MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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ª Dr. diante da diversidade de região.no meio científico atual .como as Mulheres na Antiguidade. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos. Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres. Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. tanto nos meio formais e/ou informais de atuação. ao longo da segunda metade do XX. 1 7 .ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade. Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos . as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas.

A Arqueologia de Gênero. a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. as abordagens que contemplem o tema.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. como objeto de pesquisa histórica. Nesse sentido. devido a sua escassez. 8 . por exemplo. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. afastando-se do padrão tradicional. deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. Diante de tal situação. na historiografia brasileira. na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. por exemplo. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração. podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega.

são esferas distintas.NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof. 1989: 22-23. muitas vezes supondo. evidenciando sua vivência em sociedade (cf. EHRENBERG.MULHERES NA ANTIGUIDADE .ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. apontando-nos sua ligação com a natureza. da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF. Titular Dra. 1995: 15). tais mitos falam-nos das deusas celtas. A partir desses mitos. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. desde a Antigüidade até a Idade Média. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. de forma alguma. a existência de um ―matriarcado original‖. inclusive. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é.ª Dr. a fertilidade e a soberania. Logo. 3 Utilizaremos. em ao longo deste trabalho. defendida em Março de 2001. Em verdade. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. Neyde Theml e financiada pela CAPES. 9 . não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social. o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105). Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado. aquela que vive em sociedade. inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. GREEN. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. sob orientação da Profa. a vida e a proteção da comunidade. Ao contrário.

é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos. as relações de gênero. n. bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. 59-77. jóias. sendo sacerdotisas. Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. Helenos e romanos. sua participação política na sociedade. XLIII. 1985. liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas). porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. 1989: 245. S. vasos de cerâmica ou metal.s. independência e poder na sociedade. então. Destacam eles seu caráter e bravura. porque bárbara4. Tais relatos. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio.NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. 4 10 . isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. muitas vezes. sobretudo. Paris: CNRS. 251). liderar combates (tal como Boudica que. que seriam por elas geridos e. Devemos. SAÏD. cavalos. seu vigor. 137-150. Women as focalizers of barbarism in conquest texts. 18. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir). mas. ser sacerdotisas ou chefes. nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. Se desejamos ir em busca da mulher celta. 1995: 15). que nos permitam analisar a posição social dessa mulher. 1999. porque poderiam elas exercer o poder. No entanto. vide SAAVEDRA. assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. Classical Views. ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . participando de banquetes e festas. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. T. profetizas ou feiticeiras.

havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. Com efeito. Na maior parte dos casos. que. indicam. leste da França). formas específicas de sepultamento para homens e mulheres. sudoeste da Alemanha). mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131..133). Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral. Tal poderia. ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. no primeiro milênio a. isto é. de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg. 1996). levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. tais itens não eram de uso exclusivo masculino. Nesse sentido. 5 11 . a exemplo do torc e do serviço de banquete. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. pois. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação. como explica ela. onde temos o casal enterradoem conjunto. não sendo.tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha. que. sempre associados à figura masculina e. contudo. principalmente dos enterramentos. havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares.NEA/UERJ As evidências arqueológicas.C. WITT. isto é. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio. uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. identificando-o ante a sociedade. e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para alguns. marcadores de gênero e sim de status. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. Porém. constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo.

às margens do Sena. e uma taça (―phiále‖) de prata. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher. Propomo-nos. um kýlixcom verniz negro. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós). tornozeleiras e fíbulas. no norte da Cote-d‘Or. constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. 12 .aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. as atividades produtivas. Como vemos na figura abaixo. um kýlix ático com figuras negras. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A). e diversas jóias entre colares. adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. composto de uma cratera de bronze laconiana. Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. uma oenochóe de bronze etrusca.Essa tumba. Não desejamos. aqui discutir as relações de gênero. braceletes. ao invés. encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a chamada ―dama de Vix‖. contudo. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. no lado esquerdo da câmara. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix.

torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix. donde. consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a. chicote e argola 13 . por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes. 1958. os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY.Nessa linha interpretativa.C. seguem também. Fonte: Joffroy. tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário. mais recentemente. posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa. 2003). Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa. prancha IV.C e início do século V a.MULHERES NA ANTIGUIDADE ..Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖. Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix. quer com relação ao tamanho.

definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix.C. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio. pendendo para a direita). Esses bens. 2003: 325-326. Aqui. e à cabeça torcida. uma colônia helênica fundada em 600 a. O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela. como vias de construção de identidade. do torc e do carro. de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante. o poder. tendo por base o caráter religioso da phiále. distinguindo-se das ações cotidianas. interpretamos os rituais. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações..MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. mas também artigos de uso cerimonial. segundo Gellner (1997). pois que a circulação. Seguindo essa linha de raciocínio. isto é. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía. seriam não somente bens de grande prestígio social. De modo semelhante. por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos. em verdade. da cratera. ao defeito na perna que provocaria andar claudicante. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. Milcent (In: ROLLEY. Já os depósitos na tumba. quando expostos nos 6 14 .

Com efeito. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. 1985). não representaria traços de um banquete funerário. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio. ao mesmo tempo. 9 Devemos destacar que. e que seria similar ao mundo dos vivos. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. e em especial. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. O banquete e a hospitalidade eram. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe. tornava-se necessário reorganizar. um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. por meio dos ritos funerários. da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta. Em se tratando de depósitos intencionais. porém. GOSDEN. envelhecimento ou ruína. freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. segundo Wait (1995: 490). porém. isto é. na primeira Idade do Ferro. A deposição de um serviço de banquete nesta tumba. 15 . nos mitos célticos. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69).NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. nem tampouco constituiria uma evidência da existência. no caso que ora estudamos. não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um sistema estável de alianças de casamento (cf. mas sem que houvesse doenças. a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. Miranda Green (1997: 68) considera. portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. não havendo. à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos.

o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos. 1988: 227-228). Possui ela decoração nas asas. etc. quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras. 11 Essa cratera. Esse serviço de banquete era composto de importações. do tipo com asas em ― volutas‖. dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11. SCHEID-TISSINIER. 1979) – para misturar vinho ou. DRISCOLL. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. aqui. Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica. que evidenciassem seu status e prestígio e. dessa forma. Além disso. possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. mesmo. que a remontou em Vix (JOFFROY. JOFFROY. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro. Trabalharemos. da mesma forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE . simbolizassem o vínculo pessoal. 1994: 167). construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf. p. 1979). 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. oferendas. Por outro lado. com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. 208 Kg). seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados.64 m de altura. No caso desta tumba de Vix. não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos. pagamentos. assim como as alianças intertribais. ao redor do pescoço e na tampa/coador. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. como no 16 . pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens.‖ (KING.217). é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. 2004. Construíam. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13. ofertado – presentes. para conter hidromel.

e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. à posição privilegiada desta mulher. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita. ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal. 1998b).NEA/UERJ Entendemos. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. Exaltava-se. em verdade. dos demais só podemos divisar algumas partes. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. à frente dos carros. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. No braço esquerdo. na cintura. Os hóplitas seguiam. 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. Um lado do pescoço porta doze imagens. 1998a. Em verdade. vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. de uma mulher vestida com um péplos fechado. ―renome‖ e distinção. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. TSETSKHLADZE. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). e. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. fixados com rebites sobre o vaso. portando sobre a face um elmo coríntio. que reforçaria seu prestígio. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta. 17 . pois. cabelos repartidos no meio e portando um véu. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. enquanto o outro somente possui onze. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro. por um cinto. porém. sua força política. para ser exposta no enterramento da chefe. ocultando-lhe os braços.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. Eram elas também associadas à prática do banquete. o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. ver Tyrrell (1984). Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. por sua vez. na mão direita. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas. feitas somente com pontos. 1998a). E nos Em ambas as cenas. o kýlix ático em figuras negras. aqui. pois. Devemos. 16 18 . Sobre as imagens de amazonomaquia. que. de alteridade das amazonas. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem. Donde. Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta). TSETSKHLADZE. No enterramento. há pseudo-inscrições. contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade.NEA/UERJ De forma semelhante. protegendo-se com seus escudos e empunhando. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança. E ao redor de todos eles. onde eram celebradas as vitórias. Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. uma lança. um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. temos os guerreiros helenos à esquerda. Todavia.

Com isso. Logo. outrossim. Segundo Joffroy (1979: 77). na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin). no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY. em Pouan (Aube). os chefes de comunidades dessa região. 1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe. consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe.NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. havendo. sua posição no enterramento. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. 1979: 76-77). sendo. que tal como a cratera. a oenochóe etrusca. Quer dizer. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. nos faz atentar para a tipologia desta prestação. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. 17 19 . como aquela de Hochdorf. 18 A oenochóe etrusca. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. Esta taça recebeu cuidados especiais. que. pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba). com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. seriam provenientes da região dos Alpes. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . possivelmente. Além desses vasos. Temos. entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. Kimmig. tal qual as taças em cerâmica ática. pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). assim. que teria a mesma finalidade. sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. aos pés desta. como sugere a análise feita por Kimmig (1999). Entretanto. que atravessava o vale do Tessin. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina. tal como no Marne. à primeira vista. vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. pois. tais como os massaliotas. mesmo. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta. que seus seguidores. Por conseguinte. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. quer para o restante da população.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. igualmente. as comunidades vizinhas e os aliados distantes. Em outra palavras. Concluímos. 20 . fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. na tumba. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição. Por meio deste estudo de caso. de continuidade dos laços e relações. as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens. destarte. de bens que simbolizassem esses laços. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. porque as relações. Procuramos. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela. retirando-os de circulação e. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. enfim. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar. demonstrando.

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até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA. As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. da família e do oîkos. do VIII ao IV séculos a. geralmente. gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. Dr. os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. que dependendo de seu prestígio. A cortesã atuava. donzela/ virgem. Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí. 1986: 210). havia a concentração de prostíbulos (SALLES. C. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. este último seria um tipo muito comum no IV século a. Dependendo do status. Lembremos do caso de Neera. Desta forma. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas. jovem. 2001: 61). da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). Em Atenas Clássica. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade. apontado por Demóstenes. Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs. C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. E além delas. Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. 19 26 . custavam vultosas quantias (MOSSÉ.NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. ela foi O Prof. podemos identificar os seguintes termos: koré. Dr. Inicialmente. Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. sob a proteção do pai. nýmphe. 1995: 15). Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços. recém-casada.

