O primeiro. o que Prof.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). Por último a mulher na condição de monarca. de um modo geral. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba.C. entre 1550 e 1070 a.

Elemento igualmente interessante era o matrimônio. Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. rainhas ou parentes próximos). 1993: 2). pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito. tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. 2000: 104). Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar. Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas. Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento. com o general Horemheb que assim. De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim. esposa do faraó Akhenaton —. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento.NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. Assim sendo. mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA. Assim sendo. todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 .

1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro. mas sou como ele. 192 .C. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134).) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz. perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO. Assim. Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. Por outro lado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . é possível. através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO. senão já teria escrito à minha mãe. Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele.NEA/UERJ VIII a. 2000: 301-330).C. De fato ele é um tolo. o tormento apodera-se de mim. Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum.). Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores. Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. seja ele masculino ou feminino. sou tomada pelo amor que sinto por ele. Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras. Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele.

Em certa medida não é tão diferente de hoje. meu pai e minha mãe ficarão encantados. cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. 1990:5). Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. sobretudo. mas 193 . bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios. ó meu irmão (ARAUJO. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. É claro que a posição social. as causas poderiam ser relativas ao adultério. pode não configurar uma prática de contratos sem amor. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos. cuidava do lar e dos filhos. mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro. entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. Ou mesmo ―escolhendo-o‖. A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo. toda minha família te aclamará em uníssono. ―sair para fazer compras‖. quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. meu irmão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio. e como tal. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. que no caso da mulher. para que contemple tua beleza. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. eles te aclamarão.NEA/UERJ Ó. Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. 1990:5). algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia.). (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt). pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. 194 . o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância. cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos. Mênfis. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos. 2400 a. Assim sendo. Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso. Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO. Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. Apesar de raros. mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas. Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt). mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos.NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia.C.

Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar. característica específica de deuses como Ra/Atum. o que confere um poder significativo a Isis. Tebas e Elefantina. 2000: 93). Assim sendo. Em outro mito. 195 . através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. neste contexto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. e Tefnut. foi posto um fim a destruição (GRALHA. o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. o poder de Ra. Ou seja. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. Ptah.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e. este casal gera Osíris e Isis. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade. no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. obtém do deus Ra seu nome secreto. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. Thot. O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. pois esta havia se voltado contra ele. Isis faz o impossível. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. a grande maga. representação da umidade e de aspecto feminino. e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos.NEA/UERJ Hermópolis. embriagando-se ao bebê-lo. O deus Ra. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. Por outro lado. possuía o aspecto destrutivo do raio solar. Em um dos mitos relativo à deusa Isis.

Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. 196 . sobretudo após o seu falecimento. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. prosperidade e saúde‖. notadamente rainhas. com apoio de sua mãe. a deusa Ahmés-Nefertari. E ao que parece. Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. (ver NOBLECOURT.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. entrada para as 12 horas da noite. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). fossem cultuadas como divindades. LESKO. Na estela abaixo. Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste. 1994. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres. a rainha Ahmés-Nefertari.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

É o caso de Hatshepsut. o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas. e o caso de Nefertiti. O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. entretanto. estabeleceu seu culto. GRALHA. que ao se tornando faraó.NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari. 197 . que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum. 1993: 123. 2002: 98).MULHERES NA ANTIGUIDADE . rainha do faraó Akhenaton.

198 . A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon. Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. O caso mais conhecido. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca. fazer incenso) incenso para Amon-Ra. sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. Em um segundo bloco. Nesta cena. Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo.NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. Thutmés III. Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut). Na primeira. entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois. far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida.

Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. não configurando usurpação e muito menos regência. o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião. Ou seja.NEA/UERJ No culto de Amarna. dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton. Pela primeira e única vez. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. Contudo. o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono). Para que tal possibilidade fosse afastada. a tríade da religião de Aton era invertida. Segundo Gay 199 . mãe de Queóps (4ª dinastia). era necessário que o futuro monarca. não poderia ser palco de um novo conflito.C. No entanto. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus. Nefertiti (18ª dinastia). ou seja. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica). como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. Thetisheri (17ª dinastia). Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo. ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. pudesse estar ligado às duas linhagens. os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. Ahmés Nefertari. Hatshepsut. Tiy. ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. como deus único.MULHERES NA ANTIGUIDADE . agora interno. Torna-se mais claro. algumas rainhas teriam sido faraós.) O Egito.

esposa de Akhenaton. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP. a tese de Amanda Weidemann (UFF. Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a. Como rainha ela parecia ter grande poder. complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000. Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo. 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. 2005). pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei. com o jovem rei Thutmés III.). não configurando uma co-regência tradicional. que a idéia de um governo conjunto. Filha. 44-51). dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa). algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993. e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF.).C. através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó. 5354). com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993.. não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. É possível.C. 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a. 139-140). a posição de rainha. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2007) O culto a Arsione II Filadelfo.NEA/UERJ Robins. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti. Entretanto. Mãe. uma forma de monarquia dual. Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. Esposa.C. 200 .

) Estudos de Arqueologia Histórica. Christiane D. A Cultura Material do Cotidiano: Espaço Urbano e Moradias no Egito Faraônico. Rio de Janeiro: Barroso.). P. Sex and Society in Graeco-Roman Egypt. Faraós e o Poder. 2000.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tânia Pelegrini. 115-132. The Canonical Tradition in Ancient Egyptian Art(Cambridge New Art History and Criticism).. Christian.London: Thames & Hudson. Deuses. Lise. In: Funari.C. A Mulher no Tempo dos Faraós. Hachette. 1997. Erik. inédito ______. CARDOSO. Proportion and Style in Ancient Egyptian Art. SP: Cia das Lestras. Pierre. Julio. The Art of Ancient Egypt. ______. 1 ed. Fowler (Illustrator ). Ancienty Egypt Society. GRALHA. JACQ. 1990. Emanuel. Erichin (RS). MEEKS. La Vie Quotidienne des Dieux Ëgyptiens. pp. Cambridge: Published by Cambridge University. Peter A. Deuses. A Família vista através da iconografia funerária privada egípcia da primeira parte da XVIII dinastia (meados do século XVI a meados do seéculo XIV a. Fogolari.NY:Cornell Univ. Akhenaten and the Religion of Light. O‘CONNOR. P. 2002. University of Texas Press. 1993. 2005. Trad. E. Chronicle of the Pharaohs. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press 1997. Pittsburgh (PA): The Carnegie Museum of Natural History. HORNUNG. SP: Papirus Editora. Escritos para a Eternidade: A literatura no Egito faraônico. CLAYTON.Austin. (eds. 1999. MANNICHE. MONTET.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO. 1994 ______. 1999. Habitus. 1994. O Egito no Tempo de Ramses. David. 2000. 1989. Press. Whitney. Brasília: UNB. 1990.P. 1989. Gay e Ann S. Rio de Janeiro: Imago Ed. A Vida Sexual no Antigo Egito.. NOBLECOURT. As Egípcias: Retrato de Mulheres do Egito Faraônico. Dimitri. Paris. 201 . Porto Alegre:EDIPUCRS.A. Dominic. Ciro Flamarion. 1996. Múmias e Ziguratts. London: Keagan Paul International. MONTSERRAT. DAVIS. ROBINS. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

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sexuais e de gênero. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas.NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof. uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes. Nesse ambiente. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp. tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. em sua área de conhecimento. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. à masculinidade e ao conceito de sexualidade. já não mais limitada às expressões das elites brancas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns. focos de minhas análises. Professora da Universidade Sagrado Coração. foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura. título desse livro. de seu cotidiano e de suas percepções e valores. Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS. bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas. Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo. e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. étnicas. a história daqueles até então dela excluídos. religiosas.ª Dr. Bauru/SP. 282 203 .

1998. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos. p. além dos tradicionais escritos oficiais. CANTARELLA. BERNSTEIN. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. 3. no Estado e no espaço público. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. Donne in Atene e Roma. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. Torino: Giulio Einaudi. 44.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. as estátuas. 1978. E. n. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica.283 Embora em menor número. a iconografia. Michigan: Ann Arbor. Phoenix. a numismática. Sobre a História Antiga Romana. formas de atuação política e os fundamentos. D. composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. 1990. Passato Prossimo. F. a busca de maior liberdade. Milano: Feltrinelli. CHERRY. também ganharam valor documental as inscrições. 1987. Donne romane da Tacita a Sulpicia. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . S. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. 244-266. The public role of Pompeian women. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. as tumbas funerárias. S. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e. 204 . v. e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. Com esse olhar. desde então.

p. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. TREGGIARI. 1981. G. et alli. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. G. Roma: L´Erma. V. 2000. C. AJAH. Questions on women domestics in the Roman west. TREGGIARI. aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. M. TREGGIARI. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História. London: Routledge. J. LeGALL.) Women & slaves in Greco-Roman culture. S. A Antiguidade. S. S. v. 4. Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. Roma: L´Erma. B. Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO.. M. 1970. p. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. Image and status: Roman working women in Ostia. 1992: 09). 1993. S. 1998. P. 205 . PERROT. 1. P. 1981.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias. 76-104. LEFKOWITZ. (Eds. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. In: Schiavitù. FANT. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. 12691278.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1976. M. In: HAWLEY. S. R.) História das mulheres no Ocidente. 1981. Tradução de Coelho. Women in Antiquity. S.. R. apresentando diferentes e mesmo DUBY. Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum. H. pp. LEVICK. 123-130. 1. Questions on women domestics in the Roman west. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. MURNAGHAN. N. desde a década de 1980.) Women‟s life in Greece and Rome. REL. 76-104. M. v. Jobs for women. livres e escravas  em seus ofícios e na política local. A. 1. 185-201. (Eds. London: Routledge. M. Jobs for women. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. KATZ. H.. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. TREGGIARI. AJAH. (Dir. 1982. In: Schiavitù. 1995 e JOSHEL. FRANCO. 185-201. pp. 1976. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século. KAMPEN. R. Berlin: Mann.284 Entretanto.. 47 bis. 284 Cf. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. Porto: Afrontamento. B.

Desta maneira. Funari. nas relações Como exemplo. 2003. justamente. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes. o papel de comando e domínio. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. Com isso. grupos étnicos e tradições culturais. 1998. 285 206 . 1992. É justamente nesse ponto. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. Feitosa. A distinção está.NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1998. 1998 e Bessa. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas. elas são diferentes. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. para além das essências. onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. fixas e universais. Pedro e Grossi. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. no tratamento privilegiado das mulheres. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. Silva. pode-se citar Costa e Bruschini. A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. tanto no Brasil como no exterior. por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. sexuais.

Nesse aspecto. Em função disso. uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . resultantes não de um consenso social. dentre outros aspectos. mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. Para Jean Scott. ver Scott. de um poder masculino sobre o feminino. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289). Nesse aspecto.NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. Formuladas entre os grupos sociais. Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. 1995: 88). muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. ―mas das disputas. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT. ou não. de seu uso para a sociedade romana antiga. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder. Piscitelli. pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher.. Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero.. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. ―existem muitos gêneros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. denunciada pelo feminismo. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas. Baxter. 1988 e 1995.287 Como enfatiza Matos. 2001. 287 207 . 2009. as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher. Western. em nível discursivo e social.

que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. 1988: 192). profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖. 1997: 13). apresenta diversidades jurídicas. de idade. complementares ou de prestígio (MACHADO. ou seja. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. béticos. O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. masculino. neutro e consensual. 2009: 287). 1994: 44). SKINNER. Desta maneira. étnicas. conferindo-lhes um sentido descritivo. Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. Diante disso. podem ser de reciprocidade. econômicas. Esse imenso império emaranhado de latinos. germanos. MATTOSO. A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. entre tantos outros. dácios. com grande variedade de povos. mas presente na trama histórica‖ (MATOS. gregos. 1992: 35. além dos vínculos de poder. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d.NEA/UERJ 1995: 86-87). pode-se considerar que as relações de gênero. obscurece a percepção de diferentes poderes. Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. 2009: 283). muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. sexo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1995: 180. egípcios. a da existência do feminino e do masculino 208 . Contudo. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. gálatas.

Hallett e Skinner (1997). por exemplo. Libertos. cf. 1997: 25).288 Destarte. escravos. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino..NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. ou com a homossexualidade (MATOS. slaves. dominadores e virtuosos. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado. e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional. já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. Boswell (1990). enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes. 2009: 289). Aliado a esse. Para Maria Izilda Matos. 288 209 . mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. L. noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order. como nova categoria. das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. p. C. 67). with special attention to finding evidence of how marginal populations  women. A ênfase de Skinner. livres. 2005 e Feitosa e Garraffoni. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. 2010. 1990: 595-596). parasitas da elite. Feitosa. Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. 289 Cf. desocupados. de 1997.

por exemplo. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. Cf. 3. Segundo Walters. libertos. Se. ―normal‖. Autores modernos como. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. à medida que a atividade ―lícita‖. a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por um lado. diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. por outro. Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001). puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. Garraffoni 2005. O simples fato de ser gladiador. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. 2. a integridade do Vir consolidar-se-ia. em restrições jurídicas e políticas291. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. Grimal. D. Justiniano. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. mas de idades e categorias sociais diferenciadas como. e a partir de uma determinada prática sexual. Além disso. a iniciar por sua própria identificação. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. por exemplo. 1997: 30). tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. por exemplo. também. 1981. por exemplo. prostituta ou dono de bordel já implicava. ator. 290 210 .NEA/UERJ profissionais. músicos e corredores de bigas. Assim. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. terra. cf.

por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares. à superioridade bélica. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. o que punha todas as mulheres em condição inferior. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. L). 1997: 51). solteiras ou viúvas.NEA/UERJ aristocráticos. um dos mais importantes da política romana. segundo Suetônio. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. em De vita duodecim Caesarum (I. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. casadas. A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem. que indicava a não penetração de outro cidadão. o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. jovem ou adulto. o pensamento dessa elite romana. Embora satirizado por Suetônio. Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. bem como a conquista. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas. Desta maneira. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. e de mulheres aristocráticas. Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘. publicamente. E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. 211 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .

3485. 293 294 212 . 480. 5380. Aurificis. Unguentari. Caupones. 998. 202. Aliarii. 180. IV. Pistori. 2966. Galinarii.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. oficinas e padarias293. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. IV. 3478. 485. cotidianamente. o mundo do trabalho. IV. CIL. IV. Lignari. 295 Pomari . 2005: 184). 429. 3130. 7669/71/74 (joalheiro). CIL. CIL. CIL. 4227. Agricolae. vendedor de roupas e jóias294. como esta deixada a Taine. Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). CIL. Inserida e construída nesse âmbito do labor. na parede de uma casa: Cf. Efusivas declarações podem ser encontradas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 609. lenhadores. 3529. 4472/3 (Oficina dos Atti). tecelões. vendedores de alho e de aves. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. 113. CIL. perfumistas. 368. IV. IV. IV. 241. CIL. 4888. 134. 336. dentre aqueles que partilhavam desse universo. de vitória. IV. 4100. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. 206. comentado a seguir. 373. aproximando a vida de populares à condição de infamia. ourives. IV. IV. Muliones. 951. IV. alfaiate. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. IV. 710. 97. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. IV. CIL. a funções autônomas de professor. CIL. Culinari. 183. Entretanto. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam. CIL. 7749. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. CIL. 490. em suas escritas. ajudantes de cozinha. 373. CIL. conotações diferentes às aristocráticas. 275 (professor). padeiros. cocheiros. IV. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. 960. 4102/03/07/09/12/18/20. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. CIL. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. CIL.

