MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos. Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres.como as Mulheres na Antiguidade.no meio científico atual . cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas. 1 7 . tanto nos meio formais e/ou informais de atuação. assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação. diante da diversidade de região. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA.ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.MULHERES NA ANTIGUIDADE .ª Dr. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ.NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. ao longo da segunda metade do XX. Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que. Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos .

as abordagens que contemplem o tema. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração. Nesse sentido. devido a sua escassez. como objeto de pesquisa histórica. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. por exemplo. por exemplo. afastando-se do padrão tradicional. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. Diante de tal situação. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. na historiografia brasileira. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher. 8 . a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. A Arqueologia de Gênero. os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades.

do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. 9 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Neyde Theml e financiada pela CAPES. inclusive. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado. A partir desses mitos. Em verdade. sob orientação da Profa. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. a fertilidade e a soberania. a vida e a proteção da comunidade. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. apontando-nos sua ligação com a natureza.NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. Logo. muitas vezes supondo. 3 Utilizaremos. em ao longo deste trabalho. desde a Antigüidade até a Idade Média. evidenciando sua vivência em sociedade (cf. de forma alguma. o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105). Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . 1989: 22-23. não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social. são esferas distintas. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. 1995: 15). Ao contrário. Titular Dra. inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. a existência de um ―matriarcado original‖. EHRENBERG. GREEN. aquela que vive em sociedade. defendida em Março de 2001. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF. tais mitos falam-nos das deusas celtas. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é.ª Dr.

liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas).NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes. 1989: 245. bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. seu vigor. porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. jóias. então. n. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. participando de banquetes e festas. Se desejamos ir em busca da mulher celta. porque poderiam elas exercer o poder. porque bárbara4. XLIII. Classical Views. nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. cavalos. 137-150. 1999. vasos de cerâmica ou metal. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. liderar combates (tal como Boudica que. profetizas ou feiticeiras. muitas vezes. ser sacerdotisas ou chefes. SAÏD. No entanto. independência e poder na sociedade. que nos permitam analisar a posição social dessa mulher. 251). 59-77.s. Women as focalizers of barbarism in conquest texts. Destacam eles seu caráter e bravura. vide SAAVEDRA. 1985. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. sobretudo. 4 10 . S. Paris: CNRS. isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio. sendo sacerdotisas. sua participação política na sociedade. Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. Helenos e romanos. 1995: 15). T. mas. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. que seriam por elas geridos e. Devemos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tais relatos. 18. as relações de gênero. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir). é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos.

constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo. 1996). leste da França). no primeiro milênio a.. pois. mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. identificando-o ante a sociedade. levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio. Nesse sentido. Tal poderia.tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. onde temos o casal enterradoem conjunto. indicam. não sendo. ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. formas específicas de sepultamento para homens e mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud.NEA/UERJ As evidências arqueológicas. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. tais itens não eram de uso exclusivo masculino. Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral. para alguns. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. marcadores de gênero e sim de status. WITT. que. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação. 5 11 .133). importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. Com efeito. mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131. que. sudoeste da Alemanha). a exemplo do torc e do serviço de banquete. havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. sempre associados à figura masculina e. como explica ela. havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares.C. Porém. de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg. isto é. Na maior parte dos casos. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. isto é. principalmente dos enterramentos. contudo.

as atividades produtivas. a chamada ―dama de Vix‖. constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana. e diversas jóias entre colares. às margens do Sena. adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. composto de uma cratera de bronze laconiana. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix. encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖. ao invés. Como vemos na figura abaixo. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. Propomo-nos. Não desejamos. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher.aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. um kýlixcom verniz negro. e uma taça (―phiále‖) de prata. no norte da Cote-d‘Or.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. braceletes. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. 12 . tornozeleiras e fíbulas. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A). três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós). um kýlix ático com figuras negras.Essa tumba. contudo.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. uma oenochóe de bronze etrusca. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. no lado esquerdo da câmara. aqui discutir as relações de gênero.

Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa. 2003).C. tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro. por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes.C e início do século V a. prancha IV. Fonte: Joffroy. donde. Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa. mais recentemente. chicote e argola 13 . posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta. quer com relação ao tamanho. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário.Nessa linha interpretativa. seguem também.MULHERES NA ANTIGUIDADE . consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a. os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY.Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix. 1958.. torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata.

Seguindo essa linha de raciocínio. posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. Milcent (In: ROLLEY. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos. e à cabeça torcida. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações. Esses bens. mas também artigos de uso cerimonial. De modo semelhante. ao defeito na perna que provocaria andar claudicante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix. Aqui. interpretamos os rituais.NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. quando expostos nos 6 14 . segundo Gellner (1997). os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. isto é. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía. de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela. do torc e do carro. uma colônia helênica fundada em 600 a. pendendo para a direita).C. tendo por base o caráter religioso da phiále. da cratera. o poder. em verdade. por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos.. distinguindo-se das ações cotidianas. pois que a circulação. seriam não somente bens de grande prestígio social. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante. 2003: 325-326. definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. como vias de construção de identidade. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. Já os depósitos na tumba. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio.

marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes. GOSDEN. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). um sistema estável de alianças de casamento (cf. envelhecimento ou ruína. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69). Com efeito. ao mesmo tempo. porém. Em se tratando de depósitos intencionais. mas sem que houvesse doenças. A deposição de um serviço de banquete nesta tumba. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe.NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. 9 Devemos destacar que. na primeira Idade do Ferro. porém. no caso que ora estudamos. por meio dos ritos funerários. 15 . portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. 1985). não havendo. freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. não representaria traços de um banquete funerário. à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos. nos mitos célticos. um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. tornava-se necessário reorganizar. Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. e que seria similar ao mundo dos vivos. e em especial.MULHERES NA ANTIGUIDADE . isto é. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio. segundo Wait (1995: 490). denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta. nem tampouco constituiria uma evidência da existência. O banquete e a hospitalidade eram. Miranda Green (1997: 68) considera.

Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica. não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13. etc. pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. p. para conter hidromel. 1994: 167). No caso desta tumba de Vix. mesmo. aqui. Além disso. SCHEID-TISSINIER. construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf. quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras.217). nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. 11 Essa cratera. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro. 208 Kg). oferendas. Esse serviço de banquete era composto de importações. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. 1979). seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados. dessa forma.‖ (KING. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. Por outro lado. simbolizassem o vínculo pessoal. ao redor do pescoço e na tampa/coador. dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11. assim como as alianças intertribais.64 m de altura. 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. da mesma forma. é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. ofertado – presentes.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens. DRISCOLL. 2004. do tipo com asas em ― volutas‖. que a remontou em Vix (JOFFROY. Possui ela decoração nas asas. que evidenciassem seu status e prestígio e. possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. JOFFROY. como no 16 . Trabalharemos. 1979) – para misturar vinho ou. pagamentos. 1988: 227-228). o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. Construíam. Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos.

pois. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. 1998b). ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). para ser exposta no enterramento da chefe. Em verdade. Um lado do pescoço porta doze imagens. 17 . 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. cabelos repartidos no meio e portando um véu. assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. em verdade. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. fixados com rebites sobre o vaso. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique.NEA/UERJ Entendemos. sua força política. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. ocultando-lhe os braços. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. TSETSKHLADZE. de uma mulher vestida com um péplos fechado. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. na cintura. porém. dos demais só podemos divisar algumas partes. No braço esquerdo. Os hóplitas seguiam. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. e. Exaltava-se. à posição privilegiada desta mulher. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta. à frente dos carros. 1998a. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita. por um cinto. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. portando sobre a face um elmo coríntio. ―renome‖ e distinção. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. enquanto o outro somente possui onze. que reforçaria seu prestígio. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita.

e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16. o kýlix ático em figuras negras. E ao redor de todos eles. por sua vez.NEA/UERJ De forma semelhante. um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. Donde. pois. protegendo-se com seus escudos e empunhando.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade. 1998a). não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas. uma lança. e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança. Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta). Devemos. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. temos os guerreiros helenos à esquerda. ver Tyrrell (1984). o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. há pseudo-inscrições. na mão direita. que. entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. aqui. Sobre as imagens de amazonomaquia. que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. Todavia. E nos Em ambas as cenas. freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. TSETSKHLADZE. No enterramento. destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. de alteridade das amazonas. onde eram celebradas as vitórias. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. 16 18 . Eram elas também associadas à prática do banquete. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem. feitas somente com pontos.

sendo. 17 19 . 18 A oenochóe etrusca. Segundo Joffroy (1979: 77). Com isso. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. tal como no Marne. como sugere a análise feita por Kimmig (1999). seriam provenientes da região dos Alpes. nos faz atentar para a tipologia desta prestação. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado. Esta taça recebeu cuidados especiais. 1979: 76-77). pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf. entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. Temos. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). Entretanto. havendo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sua posição no enterramento. à primeira vista. que. Além desses vasos. consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe. Quer dizer. com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. Logo. possivelmente. assim. o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. em Pouan (Aube). outrossim. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. 1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe.NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina. Kimmig. a oenochóe etrusca. que teria a mesma finalidade. os chefes de comunidades dessa região. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba). pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY. que tal como a cratera. como aquela de Hochdorf. que atravessava o vale do Tessin. tal qual as taças em cerâmica ática. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. aos pés desta. na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin).

20 . mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta. Procuramos. mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. na tumba. Em outra palavras. fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. de bens que simbolizassem esses laços. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. Concluímos. retirando-os de circulação e. Por conseguinte. que seus seguidores. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens. mesmo. igualmente. destarte. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar. quer para o restante da população. enfim. reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as comunidades vizinhas e os aliados distantes. de continuidade dos laços e relações. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. tais como os massaliotas. porque as relações. pois. demonstrando. Por meio deste estudo de caso.

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ela foi O Prof. Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. 2001: 61). donzela/ virgem. 1995: 15). gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). 19 26 . Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). C. Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. nýmphe. Em Atenas Clássica. Desta forma. jovem. do VIII ao IV séculos a.NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. recém-casada. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços. Dr. os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. C. A cortesã atuava. até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA. havia a concentração de prostíbulos (SALLES. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade. Lembremos do caso de Neera. 1986: 210). Dependendo do status. este último seria um tipo muito comum no IV século a. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. E além delas. geralmente. Dr. custavam vultosas quantias (MOSSÉ. podemos identificar os seguintes termos: koré. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas. que dependendo de seu prestígio. nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. da família e do oîkos. sob a proteção do pai.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs. apontado por Demóstenes. Inicialmente. Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí.

da dança e do ato sexual (LIMA. 27 . Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere. além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. C. 1988: 42-43. 21) em seu santuário na Acrocorinto. 6. do canto. 1999: 123). 1999: 25). A Ilíada é por excelência um poema de guerra. as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1997: 37). Desta maneira. poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem. o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios. O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER. Além dos termos apontados acima. 2000: 23). KIRK. Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte.doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos.NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). Como já mencionamos. bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. criado de forma oral por volta do VIII século a. O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. a guerra é o tema central do poema. o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé). devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos. os autores mencionam ainda as escravas . Para compreendermos o papel destes termos. Contudo.

Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. Hécuba. A partir da derrota de uma cidade. 1995: 151). Como os prêmios dos jogos fúnebres. Cassandra não aceita se entregar à divindade. Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK. privou-a da persuasão (peithó). então. 1999: 31). ao preço de suas vidas. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO. ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. a princesa Cassandra (Kassándra). Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. rei de Tróia. Sua mãe. a mênade 28 . a bacante. ou seja. Apolo. Agamêmnon. Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade. Contrariamente. O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. 1212). os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas.NEA/UERJ tais como: o gado. humilhado. como privilégio honorífico. preferindo continuar virgem. Podemos perceber. Entretanto. 1990: 105). 1999: 45-46). enfrentar os perigos e a morte. incluindo as armas dos guerreiros vencidos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. Todas as riquezas disponíveis. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. são pilhadas. celebrando os seus grandes feitos. Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo. Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE. os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. ter o dom de profetizar. um membro estranho em sua própria comunidade. Por meio da poesia épica. 1965: 431). que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas.

Cassandra. 374). Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. mas a pobre mulher permanece inerte. 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. Ilíada. II.‖ (EURÍPIDES.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ela foi um géras. Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . Cassandra não consegue ter credibilidade. Agamêmnon.1057). Agamêmnon. Antes de entrar no palácio. Cassandra ainda em posição estática é comparada. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO. ao palácio argivo. De princesa. profetisa e virgem. um presente honorífico. pelo Coro. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe. 13. Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra.‖ (EURÍPIDES. 1035). seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. 955). como um animal de caça. ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. que me evite esta nova pena. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. junto com Agamêmnon. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. tu que compartilhas os êxtases dos deuses. Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo. As Troianas. Todavia. chefe da expedição contra Tróia. com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. junto ao fogo sagrado. As Troianas.

o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra. mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira.morada dos mortos. ―Ainda não compreendo. 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas.‖ (Ibid. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon]. 1112-1113) Nos versos seguintes. 1990: 98). muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas. Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos. Ao descer do carro. Agamêmnon. um nómon ánomon. palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida.NEA/UERJ passando por um estágio de loucura. A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo. ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. 1990: 105).MULHERES NA ANTIGUIDADE .” (ÉSQUILO. quanto dos de Cassandra. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades . Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘. O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. após os enigmas [ainigmáton]. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 . Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe. eu acho. logo cantar minhas profecias. 1140). 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei. (VIRET-BERNAL. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. 1990: 128). daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘.

(ÉSQUILO. dos filhos desmembrados de Tiestes. justamente. Agamêmnon. Agamêmnon. Agamêmnon. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba. 1280). 1038).‖ (ÉSQUILO. 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. 2001: 118) Com o fim de suas profecias. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. DE ROMILLY. jurídicos e morais. 1995: 12). Agamêmnon. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. Agamêmnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A peça esquiliana mostra. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui. 1309. vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra. mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . as múltiplas facetas de Cassandra. Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu. Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e.‖ (ÉSQUILO. Agamêmnon. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). (ZAIDMAN. mesmo hesitando (DE ROMILLY. A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra.NEA/UERJ furiosas vingadoras. A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos. Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. Entretanto.‖ (ÉSQUILO. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra. sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. 200-205). a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente. a partir do relato de Ésquilo.

Agamemnon. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. Agamêmnon. Tome V. 1975. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. II. 1274) e chegou. Géographie. 1996: 122). Contudo. 1962. Cambridge: Harvard University Press. ESCHYLE. 32 . Trad. Trad. Trad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . LESKY. Raoul Baladié.Weir Smith. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. STRABON. talvez o principal. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. Paris: Gallimard. Paul Mazon. Les Troyennes. Trad. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. 1296. Agamemnon. H. Livre VIII. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. Émile Chambry. 950). EURIPIDE. Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo. Marie Delcourt-Curvers. E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. HOMÈRE. Paris: Garnier Frères. Trad. O segundo e. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. Iliade. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid. Loeb Classical Library Vol. 1978. Paris: Les Belles Lettres. 1964. 1995. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. uma rival de Clitemnestra. Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. segundo o poeta Ésquilo. 1273).NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. Paris: Gallimard.

1995. 147-155. J. SALLES. E.Madrid: Taurus. LIMA. C. 1999. VANOYEKE. 1988 (1965). Les Antiquités Grecques du Musée Calvet. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. de Souza. THEML. M. 1995. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. Paris: Armand Colin. 35-37. N. Paris: Les Belles Lettres.). LESSA.C. C. São Paulo: Perspectiva. 1999 (1968). 1996 (1937). IRIARTE. (org.C.) La Grèce Ancienne. 1998 (1970). G. no. A Tragédia Grega. Cultura Popular em Atenas no V Século a. DETIENNE. Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. Lisboa: Presença. VIRET-BERNAL. C. Paris: Payot. 20o. A. 1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Brasília: Unb. As Realezas em Homero: Géras e Time. MOSSÉ. O. In: Tragédies Grecques au Fil des Ans. O Mundo de Ulisses. Essai sur la Piété en Grèce 33 . Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique. Politique et Société. 3. 1965. 1990. En Grèce Archaïque: Géométrie. SCHEID-TISSINIER. Cl.S. Historia. Année. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego. J. 425-441.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. In: CAVALIER. Paris: EHESS. Le Commerce des Dieux: Eusebeia. (org.. 601. Rio de Janeiro: Sette Letras. 1996. J. ZAIDMAN. V.I.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY. Phoînix. F.B.) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. F. Les Hésitations d‘Agamemnon. À Athènes. 1986. LESKY.-P. Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ. Annales. KIRK. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av. In: VERNANT. A. A Tragédia Grega. 2001. C. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque. Paris: Éditions du Seuil. Avignon: Musée Calvet. janvier 1997. 2000. (org. mai-juin. FINLEY. ______. 1995. L. A. In: MOSSÉ. M.

descubierta en el palacio real de Nínive. el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino. cuyos dioses principales. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. centro del avispero antisirio. UNED.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Los escasos supervivientes fueron expulsados. marchó contra Babilonia. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. C. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib .C. cuya biblioteca. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa.C. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua.. Y la tomó y arrasó en diciembre del 689.). el príncipe Asurnadinsumi. deportados o vendidos como esclavos. aprovechando la enfermedad del rey de Elam. recientemente conquistada. mientras que el núcleo original del reino. La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a. Madrid.NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof. 1.ª Drª.) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. Assur . ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. quedaba en manos del culto Asurbanipal. España 34 . fueron llevadas cautivas a Nínive. dejando al primogénito la antigua Babilonia. Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. En aquel momento del siglo VIII a. 2007: 188). esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a. Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas. En aquel momento. sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer. Nabu.

había nacido de su última esposa. un princesa de Samaria. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar.NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. no sólo personalmente. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. o arameo. 1973) pl. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. hijos de otras esposas. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. Museo del Louvre (AO 20185). Senaquerib. capital y región anexionada por Asiria. con su hijo. Y más aún.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Naqi'a. a la cultural o política. esposa de Sargón II. ―La más pura‖. Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica. 62. cuyo nombre semítico del sur. que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. Asarhadón. foto de I. relieve de bronce. era Naqi'a. Seibert. afectado por una grave enfermedad crónica. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre. la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. junto con las diez tribus del norte de Israel. desde una influencia religiosa. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio. en acadioasirio Zakutu. 35 . El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero. tenía aún cinco hijos varones conocidos. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios. 2. el más joven de los cuales. Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. Pero los hermanos mayores de Asarhadón. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo.

Una curiosa trama. eunucos de la Corte incluidos. Asurbanipal. 1987: 140-145). desde luego. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen. entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk. intelectual y sensible .NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. Asurbanipal. que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas. ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . Ellas debían tener numerosos partidarios. Pero no cabe duda de que no estaban solos. Y dos reinas le ayudaron: Un viva. decididamente antia-sirios. la reina Ešarra-hammat. quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. sería para el hijo mayor de Asarhadón. hijo de la reina Ešarra-hammat. difícil de cumplir. pero partidarios del nuevo príncipe. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. Naqia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor. Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. Y debieron ayudarles elementos afines arameos. el príncipe Sinandinapli. su propia madre. y la reina-madre. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. Y probabilonio. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. al norte de Mesopotamia. Assur. oniromancia incluida. que. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. Y sin duda los utilizaron. que ya había fallecido.

Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. es claramente hebreo (cf.MULHERES NA ANTIGUIDADE .6) ). Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. Su sucesora. 3. cuyo nombre significa ―La más pura". Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur. 1987: 140-145). la reina Ešarra-hammat. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. Naqia y Essarra-Hamat .NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones. semitas del sur. madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) . 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE. PNA 1/II 433). madre de Ahaziah [c. Teepo reconoce (TEEPO. en la Corte asiria. sino también muerta. 844/3 BC] y nieta de Omri. se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón. la reina Naqi'a. n. por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4. el mismo nombre en acadio. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon. Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así. por lo que su papel no solo fue político. es el de una mujer. la presencia de estas mujeres arameas. Y no solo viva. la lengua de la reina de Sargón II. Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. Ataliā (KAMIL. Naqi´a era esposa de Sennaquerib. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9.Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina. y 2 Cron. 1999: 17. en el año 673. sino también económico (MELVELLE. 22- 37 . madre del Asurbanipal. 1999: 105-112).( 2 Reyes 11. también llamada Zakutu.

deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM. Yabâ. ministros y eunucos. es tan 38 . Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645). 217). Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal. Ella construyó un palacio para su hijo. (AfO 13 T4). Algo que había sucedido ya con Asarhadón. 5). que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81).C. la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE.7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. ―pura‖). Y el nombre de la reina de TiglathPileser III. posiblemente. aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. posiblemente en Assur. Iabâ ) o el de Naqia (Aram.MULHERES NA ANTIGUIDADE . I. magistrados. No hay referencias a ella durante su vida .v. durante cuyo reinado creció la influencia de su madre. STRECK. Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188. 915-9. PNA 2/II s. Ešarra-hammat fue reina de Asiria. 1956: Ass. Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias.v. que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta. y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no. esposa de Asarhadón(680669). mi señor]. Naqī‘a). fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. en colaboración con sacerdotes. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r.NEA/UERJ 24). sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real. 1999. PNA 2/I s. Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora . madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672). lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER.

). que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE. por orden de los dioses (. cuando al fin lo hizo.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra.. Cuando.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r. interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad. y delante de (. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia. 2005: 37) y numerosos servidores.. a los habitantes de Asiria. apoyada por los dioses Shamash y Adad.. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. sino lo que aquí se trata de comentar. SAA 13 77). a pesar de todos sus esfuerzos. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. 1999: 105. a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre. a este respecto. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154). para que todos respetaran mi derecho a la sucesión.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1). estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'. recayó sobre su hijo más joven. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses.. mi padre. Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib." 39 . no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. pero. los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274). Las dificultades en la Corte parecían evidentes. 5. Lo que evidencia su importancia. SAA 13 76 . su elección. (mi padre) reunió entonces. no sólo en materia de culto. pequeños y grandes. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. todos juntos. Asarhadón. TEEPO.

debió alejarse entonces de Nínive. una vez más. a fin de desacreditarle y atemorizarle. e incluso su padre. con lo que se le acusó de traidor a su patria.. a la ayuda de sus partidarios. debió recurrir. Aunque esta vez. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta. hepatoscopia incluída. era el de la fallecida reina de 40 . "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc. perdidas a causa de los invasores tierras. estaba algo irritado. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. Senaquerib. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. Assarhadón. Que a la hora de elegir al heredero. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes. que para Parpola. "El día 20 de Tebet. la reina aramea Naqia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. su dios. C. Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima. 38. ascendió al trono. su hijo. podían ser indestructibles. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. esta vez de Asarhadón. prebendas y riquezas. Isa 37:37. recurriendo a la aparición de un fantasma.NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. buscando refugio en algún lugar desconocido. Sin perder por ello el título de príncipe heredero. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat"." 132Cr 32:21. Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. llamada en acadio Zaqutu. según el Antiguo Testamento. El día 18 de Sivan. que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio. más allá de Khanigalbat. en cuya elección debió influir notablemente su madre.

estaba así sancionado por el fantasma de su madre. madre del príncipe Asurbanipal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a la vuelta de una expedición a Egipto. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. es decir. El reinado de Asurbanipal. el premio por honrar la memoria de su madre.. la ciudad del dios Sin. la fallecida madre del príncipe. el hijo menor del rey.C. el mismo año que su otro hijo. que tal vez la añorase ahora . entre otras disciplina adivinatorias. como en su caso. nuevamente. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. NATCP. porque no debía estar la situación muy clara. tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. Ešarra-hammat. Tal vez. El Príncipe recibe así. cuya muerte debía ser muy reciente. que había ordenado quien sabe si a su esposo. que su hijo pequeño le sucediese. intelectual experto en adivinación por aceite. El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. 7.NEA/UERJ Asarhaddon. cuando exigió a la 41 . lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre. 1993). se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño.C. su fantasma. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal. PARPOLA. 6. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. una vez más. Algo que su heredero tuvo que justificar. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan. Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto). preocupado sin duda. aunque ella hubiese desaparecido. a fines del año 669 a. Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte.. y que la piedad del príncipe para con su madre muert. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. como había sido su propio caso.

temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. Así púes. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos. su suegra Naqi´a. Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. principalmente en el harén. a la magia. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. Para ello hizo intervenir también a los dioses. 8. debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. llamada Adonías. a la coacción. Y además. que ayudada por el profeta Natan el profeta. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8). consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. al juramento. ritual y oficial de la reina fallecida. C. jefe de la casa del rey y el harén real. conservárselo. la reina Maaca.NEA/UERJ familia real. A la muerte de Ešarra-hammat. sin duda.92. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón. la esposa preferida de David. la aristocracia y la nación asiria.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a veces el rey podía alejarla de la Corte. El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder.) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. Pero el fantasma vendría en su ayuda. La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a. con su madre. ocupó la vacante política. que la joven llegase al lecho de su hijo. era la que había permitido. como madre del nuevo rey. 2009: 170). bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). como hizo en Judá el rey Asa. aunque si su poder crecía. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . Ella. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea. como en el caso de de Betsabé .. madre de Asarhadón. Según Melville. gobernando entre 913 y 873 a.

C. si lo oyes y lo conoces. referente a su nieto preferido Asurbanipal.NEA/UERJ que conocemos. exorcistas y profetas. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h. como en el caso de Natán. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey. rey del Asiria. madre de Asarhadón. lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey. reina de Senaquerib. un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio. 670 a. Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal.710 a. que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón.C. C.C. 670 a.) Madre de Asarhadón (h. Quieran Ashur. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE. pitonisas. rey de Asiria. venga a informar a Zakutu. su madre y a su señor Asurbanipal. rey del Asiria.) ―Tratado de Zakutu. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él. no se rebelará contra su señor Asurbanipal.MULHERES NA ANTIGUIDADE .700 a. rey de Asiria. los prenderás y matarás y les 43 . eunucos. ni tramarán para asesinarle.) Esposa de Senaquerib (h. TEEPO. 2005: 36) .) Abuela de Asurbanipal (h. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado. brujas. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal. 1999: 29. rey del Asiria.

I. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. DIRVEN. BURROWS.I. The Basis of Israelite Marriage. magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. volume 2. 2002. PS . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI.). Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. (ed. part II. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. 1999. 1978. H-K. OrNS 47. part .‖. 1997. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años. Leiden. Una vez más. ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra. BAKER. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. volume 3. M. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. tu señor‖. 1938.NEA/UERJ traerás a Zakutu. 2001. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 2001. London and New York: Routledge. de las autoridades asirias. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. American Oriental Series 15. ______. ______. part .C. Religions in the Graeco-Roman World 138. Z. volume 2. por suerte para la posteridad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. ______. 74-90. 2000.‖ WO 28. Para ello. L-N. L. 44 . hasta un fantasma era bien recibido. Gender and representation in Mesopotamia. New Haven: Yale. su madre y a Asurbanipal. rey de Asiria. (ed.). ______. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. a cuya elección había contribuido sin duda. H. 96-116. Women of Babylon.

(ed. T. Helsinki 2009. Published By The Finnish Oriental Society 106. ―Inscriptions on Objects from Yaba's Tomb in Nimrud‖. D.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Kamil. vol 2. Trees. 2002. 1999. de. vol. 1982.). S. S. Mainz. The Cambridge Ancient History. and Scholars. Nissen and J. Vol. In: Neo-Assyrian and Related Studies in Honour of Simo Parpola. Intellectual Life of the Ancient Near East: Papers Presented at the 43 rd Rencontre assyriologique international. Mesopotamien und seine Nachbarn. Sex and Gender in the Ancient Near East. (ed. 1998. J.). Studia Orientalia.175-181. P. 4. (ed. 167-177 ORNAN.germanischen Zentralmuseums 45. Letters from Assyrian scholars to the Kings Esarhaddon and Assurbanipal. Helsinki . Helsinki: Neo-Assyrian Text Corpus Project. J. pp. Kevelaer: Verlag Butzon und Bercker. In: BOARDMAN. CRRAI 25 = Berliner Beiträge zum Vorderen Orient 1. (eds. In Prosecký. 437-447. Of God(s). ―Les Dames de l‘empire assyrien‖. In: JAHRTAUSEND V. Saana Svärd and Raija Mattila. PARPOLA. In: DAMERJI .). M. 200-201. Helsinki: The Neo-Assyrian text Corpus project. ― Syria-Palestine under Achemenid Rule‖. M.). PNA 1/II 433 LUCKENBILL. Alter Orient und Altes Testament 5/2. SINGLETARY. bis 1. The Role of Naqia/Zakutu in Sargonid Politics. 1999. Gräber assyrischer Königinnen aus Nimrud. GARELLI. 2.. Edited by Mikko Luukko. Second Edition. 45 . MELVILLE. Prague: Academy of Sciences of the Czech Republic Oriental Institute. A.NEA/UERJ ______. J. Commentary and appendices. State Archives of Assyria Studies 9. 1983. Kings. 13-18. WHITING. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag. Renger. NOVOTNY. Part II. (1982): ―Importance et rôle des Araméens dans l'administration del l'empire assyrien‖. ______. In: PARPOLA.. 1927. R. 1988. ―The Queen in Public: Royal Women in Neo-Assyrian Art‖. Ancient Records of Assyria and Babylonia. S. J. Proceedings of the XLVII e Rencontre Assyriologique Internationale. 139167. ―Family Ties: Assurbanipal‘s Family Revisited‖. Politische und kulturelle Wechselbeziehungen im Alten Vorderasien vom 4. Jahrbuch des Römisch .

volume 1. 1954. O. (ed. 46 . Nuzi Real Estate Transactions. van. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. I.43. pp. Studia Semitica Upsaliensia 8. London. Leipzig. Woman in the Ancient Near East. 1999a. Helsinki: Helsinki University Press. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. PEDERSÉN. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 1993. 1997. Assirian Royal Women. ______. J. Letters from Assyrian and Babylonian Scholars. Reade. 1987. Helsinki: Helsinki University Press.). 4. Assyrian Prophecies. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis. 40 . ―The Neo-Assyrian word for ‗queen‘‖. SAA 10. Women and their agency in the Neo-assyrian empire. S.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Historia del Mundo Antiguo (Próximo Oriente y Egipto). 2004. American Oriental Series 25.). Helsinki: Helsinki University Press. Tesis Doctoral. Part I: Letters from Assyria and the West. pp. (ed. (ed. 2005. A. Paris: Editions Recherche sur les Civilisations. 1986. B-G. Hesinki. 4. The Correspondence of Sargon II. (ed. 5522.3 Daughters of kings and other royal women. ______. Mª. New Haven. SAA 1. part I. 4. J. Marriage and Family Life in Ugaritic Literature.1 Queen‘s . 2007. R. STEELE. ______. 1998. ―National and Ethnic Identity in the Neo-Assyrian Empire and Assyrian Identity in Post-Empire Times― In: 48th Rencontre Assyriologique Internationale. no. ______. 18.). 2. 1974. A. Vol. VÁZQUEZ HOYS.NEA/UERJ ______. Journal of Assyrian Academic Studies. SAAB II/2. SELMS. . SEIBERT. F. 1988. (ed. Archives and Libraries in the city of Assur. K. La Femme dans le Proche-Orient Antique: XXXIIIe Rencontre Assyriologique Internationale. 73-76. RADNER. In: DURAND.). devoted to the theme “Ethnicity in Ancient Mesopotamia”. (ed. Queens household. -Id. 4.34. volume 1. A. 1987. RADNER. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. part II. Pretoria Oriental Series 1.. Leiden 2002. Madrid: Editorial Sanz y Torres. K. 34. ―Was Sennacherib a Feminist?‖.).2.). 1943 TEPPO.-M. SAA 9.

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. 2007: 211-212). Helena é ardilosa. Helena.349 a 359). no entanto integradas. ambigüidade de caráter. Minha vida/ é maravilha. A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. 1990). No entanto. não admira o estratagema de Helena. acumulava ambas as características. com quem tem uma filha. pois. parte dela o plano de salvação de ambos. especialmente. havia um par de opostos. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem. e que a beleza/ cedesse em meu semblante. portanto. a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução. alimenta contra os gregos. (FARIA. ou grega ou bárbara. como/ as cores da pintura.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. estão. a astúcia. porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias. ainda que a contragosto. Teonoe. está sendo representada por um ateniense . a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. Hermíone. a boa esposa. no estatuto da mulher ateniense. Seguindo a ordem dos deuses. sendo a mélissa. segundo Andrade (2010: 117). e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos. as Panateneias e também as Tesmofórias. 54 ..apesar de ser uma espartana. Entre as próprias mulheres. porém.NEA/UERJ Menelau. á fealdade! (EURIPIDES. A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade. como tudo quanto/ me aconteceu./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda. vs.que baseia-se na exemplaridade doméstica. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça./ de que houvesse nascido um ovo branco.. rei do Egito após a morte de Proteu. silenciosa. irmã de Teoclimeno. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. . por diversas formas. Enquadra-se. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(. Helena. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura. do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. do marido daquela que deseja esposar. na vida religiosa da cidade.) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. astuciosa. emoção.

que o desposa e permanece com ele até ser resgatada.C. contudo. Helena. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. e que Hera. presente na bibliografia. obviamente. É o protótipo da mulher fiel. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica.C. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem.1329 a 1309) No entanto. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C. Ali ela espera o tempo passar.. eidolon. (EURIPIDES. jamais de uma mesma mulher. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro. para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. há uma outra Helena. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. Porém. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a. Helena é Penélope. na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. a esposa por excelência. sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. Portanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. porém. Proteu. sendo ainda possível. Nosso olhar volta-se assim. Bustamante. lutando contra um só pretendente. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a. as hetairas. Digamos que há uma Helena que é Helena. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. permanecendo. para a esposa legítima do cidadão ateniense. Teoclimeno. vs. como as concubinas ou palákinas. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. da ruptura de contrato. e mesmo a mélissa. encaminha para o Egito. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste.. a que está em Tróia com Páris. a mélissa. 26 55 . Enquanto a outra. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. primeiramente.NEA/UERJ irmão. espécie de fantasma. as pornaí e as escravas. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes. da infidelidade.

como dissemos anteriormente. para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres.50 a 54). que se destacavam no campo político. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. estruturas próprias (VERNANT. portanto. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus. entre outras notáveis.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. 56 ./ para livrar a nossa mãe. (EURIPIDES. que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia. No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. princesas. Tragédias não são mitos. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. rainha de Esparta. ao espaço de atuação de uma boa esposa. para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. vs. sua atuação está limitada. em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário. Helena. mas não a vemos destacar-se no campo político. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a. tanto no espaço público quanto no privado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o ponto focal do conflito.. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra. possuem sentido. ou seja. a terra. intenção. é. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente.C. Segunda a autora. Menelau lá governa por haver se casado com ela./ do fardo de uma multidão inútil. Helena. Helena é uma rainha. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. VIDAL-NAQUET.