Desta maneira. 2000: 23). O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. criado de forma oral por volta do VIII século a. 21) em seu santuário na Acrocorinto. bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. da dança e do ato sexual (LIMA. KIRK. Além dos termos apontados acima. devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos. o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé). É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. 1999: 123). além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. 1999: 25). Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. 27 . Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte. 1988: 42-43.doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos. as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY. Contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. Como já mencionamos. poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. os autores mencionam ainda as escravas . o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. Para compreendermos o papel destes termos. 6. do canto. 1997: 37). Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem. C. Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. a guerra é o tema central do poema. A Ilíada é por excelência um poema de guerra.NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER. Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere.

Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo. ao preço de suas vidas. 1212). rei de Tróia. Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade. Contrariamente. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ter o dom de profetizar. ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK. um membro estranho em sua própria comunidade. Podemos perceber. são pilhadas. Apolo. 1999: 45-46). Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE. Entretanto. privou-a da persuasão (peithó). O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. enfrentar os perigos e a morte. Todas as riquezas disponíveis. Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. A partir da derrota de uma cidade. Hécuba. então. Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. 1965: 431). pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas. a bacante. ou seja. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. humilhado. Agamêmnon. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. Como os prêmios dos jogos fúnebres.NEA/UERJ tais como: o gado. incluindo as armas dos guerreiros vencidos. O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas. celebrando os seus grandes feitos. Cassandra não aceita se entregar à divindade. Sua mãe. a princesa Cassandra (Kassándra). a mênade 28 . Por meio da poesia épica. 1999: 31). 1990: 105). preferindo continuar virgem. 1995: 151). os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. como privilégio honorífico.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . 374). Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo.1057). com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. um presente honorífico. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO. Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. 13. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. As Troianas. As Troianas. Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . De princesa. junto com Agamêmnon. tu que compartilhas os êxtases dos deuses. mas a pobre mulher permanece inerte. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas.‖ (EURÍPIDES. ao palácio argivo. pelo Coro.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. 1035). Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. Cassandra. Ilíada. Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. junto ao fogo sagrado. Cassandra não consegue ter credibilidade. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. Agamêmnon. II. Ela foi um géras. 955). 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. Antes de entrar no palácio. profetisa e virgem. chefe da expedição contra Tróia. Cassandra ainda em posição estática é comparada. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia.‖ (EURÍPIDES. Todavia. seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. como um animal de caça. que me evite esta nova pena. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. Agamêmnon.

Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘. 1990: 128). ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid. um nómon ánomon. Agamêmnon. muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon]. 1140). 1990: 105).morada dos mortos. após os enigmas [ainigmáton]. Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe.‖ (Ibid. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. eu acho. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei. A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. 1112-1113) Nos versos seguintes. 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. quanto dos de Cassandra. Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos. logo cantar minhas profecias. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 . A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo. mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas. (VIRET-BERNAL. Ao descer do carro. As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades .NEA/UERJ passando por um estágio de loucura. ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. ―Ainda não compreendo. o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra.” (ÉSQUILO. Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. 1990: 98).

2001: 118) Com o fim de suas profecias. Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . 200-205). Agamêmnon. 1038). vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra. Entretanto. De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. justamente. (ÉSQUILO. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba. (ZAIDMAN. não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente. jurídicos e morais. Agamêmnon. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra. Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. a partir do relato de Ésquilo. Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. 1995: 12). 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. 1280). DE ROMILLY. A peça esquiliana mostra. sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra. Agamêmnon.NEA/UERJ furiosas vingadoras. um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). mesmo hesitando (DE ROMILLY. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui. De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. Agamêmnon. Agamêmnon.‖ (ÉSQUILO.‖ (ÉSQUILO. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar. as múltiplas facetas de Cassandra. Agamêmnon. 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dos filhos desmembrados de Tiestes.‖ (ÉSQUILO. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. 1309. a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos.

Les Troyennes. Raoul Baladié. Agamemnon. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon. 1975. 950). Livre VIII. Agamemnon. O segundo e. II. H. talvez o principal. 1962. Paris: Garnier Frères. STRABON. Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid.NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. 32 . Paris: Gallimard. 1273).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Marie Delcourt-Curvers. EURIPIDE. Géographie. E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. 1996: 122). Trad. Iliade. 1995. Trad.Weir Smith. Trad. ESCHYLE. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. Contudo. 1978. Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. Trad. LESKY. uma rival de Clitemnestra. Trad. Agamêmnon. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. Paris: Gallimard. 1964. 1296. HOMÈRE. 1274) e chegou. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. Paris: Les Belles Lettres. Paul Mazon. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. Émile Chambry. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. Loeb Classical Library Vol. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. Tome V. segundo o poeta Ésquilo. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. Cambridge: Harvard University Press.

In: Tragédies Grecques au Fil des Ans. F. 1965. A. J. As Realezas em Homero: Géras e Time. 1990. Rio de Janeiro: Sette Letras. Les Antiquités Grecques du Musée Calvet. 1995. 1996 (1937). 1988 (1965). F.). 1995.) La Grèce Ancienne.B. Les Hésitations d‘Agamemnon. 1995. J. LESSA.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY.I. Paris: EHESS. 1999. 1998 (1970). de Souza. SCHEID-TISSINIER. 35-37. (org. Annales. Le Commerce des Dieux: Eusebeia. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. 1999 (1968). J.MULHERES NA ANTIGUIDADE . In: CAVALIER. 3.Madrid: Taurus. En Grèce Archaïque: Géométrie. MOSSÉ. THEML. M. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av. DETIENNE. 2001.-P.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne. São Paulo: Perspectiva. 425-441. (org. L. A Tragédia Grega. Phoînix. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. 20o. mai-juin. O. Historia. Paris: Les Belles Lettres. FINLEY. G. 2000. Essai sur la Piété en Grèce 33 . E. A Tragédia Grega. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. ______. À Athènes. V. A. SALLES. LESKY. In: MOSSÉ. VANOYEKE. Brasília: Unb. C. IRIARTE. ZAIDMAN.) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. In: VERNANT. Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ.S. C. N. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego. janvier 1997. Politique et Société. 1. Cl. KIRK. LIMA. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque. 1986. M. Lisboa: Presença. Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique. A. VIRET-BERNAL. (org.. 147-155. no. Avignon: Musée Calvet. O Mundo de Ulisses. Paris: Armand Colin. Paris: Payot.C. Cultura Popular em Atenas no V Século a. 601. Année.C. Paris: Éditions du Seuil. 1996. C. C.

Y la tomó y arrasó en diciembre del 689. cuya biblioteca. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción.ª Drª.). marchó contra Babilonia. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. 2007: 188). esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a. aprovechando la enfermedad del rey de Elam.NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof. deportados o vendidos como esclavos. el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. recientemente conquistada. descubierta en el palacio real de Nínive. España 34 . En aquel momento. el príncipe Asurnadinsumi. Los escasos supervivientes fueron expulsados. C. UNED. La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a. sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . Assur . En aquel momento del siglo VIII a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa. dejando al primogénito la antigua Babilonia. quedaba en manos del culto Asurbanipal. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. fueron llevadas cautivas a Nínive. Nabu. Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua.) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. centro del avispero antisirio.C.C. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib . cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino. cuyos dioses principales.. ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. 1. Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. Madrid. mientras que el núcleo original del reino.

la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). desde una influencia religiosa. Museo del Louvre (AO 20185). tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. 62. Seibert. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. en acadioasirio Zakutu. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre. 1973) pl. Naqi'a. el más joven de los cuales. era Naqi'a. Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. Asarhadón. esposa de Sargón II. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo.NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. tenía aún cinco hijos varones conocidos. no sólo personalmente. cuyo nombre semítico del sur. que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica. o arameo. junto con las diez tribus del norte de Israel. foto de I. Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. relieve de bronce. hijos de otras esposas. Senaquerib. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio. que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. 2. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios. ―La más pura‖. con su hijo. un princesa de Samaria. 35 . había nacido de su última esposa. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar. capital y región anexionada por Asiria. El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . afectado por una grave enfermedad crónica. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. Pero los hermanos mayores de Asarhadón. a la cultural o política. de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. Y más aún.

ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. Naqia. que ya había fallecido. el príncipe Sinandinapli. intelectual y sensible . pero partidarios del nuevo príncipe. al norte de Mesopotamia. que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. oniromancia incluida. quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. hijo de la reina Ešarra-hammat. entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen. la reina Ešarra-hammat. Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. Una curiosa trama. que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. y la reina-madre.NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas. difícil de cumplir. decididamente antia-sirios. sería para el hijo mayor de Asarhadón. Y probabilonio. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . Asurbanipal. Pero no cabe duda de que no estaban solos. su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672. que. Ellas debían tener numerosos partidarios. su propia madre. 1987: 140-145). Assur. Y sin duda los utilizaron. desde luego. eunucos de la Corte incluidos. Y debieron ayudarles elementos afines arameos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Asurbanipal. Y dos reinas le ayudaron: Un viva. entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk.

Ataliā (KAMIL. Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) . 1999: 17. 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE. Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. PNA 1/II 433). que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. 844/3 BC] y nieta de Omri. n. madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. es el de una mujer.NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón. la lengua de la reina de Sargón II. es claramente hebreo (cf. Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así. y 2 Cron. semitas del sur. Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. 3. 1987: 140-145).( 2 Reyes 11. la reina Ešarra-hammat. aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. Naqia y Essarra-Hamat . por lo que su papel no solo fue político. en el año 673. en la Corte asiria. 22- 37 .6) ). por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. sino también muerta. Teepo reconoce (TEEPO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . el mismo nombre en acadio. 1999: 105-112). también llamada Zakutu. cuyo nombre significa ―La más pura". Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones. madre del Asurbanipal. la reina Naqi'a. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. la presencia de estas mujeres arameas. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9. madre de Ahaziah [c. Y no solo viva. sino también económico (MELVELLE. Naqi´a era esposa de Sennaquerib. Su sucesora.Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina.

Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias. 217). y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no.v.7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER. Iabâ ) o el de Naqia (Aram. Y el nombre de la reina de TiglathPileser III. aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645). Naqī‘a). STRECK. magistrados. ―pura‖). ministros y eunucos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 915-9. posiblemente en Assur. Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia. 1999. PNA 2/II s. mi señor]. lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. Yabâ. en colaboración con sacerdotes. actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora . la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE. Ešarra-hammat fue reina de Asiria. que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta. es tan 38 . posiblemente. durante cuyo reinado creció la influencia de su madre. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal.v. Ella construyó un palacio para su hijo.C. Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188. sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real. Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672). fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. No hay referencias a ella durante su vida . que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81).NEA/UERJ 24). deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM. I. 5). (AfO 13 T4). 1956: Ass. PNA 2/I s. Algo que había sucedido ya con Asarhadón. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r. esposa de Asarhadón(680669).

a este respecto. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia.. y delante de (. Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib. apoyada por los dioses Shamash y Adad. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. 1).. no sólo en materia de culto. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. sino lo que aquí se trata de comentar. que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia.). para que todos respetaran mi derecho a la sucesión.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Cuando. no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. recayó sobre su hijo más joven. Lo que evidencia su importancia. SAA 13 76 . pero. cuando al fin lo hizo. 5. SAA 13 77)." 39 . los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274).. interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad. todos juntos. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE. pequeños y grandes. Las dificultades en la Corte parecían evidentes. a pesar de todos sus esfuerzos. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'. 1999: 105.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra. Asarhadón. su elección.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r. TEEPO. a los habitantes de Asiria. (mi padre) reunió entonces. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses. a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre.. 2005: 37) y numerosos servidores. por orden de los dioses (. su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154). mi padre.

debió alejarse entonces de Nínive. a fin de desacreditarle y atemorizarle. una vez más. "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc. su dios. en cuya elección debió influir notablemente su madre. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta. Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. "El día 20 de Tebet. prebendas y riquezas. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. Senaquerib. Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón.. Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. su hijo. hepatoscopia incluída. 38. la reina aramea Naqia. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. era el de la fallecida reina de 40 . buscando refugio en algún lugar desconocido. a la ayuda de sus partidarios. Aunque esta vez. El día 18 de Sivan.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. debió recurrir. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron. ascendió al trono. C. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. podían ser indestructibles. perdidas a causa de los invasores tierras. Sin perder por ello el título de príncipe heredero. estaba algo irritado. más allá de Khanigalbat. según el Antiguo Testamento. Assarhadón. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima. llamada en acadio Zaqutu. con lo que se le acusó de traidor a su patria. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat"." 132Cr 32:21. Que a la hora de elegir al heredero. recurriendo a la aparición de un fantasma. que para Parpola. Isa 37:37. que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio. e incluso su padre. esta vez de Asarhadón.

Algo que su heredero tuvo que justificar.C. intelectual experto en adivinación por aceite. el mismo año que su otro hijo. Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte. porque no debía estar la situación muy clara. madre del príncipe Asurbanipal. PARPOLA. el hijo menor del rey. y que la piedad del príncipe para con su madre muert..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tal vez. estaba así sancionado por el fantasma de su madre. lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre. 1993). a fines del año 669 a. es decir.NEA/UERJ Asarhaddon. a la vuelta de una expedición a Egipto. la ciudad del dios Sin. 6. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal. Ešarra-hammat. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. una vez más. que había ordenado quien sabe si a su esposo. entre otras disciplina adivinatorias. 7. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. el premio por honrar la memoria de su madre. nuevamente. El reinado de Asurbanipal. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. El Príncipe recibe así. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. la fallecida madre del príncipe. preocupado sin duda.C. como había sido su propio caso. que su hijo pequeño le sucediese. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. cuando exigió a la 41 . El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. NATCP. como en su caso.. tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan. aunque ella hubiese desaparecido. se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño. su fantasma. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. cuya muerte debía ser muy reciente. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. que tal vez la añorase ahora . Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto).

temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. Según Melville. al juramento. 8. C. 2009: 170). aunque si su poder crecía. con su madre. jefe de la casa del rey y el harén real. la aristocracia y la nación asiria. a la magia. como en el caso de de Betsabé . y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos. Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. Y además. era la que había permitido. Pero el fantasma vendría en su ayuda. Así púes. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. sin duda. su suegra Naqi´a. principalmente en el harén. conservárselo.) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. ocupó la vacante política. A la muerte de Ešarra-hammat. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . a veces el rey podía alejarla de la Corte. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea. madre de Asarhadón. la reina Maaca. que la joven llegase al lecho de su hijo. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8). El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder. como hizo en Judá el rey Asa. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. la esposa preferida de David. Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. que ayudada por el profeta Natan el profeta. debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. ritual y oficial de la reina fallecida. bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a.NEA/UERJ familia real. a la coacción. gobernando entre 913 y 873 a. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea. Para ello hizo intervenir también a los dioses.92.MULHERES NA ANTIGUIDADE . llamada Adonías. Ella. como madre del nuevo rey.. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón.

rey del Asiria. rey de Asiria. un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio. madre de Asarhadón. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. no se rebelará contra su señor Asurbanipal. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal. ni tramarán para asesinarle. rey del Asiria.) Esposa de Senaquerib (h. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera. rey del Asiria. 2005: 36) . Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera. eunucos. 670 a.C.C. los prenderás y matarás y les 43 . TEEPO. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado. Quieran Ashur. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE.C. lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey.710 a. 1999: 29. reina de Senaquerib.) Madre de Asarhadón (h. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él.700 a. brujas.) Abuela de Asurbanipal (h. referente a su nieto preferido Asurbanipal. como en el caso de Natán. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h. si lo oyes y lo conoces. C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón. su madre y a su señor Asurbanipal. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey. pitonisas. venga a informar a Zakutu. 670 a.NEA/UERJ que conocemos. rey de Asiria.) ―Tratado de Zakutu. exorcistas y profetas.

M. de las autoridades asirias. BURROWS. Una vez más. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 1997. New Haven: Yale.). ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra. Gender and representation in Mesopotamia. Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. I. 96-116. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. BAKER. volume 3. L. part II. DIRVEN. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. L-N. PS . American Oriental Series 15. 2001. Religions in the Graeco-Roman World 138. (ed.NEA/UERJ traerás a Zakutu. 2000. The Basis of Israelite Marriage. ______. ______. part . magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. volume 2. su madre y a Asurbanipal. 74-90.). (ed.‖ WO 28. ______. 44 . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI. The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. 1999. H-K. Women of Babylon.I. London and New York: Routledge. ______. Z. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. 1938. H.‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . rey de Asiria. volume 2. a cuya elección había contribuido sin duda. Para ello. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. part . hasta un fantasma era bien recibido. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 2001. OrNS 47. tu señor‖. 2002.C. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. por suerte para la posteridad. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. Leiden. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 1978.

Edited by Mikko Luukko. Proceedings of the XLVII e Rencontre Assyriologique Internationale.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de. J.). (1982): ―Importance et rôle des Araméens dans l'administration del l'empire assyrien‖. Jahrbuch des Römisch . Helsinki 2009. Kevelaer: Verlag Butzon und Bercker. In: JAHRTAUSEND V. Letters from Assyrian scholars to the Kings Esarhaddon and Assurbanipal. S. J. 1982. ―Inscriptions on Objects from Yaba's Tomb in Nimrud‖.). Politische und kulturelle Wechselbeziehungen im Alten Vorderasien vom 4.). Gräber assyrischer Königinnen aus Nimrud. R. and Scholars.germanischen Zentralmuseums 45. Vol. J. ______. In Prosecký. P. pp. Studia Orientalia.175-181. PARPOLA. A.NEA/UERJ ______. The Role of Naqia/Zakutu in Sargonid Politics. bis 1. Nissen and J. Second Edition. GARELLI. MELVILLE. 1983. Helsinki . 167-177 ORNAN. Helsinki: The Neo-Assyrian text Corpus project. Renger. WHITING. 200-201. Commentary and appendices. 437-447. SINGLETARY. (ed. Mesopotamien und seine Nachbarn. 1927. 1999. 139167. Published By The Finnish Oriental Society 106. vol 2. 4. In: PARPOLA. ― Syria-Palestine under Achemenid Rule‖. NOVOTNY. Intellectual Life of the Ancient Near East: Papers Presented at the 43 rd Rencontre assyriologique international. Saana Svärd and Raija Mattila. S. In: DAMERJI . Helsinki: Neo-Assyrian Text Corpus Project.). T. ―Les Dames de l‘empire assyrien‖. Trees. Kamil. Mainz. 1998. D. CRRAI 25 = Berliner Beiträge zum Vorderen Orient 1. M. 2. 13-18. 45 . Of God(s). PNA 1/II 433 LUCKENBILL. Part II. Kings. 2002.. Alter Orient und Altes Testament 5/2. In: BOARDMAN. Ancient Records of Assyria and Babylonia. State Archives of Assyria Studies 9. S. (ed. In: Neo-Assyrian and Related Studies in Honour of Simo Parpola. (ed. M. ―The Queen in Public: Royal Women in Neo-Assyrian Art‖. Prague: Academy of Sciences of the Czech Republic Oriental Institute. J. 1999. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag. Sex and Gender in the Ancient Near East. The Cambridge Ancient History.. 1988. ―Family Ties: Assurbanipal‘s Family Revisited‖. (eds. vol.

pp. RADNER. -Id. RADNER. Pretoria Oriental Series 1. Letters from Assyrian and Babylonian Scholars. 1987. O. part II. B-G. F. Reade.). 4.34. volume 1. ______. 1954. Paris: Editions Recherche sur les Civilisations. VÁZQUEZ HOYS. (ed. A. 4. 46 .).3 Daughters of kings and other royal women. Historia del Mundo Antiguo (Próximo Oriente y Egipto). (ed.). Marriage and Family Life in Ugaritic Literature. no. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. Madrid: Editorial Sanz y Torres. Assyrian Prophecies. SAAB II/2. SAA 10. van. K. Studia Semitica Upsaliensia 8. SELMS. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis. Part I: Letters from Assyria and the West. 1974. part I.NEA/UERJ ______. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project.43. J. Woman in the Ancient Near East. ______. (ed. . S. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 2005. (ed. ______. 73-76..-M. 1943 TEPPO. SAA 9. Nuzi Real Estate Transactions. 5522. STEELE. Women and their agency in the Neo-assyrian empire. ―Was Sennacherib a Feminist?‖. Archives and Libraries in the city of Assur. 4. 1986. ______. 2007. ―National and Ethnic Identity in the Neo-Assyrian Empire and Assyrian Identity in Post-Empire Times― In: 48th Rencontre Assyriologique Internationale. 18.2. 1999a. Hesinki. Leipzig. Leiden 2002.).MULHERES NA ANTIGUIDADE . (ed. R. In: DURAND. Assirian Royal Women. Tesis Doctoral. 4.1 Queen‘s . The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. I. 1993. Vol. Journal of Assyrian Academic Studies. 1988. (ed. SEIBERT. 1987. 2004. volume 1. 40 . K. 1997.). 34. New Haven. Helsinki: Helsinki University Press. London. Queens household. SAA 1. Helsinki: Helsinki University Press. pp. The Correspondence of Sargon II. 1998.). Helsinki: Helsinki University Press. Mª. A. PEDERSÉN. 2. ―The Neo-Assyrian word for ‗queen‘‖. American Oriental Series 25. J. A. devoted to the theme “Ethnicity in Ancient Mesopotamia”. La Femme dans le Proche-Orient Antique: XXXIIIe Rencontre Assyriologique Internationale.