4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. IV. Peço. pedem o amor da mulher estimada. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. 1. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. indicado no próprio CIL. doce amor. 213 . IV. minha dulcíssima amada. 8137) Oxalá pereça. Já na inscrição CIL. 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE . IV. As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas. ou que foram um dia neles conquistados. por meio do relacionamento amoroso. em uma linguagem simples e direta. Rogo. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). Amo tanto a Taine. IV. Desta maneira expressou-se Secundo. 8364) Secundo a sua querida Prima. ut me ames (CIL. senhora. registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. domina. Am.NEA/UERJ Dulcis amor. em obras da historiografia. feitas por homens que. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. I 9. uma saudação cordial. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha.

A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites. na Via Consolare. uini. Calpurnia te diz. 297 César: ueni. 230) Fortunato fodeu. Saudações. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. de lazer e por meio das paredes da cidade.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo. IV. hinc vine veni vide Anthusa (CIL.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no desejo. vi e venci Antusa297. Cirurgião. Assim. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. ou idealizados por eles e para eles. o heterogêneo. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. uidi. na tarefa de focar a diversidade. interagiam em ambientes de trabalho. cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t. além de indicar a satisfação de um conquistador. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito. Val(e) (CIL. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. A frase de Fortunato. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. Suetônio. Aqui vim. Mas. Inscrição encontrada na Casa do 214 . a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. 37. o local e o específico. IV.

a questão de gênero. o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . masculinos e femininos. [.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do imaginário e do discurso. mas relacional e analítica. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens. Desta maneira. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. mas de estudá-las em conjunto. culturais e políticas. na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. das sociabilidades. Assim. conceitos. embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas. mas também por meio das sensibilidades. a partir de seus valores. formulam múltiplos vínculos.. segundo Scott. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. das tensões. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183). visões e espaços sociais. Portanto. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. Como considera Mattoso. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais.NEA/UERJ cotidiano. comportamentos. nem só pelos movimentos demográficos. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos. atitudes e embates em suas relações sociais.]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos. é preciso reescrever a História (MATTOSO. ambigüidades e obstáculos. ou seja. econômicas.. nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖.

DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL CIL .C. 1990. heterogêneo e vibrante. BOSWELL. desejo e poder na Antigüidade: relações de gênero e representações do feminino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. A. M. A. (Ed. desde 1863. Agradecimentos: Meus sinceros agradecimentos aos colegas Maria Regina Candido. New York/London. C. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. BESSA. Concepts experience and sexuality. T. Amor. De vita duodecim Caesarum libri VIII. Amor e sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pompéia. (Ed.) Reconfigurations of Class and Gender. M. (Org. J. Concepts experience and sexuality. L. P. 1989. BOSWELL.). et alli).Corpus Inscriptionum Latinarum. 216 . v.. (Eds. Garraffoni e Pedro Paulo Funari. (trad. 1998. SUETÔNIO. FEITOSA. J. G. SILVA. K. C.. da Unicamp. 2005.) Uma questão de gênero. Harvard University Press. Rolfe). FEITOSA. Campinas: Ed. Renata S.. 2003. As idéias apresentadas são de minha responsabilidade. 1992. M. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAXTER. Coleção Loeb. COSTA. E. Londres.. Cadernos Pagu. P. L. masculinidades. IV. Digesto (trad.. The lives of the Caesars. 1968. G. JUSTINIANO. In: STEIN. Berlim: Akademie Verlag. In: STEIN.. (Orgs. FEITOSA. T. 1998. D‘Ors. E. C. A. J. Gênero e o erótico em Pompéia. L.NEA/UERJ humanas. J. Pamplona. A. 2001. WESTERN. In: FUNARI. São Paulo: Fapesp/Annablume. (Org. 1990. v.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy. SUETÔNIO. New York/London. Stanford: Stanford University Press. C. 11. C. M.) Trajetórias do gênero. do passado e atuais. de modo complexo. Milano: Bur. Editorial Arazandi. C.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy. J. O. G. BRUSCHINI.

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NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES.ª Dr. 299 Vernant.. no campo da Filosofia Antiga. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof. de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 . Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata. no sólo desde una perspectiva política. P.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2009. La muerte en los ojos. donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural. distancia que debe medirse Prof. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo. acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses. Prometeo. la Salvaje. J. sino desde una dimensión antropológica. tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico. consagrada a la virginidad eterna. hermana de Apolo. 300 Esta introducción. la que recorre los bosques.200. portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología. Buenos Aires.ª Dr.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto. la Parthenos pura. Es la cazadora. intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad.299 A. histórica o económica.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja.

L. incluso por el propio temor. La metáfora impacta. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. el modo de aproximarse o de alejarse. por una dimensión ontotopológica. Es esta distancia lo que determina los dos planos. inédito. aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial.MULHERES NA ANTIGUIDADE . poco común. lo semejante y lo desemejante. de considerarlo. A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. raro. Antropología de la Grecia Antigua 220 . sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. en el modo de concebir al otro. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301. La problemática transita. fundamentalmente. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. la continuidad y la discontinuidad. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. en primer lugar. El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. Pensar y 301 Gernet. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. que se juegan. sin duda. A partir de esta tensión que borda la trama cultural.

A la luz del marco teórico precedente. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad. homogeneidad.NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. 221 . en el límite. familiar y conocida. para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. tópico que hemos puesto en juego.MULHERES NA ANTIGUIDADE . y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. regido por las pautas de la semejanza. su paradojal fascinación y su inusual presencia. identidad. extraño por extranjero y extranjero por extraño. una diosa ―aparentemente‖ marginal. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. horadando las certezas que lo Mismo otorga. que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. en su doble acepción de lugar y condición. Lo normal y lo anormal. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. al tiempo que niega esa extrañeza radical. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. lo legal y lo ilegal. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad. alejándose del imaginario que ella misma genera. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. desde su lógica áltera. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. lo moral y lo inmoral. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. puntualmente en el topos de Artemisa. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad. conservación. en el margen donde claudican las propias certezas.

p. Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. Presencia paradojal que. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. al igual que su hermano. no es la gran madre universal. Diosa virgen. se relaciona con los hiperbóreos. alejada de todo contacto. W. solitarias.NEA/UERJ B. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal. que sí se 302 303 Otto. sin ser ella misma madre. es ella quien preside la ritualidad femenina. ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. p. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. Otto. desde la distancia. Diosa vinculada a la naturaleza. La misma distancia habla de su condición virginal. Los dioses de Grecia. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. tensionando la díada cercano-lejano. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no obstante. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. enlazada con la lógica del parto. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna. 67. maternal y delicadamente solícita. W. tal como la describe Otto. La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él. 50. Los dioses de Grecia. 222 . y. Artemisa: las huellas de la distancia. sólo pobladas por animales salvajes. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. cumple una función íntima. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. Alejada de la función materna en su calidad de virgen. Tal como sostiene Otto. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302.

una diosa civilizadora por excelencia. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. de los lugares poblados. tanto del individuo.. como términos constituyentes de la configuración identitaria. Términos no sólo constituyentes. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. asimismo. C. Artemisa es una divinidad que. donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. Del mismo modo. tal como hemos intentado referir. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. es. se juega en los márgenes de la lejanía. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios. en el marco de la lógica identitaria que se impone. delinea el topos de lo Mismo. en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 . Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes. He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. y. Alejada del matrimonio. Dicha configuración se articula. en última instancia.NEA/UERJ entregan al amor. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. en su identidad civilizadora. de la dominancia de una sobre otra. Artemisa. sino instituyentes del topos identitario. La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. lo civilizado y lo salvaje. como de la sociedad en su conjunto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. no obstante.

donde el agua. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos. no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. lo culto y lo bárbaro. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios. Así. lo humano y lo salvaje. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. o bien permanece. pero también de distinta densidad antropológica. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. marcados por la noción de límite. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada. deviniente y móvil. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. se ha retirado. El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. de distinta densidad topológica. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras. como los pantanos o las ciénagas. la geografía humanizada de la no humanizada. entre un topos firme. la tierra cultivada de la no cultivada. sino un conjunto de lugares liminales. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. de confín. asiento de la ciudad y otro acuoso. o bien. capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores. lógica 224 . de margen que delimita espacios heterogéneos. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. dejando un topos anegado. Artemisa civilizadora. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. el espacio otro es el espacio no cultivado. que instituye la custodia de los territorios.

Se trata de una acción cosmificante. La ciudad es un espacio reglado. Artemisa ordena el espacio.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. disponer. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. guardiana del orden. 304 225 . convirtiendo a la ciudad en un espacio común. arregla las condiciones del tránsito. el parto. El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. los mismos y los otros. implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra. Lejos de ser un territorio improvisado. prepara el pasaje al meson. arreglar. que exige orden para su constitución y organización. preparar. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. la batalla. que responde a la anarquía del azar. D. gobierna y manda sobre todos los espacios. gobernar. La ciudad tiene sus exigencias. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. configurando sus límites. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico. en un topos donde se coloca lo que es de todos. celebrar. Ordenar. el matrimonio. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. desde cierto lugar marginal. rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. la ciudad es un kosmos.

en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. desde sus peculiaridades identitarias. 305 226 . la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. En cierto sentido. Si los hombres. rasgos que suponen. Apolo con su función legislativa. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. no saben delimitar fronteras. la guardiana del orden. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema. también vela por el triunfo de la sophrosyne. hijos ambos de Zeus y Leto. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. por su propia precariedad antropológica. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. entre lo humano y lo bestial. Artemisa política. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad. a su vez. entre lo mismo y lo otro. desde sus territorialidades singulares.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como su hermano. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano. en su dimensión de nomothetes. constructor de ciudades. Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. En el marco de la expansión colonial griega. puede consultarse el libro de Marcel Detienne. entonces allí están los hermanos. ya que su acción es productora de efectos.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. Interviene allí. es. reconocer al Apolo de los caminos. en tanto involucrada directa en el orden de la misma. el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. Apolo con el cuchillo en la mano. Esto abre una dimensión política de la diosa. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica.

entre lo humano y lo no humano. por ejemplo. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos. es el kairos.1. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone. Artemisa conductora. Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant. conductora del parto y por ende. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos. Artemisa preside la caza‖306. J. 24. observa que se cumplan sus regulaciones. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. para medir la conducta del varón prudente. Es el espacio de consolidación de la virilidad. D. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. el momento oportuno.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. p. la batalla. Es una justa entre hombre y bestia. de convertirse él mismo en presa. celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento. la oportunidad. educa a las niñas en vista de su formación de esposas. Aretemisa es la gran conductora. la coyuntura favorable. sino también la guerra. Como otras tantas actividades que la vida social propone. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. produce el pasaje de un estado a otro. de la vida misma. El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. lleva de una orilla a otra. dirige la transición de una categoría a otra. 227 .P.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. de la niñez a la adultez. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. La muerte en los ojos. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón.

Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan. como digna hermana de Apolo. D. Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede. El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. lo incivilizado y lo civilizado. más precisamente. porque la caza permite atravesarlas. lo bestial y lo humano. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. la función de la diosa es imprescindible. aunando en su función la dupla saber-poder. momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad.P. Artemisa legisladora. vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. culturalmente valorada y socialmente observada. 24.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque. Artemisa no es el salvajismo. La muerte en los ojos. 228 . Artemisa conoce las reglas del tránsito. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral. por así decirlo. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant. 2.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas. p. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. a la adolescencia. J. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro.

pura. sociopolítica. ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. estatutos. Su función se vuelve. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea.NEA/UERJ sueña. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. espacialidades y roles atribuidos. Del niño al joven. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano. de la niña a la parthenos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. los jóvenes. antes de dar ese paso. como ciudadela a proteger y el orden del oikos. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. Una vez más su lugar es el topos de la frontera. categorías. virgen. Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil. y el mundo adulto. funcional al dispositivo político. como la diosa. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior. como arte de administración del oikos. la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. casi animal. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. La función de la diosa es altamente calificada. frontera entre dos topoi. 308 229 . La función tampoco conoce de sexos. como estructura isomorfa308. una vez más.

distribuidoras de roles y funciones.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Facilita la entrada al mundo de la mismidad. En cambio. No sólo al pasaje de estadios y registros. 230 . sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento. plasmada en la organización de la ciudad. instalándolas en la comunidad civilizada. incierta y equívoca. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente. todavía no están cristalizadas309. lo niño y lo adulto. los jóvenes de los adultos. la consolidación de lo Mismo. reglada por sus instituciones. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro. p. para hacerse osas. en última instancia. En efecto.NEA/UERJ liminar. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. Conductora del tránsito. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. esto es de la condición de niña o cachorra. La muerte en los ojos.P. obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos. lo animal y lo humano. despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina. al configurar las consolidaciones identitarias. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. asume el campo lexical del verbo krino. Artemisa pedagoga. vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. Artemisa instituye. Alejadas de sus hogares. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. discierne. J. las bestias de los hombres. 25. D. Para ello. distingue. 3. Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. distingue entre lo femenino y lo masculino.

la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. la única capaz de parir. conductora del parto y del nacimiento. visible en el parto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . preside el parto. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia. matrimonio. Artemisa. el alumbramiento constituye el momento más animal. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. parto. caza. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante. Artemisa es una diosa nomádica. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución. los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. acompaña el desplazamiento. articulada con el nacimiento. completando su función de nodriza. guerra. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. pasajes. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. hasta la madurez del alumbramiento. confusa. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. La Artemisa Lochia. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. En efecto. insistente en la guerra. Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. desde la primera infancia.NEA/UERJ misma. las bestias devuelven su rostro otro. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. más sanguíneo de la institución matrimonial. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual. Presente en la caza. 231 .

MULHERES NA ANTIGUIDADE . al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. La muerte en los ojos. desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia. dolores. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio.P. no civilizado aún. natural. El parto es el momento oportuno. Si Artemisa cumple una función socio-política. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. p. en un primer momento. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. 29. J. el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería. Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. aunque. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. en el inicio de una vida atravesada por la cultura.NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. Su contacto con la animalidad. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta. despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. imágenes de ese mundo salvaje. 232 .parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. es ahora la mujer la que. gritos. 4. imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar. bestial. marcada en el presente trabajo más de una vez. gemidos. D. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa.

mantener. precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica. una vez más. Artemisa guardiana. Artemisa cumple. p. y la impulsan brutalmente al salvajismo311. atender. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant. conservar. Por ello debe velar Artemisa. estar de guardia o centinela. proteger. con el imperativo del verbo fulasso. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. velando por ella. Mucho ha costado delimitar las fronteras. estar en guardia o con cuidado. en ese ámbito Otro. observar. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. ni subjetiva. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra. por su posible des-orbitancia. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. 233 . dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. guardar. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. custodiar. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico.P.NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. hybris. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros. Guardiana de los órdenes. La muerte en los ojos. ni territorial. tener cuidado de. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos. J. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 30. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. ni moral. El salvajismo constituye un estado otro. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. vigilar. Magnífico abanico semántico. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa.

de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. en una situación liminal. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar. La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. La problemática transita por una cuestión topológica. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. territorios. de una muerte salvaje. la sphage. […]en la intersección de los dos campos. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. velando por la lucha digna.P.MULHERES NA ANTIGUIDADE . el deguello sangriento de la bestia. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. p. según su cualificación antropológica. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. en el momento crítico. La muerte no escapa a las generales de la ley. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. tanto desde el pasado como en la actualidad. J. Tal como sostiene Vernant. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas. la paz y la batalla. 312 Vernant. que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad. E. Conclusiones Sin duda la Antropología. La muerte en los ojos.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana. 31. 234 . Por lo tanto allí está Artemisa. no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. La muerte es también un acto cultural. Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. con su esbelta talla.

nodriza. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia. 313 Vernant. territorializarla y manejarla tecnológicamente. territorios. 235 . con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. p. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme. secuestro. cimiento. inconmovible para toda construcción identitaria. de la extrañeza. espacios. Los topoi. Cazadora. cierta distribución de los sujetos en el espacio. partera. se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad. como Grund. salvadora de la guerra y la batalla.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen. J.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. como modo de conjurar su peligrosidad. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. Visibilizarla. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder. La otredad no escapa a la regla. En el corazón de esta preocupación. Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo.P. supone cierta cartografía. serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes. 31. que incluye prácticas de internamiento. exclusión. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. La muerte en los ojos.