A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade. a mentira.NEA/UERJ Na tragédia Helena. o ardil. a primeira mulher. primeira mulher. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. Pandora é. a capacidade de persuadir e outras qualidades. e Zeus destinou-a à punição da raça humana.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos. um duplo seu. num mito hesiódico. sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. a manifestação de características típicas das mulheres. ignorado do agente. a graça. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. VIDAL-NAQUET. Pois. (VERNANT. por ordem de Zeus. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza. temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. 1999: 23). 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. Foi criada por Hefesto e Atena. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. com o auxílio de todos os outros deuses. foi levado por Páris a Tróia. criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais. à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. A primeira diz que 57 . e posteriormente retomado por Menelau. mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário. ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . a destreza manual. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena.

a outra não trabalhava. e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. a lista de deficiências é imensa. consequentemente.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas. segundo o recipiente em que é colocada. a mélissa. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha. Desta forma. uma roubava. o causador da guerra. no século VII a. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. uma comia as carnes consagradas. a outra se banhava em excesso. feito de éter. uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite. assim como a água altera sua forma. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides. Ainda que este seja o transgressor. a outra era dissimulada. Ao comparar a mulher e os animais. uma falava demais.. mudando constantemente de sentimentos. De qualquer maneira. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense. Uma gostava da sujeira. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. Esta é a Eva da Atenas do século V a.. pois esta é ainda mulher e. presença física.C. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. o infiel.C. de Amorgos.C. a outra era ardilosa e astuta. 27 58 . a ―real‖.

a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio. ―mas. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. 2007: 91-92). e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. ―Não é tão arguta como em Troianas. mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la.NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. tornando-a protetora dos navegantes. tornando-se mais superficial. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. inevitável que este a possuísse. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a tragédia não é dissociada do espaço político. portanto. sendo. 28 59 . Orestes. portanto. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. vs. mentirosa. a pedido de Zeus. Até porque. nem determinada como em Helena. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖. Não fosse o estratagema de Hera. vemos a sua volta para casa. 1638 a 1642). há um clima geral de rancor contra Helena. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. (EURIPIDES. É descrita como fútil. Porém. que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. mas não é vista como uma igual por estas. silenciosa e discreta. uma vez que. como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. Nesta tragédia.. que traiu o marido.. e por fim. Recatada. Em Orestes. a salva de ser assassinada por Orestes. é acima de tudo. ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. Helena está junto das cativas. ainda que não o seja em carne e osso. a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. Em As Troianas. querendo ou não. abandonou-o para seguir a Páris. o reencontro com a filha. inclusive a rainha Hécuba. vaidosa. a personagem recebeu um tratamento mais duro. 2006: 119). assim deveria ser a esposa ideal. sua imortalização quando Apolo. Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis.

mais provavelmente. concede voz. Eurípides ao apresentar mulheres fortes. (Estenóbeia. de modo que. Ifigênia. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas. Fedra. políticas. A relação entre a memória. aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. assim. representadas obviamente por atores masculinos. comedidas.NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. espectadores. 2006: 83). que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. possíveis. nos permite reconhecer. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. determinadas. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. a tradição e as representações sociais. O tragediógrafo trás a público. culturais. ainda que nas entrelinhas. assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares.C. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. 2007: 49). motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. do imaginário29 ateniense do século V a. vias diversas. pois Eurípides coloca no palco. prudentes em cumprir suas funções. rebeldes. traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou. Muito. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. e ―apresenta tanto heroínas depravadas. acerca destas mulheres. ativas. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. vingativas. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. 29 60 . que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. o imaginário. Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. Macária)‖ (FARIA. são ao contrário.MULHERES NA ANTIGUIDADE . são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista.

até a atualidade. LESSA. 2010. 61 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica. Tradução de José Eduardo do Prado Kelly. os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial. das origens de tudo o que se conhece e que. configuram neste sentido.de S. povoa a literatura. 2005. de forma geral. o cinema. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial. Helena. a música. Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. como observado anteriormente. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. possivelmente traído por uma de suas esposas. Mas. da C. por exemplo. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas. de caráter fraco. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se. 1986. a novela – entendida no sentido televisivo . como Medéia. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES. Sendo. sempre tendenciosa à mentira e à traição.M.M.) Memória e Festa.(Orgs. Ainda que.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. S. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. BUSTAMANTE. novamente. consequentemente. F.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense. Segundo Mircea Eliade. sigamos então com Helena. Rio de Janeiro: Mauad. Helena. como dito anteriormente. M. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela. a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental. R. dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. ao ser reinterpretada pelo teatro.P: Labeca – MAE/USP.. Rio de Janeiro: Agir. como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável. o tempo do princípio (2001: 11).

R. Os usos da mitologia grega. VERNANT.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A. 2010. M. LESSA.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. A História Cultural. Rio de Janeiro: Bertrand. David. Entre práticas e representações.. 1999. GRIMAL. 2000. A tragédia grega. G. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. FARIA. São Paulo: Perspectiva. (Org. VIDAL-NAQUET. A invenção da mitologia.C. J.C. São Paulo: EDUC. DOWDEN. 62 . 1998. 2003. M. SOIHET. Nicole (Org. I. 1994.M. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. THEML. R. Coimbra: F. LORAUX. Rio de Janeiro: Zahar. M. Mito e Realidade. NÓLIBOS. Paulina T. DURAND. 2007. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. ______.NEA/UERJ BUSTAMANTE.. S.). SAMARA. 1998. MATOS. Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher. 1990. 2006. Ken. A. CARDOSO.P. Pierre. São Paulo: Alameda.L. 1998. M. FERREIRA. FERREIRA. História & Gênero. O poder do Mito. José R. El Pasado es un Pais Exraño.).L. Sp: Papirus. Entre o Sagrado e o Profano. J. FINLEY. Rio de Janeiro. E. P. de M. Z. Brasilia: Jose Olympio: UnB. Rio de Janeiro: Mauad. Gênero em Debate.. 1991. J. 2000. LESKY. Albin. Rio de Janeiro: DIFEL. Lisboa: Edições 70. 2003.S. K. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Martins Fontes. LOWENTHAL. São Paulo: Associação Palas Athena. GONÇALVES. ELIADE. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense. CAMPBELL. 2006. 2004. 2009.. Goiânia: UFG. O Imaginário.U. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. 2005. Paris: Lês Belles Lettres.. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. da C. Porto Alegre: UFRGS. São Paulo: Perspectiva.) La Grèce au Féminin. Belo Horizonte: Autêntica. A. (Orgs. 1992. Madrid: Akal. 1990. R.. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. 1997. Campinas. 2001. Labirintos do Mito. DETIENNE. CHARTIER. Moses. R. de S. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero. A Grécia Antiga. FLOWERS. Betty Sue (Org. F. Aspectos da Antiguidade. DUARTE. São Paulo: Martins Fontes.. ______.

Sou inocente. 31 Segundo K. que um teu prodígio O comprove e me salve. têm sua base no complexo sistema religioso romano31. Deusa. decide. familiar. político etc. T. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. os ordenamentos jurídico. 30 63 . ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. Se me fores contrária. Woodward. eu..) Identidade e Diferença. aceito a morte.NEA/UERJ MAGNA MATER.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. quanto por meio de formas de exclusão social ‖. K. que és pura. nas artes etc. In: SILVA. Petrópolis: Vozes. Ó tu.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem. e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. IV). negam-no. na sociologia. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos. na antropologia. delineando suas imagens e seus corpos. A perspectiva dos Estudos Culturais. 2008:40. E desatadas pelos ombros as tranças. sejam individuais ou coletivas e.ª Dr. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. ouve meus rogos. Sinal é que a mereço. (org. se inocente sou. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História. WOODWARD.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ensinando-lhes seus lugares.T. E meu contrato por piedade aceita. no caso específico da sociedade romana antiga. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. CLAUDIA QUINTA.. Fasti. . Nas últimas décadas. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história.

). universalmente33. 64 .. U. e que deveria. p. e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais.) 32. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. The Blackwell Publishing Ltd. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. portanto. A sociedade romana era androcêntrica. A Companion to Gender History. M. 2008:40. religiões criaram e legitimaram os gêneros. veiculando normas e valores. (org. K. segundo Ursula King.. designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples. T. 33 KING. ser aceita como norma por mulheres e homens. WOODWARD.NEA/UERJ mundo.. de autoridade.T. pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões.).. Religion and Gender: Embedded patterns. existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível. Religião e gênero não são apenas análogos. WIESNER-HANKS.A.E. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação. quanto por meio de formas de exclusão social‖. In: MEDDE. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX. termo que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de poder...) Identidade e Diferença. (edd.). 32 KING.. 73. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. T. fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. op. 2004: 71. interwoven frameworks. In: SILVA. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (. cit. reforçaram-nos (.

e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo. ―impedimento‖ que.cf. no. B. C. TACLA. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35.NEA/UERJ ou vícios passados. N.) Repensando o Império Romano. 34 65 ... os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito. E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. quando lidamos com um mito. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos. (org. Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF).) Experiências Politeístas.M. G. e tudo o que seria (para nós) político.(orgs. 2008. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço. A. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. A. Os atos rituais romanos são. Particularmente no caso dos mitos romanos. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. nos traz problemas suplementares. que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. no mínimo. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. C. na sociedade romana. In: LIMA. In: MENDES. Ano I. Há muito que avaliar. redutora. A Religião na urbs. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖. SILVA. Considerando que não houve. ainda comum entre os próprios antiquistas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . C. se não equivocada. C. após o fim da monarquia. BELTRÃO. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. 1. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. BELTRÃO. percebemos que esta visão moderna é. 2006. grosso modo. De fato. A cf. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas. pela proibição ou pelo temor reverencial.V. criou-se um consenso de que. Cadernos do CEIA. Em linhas gerais. a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia. tem sua tradução e expressão no plano religioso34. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político. se expressa como ―escrúpulo‖. numa visão hipercrítica moderna. Rio de Janeiro: Mauad X. temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas. Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos.

1-8).MULHERES NA ANTIGUIDADE . identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. Religião. na essência. e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade. veiculando e instituindo recorrentemente. estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. Os mitos femininos romanos são. narrativas que podemos considerar político-religiosas. 36 66 . assim como nenhum gênero. censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖. posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. é uma categoria de análise estável e a-histórica. em suma. Nenhuma religião. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. Lívio ( AUC XXXIV. termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante. E. vistos como falhas do grupo familiar. criado por T. portanto. eram modelos de vícios fundamentais. somos herdeiros sob muitos aspectos. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. o ideal romano da castidade feminina. o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia. ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). por exemplo. como os papeis sociais de gênero. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –. nas mentes das gerações que os ouviam. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. sociedade e instituições são. ver. ou mesmo da sociedade como um todo. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs. queiramos ou não. Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖.

Clodio Pulcher.)? (Cícero. Do mesmo modo. um modelo para a matrona. investindo contra P. M. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana. numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos. nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino.C. 14. a principal testemunha de acusação. reprovando a irmã do tribuno. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. assumindo o papel de Ápio Claudio. ou Claudia Metelli38.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia.. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. Clodia era a principal testemunha de acusação. que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (. posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino. 37 M.. Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. o filósofo. Clodia escrevia poesias em grego. sendo considerada 67 . 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus). Cícero.34). Clodia Metelli. também relato por Lívio. em 186 a. A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. A acusação radicava. cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. já que nossas imagines viris não a comovem. ancestral de Clodio. nem progenitores como eu.. Cael. o Censor. concretamente. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia. o caso das Bacchanalia. à época casada com Cecílio Metelo.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta. pontuado por elementos teatrais. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. Clodia Pulchra. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição). em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis.

um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia. matrona que se tornará. BELTRÃO. W. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias. Disponível em: http://www. um mito político-religioso em Roma.revue.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. 1: 56-62. o nome da gens Claudia. cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela.com/Numeros/Num3/artigos/art2. O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. como Cícero e Catão o Jovem. à bebida. 2007. C. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. Q. Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações. Um mês depois do Pro Caelio. M. a partir de então. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. SALZMAN. 39 cf. AJP 103 (1982): 299-304. v.pdf. Cícero investia contra seu principal desafeto da época. é Claudia Quinta.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. Colóquios . Cícero.univlille3. A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero. the Megalenses and the Defense of Caelius.revistamirabilia. Ciências e Letras (FAFIUV). LEACH. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. 2007. Disponível em: http://dictynna. 40 cf. dedicados somente ao prazer. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. União da Vitória: FAFIUV. como nobres degenerados. E. Clodia foi casada com seu primo. BELTRÃO. C. Atacando a Clodia. Cecílio Metelo Celer. O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. R.htm 68 . membros da mais alta nobreza romana. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio. com seu comportamento ―imoral‖. Mirabilia 3 (2003). sua antepassada.NEA/UERJ por desonrar. Os irmãos Clodios. Dictynna 4.

Os edis eram responsáveis. Claudia. novamente uma referência aos Ludi Megalenses. Q. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. dentre outras. Cipião. Outro rito era a lauatio. que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. em honra da Magna Mater. com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. cuja antiga austeridade era. nem a edilidade curul42. A data do discurso é significativa. resp. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma. 41 69 .. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har. O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a. censura a Clodio por não ter. No De haruspicum responsis. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia]. e Cícero. pela supervisão dos Jogos. o banho ritual da deusa no Almo. Cibele. nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados. aceita em No mesmo discurso. merecendo a menção de Cícero no discurso. sobre o qual repousa. 27). cumprido com os deveres de seu ofício. P. era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. quando edil curul. que tem como primeiro dever mantê-los. Cibele43. riacho perto de Roma. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. nem teu próprio sacerdócio. pensamos. XIII.C. A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). incluindo mimos (os ludi Megalenses). Desse modo. na passagem. Jogos realizados durante o festival das Megalensia.NEA/UERJ Foi então. no início dos Ludi Megalenses. pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Claudia Quinta é. 46 cf. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal. The Classical Journal 96. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia. Em geral. escapara a um incêndio no templo.2 (2000-01): 141-162.C. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. 1. que não chegou até nós. LEEN. A. radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46. ocorrido em 111 a. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família. quando os quindecimuiri sacris faciundis. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖. bem como. No seio do embate contra os Clodios. Um novo incêndio no templo.8. declararam que as divindades romanas.C. desta feita em 3 a. um modelo de castidade. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. portanto. em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana. Cícero utiliza. fortíssimo. também deixou a estátua ilesa. provavelmente. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas. consultados pelo Senado. com seu apelo tradicional à fides.11). para Cícero. um modelo de emulação para mulheres romanas. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal.. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. 44 70 . conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45. 45 Esta estátua. O argumento de Cícero era. sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater. então. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício.

A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio. senhora da Itália. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. Lívio. cidade fundada pelos fenícios no século IX a.C. mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago. Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais.C. Aproveitando as dificuldades de Cartago. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater. pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. no norte da África. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. Roma. Roma ocupou também a Sardenha. agora direto. como a tradição registra. com Cartago47. agravado pelo contato. Roma era. 47 71 . precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília. Após vencer a I Guerra Púnica.). além de comunidades pastoris nos Apeninos. Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a. Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília. C). da Sardenha e da Córsega (237 a. As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. cidades etruscas. que jamais enfrentara um combate naval.C. Nosso contexto.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. centros agrícolas na Campânia. 9).C. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. ilha situada entre Roma e Cartago. 14. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização.MULHERES NA ANTIGUIDADE . agora. E a II Guerra Cartago. XXIX. levando Cartago a aceitar um tratado de paz.). As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a. agora. e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana.

48 72 .C. p. Derrotados em Zama.C. verdadeiros tanques de guerra. recomendado o culto de Cibele aos romanos. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês. segundo a tradição. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a. que nunca tinham visto um elefante. enfraquecendo o poder da urbs. foi um marco. Só em 211 a. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a. sendo destinados a estimular. ―a religião é algo eminentemente social. chegando a atravessar os Alpes.C. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas. Aníbal. Durkheim apud WOODWARD. A derrota romana em Cannae (216 a.. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos. a guerra de Aníbal (218-201). Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas.). de um festival.C. abandonando a península itálica. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam.NEA/UERJ Púnica.. seguiu-se uma guerra de desgaste. invadindo a Itália pelo noroeste. se dirigiu para a Itália meridional. trouxe grandes dificuldades para Roma48. causando graves problemas sociais na Itália. 41. que se instalou em Cápua. manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖.. o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade... A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual. A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. então. Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó. Finalmente. que incluía seus temíveis elefantes. com seus arsenais e minas de prata. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. recuperou Tarento e Cartagena. ficaram apavorados. Os itálicos. perto de Cartago. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem. na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões.C. op cit. a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses. Em 209 a.C. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. A partir de 215 a. 49 Segundo Durkheim.

sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. Tácito. A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes.. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖. No mesmo momento. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos. sendo recebida por P. S. 51 GRUEN. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53. 27. Studies in Greek Culture and Roman Policy.. 3.C. In: MENDES. no Palatino.) Repensando o Império Romano. 2006:146. Ann. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões. P. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden.V. 1990. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. C. ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade. os efésios. Rio de Janeiro: Mauad X. cit. Segundo Erick Gruen51. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: . simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. A Religião na urbs. op. a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. em 191 a. 52 GRUEN.61. a Magna Mater chegou a Óstia em 204.(orgs. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano. p. 53 BELTRÃO. G. Cipião Nasica e por Claudia Quinta. SILVA. quando chegou a Roma. N. E. O favor divino..NEA/UERJ pleiteantes. sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké. Por sua vez.1). e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50. líder das matronas romanas. os galli. Pela documentação percebemos que. 50 73 . poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis.M.

s. 2.S. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. Italia y Roma desde una perspectiva legendária. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. como o festival do Latiar. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado. Rom. contudo. I Latini e gli altri popoli del Lazio. In: Itália Omnium Terrarum Alumna.g. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. e. 43. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns. Hal.v. a mítica predecessora de Roma56. tb. Mas o termo 54 55 74 .P. suas vestes e penteados femininos. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. Milano: Scwegwiler. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. Virgil and Augustus‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . onde seu filho.19.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso. G. – Pisa: Edizioni ETS. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa.NEA/UERJ cuidadosamente controlados. J. Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. cf. derivado de interpres. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana.I. fundaria Alba Longa. interpres). ver os Fasti 4. T. podem explicar a cidade mítica. COLONNA. E. Ver. e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. Dion. 2008: 9-26. de certo modo. a introdução do culto era uma inovação dramática. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen. Fasti 4. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. sua autodenominação. além de ter sido domesticada como Magna Mater. Este termo enfatiza a integração. Ant.3).247-72 de Ovídio. Ovídio. ou neto. ―Cybele. Cividale del Friuli. celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano. simultaneamente. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. se o culto era novo e. ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. MARTINEZ-PINNA. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ. existentes desde o período do Bronze. reunindo os povos latinos. Desse modo. uma montanha próxima de Tróia55. 1988. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas. inaceitável para a tradição romana. a extensa Alba. cf. Wiseman. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia. Então. e é certamente preferível a sincretismo. as aldeias dos Montes Albanos. 57 Interpretatio.

provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma. Gruen chama. por fim. a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões. op. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago. 75 . e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖. E é ainda com essas também tem seus limites. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. Ressalte-se sua instalação no Palatino.) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. então.. e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58. e sua interpretatio.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. ao mesmo tempo. cit. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística. como sustenta Gruen. se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. p. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos.. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. A urbs estava unida por seus mais destacados membros. por mais brava que seja. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode. à época da II Guerra Púnica. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial.. 58 Gruen. e o estudo de inovações religiosas. chocavam-se politicamente com frequência. 26. em seu poema político-filosófico De rerum natura.

no meio de um respeitoso temor. e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros.). II. pulam em cadência.) vão lutando entre si.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras. as mãos fazem soar. (. silenciosa. com generosa oferta. 643-44). no entanto. beneficia os mortais com sua calada proteção. côncavos címbalos. Grupos armados (. as tubas cantam roucas suas ameaças. apesar da interpretatio. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59.. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. Vários povos. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. RN. revela-nos que Cibele. Apesar de seu ceticismo epicurista..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Por isso. sempre foi 59 76 .. apesar de tão belo e tão bem imaginado. levada através da cidade. alegres como sangue (.) Logo que. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal. à volta.. No festival da Magna Mater.. anda muito longe da verdade‖ (RN. e. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham. que lhe faz dizer ―. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. II. segundo os antigos costumes sagrados. chamaram-lhe Mãe do Ida. Juntaram-lhe eunucos.. 600-642).) Tocam tambores tensos. segundo dizem. os fieis. homens armados acompanham a grande mãe. (.. porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. tudo isso. Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia....

Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino. e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus. (. que foram chamados Megalensia (T. em TURCAN. R.. na Frigia62. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. p. Sua reputação que. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la.. (.1. op. Este era um dia de festival.cit.. a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L. de uma a outra sem falhas. 62 Segundo Varrão.. e Jogos. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus. considerada uma deusa estrangeira. cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle. no Palatino.). As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão.) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória.g. e houve um lectisternium.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia. 77 . 15) e em BEARD. entregá-la às matronas para ser levada. um nome se sobressaía. 96 ss. cit.. até Roma. para onde a estátua de Cibele era levada61. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres. no dia que antecede os Idos de abril. p. Lívio.L. e em BEARD. após ser retirada com segurança. Dentre elas. (. 1996: 28-74. 14. e. VI.5-14). NORTH & PRICE. como a tradição registra. XXIX. In: ______. 1. o de Claudia Quinta. op.vol.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril. The Great Mother and her Eunuchs. The cults of the Roman Empire. e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e.. NORTH & PRICE. vol. 96 ss.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa.. Oxford: The Blackwell Publishing Ltda..

por seus escrúpulos religiosos. IV. senado. nada comenta sobre esta suposta reputação. IV. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. e a preparação da cidade para receber a deusa. Assim. antes de Lívio. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. exigia. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. e seu culto demandava controle. no desenvolvimento do mito. A figura de Cibele. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. são elementos significativos para nós. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. com base na tradição. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento. entre as matronas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fasti. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta. sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação. Cícero. (Ovídio. cavaleiros. Esta versão de T. para ser aceita. sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. a matrona com prévia reputação duvidosa. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos. A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama. Em versões posteriores. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. Em Ovídio (Fasti. de ―todas as matronas‖. o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. 78 .

rompe da turba. Contudo. ajoelha. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também. do antigo Clauso prole. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos. De torpeza era ré na voz da fama. Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar. Claudia. a crer no mal propendem todos. virgens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . . Sobre a cabeça a verte por três vezes. Tão bela quanto ilustre. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam. ó Vesta. E desatadas pelos ombros as tranças. enche d‘água as palmas côncavas. Com os olhos fitos na divina imagem. Matronas. pura na vida.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. cansam. todos no empenho Põem mais que humano esforço. Que prol. Virgens velam no altar teu santo lume. e as que. De hora a hora o descrédito medrava. Por três vezes as mãos aos céus levanta. Lá vão correndo em confusão festiva. Dos penteados seus. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria. suam. 79 . Chega ao Tibre. noivas. Sem ousar a surdir. Delirante todos a crêem.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. ouve meus rogos.

asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes..NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. complementados com fórmulas verbais e. de quem. pedindo que. que um teu prodígio O comprove e me salve. O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. solta-o e o conduz ao porto. a deusa testemunha sua virtude. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta. puxando o cabo do barco. seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos. Claudia Quinta. que ainda hoje espanta em cena. Na poesia de Ovídio. se inocente sou. por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . puxa manso a corda O que refiro é. eu.. muitas vezes. Ó tu. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . e o discurso verbal é inseparável da ação. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. Sobe uníssono aos céus clamor fervente. Geralmente. encalha num banco de areia. de puras mãos deixa levar-te – Diz. decide. Claudia Quinta se separa da multidão. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas. negam-no. e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63. havia uma jovem de origem nobre. a glorifica. e ergue seus braços. Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora. Se me fores contrária.(. muitos levantavam calúnias. Quando o barco encalha. então. Ante o povo a protege. portanto. Seus atos eram. Fasti IV. os oficiantes liam os textos. torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. Deusa.) (Ovídio. o ritual é performativo. invocando a Magna Mater. aceito a morte. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente. Sou inocente. que és pura. Pela acclamatio de Claudia Quinta. Scheid. os rituais incluíam fórmulas imperativas. Segundo J. se fosse casta. Sinal é que a mereço.

bem como outras derivações (exclamo. não se podia voltar atrás. na presença de uma audiência. os celebrantes eram cuidadosos. As acclamationes visavam. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas. por vezes. e sinais aromáticos de perfumes e incensos. de figuras como a hipérbole e outras. Assim. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. preces. performances musicais. propiciavam o favor da divindade. Outros elementos importantes dos rituais. clamo). pois. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. altares decorados. quanto no uso de neologismos. mas também a aprovação verbal desta audiência. J. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. An introduction to Roman Religion. Bloomington. contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos.) remete à vocalização.v. por exemplo. 64 O termo acclamatio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . s. tanto na estrutura rítmica. Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos. proclamo. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos. repetida. e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. com o sentido de ―criar versos‖. expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual. 2003:98. eram as roupas brilhantes. derivado de clamo/clamare. ou seja. desta feita extraverbais. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. reclamo etc. Indianapolis: Indiana University Press. vinho e carnes queimando no altar. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano. 81 . coroas e guirlandas. A mesma aclamação podia ser. belos animais com chifres ornados. ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. confirmavam a crença de seus fiéis. mesas enfeitadas etc. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas.

NEA/UERJ assuntos religiosos65. Ph. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum. mais frequentemente. D »Etudes anciennes. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67. que prometia domicílio e/ou culto. como performances orais endereçadas às divindades.p. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome. de l‘École Française de Rome.C. As acclamationes podem ser vistas.-4ème s. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias. mas também serviam para impressionar a audiência. Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. ou seja. Clodiana religio. Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. 17) Paris: Les Belles Lettres. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas. realizado no acampamento militar romano. Ver esp. em Roma. J. contudo. ou público.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. em rituais como a euocatio66. 1999: 62-86. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual.C. e c) a função de instauratio (repetição). portanto. decidindo que o caso fora nefas. MOREAU. Este. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar. Brepols Publishers. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio. Podemos VAN HAEPEREN.a. e SCHEID.(Coll. Paris : Palais Farnese. 1982 : 58-62 . 6-7 avril 1978) Coll. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. J. F. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. de um ritual em espaços cerimoniais. W. Un procès politique en 61 av. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. um dos ritos relacionados à guerra em Roma. em primeiro lugar. Le Collège Pontifical (3ème s. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a. a divindades de povos inimigos. remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. de reconciliar alguém com uma divindade ou. J. TATUM. portanto. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo Cícero. ou seja. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. durante a cerimônia da Bona Dea. 65 82 . irmão de Clodia Metelli. 1981.C.-C. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória. b) a função testemunhal. e J. Era . The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. a instauratio. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio.

W. 70 BEARD. 2 (A Sourcebook). S. M.revue. 10. uxor Fulvi Flacci. na margem do Tibre. o Antigo. turritae rara ministra deae: Propercio. VI. 1998: 45-46. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. 51-52. electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret. Dictynna 4. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. Naturalis historia.A. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen). iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio.pdf 83 . e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta. consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma. NORTH.univlille3. vol. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d. PRICE.F.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A narrativa ovidiana desenvolveu-se. Claudia. Cambridge: Cambridge University Press. por exemplo. Eleanor W. a matrona romana encontraria sua gloria. John North e Simon Price70 e. Propércio. Religions of Rome. E.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma. 2007. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade. Disponível em: http://dictynna.NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste. que residiria na observância dos deveres familiares.R. Elegia 4. posteriormente..C. sob o Aventino: 68…uel tu. de uma relação privilegiada com uma deidade. Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza. que realiza um milagre68. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. Mary Beard. 38. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade.. J.. 71 LEACH.

e projeta-se numa plataforma. Na imagem.vroma. em um navio. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto. ao modo da deusa. nascida livre ou liberta. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta.C. 72 84 . sentada num trono. datado do século I d. a deusa surge no centro..jpg ) O altar. A deusa está vestida com um véu.org/images/raia_images/claudia_syntyche. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. mas provavelmente pertence. a um ramo da gens Claudia.NEA/UERJ (fonte http://www. ou seja. Esta figura também está velada e usa um chiton. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. com uma provável aedicula atrás dela. com o chiton e o himation. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

e. 1998: 45. as Vestais eram revestidas de sacralidade. Cambridge: Cambridge University Press. nem o das matronas. geração em potencial. e. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos. próprio aos rituais agrícolas. BEARD.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― .C. 73 85 . Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal. ver: BEARD. materializado pela exigência férrea de castidade. v.. para tal. na poesia e na pintura através dos séculos.g. pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado. 2. NORTH & PRICE. até a modernidade. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. não tinham o cândido significado das meninas. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa. M.NEA/UERJ E. do devir dos elementos e de toda história. podemos dizer que as Vestais. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. em Herodiano (Hist. lhes era conferido um caráter de incolumidade.. 1. portanto. 70 (1980): 12-27. o prolongamento ígneo da luz. e a consciência desta oposição. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. cf. como tal.‖ cf. No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. Quanto ao mola salsa. HORVAT. seria antes uma poção sagrada do que um alimento. os Di consenti. o eram da terra. como surge. protagonista da criação e. sempre elegantemente paramentadas. que na vida doméstica faziam o pão. num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. 2007. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. Religions of Rome. Rio de Janeiro. mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas. Se eram matronas. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo. O fogo das Vestais era. Phoînix 13. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard. corpo da família. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade.73. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais. para os homens romanos a principal virtude feminina. P. no século II d. e a quem era facultado observar a vida pública. Esta associação teve um longo sucesso. que remeteria a um regaço materno. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. especialmente em representações imagéticas. Se eram mulheres com privilégios cívicos. no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento.. 11)74. exercendo o fascínio do interdito. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. geração consumada.

A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. que implica propriedade e patrimônio. está na base do regramento romano de gênero. por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico. local no qual residia o Lar familiaris. instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. com a ênfase positiva na castidade feminina. ambos. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. e os principais ritos famuli. sem maiores considerações a laços sentimentais. s. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. por meio da geração de filhos homens. familia 76 86 .NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos. escravos. que não corresponde à virgindade. do culto dos maiores. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. exaltando a figura da matrona. que são. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. no casamento. A tradição da religio domestica. que teve um impacto direto em suas principais instituições. Em um altar (ara) de pedra. Com o passar do tempo. E a mulher. observar esta figura. Do mesmo modo. aspectos centrais da reforma augustana.v. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. A casa familiar (domus) romana é um santuário. já que a matrona.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Importa. próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados. garantia a continuidade. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. de onde deriva o nome família: ERNOUT. agora. MEILLET. com seus Lares e Penates. portanto. de forma quadrangular. o laço religioso é o fundamento da família. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76. não podia pertencer a mais de um culto familiar.

significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família. e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma. Paul Halsall diz: . 2004: 293. A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. O poder de agir em ambas as esferas. apesar de. definia a identidade masculina. M. Do paterfamilias. e apenas ele era um cidadão completo. A Companion to Gender History. Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖. ritos de passagem à idade adulta etc. sua propriedade mantinha-se no domus de origem. por exemplo. portanto. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. na prática. E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade.. tem a mesma raiz de uir (homem). Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. 77 87 . WIESNER-HANKS. manumissões. (edd. In: MEDDE. a pública e a privada.A.).E.NEA/UERJ familiares ocorriam.).. é considerada débil. como sabemos. A mulher. que adquiria o manus sobre ela. uma qualidade exclusivamente masculina. tangendo HALSALL. A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. Na verdade. T. A uirtus é. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. por sua natural falta de uirtus. P. presididos pelo paterfamilias (casamentos. The Blackwell Publishing Ltd. Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado. seus filhos e seus escravos (patria potestas).

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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talvez. Séchan 1927. 86LIMC Medeia 3-6.C. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé. Corti 1998. conferir Heydemann 1986. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma). Contudo. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. Simon 1954. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. primeiramente atestadas em c. Vojatzi 1982. Meyer 1980. de fato. façam alusão ao episódio da carruagem. 2009:78-93. em vasos. 400 a. Braswell 1988:6-23. Griffiths 2006.C. resta-nos pouco para contextualizá-los.87 Por isso. inclino-me a acreditar que as imagens de c. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia. 330 a. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos. Neils 1990. entre um par de serpentes que olham para ela. de Canosa di Puglia.C. 95 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mastronarde 2002:44-57. Clauss e Johnston 1997. Parry 1992. de modo muito semelhante. Moreau e Turpin 2000:ii. contida em um vaso de c. 245 –333 (especialmente.530. para entender os contextos e significações de tais aquisições. Moreau 1994. por sua vez. Zinserling-Paul 1979. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. HalmTisserant 1993. É válido notar que uma descrição dessa mesma cena. Jessen 1914. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto. certamente. Schmidt 1992. Ogden 2008:27-38. 87 LIMC Medeia 29.. Gentili e Perusino 2000.85 1.NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes. um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós. GaggadisRobin 2000). Lesky 1931. que segura serpentes em cada uma de suas mãos. Candido 2010. A maioria das evidências principais é iconográfica.86 Se estas. Gantz 1993:358-73. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro). Belloni 1981. 312-15. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. então. ainda. Direcionar. Tupet 1976. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia.