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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Helena. (FARIA. . alimenta contra os gregos. como tudo quanto/ me aconteceu. pois. Teonoe. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça.que baseia-se na exemplaridade doméstica. 1990). silenciosa. porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias./ de que houvesse nascido um ovo branco. a boa esposa.) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. rei do Egito após a morte de Proteu. no entanto integradas. sendo a mélissa. as Panateneias e também as Tesmofórias. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos.. sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. a astúcia. emoção. Enquadra-se. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura.apesar de ser uma espartana..349 a 359). e que a beleza/ cedesse em meu semblante. não admira o estratagema de Helena. com quem tem uma filha. porém. do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. 54 . ainda que a contragosto. estão. 2007: 211-212). Entre as próprias mulheres. e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno.NEA/UERJ Menelau. especialmente. como/ as cores da pintura. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. Minha vida/ é maravilha. Helena é ardilosa. por diversas formas. ou grega ou bárbara. parte dela o plano de salvação de ambos. acumulava ambas as características. do marido daquela que deseja esposar. astuciosa. na vida religiosa da cidade. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(. portanto. ambigüidade de caráter./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda. no estatuto da mulher ateniense. Seguindo a ordem dos deuses. a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. irmã de Teoclimeno. a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem. No entanto. vs.MULHERES NA ANTIGUIDADE . havia um par de opostos. á fealdade! (EURIPIDES. A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade. segundo Andrade (2010: 117). está sendo representada por um ateniense . Hermíone. Helena.

da ruptura de contrato. Teoclimeno.. Digamos que há uma Helena que é Helena. para a esposa legítima do cidadão ateniense. encaminha para o Egito. Ali ela espera o tempo passar. que o desposa e permanece com ele até ser resgatada. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C. presente na bibliografia. Porém. sendo ainda possível. (EURIPIDES. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro. Bustamante. para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. e mesmo a mélissa. Helena é Penélope.. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica.C.C. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem. contudo. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. vs. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. Portanto. a esposa por excelência. espécie de fantasma. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. 26 55 . sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. a que está em Tróia com Páris. as pornaí e as escravas. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes.1329 a 1309) No entanto. Nosso olhar volta-se assim. primeiramente. permanecendo. da infidelidade. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a. É o protótipo da mulher fiel. obviamente. Helena.NEA/UERJ irmão. eidolon. Proteu. na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. lutando contra um só pretendente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as hetairas. e que Hera. jamais de uma mesma mulher. Enquanto a outra. a mélissa. porém. como as concubinas ou palákinas. há uma outra Helena.

como dissemos anteriormente. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. princesas. estruturas próprias (VERNANT. intenção. possuem sentido. a terra. tanto no espaço público quanto no privado. entre outras notáveis. vs. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus. que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes./ para livrar a nossa mãe. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra.50 a 54).. Helena. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia. No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. portanto. ao espaço de atuação de uma boa esposa. que se destacavam no campo político. 56 . Segunda a autora. Menelau lá governa por haver se casado com ela. é. Tragédias não são mitos. rainha de Esparta. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a.C. em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. (EURIPIDES. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. Helena. sua atuação está limitada. VIDAL-NAQUET./ do fardo de uma multidão inútil. mas não a vemos destacar-se no campo político. ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE . para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. o ponto focal do conflito. Helena é uma rainha. para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres.

mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade. sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. (VERNANT. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena. A primeira diz que 57 . por ordem de Zeus. primeira mulher. a mentira. A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos. ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. a graça. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza. ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . um duplo seu. com o auxílio de todos os outros deuses. temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. o ardil. a capacidade de persuadir e outras qualidades. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. VIDAL-NAQUET. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. foi levado por Páris a Tróia. à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. e Zeus destinou-a à punição da raça humana. criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. 1999: 23). a destreza manual. Pandora é. a manifestação de características típicas das mulheres. Pois. e posteriormente retomado por Menelau. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. Foi criada por Hefesto e Atena.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ignorado do agente.NEA/UERJ Na tragédia Helena. num mito hesiódico. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. a primeira mulher.

carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra. uma roubava. intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a.. 27 58 . Desta forma. a outra não trabalhava. uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite. a lista de deficiências é imensa. a ―real‖. e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. Uma gostava da sujeira. no século VII a. consequentemente.C. a mélissa. a outra era dissimulada. o infiel. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. segundo o recipiente em que é colocada. presença física. De qualquer maneira. uma falava demais. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra.C. uma comia as carnes consagradas. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖. pois esta é ainda mulher e. Esta é a Eva da Atenas do século V a. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. Ao comparar a mulher e os animais.C.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense. feito de éter. assim como a água altera sua forma. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade. a outra era ardilosa e astuta. mudando constantemente de sentimentos. Ainda que este seja o transgressor.. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha. a outra se banhava em excesso. o causador da guerra. de Amorgos. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides.

Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. É descrita como fútil. abandonou-o para seguir a Páris. nem determinada como em Helena. que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. ainda que não o seja em carne e osso. a pedido de Zeus. enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade. mentirosa.. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. Em As Troianas. Nesta tragédia. ―mas. a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. assim deveria ser a esposa ideal. vs. a personagem recebeu um tratamento mais duro. querendo ou não. a tragédia não é dissociada do espaço político. 28 59 . O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. que traiu o marido. inevitável que este a possuísse. uma vez que. inclusive a rainha Hécuba. Em Orestes. 1638 a 1642). portanto.. como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. sendo. Até porque. e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. (EURIPIDES. Helena está junto das cativas. Recatada. portanto. silenciosa e discreta. Orestes. 2007: 91-92). sua imortalização quando Apolo. mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la. é acima de tudo. ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. 2006: 119). há um clima geral de rancor contra Helena.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas não é vista como uma igual por estas. Não fosse o estratagema de Hera. tornando-se mais superficial.NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio. ―Não é tão arguta como em Troianas. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖. Porém. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. tornando-a protetora dos navegantes. o reencontro com a filha. e por fim. a salva de ser assassinada por Orestes. vemos a sua volta para casa. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. vaidosa. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis.

ainda que nas entrelinhas. aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. de modo que. que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. concede voz. acerca destas mulheres. que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. representadas obviamente por atores masculinos. 2006: 83). nos permite reconhecer. rebeldes. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. assim. vingativas. prudentes em cumprir suas funções. traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou. (Estenóbeia. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público.C. Muito. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. A relação entre a memória. Fedra. mais provavelmente. 2007: 49). são ao contrário. políticas. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário.NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. 29 60 . possíveis. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. espectadores. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. e ―apresenta tanto heroínas depravadas. Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares. a tradição e as representações sociais. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. Ifigênia. Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. O tragediógrafo trás a público. pois Eurípides coloca no palco. culturais. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. comedidas. vias diversas. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. determinadas. assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. ativas. do imaginário29 ateniense do século V a. Eurípides ao apresentar mulheres fortes. o imaginário. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas. Macária)‖ (FARIA.

ao ser reinterpretada pelo teatro. por exemplo. F. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Segundo Mircea Eliade.de S. a novela – entendida no sentido televisivo . 2010. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. das origens de tudo o que se conhece e que. como dito anteriormente.M. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. novamente. de caráter fraco. 2005. a música. o cinema. 61 . LESSA. Tradução de José Eduardo do Prado Kelly. S.M. dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. sempre tendenciosa à mentira e à traição. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. sigamos então com Helena. como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável.. Rio de Janeiro: Agir. Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. povoa a literatura. consequentemente. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial. R. 1986. de forma geral. como Medéia. Mas. possivelmente traído por uma de suas esposas.(Orgs. o tempo do princípio (2001: 11). os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial.P: Labeca – MAE/USP. Ainda que. Helena. Helena. Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica. M. Rio de Janeiro: Mauad. até a atualidade. da C. Sendo.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES. BUSTAMANTE. configuram neste sentido. a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental.) Memória e Festa. como observado anteriormente.