México.Apolo con el cuchillo en la mano: Una aproximación experimental al politeísmo griego. Antropología de la Grecia antigua. 1986. NILSSON. Librairie Garnier Frères. P. Historia de la religiosidad griega. M. Ariel. C. s/d REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLOMBANI. Buenos Aires. Maestros de Verdad en la Grecia Arcaica. Madrid. La muerte en los ojos. M. 1969 OTTO.C. Editorial Eudeba. 2000. W. M. Paris. Anabase.. Akal. GERNET. 1968 GARRETA.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL XENOPHON (Jenofonte).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mito y pensamiento en la Grecia antigua. Foucault y lo político. M. 1999. Buenos Aires: Editorial Caligraf.-P. 1973. F. Buenos Aires. L. . C. 2009 DETIENNE. M. Buenos Aires. Madrid. ______. Taurus. FOUCAULT.Èconomique. VERNANT. Las Palabras y las Cosas Siglo XXI. Madrid. y BELLELI. Textos de Antropología. Madrid.E. 1981. Taurus. J. 2001. La trama cultural. Los dioses de Grecia. 236 . Editorial Gredos. Prometeo. Barcelona. ______. 2001.

o quadro e os agentes que interagem. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. Meridor (1978). ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis. Em diversos tons e contextos. valores como charis. com insistência. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. 1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão. É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes. R. 11-33. os princípios que a tradição consagrou. vide P. 315 Embora a data da peça não seja precisa. Mnemosyne 48. 96-99. Charis e philia. no acampamento aqueu na Trácia. Schubert (2000). Com a ruína. por exemplo. American Journal of Philology 99. lá se detêm.A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. Stanton (1995). e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. C. gratidão e reciprocidade. vide R. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316. axioma são avaliados na pureza do seu sentido. nomos. desde logo. dike. 1. coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala. tudo indica que seja anterior a 423 a. impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. condicionar a opinião pública. segundo uma perspectiva individual e colectiva. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate. ‗Hecuba‘s revenge‘. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. philia. baixam os braços. aliciar o apoio das massas. 314 237 . 1. enfim. 28-35. G. a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. de regresso à pátria. tornam-se polémicos. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. em primeiro plano. Sobre o assunto da datação da Hécuba.ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. perante os Aqueus vencedores que.ª Dr. colectiva e pessoal.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA .

cativa. como se os grandes princípios universais. o 238 . em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. símbolo extremo da ruína humana. se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. Entendida. despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. Troianos e Bárbaros se polemizam. Por fim. como um processo de alianças políticas. perante a homenagem devida a Aquiles. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). o exemplar completo do retórico contemporâneo. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. para mais mulher. sem pátria‟.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de respeito pela vida e coesão humanas. o primeiro dos heróis. a philia torna-se um processo destrutivo. prática e salvadora.NEA/UERJ sobrepõem. com habilidade oratória. No meio do mesmo descalabro social. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais. O que vale a vida de uma jovem. onde Gregos. 669 -. Mais do que envolvê-la. sofre do mesmo mal. Entrelaçada com charis e philia. impõe-se um conflito de culturas. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro). um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos. a solidariedade. estrangeira. Hécuba. inimiga. a velha rainha de Tróia. um traço superior de civilização. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. ou permeada de afecto. com Agamémnon. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. sem marido. susceptíveis e frágeis na sua contingência. que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica.

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. para Eurípides. uma outra. 320 246 . é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem. Blundell (1989). Entra naquilo que Ch. Kirkwood (1980). M. cf. 109. Steidle (1968). D.NEA/UERJ amigo e aliado. P. de dois temas distintos. determinada. vingativa. o motivo retórico que cruza a peça. J. Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. 321 Não se trata. mais ou menos incoerente. Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. Transactions of the American Philological Association 14. Cambridge. Como se. M. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima. de contrapor. 1. Cf.. cf. Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. 30-44. está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. Munich. cit. Segal (1990). ‗Violence and the other: Greek. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse. Schubert. Studien zum antiken Drama. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. no código moral grego. ‗Hecuba and nomos‘. com simetria de argumentos. G. M. o seu novo interlocutor. Helping friends and arming enemies. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. Conacher. cit. passa a dar prioridade à vingança. Cambridge. 416. mesmo assim. op. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘. como é a posição defendida por W. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. igualmente bárbaro. Hécuba muda simplesmente de tom.. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. W. 322 Na verdade. designa por factores de ‗unidade temática‘. na sua aposta. 87-88. a philia exige um código retributivo. no seu desrespeito pela vida Como é sabido. o chefe supremo dos Aqueus. The Athenian homicide law in the age of the Orators. op. quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . MacDowell (1963). M. A study in Sophocles and Greek ethics. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância. activa. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. Transactions of the American Philological Association 120. 1-2. se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nussbaum (1986). a uma primeira Hécuba. e que se repete. D.

agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima. evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. Baltimore and London. superior a todas as hierarquias humanas. nomos. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . o seu lado mais tenebroso e. mas. uma argumentação pragmática e amoral.NEA/UERJ humana. com ele.‟ Dentro de igual princípio.. mais uma vez. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. Como afirma D. de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805). do convívio à sua mesa. cit. 124. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 324 Segal. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. é um valor divino. absoluto. Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia. após a impiedade e o assassínio. a súplica. Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. usados para com Ulisses. 83. que traz enfim ao de cima. E numa escala ascendente. sob as aparências. The heroic Muse. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi. coloca o desrespeito pelos mortos. ‗a lei‘. 323 247 . e da distinção de uma afinidade particular (793-796). que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. na alma da rainha de Tróia. op. deixa os Gregos insusceptíveis324. Torna-se. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. mas que vence.

. por interesses pequenos e condenáveis. Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri.philia e charis. mantém-se fiel aos valores em discussão. E só depois do fulgor desta Persuasão. cit. A passagem abrupta. 325 248 . na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita. como Ulisses. o reconhecimento face a uma amante. se vê enleado em compromissos. Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita. pés. por artes de Dédalo ou de um deus. o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. mostra como são relativos no seu mérito. como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços. sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social.NEA/UERJ ao seu dispor. perante o exército. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. todos a um tempo. os abraços de amor (828829). 832)325. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça. vou usá-lo‘. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. Na sua nova abordagem da causa que defende. as noites partilhadas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas ao retomá-los. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio. comprometido. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). discreta e apagada. na rhesis de Hécuba. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio. aos teus joelhos. neste caso. cabelos. teria todo o prazer em agradar a Hécuba. respeitador dos princípios da piedade. Hécuba remata num apelo. peado por Segal. por entre lágrimas e apelos. Mas pouco importa. com todo o tipo de argumentos‘. como a desejável punição para quem prevarica. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. mãos. charis. o apelo a Cípris. mas também ele. justiça e hospitalidade (852853). op. encarnada num gesto falante de súplica.. como podem ser distorcidos e amesquinhados. 123. uma última palavra. para se prenderem. contra Polimestor. Philia é. é ainda devida à justiça (844-845). nem da sua hierarquização em sociedade. Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860). O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). se não parecesse.

como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. a philia. Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. cada argumento do adversário (1187-1196). pura falácia (1197-1201). Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. no limite. Hécuba desmonta. negar o homicídio de que é acusado. uma evidência. orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados. entre Hécuba e Polimestor. Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. É simples a intervenção de Hécuba. por qualquer habilidade retórica. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136). com cuidadosa simetria. que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. em momento de crise.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. suprimindo-lhes de vez o inimigo. como ponto de partida para o argumento da legitimidade. à luz da evidência. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada. tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235). Despida de uma capa de dignidade. despojada de argumentos. a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. com Agamémnon por juiz (1129-1131). a verdade crua. parece. O bom senso e uma louvável prudência (1137). e um gesto de protecção para com o seu povo.NEA/UERJ interesses em conflito. chama-se ‗ouro‘. invocado como justificação para um assassinato. só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime. no meio de uma controvérsia de valores. De resto. os senhores de Tróia (1228-1232). A philia invocada por Polimestor. entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito. Resta um último agon. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. que é. Polimestor não pode. assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144. Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político. a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). 1175-1177).

'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. R. MERIDOR. 30-44. CONACHER. American Journal of Philology 99. NUSSBAUM. female and barbarian. P. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. 2000. porque à ventura. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘.MULHERES NA ANTIGUIDADE . W. Cambridge. Mnemosyne 48. quando encarnados pelos Troianos. D.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. M. 1-26. 1961. 1986. ‗Violence and the other: Greek. American Journal of Philology 82. 28-35. Ensaios sobre Eurípides. M. STANTON. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. ______. W. 1. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. C. KIRKWOOD. H. M. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS. A. ‗Euripides‘ Hecuba‘. In Euripides ‗Hecuba‘. F. 11-33. além de confrontarem comportamentos e princípios. J. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. 250 . Transactions of the American Philological Association 14. 2005. 1. ‗Hecuba‘s revenge‘. SILVA. enquanto dura. G. Eranos 81 (1983) 13-20. Helping friends and arming enemies. opõem também Bárbaros contra Gregos. Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva. incapaz de persistir nos valores solidários. 1980. Classical Quarterly 16. SEGAL. Transactions of the American Philological Association 1990. que. Lisboa. R. 1995. compete representar um nomos tradicional. 1989. Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. 1966. SCHUBERT. BLUNDELL. 193-219. 96-99. Cambridge. 109-131. é óbvio que aos primeiros. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. M. KOVACS. 120. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. 1. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. 1978. A study in Sophocles and Greek ethics. D. The heroic Muse. 1987. não faltam os amigos‘. ‗Hecuba and nomos‘. G. Baltimore and London.

uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖.ª Dr. sem dúvida.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. 326 251 . a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo. Além disso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano. formando a Umma. o perigo da contaminação doutrinária. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. Na campanha difamatória. Desta maneira. ganhou uma grande importância. muitas vezes. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos. Era necessário que se apontasse. que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. A demonização do ―outro‖ é. muitas vezes. mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito. evitando assim. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. distorcendo a realidade sobre a família árabe. Ela era a base da própria identidade coletiva. a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta. Após a sua morte. Nesta estratégia. impedindo. marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. Mas. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. Maomé era retratado como um lúbrico ancião. a questão sexual. como no mundo contemporâneo.

a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. isto nem sempre tenha ocorrido. redigidos numa linguagem pública e oratória. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. o que de certa maneira. herança mesopotâmica. A partir da época dos abássidas. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. Os homens podiam casar-se 252 .NEA/UERJ ocorre. podia comerciar e dispor de seus bens. pois isto significava uma perda financeira. Para muitos. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. sendo considerados meras propriedades. Embora. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. judaica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. além de permitir a poligamia. tentou melhorar a situação da mulher. O Profeta quis proteger a mulher. Assim. A pesquisa em outras fontes. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. cujos autores eram soberanos e vizires. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. helenística e. O costume tribal. até mesmo caucasiana. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo. na prática. não gozavam de nenhum direito. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo. Maomé para evitar isto. persa. devido pelo homem à mulher. quando da consumação do casamento seria entregue a esta. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. Tal fato não deve causar admiração. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. pela própria natureza das fontes. Sabemos que o Profeta. se um número expressivo de meninas nascesse. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. ao contrário do que se pensa. egípcia. embora. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. daremos o devido mérito ao Profeta.

como já acima já mencionamos. e. para que o aconselhasse. Khadija. já havia enviuvado duas vezes. Mas. pois se para os olhos da cultura ocidental. é o que podemos depreender . Mas. O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. na qual Maomé havia nascido. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. assim se chamava ela. era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas. graças aos lucros auferidos na atividade comercial. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. á dos coraixitas. embora. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. tratando-as com crueldade também deve ser repensada. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. principalmente. 253 . podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. Foi deste modo. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos. que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto. que lhe propôs o casamento. Mas. Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. Pelo menos. dividindo com estes a mensagem recebida.

até então havia lhe conferido o status de Deus único. mas ninguém. cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. O que aponta para isto é o fato de que. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e. tendo o casal tido seis filhos. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. isto. o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca. mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva. onde existia um importante templo da deusa al-Lat. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. mas também em cidades ..NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio. Assim. entre os que apoiavam o Profeta. Mas. como Taif. Assim. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval. se para nós. 254 . quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. mas no caso de Khadija. Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. discordando assim da postura de seus maridos. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. Contudo. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas.

Mas. ao longo do tempo o criticassem e.nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. de uma vez por todas. a sua filha Aisha. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. Após a morte de Khadija. chefe dos Amir. reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa . a qual não contou com a presença da noiva. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. mas tentando aproximar-se dele. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. após este haver se recusado. constituindo-se a monogamia numa exceção.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. Assim. embora para alguns estes possam parecer estranhos. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. dirimindo conflitos. o que não causaria nenhuma estranheza no meio social. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais. -. 255 . uma criança de seis anos de idade. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. ou até mesmo pervertidos. o tio de Maomé. Abu Bakr. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. Mas. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele. Contudo. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade. Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah. A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. uma vez que a poligamia era uma prática comum. de forma nenhuma corresponde à realidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa. imagem esta que. prima e cunhada de Suhayl. muitas vezes utilizado para promover alianças. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta.

conseguiu fugir sem ser notado. os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas.e. protegia melhor seus membros. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. levara a formação de uma conspiração para matá-lo. deveriam contentar-se com uma indenização. Mas. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. No dia combinado. já se dispunham à ação. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado. uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . Sua vida em Meca corria um grande perigo. Por isso. Além disso. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças. numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência. Assim. Desta maneira. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração. Hafsah. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca. Para isso. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. o que lhe garantiria uma maior proteção. As batalhas e.Umar. como foi o caso da jovem de dezoito anos. tornava-se fortemente reprovável. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia. sabendo ler e escrever. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. segundo relatos era culta como seu pai.NEA/UERJ Como já afirmamos. Todos juntos participariam do assassinato. uma vez que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos.