57. Iason 71 (c. 118. ter sido elaborado tendo a peça. 117. uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico.90 As serpentes não aparecem com asas.). 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35. 62. 48. de maneira muito próxima.91 As serpentes mantiveram suas asas. não era bom o suficiente para um artista falisco que. porém. 36 (c. 108. 63. 34-7.. 73-4. correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão. que eram frequentemente representadas. 119. de boa qualidade.400 a. em mente.88 Desde c. Isto. 55. como as Erinyes (Erínias). 116.C. Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar. 27-30.C. conferiam-lhes uma aparência surpreendente. Medeia 29. no entanto.C. 51.400 a. 91 LIMC Medeia 39. 39. 58. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d. nesses vasos.C. 115.C. 96-7.C. 112. efetivamente. Iason 72. 50-1. 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c. 12.). então.400 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Iason 73 = Medeia 37. 88 96 . em diferentes configurações. 53. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a. 460 a. 38.C.C. 107.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante. muitas das quais. 67-9. 41. 55.. uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor. não intimidadora. parecendo. 42.). 92 LIMC Medeia 46. 11. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão. igualmente.400 a. 70.).89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. 64. Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas. portanto. 52. na segunda metade do quarto século a.C. 58. tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c. 113. 114. No próprio texto.. em diante. deu asas as suas serpentes. combinadas com as asas. de galinhas. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. ou não descartadas. a partir de c. 80. especificamente. 38. 18. 105. 400 a.

C. ou 400 a. se não na performance original de 431 a. ter aparecido no palco. Eurípedes Medeia. embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo. entretanto. 480 a. a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser.C. e que. Se.C. anterior a c.96 Nas cenas de Triptólemo.C. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia. LIMC Triptolemos 91. e Mastronarde. certamente. 105. cf. frequentemente. 470 – c. não obstante.. que se refere.C. sugere que ela possuía a habilidade de voar. Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. contudo. O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c. demonstrada na Hypothesis.94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia.). efetivamente identifica aí uma linha de influências.). efetivamente.. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c. por exemplo. debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. e o contexto. 114.400 a. apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições.C. 116 (c. em uma reencenação distinta da peça. novamente. 100. de fato. a uma introdução de uma peça.95 e serpentes poderiam.).NEA/UERJ escapa de Corinto. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e. 480 a. presumivelmente. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é. neste contexto. foi somente em 431 a. 97 . 111.C.T: Medeia 1321. 95Hypothesis. 450 a. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes.

236-7. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4.24 Bond. Hyginus Fabulae 22. caísse no sono. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. Naupactica FF6. Ferécides F31 Fowler. Medeia 2-4.100 Com base nessa imagem. 8 West..149-58. Eurípedes Medeia 480-2. a Jasão roubar o velo.ii. Diodoro da Sicília 4.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.48. Valério Flaco Argonáutica 8. então. 98 . Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão.26).C. LIMC Iason 22-54. Medeia. uma vez colhidas. esp. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo. O cheiro das plantas. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida. ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse. Apolônio Argonáutica 4.23. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas. 100LIMC Iason 32. p.242-50. então.123-66. As Nuvens 749a. semeada com plantas mágicas e nocivas. tornando-se jovens de novo.98 2. Aristófanes. Ovídio Metamorfose 7. em 431 a.99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele. igualmente. com a ajuda da filha do rei. 99Píndaro Ode Pítica 4. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é. que jamais dormia. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido. Metamorfose 7. permitindo. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c.54-121. Em versões tardias. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson. 480-70 a.9. Argonáutica Órfica887-1021. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes.179-237. [Apolodoro] Biblioteca 1.97 Outra tradição interessante conta que.

Duas outras peças do século VII a.C. Hyginus Fabulae 31 and 89. 470-8. crua embora eloquente. 33-5..C. ou pelo menos metade dele. 106Mimnermus F11 West.199-215. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. representa uma mulher com veu.). ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c. [Apolodoro] Bibliotheca 2.6. A imagem contida na ânfora de Caere. Helânico F26b Fowler.T: Iason 30-1 (vii a. Valério Flaco Argonáutica 2.‖106 101LIMC 102N. deliberadamente. tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante.5. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem.32. Outra possibilidade é a de que Jasão.101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito.C. 104N.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão. Philostratus Minor Imagines 12. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças. então. LIMC Hesione 6. 632-29 a.C.145-8. Ovídio Metamorfose 11. [Licofron] Alexandra 31-6. encontrando-se. e um fragmento de Mimnermo. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea. 99 . monstro marinho gigante enviado por Poseidon. já teria sido totalmente engolido.2. 42. 660-40 a. 105LIMC Medeia 2.T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas. abrindo caminho para sair da boca do animal.451-578. Diodoro da Sicília 4.4. sem resistência e acabado. em que Medeia. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão. a fim de matá-lo por dentro. sugere que ele. através de suas drogas.C. até que Jasão conseguisse lutar e resistir. 103Homero Ilíada 20.105 O fragmento de Mimnermo de c. no caminho para fora da boca do dragão. provavelmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE .9. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio. como Hércules fez com kētos102 em Tróia. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a..

500 a.).).C. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c.C. qualquer outra como. anteriores a Medeia de Eurípedes. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida.).. 480-70 a.C.C. na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro).C.).380-60 a. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou. As fontes literárias e iconográficas do quinto século a. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c. 500 a.C. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão. e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas. 100 . ele poderia.. ao contrário. primeiramente. 16 (450-25 a.C. a começar com a taça de Douris. LIMC Ladon i 13 (c. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. Atena ou Afrodite.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. 500 a. estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar.).). como nós veremos a seguir..). de deusas como Hera. os touros de fogo. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças.). 500 a. ainda.NEA/UERJ Mas em relação à ânfora. ao contrário. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo. 15 (450-400 a.C. Ladon i 12 (450-30 a.C. É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs. ou em relação aos guerreiros nascidos da terra. Medeia.C. é digno de nota que Ládon é. c.C. Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse.107 Quanto ao fragmento de Mimnermo. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c.C. seguramente. Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. de fato. por exemplo. ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes.). como é encontrado no conjunto de fontes do século V a. ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c. 450 a. 490 a.

eventualmente. Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão. Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. e nos perguntarmos se Jasão. Este. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn). 101 . mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. (Píndaro Ode Pítica 4. está sendo vomitado pelo dragão. Ao contrário. o filho maravilhoso de Hélios.: Imediatamente Eetes. a matadora de Pélias. ainda. tendo atuado sozinho. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes. aparentemente inerte. nesta batalha. quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo.220-23. feito pelos golpes de ferramentas de ferro. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa.. permitindo.108 Com base nisso. Pois ele recaía em um pequeno bosque. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes. de talvez apenas alguns anos antes.. Medeia. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono. O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos. ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra. Com dispositivos (technais). o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela.NEA/UERJ de Medeia. podemos olhar para a taça de Douris. e levou consigo Medeia com sua cooperação. O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente.C. Arcesilau. que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. então.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mais uma vez. 113 Naupactica F8 West. na qual nós podemos ou não. c. referência à participação direta de Medeia. 470-60 a.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. após ter feito amor com ela. supostamente. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54..NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão. LIMC Iason 36. também.C. eu indiquei para vocês a luz da libertação‖.112 Em seguida. relata que o dragão fora morto por Jasão. não há. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados. Ferécides F31 Fowler. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a.C. dentro do contexto. Nesta. Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes. com a ajuda de Afrodite. ele caísse no sono. Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete". Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes. Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c. possibilitando a fuga dos Argonautas. então. enquanto Atena observa novamente a cena.109 Um conciso fragmento de Ferécides. sozinho. na tradição posterior. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente.C. aparentemente. 111 Herodorus FGrH 31 F53.114 É possível que esta afirmação. não há nenhum sinal de Medeia. acreditar. portanto. enquanto ela fugia com os Argonautas. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. 454 a.111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam. que mostra Jasão. igualmente. 114 Eurípedes Medeia 480-2. fazendo com que. a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes.113 Essa narrativa. 109 110 102 ..

[Apolodoro] Biblioteca 1. 119 LIMC Iason 40.116 Iconograficamente.128. Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite. encontra-se também presente em Ovídio.).1026-62.NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. caia em sono .C. Argonáutica Órfica 3. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão. quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c. Valério Flaco. 380-60 a.. 270-45 a..C. emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c.118 Estamos pisando em terreno mais firme. LIMC Iason 39.415 a. 121 Naupactica FF6 e 8 West. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente.120 Como já vimos. segurando uma caixa de ervas.C. Na Naupactica ( séc V a.220-3. 117 LIMC Iason 37.121 Apolônio Argonáutica 4.69-121. já que o dragão está visivelmente acordado.C. permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa.MULHERES NA ANTIGUIDADE .149-58. em vez de fazer o animal dormir. representa uma Medeia bem orientalizada.C. 1191-1267. provavelmente.119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. 118 Píndaro Ode Pítica 4.115 Mais à frente. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e. Ovídio Metamorfose 7. de modo que ele.23.?). ps. da mesma maneira. cf. então.360 a. 120 LIMC Iason 38. Hyginus Fabulae 22. 115 116 103 . 41-2. após ter feito sexo com ela. uma cratera em formato de sino da Apúlia c. Valério Flaco Argonáutica 8.. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida. Orphic Argonautica 887-933.117 Contudo. ela pode ser atestada desde c. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. portanto. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo). teria feito uso de suas drogas.-Apolodoro. Hyginus e na Argonáutica Órfica.9. a mensagem parece ter sido a de que Medeia. segurando uma phialē.

ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro.C. 46. no dragão. LIMC Iason 38 (c. 124 Apolônio Argonáutica 4.23. tiradas de uma caixa de medicamentos.).380-60 a.).123 Em Apolônio. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c. lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu. 42-3. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono. já que o poema favorece a atuação de Orfeu. 380-60 a. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. 126 Valério Flaco Argonáutica 8. 360 a. em seguida. fornecido por Medeia.C.145-66. 360 a.C. em sua totalidade. por vezes. de uma maneira bárbara. É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas. presumivelmente em forma líquida.‘125 Para Valerius Flaccus. 47b. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse.C. uma técnica similar é usada: Jasão. a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira.124 Em Ovídio. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros. 41. então. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu.).). mas o seu papel é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 122 123 104 .149-58. senhora do subterrâneo. ele próprio. praticamente e inteiramente reduzido. Novamente. ela continua untando. LIMC Iason 40 (c.127 No sentido oposto ao da tradição. invocando o Sono e Hécate. 127 [Apolodoro] Biblioteca 1. 39.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. 125 Ovídio Metamorfose 7. repetindo três vezes o feitiço.9.69-121. a Morte. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo. Hyginus Fabulae 22. e por último.

com o conto Ládon é próxima. em todos os casos.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2. Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3. As Hespérides eram personagens ambivalentes.11. Primeiro mitógrafo vaticano 1. consequentemente. [Eratóstenes] Catasterismi 1. que significa. "maçãs" e "ovelhas". 130 E. 133Pediásimo 11. 128 129 105 .4.) e Diodoro 4. conectados pelo termo mēla. e talvez. 131 Apolônio Argonáutica 4.C.1396-1407.132 Pediásimo. Não surpreende. 3.128 Nas duas circunstâncias. em sua forma canônica. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta. uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c. vigia e guarda um tesouro de ouro. portanto. schol. igualmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida.26-7. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130).113. de acordo com algumas variantes.C. Teócrito 3. Nos dois casos. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf. curiosamente interligados. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a. 470-60 a. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca.5.39. que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente. Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs).NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão.133 Entretanto.g. apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado.40. tesouros estes. semelhantemente. Fontes tardias. Em ambos os casos. a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens. as quais ele nomeia individualmente.

136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida. em diante. No caso de Medeia. 2717. 380-60 a. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal. 106 . em teoria.29. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖.C. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4. pelo menos desde c.. No entanto. 36.). 2707a.C. ou pelo menos. 3.C.138 Mas é somente no período de c. Hesperides 2. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda.135 De acordo com algumas tradições (não todas. 7 (c. 139LIMC Iason 40.8 = LIMC Hesperides 64.134 Ferécides. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta. enquanto 134LIMC Herakles 2703. Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava.. enquanto o gesto poderia. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica. caia no sono.500 a. 9. No caso das Hespérides.2-1.484.C. 63. 138LIMC Herakles 2692.139 A este respeito. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . 137Pausânias 6. 2726. de fato.27.137 e. 550 a. a fim de roubarem as maçãs.C. 454 a.C. 135Ferécides F16c Fowler. encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente. a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente. Ladon i 6. o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas. 41. 30. em seguida. Nas imagens de 380-60 a. Primeiro mitógrafo vaticano 1. 470-60 a. 136Diodoro 4. c. distraindo-a com comida e bebidas. como veremos).NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias. 28 (?). como veremos em breve.38.

107 .141 Em uma imagem de c.). Ladon i 9.C. quando o dragão que jamais dorme. 29-31. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs). 350-30 a.143 Em duas imagens de c. após ter-se apaixonado por ele.. deixar seus olhos caírem no sono‖. 340 a. 33-5.C.C. uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro. enquanto no outro. similarmente. Em uma imagem no início do século IV a. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma. evidentemente. então. 34-5. a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a.142 Em uma imagem de c. semelhantemente. 145 LIMC Hesperides 26 (410 a.145 e em outras delas erōtes assiste à cena. 36. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos.146 Se essa hipótese estiver correta.C. uma Hespéride. 62.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 4.. o próprio Héracles pega as maçãs. Herakles 2719. 63. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a. de qualquer tipo.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. 142LIMC Herakles 2726. 350 a. tal como Medeia eventualmente foi. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos. faz-se visível.144 Especula-se frequentemente que. guardião dos valiosos frutos. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente..NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha.C.C. Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules.).. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides.C. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela. uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore. então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e. 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38.147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida.).

738-41 (‗Agamede‘). a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana. a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides. Aí. 630 a. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. tal como as Hespérides. alimenta e toma conta de uma serpente. untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras.149 Portanto. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides. portanto. Homero Ilíada 11. do que vice-versa. O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c.C. À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides. Nostoi F6 West (c. Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). 149 Virgílio Eneida 4.). Mas de qualquer forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE .480-6. a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil. em todo o caso. nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado.C. onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas. Logo.?). e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore. está a mais remota terra dos Etíopes. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta. a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que.NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir). embora. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe. dessa. de maneira intrigante. para as Hespérides em relação a Ládon. 550 a. 148 108 . supostamente uma conhecida sua.

permanece sem um mito. em um vestido oriental. da iconografia de Higeia.C. nunca.g. é claro.v. οἰκουρὸν ὄφιν.. a personificação da Saúde. e que. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon.NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente.). em Istambul. Esse deus observa com interesse E.não existem maçãs. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes).150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto. tampouco. 151 LIMC Medeia 70. mas sua iconografia é distinta. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas. de alguma forma.151 4. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado.C. Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada.40. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. tal como diversas outras divindades. Hesíquio s.. árvores e. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz. a serpentes. Aí. Higeia. aparece representado em uma cópia do século IV a. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas. Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta. no início do século IV a. Pausânias 9. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a.410 a.C. vívida e largamente consistente. Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol. representa Medeia. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente. sendo a mais proeminente de todas. a presença de Ládon. oikouros ophis: Heródoto 8. que apesar de ter se perdido no tempo.C.C. Asclépio. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela. o seu próprio pai e companheiro. embora esteja prestes a fazê-lo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c.. 150 109 .41.

exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura. também seria um irmão das próprias Hespérides. Apolônio Argonáutica 4. ao menos. no tocante a Higeia. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides. Já que a relação de Higeia e. Entre essas figuras femininas.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais. De acordo com Hesíodo. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. a serpente. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente. o arquétipo de monstro marinho. desde avatar ou símbolo. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e. Schol.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. Como tal. Na medida em que a serpente bebe. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz. 110 . em outras palavras. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas. A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. seu atributo. ainda. e de Fórcis.MULHERES NA ANTIGUIDADE .1399. até como um animal de estimação. ao alimentar a serpente. até mesmo de inscrições.

‖155 Ela.NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. por isso. à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides]. enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar. Etymologicum Parvum. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão. segundo alguns etimologistas antigos (ou.77-8. A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo. 154 111 . essa serpente é. Certamente. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas. δράκων. A própria Medeia. portanto. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. s. não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. de qualquer maneira. um aspecto de si mesma. pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e.154 Se as Hespérides. é também evidente. ainda que com retidão ou com artimanhas. 155 Valério Flaco Argonáutica 8. significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf. também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). δέρκομαι). já que o próprio nome drakōn.v. em sentido maior ou menor. bizantinos) e modernos. elas próprias.62-3. ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Higeia. fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia. 5. 156 Valério Flaco Argonáutica 8. igualmente. Salus e Valetudo). é uma virgem até ser seduzida por Jasão. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda). a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. Etymologicum Magnum. dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento. à época de Valério Flaco.

C.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício.NEA/UERJ o abraça. 112 . (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair.660-40 a. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. pobre desafortunado. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. seja qual for o caso. então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra.41. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto. Mas. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial. de qualquer maneira. você está predestinado a vivenciar um dia cruel. Em breve. LIMC Medeia 2. eu não matei você.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Então. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade. antes de Valério Flaco.157 Por quanto tempo. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense. embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me.93-103. Pelo menos. Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes. sobre um elemento externo. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel. eu imploro. 380-60 a. como foi primeiramente atestado em vasos de c. hesitantemente. Heródoto 8. Ai de mim. não está representando nem Medeia nem as Hespérides.C. Se a hydria proveniente de Caere de c.

é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos. que obviamente pertence ao período pós-Píton. O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a. embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós. na qual a sacerdotisa pítia.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. o momento Apolíneo do oráculo. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. 113 . Luciano Da Astrologia 23. pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas. quão intensas foram as raivas.2. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem.161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno.C. Elas teriam surgido de Píton em Delfos. Em relação ao primeiro. Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11. tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa. uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares. e estas eram os animais de estimação do deus. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida. então previa-se o oposto. Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras.MULHERES NA ANTIGUIDADE .160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo).

C. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração.36-7. posteriormente. Aulo Gélio 7. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18.3. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. virgens. por sua vez. Se elas se mantivessem castas. em cestas. Eliano nos dá outro relato do rito.C. carregam.18. No início do século III d. uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio..MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.8 ext. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram. Sílio Púnica 6. Aqui. pedacinhos de comida.NEA/UERJ águas quentes. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar.19. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais. aos escritos de Eliano). deixando os demais bolos para as formigas. O dragão. enfrentar os perigos como resultado. Em sua carta a sua esposa. por Lúcio Róscio Fabato. 162 114 . cuja condição de virgindade era também. (anterior. estão embrulhados no pano. portanto. Arnóbio Adversus Nationes 7. ou seja. e que iríamos. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘. Plínio História Natural 8. escrita em c. Ele conta que em certos dias.46. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó. Floro 1. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que. sendo devorada pela criatura). Valério Máximo 1. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia). 207 d. 162 Quanto aos cultos. e comia somente o bolo daquelas que eram. um pré-requisito. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã. naturalmente.140-293. nós podemos supor.

Ele. o destruiu.164 Um texto anônimo do século V.C. compostos primeiramente. as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos. na virada do século IV para o V). o dragão soprou seu hálito fétido no ar.835. mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1. conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era. e que uma vez por vez.3 Atos de Silvestre A (1). um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto. Os Atos de Silvestre. 115 . os romanos. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco.D. então. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas. como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a. então. De Promissionibus. junto ao dragão (draco).NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. Privado de suas ofertas. sob o governo cristão de Constantino. (?). na verdade. p.. matando. PL 51. acredita-se. são indicadas tendo como base sua virgindade‘.165 6. e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio. De Promissionibus. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema.6. no final do século IV a. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio.163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio. isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada. não uma pedra. Claramente. 172 E.170 8. mas o seu elmo. 1246-67.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Virgílio Eclogues 8.9.23.71. Apolônio Argonáutica 3.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles.1354. 1026-62. As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion. Lucano Farsália 6. 8. Apolônio Argonáutica 3. o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas.355-643. 170 Diodoro 4. 1176-1224. Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes).51. Em um episódio singular.401-21. 171 Ovídio Metamorfose 7. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina.106-8. 168 Valério Flaco Argonáutica 7.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto. [Apolodoro] Biblioteca 1. Horácio Epodes 17.29. aos Marsi.NEA/UERJ respeito166.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol. contemporâneo de Apolônio de Rodes. 166 167 116 . 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx).203. sobretudo. Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39. como parte de sua elaborada descrição de Pélias. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos. 631-4.g.169 7.467-72. 488-91. 169 Valério Flaco Argonáutica 7. desde a terra dos Hiperbóreos. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra.

A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca. ou ainda. ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida. e até mesmo restaurando a vida nas pessoas. e que. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent). também anguis. Sêneca Medeia 684-705. onde se localizava o santuário de sua deusa especial. com a referida deusa. ‗a filha de Eetes‘. e. teria sido elevada à condição e status de uma deusa.NEA/UERJ Fucino.750. No entanto. Sílio Punica 8. a Hidra. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce.175 Solino. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera. e como domar animais venenosos tocando neles. serpente). faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino.759-60. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. 9.495-99..176 Sérvio Honorato. De tal modo.27-9.C. por tal razão. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos. portanto. porém.174 Desde Sílio Itálico em diante. é claro. completa. à serpente controlada por Ofiúco. conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium). em meados do século IV. Angítia. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea. Sílio diz que Angítia. Solino 2. no final do século IV d. Ela recorre. tendo combatido doenças com sua arte de curar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao seu próprio dragão de Cólquida. a Píton. 117 .

Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. uma praga de cobras. onde seu irmão Apsirto foi enterrado. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida. 118 .NEA/UERJ 10. tal como consta na Eneida. Eurípedes Ion 987-96. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e. em certo nível. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras.C. Hyginus De astronomia 2. tem de pagar uma dívida para com a natureza‘. ao invés de somente uma única serpente.MULHERES NA ANTIGUIDADE .477.12 (citing Euhemerus). Por um lado.95-6.181 11. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão. Respondendo aos seus pedidos.. e se alguma delas acaba saindo. em forma de cobra.v μασχαλίσθηναι. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. oferece um exemplo bem conhecido disto.179 O que temos nesse caso. Apolônio Argonáutica 4.180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto. Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘. subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses. Elas permanecem lá até hoje. cf. pode ser lido. Virgílio Eneida 5. Suda s. Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente. Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba. no século II d. assim.

500 a.).C. 3. Ferécides FGrH F11 Fowler. 188 Píndaro Olímpio 13. 35.C.274.722.).1. 185 Píndaro Ode Pítica 10. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf. 16 (ca. 2005-6.). 183 184 119 . 480-70 a. LIMC Harmonia 1 (c.). Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6. 500-480 a. cf. 194 Virgílio Eneida 2.).184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes.188 e. Jasão que mata o dragão de Cólquida.190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia .741-2.MULHERES NA ANTIGUIDADE .29-48.). 440 a. Ode Pítica 7. Helânico F51ab Fowler.C. 520-10 a. cf. 1995 (c. 23 26a. 2000 (c.199-231 (com Sérvio ad loc. 263-70). Quinto Smirneo Posthomerica 12.C. 460-50 a.C. LIMC Gigantes 425 (c. 550).44-7.).). 192 LIMC Gigantes 311-12 (c.666-70. 189 LIMC Iason 32 (c. Ésquilo Fórcides F261 TrGF.) 24 (início do II d.). 2002 (c. 600-595 a. 1999 (c. da mesma forma.) 428 (iv-iii a. 530 a.C.). 120-2.C. etc. 600-590 a.). 132. 585-75 a.).192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse. Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela. 590 a. 1990 (= Athena 11. Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2. Ferécides 22ab Fowler.4.C.3. 190 Homero Ilíada 5.63-6 e 84-90.11. 314. [Apolodoro] Biblioteca 3. 440-35 a. Lucano 9. 8 is ca. 1992 (c. 19.C.3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8.189 Muito frequentemente.C.186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas.).. Higínio Fábula 30. Em uma ordem estreita. etc. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911. c.).C. 151 (675-50 a. 21. 12. 2010 (c.). 15 (= Harmonia 1).). Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol. 440-30 a. 2029 (c. a taça de Douris) e 36.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes). as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa.C. Pausânias 5.C.289. 2003-4 (c.).).17. 2008 (c. 1996 (565-50 a.370-50 a.). é claro.70.C.187 Belerofonte que mata a Quimera. Kadmos i 7-9 (no.C. 500-490 a.6-26. 460 a.193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3. com schol.444-97.VI a. LIMC Herakles 1991 (c. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc.C.C. 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell.185 Héracles que mata a Hidra.C). 186 Hesíodo Teogonía 313-18. LIMC Gigantes 389.C. LIMC Perseus 113.C.C. Homero Ilíada 2.

Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes.v.14. 198 Heródoto 8. LIMC Kekrops 34. Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo. certa vez.195 Na cidade de Atenas.C. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s. 32 (final do séc. que Heródoto. Erechtheus 30 (c.v.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . parece até identificar como a própria deusa.. de fato.C. o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). frequentemente.). Plutarco Temístocles 10. 197 Amelesagoras FGrH 330 F1.). Entretanto.C.13. tanto em suas narrativas como também na iconografia. a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena.199 E de acordo com Filóstrato.561. 195 196 120 . [Apolodoro] Biblioteca 3. 200 Filóstráto Apolônio 7. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio. Eurípedes Ion 16-28.). [Apolodoro] Biblioteca 3.7.). LIMC Aglauros 19 (c. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas. 500 a.41. 450-40 a. ela. 36 (c. apresentam fortes paralelos.NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua.197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes). 199 Pausânias 1. possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio.24. 440-30 a. V a. Ἐρεχθεύς.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon.196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral.). Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol. ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope. os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia.200 De fato. 435-30 a. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c. com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. Hyginus Astronomica 2. Etymologicum Magnum s. οἰκουρὸς ὄφις. Ovídio Metamorfose 2. ―A deusa [Atena].14.C.v. Etymologicum Magnum s. Ἐρεχθεύς.24. criou um drakōn entre os atenienses‖.

a sua própria mitologia. e S. Halle. Venice. (eds. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides. Cannibalisme et immortalité..R. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade. Westport CT. 1998. Medeia foi. CORTI. na forma pela qual a conhecemos. Johnston. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. Londres. CANDIDO. 289-320. Referências Bibliográficas BELLONI. In : Moreau e Turpin 2000:ii. B. ‗Medeia‘ RE 15. Higeia. 1997. 121 . J. M. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. pode ter. HALM-TISSERANT. LESKY. A. F. Berlin. 29-65. 2006. M. Paris. 1993. Princeton. mito e Magia: a imagem através do tempo. V. 1981. Contudo. GENTILI. 75-71. Uma vez levada para a Itália. 2 vols.J. T. ‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33. GAGGADIS-ROBIN.K. L. as Hespérides e Medeia podem todas. A guide to literary and artistic sources. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões...1.I. Medea. Medea nella letteratura e nell” arte. mas. 1886. CLAUSS. Early Greek Myth.MULHERES NA ANTIGUIDADE . H. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. E. por sua vez. 1993. Baltimore. GANTZ. B. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. Rio de Janeiro. 2010. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar. O. não obstante. Medéia.). L. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides. 1988. inclusive. A sua interação com o dragão de Cólquida. a deusa-serpente dos Marsi. não somente assemelhada como. 2000. (eds. identificada com a própria Angítia. 1914. PERUSINO. JESSEN. HEYDEMANN. Medea. GRIFFITHS. 1931. Jason in Kolchis.NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena. BRASWELL.). ‗Iason‘ RE ix. The Myth of Medea and the Murder of Children.

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1991. capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos. 3. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana. 204 Sobre a produção historiográfica. L. que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano. que dá título à peça. Segundo o historiador Tácito. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. Fábio Faversani201 Prof. Ela é a principal. Para um exemplo notável destas reapropriações. mas que a mataria. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical.ª Sarah F.ª Ms.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar. filha.3556-3574. XIV. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203. p. Bisneta. esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus. naturalmente. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto. A figura de Agripina. 201 123 . ver: WALLACE. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina. quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq. estreada em 1709. foi dedicada a Agripina. contamos 49 personagens femininas. e foi estudada largamente ao longo da história204. esposa e mãe de césares. especialmente durante o século XX.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. irmã. considerada como um exemplum. Nos livros XIII a XVI. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. 9.‖ Ann. nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. bolsista da UFOP. Dr.

Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam.) 206 MILNOR. mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. todas elas. como por exemplo. uma transgressão. Ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ou seja. gêneros e funções . gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). considerando que elas eram peças do jogo político do império. como por exemplo. Entretanto. Por isso. 2009: 277. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa. em todos os casos. feminino e doméstico ser de extrema importância. embora a percepção da divisão de espaços.NEA/UERJ menções a mulheres. nem sempre apresentam comportamento com características viris205. 69.como. esta é uma definição básica da transgressão feminina. denotam o caráter de exemplaridade. torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores. no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política. não há transgressão206. Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. In: FELDHERR. Deste modo. a relação entre público. As personagens femininas. é considerada como transgressão do comportamento feminino. Mas. 1992: 130-154. elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. por exemplo. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende. como apresentada pelas fontes. masculino e política em contraposição a privado. Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. I. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército. 205 124 . cf: BAUMAN. a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais.

Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. mas não o fazem. aparecem somente uma vez na narrativa. Ademais. como por exemplo. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. Percebemos que. por vezes negativo e. ou seja. embora considerada ícone da transgressão. Já Agripina. pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. Tácito as caracteriza também pela 125 . o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. em outros casos. apresenta valor por vezes positivo. é mencionada em 31 capítulos. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino. para além das características individuais das personagens.NEA/UERJ uma linha. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. como veremos. Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas. não por acaso. a figura feminina mais frequente na narrativa. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. notamos que 29. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. estão relacionadas a homens virtuosos. foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. Muitas delas. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais. 59%. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. A própria figura de Agripina. partindo das personagens femininas. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ambivalentes. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. pois. Em outras palavras. aberta a negociações e a sobreposições.

Dentre as mulheres leais aos maridos. 71. Por fim. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. Assim. 22. Dentre estas. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. esposa de Rubélio Plauto. quando ele foi forçado a sair de Roma. temos Árria Menor209. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. temos Antístia208. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. XIV. Ou seja. esposa de Traseia Peto. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. como já ressaltamos acima. 207 208 126 . 209 Ann. Para explorar esta hipótese. Além dessas. Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ou seja. que quis imitar a mãe e morrer com o marido. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. Ann. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. auxiliam na caracterização de outras personagens. 34. como se ligadas umas às outras.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. que também o acompanhou. XVI. de maneira que. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. XV. Ann. Em outras palavras. em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo.

poderia persuadi-la a continuar viva). Acresça-se que neste caso. ―Peto. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. Ou seja. uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro.NEA/UERJ sendo que Tácito. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos. 13. non dolet‖211. ambição). ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. supremae clarorum uirorum necessitates. 127 . escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos. as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. Plínio. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes. o que não interferiu na reputação elevada do casal.16. Ep. Árria Maior. Comitatae profugos liberos matres. vaidade. o único que. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. 3. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. Traseia negou esta glória a Árria.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no prefácio das Histórias. mas sua lealdade vai além. esposas seguiram os maridos no exílio. a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. constantes generi. genros perseverantes.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. não dói‖. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus. foi persuadida por Traseia. neste dilema. faz aumentar a glória deste. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. No entanto. famosa pela frase ―Paete. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos. Entretanto. parentes corajosos. além de perpetuar a imagem da mulher honrada.

O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente. 214 Ann. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. 43. 216 Ann. (mãe de Popeia. XIV. 63 Ann. de Ann. Ao comparar. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. 12 215 Ann. neste momento. Tiberius. Júlia213. que também foram desterradas. associada a estes. Tácito ressalta que Octávia. XIV. 1 . XI. 22. foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. Lólia Paulina215. ver: Ann. e Popeia216. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa. XII. apenas para narrar suas ações de lealdade. Ou seja.2. filha de Germânico. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. XIII. Vejamos. Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. ver: Ann. Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. por ter aproximadamente 20 anos. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. XIV.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). ou Júlia. 53. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. inspirava ainda mais compaixão. filha de Druso. 2. a segunda esposa de Nero). é a injustiça sofrida por Octávia. O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. evidencia tais virtudes. Calpurnia. 12. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). Diferente das esposas leais. o foco da narrativa. 212 213 128 . outra vítima de Agripina Menor. Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes.NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. A lealdade das esposas. estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. Tácito não especifica se é Júlia. que foi condenada ao desterro por Tibério.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 63. destacamos: Agripina Maior212. Não por acaso. destas. XIV.

e foi sentenciada à morte. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. As acusações foram forjadas por Agripina. Elas foram acusadas no ano de 49218.MULHERES NA ANTIGUIDADE . XIV. também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). ou seja. Tácito relata que. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. certa vez. depois da morte da mãe. Nero perdoou algumas vítimas de Agripina. Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. já no início do casamento. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas.NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude. Lólia Paulina. 12. mas sua sentença foi o desterro. e Lólia Paulina. Portanto. e deste modo. percebemos que as personagens Calpúrnia. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. dentre elas estava Calpúrnia. (Ann. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. que sofreram injustiças semelhantes. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. O César proferiu as acusações frente ao senado. elogiada por Cláudio. O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV. resolvemos retroceder um pouco. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. e Calpúrnia foi. e. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. Agripina não é uma má esposa por si. Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. 3) 218 129 . Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). e uma vez durante o principado de Nero. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio. Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina. que foi chamada do desterro.

‖ (Ann. Uma das escravas. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. Entretanto. 4. é mencionada em três capítulos: Ann. por decorrência. já havia sido morta neste momento do relato. Como exemplos. mas o encontramos em Dio Cassius. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. 221 Ann. já estava estabelecida. notamos que a personagem de Popeia. Suílio. neste momento da narrativa. 60 e 62. mãe da segunda esposa de Nero. Para se separar de Octávia. que.NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. neste ponto do relato. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio. aliás. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. XIV. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais. XI. 4. e Acerrônia222. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. Messalina. História Romana. Tácito narra que algumas. citamos Pythias221. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. Deste modo. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. através de seus atos cruéis e. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama. a lembrança do episódio. XIV. 222 Ann. XIV. LXII 13. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. 60. Seguindo esta mesma lógica. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. Tácito retoma o episódio no livro XIII. a escrava leal de Octávia. por ser aliado de Messalina. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. 3-4) 220 130 . 223 Tácito não cita este nome. a escrava desleal de Agripina. 5-6.MULHERES NA ANTIGUIDADE . devido à dor. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. capítulo 43. As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. 1-2. quando relata as acusações feitas a P. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador.

Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. MURNAGHAN. portanto. como temos visto. 1960: 48. 227 DAITZ. a escrava de Agripina. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . modelo virtuoso. então. Em contraposição. mas diferente daquelas. Nesta perspectiva. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. Envolvida na conspiração pisoniana. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar. Agripina. mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. mas criam em seu conjunto. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos. In: JOSHEL. ela também aparece duas vezes na narrativa226. num ato de esperteza. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente.NEA/UERJ Holt Parker225. as interações não só reforçam as características individuais. ficou calada e se pôs a nadar até a margem. 1998. 225 226 131 . modelo vicioso. percebendo toda a trama. a liberta foi PARKER. Ann. 167. ambicioso e desleal. uma existência virtuosa ou viciosa. Deste modo. 51 e 57. simplesmente o fazem. gritou que ela era Agripina. As interações não são circunstâncias isoladas. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. Acerrônia. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. ou seja. Mas em Tácito. Assim. apresenta raciocínio servil e. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. fazem parte do exemplum que o senhor representa. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. XV. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. Acerrônia. nos exempla de escravos leais. p. O plano de Nero falhou. Interessante notar.

que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. 54-55. significa uma transgressão. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat. 4) 228 132 .NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados. assim como as esposas leais. 54. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais.‖ (Ann. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas. lhe aconselhou o pior. resolveu pedir conselhos a sua esposa. Milicho.‖ (Ann. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil. e muitas vezes perverte estas mesmas regras. que sem sofrer tortura alguma. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. multosque adstitisse libertos ac servos. Tácito compara a conduta dela. se o denunciava ou não. no caso dela. 2. como mulher. demonstram a superação de sua natureza. XV.228 Os escravos leais.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito. no início do texto. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum. XV. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana. 230 JOLY. Em dúvida. 57. XV. o que.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa. Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa.) 229 Como já ressaltamos. e também fazem parte da natureza feminina. at praemia penes unum fore. denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros. 231 Ann. qui indicio praevenisset.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais. equestres e cidadãos romanos. 2003: 71. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. ao adotar um comportamento excepcional. Tácito narra que ela. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. liberto de Cevino. Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada.

que é reconhecida na materfamilias. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. 2001: 95. claramente. reservada ao paterfamilias. como o fato da mulher ter direito à propriedade. 1995: 149-163. ela não detinha a potestas (autoridade). Aqui. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. como por exemplo. Entretanto. 1998: 87-93. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres. propriedade física. 234 SALLER. pois apesar de possuir honor. as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233. obedecendo aos deveres da ―amizade‖. mas que se faz ausente no escravo. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. 233 133 . Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. igualmente ambicioso e desleal ao patrono. o denunciou. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. considerando tanto a casa. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora). 235 DIXON. os ganhos seriam maiores. Todavia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cf: POMEROY. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. como também o controle sobre os residentes desta.NEA/UERJ denunciar. Milicho.

mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato. 21 e 22 do livro XIII. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. segundo Tácito.19.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). 2008: 291. viúva. 236 237 134 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . XIII. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. que. XIV. Júnia Silana aparece associada à Domícia. e Júnia Silana foi desterrada. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. Deste modo. 19. segundo. 21 e 22. 238 Ann. devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. 12. primeiro. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. RODRIGUES. Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. dentre eles estava o liberto Páris. devido à ausência de herdeiros masculinos e. uma mulher rica. tinha acesso à casa imperial. Domícia parece não ter sofrido punição. Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder. estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. Inimigas de Agripina. XIII. como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. e sem filhos. Agripina conseguiu provar sua inocência. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. Essas personagens com menor visibilidade. A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. Ao mesmo tempo. Um exemplo é Júnia Silana. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. principalmente através de Ann. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. Nos capítulos 19. tia de Nero.

percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241.. Retomando as personagens com menos visibilidade. Curiosamente. ad eliciendum vulgi favorem. pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. além da avó paterna Lívia. LEVICK: 178. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula. filha de Claudio e sua primeira esposa. Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. Claudii Caesaris filia. 239 240SUETONIUS. Cláudio. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. depois de sua ascensão. como por exemplo. 135 . Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. 53. mandou divinizar Lívia240. 23 e XV.. LEVICK: 187. In: HAWLEY. 3-4) 243 CORBIER.MULHERES NA ANTIGUIDADE . relacionada a uma falsa denúncia de conspiração.comitante Antonia. Claudius. In: HAWLEY. logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio. 241 Ann. Como nos lembra Corbier243. sua avó. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. elucidativas. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242. XI. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes. o casamento de Nero com Octávia. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. sobre este ponto. no livro XV. são... 2. 242 ―. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro. depois da pretendida morte de Nero. e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto. de certo modo.‖ (Ann.NEA/UERJ casamentos e filhos. Ela aparece pela primeira vez no livro XIII. o que explica a recorrência CORBIER. XIII. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio. Claudia Antonia e Claudia Octavia. ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração. o prestígio destas matronas foi. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César. por exemplo. Aelia Paetina. 53. ex-marido de Claudia Antonia. XV. De acordo com os planos da conspiração pisoniana.

Translated by J. Dio. Ademais. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. além de denotar os meios utilizados por Tácito para. Roman History. Histoires. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero. 60-61. 8 PLINY. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. Translated by P. como identidades se construindo em oposição. XIV. v. fazendo uso de personagens femininas. estabelecendo. 1989.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. 2006. 2 vv. Lives of the Caesars. as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas. 244 Ann. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino. Translated by Earnest Cary. Walsh. uma vez que além de mulheres. portanto. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. Complete Letters. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. SUETONIUS. como indivíduos. 1925. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. G. de Tácito. Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. TACITE. 136 .NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. Oxford: Oxford University Press. The younger. (Loeb Classical Library). 1951. v.1. Rolfe. (Loeb Classical Library). elas são também aristocratas ou escravas. como pudemos observar. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. Cambridge: Harvard University Press. Texte établi et traduit par Henri Goelzer. ricas ou pobres. Cambridge: Harvard University Press. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla.

Women in Tacitus.87-93. pp. núm. In: JOSHEL. SALLER. and MURNAGHAN. Tácito e a metáfora da escravidão. Kristine Gilmartin.MULHERES NA ANTIGUIDADE . DAITZ. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. Richard. Richard and LEVICK. pp. London: Routledge. Women and politics in Ancient Rome.178193.). WALLACE. Cambridge: Cambridge University Press. pp. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles. 1960. Translated by John Jackson. Suzanne.149-189. São Paulo: Edusp. pp. RODRIGUES. Women in Roman Historiography. The Cambridge Companion to The Roman Historians. Cláudio e Nero. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. 2001. 1991. In: HAWLEY. Andrew (ed. Nuno Simões.1. Richard. Fábio Duarte. Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. Mireille. 1995.281-295. London: Routledge. Wives.157-178. Sheila (ed. v. Annals. 81. In: JOSHEL. Tacitus‘ Technique of Character Portrayal. Kristina. Sandra R. Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. 1995. In: Goddesses. Sarah B. In: Reading Roman Women. Stephen G. The American Journal of Philology. v. 26. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. New York: Shocken books.69-156. pp. JOLY. Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. 1992.276-287. and MURNAGHAN. In: FELDHERR. 1937. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire. 137 . Barbara. Sheila (ed. 30-52. 2003. POMEROY. London: Duckworth. 1998. Madrid. CORBIER. ANRW II 33. (Loeb Classical Library). 1998. PARKER. London: Routledge. 2008. DIXON. Sandra R. and Slaves: Women in Antiquity.). pp. London: Routledge. Gerión. MILNOR. Whores. p. Women in Antiquity: New assessments. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. Cambridge: Harvard University Press.5: 3556–3574. Holt.). 1903–1986.NEA/UERJ TACITUS. p. 2009.

De acordo com o registro arqueológico. A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as cenas que representam o trígōnon. Dr. chamam-nos a atenção. Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. da Universidade Federal de Pelotas. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. registrada desde os primórdios da civilização suméria. pela sua singularidade. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. 245 246 138 . uma harpa de forma triangular. Professor de História Antiga. segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2). a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina.NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. parciais ou integrais. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. salvo entre as Musas. no terceiro milênio antes de nossa era.

Londres. Museu Britânico. Meados do terceiro milênio. 1989 : 32-33. Fonte: SPYCKET. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖.2). em forma de cabeça de touro. conchas e calcário vermelho. Acredita-se que este objeto.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247. recoberta de betume. Conforme Kátia Pozzer (2007: 147. serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. 121199. Londres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mostra harpista animando banquete (detalhe). Museu Britânico. inv. fig. com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz. 1989: 34-35. ― uma caixa de madeira. 247 139 . Proveniente das tumbas reais de Ur. datado de 2600 a 2400. Fonte: SPYCKET. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli.

É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. mesmo nestes autores. ao final do século sétimo. a Safo. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica.Fonte: Foto do autor. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. inv.). Mas. Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros.C. Alceu. esse instrumento aparecia como uma novidade. de fato. Proveniente de Keros. 2800 a 2300 a.NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. 3908. como um estrangeirismo. Mármore de Paros. Anacreonte e Píndaro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 140 . sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto.

Heinhard. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. Segundo Pierre Grimal. verbete ―Musée‖). Para West. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. 1983: 57-71. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. por sua vez.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros. a Apolo. termo derivado do verbo psállein. como membro da confraria musical divina. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. 1992: 70-74. associado a Orfeu. COMOTTI. o trígōnon. A iconografia ática. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito. tais como Antiphemos ou Eumolpos. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento. então. requintes orientais. para Comotti. 1994: 304. 1989: 147-151. apontados ambos também como pai dele. ―Griechische Harfen‖. o termo psaltría. amante. a pēktís e a mágadis. e a Linos. seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. 248 141 . aluno ou mestre. Athenische Abteilung 54. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. a Tamiras. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. MAAS. 164-193. Museu aparece com freqüência associado às Musas. De modo geral. SNYDER. Os textos arcaicos e clássicos citavam. 1991. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. de quem seria filho. por sua vez. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Na iconografia ática. 1929. Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. não angular. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. três tipos de harpa. p. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. A cultura grega do período clássic o. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. dispensando o uso do plêktron. de quem seria aluno. e duas outras formas. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos.)248.

249 Nessa mesma perspetiva. J. apresentando Museu com um trígōnon. 249 142 . Tamiras toca kithára. Oswyn. Atenas. p.Fonte: Foto do autor. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). & MURRAY. aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nu. Oxford. No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia. (org. produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século. Louvre. Bib.Museu toca trígōnon.636.. Pýxis. Kýlix. o pintor nos surpreende. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra. estudados por Giuliana Ricioni. É assim que encontramos Museu. Figuras vermelhas. olhando um díptykhos aberto.NEA/UERJ e ao ambiente escolar. De certa forma. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas. entre seis Musas (uma com lýra. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé. comum nos vasos da segunda metade do século quinto.‖. 227. simboliza o jovem ateniense livre. sentado sobre um klismós. Em torno de 420-10. J. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos. está abrindo um rolo. numa kýlix de Paris. de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. Figura 4 . Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo.) The Oxford History of the Classical World. encontramos uma pequena série de vasos áticos. G 457. ―Life and Society in Classical Greece. O. Paris. 19.: MURRAY. In: BOARDMAN. c/fig. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). The Education. Museu Nacional. GRIFFIN. 430-20. enquanto o professor. outra com rolo) e Apolo.

usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos. Figuras vermelhas.: MAAS. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto. E 271. pr. tal qual às Musas. Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . à cultura e à educação. Add² 319) Londres. 2391. Figuras vermelhas. Bib. 11. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. 1986: 730-744) 250. Museu Britânico. (ARV² 623/70bis. Bib. 2) Hydría. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas. Terpsichore com pēktís. Para 398/70bis). Para 443. Staatliche Antikesammlungen. 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora.: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. 64917. fig. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos.1a-c. Descrição: Mousaios com lýra. a harpa (RICCIONI. 1989: 163. Pintor de Villa Giulia. Melousa com aulós. SNYDER. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon. quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. (ARV² 1039/13.15. Figuras vermelhas. Pintor de Peleu. Retornando à classificação organológica. 440.NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. Ca. ―cítara de berço‖ no campo. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação. Villa Giulia.251 Hydría. Berlim. enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís. 250 143 . 460-450.

Ápulo. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. pr. 81953. III I c. 77-Edmonds e Platão comediógrafo. Museum of Fine Arts. Museo Nazionale. ao mesmo tempo. apesar da sincronia existente (Sófocles. 1. 412Pearson.360. Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático. fr. 81392. Nova Iorque. Figuras vermelhas. Séc. A representação do trígōnon. Boston. 00. Ruvo. Ânfora. Figuras vermelhas. fr. Ápula. notadamente o trígōnon. IV. IV. Museu Britânico. Nápoles.6. Londres. Ápula. Figuras vermelhas.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. Séc. Nápoles. ―cítara de berço‖ suspensa.Fonte: CVA Museu Britânico 3. figura iconográfica que. Em torno de 440. 252 144 . Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. Ápula.10-14-Edmonds). Eupolis. Alabastro. 3) Ânfora. E 271. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13).252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense. constataremos um desacordo entre ambas. Figuras vermelhas. Figuras vermelhas. a harpa. Metropolitan Museum of Arts.63. Phérekrates. 2) Cratera em cálice. Lucaniana.1a-c. V e do séc. 4) Oinokhóe. 11. 42-Edmonds. Museo Archeologico.21. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc. IV. Na iconografia ática do Estilo Clássico. fr. 1554. Séc. 69. IV. V. nos idos dos anos 430-20. IV. Séc. indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. Final do séc.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina. Figuras vermelhas. Museo Nazionale.

que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos. SNYDER. 1989: 150). Pintor de Eretria.Banquete. atribuída ao Pintor de Eretria. da lýra (CERQUEIRA. em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais. as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). 15308. Fonte: Foto do autor. Jovem reclinado. em mãos de uma cortesã. MAAS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inv. datada de aproximadamente 425-20. Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas. Nos textos coetâneos. Khoûs ática. 2000: 36. e. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas.425-420 a. esse exemplar foi consumido no mercado local. Um único vaso. Museu Nacional. no entanto. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa. contra 165 exemplos catalogados. Figuras vermelhas. O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. Figura 6 . de longe. 2001).NEA/UERJ ―cidadãs‖. 145 . junto com as cenas de kômos. Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem. durante um sympósion.C. Atenas. Trata-se de uma khoûs ática. em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. casualmente.

2009: 26-29. Ver: MILES. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. No último quartel do século quinto. assim. que registrei. não para ser tocada pelos convivas. no único exemplo iconográfico. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. bem como do týmpanon. Num outro fragmento de Eupolis. Assim. Constitui-se. outros à comédia. 40. Tocadoras de trígōnon.638. fr. acompanhando as tradicionais aulētrídes. 14. fr. termo frequentemente usado. provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. 139-Edmonds). as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion. De qualquer modo. uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes. fr. 253 146 . nos textos antigos. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. conforme West (1992: 79).10-14-Edmonds). Eupolis. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. como os demais. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. que trouxe novidades musicais e que recebeu. 77-Edmonds). O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu. Alguns o associam à poesia trágica. ásperos julgamentos morais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. associando-as à pecha da prostituição. 51. 63-64. da psaltría. 69.

cat. 332). As has been pointed out elsewhere. however. cat. pr. Figuras vermelhas. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. 2001. 332. 334). cat. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. Lébēs gamikós. 16. 2001. diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame.73 (CERQUEIRA. on MMA 16. em coerência com suas interpretações simbolistas.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. 2001. Sheramy D. haja vista não haver relação alguma. cat. because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing.255 Esse argumento é improcedente. 2001. 1992. the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair. 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. Cerqueira. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. em BUNDRICK. Bundrick. Fonte: West. não correspondendo a uma situação cotidiana real.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Figura 7 . Add2 332) Período: 430-20. afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização. the standing position of the harpist also appears unlikely. Metropolitan Museum of Art. 334) appear contrary to reality. whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. cat. 2001. Pintor do Banho (ARV2 1126/6. there are anomalies.22. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA.73.‖ 255 147 .

O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer. O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais. no rol das prostitutas. mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas. tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa.. 148 . o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico.2)256.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas. de uma situação social a outra. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais. deslizando de um grupo social a outro. E.. o Pintor do Banho. afinal. E. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída.NEA/UERJ iconografia. entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos. na medida em que não há referência literária alguma. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista. se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. de modo geral. Efetivamente. Contudo. na categoria de musicista-cortesã. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. A disseminação da arte da harpa. por sua vez. a retrata como digna noiva ou esposa. A falta de exatidão no desenho do trígōnon.

alábastroi. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. a forte associação simbólica da harpa às Musas. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía. indica seguramente a 149 . SNYDER. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. como aquele da Magna Grécia? Ora. Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. a kithára e o aulós. antes ou depois dele. como ocorreu com a lýra. julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. como o quer Bundrick. lekanídēs.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com a única exceção do Pintor de Eretria. a forte associação simbólica do aulós à prostituição. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. não o representarem. mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa. na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa. 1938: 366-369). não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. apesar de os pintores. cofres. É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida. de outro lado. por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. que passava a ser a sua (ZEVI. quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas.NEA/UERJ ático o fez. 2000: 181-182). mesmo que idealizado. Com base nessas considerações.

Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. a anakalyptēría. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder.1-3). No caso da pýxis. sua presença traria outras conotações. 2001. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. 1995: 225). Por outro. A figura central está sentada sobre um klismós. na manhã após a noite de núpcias. Ela está desconfortavelmente de pé. cat. cenas seqüenciadas. ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. temos. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. acompanhada por outra moça. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. na outra. Todavia.NEA/UERJ epaulía. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. E. 1995: 226). flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. Seguramente. ela está sentada sobre o leito nupcial. 6. pr. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2001. o banquete. Por um lado. 1972. a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría. como é comum nessa forma de superfície cilíndrica. assim. Já no lébēs de Atenas (Figura 8). quando. O vaso de Würzburg. porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon. na terceira cena. 150 . mesmo não retratando o momento da epaulía. para uma noiva. a noiva aparece retratada como harpista. ela já era considerada esposa. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. Essa análise. alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. Enfim. cat. tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada. 334) apresentam a harpista numa situação diferente. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira.

chegando o momento de se casar. fig. 334. Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. 2001. Museu Nacional. a phórminx 151 . Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina. 24. 14791 (1171).Mulheres no gineceu. especificamente o bárbitos. Bundrick.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420. Preparativos para casamento ou recepção de presentes. A cena traz claramente uma representação da apaulía. procuravam fazer variações temáticas. retratada aqui como aulētrís. Mulher toca harpa de pé. a noiva poderia saber tocar algum instrumento. o aulós. a lýra. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. cat. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva.NEA/UERJ Figura 8 . Lébēs gamikós. cat. Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía.Fonte: Cerqueira. 8. Os pintores mais criativos e requisitados. presentes para a noiva. como o talentoso Pintor do Banho. evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais.Atenas. Figuras vermelhas. a recepção de presentes. Fonte: Foto do autor. 2000.

As convergências param por aí. é um instrumento para ser tocado por mulheres. a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista). na Atenas da época do Pintor do Banho. a existência de convergências e divergências. pintura de vasos. mais que isso. à lýra. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. associado às Musas (Figura 4). comparativamente ao aulós. A iconografia sugere que. contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias. a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa. 152 . nos últimos anos do século quinto. tocando harpa. em certos contextos sociais. A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina. De resto. A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura. em uma pýxis do Pintor de Meidias. ao feminino. a pēktís e a mágadis). Considerações finais A harpa. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. foi um instrumento menos usual. tocado pela própria noiva ou por uma convidada. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. Todavia. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. constatamos. É interessante observar que. Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. A principal convergência é a vinculação da harpa. na cultura grega. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. por via de regra. como um estrangeirismo. terracotas).MULHERES NA ANTIGUIDADE . apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu.NEA/UERJ ou o trígōnon. à kithára ou ao bárbitos. entre os gregos. sugere que.

No gineceu. na cerâmica ática conhecida por nós. Assim. para os pintores de vasos áticos. No ambiente mitológico. nas últimas décadas do século quinto. mulheres bem-nascidas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos.2. em Atenas. De outro lado. A pēktís. uma cortesã-harpista. é tocado por alguma Musa. em seus divertimentos no gineceu. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. De fato. CERQUEIRA. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. a dignidade do gineceu e das Musas. é tocado tanto pelo personagem central. retratado no ambiente do gineceu. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. a indignidade da prostituição. com a exceção de Museu. no ambiente humano. quanto por um personagem secundário. de que tanto nos falam os textos. e das Musas. tão logo se espalhou entre os atenienses. podemos dizer que a harpa. caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8). uma pēktís – trata-se portanto. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. no caso. foi vista como um instrumento refinado. O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. por sua vez. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa. é sobretudo um instrumento do gineceu. inclusive durante os festejos da epaulía. 2001: 198). nunca aparece. ainda. no ambiente mitológico. Constata-se. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. entre os pintores de vasos áticos. na pinturas de vasos. de uma psaltría.NEA/UERJ ambiente.

Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses. entre os gregos. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes. fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural. entre as mulheres bem-nascidas. que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. Finalmente. assim.NEA/UERJ parentes. de outro. como instrumento para entretenimento no gineceu. a comparação com a cerâmica italiota. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos. No entanto. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. da harpa como instrumento feminino. sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto. Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. O estudo da harpa nos permitiu. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 154 . O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. identificando convergências e divergências. Ao mesmo tempo. possibilitou-nos ver a cristalização.

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que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica.com 258 157 . Assim. Essa mudança. resultou no aparecimento do termo Gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente. Renata Senna Garraffoni. Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino. como proposto por uma historiografia tradicional. para a historiadora Joan Scott. lilianemeryt@hotmail. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS. sob orientação da Profa. sobretudo das individualidades desse sexo.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo.C. faz parte de seu papel socialmente construído. Dra. longe de ser tratado como vítima. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. 1550-1070 A.) Prof. gsbalthazar@gmail. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. fruto da busca de novos campos de interesse da História. Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR. que. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil. Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT.NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. Assim. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. Portanto. O debate crítico acerca da História das Mulheres. Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof. 1990: 7). tem seu perfil construído ao longo da história.

ou nada.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖. que. determinar a existência de sociedades ginecocráticas.260 Leiam-se. 1990: 07). 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. De fato. que ―(. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado. Para além desses aspectos.).. 260 158 . Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana. tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito. as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(.. a experiência de um sexo. na Antiguidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia. por exemplo. a aparente proeminência das mulheres egípcias. Assim. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais. pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT. até o final do século XX. Nessa premissa.) assim se apresentava a mulher egípcia.. sendo resultado de uma criação masculina. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos. ou melhor. portanto. (LESKO.. E é nesse contexto. o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖.. (. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais.. 1990: 16). a ver com o outro sexo‖ (SCOTT. desde a origem. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada. tenha muito pouco.

que refutam tais teorias. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. é uma clara recorrência a uma história das origens. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. nessa perspectiva. onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina. tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher. Nesse contexto. Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). por exemplo. Para tanto. não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. Nessa perspectiva.NEA/UERJ Esse pensamento. ou ―teoria da herdeira‖. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação. 1996: 23-24). Há trabalhos. essa linha historiográfica entende. um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. como foi o caso do Egito. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. A egiptóloga. como o da inglesa Gay Robins. e a matrilinearidade. contudo. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. corroboram com este processo matrilinear. concedidas às mulheres de sangue real. uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. Por fim. originado no seio dos estudos feministas. em especial pelas mães. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. Acredita-se. a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 . No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. em um estudo sobre a XVIII Dinastia.

261 são provenientes de diferentes contextos. Assim. contudo. Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. 30-52.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tradicionalmente datada de c. Atlas of Ancient Egypt. Jaromir. assim como nas outras fases da vida. na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade.C. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino. 2005: 205). 2008: 65). é importante ter em mente que. mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. foram produzidas pela elite masculina egípcia.. embora respeitadas como membros da família. iconográficas e textuais). mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. 261 160 . a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES. Sendo assim. precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER. as mulheres [egípcias]. segundo Liliane Coelho. 3000-332 a. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas. no Egito antigo. De fato. Oxford: Phaidon. é importante entender que. John & MÁLEK. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA. 1980.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. Nessa perspectiva. p. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico. as representações humanas. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres.

por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que as traduziram e revelaram ao público atual. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO. 161 . traduz uma visão idealiza do feminino.). a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. do que construir uma tumba em uma necrópole.NEA/UERJ por homens. de maneira contínua. associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente.que prediziam o que estava por vir.) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia. 15501070 a. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios. . e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos. O objetivo deste trabalho. Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. então. formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. por meio de cópias. 2040-1640 a. foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia.. já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. Segundo a visão de mundo egípcia. e as composições desta época.C. e que reflete o ponto de vista masculino. retirado do Papiro Chester Beatty IV. inclusive. assim como a arte.. ao ser produzida por homens. seus nomes durarão para sempre.C. A literatura. Durante o Reino Novo (c. e desta maneira. até chegarmos ao Reino Novo. ao longo dos períodos históricos que se sucederam. O Reino Médio (c. Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. em conjunto com aquelas do Reino Novo. 2009: 162). entretanto. é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade. A mulher era sempre representada de maneira ideal.

Tendo em vista tais considerações. 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas. Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu. todos os seus contemporâneos perecem. que escreveram. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. . para este artigo. dependendo da função à qual se aplica o texto. Os nomes de Senu e de seu pai. analisamos composições que podem ser classificadas. por fim. a literatura lírica. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖. ou a nota final de um texto..MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. e. tendo completado sua vida. Luís Manuel de. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. Dentro da literatura fantástica. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO. segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). Mitos e Lendas: Antigo Egipto. Em um dos contos do Papiro Westcar262. seu cadáver vira pó. .. As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras. 262 162 .Eles não planejaram deixar herdeiros.. gênero do qual fazem parte os poemas de amor.Um homem morre.. assim. Lisboa: Livros e Livros. crianças que conservassem seu nome. . literatura gnômica. (ARAÚJO.. filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO. enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. 2000: 280). mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê. como literatura fantástica.Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido. foram eternizados por meio do texto escrito. que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários.. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções.NEA/UERJ embora tivessem partido. 2005.

sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. na estação da semeadura. A mulher. associada ao adultério. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro. Avisado pelo jardineiro. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. datado do final da XIX Dinastia. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. e eles sumiram para sempre.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães. Quando saía da propriedade. que o servidor deveria colocar no lago do jardim. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes. Bata vivia com seu irmão mais velho. A mulher. e seguiu seu caminho. transformado em um animal de verdade. Certo dia. e a esposa deste. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. 263 163 . Certo dia. Bata foi interpelado pela cunhada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. assim como na história de Ubaoner. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema. no entanto. que passara um tempo com o faraó. respondendo que a considerava como uma mãe. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde. após a explicação do ocorrido ao faraó. sendo perseguido por Anpu. Nesta história. Furioso com a atitude de sua mulher. cujo nome não é citado. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. contudo. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. Anpu. foi castigada. Anpu voltou para casa. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. O sacerdote. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse. Bata negou-se. o levou para o fundo.

Néftis. então. sem uma autorização do marido. que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. nas três situações ilustradas nestes contos. mas certo dia. Bata a avisou que não se aproximasse do mar. desobedecendo às ordens do marido. pois as consequências poderiam ser trágicas. no entanto. Em ―O nascimento dos príncipes‖. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. o faraó pesou em matar Bata. pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. Assim. Apaixonado por ela. acompanhadas por Khnum. no entanto. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. No conto. contudo. que foi deixado propositalmente na casa por elas. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. e que por isso acabaram punidas. a mulher aparece como a mãe e provedora. O final da história. que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água. Nesta história. Reddjedet. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. que era um bem precioso para os antigos egípcios. foi perdido. Meskhenet e Heket. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela.NEA/UERJ Em outro momento. A mulher. Ra enviou as deusas Ísis. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. é narrada a história de Reddjedet. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. filhos de Ra. Sahure e Neferirkare –. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este.MULHERES NA ANTIGUIDADE . após muitas transfigurações. que mentira a respeito do artefato. Temos. para auxiliar a mulher na hora do parto. 164 . Falsidade. por sua vez. Depois de levá-la consigo. é apresentada a imagem da mulher ideal. Ao final do conto. já que este poderia ir atrás da esposa. Em outro conto do Papiro Westcar. no mesmo conto. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa. mãe e provedora. composição que data da XIX Dinastia.

Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres. 2000: 252).. 2001: 35). O comportamento mais marcante. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. 2000: 251-252). a mulher apresenta uma falha: no primeiro. por não revelar. com o tempo. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens. que só soube quem era seu pai muito tempo depois. Ptah-hotep.) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. A esposa. são outras: nestes casos. neste caso. pois ―. também. desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade. Verdade e a mulher tiveram um filho. Nos dois últimos casos. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa... este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. no segundo. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. alguém não conhecida na sua cidade. e deveria ser sempre um 165 . Verdade foi então abandonado num local rochoso. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. já rapaz. de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha. segundo ele. a mulher é mostrada como a mãe protetora.. é o da mãe. Sabendo da verdade. não a conheça carnalmente (.. ela aparece como o ideal feminino.. não a fixe quando ela passa. sejam elas esposas. no entanto. Juntos.. e no qual foi encontrado por uma mulher. em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (. onde ficou protegido. porém. às mulheres desconhecidas.NEA/UERJ mas. Nos dois. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres.. quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor.) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any. deveria ser bem nutrida. aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada.‖ (ARAÚJO.

(mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO. As concubinas. Trata-se de uma comparação feita por Khéti. mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta.) –. não a repilas.) Sê bom para ela (durante) algum tempo. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS.NEA/UERJ exemplo a ser seguido. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. também mereciam um tratamento especial. Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. produzidos por homens. da vida após a morte. Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. e aparece. na literatura gnômica. todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. Fica demonstrado. 166 . Por último.. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele.C. tal qual o das esposas e. assim. Ptah-hotep aconselha. Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher. para este sábio. consequentemente. é marcada pela idealização. e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. 2000: 221). 2001: 35). Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep. a mulher aparece como sofredora. na ―Sátira das Profissões‖. 2000: 252).MULHERES NA ANTIGUIDADE .. 2000: 256-257). 1640-1550 a. Para ele. contudo: ―não a julgues. deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO. no início do Reino Novo. que a imagem feminina nos textos. Ou seja. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada. não deveriam ocupar posições de poder. a mulher deveria servir ao homem. assim como elas. assim. Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c. alegre e conhecida pelos de sua cidade (. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. Em apenas um caso analisado. então. sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e. Comportamentos que não devem ser seguidos.

conservado no Museu Britânico. atualmente em Dublin. divide-os em poemas de fala masculina. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. Papiro Harris 500.NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite. mas eles transmitem. tão em voga neste período. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. constroem uma imagem idealizada da mulher –. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301). As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco. Os amantes nunca se tratam pelo nome. a que aqui se refere. discursos. do Museu Egípcio de Turim. 2000: 302) argumenta que os banquetes. Papiro Turim 1996. chamando a atenção. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. Posener (apud ARAÚJO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 302). 2007: 226). e poemas de fala feminina. que apresentam uma linguagem mais refinada. e Óstraco do Cairo 1266+25218. pautada nesta distinção. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. ou do homem ou da mulher. representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. nestes casos. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. são sutis e difíceis de capturar. a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. a sensibilidade feminina de maneira aguçada. imagens e materialidades. Barbara Lesko. traduzindo emoções. As sensibilidades. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 . A literatura. Portanto. 2007: 10). por sua vez. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. a saber: Papiro Chester Beatty I. tais como espaços e objetos construídos. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado. por meio de práticas sociais. como os textos analisados anteriormente.

. 2000: 304). Assim.). pelas quais aquela relação originária é organizada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2007: 10). medos. 2000: 306). no quarto poema do mesmo conjunto.. é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz. não palpites‖ (ARAÚJO. Deusa de Ouro. o que desperta nela ―extrema alegria‖. pois a mulher espera que ―(. sensibilidades que correspondem ―(. neste caso específico os Poemas de Amor. vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. Tais sentimentos. se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados. 2000: 307). percepções sobre o mundo e é. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. as falas femininas dos Poemas de Amor.. Esta urgência. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento. ao contrário das masculinas.NEA/UERJ anseios.) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖.. em sua maioria velado e platônico. que o simples fato de pensar no homem amado. Observa-se. ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (. narrativa.. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO. também. 2000: 307).. 168 . como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. da necessidade da presença do ―irmão‖. contudo.) às manifestações do pensamento ou do espírito. 2000: 308-9). traduzem um amor sensível. deviam ser velados. sensibilidades.. e por isso pede ―ó. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. como é visível no sexto poema do conjunto. o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO. Ó. as fontes literárias.)‖ (ARAÚJO. De fato.. onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado. eu o beijarei na frente dos que o cercam (. apreensões. também faz com que o ―coração palpite‖. Deste modo. seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. pois. meu coração.

Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. seu gosto pelo detalhe fútil. com seu tom de confidência. do Papiro Harris 500. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. ao capturar um pássaro do Punt. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Pretende. a vida de todo homem. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. portanto. ao contrário. o estudo destes poemas. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. servindo-te meu amor‖. embora essa o absorva preponderantemente. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). pois ―Todos a vivem. desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. 2000: 317). não há nenhum homem. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. 2000: 317). por mais ‗insubstancial‘ que seja. colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. paixões. que viva tão somente na cotidianidade. tão repleto de sentido. 2000: 316). O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. é a vida do homem inteiro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . antes de qualquer coisa. Na linguagem comum. E. tê-lo ―como esposo. utilizados na época. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. quando o amor faz surgir. compreende-se. e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. Nesse sentido. Nela. idéias e ideologias‖. ou seja. 264 169 . Desta forma. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. daquele ―insignificante‖. sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO. além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. de sua singularidade. de sua personalidade. na mulher do quinto poema. que a vida cotidiana é.NEA/UERJ Os Poemas de Amor. com o teu braço no meu braço.