1998. LESKY. de M. 1991. 62 . ______. SAMARA. A. M. R. 1990. 2000. FINLEY. GRIMAL. E.P. ______.. A invenção da mitologia. A Grécia Antiga. 2007. CAMPBELL. DETIENNE. José R. Ken. VIDAL-NAQUET. R. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Perspectiva. DUARTE. SOIHET. 2006.M. 2006. G. 1994. F. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Belo Horizonte: Autêntica.U. LESSA. Coimbra: F. 1997. A tragédia grega.. O Imaginário. Nicole (Org. São Paulo: Martins Fontes.. Os usos da mitologia grega.. Rio de Janeiro: Bertrand. CHARTIER. THEML. Mito e Realidade. (Org. LORAUX. Pierre. A História Cultural. 2000. I. FARIA. Sp: Papirus. São Paulo: Alameda. 2010. 2003.). Z. São Paulo: EDUC. Entre o Sagrado e o Profano. Madrid: Akal. CARDOSO. GONÇALVES. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. Lisboa: Edições 70. Labirintos do Mito. São Paulo: Associação Palas Athena. 1998. 1992. M. VERNANT. O poder do Mito. FERREIRA. K. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher. DURAND. A. P. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. 2003. M.L. 2005. R. Porto Alegre: UFRGS. MATOS. 2009. 1998. História & Gênero. de S. Entre práticas e representações. 2004. J..C.L. Rio de Janeiro: Mauad. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. S.). Gênero em Debate. Moses. J. 1999.S. LOWENTHAL. Campinas. El Pasado es un Pais Exraño. Aspectos da Antiguidade. R.C.. Rio de Janeiro: Zahar. FERREIRA. São Paulo: Martins Fontes. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero. 2001. FLOWERS. (Orgs. M.. Rio de Janeiro. J. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. São Paulo: Perspectiva. 1990. Paulina T. Rio de Janeiro: DIFEL.) La Grèce au Féminin. Brasilia: Jose Olympio: UnB. A. David. ELIADE. da C. DOWDEN. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. Paris: Lês Belles Lettres.NEA/UERJ BUSTAMANTE. NÓLIBOS. Betty Sue (Org. Albin. Goiânia: UFG.

no caso específico da sociedade romana antiga. Nas últimas décadas. 2008:40. os ordenamentos jurídico. de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. T.ª Dr. A perspectiva dos Estudos Culturais. WOODWARD. Woodward. quanto por meio de formas de exclusão social ‖. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. nas artes etc.) Identidade e Diferença. Fasti. decide. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. In: SILVA. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. se inocente sou. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história. na antropologia.. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem. Sinal é que a mereço. sejam individuais ou coletivas e. ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. CLAUDIA QUINTA. que és pura. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades. . (org.NEA/UERJ MAGNA MATER. E desatadas pelos ombros as tranças. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ó tu. e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. têm sua base no complexo sistema religioso romano31. ouve meus rogos. eu. E meu contrato por piedade aceita. na sociologia. aceito a morte.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. negam-no. delineando suas imagens e seus corpos. 30 63 . Petrópolis: Vozes. Sou inocente. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. familiar. político etc. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação.T. Deusa. K. que um teu prodígio O comprove e me salve. IV). Se me fores contrária. 31 Segundo K. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos.. ensinando-lhes seus lugares.

quanto por meio de formas de exclusão social‖. universalmente33.).. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação. U... The Blackwell Publishing Ltd. 33 KING. In: SILVA. segundo Ursula King. 64 . existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível. 2004: 71. religiões criaram e legitimaram os gêneros. (org. 32 KING. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. op. K. ser aceita como norma por mulheres e homens. de poder. WIESNER-HANKS. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX. e que deveria. interwoven frameworks. pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões. Religion and Gender: Embedded patterns.) 32. In: MEDDE.A. reforçaram-nos (.T.). termo que. A perspectiva dos Estudos Culturais. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. p. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (.NEA/UERJ mundo. Petrópolis: Vozes. T..MULHERES NA ANTIGUIDADE .). M... Religião e gênero não são apenas análogos. T. veiculando normas e valores. (edd. WOODWARD. 2008:40.E. 73. A Companion to Gender History. A sociedade romana era androcêntrica. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples. cit.) Identidade e Diferença. designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais. de autoridade. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. portanto..

―impedimento‖ que. N.cf. A. a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia.M. numa visão hipercrítica moderna. quando lidamos com um mito. Rio de Janeiro: Mauad X. Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos. Ano I. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF).NEA/UERJ ou vícios passados.. BELTRÃO. 1. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político.(orgs. redutora.) Repensando o Império Romano. (org. E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas. e tudo o que seria (para nós) político. Há muito que avaliar. SILVA. grosso modo. A cf. no. C. C. G. In: MENDES. os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito. B. nos traz problemas suplementares. De fato. e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo.MULHERES NA ANTIGUIDADE .V. A. Particularmente no caso dos mitos romanos. após o fim da monarquia. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas.. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço. TACLA. Os atos rituais romanos são. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. 2006. Em linhas gerais. Cadernos do CEIA. Considerando que não houve. criou-se um consenso de que. se não equivocada. na sociedade romana. percebemos que esta visão moderna é. ainda comum entre os próprios antiquistas. C.) Experiências Politeístas. que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. In: LIMA. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos. 2008. se expressa como ―escrúpulo‖. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. 34 65 . A Religião na urbs. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖. tem sua tradução e expressão no plano religioso34. no mínimo. C. pela proibição ou pelo temor reverencial. BELTRÃO.

criado por T. é uma categoria de análise estável e a-histórica. Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖. censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖. E. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs. nas mentes das gerações que os ouviam. 36 66 . e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade. estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. veiculando e instituindo recorrentemente.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. eram modelos de vícios fundamentais. 1-8). ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). Religião. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. vistos como falhas do grupo familiar. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante. posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ou mesmo da sociedade como um todo. e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. portanto. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. Nenhuma religião. Lívio ( AUC XXXIV. queiramos ou não. o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia. em suma. assim como nenhum gênero. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –. o ideal romano da castidade feminina. ver. como os papeis sociais de gênero. Os mitos femininos romanos são. somos herdeiros sob muitos aspectos. termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. por exemplo. narrativas que podemos considerar político-religiosas. identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina. sociedade e instituições são. na essência.

em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino.C..34). Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia. em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis. 14. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição). M. assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta. Clodia era a principal testemunha de acusação. ancestral de Clodio. 37 M. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. Cícero. o Censor. já que nossas imagines viris não a comovem. à época casada com Cecílio Metelo. o filósofo. Do mesmo modo. também relato por Lívio. pontuado por elementos teatrais. A acusação radicava. assumindo o papel de Ápio Claudio.. ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. Cael.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. concretamente.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. reprovando a irmã do tribuno.. nem progenitores como eu. ou Claudia Metelli38. sendo considerada 67 . cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. em 186 a. Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. o caso das Bacchanalia. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos. que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (.)? (Cícero. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. um modelo para a matrona. Clodio Pulcher. 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus). A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. Clodia Pulchra. Clodia Metelli. Clodia escrevia poesias em grego. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana. investindo contra P. a principal testemunha de acusação.

BELTRÃO. Clodia foi casada com seu primo. 1: 56-62. Ciências e Letras (FAFIUV). AJP 103 (1982): 299-304. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio. Q. the Megalenses and the Defense of Caelius. O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. à bebida. dedicados somente ao prazer. Atacando a Clodia. SALZMAN.univlille3.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia. M. Disponível em: http://dictynna. BELTRÃO. como nobres degenerados. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. membros da mais alta nobreza romana. sua antepassada. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. R. Disponível em: http://www.htm 68 . LEACH. é Claudia Quinta. A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. v.revistamirabilia. União da Vitória: FAFIUV. Cícero investia contra seu principal desafeto da época.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero.revue. C. Colóquios . O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios. Dictynna 4. W. Um mês depois do Pro Caelio. um mito político-religioso em Roma. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela. um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia. o nome da gens Claudia. a partir de então. Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações. Cícero. 2007. Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias. C.pdf. com seu comportamento ―imoral‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 40 cf. Os irmãos Clodios.com/Numeros/Num3/artigos/art2. Cecílio Metelo Celer. matrona que se tornará. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. Mirabilia 3 (2003). e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. E. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. 2007.NEA/UERJ por desonrar. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. como Cícero e Catão o Jovem. 39 cf.

cumprido com os deveres de seu ofício. Cibele43. o banho ritual da deusa no Almo. novamente uma referência aos Ludi Megalenses. no início dos Ludi Megalenses.NEA/UERJ Foi então. A data do discurso é significativa. com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har. aceita em No mesmo discurso. Outro rito era a lauatio. 27). em honra da Magna Mater. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia]. pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41. P. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril. e Cícero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a.C. sobre o qual repousa. A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. riacho perto de Roma. dentre outras. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. Os edis eram responsáveis. resp. nem teu próprio sacerdócio. que tem como primeiro dever mantê-los. pela supervisão dos Jogos. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. 41 69 . Cipião. censura a Clodio por não ter. na passagem. Cibele. havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. pensamos. cuja antiga austeridade era. No De haruspicum responsis. Q. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. merecendo a menção de Cícero no discurso. Claudia. Desse modo. era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. incluindo mimos (os ludi Megalenses). XIII. nem a edilidade curul42. quando edil curul. Jogos realizados durante o festival das Megalensia. nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados.. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas.

e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. Um novo incêndio no templo. escapara a um incêndio no templo. 46 cf.2 (2000-01): 141-162. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio. em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana. desta feita em 3 a. Claudia Quinta é. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família. então. bem como.C. Em geral. 44 70 . Cícero utiliza.11). que não chegou até nós. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . provavelmente. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos. para Cícero. portanto. conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45. para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal. radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. No seio do embate contra os Clodios. um modelo de castidade. ocorrido em 111 a. consultados pelo Senado. LEEN. quando os quindecimuiri sacris faciundis. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. declararam que as divindades romanas. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. fortíssimo. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖. A.. um modelo de emulação para mulheres romanas.8. com seu apelo tradicional à fides.C. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas. The Classical Journal 96. sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício. O argumento de Cícero era. 45 Esta estátua. 1. também deixou a estátua ilesa.

Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Roma era. Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a. precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília.C. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização. além de comunidades pastoris nos Apeninos. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates.C. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais. Roma. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. cidades etruscas. senhora da Itália. A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. agora. que jamais enfrentara um combate naval.). com Cartago47. como a tradição registra. 14. ilha situada entre Roma e Cartago. Aproveitando as dificuldades de Cartago. agora direto. Roma ocupou também a Sardenha. 47 71 . 9). mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago. centros agrícolas na Campânia. Após vencer a I Guerra Púnica. XXIX. e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. levando Cartago a aceitar um tratado de paz. agora. no norte da África. cidade fundada pelos fenícios no século IX a. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo. E a II Guerra Cartago. As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. C). Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. Lívio.). da Sardenha e da Córsega (237 a. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. Nosso contexto. agravado pelo contato.C.C. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater.