O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. o que significava um enorme gasto. Nas zonas urbanas. Tais determinações. de proporcionar prazer sexual a estes. de nenhum modo. 257 . isto sim. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa. A explicação é de ordem econômica. O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas. Ao longo do tempo. uma vez que. ou seja. a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. Deste modo. os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . ao qual só os poderosos poderiam arcar. a cada homem só era permitido ter quatro esposas.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. o quadro era bem outro. mas visava. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. o que significou para o noivo uma nova aliança política. Não se tratava. sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo restringindo-a. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos. e assim mesmo. uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. a proteção daquelas. Mas. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens.

Mas. este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. por outro lado. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. loucura. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade. haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece. quando analisamos a questão do divórcio. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. irmão ou na falta destes um membro da família. Na questão da repartição da herança. uma vez que. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. contudo. somente uma ausência de recusa. ou mesmo. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino. como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. que variou ao longo do tempo. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. Além disso. fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. Contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas.

a não ser que este se convertesse. apelava-se também para a endogamia. Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo. contrariamente. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. emancipasse a mãe. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação. até mesmo de primeiro grau. 259 . Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. Para conjurar este mal. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica. O Islã admite o casamento entre primos. sem exigir a conversão. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. Mas. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. Podia apenas tê-la como concubina. mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. Mas. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião.NEA/UERJ masculinos.

uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. Sendo assim. repreensíveis. o que explica a clausura em que vivia. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . quando ela engravidava e dava a luz mudava de status. tornando-se um-al-walad. aumentando o seu preço no mercado. As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e. O adultério. de quem o marido exigia seriedade. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. adquirindo certos direitos. Além disso. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. À princípio a concubina não deveria procriar. na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal. leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. a primeira. por isso mesmo. o que não é de admirar. a permissão do concubinato e a própria existência do harém. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. 260 . ela é enorme. quando descoberto. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente. Diferentemente do casamento. que amenizavam sua condição servil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. o número de concubinas era ilimitado. Mas. A existência da poligamia. sendo quase desconhecido no mundo rural. que deveria ser realizado numa festa.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. limitado a quatro. quando praticado entre duas pessoas casadas. o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge.

nunca pela prostituição. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática. Embora.NEA/UERJ Embora. jamais foi erradicada. principalmente as celebrações de casamento. No mundo muçulmano. apesar dos esforços de Maomé. Mas. Na cidade de Caiurão. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício. para a visão ocidental. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. Assim. Mas. contudo. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. a prostituição. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema. não parece ter sido alvo de discriminação e ódio. uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. que. 261 . O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes. onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita. Mas. a pergunta se impõe. não há nada de mais falso. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato. Mas.

além do seu marido. ser mãe de meninos . as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. A mulher vivia encerrada em sua casa. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes. ela. a vida religiosa não lhe era vedada. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. pois tal como os homens. o que nem sempre ocorria. fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo. ―mãe de fulano. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. Na verdade.‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais. Mas. mais do que de meninas. praticamente só visse homens. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote. o que fazia com que durante sua vida. onde se pode. Apesar. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. A maternidade conferia uma importância e segurança. Além disso.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. No caso. localizadas em Meca e Madina. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân. criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. Tal situação. quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. descendentes e irmãos. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana. 262 . apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana. equivalente as termas romanas.

). sem medo de errar. como as que habitavam a zona rural. p. por exemplo. gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. Maria Clara Luccheti (org. PUC-Rio. o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. Mas. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. 24. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. São Paulo: Loyola. 2001. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. Ao finalizarmos este modesto trabalho. para as mulheres ―trabalhadoras‖. pois. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira. Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito. proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. ficando atrás dos homens. seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas. a formulação de uma outra pergunta se impõe. Violência e Religião: Cristianismo. Rio de Janeiro: Ed. infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327.MULHERES NA ANTIGUIDADE .4. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante.198. 263 . Primeiramente. ela é praticamente inexistente. acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura. Contudo. Então. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo.

gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais. contudo. não poderia. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. livres de anacronismos e preconceito. Finalmente. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas. isto é. a misoginia é patente. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. Deste modo. tradição esta oriunda do judaísmo. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e. Embora. uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se. que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. direcionadas para regiões específicas. isto é. Nas duas primeiras religiões citadas. 264 .NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica.

São Paulo: Globo. Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. André.Islã. Maria Clara Lucchetti(org).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lisboa: Terramar.2010 BINGEMER. Tradução Andréia Guerrini. 2001 BLANQUIS. Armstrong. A família no Islã. 2006 HOURANI. S. 2001 265 . 2002 SONN. 1996 BOUHDIBA. In: História da Família. Rio de Janeiro : José Olympio. S. Uma história dos povos árabes. Thierry. Tâmara.Tradução William Lagos. Rio de Janeiro : PUC-Rio. BURGUIERE . Violência e Religião. Abdelwahab. Tradução Marcos Santarrita. Albert. 2006 KAREN. Paulo: Cia das Letras.Porto Alegre : RS: L &PM. A sexualidade no Islã. Uma breve história do Islã. São Paulo : Loyola . Maomé uma biografia do Profeta.NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA.Paulo: Cia das Letras. Paul.

a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ. 328 266 . Judith M. tanto do século XIX quanto do século XX. teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS. na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas. a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. mas intensas. Segundo Rachel Soihet.NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas. 2006: 54). Na década de 90. foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History .1995:09).MULHERES NA ANTIGUIDADE . destinadas a eterna subordinação a figura masculina. O debate em torno da opressão sobre a mulher. Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. ao longo da história.1998: 99). na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O movimento social feminista. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL. ou seja.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. 1995: 10). não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher. sem. assumindo um caráter descritivo. ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. 1997: 279). A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. Por outro lado. Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres. se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia. desde os anos 60. tanto no passado quanto no presente. O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal. desde a década de 70. buscando as origens da dominação masculina. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 . o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. 1988: 141). porém. usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher. sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. 1995: 11)." (SCOTT. Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado. O termo têm sido. entretanto buscar a motivação dos fenômenos. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder.NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL.

women and Prehistory (Oxford. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 . torna-se inseparável. a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. como tal. nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET. Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. Gero com Engendering Archaeology.MULHERES NA ANTIGUIDADE . parecem paralelas e/ou se tornam complementares. mas. não antecede a organização social.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. No continente americano caracterizou-se por duas vertentes. As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo. Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher. 1998: 10). ou seja. A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero. 2003: 27). Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual. Conkey e Joan M. ou seja.NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI. O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e. por outras. no gênero feminino. As duas vertentes. por vezes se contradizem. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho. 1988: 146). A proposta norte-americana representada por Margaret W. A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero.

A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista. Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY. modelo histórico e cultural. agricultura e cuidados com a família. Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. 1997: 415). Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa. Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. a mulher na história.NEA/UERJ trazer para debate a interação social. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino. Segundo Conkey. especifico da vertente anglo-americana. as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. Segundo Conkey. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . Enquanto que o masculino está relacionado a caça. a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um.

NEA/UERJ anglo-saxão. As pesquisadoras perceberam que. O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993). Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. 1997: 414). 1997: 423). como os de Marie Huot (1892). 1991: 07). ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino. em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. A pesquisadora C. No século XIX. O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX. sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2006: 54). O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado. dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT. Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911).

Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. dependendo do 271 . Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos. Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero. tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. implicações políticas. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. classe. mas não de forma isolada. a pesquisadora Elizabeth M. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. 2003: 01).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Seguindo a proposta de abordagem interacionista. através de suas escolhas e abordagens. sepulturas e representação imagética. 2003: 19) . 2007: vii). identidade e etnicidade. Para Sarah W. A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. sociais e econômicas. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros. existem muitos caminhos para abordagem do tema. A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça. estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON.NEA/UERJ diferenciação. a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage. Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. pois existem diferentes papeis sociais. em particular tempo e lugar. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. A ação da mulher tem sido visível na arqueologia. dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL. ou seja. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes.

Como por exemplo. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL. status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento. epigrafia e imagens parietais através da comparação. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. de formas diferentes. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . de negociação. Em arqueologia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia. 2007: 10). citamos as mulheres representadas. Segundo Elizabeth M. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas. A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. afrescos e cerâmica. primordial para os estudos da arqueologia de gênero. particularmente.NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. Entretanto.

Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada. confronto. A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero.. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino.NEA/UERJ normas. espera-se apreender as relações de tensão. identificando o espaço de produção. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia. A partir dessa perspectiva. A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. 2007: 12).M. Para E. A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 . O estudo de caso torna-se muitas vezes.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós).NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. devido à idade avançada das suas testemunhas. deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. já que não estariam destituídos de sentido. As referências que a escritora faz são muito precisas. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. pelo que foi dito mais acima. apesar de todos estes dados a favor. colocando-se. ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours. confidenciara. além de usar o texto de Venâncio Fortunato. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese. inclusive dando os nomes dos beneficiados. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências. seguida por Franca Consolino. Em algumas passagens. Por fim. que Baudonívia conviveu com Radegunda. e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. Contudo. 281 . compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. nos sinaliza em direção à terceira opção. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. só para as mais íntimas. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. excelente mesmo. A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia).MULHERES NA ANTIGUIDADE . posicionamo-nos no sentido de acreditar. respectivamente. Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. posição de Dom Laporte. faz citações diretas. datas e fatos. nos seus pormenores. não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa. portanto. Conhece. Mas. os milagres realizados pela santa. com detalhes precisos.

o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto). abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. sob a pena de Fortunato. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir. o herói nas línguas neolatinas. poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. 335 Se. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. em reconhecimento pelas suas virtudes335. fazendo dela um modelo da mulher forte. (SILVA: 2011. 183-185. aqui. na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. Assim. na humildade do seu proceder junto às companheiras. E. no latim cristão. 37-38). imersa em seus jejuns e mortificações. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. ela é a santa que se isola do mundo. à primeira vista. no caso da santa é levado ao extremo. Portanto. que por sua tenacidade. mas. CHARRONE: 2007. podemos citar a famosa Questão Franciscana. o termo passará a designar ―virtude‖. por outro. que. força de vontade. o próprio milagre realizado. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. uma imagem unificada do santo. comparando-o com o de autores masculinos. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. 334 282 .NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto. Como exemplo desta prática. que objetiva apresentar. viril. por extensão.

em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. Já quanto a Baudonívia.NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. mesmo do mosteiro. 70). já que ela continua a ser rainha. conversio. Em seu texto. miracula. assim. Dito em outras palavras: a vida no século. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖. da narrativa de Venâncio Fortunato. o modelo religioso de Poitiers. a vida de penitências e mortificações da santa. conversartio. o processo de adoção da vida 336 V. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. Nossa autora apenas menciona. diga-se de passagem. mais inclinada a mostrar que. Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. como na apresentação dos temas. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos. o olhar para o mundo externo. 283 . Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. ―por piedade e caridade‖ (cap. Ela está. escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir. portanto. com as querelas envolvendo os soberanos francos. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). mas com o qual parecia extremamente preocupada. ela lançava. nota anterior. a quem não se cansa de chamar de rainha.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. de forma a construir seu modelo. onde não mais vivia. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. ela vai além do proposto no seu Prólogo. sua morte e seu funeral. Sua postura diante de Radegunda. difere enormemente tanto nos objetivos. alguns dos quais seus enteados. na época de Radegunda. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. sem se deter nos detalhes. intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. II).. mesmo dentro dos muros monásticos. já que para Leonardi (1991. as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época.

nos levaria a perceber. nesta parte da narrativa. aí. 1). onde ―foi mais celestial que terrena‖ . em oposição ao Rei celestial. escrita por Venâncio Fortunato. Baudonívia demonstra respeito. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. grupo étnico ao 284 . Aliás.NEA/UERJ religiosa ou conversão. Os Francos reagem. ante seus rogos. seu comportamento quando no século. Feito isto.. pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. que. Uma outra leitura. os povos firmassem a paz entre si. bendizeram ao Senhor. a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. dizendo. qualquer que seja o soberano mencionado. ídolos e templos pagãos. Neste episódio. uma certa tensão.. e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖. dois séculos antes. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. enquanto [. inspirada. Destaca-se. na defesa da religião cristã. ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. por onde passava. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours. dedicação e lealdade profunda à realeza.] a santa rainha. no texto de Sulpício Severo. tentando defender o templo. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. destruía símbolos. que levava a Cristo em seu coração. o capítulo 2. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre. por sua vez. sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo. bastante interessante. Seu casamento com Clotário é descrito como breve. perseverando imóvel. ou melhor. com tenacidade e vigor. Pelo contrário.MULHERES NA ANTIGUIDADE . admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours.

uma expressão. quando ele narra as orações noturnas da santa. sua corte e signatários pertenciam. passou por cima da doçura de um esposo. chama a atenção. pela primeira vez. também. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento. (. permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. na ocasião. como já mencionamos mais atrás. Na seqüência.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A doação do rei da villa de Saix. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia. aqui. 4). rechaçou um amor 285 . não se esquecendo do título mundano que carregava. cap. tomada de empréstimo a Fortunato. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. também. A se destacar. Neste lugar.NEA/UERJ qual o rei Clotário. ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. Baudonívia utiliza. o mais áspero. e de ―bem-aventurada rainha‖. Aqui. estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖.. para o qual Radegunda voltava às costas. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. 16 e 19). 5). até pelo contraste. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. 13. 5. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. à turíngia e católica Radegunda. que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato. 3) e é. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente. Estaríamos já. também.) impôs-se o tormento do jejum. 8. assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖.. 9. pois sofria muito com sua ausência.

Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. usava de severidade permanente. humildade. então. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos).NEA/UERJ mundano. Na narrativa. para ele extremamente humilhante. ingressa‖. das bodas com o rei celeste. A atitude que. em vez de seu nome. na aceitação das limitações alheias. exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap. onde a ―santa rainha. pobreza. em Poitiers (cap. destaques para a amargura do rei. e da situação. e para as suas qualidades de bondade. a quem pede perdão. juntamente com seu filho Sigiberto. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. 8). Paradoxalmente. Já vivendo no mosteiro.. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. assim como para seu arrependimento.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. compaixão. a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio. enquanto para si. que quer recuperá-la. com ênfase para o tema nupcial. Radegunda. recorre ao bispo de Paris. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. castidade. passando a viver da prática da humildade. de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para Baudonívia. Diante de tudo isto. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . abandona seus bens. mas renuncia ao cargo. 5). para entregar-se ao ―celestial esposo‖. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. chamada Eodegunda.. Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. quando a quis chamar. na prática. um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro. caridade. Germano. ―o excelso rei‖. caridade. É eleita abadessa. desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo.

Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. a filha espiritual de Radegunda. ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. e também aos altos dignatários. a quem busca pacificar.NEA/UERJ pelas outras. durante um ano. Neste mesmo capítulo. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. chamado Leão. os reis são denominados de excelsos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um ano antes de seu trânsito. aqui. a fez fugir). 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada. na obra de Baudonívia. Uma ausência importante. abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. Aqui. 20 (de como. anteriormente. apesar de já estar na vida religiosa. além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras. enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. da paz e da guerra entre os reis merovíngios. 17 (acerca de seus emissários. ou que. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda. de ―França‖. recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda). remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha. escrevendolhes pedindo paz. obedecendo a uma ordem sua. 15 (de como um ilustre varão. mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. acompanhada pela comunidade. esta se encontra totalmente superada. no mosteiro. também. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. em uma visão. após sua abdicação do cargo de abadessa. já fosse viúva. pela ocasião. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome). Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). é a da abadessa Inês. contemplou. Se. quando.