O terceiro poema. meu irmão. cuja fala se direciona ao casal. A aflição do amor não correspondido. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. olha para mim!‖ (ARAÚJO. 325). traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. personalidades e funções. 265 170 . louvo a Senhora do Céu. 2000: 323). a maioria dos poemas é de fala masculina. Ó. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. após. a magia. e este se estendeu durante todo o período faraônico. Logo. meu amor. pois incorpora diversas características. a música. a fertilidade e o nascimento. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. Neste. em tal poema. segue-se o pedido. dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. a saber. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. De todas as fontes que contêm estes poemas. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. 1995: 99). contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . venero Hator. cada poema começa com o nome de uma árvore. a sexualidade. por exemplo.). ―Ao invocá-la. o amor. meu irmão.. travestida em preces à deusa Hator265. que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. a dança.NEA/UERJ A religiosidade. particularmente para as mulheres (ROBINS. (. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. a sutil sensualidade da conquista. 2000: 306) e. bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996. O quinto poema. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo. por exemplo. que esperavam. cultuo sua majestade. Neste. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços. O resultado foi uma multifacetada deusa.. 2000. Percebe-se. se faz presente no cotidiano dos egípcios. contado por um sicômoro. acima citado. vem.

as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. isto é. mas.. tão distantes temporalmente de nós. Olhos na estrada. Consequentemente. O que demonstra que. como os monumentos e a literatura. Sergio Donadoni (1994: 217). expressas nos Poemas de Amor. as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR.).MULHERES NA ANTIGUIDADE . o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . Este estudo. ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. espero por aquele que me despreza‖. sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. 2000: 305). marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. por sua cultura singular. assim. em especial. A crença egípcia na vida após a morte. mantendo-se.NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO. evidencia sensibilidades passadas. de maneira geral. De fato. sentimento este capaz de resistir aos séculos. As diversas formas de enterramento. o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (. ouvidos atentos. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo. comumente. é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. ainda hoje. pela localização das cidades em zonas de inundação. Em outras palavras. as múltiplas formas de sensibilidades. transmitida por testemunhos de várias ordens. há cerca de seis mil anos. acerca dos Poemas de Amor de fala feminina. contudo.. por exemplo. às vezes. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas. foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto. 2000: 319). o que ocasionou o seu desaparecimento. revelam como estas mulheres. 2009: 12).

NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. implícitas nas entrelinhas dos poemas. ou melhor. entende-se. 172 . um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade.. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. no caso. com o seu cotidiano. com o presente texto. com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos. Assim. 2003: 58). Pensar nas sensibilidades. ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. Nesse sentido. se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. Assim. enfim. inscrita nos poemas aqui analisados. Portanto. tentar entender as sensibilidades. como as pirâmides e os textos funerários. a fala feminina. Em suma: (.. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres. a análise dos poemas de amor. que ressalta a paixão pela vida. ao contrário da tendência apontada por Donadoni. Portanto. consequentemente. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I. e. das trajetórias de vida. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1994: 12). que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. Nessa premissa. as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida.

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oposta ao conhecimento. compõem um acervo da ordem do fantástico.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética.ª Dr. Literaturas e Cultura Judaica (USP). mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião. sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá. fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. A outra é a do misticismo. (GLASMAN. NEA -UERJ.NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof. janeglasman@terra. A diferença entre as duas correntes reside. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ. pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado. presumir que o Talmud não é. encontramos mitos e lendas que. a do racionalismo . ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. Anjos. que gerou incontáveis interpretações e releituras. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). em 9 de novembro de 2010. Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. É falso. mesclado de misticismo e obscuridade. principalmente. por duas tendências principais. na ênfase dada à lógica e à mágica‖.representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI. Desde os relatos bíblicos.com. Um corpus de lendas. milagres. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico. complementares uma da outra. através de sua longa história. A mais preponderante tem sido sem dúvida. alegoricamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . também.br ou janebg@hotmail.com 266 175 . 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica. porém. escritora.

depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. protagonizando a literatura da Cabalá. que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana. sem dúvida. no nome de Enlil (deus sumério do Ar. do raio e do trovão). A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu. uma personagem bastante controversa. senhor das tempestades. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a. artistas e poetas. Segundo o mito. Lilith e Dibuk. aparece.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o nascimento de um mito Há 4. não leite. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças. que significa vento. Seus peitos são cheios de veneno. Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite. Lilith. e autor de feitos sobre-humanos.NEA/UERJ personagens como o Golem. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. C.000 anos Lilith tem vagado pela terra.268 Na etimologia hebraica. O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. Na Suméria. Ela é. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. Suas origens remontam à demonologia babilônica. por exemplo. figurando nas imaginações míticas de escritores. era 2/3 deus e 1/3 humano. tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. a raiz Lil. Os relatos de sua biografia são contraditórios. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. 268 176 . através do misticismo judaico.

Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro). no entanto. 1938." Gilgamesh corre para ajudar Inana. identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270.C. datado de cerca de 1950 a.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco. do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney. Os planos de Inana quase são frustrados. deusa do amor. ambos empregados Traduzi de Kramer. ‖269 Usando armadura pesada.NEA/UERJ Num episódio. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto". de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si. Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica.. Neste baixo-relevo em terracota. Em seu jardim às margens do Rio Eufrates. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro). O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando um vil triunvirato se apodera da árvore. o bravo Gilgamesh mata a serpente. conhecida como o Relevo Burney. sumério ou assírio.

O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. um modo convencional de transporte para residentes do submundo.NEA/UERJ em cerimônias religiosas. aparentemente curvando-os à sua vontade. Afinal. IX a. XVIII a. descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas. ela voa com asas de demônio. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. no topo da Estela de Hamurábi (séc.C. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra. Datando do oitavo ou sétimo século a. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes. acadêmicos identificaram a figura como Inana. onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder. Além disso. que integra atualmente o acervo do Louvre272. como muitos deuses de povos vencidos.C. Em primitivos encantamentos contra Lilith. Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. 272 Mais recentemente. séc. sabemos que ela é uma deusa. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Porém. por exemplo. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. British Museum). Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos. ao que parece. 271 178 . há uma placa de parede de pedra calcária. teria sido transformada em demônio em época posterior.C.

por exemplo.NEA/UERJ pedra‖ em turco). e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor. em Isaias 34.povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação. egípcios. Por todo o livro. ela é mencionada só uma vez. e achará pouso para si. uma demônia foi creditada como responsável. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil. A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. No texto bíblico Na Bíblia.C.menarca. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos. os primeiros 39 capítulos do livro. israelitas e gregos. Com o tempo. pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. referidos frequentemente como Primeiro Isaias. אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ . ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias. 179 . Fez uma aparência solitária na Bíblia. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas. A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança. em 1933. Presumivelmente." (Isaias 34: 14). na Síria.).‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em situações críticas na vida da mulher. ela temeria ser reconhecida e partiria. No Capítulo 34. De acordo com este poema apocalíptico poderoso. que contém uma menção horrível de Lilith. perda da virgindade ou parto . O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos. Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. casamento. e Lilith descansará ali. que migrou para o mundo dos antigos hititas. se Lilith visse seu nome escrito na placa. que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz.

criatura da noite e bruxa273. tradução inglesa da bíblia. As traduções também diferem para se'ir: é bode. traduz lilith como "o pio da coruja". a Versão King James. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. comparativamente. se'ir é um bode.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith. Se lilith é uma demônia.NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. se lilith é um animal indeterminado. 273 180 . O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física. como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono). A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica. então se'ir é uma espécie de demônio. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas. Talvez dada a sua longa associação à noite. e Lilith aparece na Canção para um Sábio. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. A seita de Qumran absorveu demonologia. mas a situa em lugares desolados. mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. não havendo menção da coruja. enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto".

Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517. e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias. mais ou menos literal..). após o cativeiro da Babilônia no século VI a. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. ao contrário de Isaias. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d. demônios. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras. Quando. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto. Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural. 11. Liliths. 274 275 181 .C. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral. Provavelmente não é apenas uma licença poética. frequentemente apenas de versos individuais ou de partes.. e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico. o Sábio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . corujas e chacais.NEA/UERJ ―E Eu. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos. 10.C. somente porções do mesmo em inúmeras passagens..4-6a // frag. no singular.

Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. Babilônia. Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. espíritos. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas. circundada por um texto profilático em aramaico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b). Por vezes. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. de cerca de 600 d. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. As referências talmúdicas a Lilith são poucas. os vasos de encantamento. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio. O demônio feminino da noite é Lilith. como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante. o Talmud informa. noite adentro. Lilith atacava mesmo os homens casados e. demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a). Adão transtornado separa-se de Eva.C. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. também souberam de Lilith. expulsando-os nus. para combatê-la. pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur. De acordo com folclore popular. os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas.NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais. mostram em que pessoas comuns acreditavam.. um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). 182 .

considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs. correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico. Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão. 277 183 . Na Idade Média. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem. Neste vaso em particular. embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga.. teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. Entre os séculos VIII e X d. com 22 episódios. como os da Literatura bíblica de Sabedoria. que causam doença e morte. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. depois que um erudito inglês. antes de Eva. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia. Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. como Lilith. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus. Até certo ponto. no entanto. Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). É uma coleção de provérbios e máximas. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi. Solomon Shechter.C. pode voar e tem atração por sexo. É um texto anônimo. O jovem filho do rei está doente. Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações.NEA/UERJ matavam crianças humanas. Invocando o nome de Deus. ela recebeu características novas e mais sinistras. enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo.

Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. Durante os dias do Templo de Jerusalém. por outro lado. No Alfabeto. Deus forma outra pessoa da terra. Lilith foge para espaços desertos. Logo o casal humano começa a discutir. Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. não tenta dominar ninguém. eles são semelhantes em importância. Lilith ganha 184 .A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. associado com a raiz hebraica de "ser".NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. o nome inefável do Senhor. mas ele insiste que este é seu lugar. adm (Adam = Adão. O nome de Deus YHWH. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu. No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. Então Lilith alça vôo e vai-se. mas nenhum realmente ouve o outro. Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas. por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. adamah = terra). há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lilith. Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus. no Dia da Expiação. uma fêmea chamada Lilith. traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. Em teologia e prática judaica. só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano.

que a aprova e a nomeia Eva. mas também uma mãe incrivelmente fértil. reivindicando que foi criada para ferir crianças. animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). Em Gênesis 1. plantas. sem reconciliar. No fim. Para GAINES (2009). seguido por plantas. A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. é ela que se sente rejeitada e zangada. animais e finalmente a mulher.NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). Uma interpretação tradicional desta 185 . Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. Quando eles a encontram no Mar Vermelho. no entanto. o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. Três anjos são enviados à procura de Lilith. ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal. Deus apresenta a mulher a Adão. Em Gênesis 2. Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). Nesta versão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. ambos perdem. 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. forjando um acordo com Deus e os anjos. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. Ironicamente. ela se recusa a retornar ao Éden. formando a mulher de uma costela sua. Mas mesmo sendo quem parte. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças. Aparentemente. homem é criado primeiramente. Para que os anjos não a afoguem no mar. os seres vivos aparecem numa ordem específica.

flatulência e cópula por animais.NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação.então devem ter sido duas mulheres. Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar. apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. o Talmud e outras exegeses rabínicas. no entanto.uma vez com homem. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden. é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. De fato. Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva. ridiculariza a Bíblia. Por esta razão. a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico. Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada. usando fontes anteriores. O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico. mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. Deus cria a mulher duas vezes . Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. 186 . Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. outra vez da costela do homem . comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico). no fim. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história. Neste contexto. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas. a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de todos os mitos de Lilith. sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada.

que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). a vê como uma sedutora de homens inocentes. e a interpretação desta passagem no Talmud.NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. Adão é uma de suas vítimas. também aparece no Talmud. chamada Samael ou Asmodeus. inspira sua luxúria. O Zohar. à imagem de Deus Ele criou-o. 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. 279 187 . Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. como os tratamentos anteriores de Lilith." em Gênesis 1: 27. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. A porção feminina do ser humano era unida no lado. No Zohar. Em vários pontos. mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). A Shekhiná. A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. Se a Shekhiná é a mãe de Israel. cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico. pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. Lilith vai-se embora. então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele". É associado com Satã. então Lilith é a mãe da apostasia de Israel. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta porção desprendida é "a Lilith original. macho e fêmea Ele os criou"). A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. chamado Shekhiná279. a serpente e o líder dos anjos caídos. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. concebe suas crianças e então as infecta com doença. criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith.

em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca. Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden. Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. outro testamento ao poder duradouro da demônio. por exemplo. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos. John Collier. Podemos citar os nomes de Goethe. quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida. a emprestar-lhe uma forma de réptil. 280 188 . e causa grande tristeza a Deus. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. na literatura e nas artes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . causadora pragas. devoradora de crianças. a cobra. homossexualidade e vampirismo. depravação. Dante Gabriel Rossetti. através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280. O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. John Keats. Robert Browning. noturna. etc. Lilith e Eva". Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus.

São Paulo: Trejger Editores. 35–49. Rio de Janeiro. Revista IDEA. em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. Eisenstein. Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. Jane Bichmacher de. Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. Lilith: Seductress. CHUMASH. vol. Gershom. 1948. pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada.bibarch. 17 vols. As peregrinações de Lilith continuam hoje. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review. 1998. trans. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. 189 . 1938. Esta criatura alada da noite é. nº 2. GAINES. New York: Schocken Books. London: Soncino. Janet Howe. Com comentários de Rashi. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. March/April 2009. on line http://www. Samuel N. Isidore Epstein. jan/jun 98. 1. pp. Zohar: The Book of Splendor.D. SCHOLEM. 1963. ano II. ISTARJ. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem. com efeito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assyriological Studies 10. À medida que crescemos e mudamos com os milênios. KRAMER.asp acesso em 21/5/09. GLASMAN. 1993. 1915). quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal. Bíblia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J.org:80/e-features/lilith. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. Chicago: University of Chicago.

ou seja. Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity). entre 1550 e 1070 a. Assim sendo. Coord. Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes. notadamente membros da família real. do Núcleo de Estudos em História Medieval. 19a e 20a dinastias. Entretanto. apesar da inconstância.C. tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale). O primeiro. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher. do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG.NEA/UERJ SENHORA DA CASA. e 30 a. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida. de um modo geral.) nos concentraremos principalmente na 18a. relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr). Dr.C. O segundo como divindade. Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba. Seja estando a frente. Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. o que Prof. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Momento em que a mulher. Por último a mulher na condição de monarca. 281 190 .C.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

esposa do faraó Akhenaton —. Elemento igualmente interessante era o matrimônio. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher. Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti. todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar.NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas. mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA. Assim sendo. com o general Horemheb que assim. rainhas ou parentes próximos). De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito. Assim. Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. 2000: 104). 1993: 2). os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 . Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades. Assim sendo.

De fato ele é um tolo. 1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro.). perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO.C.C. Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. 2000: 301-330). sou tomada pelo amor que sinto por ele. através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO. 192 . seja ele masculino ou feminino. Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços. Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele. Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores. o tormento apodera-se de mim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim. senão já teria escrito à minha mãe.NEA/UERJ VIII a. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134). mas sou como ele.) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz. Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. Por outro lado. Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele. Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum. é possível.

e como tal. 1990:5). É claro que a posição social. Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. meu irmão. toda minha família te aclamará em uníssono. sobretudo. A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. meu pai e minha mãe ficarão encantados. cuidava do lar e dos filhos. à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo. entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. as causas poderiam ser relativas ao adultério. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos. pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio. Em certa medida não é tão diferente de hoje. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades. Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . mas 193 . 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. pode não configurar uma prática de contratos sem amor. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. ó meu irmão (ARAUJO. ―sair para fazer compras‖. Ou mesmo ―escolhendo-o‖. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. para que contemple tua beleza.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro. eles te aclamarão. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. que no caso da mulher.NEA/UERJ Ó. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios.

Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos.C. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas.). o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância. 2400 a. Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. 1990:5).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. Mênfis. Apesar de raros. cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos. Assim sendo. Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt). pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos. algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso. mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. 194 . a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt).NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia.

o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. a grande maga. o que confere um poder significativo a Isis. obtém do deus Ra seu nome secreto. representação da umidade e de aspecto feminino. 195 . Em outro mito. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. o poder de Ra. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. embriagando-se ao bebê-lo. Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. Em um dos mitos relativo à deusa Isis. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar. é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. Thot. 2000: 93). O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. possuía o aspecto destrutivo do raio solar. Tebas e Elefantina.NEA/UERJ Hermópolis. Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. neste contexto. foi posto um fim a destruição (GRALHA. Isis faz o impossível. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade. no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. característica específica de deuses como Ra/Atum. Assim sendo. e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. pois esta havia se voltado contra ele.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ptah. O deus Ra. este casal gera Osíris e Isis. e Tefnut.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e. através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. Ou seja. Por outro lado.

(ver NOBLECOURT. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida. prosperidade e saúde‖.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. com apoio de sua mãe. Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste. a deusa Ahmés-Nefertari. fossem cultuadas como divindades. a rainha Ahmés-Nefertari. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. 1994. LESKO. Na estela abaixo. 196 . sobretudo após o seu falecimento. notadamente rainhas. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). entrada para as 12 horas da noite.MULHERES NA ANTIGUIDADE . E ao que parece. não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino. Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres.

É o caso de Hatshepsut.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum.NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari. que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas. 1993: 123. entretanto. e o caso de Nefertiti. estabeleceu seu culto. que ao se tornando faraó. 197 . O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. 2002: 98). rainha do faraó Akhenaton. GRALHA.

Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo. O caso mais conhecido. Nesta cena. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca. fazer incenso) incenso para Amon-Ra. Na primeira. entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 198 . O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon. Thutmés III. Em um segundo bloco. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo. Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca. far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida.NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut).

o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião. Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. algumas rainhas teriam sido faraós. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ou seja. não configurando usurpação e muito menos regência. os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. não poderia ser palco de um novo conflito.) O Egito.C. Segundo Gay 199 . pudesse estar ligado às duas linhagens. No entanto. era necessário que o futuro monarca. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. ou seja. mãe de Queóps (4ª dinastia). Ahmés Nefertari. Thetisheri (17ª dinastia). dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. Torna-se mais claro. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica).NEA/UERJ No culto de Amarna. Tiy. como deus único. Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono). a tríade da religião de Aton era invertida. Nefertiti (18ª dinastia). Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. agora interno. como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. Hatshepsut. o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Contudo. Pela primeira e única vez. Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo. Para que tal possibilidade fosse afastada.

É possível. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP. através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó. com o jovem rei Thutmés III.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a.). e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF. Filha.C. uma forma de monarquia dual. Como rainha ela parecia ter grande poder. complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000.). Entretanto. 2007) O culto a Arsione II Filadelfo. a tese de Amanda Weidemann (UFF. 139-140).C. esposa de Akhenaton. que a idéia de um governo conjunto. não configurando uma co-regência tradicional. algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados. com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993. 200 . a posição de rainha.C. 2005). Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo. Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. 44-51). pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei. Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a. 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti.. 5354). Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa).NEA/UERJ Robins. Esposa. Mãe.

. SP: Papirus Editora. Escritos para a Eternidade: A literatura no Egito faraônico. Sex and Society in Graeco-Roman Egypt.A. 2000. Proportion and Style in Ancient Egyptian Art. 115-132. 1990. Emanuel.P. HORNUNG.) Estudos de Arqueologia Histórica. NOBLECOURT. 2000. CLAYTON. Christian. 1994 ______. ______. Dominic.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO. Paris. Lise. O‘CONNOR. 2002. Fogolari. 201 . 1990. inédito ______. Ciro Flamarion. Porto Alegre:EDIPUCRS. 1996. CARDOSO. The Canonical Tradition in Ancient Egyptian Art(Cambridge New Art History and Criticism). A Vida Sexual no Antigo Egito. Ancienty Egypt Society. Habitus.Austin. Cambridge: Published by Cambridge University. Fowler (Illustrator ). Whitney. Chronicle of the Pharaohs.. ROBINS. 2005. A Cultura Material do Cotidiano: Espaço Urbano e Moradias no Egito Faraônico. P. MONTSERRAT. E.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1994. DAVIS. 1989. MANNICHE. A Mulher no Tempo dos Faraós. Deuses. GRALHA. A Família vista através da iconografia funerária privada egípcia da primeira parte da XVIII dinastia (meados do século XVI a meados do seéculo XIV a. Rio de Janeiro: Imago Ed.London: Thames & Hudson. MONTET. 1 ed.C. MEEKS. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press 1997. Erik. La Vie Quotidienne des Dieux Ëgyptiens. 1997. London: Keagan Paul International. Múmias e Ziguratts. Press. Erichin (RS). (eds.NY:Cornell Univ. Pittsburgh (PA): The Carnegie Museum of Natural History. 1993. Brasília: UNB. University of Texas Press. As Egípcias: Retrato de Mulheres do Egito Faraônico. David. 1989. Pierre. pp. Tânia Pelegrini. Peter A. Gay e Ann S. The Art of Ancient Egypt. 1999. Trad. Faraós e o Poder. O Egito no Tempo de Ramses. Akhenaten and the Religion of Light. Julio. Rio de Janeiro: Barroso. In: Funari. 1999. SP: Cia das Lestras. JACQ. Deuses. Christiane D. Hachette. P. Dimitri.

Byon (Editor). Press. Pittsburgh (PA): The Carnegie Museum of Natural History. A Questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. WATERSON. 1995. SILVERMAN. Press. de Emanuel Araujo. Hatchepsut The Female Pharaoh.NEA/UERJ ______.Stroud: Alan Sutton Publishing. Ashraf Iskander.Divinity and Deities in Ancient Egypt in Religion in Acient Egypt. Daily life of ancient Egyptians. Hildesheim:Gersten-berg Verlag. Sydney: The Australian Center of Egyptology. Daugthers of Isis: Women in Ancient Egypt. 1987. 202 . Joyce. Women in Ancient Egypt. WHALE. David P. Cambrige (Massachusetts): Harvard University. Popular religion in Egypt during the New Kingdom. Sheila. James F. Harmondworth: Penguin. 2007. 1991 WEIDEMANN. 1993. TYLDESLEY. Os deuses do Egito.London: Cornoell Univ. 1996.MULHERES NA ANTIGUIDADE . TRAUNECKER.C. Trad. SHAFER. 1994. 1989. Amanda. Niterói : UFF-Tese. Women In Acient Egypt. Barbara. Brasília:Editora Universidade de Brasília. ______. ROMANO. The family in the Eighteenth Dynasty of Egypt. London: Viking. 1991. A study of the representation of the family in private tombs. Claude. 1990. SADEK.

Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir. étnicas. sexuais e de gênero. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. título desse livro. tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. de seu cotidiano e de suas percepções e valores.MULHERES NA ANTIGUIDADE . à masculinidade e ao conceito de sexualidade.ª Dr. Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas. religiosas. foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura. uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. em sua área de conhecimento. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas.NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof. 282 203 . focos de minhas análises. Professora da Universidade Sagrado Coração. Bauru/SP. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. já não mais limitada às expressões das elites brancas. a história daqueles até então dela excluídos. e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. Nesse ambiente. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes. bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo. Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp.

F. Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos.283 Embora em menor número. CANTARELLA.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. as estátuas. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. BERNSTEIN. as tumbas funerárias. também ganharam valor documental as inscrições. Com esse olhar. 3. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e. Milano: Feltrinelli. a numismática. n. The public role of Pompeian women. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. S. 244-266. Phoenix. CHERRY. p. 1987. 1998. no Estado e no espaço público. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica. 44. Donne in Atene e Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a busca de maior liberdade. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. 204 . Donne romane da Tacita a Sulpicia. Michigan: Ann Arbor. Torino: Giulio Einaudi. E. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. além dos tradicionais escritos oficiais. Passato Prossimo. 1978. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. 1990. S. composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. a iconografia. v. e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. desde então. D. formas de atuação política e os fundamentos. Sobre a História Antiga Romana.

Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. 76-104. et alli. (Dir. In: Schiavitù. H. M. 1981. Porto: Afrontamento.. 47 bis. In: Schiavitù. G. 1998. R. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. In: HAWLEY. 123-130. 1970.. A Antiguidade. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. 185-201. 4. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. M. pp. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. 1981. 1995 e JOSHEL. London: Routledge. v. aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. LeGALL. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História.284 Entretanto. Jobs for women. p. 76-104. Roma: L´Erma. 205 . TREGGIARI. MURNAGHAN. LEVICK. FRANCO. S. (Eds.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. p. M. Questions on women domestics in the Roman west.. KATZ. Jobs for women. livres e escravas  em seus ofícios e na política local. M. N. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. 1. G. S.MULHERES NA ANTIGUIDADE . S. J. A. V. P. S. Women in Antiquity. AJAH.) Women & slaves in Greco-Roman culture. Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO. KAMPEN. 2000. 1992: 09). R. PERROT. 1993. mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. Image and status: Roman working women in Ostia. 1976. B. 12691278. TREGGIARI. Questions on women domestics in the Roman west. Roma: L´Erma. M. H. TREGGIARI. S. AJAH. Tradução de Coelho. 284 Cf. B. 1. LEFKOWITZ. 185-201. 1982. v. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. S. C.. desde a década de 1980. 1981. FANT. Berlin: Mann. apresentando diferentes e mesmo DUBY. Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum.) História das mulheres no Ocidente. 1. REL.) Women‟s life in Greece and Rome. P. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. London: Routledge. Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. pp. R. (Eds. 1976. TREGGIARI.

A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. 1992. as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. tanto no Brasil como no exterior. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. A distinção está. a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. 2003. nas relações Como exemplo. justamente. elas são diferentes. 1998 e Bessa. Funari. Desta maneira. onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. Com isso. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. pode-se citar Costa e Bruschini.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino. Silva. o papel de comando e domínio. Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. Feitosa.NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285. sexuais. para além das essências. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. 1998. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. Pedro e Grossi. É justamente nesse ponto. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. fixas e universais. 1998. grupos étnicos e tradições culturais. 285 206 . no tratamento privilegiado das mulheres. por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes.

. resultantes não de um consenso social. Para Jean Scott. 1995: 88). em nível discursivo e social. dentre outros aspectos. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289). ver Scott. Baxter. Em função disso. gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. 1988 e 1995. 2009. faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. Piscitelli. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas.287 Como enfatiza Matos. Formuladas entre os grupos sociais. mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. Nesse aspecto.NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões. Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero. ―mas das disputas. Western. 287 207 . muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. ou não. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. Nesse aspecto. de um poder masculino sobre o feminino. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. denunciada pelo feminismo. 2001. pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher.. de seu uso para a sociedade romana antiga. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT. a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder. ―existem muitos gêneros.

étnicas. com grande variedade de povos. O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. béticos. podem ser de reciprocidade. Desta maneira. econômicas. SKINNER. de idade. Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. ou seja. dácios. complementares ou de prestígio (MACHADO. egípcios.NEA/UERJ 1995: 86-87). 2009: 283). 2009: 287). Esse imenso império emaranhado de latinos. 1992: 35. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. mas presente na trama histórica‖ (MATOS. entre tantos outros. Contudo. além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. 1995: 180. sexo. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. a da existência do feminino e do masculino 208 . 1994: 44). muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. germanos. profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖. além dos vínculos de poder. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d. A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. gregos. pode-se considerar que as relações de gênero. 1988: 192). Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. gálatas. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. masculino. MATTOSO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. apresenta diversidades jurídicas. Diante disso. neutro e consensual. obscurece a percepção de diferentes poderes. conferindo-lhes um sentido descritivo. 1997: 13).

cf. escravos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aliado a esse. é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. por exemplo. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. desocupados. Para Maria Izilda Matos. parasitas da elite. Libertos. como nova categoria. ou com a homossexualidade (MATOS. with special attention to finding evidence of how marginal populations  women. C. noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional.. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. 2005 e Feitosa e Garraffoni. p. e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher.NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. 289 Cf. dominadores e virtuosos. 2010. 288 209 . enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes. é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order. 2009: 289). de 1997. A ênfase de Skinner. 1990: 595-596). slaves. já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. 1997: 25). livres. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino. 67). Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas. com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto.288 Destarte. Feitosa. que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. Hallett e Skinner (1997). L. Boswell (1990).

mas de idades e categorias sociais diferenciadas como. em restrições jurídicas e políticas291. por exemplo. à medida que a atividade ―lícita‖. por outro. 2. por exemplo. que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. libertos. ―normal‖. Autores modernos como. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. por exemplo. puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. e a partir de uma determinada prática sexual. por exemplo. a iniciar por sua própria identificação. também. 1981. músicos e corredores de bigas. Segundo Walters. Cf. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). 1997: 30). Se. a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna. O simples fato de ser gladiador. a integridade do Vir consolidar-se-ia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Justiniano. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. Além disso. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. terra.NEA/UERJ profissionais. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. 290 210 . Grimal. D. Assim. prostituta ou dono de bordel já implicava. Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001). diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. ator. por um lado. Garraffoni 2005. cf. 3.

publicamente. Embora satirizado por Suetônio. jovem ou adulto. L). Desta maneira. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. à superioridade bélica.NEA/UERJ aristocráticos. pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas. em De vita duodecim Caesarum (I. o pensamento dessa elite romana. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. segundo Suetônio. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1997: 51). e de mulheres aristocráticas. bem como a conquista. Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que. por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares. 211 . Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. casadas. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. o que punha todas as mulheres em condição inferior. um dos mais importantes da política romana. que indicava a não penetração de outro cidadão. solteiras ou viúvas. Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . IV. IV. vendedores de alho e de aves. 368. IV. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. Muliones. Agricolae. 3485. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. 4100. CIL. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam. 336. 2966. 7749. 951. 490. 202. ourives. IV. 485. 241. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. IV. IV. CIL. 2005: 184). 295 Pomari . 4227. 3130. Inserida e construída nesse âmbito do labor. ajudantes de cozinha. 373. IV. 4472/3 (Oficina dos Atti). CIL.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. 183. CIL. CIL. cocheiros. dentre aqueles que partilhavam desse universo. de vitória. lenhadores. IV. aproximando a vida de populares à condição de infamia. tecelões. 429. CIL. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. 998. Entretanto. a funções autônomas de professor. CIL. o mundo do trabalho. 609. 7669/71/74 (joalheiro). CIL. perfumistas. 113. alfaiate. vendedor de roupas e jóias294. 5380. 710. IV. cotidianamente. IV. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. 4888. 3478. 206. CIL. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. IV. CIL. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. 97. Lignari. 293 294 212 . IV. Pistori. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. 180. CIL. conotações diferentes às aristocráticas. 480. Aliarii. comentado a seguir. na parede de uma casa: Cf. Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). 4102/03/07/09/12/18/20. Culinari. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. 373. IV. Aurificis. oficinas e padarias293. Caupones. Efusivas declarações podem ser encontradas. CIL. como esta deixada a Taine. 134. 275 (professor). CIL. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. Unguentari. 3529. padeiros. 960. Galinarii. em suas escritas. IV. CIL.

As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas. uma saudação cordial. pedem o amor da mulher estimada. Rogo. Peço. por meio do relacionamento amoroso. doce amor. 8364) Secundo a sua querida Prima. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). ou que foram um dia neles conquistados. 4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. IV. I 9. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. 213 . 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf. Amo tanto a Taine. minha dulcíssima amada. ut me ames (CIL. 1. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. indicado no próprio CIL.NEA/UERJ Dulcis amor. IV.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 8137) Oxalá pereça. Desta maneira expressou-se Secundo. feitas por homens que. registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. domina. IV. Am. em uma linguagem simples e direta. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. Já na inscrição CIL. IV. senhora. em obras da historiografia.

no desejo. A frase de Fortunato. o heterogêneo. Val(e) (CIL. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. além de indicar a satisfação de um conquistador. 230) Fortunato fodeu. uidi. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. Inscrição encontrada na Casa do 214 . Assim. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. 297 César: ueni.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o local e o específico. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito. na Via Consolare. Suetônio. Saudações. uini. a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. 37. IV. Aqui vim. vi e venci Antusa297. Mas. Cirurgião. na tarefa de focar a diversidade. interagiam em ambientes de trabalho. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. IV. ou idealizados por eles e para eles. hinc vine veni vide Anthusa (CIL.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo. Calpurnia te diz. cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t. de lazer e por meio das paredes da cidade. A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites.

]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos.. segundo Scott. mas também por meio das sensibilidades. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. formulam múltiplos vínculos. conceitos. Assim. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183).NEA/UERJ cotidiano. das sociabilidades. mas de estudá-las em conjunto. atitudes e embates em suas relações sociais. nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais. masculinos e femininos. Como considera Mattoso. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖. das tensões. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos. Desta maneira. [. ou seja. é preciso reescrever a História (MATTOSO. do imaginário e do discurso. o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais. ambigüidades e obstáculos. econômicas. a partir de seus valores. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas. visões e espaços sociais. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. comportamentos. Portanto. nem só pelos movimentos demográficos. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. culturais e políticas.. mas relacional e analítica. a questão de gênero.