C. Em 209 a. A derrota romana em Cannae (216 a. trouxe grandes dificuldades para Roma48.C. verdadeiros tanques de guerra. invadindo a Itália pelo noroeste. a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses.. Só em 211 a. então. Finalmente.C. op cit. seguiu-se uma guerra de desgaste. 49 Segundo Durkheim. a guerra de Aníbal (218-201). o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica.C.C. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. com seus arsenais e minas de prata. Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas. que incluía seus temíveis elefantes. Os itálicos.. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes. 41. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam. A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. chegando a atravessar os Alpes. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a. sendo destinados a estimular. ficaram apavorados.. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos. Aníbal. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. Durkheim apud WOODWARD. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas. que se instalou em Cápua. causando graves problemas sociais na Itália.C. manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês. ―a religião é algo eminentemente social. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem. 48 72 . respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. A partir de 215 a. na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões. recuperou Tarento e Cartagena.MULHERES NA ANTIGUIDADE . foi um marco. que nunca tinham visto um elefante. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal. p. se dirigiu para a Itália meridional. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a.. abandonando a península itálica. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão.). Derrotados em Zama.NEA/UERJ Púnica.. enfraquecendo o poder da urbs. de um festival. recomendado o culto de Cibele aos romanos. perto de Cartago. segundo a tradição. Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó.

O favor divino.) Repensando o Império Romano. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden. Cipião Nasica e por Claudia Quinta.(orgs.C. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: . S. G. p. Ann. op. sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké. Por sua vez. Pela documentação percebemos que.61. C. e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50. os efésios. quando chegou a Roma.NEA/UERJ pleiteantes. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões.M. sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana. 53 BELTRÃO. No mesmo momento. a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. 1990. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf. em 191 a. líder das matronas romanas. 50 73 .V. a Magna Mater chegou a Óstia em 204. 51 GRUEN.. Rio de Janeiro: Mauad X. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano. Segundo Erick Gruen51. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis. 2006:146. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais.1). N. In: MENDES. no Palatino. Studies in Greek Culture and Roman Policy. sendo recebida por P. P. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. os galli. 3. A Religião na urbs. cit. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53. simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖. poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago. SILVA.. Tácito. E. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos. A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade.. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. 52 GRUEN. 27.

Dion. tb. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. a introdução do culto era uma inovação dramática. podem explicar a cidade mítica. COLONNA. de certo modo.I. sua autodenominação. cf. Ver.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. e. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia. ou neto. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. I Latini e gli altri popoli del Lazio. como o festival do Latiar. Virgil and Augustus‖. In: Itália Omnium Terrarum Alumna. Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. além de ter sido domesticada como Magna Mater. contudo. e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns. e é certamente preferível a sincretismo. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. – Pisa: Edizioni ETS. Fasti 4. 2008: 9-26.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. a mítica predecessora de Roma56. Hal.g. Ant. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado. Este termo enfatiza a integração. Mas o termo 54 55 74 . as aldeias dos Montes Albanos. derivado de interpres.3). Rom. inaceitável para a tradição romana. E. onde seu filho. suas vestes e penteados femininos. J. reunindo os povos latinos. Ovídio. T.19. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen. se o culto era novo e.P. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. a extensa Alba. Então. 57 Interpretatio. uma montanha próxima de Tróia55. cf. Italia y Roma desde una perspectiva legendária. s.247-72 de Ovídio. 1988.NEA/UERJ cuidadosamente controlados. Wiseman. ver os Fasti 4. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. interpres). Milano: Scwegwiler. 43. 2. ―Cybele.S. celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano. fundaria Alba Longa.v. MARTINEZ-PINNA. existentes desde o período do Bronze. Desse modo. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. G. simultaneamente. Cividale del Friuli.

a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. em seu poema político-filosófico De rerum natura. então. chocavam-se politicamente com frequência. E é ainda com essas também tem seus limites. por fim. p.) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. Ressalte-se sua instalação no Palatino. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs. e sua interpretatio. se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. 75 . 26. ao mesmo tempo. 58 Gruen. e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖. cit. A urbs estava unida por seus mais destacados membros. por mais brava que seja. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas. e o estudo de inovações religiosas. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago.NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58. Gruen chama. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. op. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial... como sustenta Gruen. à época da II Guerra Púnica. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode.

. segundo os antigos costumes sagrados. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros. silenciosa. segundo dizem. No festival da Magna Mater.). Grupos armados (. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. Juntaram-lhe eunucos. RN. II.. Por isso. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria. chamaram-lhe Mãe do Ida.) Tocam tambores tensos. tudo isso. os fieis.... apesar da interpretatio. (. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor. e. as mãos fazem soar. Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. anda muito longe da verdade‖ (RN. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal. (.) Logo que. côncavos címbalos... porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. as tubas cantam roucas suas ameaças. levada através da cidade. 600-642).. alegres como sangue (. e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio. apesar de tão belo e tão bem imaginado. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham. Vários povos. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59. no entanto.. revela-nos que Cibele. beneficia os mortais com sua calada proteção.) vão lutando entre si.. homens armados acompanham a grande mãe.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras. II. Apesar de seu ceticismo epicurista. que lhe faz dizer ―. no meio de um respeitoso temor. com generosa oferta. 643-44). pulam em cadência. sempre foi 59 76 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . à volta.

XXIX. VI. Lívio. e houve um lectisternium. p.. As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão. In: ______. (.L. para onde a estátua de Cibele era levada61.g. um nome se sobressaía. 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres.5-14). Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la. 96 ss. o de Claudia Quinta. R. Este era um dia de festival.cit.vol. de uma a outra sem falhas. The cults of the Roman Empire. p.) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória. Sua reputação que.. 14.. considerada uma deusa estrangeira. entregá-la às matronas para ser levada. no Palatino. 1. (. cit. Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino. Oxford: The Blackwell Publishing Ltda. Dentre elas. vol. NORTH & PRICE. em TURCAN. e em BEARD. e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. e Jogos.1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (. no dia que antecede os Idos de abril. após ser retirada com segurança. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. e. 1996: 28-74. como a tradição registra. 77 . 96 ss. 15) e em BEARD.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus... The Great Mother and her Eunuchs. 62 Segundo Varrão. que foram chamados Megalensia (T. até Roma.). a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L. op. op. na Frigia62. NORTH & PRICE... e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus. cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril..

A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. (Ovídio. são elementos significativos para nós. IV. sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. para ser aceita. a matrona com prévia reputação duvidosa. A figura de Cibele. Fasti. Cícero. de ―todas as matronas‖. antes de Lívio. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação. 78 . sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético. e a preparação da cidade para receber a deusa. Em Ovídio (Fasti. nada comenta sobre esta suposta reputação. quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. exigia. Esta versão de T. pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta. e seu culto demandava controle. cavaleiros. IV. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. Assim. O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. no desenvolvimento do mito. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. senado. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres. com base na tradição. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta. o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre as matronas. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. Em versões posteriores. por seus escrúpulos religiosos.

De torpeza era ré na voz da fama. Contudo. do antigo Clauso prole.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Matronas. ó Vesta. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos. cansam. Sem ousar a surdir. Claudia. ajoelha. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos. e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam. Delirante todos a crêem. Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar. pura na vida. enche d‘água as palmas côncavas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . suam. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. noivas. E desatadas pelos ombros as tranças. De hora a hora o descrédito medrava. virgens. Chega ao Tibre. . Com os olhos fitos na divina imagem. Dos penteados seus. todos no empenho Põem mais que humano esforço. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. Que prol. Virgens velam no altar teu santo lume. ouve meus rogos. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta. Por três vezes as mãos aos céus levanta. se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. 79 . rompe da turba. Sobre a cabeça a verte por três vezes. e as que. Lá vão correndo em confusão festiva. Tão bela quanto ilustre. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria. a crer no mal propendem todos.

a deusa testemunha sua virtude. solta-o e o conduz ao porto. encalha num banco de areia. Scheid. se inocente sou. complementados com fórmulas verbais e. e ergue seus braços. puxa manso a corda O que refiro é. aceito a morte. de quem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos. Claudia Quinta. Claudia Quinta se separa da multidão. se fosse casta. eu.. invocando a Magna Mater. Na poesia de Ovídio. havia uma jovem de origem nobre. e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. puxando o cabo do barco. Sobe uníssono aos céus clamor fervente.NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora. muitos levantavam calúnias. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas. por exemplo.) (Ovídio. que és pura. os oficiantes liam os textos. que um teu prodígio O comprove e me salve. e o discurso verbal é inseparável da ação. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente. Segundo J. Pela acclamatio de Claudia Quinta. Ó tu.. Seus atos eram. então. Deusa. que ainda hoje espanta em cena. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . o ritual é performativo. Sou inocente. negam-no. a glorifica. muitas vezes. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. Fasti IV. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. pedindo que. de puras mãos deixa levar-te – Diz. Se me fores contrária. Sinal é que a mereço. torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. portanto. Geralmente. asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta. decide. O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. os rituais incluíam fórmulas imperativas. Quando o barco encalha.(. Ante o povo a protege.

ou seja.MULHERES NA ANTIGUIDADE .v. s. J. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas. de figuras como a hipérbole e outras. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade. belos animais com chifres ornados. quanto no uso de neologismos. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual. propiciavam o favor da divindade.) remete à vocalização. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. 2003:98. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano. mesas enfeitadas etc. Assim. preces. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos. clamo). invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. reclamo etc. As acclamationes visavam. confirmavam a crença de seus fiéis. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo. e sinais aromáticos de perfumes e incensos. 81 . por exemplo. Outros elementos importantes dos rituais. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual. Bloomington. Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos. desta feita extraverbais. pois. An introduction to Roman Religion. expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo. na presença de uma audiência. proclamo. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. altares decorados. A mesma aclamação podia ser. tanto na estrutura rítmica. por vezes. Indianapolis: Indiana University Press. eram as roupas brilhantes. repetida. ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. mas também a aprovação verbal desta audiência. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. com o sentido de ―criar versos‖. não se podia voltar atrás. 64 O termo acclamatio. performances musicais. os celebrantes eram cuidadosos. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas. contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. derivado de clamo/clamare. vinho e carnes queimando no altar. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade. bem como outras derivações (exclamo.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. coroas e guirlandas.

e SCHEID. ou seja. MOREAU. de reconciliar alguém com uma divindade ou. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. irmão de Clodia Metelli. e J. Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. 65 82 . a instauratio. de um ritual em espaços cerimoniais. Brepols Publishers. em rituais como a euocatio66.(Coll. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum. b) a função testemunhal. W. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a. decidindo que o caso fora nefas. de l‘École Française de Rome. remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. em Roma. mais frequentemente.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. As acclamationes podem ser vistas. Segundo Cícero. portanto. J.-C. Podemos VAN HAEPEREN. mas também serviam para impressionar a audiência.a. e c) a função de instauratio (repetição). Le Collège Pontifical (3ème s. ou público. Ph. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio.-4ème s. um dos ritos relacionados à guerra em Roma.NEA/UERJ assuntos religiosos65. Este. Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. a divindades de povos inimigos. em primeiro lugar. portanto. Ver esp. J. 1981. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias. realizado no acampamento militar romano. 1982 : 58-62 .C. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. Era . 17) Paris: Les Belles Lettres. TATUM. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. durante a cerimônia da Bona Dea. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão.p. Un procès politique en 61 av.C. contudo. 1999: 62-86. J. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Paris : Palais Farnese. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual. Clodiana religio. F.C. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar. 6-7 avril 1978) Coll. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas. The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. como performances orais endereçadas às divindades. D »Etudes anciennes. ou seja. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram. que prometia domicílio e/ou culto.