―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda. Eufronio. para não deixar suas ovelhas abandonadas. de são Mames e de outros santos). depois da sua morte. a bem-aventurada Radegunda‖. também. Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . a ―boa governadora‖ que. o que assim se fez‖. Ela é a ―provedora ótima‖. com a devida honra. sobre os elementos naturais. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. o fez na Gália. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado. este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. V). o poder sobre os elementos. que fez com que fosse chamada. as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. 338 288 . sempre que estes se colocam como entraves as suas ações. Comparada a Helena. Na continuação do capítulo. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão. poder sobre demônios. por Baudonívia. a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. a expulsão dos demônios. os jejuns. apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. pelas relíquias e méritos. domínio sobre a natureza. Da mesma forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que. Suas armas são sempre a oração contínua. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. que entronizasse. visões)337.NEA/UERJ (curas. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. acaba por ordenar ao bispo de Tours. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor.

o mosteiro. a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339. e de garantir a sua sobrevivência material. seu trânsito (21 e 22). pois. os olhos dos cegos recobram a luz. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [. igualmente. O que mais? Todo aquele que. Acesso em: 10/07/2011. suas exéquias. Assim. não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios. se tornaria um centro de peregrinação para curas. os demônios são postos em fuga. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário). na ausência do bispo local. Gregório (23 e 24). 339 289 . volta curado pela virtude da santa cruz (cap. os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. o momento em que escrevia. devido à presença do santo lenho. a língua dos mudos retorna a sua função. e remete à realização dos milagres para o presente. Emmanuelle. realizadas. os coxos andam. chegar com fé. Documents. sendo. Há. Os ouvidos surdos se abrem.. como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos. pelo bispo de Tours. principalmente a Sigiberto e sua esposa.fr. um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia. afligido por qualquer tipo de enfermidade..MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. senhora.] ali.NEA/UERJ celestial‖. La politique territoriale des reines mérovingiennes. Disponível em: http://cour-de-france. de sés origines au 19 e siècle. entre lágrimas e com profunda dor. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra. assim. e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais. reforçando. 16).

e seu ascetismo acentuado. mas enviamos. para sempre. seja na evangelização dos pagãos. p. 1977. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. In: ---. escrita por Baudonivia. a quem não se cansa de pedir pela paz. Tome I. 313-360. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. Règle des Vierges. uma mãe. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. daqui.NEA/UERJ a rainha santa. In: PEJENAUTE RUBIO. Vida de Santa Radegunda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seja no socorro ao sofrimento humano. Para finalizar. A Radegunda de Baudonívia mantém. 56. Roma: Città Nuova. pp. Vita di Radegonda di Poitiers. Oeuvres Monastiques. para o reino de Cristo. seja na relação com os poderosos do mundo. Oviedo. Francisco. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. La Vida de Santa Radegunda. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. Paris: Éditions du CERF. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap. In ---. VENANZIO FORTUNATO. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. 290 . perdemos no presente século uma senhora. CÉSAIRE D‘ARLES. Oeuvres pour les Moniales. uma consciência política. 2006. 170-273. as palavras de Baudonívia. 1988. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. aquilo que o povo cristão espera dele. de forma permanente.

João Paulo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ. LEONARDI. la biógrafa. Ana Belén Sánchez.). 69-94. (ed. 2000. 13. In: BERTINI. 2010. Acesso em: 03/04/2012. The French Middle Ages. In: Mythos/Logos. courts and households. Les Élites Féminines au Aut. 12. F. Disponível em: http://lamop. pp. LX.pdf. JOYE. Baudonivia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . In: CANDIDO.uaemex. _____. Sagrado/Profano. Valladolid. Minerva. 57. Historiographie. Enciclopédia Einaudi. Sonya. pp. BOESCH GAJANO. pp.2. CHARRONE. Miriam Lourdes I. XXXI. Cambridge: Cambridge University Press. Anna et al. Moyen Age. pp. Madrid: Alianza. pp. Female voices in convents. 287-300 _____. Archivum.). Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. Sylvie. Paris: LAMOP/CNRS. 2011. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. 18. Sofia. La santità. 2003. 2005. Storia della santità nel cristianesimo occidentale. SILVA.pdf. 2007. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1999. A History of Women‟s Writing in France (ed. 289-340. 63-74. PEJENAUTE Rubio. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. VAUCHEZ. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. 20-40. Roma: Viella. Oviedo. 2010. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación.). pp. 171-186. Disponível em: http://redalyc. KRUEGER. Santidade. André. Roma-Bari. pp.univparis1. Esperienze religiose nel Medioevo. PRIETO. Roberta. 2003. La Mujer Medieval. 1987. Acesso em: 03/04/2012. Claudio.fr/IMG/pdf/joye. Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato. pp. 25-45. 2005. La educación de la mujer antes del año 1000. Roma: Viella. Maria Regina (org. Laterza.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. 1999. 174-189. F. 291 . In: STEPHENS.

Na Grécia dos documentos literários. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. Conhecemos as mulheres livres muito menos. e não individualmente. 177). Antígona ou Medeia. as companheiras do deus Dioniso. no sentido de viverem dentro do gineceu. 340 292 . que certamente são mais bem estudadas. As amazonas. e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. nem sequer seus nomes. aparecem usualmente em grupo. e as menades. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. vinculadas à casa. no Rio Grande do Sul. pois estas não constituíram narrativas privadas. Penélope.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof. sendo conhecidas como guerreiras. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar. como Helena. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos. constituindo tíasos. Odisseu. romperam com o contato masculino. para se constituir. e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção. como em As Bacantes. que podem ser consideradas domésticas. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. e se comportam de forma beligerante.ª Dr. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes.

As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. em 404. que terminaria um ano mais tarde. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística. as companheiras que seguem o jovem deus. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico. o vinho. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido. visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V.MULHERES NA ANTIGUIDADE . do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. de caráter eminentemente político. nitidamente distinto do das mulheres do deus. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo. e o das ―tebanas enlouquecidas‖. neste caso. tragédia de Eurípides341. 293 . à loucura e ao milagre. e que são as que respondem no coro. compartilhada com outros helenistas. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. certamente abre uma discussão quanto às variações. o outro conjunto.NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. ou menades. claramente presente no coro de Bacas. Mas a idéia de Trabulsi (2004). Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. ao poder. pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. no caso d‘―as mulheres‖. Além de nos criar um problema formal. contra a família e a cidade de Tebas. é presumidamente do final de sua carreira.

problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. a questão de gênero colocada. portanto. e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso). Ele foi escolhido. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese. 342 294 . Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. que implica desde ser virgem. citado na epígrafe. seus significados. as com ou sem kýrios. contamos com o livro de Trabulsi. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. Certo que. e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. ser reclusa ao interior do oikos. o que já modifica o estatuto na base. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas elas o acompanham livremente. que será motivo de discussão adiante por comparação. decidem contar histórias. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. Além disso. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. até ser silenciosa. o representante legal do sexo masculino responsável. o que corrobora sua erudição. nas Metamorfoses. possibilidade de existência histórica. ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. personagens femininas da narrativa. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. para isso. Para este último ponto. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖. se discute sobre o poder342. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. as mineides. Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. basicamente. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. submissa e leal.NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. roupas sem amarras. passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. e articulada à relação do dionisismo com o poder.

e as bacas o reconhecerão como 295 . Trabalho árduo e gigantesco. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. aqueles que. exigem uma busca às fontes antigas. próprio dos alívios cômicos de Eurípides.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e o espaço sagrado fica vazio.NEA/UERJ As outras questões. habita o santuário no inverno. à espera de novas futuras investigações. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. e nem ao de nenhuma outra. aponta que. visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. o rei. e das tebanas. às novas alternativas que o culto deste deus aporta. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. em geral. acaba como mulher. de Agave. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. e. e a aderência à prática de seus cultos e. Em Bacas. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. a rainha mãe de Penteu. problema que ocupa a centralidade da peça. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. A importância da distinção de gênero. mesmo se cultuado em Delfos. selvagem e avesso às práticas normativas. neste caso especialmente acentuada. o rei. na cena imediata que antecede sua morte. Dioniso é o deus marginal por excelência. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. Ou seja. e como elas reagem. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. pois jamais será uma mulher. preparam a catástrofe que se segue. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu. até mesmo o maior dos homens da cidade. a gestora principal da ação trágica. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. numa inversão visível e risível.

. foi executado um regicídio e.NEA/UERJ seu inimigo. estas. de Eurípides. tecendo e atendendo as necessidades domésticas. ignoram os rituais dionisíacos.6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. Observemos que os mitos. E inclusive para as iniciadas. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Com a sua perseguição. Agave. são consideradas inferiores porque.) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado. protegidas. numa posição servil.entre o seu poder e o do rei atual. como em As Bacantes. não são mais mulheres comuns. Ela chama e anuncia (VV. No menadismo. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 . as domésticas.) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖. e pensando ter caçado um leão. 177).. imortal agressão de Hera à minha mãe‖. já que matando Penteu. venturosa caçada (. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. aqui mais gravemente por se tratar da própria família. Aquela é sua terra de origem. estas bacas. ou enquanto. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. caça e assassinato na montanha. uma mãe. um sacrilégio. ao mesmo tempo. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto.. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv.1168-1175) ―Bacas da Ásia (.. pois sangue familiar foi derramado. mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas. reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador. o que acentua um conflito de poder . pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. matou seu filho. seguidoras de Dioniso.

e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. por fim.. portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior. se houver reação negativa. ―habitam as montanhas aturdidas‖. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas. Seu tipo de poder. as mulheres do cortejo de Dioniso. atacarei chefiando as loucas‖. conforme Dioniso (v. como também na ética. Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos.36). O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas. quantas cadméias mulheres havia. é explícita (v. bárbaras entre os gregos. Penteu. na sua prática aproximando vida e morte. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. não só no comportamento. As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. poderíamos denominar ―iniciático‖. não persegue o lugar instituído do rei (v.32 . Sua alternativa. Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. grosso modo. passaram por um processo que. e que certamente é um processo de afastamento radical.MULHERES NA ANTIGUIDADE .45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações. são primos. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. que justifica tais maneiras de agir. manipulando-as segundo a sua vontade.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. sendo extático e inebriante. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . e ele anuncia no v. portanto. mulheres que o seguem desde a Ásia. enlouqueci de seus lares”. nem de mim se lembra nas preces‖. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. Pesa sobre sua mãe uma má fama. e toda fêmea semente.. sendo. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖. Dão valor intenso à vida. não que Dioniso o queira. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais.‖ e. que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel. As outras.NEA/UERJ semeado por Cadmo.

Conhecem e ―dominam‖ a loucura. Em Bacas não. pela violência do revide. o cortejo dionisíaco.NEA/UERJ de conceber e parir. “mania”.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. as mulheres de Corinto de Medeia. que infelizmente é muito lacunar. como em estátua votiva. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades. das mulheres domésticas. As ménades serão. mas não por convulsões dolorosas da visão profética. nitidamente construída na tragédia Bacas. se remete à análise desta ambivalência. como menades. de peplos soltos. Seus corpos dobram. ou como máscara teatral. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. diferentes das ―outras‖. Fazem a pedra produzir mel. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos. Dioniso representado tanto em forma humana. Estão livres de homens. quase inumana. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. Até a produção deste texto. pelo movimento rítmico pulsante. os marinheiros de Filoctetes. “kyrios”. quanto. leite. portanto. e em grande número. A dança exprime o corpo feliz. Nosso estudo. da montanha. vivem soltas na zona selvagem. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. portanto. desde o início. os cidadãos de Agamêmnon. quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. vinho. embora de mesma matriz referencial. embora não dessexuadas. E. e sim pela dança. água. o corpo envolto em serpentes. como as da apolínea Kassandra. no imaginário clássico ático. seja histórico ou literário. nos vasos de figuras vermelhas. tanto nos vasos de figuras negras. propriamente o coro no sentido dialogal. de alguma forma. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. segundo o mensageiro da tragédia. nosso conhecimento. sátiros. Percebemos que. de estilo mais antigo. mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. existem as que estão sendo arrancadas com 298 . tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. Muitas cenas diferentes aparecem.

segundo DETIENNE. Edônios344. XIV. 258. 258.MULHERES NA ANTIGUIDADE . posteriormente. segundo TRABULSI. p.125. Biblioteca.124. rei dos edônios. já aparece num artigo de 1940. Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. 347 Antonino Liberalis. sua tarefa doméstica de maior alcance. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. Também Apolodoro. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. 1988. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. e do tear. segundo TRABULSI. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review. 345 Apolodoro. 346 Plutarco. amplamente tratado por Trabulsi. nota 6 do cap. p. 343 299 . M. 176). sobre o Menadismo343. Ovídio348 e em Eliano349. 349 Eliano. 42. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas. 1988. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. Mette. narra o episódio de Licurgo. pois ele persegue as amas de Dioniso. IV. Este fenômeno de resistência a Dioniso. Histórias Variadas III. nota 50. que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. (c) o de Penteu. de Dodds. segundo DETIENNE. p. p. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. 344 Ésquilo. X. Antonino Liberalis347. Questões Gregas. M. (b) os das Proitidas e das Miníades.125. 31. segundo DETIENNE. nota 6 do cap. v. nota 49. XIV. 38. 2004. Metamorfoses. 299 E-300 A.1. 274). nota 54. 1988.J. M. em uma tragédia perdida. 2004. 348 Ovídio. 69-81 ed. III. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. H. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. p.33. F. 2002. Ésquilo. Metamorfoses. 175). 5.NEA/UERJ furor de dentro de suas casas.

o Delirante (mainómenos). Como tivesse executado um ato sacrílego. e estivesse manchado com o sangue familiar. Mas Licurgo. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. terra suposta de suas origens nãogregas. até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. que Dioniso encontra seu primeiro adversário. Assassino de seu próprio filho. põe-se a balançar. desta vez. ataca as amas de Dioniso. desta vez partindo de Apolo. para o interior das florestas geladas. Dioniso o faz voltar à razão. Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura. persegue o jovem deus assustado. à maneira de Apolo nas alturas de 300 . Dioniso o leva até seu filho.29). Por sua vez. Licurgo entra em delírio. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos. os edônios o levam. a dançar. que profetiza pela voz de uma mulher. corta os sarmentos e o pé da vinha. Licurgo recebe uma última punição. Licurgo. o bando de sátiros aprisionado. rei-delirante. amarrado. o telhado é tomado por um delírio báquico. Levanta o machado de dois gumes. quer derrubar a vinha. dispersa as portadoras de tirso. onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. Turvando sua visão. o rei dos edônios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As bacantes são acorrentadas. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar. golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. no monte Pangeu. mas. cercado por seus sacerdotes.