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hermana de Apolo.ª Dr. 300 Esta introducción.ª Dr. tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico. no campo da Filosofia Antiga.. Prometeo.299 A. no sólo desde una perspectiva política. P. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven. Es la cazadora. La muerte en los ojos. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad. consagrada a la virginidad eterna.MULHERES NA ANTIGUIDADE . MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof. acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político. J. la que recorre los bosques.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja. 2009. Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo. sino desde una dimensión antropológica.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto. Buenos Aires. 299 Vernant. de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 . portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses. la Salvaje.200. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología. donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural.NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata. la Parthenos pura. intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad. histórica o económica. distancia que debe medirse Prof.

y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. La problemática transita. La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. lo semejante y lo desemejante. L. Antropología de la Grecia Antigua 220 . inédito. de considerarlo. el modo de aproximarse o de alejarse. raro. incluso por el propio temor. por una dimensión ontotopológica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. A partir de esta tensión que borda la trama cultural. aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. la continuidad y la discontinuidad. fundamentalmente. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. poco común. Es esta distancia lo que determina los dos planos. Pensar y 301 Gernet. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad. La metáfora impacta. en primer lugar. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. sin duda. en el modo de concebir al otro. que se juegan.

en el margen donde claudican las propias certezas. En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. extraño por extranjero y extranjero por extraño.MULHERES NA ANTIGUIDADE . familiar y conocida. alejándose del imaginario que ella misma genera. para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. horadando las certezas que lo Mismo otorga. identidad. lo moral y lo inmoral. y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. 221 . que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. tópico que hemos puesto en juego. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo.NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. en su doble acepción de lugar y condición. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad. Lo normal y lo anormal. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. en el límite. puntualmente en el topos de Artemisa. A la luz del marco teórico precedente. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad. una diosa ―aparentemente‖ marginal. homogeneidad. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. al tiempo que niega esa extrañeza radical. regido por las pautas de la semejanza. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. desde su lógica áltera. conservación. su paradojal fascinación y su inusual presencia. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. lo legal y lo ilegal. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad.

maternal y delicadamente solícita. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. enlazada con la lógica del parto. alejada de todo contacto. es ella quien preside la ritualidad femenina. Presencia paradojal que. Tal como sostiene Otto. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. tal como la describe Otto. sin ser ella misma madre.NEA/UERJ B. tensionando la díada cercano-lejano. 67. Los dioses de Grecia. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. no es la gran madre universal. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino. W. y. p. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. al igual que su hermano. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302. sólo pobladas por animales salvajes. 222 . Los dioses de Grecia. solitarias. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. W. Artemisa: las huellas de la distancia. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías. La misma distancia habla de su condición virginal. Diosa vinculada a la naturaleza. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él. Diosa virgen. p. no obstante. que sí se 302 303 Otto. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. Alejada de la función materna en su calidad de virgen. se relaciona con los hiperbóreos. Otto. 50. Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. cumple una función íntima. desde la distancia. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función.

Términos no sólo constituyentes. no obstante. una diosa civilizadora por excelencia. Artemisa es una divinidad que. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. Alejada del matrimonio. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes. delinea el topos de lo Mismo. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. es. Dicha configuración se articula. lo civilizado y lo salvaje. asimismo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sino instituyentes del topos identitario. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. como términos constituyentes de la configuración identitaria. tal como hemos intentado referir.NEA/UERJ entregan al amor. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. de la dominancia de una sobre otra. Del mismo modo. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. en su identidad civilizadora. de los lugares poblados. C. como de la sociedad en su conjunto. y. tanto del individuo. se juega en los márgenes de la lejanía.. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. Artemisa. en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 . en el marco de la lógica identitaria que se impone. Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios. en última instancia.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre un topos firme. El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado. donde el agua. como los pantanos o las ciénagas. lo humano y lo salvaje. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. la geografía humanizada de la no humanizada. el espacio otro es el espacio no cultivado. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. dejando un topos anegado. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. que instituye la custodia de los territorios. sino un conjunto de lugares liminales. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. o bien permanece. se ha retirado. Así. o bien. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos. asiento de la ciudad y otro acuoso. El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica. a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. lógica 224 . de confín. deviniente y móvil. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. la tierra cultivada de la no cultivada. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. lo culto y lo bárbaro. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada. pero también de distinta densidad antropológica. de distinta densidad topológica. marcados por la noción de límite. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras. de margen que delimita espacios heterogéneos. Artemisa civilizadora.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios.

rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica. allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. Lejos de ser un territorio improvisado. celebrar. arreglar. los mismos y los otros. La ciudad es un espacio reglado. Artemisa ordena el espacio. Ordenar. D. gobernar. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. desde cierto lugar marginal. convirtiendo a la ciudad en un espacio común. guardiana del orden.MULHERES NA ANTIGUIDADE . El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. que exige orden para su constitución y organización. preparar. la ciudad es un kosmos. prepara el pasaje al meson. la batalla. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. La ciudad tiene sus exigencias. el parto. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico. el matrimonio. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. Se trata de una acción cosmificante. que responde a la anarquía del azar. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. configurando sus límites. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige. disponer. en un topos donde se coloca lo que es de todos. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. 304 225 . gobierna y manda sobre todos los espacios. arregla las condiciones del tránsito. implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra.

rasgos que suponen. reconocer al Apolo de los caminos. entonces allí están los hermanos. Apolo con el cuchillo en la mano. Interviene allí. desde sus territorialidades singulares. en tanto involucrada directa en el orden de la misma. el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. por su propia precariedad antropológica. la guardiana del orden. es. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. a su vez. entre lo mismo y lo otro. Apolo con su función legislativa. Artemisa política. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. como su hermano. 305 226 . velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad. En cierto sentido. en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. hijos ambos de Zeus y Leto. en su dimensión de nomothetes. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. no saben delimitar fronteras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . constructor de ciudades. Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. Si los hombres. desde sus peculiaridades identitarias. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica. la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. En el marco de la expansión colonial griega. entre lo humano y lo bestial. también vela por el triunfo de la sophrosyne. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema. ya que su acción es productora de efectos. Esto abre una dimensión política de la diosa. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. puede consultarse el libro de Marcel Detienne.

El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. J. de la niñez a la adultez. La muerte en los ojos. para medir la conducta del varón prudente. de convertirse él mismo en presa.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone. conductora del parto y por ende. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. Aretemisa es la gran conductora. Artemisa conductora. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. de la vida misma. el momento oportuno. entre lo humano y lo no humano. p. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos. Artemisa preside la caza‖306. la oportunidad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . produce el pasaje de un estado a otro. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos. para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. 227 . la coyuntura favorable. lleva de una orilla a otra. Como otras tantas actividades que la vida social propone. dirige la transición de una categoría a otra.1. 24. Es una justa entre hombre y bestia. observa que se cumplan sus regulaciones. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación. Es el espacio de consolidación de la virilidad. educa a las niñas en vista de su formación de esposas. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada. la batalla. sino también la guerra.P. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón. por ejemplo. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. es el kairos. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento. D.

más precisamente. a la adolescencia.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas. La muerte en los ojos. Artemisa legisladora. Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. como digna hermana de Apolo. lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos. 2. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral. por así decirlo. lo bestial y lo humano. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. la función de la diosa es imprescindible. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. 228 . D. porque la caza permite atravesarlas. Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro. Artemisa conoce las reglas del tránsito. Artemisa no es el salvajismo. 24.P. Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede.MULHERES NA ANTIGUIDADE . El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque. p. momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad. culturalmente valorada y socialmente observada. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. aunando en su función la dupla saber-poder. lo incivilizado y lo civilizado. Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. J.

la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. como ciudadela a proteger y el orden del oikos. Del niño al joven. categorías. pura. La función tampoco conoce de sexos. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. como arte de administración del oikos. sociopolítica. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. Una vez más su lugar es el topos de la frontera. como la diosa. virgen. casi animal. funcional al dispositivo político. como estructura isomorfa308. una vez más. Su función se vuelve. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería. los jóvenes. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior.NEA/UERJ sueña. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. y el mundo adulto. frontera entre dos topoi. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa. Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil. antes de dar ese paso. estatutos. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano. de la niña a la parthenos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 308 229 . La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. espacialidades y roles atribuidos. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. La función de la diosa es altamente calificada. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea.

Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. incierta y equívoca.NEA/UERJ liminar.P. Facilita la entrada al mundo de la mismidad. para hacerse osas. la consolidación de lo Mismo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . las bestias de los hombres. distingue. asume el campo lexical del verbo krino. D. abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos. Artemisa instituye. En efecto. en última instancia. instalándolas en la comunidad civilizada. plasmada en la organización de la ciudad. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. lo animal y lo humano. Para ello. J. todavía no están cristalizadas309. despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. En cambio. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito. 230 . vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. 25. Conductora del tránsito. sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento. Alejadas de sus hogares. La muerte en los ojos. reglada por sus instituciones. obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. distribuidoras de roles y funciones. 3. lo niño y lo adulto. esto es de la condición de niña o cachorra. distingue entre lo femenino y lo masculino. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. Artemisa pedagoga. No sólo al pasaje de estadios y registros. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. los jóvenes de los adultos. al configurar las consolidaciones identitarias. discierne. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. p. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente.

los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. el alumbramiento constituye el momento más animal. más sanguíneo de la institución matrimonial. conductora del parto y del nacimiento. parto. las bestias devuelven su rostro otro. Artemisa. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia. caza. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. Artemisa es una diosa nomádica. Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. desde la primera infancia. La Artemisa Lochia. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. insistente en la guerra. confusa. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. En efecto. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante. acompaña el desplazamiento. la única capaz de parir. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. 231 . Presente en la caza. guerra. hasta la madurez del alumbramiento. matrimonio. preside el parto. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución.NEA/UERJ misma. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. visible en el parto. completando su función de nodriza. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. pasajes. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. articulada con el nacimiento.

el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería. 4. en un primer momento. La muerte en los ojos. aunque. natural.NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. gritos. J. imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. 29. Su contacto con la animalidad. dolores.P. gemidos. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa. al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. bestial. Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. Si Artemisa cumple una función socio-política. p. en el inicio de una vida atravesada por la cultura.parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. El parto es el momento oportuno. marcada en el presente trabajo más de una vez. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. D. no civilizado aún.MULHERES NA ANTIGUIDADE . es ahora la mujer la que. despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. imágenes de ese mundo salvaje. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta. desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia. 232 .

hybris. Magnífico abanico semántico.P. por su posible des-orbitancia. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa. dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. p. mantener. ni territorial. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. una vez más. tener cuidado de. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. en ese ámbito Otro. velando por ella. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros. 30. Mucho ha costado delimitar las fronteras. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. atender. custodiar. J. guardar. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. Guardiana de los órdenes. observar. vigilar. y la impulsan brutalmente al salvajismo311. con el imperativo del verbo fulasso.NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. estar en guardia o con cuidado. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. conservar. El salvajismo constituye un estado otro. Artemisa cumple. precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica. proteger. La muerte en los ojos. Por ello debe velar Artemisa. 233 . estar de guardia o centinela. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ni subjetiva. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra. ni moral. Artemisa guardiana.

el deguello sangriento de la bestia. La muerte en los ojos. la paz y la batalla. que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad. en una situación liminal. Tal como sostiene Vernant. con su esbelta talla. velando por la lucha digna. En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 312 Vernant. J.P. 31. Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. 234 . y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. […]en la intersección de los dos campos. La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. Por lo tanto allí está Artemisa. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. p. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. según su cualificación antropológica. en el momento crítico. de una muerte salvaje. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana. La problemática transita por una cuestión topológica. territorios. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. tanto desde el pasado como en la actualidad. La muerte es también un acto cultural. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. E. La muerte no escapa a las generales de la ley. Conclusiones Sin duda la Antropología. la sphage.

secuestro. La otredad no escapa a la regla. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. de la extrañeza. inconmovible para toda construcción identitaria. como modo de conjurar su peligrosidad. cimiento. 313 Vernant. o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. cierta distribución de los sujetos en el espacio. Los topoi.P. como Grund. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes. se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad. con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. salvadora de la guerra y la batalla. En el corazón de esta preocupación. Visibilizarla. La muerte en los ojos.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. J. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. 235 . Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo. que incluye prácticas de internamiento. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder. supone cierta cartografía. territorializarla y manejarla tecnológicamente. 31.MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. Cazadora. territorios. partera. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia. entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen. exclusión. nodriza. serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. espacios. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme.

La trama cultural. Ariel. 1973. ______.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ______. FOUCAULT.Èconomique. Buenos Aires.-P. Madrid. M. . Taurus. F. C. Madrid. Editorial Eudeba. NILSSON. W. C. Madrid. 2001. GERNET. s/d REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLOMBANI. Prometeo. Textos de Antropología. Buenos Aires. L. Mito y pensamiento en la Grecia antigua. y BELLELI. 2009 DETIENNE. Librairie Garnier Frères. 236 . Maestros de Verdad en la Grecia Arcaica. Madrid. M. Paris. Barcelona. J. Los dioses de Grecia. 1969 OTTO. 1968 GARRETA. 2001. La muerte en los ojos. M.Apolo con el cuchillo en la mano: Una aproximación experimental al politeísmo griego. P.. M. Historia de la religiosidad griega. Taurus.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL XENOPHON (Jenofonte). 2000. Buenos Aires: Editorial Caligraf. 1981. Las Palabras y las Cosas Siglo XXI. México. 1986. Editorial Gredos. Akal. Anabase. VERNANT. 1999. M. Buenos Aires.E. Foucault y lo político. Antropología de la Grecia antigua.

96-99. G. no acampamento aqueu na Trácia. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. 28-35. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. 1. coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala.A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. os princípios que a tradição consagrou. tudo indica que seja anterior a 423 a. Charis e philia. 1. R. vide P. baixam os braços.ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. nomos. Meridor (1978). gratidão e reciprocidade. E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão. condicionar a opinião pública. axioma são avaliados na pureza do seu sentido.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA . desde logo. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. aliciar o apoio das massas. dike. C. perante os Aqueus vencedores que.ª Dr. Em diversos tons e contextos. Com a ruína. e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. 314 237 . impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. 1. vide R. Stanton (1995). ‗Hecuba‘s revenge‘. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes. American Journal of Philology 99. 315 Embora a data da peça não seja precisa. colectiva e pessoal. philia. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316. Schubert (2000). É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. o quadro e os agentes que interagem. com insistência. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. segundo uma perspectiva individual e colectiva. valores como charis. Sobre o assunto da datação da Hécuba. enfim. Mnemosyne 48. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. por exemplo. 11-33. de regresso à pátria. em primeiro plano. tornam-se polémicos. lá se detêm.

se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. ou permeada de afecto. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais. a philia torna-se um processo destrutivo. No meio do mesmo descalabro social. com habilidade oratória. um traço superior de civilização. sem pátria‟. perante a homenagem devida a Aquiles. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. como um processo de alianças políticas. sofre do mesmo mal. decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos. como se os grandes princípios universais. o exemplar completo do retórico contemporâneo. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. o primeiro dos heróis. susceptíveis e frágeis na sua contingência. estrangeira. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. Entendida. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Por fim. a solidariedade. a velha rainha de Tróia. Entrelaçada com charis e philia. 669 -. que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. Hécuba. cativa. prática e salvadora. O que vale a vida de uma jovem. inimiga. com Agamémnon. Mais do que envolvê-la. o 238 . em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. onde Gregos. Troianos e Bárbaros se polemizam.NEA/UERJ sobrepõem. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro). despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). de respeito pela vida e coesão humanas. para mais mulher. símbolo extremo da ruína humana. impõe-se um conflito de culturas. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica. sem marido. um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana.

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. e que se repete. uma outra. The Athenian homicide law in the age of the Orators. op. Cambridge. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘.. D. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. M. para Eurípides. mesmo assim. 416.NEA/UERJ amigo e aliado. 320 246 . G. o seu novo interlocutor. cit. 1. a philia exige um código retributivo. Cambridge. de contrapor. se. Schubert. 1-2.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. a uma primeira Hécuba. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . Entra naquilo que Ch. Nussbaum (1986). M. Transactions of the American Philological Association 14. 87-88. como é a posição defendida por W. na sua aposta. de dois temas distintos. mais ou menos incoerente. Munich. Conacher. cf. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. o chefe supremo dos Aqueus. vingativa. determinada. cit. 321 Não se trata. ‗Violence and the other: Greek. 109. 322 Na verdade. Kirkwood (1980). 30-44. cf. Studien zum antiken Drama. D. Blundell (1989). Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. designa por factores de ‗unidade temática‘. M. MacDowell (1963). com simetria de argumentos. op. no seu desrespeito pela vida Como é sabido. W. Hécuba muda simplesmente de tom. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. Segal (1990). além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. Cf. está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima.. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. igualmente bárbaro. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse. P. Como se. é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem. Transactions of the American Philological Association 120. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância. Helping friends and arming enemies. Steidle (1968). M. o motivo retórico que cruza a peça. passa a dar prioridade à vingança. activa. J. ‗Hecuba and nomos‘. A study in Sophocles and Greek ethics. no código moral grego.

Torna-se. evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. coloca o desrespeito pelos mortos. mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia. Baltimore and London. a súplica. absoluto. usados para com Ulisses. superior a todas as hierarquias humanas. uma argumentação pragmática e amoral. o seu lado mais tenebroso e.‟ Dentro de igual princípio. Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi. The heroic Muse. op. Como afirma D. 83. que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. nomos. incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem. que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. que traz enfim ao de cima.NEA/UERJ humana. e da distinção de uma afinidade particular (793-796). mais uma vez. deixa os Gregos insusceptíveis324. agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima. E numa escala ascendente. na alma da rainha de Tróia.. sob as aparências. de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805). Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . mas que vence. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). com ele. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. é um valor divino. 323 247 . cit. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. 324 Segal. ‗a lei‘. do convívio à sua mesa. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. após a impiedade e o assassínio. 124.

na rhesis de Hécuba. A passagem abrupta. justiça e hospitalidade (852853). como Ulisses. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. é ainda devida à justiça (844-845). todos a um tempo. comprometido. nem da sua hierarquização em sociedade.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ ao seu dispor. cabelos. respeitador dos princípios da piedade. discreta e apagada. Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. 832)325. perante o exército. a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. se vê enleado em compromissos. peado por Segal. Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860). o reconhecimento face a uma amante. contra Polimestor. op.philia e charis. do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social. Hécuba remata num apelo. E só depois do fulgor desta Persuasão. na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita. cit. mãos. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. Philia é. por interesses pequenos e condenáveis. teria todo o prazer em agradar a Hécuba. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça. aos teus joelhos. vou usá-lo‘. com todo o tipo de argumentos‘. os abraços de amor (828829). mostra como são relativos no seu mérito. se não parecesse. encarnada num gesto falante de súplica. charis. como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços. 123. neste caso. Na sua nova abordagem da causa que defende... o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. por artes de Dédalo ou de um deus. por entre lágrimas e apelos. mas também ele. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio. como podem ser distorcidos e amesquinhados. Mas pouco importa. pés. O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio. uma última palavra. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. as noites partilhadas. sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). mantém-se fiel aos valores em discussão. 325 248 . o apelo a Cípris. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. para se prenderem. mas ao retomá-los. quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita. como a desejável punição para quem prevarica.

os senhores de Tróia (1228-1232). a philia. parece. Polimestor não pode. por qualquer habilidade retórica. tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235). uma evidência. como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. A philia invocada por Polimestor. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. e um gesto de protecção para com o seu povo. O bom senso e uma louvável prudência (1137). com Agamémnon por juiz (1129-1131). a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . Despida de uma capa de dignidade. invocado como justificação para um assassinato. em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada. cada argumento do adversário (1187-1196). chama-se ‗ouro‘. assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Hécuba desmonta. em momento de crise. despojada de argumentos. É simples a intervenção de Hécuba. Resta um último agon. que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político. De resto. entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito. negar o homicídio de que é acusado. 1175-1177). no limite. como ponto de partida para o argumento da legitimidade. no meio de uma controvérsia de valores. quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. pura falácia (1197-1201). Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. que é. a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados. com cuidadosa simetria. a verdade crua. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136).NEA/UERJ interesses em conflito. entre Hécuba e Polimestor. suprimindo-lhes de vez o inimigo. à luz da evidência. só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime.

porque à ventura. ______. ‗Hecuba‘s revenge‘. compete representar um nomos tradicional. MERIDOR. 1966. D. CONACHER. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. A. Helping friends and arming enemies. incapaz de persistir nos valores solidários. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. além de confrontarem comportamentos e princípios. enquanto dura. SCHUBERT. 96-99. Ensaios sobre Eurípides. que. Transactions of the American Philological Association 14. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. 1989. Cambridge. G. 1987. M. female and barbarian. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira. 1978. KIRKWOOD. BLUNDELL. 1980. opõem também Bárbaros contra Gregos. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. ‗Euripides‘ Hecuba‘. Baltimore and London. 250 . D. 120. W. 1986. P. não faltam os amigos‘. In Euripides ‗Hecuba‘. A study in Sophocles and Greek ethics. H. 28-35. R. 1995. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. 1. 1. 109-131. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘. The heroic Muse. Transactions of the American Philological Association 1990. Classical Quarterly 16. American Journal of Philology 82. M. SEGAL. 30-44. Lisboa. Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. SILVA. 1. 1961. ‗Violence and the other: Greek. M. R. Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. American Journal of Philology 99. ‗Hecuba and nomos‘. NUSSBAUM. W. F. M. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. G. 11-33. 1-26. J. Mnemosyne 48. KOVACS. C. quando encarnados pelos Troianos. Cambridge. é óbvio que aos primeiros. 2005.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 193-219. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. STANTON. 'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. 2000. Eranos 81 (1983) 13-20.

ª Dr. Mas. a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como no mundo contemporâneo. Ela era a base da própria identidade coletiva. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. ganhou uma grande importância. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade. a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta. evitando assim. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. Era necessário que se apontasse. Além disso. formando a Umma. ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖. muitas vezes. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. a questão sexual. Na campanha difamatória. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga. A demonização do ―outro‖ é. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. distorcendo a realidade sobre a família árabe. Maomé era retratado como um lúbrico ancião. impedindo. o perigo da contaminação doutrinária. sem dúvida. muitas vezes. Desta maneira.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. Após a sua morte. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos. que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. Nesta estratégia. uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖. mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito. 326 251 .

Embora. sendo considerados meras propriedades. helenística e. Sabemos que o Profeta. Maomé para evitar isto. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. A partir da época dos abássidas. devido pelo homem à mulher. redigidos numa linguagem pública e oratória. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. além de permitir a poligamia. judaica. herança mesopotâmica. até mesmo caucasiana. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. tentou melhorar a situação da mulher. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. o que de certa maneira. embora. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. na prática. Tal fato não deve causar admiração. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo. ao contrário do que se pensa. não gozavam de nenhum direito. isto nem sempre tenha ocorrido. O costume tribal. cujos autores eram soberanos e vizires. podia comerciar e dispor de seus bens. Os homens podiam casar-se 252 . Assim. a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. se um número expressivo de meninas nascesse. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. persa. pela própria natureza das fontes. A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O Profeta quis proteger a mulher. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. Para muitos. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. pois isto significava uma perda financeira. A pesquisa em outras fontes. daremos o devido mérito ao Profeta.NEA/UERJ ocorre. quando da consumação do casamento seria entregue a esta. egípcia.

e. na qual Maomé havia nascido. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos. aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação. assim se chamava ela. Mas. 253 . para que o aconselhasse. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. pois se para os olhos da cultura ocidental. Pelo menos. tratando-as com crueldade também deve ser repensada. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. dividindo com estes a mensagem recebida.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. principalmente. Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. graças aos lucros auferidos na atividade comercial. podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade. já havia enviuvado duas vezes. Khadija. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. Mas. a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. embora. é o que podemos depreender . era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo. A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. á dos coraixitas. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. Mas. como já acima já mencionamos. embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. que lhe propôs o casamento. Foi deste modo.

Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. discordando assim da postura de seus maridos. isto. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e.. quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. entre os que apoiavam o Profeta. Contudo. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico. mas ninguém. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva. O que aponta para isto é o fato de que. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio. Assim. como Taif. Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. tendo o casal tido seis filhos.NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. Assim. se para nós. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca. mas no caso de Khadija. o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas. 254 . Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. mas também em cidades . Mas. as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. onde existia um importante templo da deusa al-Lat. até então havia lhe conferido o status de Deus único.

o tio de Maomé. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais. após este haver se recusado. muitas vezes utilizado para promover alianças. Mas.nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. de uma vez por todas. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. Assim. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente. imagem esta que. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o que não causaria nenhuma estranheza no meio social. ou até mesmo pervertidos. mas tentando aproximar-se dele. -. chefe dos Amir. Contudo. dirimindo conflitos. Mas. constituindo-se a monogamia numa exceção. Após a morte de Khadija. uma vez que a poligamia era uma prática comum. uma criança de seis anos de idade. a qual não contou com a presença da noiva. Abu Bakr. A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. de forma nenhuma corresponde à realidade. reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa . Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. embora para alguns estes possam parecer estranhos. prima e cunhada de Suhayl. 255 . ao longo do tempo o criticassem e. a sua filha Aisha. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele.

os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas. Além disso. segundo relatos era culta como seu pai.NEA/UERJ Como já afirmamos. No dia combinado. uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos. tornava-se fortemente reprovável. Desta maneira. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. Hafsah. protegia melhor seus membros. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. uma vez que. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. deveriam contentar-se com uma indenização. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração. Por isso. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças.Umar. levara a formação de uma conspiração para matá-lo. já se dispunham à ação. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. Sua vida em Meca corria um grande perigo. um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. As batalhas e. Para isso. sabendo ler e escrever. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. Mas. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. Todos juntos participariam do assassinato. Assim. como foi o caso da jovem de dezoito anos.e. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca. o que lhe garantiria uma maior proteção. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. conseguiu fugir sem ser notado.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

ou seja. A explicação é de ordem econômica. ao qual só os poderosos poderiam arcar. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia. a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas. a cada homem só era permitido ter quatro esposas. uma vez que. Mas. O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. Nas zonas urbanas. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho. sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. e assim mesmo. contudo restringindo-a. os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. o quadro era bem outro. Deste modo. a proteção daquelas. de nenhum modo. isto sim. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal. Tais determinações. mas visava. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa. 257 . de proporcionar prazer sexual a estes. O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. o que significava um enorme gasto. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. Não se tratava. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. Ao longo do tempo. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens. o que significou para o noivo uma nova aliança política. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos.

por outro lado. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. Contudo. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . loucura. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. Além disso.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. que variou ao longo do tempo. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos. uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade. após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. somente uma ausência de recusa. fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. ou mesmo. como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. irmão ou na falta destes um membro da família. Mas. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens. este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. quando analisamos a questão do divórcio. tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas. uma vez que. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos. contudo. Na questão da repartição da herança.

Mas. O Islã admite o casamento entre primos. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. a não ser que este se convertesse. O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. contrariamente. mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo. até mesmo de primeiro grau. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava. apelava-se também para a endogamia. embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. sem exigir a conversão. emancipasse a mãe. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. Podia apenas tê-la como concubina. Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. Para conjurar este mal. A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. 259 .NEA/UERJ masculinos. Mas. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. Assim. embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação.

adquirindo certos direitos. que amenizavam sua condição servil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O adultério. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima. repreensíveis. o que explica a clausura em que vivia. As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e. 260 . de quem o marido exigia seriedade. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. a permissão do concubinato e a própria existência do harém. A existência da poligamia. uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. por isso mesmo. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. ela é enorme. que deveria ser realizado numa festa. o número de concubinas era ilimitado. Além disso. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente. leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. Diferentemente do casamento. quando praticado entre duas pessoas casadas. o que não é de admirar. Sendo assim. Mas.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. quando descoberto. a primeira. aumentando o seu preço no mercado. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal. o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge. Mas. tornando-se um-al-walad. limitado a quatro. sendo quase desconhecido no mundo rural. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. À princípio a concubina não deveria procriar. O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. quando ela engravidava e dava a luz mudava de status.

O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. apesar dos esforços de Maomé.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. No mundo muçulmano. que. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. a pergunta se impõe. a prostituição. nunca pela prostituição. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. Embora. estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes. Assim. jamais foi erradicada. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática. para a visão ocidental. contudo. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. 261 . uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. não parece ter sido alvo de discriminação e ódio. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato.NEA/UERJ Embora. Na cidade de Caiurão. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica. principalmente as celebrações de casamento. não há nada de mais falso. Mas. Mas. Mas. onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita.

o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. ser mãe de meninos . o que nem sempre ocorria. pois tal como os homens. A maternidade conferia uma importância e segurança. ela. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher.‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais. Além disso. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana. que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. mais do que de meninas. criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. além do seu marido. Apesar. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân. praticamente só visse homens. descendentes e irmãos. A mulher vivia encerrada em sua casa. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana. as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. onde se pode.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―mãe de fulano. Na verdade. quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. localizadas em Meca e Madina. Mas. a vida religiosa não lhe era vedada. 262 . Tal situação. fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. equivalente as termas romanas. o que fazia com que durante sua vida. No caso.

Mas.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres. pois. Rio de Janeiro: Ed. Violência e Religião: Cristianismo. São Paulo: Loyola. gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. Ao finalizarmos este modesto trabalho. PUC-Rio. seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada.198. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. sem medo de errar.). infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327.4. ela é praticamente inexistente. proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. para as mulheres ―trabalhadoras‖. Então. p. 263 . 2001. Maria Clara Luccheti (org. o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. como as que habitavam a zona rural. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo. por exemplo. ficando atrás dos homens. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito. 24. Primeiramente. a formulação de uma outra pergunta se impõe. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. Contudo. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

direcionadas para regiões específicas. que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas. As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se. 264 . isto é. não poderia. tradição esta oriunda do judaísmo. Finalmente. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso.NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio. na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem. livres de anacronismos e preconceito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a misoginia é patente. a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. Embora. contudo. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. Nas duas primeiras religiões citadas. Deste modo. isto é. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica. gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que.

Rio de Janeiro : PUC-Rio. 1996 BOUHDIBA. Tâmara. S. S. Abdelwahab. André. Thierry. 2006 KAREN. São Paulo: Globo.2010 BINGEMER. São Paulo : Loyola . Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco.Paulo: Cia das Letras. Lisboa: Terramar. Violência e Religião. Albert. Maomé uma biografia do Profeta. Uma breve história do Islã. In: História da Família.Islã.Porto Alegre : RS: L &PM.NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA.Tradução William Lagos. A família no Islã. Tradução Andréia Guerrini. Rio de Janeiro : José Olympio. BURGUIERE .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Paul. Uma história dos povos árabes. 2002 SONN. Tradução Marcos Santarrita. A sexualidade no Islã. 2001 BLANQUIS. Maria Clara Lucchetti(org). 2001 265 . 2006 HOURANI. Armstrong. Paulo: Cia das Letras.

a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL. 2006: 54). foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History . 328 266 . ou seja. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET. tanto do século XIX quanto do século XX. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS. o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. O debate em torno da opressão sobre a mulher. Segundo Rachel Soihet. mas intensas.a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo. destinadas a eterna subordinação a figura masculina.1995:09). Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA.1998: 99). A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude. Judith M. ao longo da história. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. O movimento social feminista. Na década de 90.NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas.

O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado. assumindo um caráter descritivo.NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL. O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal. 1995: 11). tanto no passado quanto no presente. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder. Por outro lado. sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 . usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. 1988: 141). Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. 1995: 10). A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. desde os anos 60. O termo têm sido. se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia. não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero. buscando as origens da dominação masculina. entretanto buscar a motivação dos fenômenos. 1997: 279). desde a década de 70. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher." (SCOTT. porém. que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. sem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres.

Gero com Engendering Archaeology. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher. por vezes se contradizem.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. parecem paralelas e/ou se tornam complementares. As duas vertentes. Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual. torna-se inseparável. O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e. A proposta norte-americana representada por Margaret W. 2003: 27). a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET. No continente americano caracterizou-se por duas vertentes. não antecede a organização social.NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. como tal. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho. no gênero feminino. 1988: 146). Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. ou seja. Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo. Conkey e Joan M. A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI.women and Prehistory (Oxford. mas. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 . ou seja. As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. por outras. 1998: 10).

as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. Segundo Conkey. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista. A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. especifico da vertente anglo-americana. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . modelo histórico e cultural. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY. a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada. Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. 1997: 415). Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo Conkey. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa. Enquanto que o masculino está relacionado a caça. Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação.NEA/UERJ trazer para debate a interação social. a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. a mulher na história. a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um. Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. agricultura e cuidados com a família.

Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia. O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. A pesquisadora C. ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. 2006: 54). O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. 1991: 07). O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX. Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. No século XIX. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado. 1997: 423).NEA/UERJ anglo-saxão. dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT. 1997: 414).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. como os de Marie Huot (1892). As pesquisadoras perceberam que. em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil. Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911). Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993).

existem muitos caminhos para abordagem do tema. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. implicações políticas. mas não de forma isolada. Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos. Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. ou seja. sepulturas e representação imagética.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para Sarah W. 2003: 19) . Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. a pesquisadora Elizabeth M. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. através de suas escolhas e abordagens. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. 2003: 01). A ação da mulher tem sido visível na arqueologia. Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero. tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI. dependendo do 271 . dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. classe. estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON. sociais e econômicas. identidade e etnicidade. em particular tempo e lugar. A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes. pois existem diferentes papeis sociais. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. 2007: vii). Seguindo a proposta de abordagem interacionista. a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage.NEA/UERJ diferenciação. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros.

Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento. primordial para os estudos da arqueologia de gênero. particularmente. de negociação. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia. Em arqueologia. do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas. Entretanto. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. epigrafia e imagens parietais através da comparação. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. 2007: 10). status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. afrescos e cerâmica. Segundo Elizabeth M. citamos as mulheres representadas. de formas diferentes. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade.NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. Como por exemplo.

NEA/UERJ normas. espera-se apreender as relações de tensão. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia. 2007: 12). A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 . A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. confronto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada.M. Para E.. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia. A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado.Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. identificando o espaço de produção. A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero. A partir dessa perspectiva. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social. O estudo de caso torna-se muitas vezes.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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pelo que foi dito mais acima. nos seus pormenores. 281 . faz citações diretas. posicionamo-nos no sentido de acreditar. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. portanto.NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. colocando-se. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências. que Baudonívia conviveu com Radegunda. com detalhes precisos. não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa. Por fim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese. compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. inclusive dando os nomes dos beneficiados. os milagres realizados pela santa. deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. Contudo. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. confidenciara. apesar de todos estes dados a favor. posição de Dom Laporte. As referências que a escritora faz são muito precisas. excelente mesmo. além de usar o texto de Venâncio Fortunato. e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. Mas. já que não estariam destituídos de sentido. devido à idade avançada das suas testemunhas. ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours. seguida por Franca Consolino. respectivamente. Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós). nos sinaliza em direção à terceira opção. Conhece. A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia). só para as mais íntimas. datas e fatos. Em algumas passagens.