E.F. Dictynna 4. 70 BEARD. iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Claudia. John North e Simon Price70 e. que realiza um milagre68. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. vol. S. 2 (A Sourcebook). VI. consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma.. Eleanor W. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade. Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69. W. por exemplo. turritae rara ministra deae: Propercio. A narrativa ovidiana desenvolveu-se.. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. na margem do Tibre.revue. o Antigo. A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma.. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. Religions of Rome. 10. posteriormente. 1998: 45-46. PRICE. que residiria na observância dos deveres familiares.R. Cambridge: Cambridge University Press.NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste. Elegia 4. Mary Beard. uxor Fulvi Flacci. 71 LEACH. de uma relação privilegiada com uma deidade. sob o Aventino: 68…uel tu.pdf 83 . electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret.C. Naturalis historia. 2007. a matrona romana encontraria sua gloria. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade. Propércio. NORTH.univlille3. 38.A. 51-52. J. M. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen). e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta. Disponível em: http://dictynna.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza.

em um navio. 72 84 . Na imagem.vroma. sentada num trono. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. nascida livre ou liberta. com uma provável aedicula atrás dela.org/images/raia_images/claudia_syntyche. datado do século I d. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e projeta-se numa plataforma. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. a um ramo da gens Claudia. com o chiton e o himation.NEA/UERJ (fonte http://www. ao modo da deusa. a deusa surge no centro. Esta figura também está velada e usa um chiton.C. ou seja.. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom.jpg ) O altar. mas provavelmente pertence. A deusa está vestida com um véu.

como tal. lhes era conferido um caráter de incolumidade. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. cf. nem o das matronas. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento. o eram da terra. e. 11)74. 73 85 . Cambridge: Cambridge University Press. O fogo das Vestais era. Rio de Janeiro. e a quem era facultado observar a vida pública. Se eram mulheres com privilégios cívicos. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais. e. próprio aos rituais agrícolas. protagonista da criação e. pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado. as Vestais eram revestidas de sacralidade. P. v. no século II d. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo. sempre elegantemente paramentadas... Religions of Rome. o prolongamento ígneo da luz. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. para tal.‖ cf. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. ver: BEARD. para os homens romanos a principal virtude feminina. Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― . M. não tinham o cândido significado das meninas. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. Se eram matronas. num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. podemos dizer que as Vestais. mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas. em Herodiano (Hist. Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal. 2007. especialmente em representações imagéticas.g. 70 (1980): 12-27. portanto. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard. Esta associação teve um longo sucesso. corpo da família. como surge. 2. 1998: 45. Quanto ao mola salsa. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . BEARD. 1. que na vida doméstica faziam o pão. até a modernidade. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. geração consumada. na poesia e na pintura através dos séculos.NEA/UERJ E. NORTH & PRICE. materializado pela exigência férrea de castidade. e a consciência desta oposição.73. os Di consenti. No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa. seria antes uma poção sagrada do que um alimento. geração em potencial. do devir dos elementos e de toda história. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos.. Phoînix 13. que remeteria a um regaço materno. HORVAT. exercendo o fascínio do interdito.C. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade.

portanto. com a ênfase positiva na castidade feminina. A casa familiar (domus) romana é um santuário. por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. por meio da geração de filhos homens. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico. sem maiores considerações a laços sentimentais.NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que não corresponde à virgindade. s. que teve um impacto direto em suas principais instituições. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. ambos. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. Em um altar (ara) de pedra. familia 76 86 . do culto dos maiores. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. e os principais ritos famuli. escravos. com seus Lares e Penates. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76. agora. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. Com o passar do tempo. que são. que implica propriedade e patrimônio. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. garantia a continuidade. está na base do regramento romano de gênero. próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. o laço religioso é o fundamento da família. exaltando a figura da matrona. de onde deriva o nome família: ERNOUT. A tradição da religio domestica. observar esta figura. já que a matrona.v. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. de forma quadrangular. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. E a mulher. não podia pertencer a mais de um culto familiar. aspectos centrais da reforma augustana. Importa. local no qual residia o Lar familiaris. Do mesmo modo. no casamento. instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. MEILLET.

ritos de passagem à idade adulta etc. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. P. sua propriedade mantinha-se no domus de origem. por exemplo. 77 87 . por sua natural falta de uirtus. é considerada débil. presididos pelo paterfamilias (casamentos. A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana... Do paterfamilias. e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma.). preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade. O poder de agir em ambas as esferas. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família.MULHERES NA ANTIGUIDADE . T. tangendo HALSALL. Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖. WIESNER-HANKS. portanto. a pública e a privada. A Companion to Gender History. A uirtus é. A mulher. significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo. In: MEDDE.A. tem a mesma raiz de uir (homem). The Blackwell Publishing Ltd. M. Paul Halsall diz: . que adquiria o manus sobre ela. Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher. (edd. apesar de.NEA/UERJ familiares ocorriam.E. como sabemos. A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. uma qualidade exclusivamente masculina. seus filhos e seus escravos (patria potestas). na prática. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado. manumissões. definia a identidade masculina. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. 2004: 293.).. Na verdade. Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. e apenas ele era um cidadão completo.

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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Gantz 1993:358-73. Zinserling-Paul 1979. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. Braswell 1988:6-23. resta-nos pouco para contextualizá-los. para entender os contextos e significações de tais aquisições. Jessen 1914. Candido 2010. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. de modo muito semelhante.87 Por isso. Clauss e Johnston 1997. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro). conferir Heydemann 1986.C. Tupet 1976. façam alusão ao episódio da carruagem. Corti 1998.NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes. 87 LIMC Medeia 29. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia. 2009:78-93. Mastronarde 2002:44-57. por sua vez.C. certamente. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. Simon 1954. HalmTisserant 1993. em vasos. talvez. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia. Meyer 1980. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma). Belloni 1981. de Canosa di Puglia. 95 . Direcionar. Lesky 1931. Vojatzi 1982. entre um par de serpentes que olham para ela. 245 –333 (especialmente. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos. Séchan 1927. 86LIMC Medeia 3-6. contida em um vaso de c. Moreau e Turpin 2000:ii. um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós.. Neils 1990. 330 a. então.530. inclino-me a acreditar que as imagens de c. 400 a. ainda. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A maioria das evidências principais é iconográfica. primeiramente atestadas em c. Ogden 2008:27-38. 312-15. de fato. Gentili e Perusino 2000. Schmidt 1992. que segura serpentes em cada uma de suas mãos. Contudo. GaggadisRobin 2000).C. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto.85 1. Griffiths 2006.86 Se estas. Moreau 1994. Parry 1992. É válido notar que uma descrição dessa mesma cena.

uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor.C.C. 42. correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante. no entanto. Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖. 48. muitas das quais. 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c. 119. 57. em diante. de boa qualidade. que eram frequentemente representadas. 108. porém. 92 LIMC Medeia 46. No próprio texto.C. 105. 63. 38. 107. de maneira muito próxima. então. 58. parecendo. 12. especificamente. 62.C. 11. 118. 67-9. 70. em diferentes configurações. 53. 460 a. 50-1. combinadas com as asas.C. Iason 73 = Medeia 37. deu asas as suas serpentes.C. 400 a.400 a. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a. 41.MULHERES NA ANTIGUIDADE . efetivamente.91 As serpentes mantiveram suas asas. ter sido elaborado tendo a peça. 51.400 a. ou não descartadas.C. não era bom o suficiente para um artista falisco que. 113. 91 LIMC Medeia 39. a partir de c. 39. Medeia 29. 80. na segunda metade do quarto século a. Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que. 58. 114. 88 96 . 36 (c. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. 116.400 a. 117.C. como as Erinyes (Erínias). 34-7. 73-4. 38.. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão. Iason 72.88 Desde c. uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico. 96-7. 18. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d.C. 64. tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares.90 As serpentes não aparecem com asas. conferiam-lhes uma aparência surpreendente.). 115. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas. não intimidadora. em mente.). 55. nesses vasos... portanto. Isto. 55. 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35.89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. Iason 71 (c. 27-30. de galinhas. igualmente.).). 52. 112.400 a.

apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia. 480 a.). não obstante. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e. cf. ter aparecido no palco. frequentemente. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N... se não na performance original de 431 a.). Se. de fato.C.C. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c. 114. aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições. 111. embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem. e Mastronarde. 97 . efetivamente.C. ou 400 a. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo. 480 a. demonstrada na Hypothesis. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é.96 Nas cenas de Triptólemo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. por exemplo. 450 a.C.95 e serpentes poderiam.T: Medeia 1321. novamente. e que. em uma reencenação distinta da peça. LIMC Triptolemos 91. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. 95Hypothesis. sugere que ela possuía a habilidade de voar. 100. efetivamente identifica aí uma linha de influências. debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos. e o contexto. que se refere. 105. a uma introdução de uma peça. Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. neste contexto. entretanto. O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c.94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. 116 (c.C.). anterior a c.C. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes. Eurípedes Medeia. a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser. presumivelmente.C. 470 – c.400 a. foi somente em 431 a.NEA/UERJ escapa de Corinto.C. certamente.