Nem Licurgo e seus descendentes. já que as filhas de Cadmo. atravessada por pathos. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29.NEA/UERJ Delfos. Observemos. como as Miníades. num primeiro momento. Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são. e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. elas não aceitam os ritos de Dioniso. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo. Ifinoe e Ifianassa. morte política. Teseu. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco. elas vagam por toda parte e. o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. como em Bacas. que este número é quase uma constante nesses mitos. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto). Acometidas de mania. Nesta narrativa. de passagem. como Proitos. terá purificado a região. Proitos então cede. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres.30). A cidade condenou Licurgo. também são em número de três. ele organiza corridas de perseguição 301 . em As bacantes. em número de três. Outra narrativa é a das Proitidas. adivinho que conhece o remédio para o mal. Lisipe. que é um homem muito jovem). entre as quais Agave. Proitos. condenado por seu pai. embora com alto teor dramático. como a de Hipólito. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. Assim como as Miníades. Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. matam seus filhos. a mãe de Penteu. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. mas pela força de cavalos. Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos.

depois de matar seu filho. segundo Eliano. As três Miníades. Arsipe e Alcatoe. na região da Beócia. as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. segundo Antonino Liberalis. leão. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. E perturba-as com suas metamorfoses: touro. se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. Elas não lhe dão atenção. as de Proitos e as 302 . e o primeiro. com a ajuda de suas irmãs. ―Sem perda de tempo. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. as filhas de Mínias. são mortos. O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu. em Tebas e em Orcômeno. dilacera a carne de seu próprio filho. Finalmente elas deixam a montanha. filhas do rei de Orcômeno. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. as três. Mínias. reis. a sorte cai em Leucipo. Temos ainda um terceiro documento narrativo. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. Aristipe e Alcitoe. ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus. Apavoradas diante de tais prodígios. que balançam. leopardo. Leucipe. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento. sortes em um vaso. colocam. Sob a máscara de uma jovem. Leucipe. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus.

que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas. demonstra que todos devem acorrer. num castigo peculiar. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. ressaltando a ligação das três jovens com a casa. sem a consciência do que estão fazendo. em sua casa. avô de Dioniso e de Penteu. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha.NEA/UERJ de Cadmo. O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. princesas. Quando Cadmo pergunta (v. quanto às mulheres recalcitrantes.Só nós pensamos bem. conforme descritas 303 . estas são iniciadas sem iniciação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas que ritos seriam estes. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te. mas não podem permanecer entre as bacas. 195) ―. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo. 69). onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖. são levadas a deixar a casa e a matar os filhos. dominadas por uma força maniática. no Párodo. quando as bacas. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva. dançará a terra toda. não como verdadeiras menades. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência. em analogia com o morcego. Elas são levadas à montanha. à montanha. são levadas a experimentar o estado báquico..) Somente as Mineides. Em Eurípides. o velho rei da cidade. mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. pois aos homens pertence o poder político. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. todos estão sendo chamados. O sexo masculino é o primeiro alvo.. mas sem anuência.Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v. elas terminam as narrativas impuras. convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. os outros mal‖. fiam a lã ou tecem os fios. 196) ―. O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos.

O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. são oficiantes de estranhos prodígios. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. assim como nas outras histórias. os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. A estas ele reserva o exílio. configurando a distinção que. impuras. para a história da cultura. e sem alternativas de redenção. uma potência transmutadora. o que. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. o que não é o caso das filhas. a família cadméia está desfeita. e. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. A mãe deste. potente analogia do poder real. assume proporções significativas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Este estranho rito. carregando sua cabeça até a cidade. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. Nem o antigo rei e sua esposa. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. Apenas então. e a ordem de Dioniso é implacável. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. parte com um futuro promissor pela frente. tias do deus. por fim.NEA/UERJ por Diodoro. As mulheres desta tragédia. uma vez na montanha. com requintes de elaboração. podem ficar em solo tebano. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. nas últimas décadas. Harmonia. enxergar literalmente o ocorrido. 272). devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . e neste drama. filial. é praticado por sociedades femininas (2002. que incluem um aumento significativo de força física. embora estivessem todas na mesma região da montanha. Agave. pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres. e o mata. que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. descrito nas Bacantes. é que se descortina a verdade e ela consegue. Cadmo. uma fúria assassina. e. depois de esforços por parte do pai. toda coberta de sangue humano. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar.

visíveis no Menadismo. José Antonio Dabdab. Oxford: Clarendon Press. in REEDER. Roberto.E. As Bacas. desagregação pelo abandono destas forças. 2002. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva. Desde então. 1995. CARPENTER. São Paulo: Escuta. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. 1995. 1983. 1986. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art. Marcel. Erwin. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. KERENYI. a discussão mudou de nomes. Os Gregos e o Irracional. e as figuras femininas também. Cornelia Isle e WATSON. DODDS. destas potências que são arcaicas e imemoriais.NEA/UERJ gerações. 305 . pp.. São Paulo: Hucitec. CALASSO. TRABULSI. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Dioniso a Céu Aberto. Pandora – Women in Classical Greece. Carol. Poder e Sociedade. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. Belo Horizonte:UFMG. Its Developement in Black-Figure Vase Painting. Wilfred G.381 a 392. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. 1988. qual seja. Dionisismo. Thomas. Princeton: Princeton University Press. 2004. As Núpcias de Cadmo e Harmonia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―Maenads‖. DETIENNE. Ellen. Erwin R. mas o sintoma é o mesmo. Mexico:Fondo de Cultura Económica.

2003: 117). 1999: 161). A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca. e mais especificamente. igualmente. É membro do LHIA (UFRJ). [re]descoberta. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS. 1986: 17). podemos claramente identificar 350 306 . ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ideia. Pode-se dizer que. especialmente devido à celtomania 351 e. 1997: 197. RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro.Dr. sobretudo por um público não-acadêmico. Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais. [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. por exemplo. 2006: 73. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações. em parte. afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. ainda. de que teriam sido os celtas. GUYONVARC‘H & LE ROUX. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. COLLIS. CUNLIFFE. Adriene Baron Tacla. da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. sob a orientação da Prof.NEA/UERJ IDENTIDADES. A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas.ªDrª. ao longo das últimas décadas. 2008: 42-44. 2003: 111-122. completamente anacrônica. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. Fábio de Souza Lessa. CUNLIFFE. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. os druidas.

isto é. além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. que intervém em interesses masculinos. na maioria dos casos. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por fim. seitas e grupos pseudo-religiosos. de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. majoritariamente. basta direcionar o olhar. vem. são advindas. iguala-se aos homens em diversos aspectos. um aumento significativo de eventos. acredito que argumentações de tal natureza. Gostaria. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. sobretudo. associações e sociedades. no Brasil (cf. Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas. A meu ver. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo.AMIM.NEA/UERJ feministas que. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. participa de disputas. encontros. publicações impressas ou digitais. a mulher celta que pega em armas. para produções como as de Markale (1986). primeiramente. Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência. sobretudo. de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades. em linhas gerais. 2010). que se faz ser obedecida. força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. por exemplo. ainda nos dias atuais. e que. a celtomania pode ser qualificada. as quais. a respeito das mulheres celtas. (3) o anacronismo. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. festivais de música. como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. portanto. Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. 2006a: 165-172. as mulheres gregas. muitas vezes. como veremos a seguir. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas. 1989: 63). 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal. Em linhas gerais. da documentação escrita na Antiguidade. 307 .

Esses textos. Logo. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. unicamente. como muitos pensam. isto é. Tácito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . políticas. quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. ainda. entretanto. dentre outros. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis. Em vez de buscar. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. Amiano Marcelino. em autores como. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. Diodoro da Sicília. apresentam-nos. Plutarco. por exemplo. 2002: 109). WELLS. então. em especial.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. Estrabão. nesses relatos. outro tipo de documentação de natureza distinta. 308 . não é. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações. como veremos a seguir. algumas dificuldades e desafios singulares. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. igualmente. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN. comumente designadas como celtas. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. 2004: 09. ao invés de meramente desconsiderar tais relatos. como a cultura material –. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. Assim sendo.

como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . então. não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf. em batalha. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. um gaulês. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. assim.NEA/UERJ diversas. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. desejo discernir comparáveis. nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente. FILHO.CUNLIFFE. 2008: 12-3). que possuímos nos dias atuais. É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. portanto. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. (XV. buscando. Para não alongar muito este texto. consideradas como vivendo em estado de barbárie. a respeito das mulheres celtas. perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. Não se trata. organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. ou o que caracterizaria os celtas como tais. 309 . 2003: 139-145). Ao confrontar os escritos. Em outras palavras. chama a ajuda de sua esposa. uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise. 12. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. por exemplo. Trata-se. de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo.

Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr. elas mesmas. colocava os pés em tal ilha. navegavam em certas ocasiões para o continente. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. eles possuem suas mulheres as quais. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano. 4. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. 4.)/ Geographia (lat) (V. as mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nenhum homem. mas elas também a eles se igualam em força física.me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário.6) Citando Possidônio. por sua vez. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha.‖ (IV. contudo. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. por sua vez.‖ (V.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. 310 . existe uma ilha habitada somente por mulheres.‖ (IV.

com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. em segredo. inclusive em questões militares. O marido. Os dois morrem. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. um dos mais poderosos homens da Galácia.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. no final.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. não tendo conseguido engravidar. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento.) (III. esposa de Ortiagon. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . (XXII) – Relato sobre Chiomara. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente.)/ De Mulierum Virtutibus (lat. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado.

no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. assim. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. chefe dos Catuvellauni. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo. 35) Relato sobre Boudicca. ela dá a última palavra. o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas. toma a 312 . (III. após os romanos. terem derrotado os gálatas em 189 a. após a morte de Prasutagus. mulher que tomou o poder. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. Boudicca. visando assim a obter riquezas em troca. porém Chiomara. sua própria honra e valor ao seu marido. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. seu marido. provando. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. rainha dos icenos. A troca de fato se dá. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes.C. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. Depois de ter se aproveitado de Chiomara.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. (XIV.

notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . igualmente. assumindo para si funções vitais políticas. que tais representações construídas em relação às 313 . primeiramente. assassinas e vingativas. que tais relatos constituem-se em discursos e. causando. portanto. violentas. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. seriam bastante imprevisíveis. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. (I. portanto. Estrabão. Camma. o poder de liderança e comando militar – havendo.‖ Pode-se. fazem parte de discursos particulares. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. quase sempre. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. Deve-se ter em mente. dessa forma. contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em geral. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. ainda. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. perigosas. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. . em comando. Plutarco e Tácito). mencionadas por Tácito).elas. Cartimandua e Boudica). estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. Essas características. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. indomáveis. na concepção dos autores. .

algum conhecimento prévio do Oriente. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. 1996: 33). Não nos falta. 1996: 18). Isto é. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. tanto através da escrita. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. 314 . 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. mais enquanto discursos possíveis do que. constituem-se como representações – com implicações políticas. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. antes de tudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inclusive. Nesse sentindo. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. em sua maioria. sociais e culturais.. que é difundido. consequentemente. 2003: 12) e. Ou seja.) presume algum antecedente oriental. de certa maneira. 1976: 114). poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID.. como pela tradição e educação desses indivíduos. os celtas. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. se dão. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH.NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. 1996: 32). diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. existem nos textos gregos e latinos. propriamente ditas. Dessa forma.

Esta definição.NEA/UERJ ―realidades concretas‖. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. indivíduos pertencentes a uma sociedade. por sua vez. consequentemente. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. autocontrolados e civilizados. Esses discursos. como construções culturais (WELLS. sim. antes de tudo. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. necessitavam estar sob o controle masculino352. destacando seus atributos de barbárie. (BLUNDELL. construir noções próprias de identidade. devam ser entendidos. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. também necessitam. 1998: 100) 352 315 . onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. especialmente. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. 2001: 222. ainda. por sua vez. 1999). mas. HARTOG. por isso. Em outras palavras. a uma tradição. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. a um determinado grupo social. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. a meu ver. tanto como indivíduos. seria sustentada pela imagem do outro. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. os celtas só podem ser pensados como os Outros. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. quanto como. portanto. Assim. 2002: 105).MULHERES NA ANTIGUIDADE .

ou seja. ainda. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. a imagem da mulher bárbara é. na concepção desses autores. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353. portanto. 1998: 95).] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. por sua vez. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. 353 316 . ser aplicado aos romanos. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. de construírem uma noção particular de barbárie. dentro da concepção clássica. não estando. [. Segundo Iain Ferris (2003: 54). far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que.. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. A construção de tal alteridade. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. contudo. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. limitadas à interioridade do espaço doméstico. na visão dos autores antigos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .sejam elas bárbaras ou não. o mesmo princípio poderia. consequentemente. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . entendido aqui como não-civilizado. a mais comum na arte imperial romana. por sua vez. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. Isto. Parece-me que. O autor analisa. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros.. de fato. 2003: 79). Conclui-se daí que.NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. A autora demonstra que. atualmente. 2003: 55-60). de certa maneira.

3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres .MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. eles possuem suas mulheres as quais. 2003: 80). nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. (V.‖ (IV. 12. um gaulês. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. mas elas também a eles se igualam em força física. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. 4. chama a ajuda de sua esposa. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. por sua vez. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. (XV. em batalha.me refiro ao fato de 317 .‖ (V.NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS.

navegavam em certas ocasiões para o continente. Nenhum homem. inclusive em questões militares. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. elas mesmas.6) Citando Possidônio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por sua vez.)/ De Mulierum 318 .6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. as mulheres. existe uma ilha habitada somente por mulheres. colocava os pés em tal ilha.NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr.‖ (IV. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. 4. contudo. (III. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento.

C. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. Os dois morrem. esposa de Ortiagon. no final.NEA/UERJ Virtutibus (lat. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano.. (XXII) – Relato sobre Chiomara. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. o centurião negocia a devolução 319 . O marido. após os romanos. um dos mais poderosos homens da Galácia. não tendo conseguido engravidar. em segredo. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. terem derrotado os gálatas em 189 a. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça.

a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. provando. Boudicca. mulher que tomou o poder. assim. ela dá a última palavra. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. (XIV. 35) Relato sobre Boudicca. seu marido. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. chefe dos Catuvellauni. sua própria honra e valor ao seu marido. visando assim a obter riquezas em troca. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. A troca de fato se dá. rainha dos icenos. (III. porém Chiomara. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 . então líder que organizava uma frente de oposição a Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. após a morte de Prasutagus.

seriam bastante imprevisíveis. violentas. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. (I. portanto. Estrabão. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. mencionadas por Tácito).MULHERES NA ANTIGUIDADE . destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. 321 .NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo. assassinas e vingativas. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: .‖ Pode-se.elas. o poder de liderança e comando militar – havendo. perigosas. Cartimandua e Boudica). indomáveis. na concepção dos autores. quase sempre. em comando. . em geral. assumindo para si funções vitais políticas. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. .as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. dessa forma. causando. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. igualmente. Camma. Plutarco e Tácito).