(SILVA: 2011. podemos citar a famosa Questão Franciscana. 335 Se. fazendo dela um modelo da mulher forte. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. 37-38). à primeira vista. comparando-o com o de autores masculinos. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. 183-185. CHARRONE: 2007. Assim. viril. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto). na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina. no caso da santa é levado ao extremo. ela é a santa que se isola do mundo. mas. o próprio milagre realizado. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto. o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. Como exemplo desta prática. que por sua tenacidade. E. uma imagem unificada do santo. na humildade do seu proceder junto às companheiras. que objetiva apresentar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em reconhecimento pelas suas virtudes335. o herói nas línguas neolatinas. imersa em seus jejuns e mortificações. aqui. poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. o termo passará a designar ―virtude‖. sob a pena de Fortunato. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. por outro. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis.NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. no latim cristão. mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. 334 282 . abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. que. Portanto. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. força de vontade. por extensão. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir.

nota anterior. intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. ―por piedade e caridade‖ (cap. em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. onde não mais vivia. Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. sua morte e seu funeral. que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). já que para Leonardi (1991. já que ela continua a ser rainha. portanto. da narrativa de Venâncio Fortunato. mas com o qual parecia extremamente preocupada. conversartio. Dito em outras palavras: a vida no século. Sua postura diante de Radegunda. quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir. tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. ela vai além do proposto no seu Prólogo. escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. na época de Radegunda. diga-se de passagem. mesmo do mosteiro. mesmo dentro dos muros monásticos. a quem não se cansa de chamar de rainha. de forma a construir seu modelo. II). Já quanto a Baudonívia. conversio. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos. o modelo religioso de Poitiers. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. ela lançava. as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖.. assim. Nossa autora apenas menciona. mais inclinada a mostrar que. o processo de adoção da vida 336 V. 283 . miracula.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a vida de penitências e mortificações da santa. difere enormemente tanto nos objetivos. como na apresentação dos temas. Em seu texto. 70). Ela está.NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. com as querelas envolvendo os soberanos francos. o olhar para o mundo externo. sem se deter nos detalhes. Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. alguns dos quais seus enteados.

grupo étnico ao 284 . Uma outra leitura. inspirada. sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo.. aí.] a santa rainha. ídolos e templos pagãos. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século. por onde passava. Neste episódio. e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖. na defesa da religião cristã. ante seus rogos. dedicação e lealdade profunda à realeza. uma certa tensão. o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha. com tenacidade e vigor. o capítulo 2. ou melhor. pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. os povos firmassem a paz entre si. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours. Pelo contrário. perseverando imóvel. dois séculos antes. no texto de Sulpício Severo. escrita por Venâncio Fortunato. dizendo. Baudonívia demonstra respeito. onde ―foi mais celestial que terrena‖ .NEA/UERJ religiosa ou conversão. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. que. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. nesta parte da narrativa. destruía símbolos. por sua vez. enquanto [. bastante interessante. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours. Aliás. 1). Seu casamento com Clotário é descrito como breve. seu comportamento quando no século. Destaca-se. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. bendizeram ao Senhor. em oposição ao Rei celestial. Feito isto. que levava a Cristo em seu coração. qualquer que seja o soberano mencionado. Os Francos reagem. nos levaria a perceber. a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. tentando defender o templo..MULHERES NA ANTIGUIDADE .

pois sofria muito com sua ausência. tomada de empréstimo a Fortunato. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖. na ocasião. ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. uma expressão. pela primeira vez. 16 e 19). cap.. permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. também. 8. Neste lugar. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. e de ―bem-aventurada rainha‖. 4). como já mencionamos mais atrás.MULHERES NA ANTIGUIDADE . passou por cima da doçura de um esposo. Estaríamos já. (. sua corte e signatários pertenciam. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. 3) e é. 13. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. quando ele narra as orações noturnas da santa. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖. que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário. 9. A se destacar. até pelo contraste. o mais áspero. Aqui. também. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente. Baudonívia utiliza. não se esquecendo do título mundano que carregava. rechaçou um amor 285 . aqui. Na seqüência. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. chama a atenção.) impôs-se o tormento do jejum. também. para o qual Radegunda voltava às costas..NEA/UERJ qual o rei Clotário. 5. estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia. 5). assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio. A doação do rei da villa de Saix. à turíngia e católica Radegunda.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando a quis chamar. na aceitação das limitações alheias. onde a ―santa rainha. e para as suas qualidades de bondade. exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap. um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro.. em Poitiers (cap. destaques para a amargura do rei. Na narrativa.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. Diante de tudo isto. recorre ao bispo de Paris. caridade.NEA/UERJ mundano. abandona seus bens. É eleita abadessa. Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. na prática. mas renuncia ao cargo. para Baudonívia. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. das bodas com o rei celeste. Já vivendo no mosteiro. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . que quer recuperá-la. ―o excelso rei‖. Germano. castidade. juntamente com seu filho Sigiberto. Radegunda. para entregar-se ao ―celestial esposo‖. então. compaixão. 5). assim como para seu arrependimento. com ênfase para o tema nupcial. chamada Eodegunda. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. Paradoxalmente. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. para ele extremamente humilhante.. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio. a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos). humildade. de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖. e da situação. caridade. pobreza. A atitude que. enquanto para si. ingressa‖. em vez de seu nome. usava de severidade permanente. Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. passando a viver da prática da humildade. a quem pede perdão. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. 8). desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. 20 (de como. 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). 17 (acerca de seus emissários. na obra de Baudonívia. acompanhada pela comunidade. um ano antes de seu trânsito. curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome). apesar de já estar na vida religiosa. Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). já fosse viúva. o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha. no mosteiro. a fez fugir). anteriormente. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). a filha espiritual de Radegunda. obedecendo a uma ordem sua. é a da abadessa Inês. chamado Leão. além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras.NEA/UERJ pelas outras. Uma ausência importante. recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda). de ―França‖. 15 (de como um ilustre varão. Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. da paz e da guerra entre os reis merovíngios. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. e também aos altos dignatários. 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. quando. escrevendolhes pedindo paz. em uma visão. Aqui. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. após sua abdicação do cargo de abadessa. a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. esta se encontra totalmente superada. pela ocasião. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda. Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. contemplou. abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. os reis são denominados de excelsos. a quem busca pacificar. Neste mesmo capítulo. ou que. aqui. também. durante um ano. Se. remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada.

―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda. também. que fez com que fosse chamada. sempre que estes se colocam como entraves as suas ações. V). as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. que entronizasse. é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. Da mesma forma. a bem-aventurada Radegunda‖. o que assim se fez‖. Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . visões)337. acaba por ordenar ao bispo de Tours. a ―boa governadora‖ que. Comparada a Helena. sobre os elementos naturais. a expulsão dos demônios. com a devida honra. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado. este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. Ela é a ―provedora ótima‖. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. para não deixar suas ovelhas abandonadas. o poder sobre os elementos. domínio sobre a natureza. poder sobre demônios. Na continuação do capítulo. por Baudonívia. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. pelas relíquias e méritos. como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. os jejuns.NEA/UERJ (curas. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que. Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. 338 288 . o fez na Gália. Suas armas são sempre a oração contínua. depois da sua morte. Eufronio. de são Mames e de outros santos).

16). o momento em que escrevia. Gregório (23 e 24). devido à presença do santo lenho. sendo. Os ouvidos surdos se abrem. principalmente a Sigiberto e sua esposa. os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões. La politique territoriale des reines mérovingiennes. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. volta curado pela virtude da santa cruz (cap. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [. e de garantir a sua sobrevivência material. Disponível em: http://cour-de-france. seu trânsito (21 e 22). chegar com fé. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. Assim. e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário). Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra. realizadas. se tornaria um centro de peregrinação para curas.] ali. os demônios são postos em fuga.. reforçando. a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339. Acesso em: 10/07/2011. não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios.NEA/UERJ celestial‖. O que mais? Todo aquele que. na ausência do bispo local. a língua dos mudos retorna a sua função. pois. o mosteiro. a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. Emmanuelle. um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia. senhora. pelo bispo de Tours.fr.MULHERES NA ANTIGUIDADE . igualmente. Há. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais. assim. os olhos dos cegos recobram a luz. entre lágrimas e com profunda dor. Documents. os coxos andam. suas exéquias.. e remete à realização dos milagres para o presente. afligido por qualquer tipo de enfermidade. études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. 339 289 . de sés origines au 19 e siècle. como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos.

p. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. Oeuvres pour les Moniales. In ---.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para sempre. daqui. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers.NEA/UERJ a rainha santa. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap. seja na evangelização dos pagãos. Vida de Santa Radegunda. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. seja na relação com os poderosos do mundo. Vita di Radegonda di Poitiers. Paris: Éditions du CERF. 56. aquilo que o povo cristão espera dele. mas enviamos. de forma permanente. In: PEJENAUTE RUBIO. In: ---. Roma: Città Nuova. 170-273. CÉSAIRE D‘ARLES. a quem não se cansa de pedir pela paz. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. Para finalizar. 1977. as palavras de Baudonívia. Tome I. 290 . 313-360. perdemos no presente século uma senhora. VENANZIO FORTUNATO. A Radegunda de Baudonívia mantém. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. e seu ascetismo acentuado. Oeuvres Monastiques. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. 1988. para o reino de Cristo. Règle des Vierges. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. seja no socorro ao sofrimento humano. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. Oviedo. uma mãe. Francisco. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. La Vida de Santa Radegunda. 2006. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. escrita por Baudonivia. uma consciência política. pp. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖.

Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato. The French Middle Ages. Sagrado/Profano.pdf. Esperienze religiose nel Medioevo. 2005.2. pp. 57. PRIETO. 287-300 _____. F. Sonya.uaemex. In: BERTINI. 2003. Baudonivia. Storia della santità nel cristianesimo occidentale. Sofia. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. 25-45. pp.). SILVA. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. VAUCHEZ.univparis1. _____. 12. Maria Regina (org.). Minerva. 289-340. Historiographie. 1999. In: STEPHENS. 2010. 63-74. Paris: LAMOP/CNRS.pdf. LEONARDI. CHARRONE. 18. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin. Female voices in convents. Les Élites Féminines au Aut. 2010. 2011. 69-94. (ed. XXXI. 171-186. 2005. 174-189. Claudio. A History of Women‟s Writing in France (ed. Laterza. pp. 2003.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. 2000. courts and households. Santidade. Ana Belén Sánchez. pp. 1999. Disponível em: http://redalyc. pp. André. Roma: Viella.). LX. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ. Moyen Age. PEJENAUTE Rubio. pp. La educación de la mujer antes del año 1000.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. F. 20-40. Disponível em: http://lamop. 1987.MULHERES NA ANTIGUIDADE . JOYE. La Mujer Medieval. Acesso em: 03/04/2012. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Oviedo. 291 . In: CANDIDO. Madrid: Alianza. BOESCH GAJANO. La santità. Valladolid. Acesso em: 03/04/2012. Roma: Viella. Archivum. 2007. Anna et al. João Paulo. Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices. Sylvie. pp. Roma-Bari. Enciclopédia Einaudi. 13.fr/IMG/pdf/joye. la biógrafa. KRUEGER. Roberta. In: Mythos/Logos. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Miriam Lourdes I. pp. Cambridge: Cambridge University Press.

e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. sendo conhecidas como guerreiras. Odisseu. e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção.ª Dr. no sentido de viverem dentro do gineceu. que podem ser consideradas domésticas. pois estas não constituíram narrativas privadas. e as menades. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. romperam com o contato masculino. 177). como Helena.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. Antígona ou Medeia. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. Penélope. As amazonas. para se constituir. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. vinculadas à casa. e não individualmente. no Rio Grande do Sul. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. aparecem usualmente em grupo. e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes. Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof. as companheiras do deus Dioniso. que certamente são mais bem estudadas. como em As Bacantes. Conhecemos as mulheres livres muito menos. 340 292 . Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres. Na Grécia dos documentos literários. e se comportam de forma beligerante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . constituindo tíasos. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar. nem sequer seus nomes.

e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. o vinho. em 404. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística. e o das ―tebanas enlouquecidas‖. compartilhada com outros helenistas. no caso d‘―as mulheres‖. que terminaria um ano mais tarde. Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. ao poder. Além de nos criar um problema formal. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. de caráter eminentemente político. as companheiras que seguem o jovem deus. é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. neste caso. claramente presente no coro de Bacas. certamente abre uma discussão quanto às variações. 293 .NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. o outro conjunto. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nitidamente distinto do das mulheres do deus. ou menades. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso. pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖. do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. contra a família e a cidade de Tebas. é presumidamente do final de sua carreira. visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. à loucura e ao milagre. tragédia de Eurípides341. e que são as que respondem no coro. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V. Mas a idéia de Trabulsi (2004).

MULHERES NA ANTIGUIDADE . 342 294 . personagens femininas da narrativa. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. as mineides. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. as com ou sem kýrios. ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. que será motivo de discussão adiante por comparação. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. ser reclusa ao interior do oikos. o representante legal do sexo masculino responsável. contamos com o livro de Trabulsi. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. nas Metamorfoses. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão. Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. Ele foi escolhido. problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. mas elas o acompanham livremente. possibilidade de existência histórica. mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso).NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. roupas sem amarras. a questão de gênero colocada. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. se discute sobre o poder342. que implica desde ser virgem. Além disso. seus significados. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖. o que corrobora sua erudição. Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. até ser silenciosa. e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. citado na epígrafe. portanto. para isso. Certo que. Para este último ponto. basicamente. e articulada à relação do dionisismo com o poder. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. decidem contar histórias. o que já modifica o estatuto na base. submissa e leal.

até mesmo o maior dos homens da cidade. e o espaço sagrado fica vazio.NEA/UERJ As outras questões. pois jamais será uma mulher. Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. de Agave.MULHERES NA ANTIGUIDADE . às novas alternativas que o culto deste deus aporta. em geral. e como elas reagem. mesmo se cultuado em Delfos. aqueles que. o rei. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. acaba como mulher. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. a gestora principal da ação trágica. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. e das tebanas. à espera de novas futuras investigações. a rainha mãe de Penteu. numa inversão visível e risível. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. e. e nem ao de nenhuma outra. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. o rei. Trabalho árduo e gigantesco. selvagem e avesso às práticas normativas. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. problema que ocupa a centralidade da peça. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. A importância da distinção de gênero. habita o santuário no inverno. exigem uma busca às fontes antigas. Dioniso é o deus marginal por excelência. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. aponta que. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. e as bacas o reconhecerão como 295 . e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. Em Bacas. Ou seja. neste caso especialmente acentuada. e a aderência à prática de seus cultos e. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. na cena imediata que antecede sua morte. próprio dos alívios cômicos de Eurípides. preparam a catástrofe que se segue.

aqui mais gravemente por se tratar da própria família. já que matando Penteu.. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto. No menadismo. de Eurípides. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. foi executado um regicídio e. são consideradas inferiores porque. Observemos que os mitos. tecendo e atendendo as necessidades domésticas. um sacrilégio. como em As Bacantes. mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 .) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖.. ignoram os rituais dionisíacos. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. matou seu filho. Ela chama e anuncia (VV. 177). reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador. venturosa caçada (. Agave. pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe. seguidoras de Dioniso. caça e assassinato na montanha. ao mesmo tempo. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade.) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado.. não são mais mulheres comuns. estas bacas. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. uma mãe.6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. as domésticas.1168-1175) ―Bacas da Ásia (. Com a sua perseguição. numa posição servil.entre o seu poder e o do rei atual. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv. Aquela é sua terra de origem. e pensando ter caçado um leão. o que acentua um conflito de poder . ou enquanto.. protegidas. estas.NEA/UERJ seu inimigo. E inclusive para as iniciadas. pois sangue familiar foi derramado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . imortal agressão de Hera à minha mãe‖.

As outras. por fim. As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. Penteu. Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. atacarei chefiando as loucas‖.. conforme Dioniso (v. e que certamente é um processo de afastamento radical. as mulheres do cortejo de Dioniso. enlouqueci de seus lares”.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. poderíamos denominar ―iniciático‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Seu tipo de poder. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. não persegue o lugar instituído do rei (v. portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior. que justifica tais maneiras de agir. quantas cadméias mulheres havia. sendo. grosso modo. não só no comportamento. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. se houver reação negativa. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. Sua alternativa. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖. não que Dioniso o queira.45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações.32 . e toda fêmea semente. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas. nem de mim se lembra nas preces‖. que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas. Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos. manipulando-as segundo a sua vontade. O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso. na sua prática aproximando vida e morte. Pesa sobre sua mãe uma má fama.. sendo extático e inebriante.NEA/UERJ semeado por Cadmo. como também na ética. passaram por um processo que. e ele anuncia no v. Dão valor intenso à vida. são primos.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. mulheres que o seguem desde a Ásia. ―habitam as montanhas aturdidas‖. portanto. bárbaras entre os gregos.36).‖ e. é explícita (v.

quanto. de alguma forma. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. Percebemos que. tanto nos vasos de figuras negras. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades. o corpo envolto em serpentes. diferentes das ―outras‖. “mania”. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. nitidamente construída na tragédia Bacas. o cortejo dionisíaco. Nosso estudo. propriamente o coro no sentido dialogal. os marinheiros de Filoctetes. nosso conhecimento. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos. embora não dessexuadas. As ménades serão. tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. pelo movimento rítmico pulsante. sátiros. no imaginário clássico ático. Fazem a pedra produzir mel.NEA/UERJ de conceber e parir. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. Conhecem e ―dominam‖ a loucura. A dança exprime o corpo feliz. os cidadãos de Agamêmnon. portanto. nos vasos de figuras vermelhas. vivem soltas na zona selvagem. de estilo mais antigo. de peplos soltos. Em Bacas não. Seus corpos dobram. que infelizmente é muito lacunar. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. Até a produção deste texto. seja histórico ou literário. embora de mesma matriz referencial. as mulheres de Corinto de Medeia. “kyrios”. E. Muitas cenas diferentes aparecem. pela violência do revide. mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. se remete à análise desta ambivalência. quase inumana. e sim pela dança. da montanha. Estão livres de homens. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. mas não por convulsões dolorosas da visão profética. como as da apolínea Kassandra. e em grande número. das mulheres domésticas. portanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . existem as que estão sendo arrancadas com 298 . água. segundo o mensageiro da tragédia. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. como menades. desde o início. leite. Dioniso representado tanto em forma humana. vinho. ou como máscara teatral. como em estátua votiva.

NEA/UERJ furor de dentro de suas casas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ovídio348 e em Eliano349.124. 1988. nota 50. p. nota 6 do cap. Antonino Liberalis347. Histórias Variadas III. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas. p. Metamorfoses. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. segundo TRABULSI. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. IV. 344 Ésquilo. XIV. Questões Gregas. 2004. 5. 2004. Metamorfoses. segundo DETIENNE.125. 176). 38. M. narra o episódio de Licurgo. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. 258. X. III. nota 49. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. F. (b) os das Proitidas e das Miníades. já aparece num artigo de 1940. 347 Antonino Liberalis. de Dodds.125. 299 E-300 A. Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. 258. rei dos edônios.J. 348 Ovídio. 175). sua tarefa doméstica de maior alcance. M. 31. Este fenômeno de resistência a Dioniso. 69-81 ed. e do tear. p. segundo DETIENNE. nota 6 do cap. 349 Eliano. v. Ésquilo. 2002. p.1. nota 54. segundo TRABULSI. p. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. Mette. Edônios344. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. 346 Plutarco. segundo DETIENNE. Biblioteca. 274). amplamente tratado por Trabulsi. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. Também Apolodoro. XIV. em uma tragédia perdida. 42. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. 343 299 . 345 Apolodoro. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. posteriormente. 1988. sobre o Menadismo343. (c) o de Penteu. 1988. H. pois ele persegue as amas de Dioniso.33. M. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review.

onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. As bacantes são acorrentadas. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar. os edônios o levam. Dioniso o leva até seu filho. golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro. põe-se a balançar. rei-delirante. desta vez. quer derrubar a vinha.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Por sua vez. Dioniso o faz voltar à razão. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. Licurgo. ataca as amas de Dioniso. que profetiza pela voz de uma mulher. amarrado. desta vez partindo de Apolo. Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura. o telhado é tomado por um delírio báquico.29). e estivesse manchado com o sangue familiar. Levanta o machado de dois gumes. que Dioniso encontra seu primeiro adversário. o Delirante (mainómenos). Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. Como tivesse executado um ato sacrílego. mas.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos. à maneira de Apolo nas alturas de 300 . persegue o jovem deus assustado. corta os sarmentos e o pé da vinha. dispersa as portadoras de tirso. a dançar. até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. Licurgo recebe uma última punição. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas. para o interior das florestas geladas. Mas Licurgo. terra suposta de suas origens nãogregas. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. cercado por seus sacerdotes. o bando de sátiros aprisionado. Turvando sua visão. o rei dos edônios. Assassino de seu próprio filho. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. Licurgo entra em delírio. no monte Pangeu.

elas vagam por toda parte e. como a de Hipólito. elas não aceitam os ritos de Dioniso. Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são. Outra narrativa é a das Proitidas. embora com alto teor dramático. matam seus filhos. Teseu. Proitos então cede. Nesta narrativa. terá purificado a região. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo. também são em número de três. condenado por seu pai. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. morte política.NEA/UERJ Delfos. em As bacantes. Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos. Lisipe. nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. como em Bacas. como as Miníades. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29. e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. Observemos. entre as quais Agave. Proitos. que este número é quase uma constante nesses mitos. em número de três. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra. como Proitos. Ifinoe e Ifianassa. Nem Licurgo e seus descendentes. que é um homem muito jovem). adivinho que conhece o remédio para o mal. Assim como as Miníades. A cidade condenou Licurgo. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto).MULHERES NA ANTIGUIDADE . já que as filhas de Cadmo. mas pela força de cavalos. Acometidas de mania. de passagem.30). atravessada por pathos. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco. a mãe de Penteu. ele organiza corridas de perseguição 301 . num primeiro momento. Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder.

Elas não lhe dão atenção. Leucipe. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus. leopardo. O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno. Mínias. as filhas de Mínias. Apavoradas diante de tais prodígios. que balançam. Temos ainda um terceiro documento narrativo. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. as de Proitos e as 302 . as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso. são mortos. a sorte cai em Leucipo. filhas do rei de Orcômeno. cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. as três. As três Miníades. em Tebas e em Orcômeno. Leucipe. leão. depois de matar seu filho. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. na região da Beócia. E perturba-as com suas metamorfoses: touro. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus. com a ajuda de suas irmãs. Aristipe e Alcitoe. reis. e o primeiro. Arsipe e Alcatoe. sortes em um vaso. Sob a máscara de uma jovem. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. segundo Eliano. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento.NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. ―Sem perda de tempo. segundo Antonino Liberalis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. Finalmente elas deixam a montanha. dilacera a carne de seu próprio filho. colocam.

. estas são iniciadas sem iniciação. fiam a lã ou tecem os fios. em analogia com o morcego.. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência.) Somente as Mineides. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva.NEA/UERJ de Cadmo. O sexo masculino é o primeiro alvo. Elas são levadas à montanha. à montanha. onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖. demonstra que todos devem acorrer. 196) ―. pois aos homens pertence o poder político. Quando Cadmo pergunta (v. ressaltando a ligação das três jovens com a casa. quanto às mulheres recalcitrantes. os outros mal‖. mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. princesas. 69). em sua casa. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te.Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v. Mas que ritos seriam estes. O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. são levadas a deixar a casa e a matar os filhos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . todos estão sendo chamados. sem a consciência do que estão fazendo. O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos. num castigo peculiar. quando as bacas. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. dançará a terra toda. mas não podem permanecer entre as bacas. mas sem anuência. não como verdadeiras menades. no Párodo. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo. 195) ―.Só nós pensamos bem. dominadas por uma força maniática. elas terminam as narrativas impuras. conforme descritas 303 . o velho rei da cidade. Em Eurípides. que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas. avô de Dioniso e de Penteu. são levadas a experimentar o estado báquico. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha.

Agave. enxergar literalmente o ocorrido. pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres. assim como nas outras histórias. Apenas então. e. uma vez na montanha. uma fúria assassina. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. é praticado por sociedades femininas (2002. e. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. depois de esforços por parte do pai. por fim. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. tias do deus. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. 272). filial. A estas ele reserva o exílio. Nem o antigo rei e sua esposa. devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. potente analogia do poder real. Harmonia. carregando sua cabeça até a cidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . podem ficar em solo tebano. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar. parte com um futuro promissor pela frente. configurando a distinção que. embora estivessem todas na mesma região da montanha. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. impuras. que incluem um aumento significativo de força física. a família cadméia está desfeita. e a ordem de Dioniso é implacável. assume proporções significativas. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. e o mata. e sem alternativas de redenção. Cadmo. Este estranho rito. o que não é o caso das filhas. nas últimas décadas. toda coberta de sangue humano. é que se descortina a verdade e ela consegue. As mulheres desta tragédia. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. para a história da cultura. que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. são oficiantes de estranhos prodígios. uma potência transmutadora.NEA/UERJ por Diodoro. descrito nas Bacantes. o que. e neste drama. com requintes de elaboração. A mãe deste.

desagregação pelo abandono destas forças. CARPENTER. mas o sintoma é o mesmo. Wilfred G. Poder e Sociedade. destas potências que são arcaicas e imemoriais.NEA/UERJ gerações. Dioniso a Céu Aberto. 305 . REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON. 1995. DODDS. 1986. ―Maenads‖. Thomas. Os Gregos e o Irracional. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva. Dionisismo. e as figuras femininas também. a discussão mudou de nomes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1983. 2002. TRABULSI. Oxford: Clarendon Press.. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. Belo Horizonte:UFMG.E. São Paulo: Hucitec. Roberto. 1988. in REEDER. Marcel. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. Princeton: Princeton University Press. Cornelia Isle e WATSON. As Bacas.381 a 392. Pandora – Women in Classical Greece. Erwin R. José Antonio Dabdab. Its Developement in Black-Figure Vase Painting. 1995. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art. Mexico:Fondo de Cultura Económica. Erwin. pp. KERENYI. São Paulo: Escuta. CALASSO. Carol. São Paulo: Companhia das Letras. DETIENNE. visíveis no Menadismo. 2004. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. qual seja. Ellen.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1991. Desde então.

Dr. 2003: 111-122. completamente anacrônica. 2006: 73. e mais especificamente. [re]descoberta. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. por exemplo. CUNLIFFE. Pode-se dizer que. COLLIS. 1997: 197. mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. É membro do LHIA (UFRJ). ainda. RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro. Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. especialmente devido à celtomania 351 e. [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. em parte. 2003: 117). da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. de que teriam sido os celtas. CUNLIFFE. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. GUYONVARC‘H & LE ROUX. 1986: 17). ao longo das últimas décadas. afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. Adriene Baron Tacla. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). sobretudo por um público não-acadêmico. ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ. igualmente. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações. Fábio de Souza Lessa. 2008: 42-44. Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais.NEA/UERJ IDENTIDADES. podemos claramente identificar 350 306 . A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas.ªDrª. 1999: 161). sob a orientação da Prof. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ideia. os druidas. A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca.

majoritariamente. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo. 2010). no Brasil (cf. 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal. a respeito das mulheres celtas. como veremos a seguir.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. iguala-se aos homens em diversos aspectos. vem. por fim.NEA/UERJ feministas que. sobretudo. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. para produções como as de Markale (1986). festivais de música. publicações impressas ou digitais. basta direcionar o olhar. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. um aumento significativo de eventos. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência. de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades. sobretudo. que se faz ser obedecida. as mulheres gregas. Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas. Em linhas gerais. força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. na maioria dos casos. a mulher celta que pega em armas. a celtomania pode ser qualificada. (3) o anacronismo. portanto. Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. associações e sociedades. e que. participa de disputas. que intervém em interesses masculinos. são advindas. 1989: 63). Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO.AMIM. A meu ver. 307 . além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. as quais. primeiramente. da documentação escrita na Antiguidade. por exemplo. muitas vezes. seitas e grupos pseudo-religiosos. encontros. 2006a: 165-172. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e. em linhas gerais. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas. isto é. Gostaria. ainda nos dias atuais. acredito que argumentações de tal natureza.

esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. 2002: 109). quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. não é. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações. ainda. Amiano Marcelino. Assim sendo. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis. como a cultura material –. nesses relatos. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN. Estrabão. outro tipo de documentação de natureza distinta. isto é. então. Em vez de buscar. igualmente. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. em especial. como muitos pensam. ao invés de meramente desconsiderar tais relatos. apresentam-nos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . comumente designadas como celtas. algumas dificuldades e desafios singulares.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. Diodoro da Sicília. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. Logo. 308 . entretanto. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. WELLS. políticas. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. em autores como. Tácito. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. como veremos a seguir. Plutarco. Esses textos. dentre outros. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. 2004: 09. unicamente. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. por exemplo.

Trata-se. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. buscando. (XV. a respeito das mulheres celtas. por exemplo. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. em batalha.NEA/UERJ diversas. uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise. 12. 309 . 2003: 139-145). É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. FILHO. perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. Para não alongar muito este texto. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. 2008: 12-3). Em outras palavras. como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA. não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf. Ao confrontar os escritos. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. desejo discernir comparáveis. consideradas como vivendo em estado de barbárie. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. então. um gaulês. nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente. ou o que caracterizaria os celtas como tais. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. Não se trata. que possuímos nos dias atuais. assim. de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo. chama a ajuda de sua esposa.CUNLIFFE.

onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas.‖ (V. 4. colocava os pés em tal ilha. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.‖ (IV. navegavam em certas ocasiões para o continente. 4. eles possuem suas mulheres as quais.‖ (IV. existe uma ilha habitada somente por mulheres. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. 310 . de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros.me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as mulheres. mas elas também a eles se igualam em força física. por sua vez. elas mesmas. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis.)/ Geographia (lat) (V. Nenhum homem. por sua vez.6) Citando Possidônio. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. contudo.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres .

6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas.)/ De Mulierum Virtutibus (lat. no final. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. em segredo. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. (XXII) – Relato sobre Chiomara. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. um dos mais poderosos homens da Galácia. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. inclusive em questões militares. Os dois morrem.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. não tendo conseguido engravidar. esposa de Ortiagon. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas.) (III. O marido.

visando assim a obter riquezas em troca. após a morte de Prasutagus. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido.C. Boudicca.. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mulher que tomou o poder. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. rainha dos icenos. seu marido. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. chefe dos Catuvellauni. A troca de fato se dá. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo. porém Chiomara. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. assim. 35) Relato sobre Boudicca. (III. terem derrotado os gálatas em 189 a. sua própria honra e valor ao seu marido. (XIV.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. após os romanos. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. ela dá a última palavra. toma a 312 . provando.

que tais relatos constituem-se em discursos e. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. Estrabão. . Essas características. o poder de liderança e comando militar – havendo. perigosas. portanto. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. Camma.elas. (I. causando. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. violentas. Deve-se ter em mente. portanto. Cartimandua e Boudica). Plutarco e Tácito). seriam bastante imprevisíveis.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . quase sempre.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. ainda. mencionadas por Tácito). indomáveis. dessa forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. na concepção dos autores. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. igualmente. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. assassinas e vingativas. primeiramente. em comando. fazem parte de discursos particulares. assumindo para si funções vitais políticas. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. contudo. que tais representações construídas em relação às 313 .‖ Pode-se. em geral. .

2003: 12) e. 1996: 32). antes de tudo. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. Ou seja. de certa maneira.) presume algum antecedente oriental. algum conhecimento prévio do Oriente. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. mais enquanto discursos possíveis do que. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres.NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. que é difundido. consequentemente. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. existem nos textos gregos e latinos. Não nos falta..MULHERES NA ANTIGUIDADE . acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. em sua maioria. sociais e culturais. 314 . ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. 1976: 114). como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. propriamente ditas. Isto é. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. tanto através da escrita. os celtas. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. 1996: 18). como pela tradição e educação desses indivíduos. 1996: 33). inclusive. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID.. constituem-se como representações – com implicações políticas. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. Nesse sentindo. se dão. Dessa forma.

que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. 1998: 100) 352 315 . Esta definição. devam ser entendidos. portanto. como construções culturais (WELLS. destacando seus atributos de barbárie. antes de tudo. Assim. (BLUNDELL. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. Esses discursos. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. também necessitam. indivíduos pertencentes a uma sociedade. tanto como indivíduos. a um determinado grupo social. a uma tradição. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. por sua vez. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. consequentemente. 1999). com os valores e ideologias daqueles que escrevem. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. os celtas só podem ser pensados como os Outros. especialmente. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. 2001: 222. necessitavam estar sob o controle masculino352. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. autocontrolados e civilizados. HARTOG. seria sustentada pela imagem do outro. mas. por isso. construir noções próprias de identidade. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. Em outras palavras. a meu ver. ainda. sim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quanto como. 2002: 105).NEA/UERJ ―realidades concretas‖. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. por sua vez.

2003: 79). Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. atualmente. a imagem da mulher bárbara é. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. ainda. na visão dos autores antigos. [. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. de construírem uma noção particular de barbárie. a mais comum na arte imperial romana. de fato. 1998: 95). consequentemente. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. entendido aqui como não-civilizado. 2003: 55-60). A autora demonstra que. A construção de tal alteridade. o mesmo princípio poderia. Segundo Iain Ferris (2003: 54).] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. ser aplicado aos romanos.. ou seja. contudo. de certa maneira. dentro da concepção clássica. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano.. por sua vez. Parece-me que. Conclui-se daí que. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. portanto. não estando. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. O autor analisa. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. limitadas à interioridade do espaço doméstico. por sua vez. na concepção desses autores.MULHERES NA ANTIGUIDADE . correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos.NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353.sejam elas bárbaras ou não. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. Isto. 353 316 .

(XV. por exemplo. 2003: 80). em batalha. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. eles possuem suas mulheres as quais. Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. mas elas também a eles se igualam em força física. 4. 12.‖ (IV.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres .MULHERES NA ANTIGUIDADE . um gaulês. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens.‖ (V.me refiro ao fato de 317 . chama a ajuda de sua esposa. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. por sua vez.NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. (V.

(III. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. inclusive em questões militares.6) Citando Possidônio. contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. colocava os pés em tal ilha.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. Nenhum homem. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha.‖ (IV.NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. existe uma ilha habitada somente por mulheres. por sua vez. navegavam em certas ocasiões para o continente. 4. elas mesmas. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. as mulheres.)/ De Mulierum 318 .

terem derrotado os gálatas em 189 a. não tendo conseguido engravidar. esposa de Ortiagon. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. o centurião negocia a devolução 319 .. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. (XXII) – Relato sobre Chiomara. um dos mais poderosos homens da Galácia. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado.NEA/UERJ Virtutibus (lat. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. Os dois morrem. (XXI) – Relato sobre Stratonice que.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. após os romanos. no final. em segredo. O marido. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso.