Não nos falta. 1996: 33). dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. consequentemente. que é difundido. se dão. 1976: 114). 1996: 18). 2003: 12) e. que tais relatos constituem-se em discursos e. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. Nesse sentindo. portanto. em sua maioria. fazem parte de discursos particulares. inclusive. como pela tradição e educação desses indivíduos. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. Dessa forma. primeiramente. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. ainda. 1996: 32). constituem-se como representações – com implicações políticas. tanto através da escrita.. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. contudo. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (.. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. Deve-se ter em mente. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis.NEA/UERJ Essas características. sociais e culturais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. algum conhecimento prévio do Oriente.) presume algum antecedente oriental.

devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. como construções culturais (WELLS. por isso. ainda. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. HARTOG. Embora tal Ressalta-se. autocontrolados e civilizados. indivíduos pertencentes a uma sociedade. mais enquanto discursos possíveis do que. propriamente ditas. Ou seja. ―realidades concretas‖. especialmente. destacando seus atributos de barbárie. os celtas só podem ser pensados como os Outros. também necessitam. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. a uma tradição. a meu ver. a um determinado grupo social. existem nos textos gregos e latinos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . antes de tudo. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. construir noções próprias de identidade. antes de tudo. Esta definição. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . por sua vez. necessitavam estar sob o controle masculino354. Assim. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. seria sustentada pela imagem do outro. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. devam ser entendidos. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. portanto. 2001: 222. de certa maneira. mas. 1999). 2002: 105). Esses discursos. tanto como indivíduos. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. Em outras palavras. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. Isto é. sim. por sua vez. os celtas. quanto como.NEA/UERJ das mulheres celtas.

ainda. dentro da concepção clássica. A construção de tal alteridade.NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. consequentemente. a mais comum na arte imperial romana. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . contudo. 324 . ou seja. 1998: 95). 2003: 55-60). (BLUNDELL. a imagem da mulher bárbara é. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. por sua vez. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. consequentemente. ser aplicado aos romanos. 1998: 100) 355 O autor analisa. Parece-me que. entendido aqui como não-civilizado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de certa maneira. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. de fato. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. o mesmo princípio poderia. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. atualmente. A autora demonstra que. portanto. não estando. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. de construírem uma noção particular de barbárie. Segundo Iain Ferris (2003: 54). Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. tratam de homens não eram e. limitadas à interioridade do espaço doméstico. na visão dos autores antigos.sejam elas bárbaras ou não. na concepção desses autores.

Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos. vê-se. Elaborei. de fato. visando a facilitar a compreensão de minha argumentação. por excelência. também. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 . por sua vez. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão.. 1985: 139-150). o mesmo mecanismo. o que.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. 2003: 80).]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. situando. Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades. tal como aos costumes e ritos de comensalismo. influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. na concepção dos autores helenos e latinos.. 2003: 79). é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. Isto. esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD. ou lógica argumentativa. Conclui-se daí que: [. Defendo. acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. Isto é. Por outro lado. Em outras palavras. no caso. como restritos ao universo masculino. Suzanne Saïd (1985). bárbaros. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. portanto. por sua vez. então. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher. que. o mesmo acontece em relação às mulheres celtas. sempre situados à margem do universo. demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações.

carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. BH. 39). BH. não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. V. 356 326 . excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero. Estrabão Sim . A coragem/ espírito destemido (DIODORO.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. Nenhum. cargos e funções de poder. assumiriam filhos. ao contrário de virtudes. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e.na medida em Sim – já que as funções Zelo. V. 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO.

Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. senso questões palavra final em debates. Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens. no caso em alguns casos por de Roma. Nem tampouco é estranho que esses autores. na verdade. 2002: 109). 2004: 09. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. reinando sobrevalece com o auxílio a família. as circunstâncias. no caso de de Boudicca. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN. Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de justiça. WELLS. si só. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. Sendo assim. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem. assuntos militares. negociações intervêm disputas.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. Assim sendo. decidem públicas.

que busca. 1985: 150). 1989: 152.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2002: 147. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. espaço e grupos sociais. de certa forma. (RANKIN. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas. 2002: 109) e que manipulavam. pode-se. 2003: 11). 1995: 153. comumente. Tentei. é uma caricatura. Minha intenção de contribuição. ARNOLD. 251. ainda. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou. dentro de uma metodologia comparativa. nesse sentido. mais efetivamente. cultura material. também. embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. SAÏD. portanto. ainda. o estereótipo deve ser sempre generalizado.NEA/UERJ (cf. Assim. inclusive. resume-se. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível. que possui variabilidades de acordo com o tempo. observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa. masculinas. tais construções devido a motivações das mais variadas357. O que surge. uma matrona romana e que. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. ainda que pequena sob diversos aspectos. Consequentemente. 357 328 . sem que isso. e como todas as caricaturas. com este volume. seletivo e exagerado. Contudo. espero ter sido capaz de chamar a atenção. portanto. por exemplo. WEELS. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções. acredito. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. 253). resulte em uma ginecocracia. naturalmente. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural.

Moralia. assim como toda identidade. 329 . On the Bravery of Women. variando segundo as sociedades ou. Books 14-19). Oxford: Oxford University Press. III). Oxford: Oxford University Press. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999. a alteridade da alteridade.tufts. cultural e discursivamente produzido‖. The Histories. Trad. Trad: Anthony R. ______. que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de acordo com diferentes momentos de sua história.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). London: Loeb Classical Library. Acredito. London: Loeb Classical. I. History (vol. S.perseus. Birley. 1935. H. as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. Geography (Vol. 1917. Library of History. STRABO. II). assim. São. Rolfe. textuais ou imagéticos). ___________. In: PLUTARCH. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero. 1999.NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. detentoras de marcas dessa ex-centricidade. Agricola. Levene. consequentemente. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade. Oldfather.02. C. DIODORUS SICULUS. ______. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. 2000. Portadoras de virtudes importantes ou não. na visão daqueles que as relatam. 1931. por conseguinte. The Annals. Trad: Frank Cole Babbitt. nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. III) Trad: C. Trad: J. 1997. London: Loeb Classical Library. (Vol. Trad: W. (Vol. H. ainda. London: Harvard University Press. Dísponível em: http://www. é social. assim.: Horace Leonard Jones. TACITUS. Fyfe e D.

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Profa. Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica. também orientado por esta professora. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. Pudentila. 149).NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. Dra. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. uma matrona real. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. como Messalina e Agripina. como expressa Moses Finley (1991. extremamente interessante como documento para o tema. Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado. 358 332 . as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. ou ao extravagante e cruel. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado. na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. mais conhecida como Apologia. e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos. a matrona Pudentila. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila. a estas informações foram acrescidas leituras. Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca). escrito por Apuleio. rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . rompendo a noção biológica do sexo. acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. 1980: 170). 1954). relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. LXXIII). a viúva Emília Pudentila. há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. Apuleio. formada por membros da elite local de Oea (GUEY. Sicinio Claro. LXVIII. Tratar sobre Apuleio é fundamental. para uma abordagem de gênero como construção relacional. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia. Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe. a família do marido falecido de Pudentila. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres. Apologia. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila. 5-6. em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. segundo Bradley (1991: 93). Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. Assim. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico. Apologia. Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖. um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. passou pela cidade de Oea (atual Trípoli.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. 359 333 . por isso. entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. LXXII. sponsalia. segundo as indicações de Apuleio. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. Na autodefesa de Apuleio desta acusação. LXIX). portanto seu cunhado. Após o casamento.359 Mas. Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista. gênero e etnicidade. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente.

Às matronas romanas. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila.NEA/UERJ com Pudentila. além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. deveriam ser mães e se casarem. como protetora do lar. matresfamilias. quando dão alguma informação sobre mulheres. cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. uma deusa feminina. As matronas eram protegidas por leis e decretos. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. prostitutas. 1990: 352).MULHERES NA ANTIGUIDADE . mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. por isso eram respeitadas e honradas. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana. concubinas. escravas. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE. para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. se remete a essas romanas honradas. dependia do casamento. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. preparadas para receberem um dia um marido. dançarinas. Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos. A designação jurídica de uma mãe de família. a seguir. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. Portanto. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos. Assim. assim como a de um pai de família. Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. A maioria das fontes latinas. Feito isso. mulheres oriundas das famílias abastadas. 360 334 . e as libertas. Casamento. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos. paterfamilias. Dessa forma. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. Faremos.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . de um parente agnado mais próximo. 1971: 55). o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . as mulheres estavam sob o poder do pai ou. 271). como se fosse uma de suas filhas (loco filiae). uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido. o casamento sine manus. havia gradativamente se transformado. já no século II d.C. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão). colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu. De acordo com Bradley (1991: 85). ainda mais enriquecidos. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. introduziram-se novos costumes. Em geral. No período republicano. no caso da morte deste. o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas. produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. 1991: 65). Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos. prevalecendo a forma de casamento sine manu. neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher. levou à criação de uma nova forma de casamento. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes.C. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99). ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. através da Lei Canuléia de 445 a. O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. Conforme Norbert Rouland (1997.. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas.NEA/UERJ romanos. Assim. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. p. com membros das camadas populares.

-14 d. comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento. ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL. Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. mais casamentos são também encontrados. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. no I século. que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY.MULHERES NA ANTIGUIDADE . talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio.C. assim também eram os casos de divórcios. não sendo uma decisão individual do casal. mas de suas famílias (CROOK.C. Discordamos porque. Dessa forma.) exigiam dos cidadãos. no qual viveram Apuleio e Pudentila. Assim. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias. 1991: 79). que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio. e diz que o filósofo Sêneca. 336 . que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos. O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos. 1991: 06). 1967: 105). As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a. elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública. demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas. Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink. homens e mulheres.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento.

este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. Aemilia Pudentilla. não muito sutilmente. Porém. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. Seu nome. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu. mas apenas frações de uma família. Segundo informações da Apologia. ―mais nova‖. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio.MULHERES NA ANTIGUIDADE .‖ Na Apologia (LXVIII.NEA/UERJ primeiramente. ou Emília Pudentila. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem. por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos. deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. acrescidos de termos como ―mais velha‖. o que era possível no período. já que. provavelmente. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. com a morte deste. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio. conforme Finley (1991: 151-152). e em segundo lugar porque. faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. com a morte deste. ou ser uma mulher emancipada. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. ela passaria para a potestas de seu sogro. sob a tutela do filho Ponciano. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. ―segunda‖. podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. De acordo com Finley (1991: 151). ―é como se os romanos quisessem sugerir. como citamos na Introdução. podendo também ficar sem tutor por certo momento. só temos informações sobre Pudentila na Apologia. Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. Neste sentido. as mulheres romanas não recebiam nome individual. ―primeira‖. Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu. os mais frequentes no período.

Neste sentido.C.. as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor. na forma cum manu..). para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada.C. [. 3-5). estando viúva.. ou seja. já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva. tios e primos. por este estar sempre contra ela. assim como as demais citações da Apologia. foi traduzida por nós. mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido. Talvez fosse este o caso de Pudentila. ela escapava do controle dos seus irmãos. após as leis do Imperador Augusto (27 a. Caso a mulher com sua mãe. Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d. Sicinio. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem.) regulamentando o casamento. tive que convencê-la. 362 Esta citação. havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento.362 Neste sentido. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento. XCIX..C-14 d. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse.] Depois da morte de seu filho Ponciano. 338 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona. A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo. movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias.] (APULEIO. Pudente. se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191). com muita resistência de sua parte. Apologia.

segundo Carcopino (1990: 107). tios e primos de seu marido. estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio. podendo contrair um novo casamento à vontade.C. tinham direito de dispor de suas heranças. Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. já que. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã. porém. segundo Apuleio. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina. não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. Assim. apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. a mais frequente do momento. 184) se a mulher não tivesse filhos. C. as mulheres do século II d. p. Conforme Yan Thomas (1990. 1991: 76). casada em regime cum manu. 2). a favor do matrimônio. não necessitando nem da autorização de seu filho. sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. Apologia. que. como marido. eu. talvez seja 339 .NEA/UERJ viúva. ela escapava do controle dos irmãos. não o deixe sem amparo (APULEIO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se mostrou. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. podendo deixar parte para o marido. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho.

. Apologia. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. Nas passagens abaixo. depois disso. com desprezo de sua própria saúde. por vontade dos deuses.. se fosse emancipada. pois. Apologia. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. ponto por ponto. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual.] (APULEIO. combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. Ao mesmo tempo. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 . e em outras da Apologia. 8-9). 5-6). que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. tinha. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano. LXXIII.NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. Como bem nos indica Hunink (1988: 282). o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou. como boa matrona. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil. Que. LXX. A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo. todos os motivos de sua decisão. posto que. Explicou-lhe. Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. mediante sua prolongada viuvez. Além disso. assim.

azeite de oliva 341 . Aconselhei-a que lhes desse. conforme seus acusadores alegam. Na segunda passagem citada acima. ademais. 1991: 266). alguns campos férteis. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. eu havia gastado completamente. repito. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. segundo dizem meus adversários. de seu próprio patrimônio. cevada. aconselhei. a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e logrei convencê-la. o que ajudaria. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. não estando sob a força de seus poderes mágicos. uma casa grande. Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas. provida de toda abundância.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. Segundo a historiografia. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. cujos bens. Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. Aconselhei minha esposa. segundo a avaliação de seus próprios filhos. ao fim. supostamente. em forma de terras tachadas por baixo. e uma grande quantidade de trigo. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades. no caso das viúvas. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio.

5). de forma que chega a parecer exagerada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao descrever Pudentila. se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [. 363 342 . debilitada pela prolongada abstinência. segundo os olhares masculinos da elite. 3-4). Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa.. Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual. Conforme Rousselle (1990: 386). Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. SILVA. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa. a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363. privada do uso habitual do matrimônio. 2). 1997: 14). Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada. Assim.. mesmo em meio à situação dramática da acusação. Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal. como as atenienses.] (Apologia.] esta mulher prudente. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época. sem dar lugar a falatórios. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia. tomada por graves transtornos. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES... XCIII... CARVALHO. LXVIII. LXIX. Como exemplo.] (Apologia.NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. Novamente. esta mãe extraordinariamente responsável [. temos o trecho da obra citado abaixo. [.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . contida e extremamente preocupada com seus filhos. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa. contendo. obviamente.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. Considerações finais Como percebemos. seu cuidado com os filhos. sua situação jurídica. portanto. etc. Sendo assim. 343 . a obra é repleta de recursos retóricos. Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. portanto. a disposição sobre sua própria herança. estiveram presentes nas descrições da Apologia. tais como os tipos de seus dois casamentos. Neste sentido. da visão masculina de Apuleio. acima de tudo. como uma mãe zelosa. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. Assim. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila. Como uma defesa. conforme o objetivo que pretendeu. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época. Para compreender melhor a situação de Pudentila. estamos diante. uma matrona virtuosa.

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1951. As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria. 346 .por várias razões -. Vol. e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. Dr. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus. As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J. Em segundo lugar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Berlin: Heimeran. 1985). dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. como é comum no mundo pagão antigo.1 (OTP 1). Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos. e mais óbvia. New York: Doubleday. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra. não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖. The Old Testament Pseudepigrapha.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda. Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. além do mais. Doutor em Teologia.lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. optei por mudar apenas alguns poucos tópicos. Charlesworth (ed. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library. mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess.0. é uma figura mitológica . bem entendido) . em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H. Collins na obra de Charlesworth supracitada. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável . que lembraria um Homero rude. já que trata-se. As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. Sibyllinische Weissagungen. para que não tivesse de parafrasear a mim próprio. A primeira. 1983-1985. notadamente de minha tese de doutoramento. 364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília.). é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica.

para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos.já se possa afirmar que no séc. entre os autores antigos.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 .C. compulsão profética como castigo .MULHERES NA ANTIGUIDADE . o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto. dão testemunho de uma coleção de textos estranha.106. 365 347 .em suma. entre outros -. Em suma. E não dispomos. Se não for exagerado. para isso.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal . Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle. Potter. permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico .Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. como disse). 3. embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física). 366 Nota com mss. mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). pois: 1. desde temas até personagens). os OrSib são os que mais falam de sexo. mas sua longevidade é surpreendente. David S.vide Hystaspes e Apolo. 1990. o termo designasse uma figura profética apenas. Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. Oxford: Clarendon Press.A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso . casamento. teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. 2.Falam abertamente de sexo e matrimônio. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina. aos olhos de um observador moderno. P.V a.sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente. outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses.

Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo. o Testamento de Ruben (Test12Rub). mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas.NEA/UERJ constitui-se. convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . 368 De cultu feminarum 1. não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes.3. 1985. Noutro pseudepígrafo notável. VanderKam. Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres. na figura mais notável na apocalíptica. e não por luxúria (Jb 4:17-19). Pp. A Man for all Generations. juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses. recomendo James C. Greek Religion.112 ss. o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. num certo sentido. Há de se fazer uma ressalva . interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos.116-118. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. ao contrário dos OrSib. por assim dizer. A mulher surge noutros apocalipses. nesse sentido. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais. Columbia: University of South Carolina Press. as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. 367 348 . Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368). Como observa Burkert. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos). Cambridge. com seu grego macarrônico. Pp. os anjos que pecaram contra a criação de Deus. Assim. MA: Harvard University Press. 1995.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖. 369 Walter Burkert.MULHERES NA ANTIGUIDADE .a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. Hystaspes ou Apolo). Enoch. no Livro etiópico de Enoch (1En). no entanto.

Portanto. Tornara-se tão encarquilhada que passou. pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna. nos legou uma Descrição da Grécia na qual. como o nabi (―profeta‖). Cf. Aurelio Peretti. 1943. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último. pela proximidade dessas localizações). uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371). e que podem mesmo estar associadas. a de Cumae. sendo esta última a de existência mais duvidosa. 371 Pausânias. que nomeia ―Sabbe‖. até que por fim restara apenas sua voz. 22. Nas Metamorfoses. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. Firenze: La Nuova Italia. as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. Embora os OrSib sejam. A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru. a eritréia (da Ásia Menor . a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. a líbia (lembrando que o termo compreendia. boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. a caber num vasinho (ampulla).MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas). tornou-se cada vez mais velha. ao baru cananeu370. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo). desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. O deus nada fez. Balaão (Nm 22:4-5. Dt 23:3-6).também chamada de ―helespontina‖. no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). como os profetas pré-exílicos. Apolo concedeu o favor. um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. a de Samos. O baru era. no livro 10. A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. incompletos ou negados. ―frigia‖ ou ―troiana‖. eventualmente. a Ciméria e a Tiburtina. na forma em que os conhecemos. 14.12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. Como outros cultos ou práticas extáticas. 370 349 . na Antigüidade. mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo.

2:340.MULHERES NA ANTIGUIDADE .e. Davila. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer.C. ou um de teor legalístico a Baruch. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. não pode ser acidental.único personagem de origem pagã na literatura examinada. 2005. mas Deus me anuncia cada coisa. cf. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens. Jewish. 5:51372.): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão. P. 372 350 . as passagens mais importantes são OrSib 2:1. a Sibila. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ .186.C. a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar. a Sibila . renovada graças ao Possivelmente uma glosa. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis. James R. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. Feitas todas essas ressalvas. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa. Em termos de preparação visionária. Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões. o uso da mesma figura. The Provenance of the Pseudepigrapha. e 250 d.i. 13:1-5 e o fragmento 8. bem como a natureza prazerosa dessa experiência. e podem ter sido escritos entre 30 a. Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas. 3:1-7. 11:315-324.

351 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito.] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖. eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. que me compele de dentro.como em 4Ezra 5:20. pobre de mim. celestial.C. ou ―ASC‖ . que era o de um homem rico.NEA/UERJ favor divino. de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão. que tem os querubins como trono. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens. quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno).. ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar..e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a. estúpida [que sou]. que trovoas nas alturas. O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei. pode implicar uma camada redacional mais antiga. e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [. OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia .fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia . Isso contrasta com outras passagens sibilinas. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo. eu me fechei para os necessitados. como 2:340: Ai. mas sim do remorso por uma vida mal vivida. A Sibila indicada. pecadora e promíscua. pois meu coração está cansado por dentro.―altered state of consciousness‖ .

. que sou amiga íntima de Ísis [.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado. mas garanta uma pausa agradável. nesse contexto. 374 Epíteto de Deus. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere. o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito. 373 352 . 1964. David S. que não desanime deles. eu.: Três vezes desgraçada. The Method and Message of Jewish Apocalyptic . Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e portanto podemos falar de possessão nesse caso. Pp. Ainda em OrSib 5:52 ss. Assim. Mas. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura. Philadelphia: The Westminster Press.NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. uma redação judaica para o trecho. A passagem repete certo número de temas já conhecidos. Russell. Mas quando ele se aproximar dos livros. príncipe374.. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs). estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos.. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo.142 ss. pare agora meu adorável discurso.. uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [.

é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. O divino Deus também me pressiona muito. E. para Deus: ‗Por quê. 375 376 353 . novamente para cantar uma palavra grande e incrível. Pela franqueza do trecho. Jr 4:19 ss.. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum.).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ele que deu o poder a reis. proferindo coisas das quais não se deve rir. localizado no Discurso aos santos de Constantino. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas.ex. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. Por fim. acerca do domínio real. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos. erguida sobre a Terra. Um fragmento do qual sabemos muito pouco. Ecl 3:2 ss. para a vida e para a morte375. com voz enlouquecida.NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d. retornando ao tema das origens da Sibila. o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila]. diz ela. e deles o tomou de volta. por mais que eu relute. Heráclito nos diz que ―A Sibila.C. p. sem adornos e sem perfumes. pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede. a proclamar essas coisas aos reis. ó mestre.

NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377. que tal proeza em termos autorais (ou melhor.8 dos OrSib). vol. romanos. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila.). é mediante o recurso à pseudonímia mas este. sem atrativos femininos. se o faz. Pp. Mas aqui. portanto. até mesmo a possibilidade de ter permanecido. a Sibila exibe comportamento semelhante . fr. de substratos pagãos a textos puramente cristãos. depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade. pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos. era comum à apocalíptica judaica. Feia (por imprudência ou desleixo).12.como no fr. não existindo consenso quanto à sua datação. contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus). até o momento carece de investigação mais detalhada. negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno).317-326. ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns. por outro lado. As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito. Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido . quer nas descrições mais antigas. a Heráclito.independência quanto ao mundo doméstico. 377 378 354 . Collins na edição de Charlesworth dos OTP. proveniência ou localização geográfica378). Nesse sentido.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares). quer nos OrSib.1. judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que. como disse no início do texto. ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor. questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Jr 20:7 é ótimo exemplo.

é uma mulher. o visionário de 4Ezra . Nils (ed. por assim dizer. ANDRÉ. A pseudepigrafia. 1997. tal como o temos. Rieuwerd. 1967. digamos. Sibyls and Sages in Hellenistic-Roman Judaism. 1985. COLLINS. compõe-se de oráculos sombrios anunciados em primeira pessoa . Walter. ______. MA: Harvard University Press. ALEXANDER. o fato dela ser uma mulher introduz algumas curiosidades no texto.NEA/UERJ Sibila pode perfeitamente ter sido um personagem feminino que tomou forma literária pelas mãos de homens.). Religious Ecstasy.afinal. John J. on the 26th-28th of August 1981. 1967. Vol. ______. (ed. Kurt (ed. ―Ecstatic Prophesy in the Old Testament‖ In: HOLM. ―Introduction‖ [aos Oráculos sibilinos] In: CHARLESWORTH. Based on Papers read at the Symposium on Religious Ecstasy held at Abo. Paul J.e essa pessoa. no texto. Leiden: Brill. The Oracle of Baalbek. de modo muito semelhante ao dos demais visionários da tradição apocalíptica do judaísmo do Segundo Templo. 355 .mas tampouco são irrelevantes para que se deva desconsiderar que. Seers. Book III of the Sibylline oracles and its Social Setting. o texto dos OrSib. 1982. The Old Testament Pseudepigrapha. the Tiburtine Sibyl in Greek Dress. 1974. Leiden / New York / Köln: Brill.). Finland.). New York: Doubleday.1. Cambridge. mais uma vez. Stockholm: Almqvist & Wiksell International. nos coloca diante do obstáculo definitivo ao tratarmos de um texto e seu autor . James H. Kurt. afinal de contas. 2003. Gunnel. ―Das Problem der Anonymität und Pseudonymität in der christlichen Literatur der ersten beiden Jahrhunderte‖ In: ALAND.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Greek Religion. 1983-1985. ―The place of the Fourth Sybil in the development of the Jewish Sibyllina‖ In: Journal of Jewish Studies 25. de quem estamos falando? Do autor ou autores ―reais‖ ou do personagem retratado? Aqui também a Sibila comporta-se. Washington: Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. BURKERT. Berlin: Walter de Gruyter. Studien zur Überlieferung des Neuen Testamentes und seines Textes / Arbeiten zur neutestamentliche Textforschung. BUITENWERF. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAND. que não são suficientes para que se possa tratá-la como.

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NEA/UERJ VANDERKAM. Enoch. A Man for all Generations. James C. 357 . Columbia: University of South Carolina Press. 1995.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

da Universidad Nacional Autónoma de México. no menos excepcionales. 379 358 . ninguna mujer se adjudicó realmente el poder. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito. otras mujeres. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. pero en las primeras democracias.MULHERES NA ANTIGUIDADE . algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor. las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. Dr. me refiero a las helenas. los Professor de Filosofia Antiga.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. gobernante de Halicarnaso. entre las que se encuentran las fuentes escritas. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. Por una extraña paradoja. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores. De entre las mujeres de la antigüedad. protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. en sentido similar. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. Las fuentes son abundantes. entre las griegas Artemisia. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut. Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. Política. La constitución de los atenienses. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense. 9). cuando menos Aristóteles lo plantea así. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo. La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa. el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. 1. y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. Y es que el pueblo. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios. el derecho de apelación al tribunal. Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general. Luego. Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES. Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas. al tener control sobre el voto. III i 1275 a 22-24). El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . Sea como fuere.

Las funciones principales de las ciudadanas.. existen ciudadanos y ciudadanas. Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 . siguiendo el razonamiento de Mossé. significar que [Jantipa. pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. esposas y madres de los ciudadanos. mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [.. Sin embargo. hijas. 71 e).. Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean. 2002: 15-16). Politis y aste son los femeninos de polites y astos. afirma: [. en el diálogo epónimo. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar. 42).. La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES. Menón. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO.. El lugar de las mujeres es el espacio privado. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN.MULHERES NA ANTIGUIDADE . hija o madre de atenienses. y cuidarse de no sufrir esto él mismo. no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa.] Aste estaría en relación con el derecho de familia. [. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres.NEA/UERJ buscado deliberadamente.] podría. La constitución de los atenienses.. se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. En Atenas clásica pues. Si quieres la virtud de la mujer. el hogar u oikos. Menón.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos.

En lo que respecta a 361 . Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖. Es recluido en prisión (Critón). como afirma explícitamente Menón. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Finalmente es ejecutado (Fedón). regresa a sus actividades tradicionales. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. De joven discute con filósofos mayores (Parménides). ciudadana en tanto que politis y aste. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón. Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología). Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social. y cuando retorna. política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres. 2. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. 2011: 218). El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. Por lo tanto. Combate en las batallas libradas por su polis. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ. Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates. Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras). y alternar en el poder corresponde a los varones. 1991: 155) como la política y la judicatura. Esta doble ciudadanía. Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos.

Epicteto. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 . Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. Estobeo. la segunda de Mileto y la última de Mantinea. Sócrates. Plutarco. Jerónimo. Jenofonte. Tzetzes y Valerio Máximo. 2003: 1516). Aspasia y Diótima. a diferencia de las otras dos. y procreó con él. Teodoreto. Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. Suda. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. Cicerón. Tertuliano. perteneció. según el exhaustivo estudio de Inés Calero. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. Eliano. a pesar de ser originaria de Mileto. al círculo intelectual ilustrado ateniense. Temistio. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. no a Diótima. tanto como a la democracia. Jantipa. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. una politis (CALERO. Galeno. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. las otras proceden de poleis diferentes. enseñó retórica en Atenas. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten. Cirilo. Marco Aurelio. incluyen nombres de la talla de Aristipo. Olimpiodoro. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. 3. quien la amó tierna y apasionadamente. Sinesio. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. se afincó en Atenas. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente.NEA/UERJ las mujeres. Libanio. Diógenes Laercio. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. Filopon. Platón. Ateneo. Luciano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aspasia. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa. fue mujer de Pericles.

Su discurso Contra Afobo. Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. Fedón. El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales. Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD. Los discursos privados de Demóstenes. 1980: 45). por ejemplo. A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él.. su lugar es el hogar. 60 a-b). Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. Sócrates!. 26 y 33). La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente. narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. XXIX. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. esto es. Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres. ‗!Ay.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado. 4. Al vernos. en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES. Sin embargo. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pero lo importante es que.con su hijo en brazos y sentada a su lado. y a Jantipa -ya la conoces. aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. ajena a las actividades en las que sí participa su esposo.. Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos. ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN. la Apología.NEA/UERJ [.

1981. al menos en algunas esferas judiciales. Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. Jurídicamente. 426). Nicias. David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno. entre ellos. La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer. p. frecuentó su casa. pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. p. sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente. 1994. y de Pericles mismo. un proceso por impiedad. pues el mismo Sócrates. Lamachus. Trasíbulo o Terames (BREMMER. pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. 249 d). porque vivía de 364 . de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. 1977: 323-330). 1994: 85). ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. sufrió.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Menéxeno. existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS. a pesar de ser originaria de Mileto. quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. protagonista de uno de los diálogos de Platón. algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA. Plutarco. y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. Y Aspasia de Mileto. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. como Protágoras y Sócrates. 1985: 48). o al de las ya difuntas (VIAL. XLI). con sujetos bien conocidos. 2010: 39). Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza.

Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ahora bien. sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO. Solana afirma [.. Pericles. XXIV). le exigiría una capacidad retórica adecuada. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey. a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . mujer y extranjera en Atenas. 1994: 84). Pericles.] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad. como eran poderosos y de autoridad.. pero esta milesia. y en particular de Pericles. Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes. años antes de unirse con Aspasia. lo cual no es incompatible ni con que. XXIV). lo confirman muchas fuentes. y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [. a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia. en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ. 1994: XXIX). y por medio de ellos.NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO... Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. a través de Pericles. Sucintamente.] que Aspasia fue maestra de oratoria. es indudable que la actividad política del estratego ateniense.

creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes. Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. esposa y madre de ciudadanos. Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. es una ciudadana ateniense. la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. a. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica. 366 . hija. Sin embargo. C. estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. con actividad política del más alto nivel. una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar. a partir de los diálogos de Platón. entre otras fuentes posibles. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. Sea como fuere. a través de ésta. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. Jantipa. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos. Sucintamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . labores imprescindibles para la existencia de las poleis.

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Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. guerreiras. rainhas. deusas. feiticeiras ou profetisas. a partir da cultura material. . mas. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade. santuários e artefactos arqueológicos escavados. Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram.

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