(XIV. assim. sua própria honra e valor ao seu marido. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. (III. seu marido. ela dá a última palavra. chefe dos Catuvellauni. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 .NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. visando assim a obter riquezas em troca. rainha dos icenos. após a morte de Prasutagus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 35) Relato sobre Boudicca. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. Boudicca. porém Chiomara. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. provando. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. mulher que tomou o poder. A troca de fato se dá.

quase sempre. indomáveis. toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. 321 . como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. o poder de liderança e comando militar – havendo. seriam bastante imprevisíveis. na concepção dos autores. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. dessa forma. violentas. Camma. Estrabão. (I.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. portanto. perigosas. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. assumindo para si funções vitais políticas.elas. em geral.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas.‖ Pode-se. causando. Plutarco e Tácito). igualmente. assassinas e vingativas. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo. em comando.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Cartimandua e Boudica). destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. mencionadas por Tácito). . . uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis.

) presume algum antecedente oriental. 2003: 12) e. Não nos falta.. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. 1996: 33). portanto. 1976: 114). conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. algum conhecimento prévio do Oriente. inclusive. tanto através da escrita. que tais relatos constituem-se em discursos e. se dão. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. 1996: 32). representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. ainda. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . Deve-se ter em mente. contudo. que é difundido. em sua maioria. constituem-se como representações – com implicações políticas. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nesse sentindo.NEA/UERJ Essas características.. sociais e culturais. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. fazem parte de discursos particulares. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. primeiramente. consequentemente. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. como pela tradição e educação desses indivíduos. 1996: 18). que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. Dessa forma.

Isto é. mais enquanto discursos possíveis do que. existem nos textos gregos e latinos. a meu ver. a um determinado grupo social. os celtas só podem ser pensados como os Outros. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. Em outras palavras. Esta definição. tanto como indivíduos. também necessitam. por sua vez. necessitavam estar sob o controle masculino354. antes de tudo. destacando seus atributos de barbárie. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. devam ser entendidos. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. 1999). antes de tudo. Ou seja. por sua vez.NEA/UERJ das mulheres celtas. ainda. portanto. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. 2001: 222. indivíduos pertencentes a uma sociedade. a uma tradição. 2002: 105). como construções culturais (WELLS. sim. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. HARTOG. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. autocontrolados e civilizados. seria sustentada pela imagem do outro. por isso. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. mas. Embora tal Ressalta-se. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. especialmente. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. quanto como. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. ―realidades concretas‖. Esses discursos. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. construir noções próprias de identidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . propriamente ditas. Assim. os celtas. de certa maneira.

articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. portanto. ainda. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. A construção de tal alteridade. o mesmo princípio poderia. 2003: 55-60). não estando. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355.sejam elas bárbaras ou não. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. entendido aqui como não-civilizado. limitadas à interioridade do espaço doméstico. a mais comum na arte imperial romana. 324 . ou seja. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. por sua vez. 1998: 95). as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. ser aplicado aos romanos. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. 1998: 100) 355 O autor analisa. consequentemente. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. A autora demonstra que. na concepção desses autores. atualmente. de certa maneira. Parece-me que. de construírem uma noção particular de barbárie. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. Segundo Iain Ferris (2003: 54). de fato. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. dentro da concepção clássica. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. (BLUNDELL. contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na visão dos autores antigos. tratam de homens não eram e. a imagem da mulher bárbara é. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que.NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. consequentemente.

demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. Por outro lado.]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD. 2003: 79).. sempre situados à margem do universo. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher. no caso. portanto. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão. Em outras palavras. 2003: 80). Conclui-se daí que: [. bárbaros. o mesmo acontece em relação às mulheres celtas. como restritos ao universo masculino. por sua vez. por excelência. 1985: 139-150). influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos. Suzanne Saïd (1985). na concepção dos autores helenos e latinos. tal como aos costumes e ritos de comensalismo. vê-se. também. o que. Isto é.. é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. então. o mesmo mecanismo. de fato. Defendo. situando. Elaborei. Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim. ou lógica argumentativa. que. por sua vez. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 . acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. visando a facilitar a compreensão de minha argumentação. Isto.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS.

V. Estrabão Sim . não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. BH. assumiriam filhos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . BH.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. A coragem/ espírito destemido (DIODORO. ao contrário de virtudes. carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas. portanto.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência. excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero. cargos e funções de poder. 39). 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO. V.na medida em Sim – já que as funções Zelo. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e. Nenhum. 356 326 .

Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice. senso questões palavra final em debates. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. Nem tampouco é estranho que esses autores. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. assuntos militares. de justiça.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. Assim sendo. si só. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. decidem públicas. 2002: 109). reinando sobrevalece com o auxílio a família. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . negociações intervêm disputas. Sendo assim. no caso em alguns casos por de Roma. 2004: 09. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem. na verdade. Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens. não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. as circunstâncias. no caso de de Boudicca. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra. WELLS.

Minha intenção de contribuição. 1985: 150). Assim. WEELS. masculinas. ARNOLD. por exemplo. seletivo e exagerado. ainda. 357 328 . (RANKIN. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural. portanto. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. resume-se. uma matrona romana e que. com este volume. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. SAÏD. é uma caricatura. inclusive. ainda. Contudo. 2003: 11). portanto. 2002: 109) e que manipulavam. acredito. em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções. 1995: 153. pode-se. resulte em uma ginecocracia.NEA/UERJ (cf. dentro de uma metodologia comparativa. naturalmente. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. Consequentemente. o estereótipo deve ser sempre generalizado. que busca. embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. sem que isso. Tentei. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. tais construções devido a motivações das mais variadas357. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível. cultura material. comumente. espaço e grupos sociais. espero ter sido capaz de chamar a atenção. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. ainda que pequena sob diversos aspectos. também. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. 2002: 147. 251. de certa forma. O que surge.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1989: 152. observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa. 253). que possui variabilidades de acordo com o tempo. mais efetivamente. e como todas as caricaturas. nesse sentido.

variando segundo as sociedades ou. Oldfather. as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. por conseguinte. III) Trad: C. que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G. History (vol. textuais ou imagéticos). C. Trad: Frank Cole Babbitt. Portadoras de virtudes importantes ou não. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999. 1935. (Vol. Acredito. Geography (Vol.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Agricola. consequentemente. H. na visão daqueles que as relatam. ______. III). TACITUS. Books 14-19).NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. Rolfe. de acordo com diferentes momentos de sua história. II). 329 . Trad: J. On the Bravery of Women. 1999. London: Loeb Classical. I. Oxford: Oxford University Press. Trad: W. Moralia.tufts. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. S. 1917. São. H. Library of History. The Histories. assim como toda identidade. London: Loeb Classical Library. 1931.: Horace Leonard Jones. ______.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). cultural e discursivamente produzido‖. DIODORUS SICULUS. assim. Dísponível em: http://www. Birley. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS. Fyfe e D.perseus. Trad: Anthony R. detentoras de marcas dessa ex-centricidade. a alteridade da alteridade. Oxford: Oxford University Press. nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. 1997. é social. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero. STRABO. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. London: Loeb Classical Library. In: PLUTARCH. (Vol. 2000. Trad.02. ainda. ___________. assim. The Annals. Levene. London: Harvard University Press.

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Dra. como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. Pudentila. escrito por Apuleio. Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). 358 332 . a matrona Pudentila. também orientado por esta professora. É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como Messalina e Agripina. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado. rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio. na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. extremamente interessante como documento para o tema. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. ou ao extravagante e cruel. como expressa Moses Finley (1991. as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. uma matrona real. Profa. Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca).NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. a estas informações foram acrescidas leituras. 149). Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas. e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos. Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado. as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). mais conhecida como Apologia.

Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. gênero e etnicidade. 5-6. segundo as indicações de Apuleio. Assim. passou pela cidade de Oea (atual Trípoli. Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. para uma abordagem de gênero como construção relacional. Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. por isso. Na autodefesa de Apuleio desta acusação. 1980: 170). Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. segundo Bradley (1991: 93). rompendo a noção biológica do sexo. 1954). LXVIII. com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico. a viúva Emília Pudentila. LXXII. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. Apuleio. portanto seu cunhado. em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. Sicinio Claro. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila.MULHERES NA ANTIGUIDADE . acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. a família do marido falecido de Pudentila. Tratar sobre Apuleio é fundamental. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia.359 Mas. na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. 359 333 . Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista. LXIX). Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖. entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. Após o casamento. Apologia. LXXIII). há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. formada por membros da elite local de Oea (GUEY. relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. Apologia. sponsalia.

mulheres oriundas das famílias abastadas. Casamento. escravas. por isso eram respeitadas e honradas. Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. Feito isso. se remete a essas romanas honradas. dançarinas. prostitutas. A designação jurídica de uma mãe de família. matresfamilias. Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. paterfamilias. 360 334 . Assim. As matronas eram protegidas por leis e decretos. deveriam ser mães e se casarem. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos. para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila. dependia do casamento. A maioria das fontes latinas. concubinas. tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. Dessa forma. assim como a de um pai de família. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE. Portanto. Às matronas romanas. preparadas para receberem um dia um marido. e as libertas. 1990: 352). quando dão alguma informação sobre mulheres. além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. uma deusa feminina. a seguir. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana. como protetora do lar. Faremos.NEA/UERJ com Pudentila. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

MULHERES NA ANTIGUIDADE . O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. Assim. colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu. o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas. o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos. prevalecendo a forma de casamento sine manu. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas. no caso da morte deste. o casamento sine manus. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher. 271). Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. levou à criação de uma nova forma de casamento.. já no século II d. as mulheres estavam sob o poder do pai ou. ainda mais enriquecidos. Em geral.C. introduziram-se novos costumes. p. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. como se fosse uma de suas filhas (loco filiae). No período republicano. de um parente agnado mais próximo. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão). através da Lei Canuléia de 445 a. com membros das camadas populares. havia gradativamente se transformado. produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. De acordo com Bradley (1991: 85). 1971: 55).NEA/UERJ romanos. 1991: 65). Conforme Norbert Rouland (1997.C. uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99).

homens e mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim. 1991: 06). Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink. Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. Dessa forma. mais casamentos são também encontrados. não sendo uma decisão individual do casal. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública.C. que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio.-14 d.) exigiam dos cidadãos. pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. assim também eram os casos de divórcios. principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. e diz que o filósofo Sêneca. talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio. Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento. 1991: 79). Discordamos porque. 336 . 1967: 105).C. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas. no I século. demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY. mas de suas famílias (CROOK. que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos. no qual viveram Apuleio e Pudentila. ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL. As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a.

com a morte deste. ela passaria para a potestas de seu sogro. Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu. por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos. acrescidos de termos como ―mais velha‖. não muito sutilmente. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. Neste sentido. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio. com a morte deste. ou Emília Pudentila. Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. conforme Finley (1991: 151-152). já que. Aemilia Pudentilla. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu. só temos informações sobre Pudentila na Apologia. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio.‖ Na Apologia (LXVIII. provavelmente. ou ser uma mulher emancipada. as mulheres romanas não recebiam nome individual. deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. Segundo informações da Apologia. ―mais nova‖. apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . ―primeira‖. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. De acordo com Finley (1991: 151). mas apenas frações de uma família. Seu nome. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. e em segundo lugar porque. como citamos na Introdução. os mais frequentes no período. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. Porém. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. ―é como se os romanos quisessem sugerir. o que era possível no período. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sob a tutela do filho Ponciano. podendo também ficar sem tutor por certo momento.NEA/UERJ primeiramente. ―segunda‖.

movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu. as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. XCIX.. havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento. Sicinio. tios e primos. 338 . 3-5).] (APULEIO.362 Neste sentido. Pudente. [. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento.NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona. A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo. 362 Esta citação. estando viúva. já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva. tive que convencê-la. para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191). com muita resistência de sua parte.C-14 d. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem. após as leis do Imperador Augusto (27 a. por este estar sempre contra ela. se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse. Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [. foi traduzida por nós. na forma cum manu. ou seja. Apologia. ela escapava do controle dos seus irmãos. Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d. Neste sentido. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.] Depois da morte de seu filho Ponciano.. Talvez fosse este o caso de Pudentila. Caso a mulher com sua mãe. mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido..) regulamentando o casamento.).C.. assim como as demais citações da Apologia.

podendo deixar parte para o marido. já que. 1991: 76).MULHERES NA ANTIGUIDADE . apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. 2). segundo Carcopino (1990: 107). não o deixe sem amparo (APULEIO. como marido. estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. casada em regime cum manu. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. se mostrou. ela escapava do controle dos irmãos. podendo contrair um novo casamento à vontade. p. porém. 184) se a mulher não tivesse filhos. tios e primos de seu marido. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu.C. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. Assim. sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. eu. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina.NEA/UERJ viúva. a favor do matrimônio. as mulheres do século II d. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio. que. C. Apologia. talvez seja 339 . Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. Conforme Yan Thomas (1990. a mais frequente do momento. segundo Apuleio. tinham direito de dispor de suas heranças. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio. não necessitando nem da autorização de seu filho. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã.

. Apologia. deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. se fosse emancipada. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa. por vontade dos deuses. 5-6). A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo. Além disso. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano. pois. colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. Ao mesmo tempo. e em outras da Apologia. 8-9). LXXIII. Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. Que.] (APULEIO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apologia. Explicou-lhe. assim.. como boa matrona. Como bem nos indica Hunink (1988: 282). posto que. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual. todos os motivos de sua decisão. que. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 . LXX. o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou. tinha. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. mediante sua prolongada viuvez. Nas passagens abaixo. depois disso. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil. que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. com desprezo de sua própria saúde.NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. ponto por ponto.

a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. em forma de terras tachadas por baixo. no caso das viúvas. eu havia gastado completamente. conforme seus acusadores alegam. e uma grande quantidade de trigo. uma casa grande.MULHERES NA ANTIGUIDADE . repito. provida de toda abundância. azeite de oliva 341 . segundo dizem meus adversários. alguns campos férteis. não estando sob a força de seus poderes mágicos. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. ao fim. Aconselhei minha esposa. Aconselhei-a que lhes desse. cujos bens. Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. e logrei convencê-la. Segundo a historiografia. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. aconselhei. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. ademais. Na segunda passagem citada acima. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX. cevada. o que ajudaria.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. de seu próprio patrimônio. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. supostamente. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades. 1991: 266). segundo a avaliação de seus próprios filhos. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas.

Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa. Conforme Rousselle (1990: 386). Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual.NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. como as atenienses. 363 342 .] (Apologia.. Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa.] esta mulher prudente. 1997: 14). temos o trecho da obra citado abaixo. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez. SILVA. debilitada pela prolongada abstinência. CARVALHO. tomada por graves transtornos. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia... Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal. a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363. mesmo em meio à situação dramática da acusação. 2). Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada.. 3-4). segundo os olhares masculinos da elite. de forma que chega a parecer exagerada. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES. privada do uso habitual do matrimônio. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época.. Como exemplo. Novamente. Assim.] (Apologia. esta mãe extraordinariamente responsável [..MULHERES NA ANTIGUIDADE . [. ao descrever Pudentila. XCIII. LXIX. se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [. 5). sem dar lugar a falatórios. LXVIII.

Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. uma matrona virtuosa. estiveram presentes nas descrições da Apologia. portanto. sua situação jurídica. Para compreender melhor a situação de Pudentila. a obra é repleta de recursos retóricos. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época. contida e extremamente preocupada com seus filhos. a disposição sobre sua própria herança. como uma mãe zelosa. obviamente. da visão masculina de Apuleio. portanto. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa. Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio. contendo. etc. Como uma defesa. Sendo assim. acima de tudo. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia. foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. estamos diante. conforme o objetivo que pretendeu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Considerações finais Como percebemos. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. 343 . Assim. tais como os tipos de seus dois casamentos.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. seu cuidado com os filhos. Neste sentido. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa.

p. 32. Remarriage and the Structure of the Upper-Class Roman Family. GRIMAL. Law and Life of Rome. Paris: Les Belles Lettres. L‘Apologie d‘Apulée et les inscriptions de Tripolitaine. FINLEY. CARCOPINO. Tradução. 4. Revue des Études Latines. CARVALHO. p. New York: Oxford University Press. p. César e Cristo. Madrid: Ediciones de la Universidad Autônoma de Madrid. São Paulo: Martins Fontes. 07-18. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRADLEY. A. In: ______. GUEY. 1987. Romanas por elas mesmas. 344 . Tradução de Hildegard Feist. Aspectos da Antiguidade. R. 183204. P. 1991. Cadernos Pagu (05). APULEYO. CARROZO. p. GONÇALVES.149-164. v. p. Franca. 79-97. 1990. J. J. In: RAWSON. In: ______. n. M. 1991. W.) Marriage. J.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Texto estabelecido e traduzido por Paul Valette. Piracicaba: Editora Ampliada. Estudos de História. 1986. G. V. SILVA. 1954.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL APULÉE. 2. P. As mulheres silenciosas de Roma. História da Civilização Romana e do Cristianismo até o ano 325. Divorce and Children in Ancient Rome. K. O amor em Roma. J. 1980. El sistema legislativo como elemento fundamental para el desarollo femenino en el mundo romano. 1971. In: Actas de las Quintas Jornadas de Investigación Interdisciplinaria – Seminário de Estúdios de la Mujer. p. Madrid: Editorial Gredos. Elementos de Direito Romano. Tradução de Mamede de Souza Freitas. 115-119. Rio de Janeiro: Editora Record. 98-112. P. Apologie. (edit. FUNARI. das Letras. M. 1960. p. 1995. Beryl. T. São Paulo: Martins Fontes. introdução e notas de Santiago Segura Munguía. A. São Paulo: Cia. Sobre as representações femininas na Antiguidade. Apologia.179-200. Roma no apogeu do Império. M. DURANT. Family and Succession. CROOK. 1967. 1991. DEL CASTILLO. A. New York : Cornell University Press. 1991.

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e mais óbvia. optei por mudar apenas alguns poucos tópicos.). e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. para que não tivesse de parafrasear a mim próprio. é uma figura mitológica .lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess. Doutor em Teologia. Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos. Berlin: Heimeran. 346 . como é comum no mundo pagão antigo. não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖. Sibyllinische Weissagungen. 1951. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library. notadamente de minha tese de doutoramento. é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra.por várias razões -. Collins na obra de Charlesworth supracitada. Vol. 1983-1985. dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. além do mais. de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . já que trata-se. A primeira. Dr.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof. Charlesworth (ed. The Old Testament Pseudepigrapha. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. New York: Doubleday. que lembraria um Homero rude. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável .0. 364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília. Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. Em segundo lugar. As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo. em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H.1 (OTP 1). As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria. 1985). bem entendido) . As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J.

outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses. mas sua longevidade é surpreendente. aos olhos de um observador moderno.em suma.MULHERES NA ANTIGUIDADE .V a. Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. Em suma.Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. Se não for exagerado. desde temas até personagens).sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 . 366 Nota com mss. para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos. permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico . o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto. embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física).A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso . 1990. P. compulsão profética como castigo . entre os autores antigos. os OrSib são os que mais falam de sexo. para isso. pois: 1.vide Hystaspes e Apolo.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal . o termo designasse uma figura profética apenas.C. casamento. teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. entre outros -. 365 347 . Oxford: Clarendon Press. E não dispomos. 2. dão testemunho de uma coleção de textos estranha. mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle. 3. Potter.106.Falam abertamente de sexo e matrimônio. David S. como disse).já se possa afirmar que no séc.

NEA/UERJ constitui-se. Greek Religion. Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos. Assim. A Man for all Generations. Pp.a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. Há de se fazer uma ressalva . num certo sentido. Pp.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖. 1985. o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. 367 348 . ao contrário dos OrSib. retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368). juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses. e não por luxúria (Jb 4:17-19).112 ss. convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . os anjos que pecaram contra a criação de Deus. 1995. no entanto. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes. Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais. A mulher surge noutros apocalipses. temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas. Como observa Burkert. por assim dizer.3. 369 Walter Burkert. MA: Harvard University Press.116-118. Hystaspes ou Apolo). Noutro pseudepígrafo notável. nesse sentido. 368 De cultu feminarum 1. com seu grego macarrônico. VanderKam. Enoch. Cambridge. Columbia: University of South Carolina Press. no Livro etiópico de Enoch (1En). recomendo James C. na figura mais notável na apocalíptica. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres. mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. o Testamento de Ruben (Test12Rub). não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro.

mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo. como o nabi (―profeta‖). ao baru cananeu370. Firenze: La Nuova Italia. a líbia (lembrando que o termo compreendia. boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. sendo esta última a de existência mais duvidosa.também chamada de ―helespontina‖. até que por fim restara apenas sua voz. 14. Cf. um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. Balaão (Nm 22:4-5. a eritréia (da Ásia Menor . uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. Como outros cultos ou práticas extáticas. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo). a Ciméria e a Tiburtina. e que podem mesmo estar associadas. ―frigia‖ ou ―troiana‖. As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371). incompletos ou negados. nos legou uma Descrição da Grécia na qual. Apolo concedeu o favor. 22. O baru era. Nas Metamorfoses. a caber num vasinho (ampulla). Dt 23:3-6).NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas). a de Cumae. A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. na forma em que os conhecemos. na Antigüidade. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. que nomeia ―Sabbe‖. O deus nada fez.12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último. eventualmente. no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). 370 349 . pela proximidade dessas localizações). tornou-se cada vez mais velha. A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru. no livro 10. 1943. 371 Pausânias.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Portanto. a de Samos. como os profetas pré-exílicos. Tornara-se tão encarquilhada que passou. Aurelio Peretti. Embora os OrSib sejam. pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna.

e podem ter sido escritos entre 30 a. ou um de teor legalístico a Baruch. a Sibila. Davila.186. 372 350 . a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis. P.C. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa. e 250 d. não pode ser acidental.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais. Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. 5:51372. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão.MULHERES NA ANTIGUIDADE .e. James R.único personagem de origem pagã na literatura examinada. cf. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas. 3:1-7. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ .): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas. o uso da mesma figura.C. as passagens mais importantes são OrSib 2:1. 2:340. mas Deus me anuncia cada coisa. 2005. The Provenance of the Pseudepigrapha. a Sibila . Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. Em termos de preparação visionária. Feitas todas essas ressalvas. renovada graças ao Possivelmente uma glosa. 13:1-5 e o fragmento 8. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas.i. Jewish. bem como a natureza prazerosa dessa experiência. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. 11:315-324.

eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. pecadora e promíscua. que tem os querubins como trono.] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖. pobre de mim. que era o de um homem rico. como 2:340: Ai.―altered state of consciousness‖ . celestial.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas sim do remorso por uma vida mal vivida. eu me fechei para os necessitados. estúpida [que sou]. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo. pode implicar uma camada redacional mais antiga. que me compele de dentro.. ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar.fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia . O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei. de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão. Isso contrasta com outras passagens sibilinas. e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito. quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno).NEA/UERJ favor divino.. que trovoas nas alturas.e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a. Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote. pois meu coração está cansado por dentro. A Sibila indicada. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens. 351 . OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia .como em 4Ezra 5:20. ou ―ASC‖ .C.

. 374 Epíteto de Deus. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras. Pp.: Três vezes desgraçada. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere. eu. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito. príncipe374.142 ss. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo. A passagem repete certo número de temas já conhecidos.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado.. Assim. Mas. mas garanta uma pausa agradável. nesse contexto. Russell. que sou amiga íntima de Ísis [. pare agora meu adorável discurso. uma redação judaica para o trecho. Mas quando ele se aproximar dos livros. e portanto podemos falar de possessão nesse caso. que não desanime deles. 373 352 . The Method and Message of Jewish Apocalyptic .NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. 1964.. Philadelphia: The Westminster Press. estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs).MULHERES NA ANTIGUIDADE . David S. Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata.. uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [. Ainda em OrSib 5:52 ss. o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária.

localizado no Discurso aos santos de Constantino.). p.C. é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. para Deus: ‗Por quê.NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d. Por fim. e deles o tomou de volta. Heráclito nos diz que ―A Sibila. proferindo coisas das quais não se deve rir. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas. o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila]. sem adornos e sem perfumes. Um fragmento do qual sabemos muito pouco. Jr 4:19 ss. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. acerca do domínio real.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O divino Deus também me pressiona muito.. para a vida e para a morte375. pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. Ecl 3:2 ss. novamente para cantar uma palavra grande e incrível. Ele que deu o poder a reis. Pela franqueza do trecho. 375 376 353 . E. a proclamar essas coisas aos reis. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja. retornando ao tema das origens da Sibila. ó mestre. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos. com voz enlouquecida. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf. por mais que eu relute. diz ela.ex. erguida sobre a Terra.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . era comum à apocalíptica judaica. judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que. 377 378 354 . que tal proeza em termos autorais (ou melhor. se o faz. Jr 20:7 é ótimo exemplo. de substratos pagãos a textos puramente cristãos. a Sibila exibe comportamento semelhante . não existindo consenso quanto à sua datação. até o momento carece de investigação mais detalhada. fr. é mediante o recurso à pseudonímia mas este. ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor.1.8 dos OrSib). em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares). Collins na edição de Charlesworth dos OTP. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. vol. depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade. quer nos OrSib. por outro lado. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila. quer nas descrições mais antigas. Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido .como no fr. como disse no início do texto. negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno). questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento . Pp. contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus). Nesse sentido. romanos. pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos. Mas aqui. ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns.317-326. Feia (por imprudência ou desleixo). portanto. sem atrativos femininos.independência quanto ao mundo doméstico. a Heráclito. até mesmo a possibilidade de ter permanecido. As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito.). proveniência ou localização geográfica378).12.NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377.

afinal de contas. Greek Religion. Kurt. ______. New York: Doubleday. o fato dela ser uma mulher introduz algumas curiosidades no texto. COLLINS.mas tampouco são irrelevantes para que se deva desconsiderar que. o texto dos OrSib. 1997.1. tal como o temos.). ANDRÉ. BURKERT. de quem estamos falando? Do autor ou autores ―reais‖ ou do personagem retratado? Aqui também a Sibila comporta-se. nos coloca diante do obstáculo definitivo ao tratarmos de um texto e seu autor . Sibyls and Sages in Hellenistic-Roman Judaism.MULHERES NA ANTIGUIDADE . compõe-se de oráculos sombrios anunciados em primeira pessoa . de modo muito semelhante ao dos demais visionários da tradição apocalíptica do judaísmo do Segundo Templo. ―Introduction‖ [aos Oráculos sibilinos] In: CHARLESWORTH. o visionário de 4Ezra .e essa pessoa. 1983-1985. Leiden: Brill. ―Ecstatic Prophesy in the Old Testament‖ In: HOLM. Rieuwerd. Stockholm: Almqvist & Wiksell International. BUITENWERF. ―The place of the Fourth Sybil in the development of the Jewish Sibyllina‖ In: Journal of Jewish Studies 25. ALEXANDER. ______. Paul J. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAND. MA: Harvard University Press. (ed. ―Das Problem der Anonymität und Pseudonymität in der christlichen Literatur der ersten beiden Jahrhunderte‖ In: ALAND. Kurt (ed. The Old Testament Pseudepigrapha. por assim dizer. Book III of the Sibylline oracles and its Social Setting. 1982. Cambridge. digamos. Gunnel. Washington: Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. 1985. Berlin: Walter de Gruyter. 1967. The Oracle of Baalbek. Walter. Vol. Seers.NEA/UERJ Sibila pode perfeitamente ter sido um personagem feminino que tomou forma literária pelas mãos de homens. 1974.). A pseudepigrafia. Religious Ecstasy. the Tiburtine Sibyl in Greek Dress. John J.). mais uma vez.afinal. James H. que não são suficientes para que se possa tratá-la como. Based on Papers read at the Symposium on Religious Ecstasy held at Abo. no texto. é uma mulher. Studien zur Überlieferung des Neuen Testamentes und seines Textes / Arbeiten zur neutestamentliche Textforschung. Finland. on the 26th-28th of August 1981. 2003. Leiden / New York / Köln: Brill. Nils (ed. 1967. 355 .

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Por una extraña paradoja. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. entre las que se encuentran las fuentes escritas. no menos excepcionales. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer. pero en las primeras democracias. Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. ninguna mujer se adjudicó realmente el poder. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. entre las griegas Artemisia. Dr.MULHERES NA ANTIGUIDADE . protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. me refiero a las helenas. da Universidad Nacional Autónoma de México. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. Las fuentes son abundantes. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas. los Professor de Filosofia Antiga. las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. otras mujeres. 379 358 . gobernante de Halicarnaso. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente. De entre las mujeres de la antigüedad. algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. en sentido similar.

Política. Sea como fuere. El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . cuando menos Aristóteles lo plantea así. que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios. El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES. 1. Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . III i 1275 a 22-24). Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general. y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. 9). el derecho de apelación al tribunal. El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES. Y es que el pueblo. Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. La constitución de los atenienses. al tener control sobre el voto. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo. La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. Luego. Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–.

. en el diálogo epónimo.NEA/UERJ buscado deliberadamente. En Atenas clásica pues. y cuidarse de no sufrir esto él mismo. Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 . Politis y aste son los femeninos de polites y astos. Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean. Las funciones principales de las ciudadanas.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. el hogar u oikos. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN. El lugar de las mujeres es el espacio privado. existen ciudadanos y ciudadanas. 42). significar que [Jantipa. Sin embargo. La constitución de los atenienses. afirma: [.] podría. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. Menón. siguiendo el razonamiento de Mossé.. mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [. 71 e). Menón.. pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres. 2002: 15-16).. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO. [. no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa. hija o madre de atenienses. Si quieres la virtud de la mujer. La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES..] Aste estaría en relación con el derecho de familia.. esposas y madres de los ciudadanos. hijas.

Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras). Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos. Es recluido en prisión (Critón). Combate en las batallas libradas por su polis. ciudadana en tanto que politis y aste. Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. De joven discute con filósofos mayores (Parménides). En lo que respecta a 361 . Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología). 2. 2011: 218). y cuando retorna. y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ. la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. como afirma explícitamente Menón. Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta doble ciudadanía. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates. 1991: 155) como la política y la judicatura.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖. La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. Finalmente es ejecutado (Fedón). Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. regresa a sus actividades tradicionales. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano. Por lo tanto. y alternar en el poder corresponde a los varones. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón. política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres.

Estobeo. Cicerón. Jenofonte. Aspasia y Diótima. Aspasia. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. fue mujer de Pericles. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. tanto como a la democracia. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. 2003: 1516).NEA/UERJ las mujeres. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente. a diferencia de las otras dos. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. Platón. Diógenes Laercio. Teodoreto. Jerónimo. se afincó en Atenas. no a Diótima. y procreó con él. Suda. al círculo intelectual ilustrado ateniense. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten.MULHERES NA ANTIGUIDADE . la segunda de Mileto y la última de Mantinea. Eliano. a pesar de ser originaria de Mileto. 3. Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. quien la amó tierna y apasionadamente. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa. Luciano. Plutarco. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. Libanio. Tzetzes y Valerio Máximo. Sinesio. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. Epicteto. incluyen nombres de la talla de Aristipo. Ateneo. según el exhaustivo estudio de Inés Calero. enseñó retórica en Atenas. las otras proceden de poleis diferentes. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 . Cirilo. una politis (CALERO. Galeno. Filopon. perteneció. Tertuliano. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. Marco Aurelio. Jantipa. Sócrates. Olimpiodoro. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. Temistio.

Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. Los discursos privados de Demóstenes. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. Sócrates!. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. la Apología. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio. Fedón. y a Jantipa -ya la conoces.. 4.. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. Sin embargo. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. Al vernos.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado.con su hijo en brazos y sentada a su lado. aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia. Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD. 26 y 33). narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta. por ejemplo. corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. esto es. Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente. en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES. Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos. Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres. ‗!Ay. Su discurso Contra Afobo.NEA/UERJ [. su lugar es el hogar. ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN. ajena a las actividades en las que sí participa su esposo. XXIX. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. Pero lo importante es que. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. 1980: 45). A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él. 60 a-b). El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Plutarco. Nicias. 2010: 39). Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. p. pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno. 1981. y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. Jurídicamente. frecuentó su casa. entre ellos. Y Aspasia de Mileto. un proceso por impiedad. Trasíbulo o Terames (BREMMER. quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. 1977: 323-330). Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. Lamachus. sufrió. pues el mismo Sócrates. Menéxeno. existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS. p. 1985: 48). 249 d). ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. como Protágoras y Sócrates. La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. protagonista de uno de los diálogos de Platón. a pesar de ser originaria de Mileto. El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN. David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. 1994: 85). 426). al menos en algunas esferas judiciales. y de Pericles mismo. pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. o al de las ya difuntas (VIAL.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza. pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. con sujetos bien conocidos. sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente. 1994. porque vivía de 364 . XLI). algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia.] que Aspasia fue maestra de oratoria. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey. a través de Pericles. sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. 1994: XXIX).] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad. en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ. lo cual no es incompatible ni con que. mujer y extranjera en Atenas. Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. pero esta milesia. XXIV). XXIV). Ahora bien. como eran poderosos y de autoridad. Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos. Pericles.. Solana afirma [. lo confirman muchas fuentes. es indudable que la actividad política del estratego ateniense. le exigiría una capacidad retórica adecuada. a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. y por medio de ellos. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos.NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO... años antes de unirse con Aspasia. y en particular de Pericles. y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [. Sucintamente. 1994: 84). Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes. Pericles.

una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. es una ciudadana ateniense.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. hija. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. a partir de los diálogos de Platón. Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad. a través de ésta. Sucintamente. entre otras fuentes posibles. Jantipa. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica. la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. a. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos. labores imprescindibles para la existencia de las poleis. Sin embargo. esposa y madre de ciudadanos. 366 . Sea como fuere. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. C. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. con actividad política del más alto nivel. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes.

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Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. rainhas. a partir da cultura material. santuários e artefactos arqueológicos escavados. deusas. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade. mas. Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram. feiticeiras ou profetisas. guerreiras. .