100 Com base nessa imagem.99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele. Argonáutica Órfica887-1021. Em versões tardias. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes.9. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida. 99Píndaro Ode Pítica 4. que jamais dormia.48. Naupactica FF6.123-66. caísse no sono. 100LIMC Iason 32. dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. então. Medeia. em 431 a.98 2.26). ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse. p.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aristófanes.97 Outra tradição interessante conta que. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. As Nuvens 749a. permitindo. Medeia 2-4.C. igualmente. Metamorfose 7. com a ajuda da filha do rei. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4.23. a Jasão roubar o velo. Apolônio Argonáutica 4. tornando-se jovens de novo. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo.24 Bond. Diodoro da Sicília 4.C. Ovídio Metamorfose 7. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. semeada com plantas mágicas e nocivas.149-58. Ferécides F31 Fowler.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson. O cheiro das plantas.. [Apolodoro] Biblioteca 1. LIMC Iason 22-54. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. esp.54-121. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. Eurípedes Medeia 480-2. Valério Flaco Argonáutica 8. 98 . 480-70 a.179-237. então. Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena. 236-7. Hyginus Fabulae 22. 8 West.ii. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque. uma vez colhidas.242-50. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes.

representa uma mulher com veu. [Apolodoro] Bibliotheca 2. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão. crua embora eloquente.9. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças.32. [Licofron] Alexandra 31-6.C.6. através de suas drogas.C.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a. LIMC Hesione 6. já teria sido totalmente engolido. provavelmente. ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c. abrindo caminho para sair da boca do animal. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea.T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas.. então. monstro marinho gigante enviado por Poseidon. 104N.C. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. a fim de matá-lo por dentro. 105LIMC Medeia 2.5. ou pelo menos metade dele. como Hércules fez com kētos102 em Tróia. Ovídio Metamorfose 11. 106Mimnermus F11 West. Valério Flaco Argonáutica 2. e um fragmento de Mimnermo.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão.4. Hyginus Fabulae 31 and 89. encontrando-se. 103Homero Ilíada 20.T: Iason 30-1 (vii a.145-8. no caminho para fora da boca do dragão. deliberadamente. Philostratus Minor Imagines 12. 33-5. Helânico F26b Fowler.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 99 .C. 42. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão. 660-40 a..101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito.105 O fragmento de Mimnermo de c. até que Jasão conseguisse lutar e resistir.2. sugere que ele. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio. 470-8. em que Medeia.199-215. Diodoro da Sicília 4.451-578. sem resistência e acabado.‖106 101LIMC 102N. 632-29 a. Outra possibilidade é a de que Jasão.). tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante. Duas outras peças do século VII a. A imagem contida na ânfora de Caere.

ao contrário. Ladon i 12 (450-30 a. 16 (450-25 a.). 500 a. Medeia. 500 a. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou. Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia.C. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças. LIMC Ladon i 13 (c. ainda.C. na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro). 500 a. por exemplo. 490 a. de deusas como Hera. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. é digno de nota que Ládon é. primeiramente. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c.. de fato.C. 15 (450-400 a.C. anteriores a Medeia de Eurípedes. ao contrário. 100 . a começar com a taça de Douris.). ou em relação aos guerreiros nascidos da terra. como nós veremos a seguir. e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas. estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar. 450 a.).C.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e. As fontes literárias e iconográficas do quinto século a.107 Quanto ao fragmento de Mimnermo. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse. É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs. Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. 480-70 a. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c.C. os touros de fogo. qualquer outra como.C.C. ele poderia..). ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes.). Atena ou Afrodite.C.C.C. como é encontrado no conjunto de fontes do século V a.C. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão.500 a. seguramente. ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c.).NEA/UERJ Mas em relação à ânfora.).380-60 a.. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida. c.).).

: Imediatamente Eetes. podemos olhar para a taça de Douris. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos.NEA/UERJ de Medeia. Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão.C. e nos perguntarmos se Jasão. Este. contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela. quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. ainda. tendo atuado sozinho. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo. ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra.108 Com base nisso. (Píndaro Ode Pítica 4. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono. permitindo.220-23. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn). O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente. está sendo vomitado pelo dragão.. aparentemente inerte. mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. a matadora de Pélias. o filho maravilhoso de Hélios.. Ao contrário. 101 . então. Arcesilau. Pois ele recaía em um pequeno bosque. feito pelos golpes de ferramentas de ferro. e levou consigo Medeia com sua cooperação. eventualmente. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa. o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos. Com dispositivos (technais). de talvez apenas alguns anos antes.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. Medeia. Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. nesta batalha.

Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete".MULHERES NA ANTIGUIDADE . c. igualmente. Nesta. 113 Naupactica F8 West. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente. após ter feito amor com ela.109 Um conciso fragmento de Ferécides. pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite.112 Em seguida. na tradição posterior. possibilitando a fuga dos Argonautas. Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c. não há. 111 Herodorus FGrH 31 F53. a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes.113 Essa narrativa. enquanto ela fugia com os Argonautas. então. aparentemente.. referência à participação direta de Medeia.111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a.NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade. com a ajuda de Afrodite. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados. enquanto Atena observa novamente a cena. relata que o dragão fora morto por Jasão. 109 110 102 . sozinho. 114 Eurípedes Medeia 480-2.. 470-60 a.114 É possível que esta afirmação.C. que mostra Jasão. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes. Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes. mais uma vez. fazendo com que.C. Ferécides F31 Fowler. dentro do contexto.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. portanto. eu indiquei para vocês a luz da libertação‖. 454 a. não há nenhum sinal de Medeia. ele caísse no sono. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54.C. acreditar. supostamente. LIMC Iason 36. na qual nós podemos ou não. também.

41-2. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. da mesma maneira. a mensagem parece ter sido a de que Medeia. ela pode ser atestada desde c. Hyginus e na Argonáutica Órfica. 119 LIMC Iason 40. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo). portanto.C.120 Como já vimos.118 Estamos pisando em terreno mais firme. Valério Flaco Argonáutica 8.115 Mais à frente.121 Apolônio Argonáutica 4. encontra-se também presente em Ovídio. emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e.-Apolodoro.?). LIMC Iason 39.119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente.220-3. segurando uma caixa de ervas. [Apolodoro] Biblioteca 1.9. 118 Píndaro Ode Pítica 4. em vez de fazer o animal dormir. 115 116 103 . após ter feito sexo com ela. cf. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida.. segurando uma phialē. Argonáutica Órfica 3.360 a.116 Iconograficamente.C. ps.69-121. quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c. 1191-1267.117 Contudo. de modo que ele.C.. Orphic Argonautica 887-933. então.C. 121 Naupactica FF6 e 8 West.23. já que o dragão está visivelmente acordado. caia em sono . Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 117 LIMC Iason 37. representa uma Medeia bem orientalizada.1026-62. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão.).149-58.415 a.NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. 380-60 a. permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa. uma cratera em formato de sino da Apúlia c. Ovídio Metamorfose 7. teria feito uso de suas drogas. Na Naupactica ( séc V a. provavelmente. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma.128..C. 120 LIMC Iason 38. Hyginus Fabulae 22. 270-45 a. Valério Flaco.

126 Valério Flaco Argonáutica 8. senhora do subterrâneo. no dragão. 124 Apolônio Argonáutica 4.145-66. em sua totalidade.380-60 a. LIMC Iason 40 (c.9. 39. 47b.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Novamente. fornecido por Medeia.). a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão. repetindo três vezes o feitiço.C. lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira.69-121.C. 125 Ovídio Metamorfose 7. 360 a.149-58. 41.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. e por último. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse. 380-60 a.C. presumivelmente em forma líquida. tiradas de uma caixa de medicamentos. mas o seu papel é. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c. de uma maneira bárbara. ela continua untando. 122 123 104 .). É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas. em seguida. ele próprio. LIMC Iason 38 (c. 42-3. 127 [Apolodoro] Biblioteca 1.).124 Em Ovídio.127 No sentido oposto ao da tradição. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal.23.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu. então. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c. 360 a. a Morte. ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro.‘125 Para Valerius Flaccus. Hyginus Fabulae 22. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono.C. invocando o Sono e Hécate. já que o poema favorece a atuação de Orfeu.123 Em Apolônio. praticamente e inteiramente reduzido.). uma técnica similar é usada: Jasão. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. por vezes. 46. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros.

39. 131 Apolônio Argonáutica 4. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW.NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão. que significa. 470-60 a. 133Pediásimo 11.5. A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130).) e Diodoro 4. schol. uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c. Não surpreende.C.C.1396-1407. que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente. Fontes tardias. Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs). e talvez.40. em sua forma canônica. As Hespérides eram personagens ambivalentes. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf. 3. curiosamente interligados. tesouros estes. vigia e guarda um tesouro de ouro. em todos os casos. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a.11.26-7. "maçãs" e "ovelhas". conectados pelo termo mēla. [Eratóstenes] Catasterismi 1.4.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. igualmente. as quais ele nomeia individualmente.g. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca.133 Entretanto. Nos dois casos. de acordo com algumas variantes. consequentemente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. semelhantemente. Primeiro mitógrafo vaticano 1. Em ambos os casos. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2. 128 129 105 . com o conto Ládon é próxima. Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3. a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens.132 Pediásimo. 130 E.128 Nas duas circunstâncias. apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado. Teócrito 3. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta.113.

C. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta. No caso de Medeia. Nas imagens de 380-60 a. ou pelo menos. distraindo-a com comida e bebidas. 135Ferécides F16c Fowler. em teoria.500 a.138 Mas é somente no período de c. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4. 106 .8 = LIMC Hesperides 64. A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica.. 30. 470-60 a. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖. Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava. pelo menos desde c. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda. encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente. 550 a.C. 28 (?). a fim de roubarem as maçãs.484. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c. 2726.139 A este respeito.C. 7 (c. 3. enquanto o gesto poderia. 137Pausânias 6. 454 a.C. 139LIMC Iason 40.).38. 63.135 De acordo com algumas tradições (não todas. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas. como veremos em breve.134 Ferécides. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . Hesperides 2.27. 2717. caia no sono. No entanto.29.136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida. 380-60 a. 9. a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Primeiro mitógrafo vaticano 1. em diante. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal.2-1. c.NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias. No caso das Hespérides. 41. 36. de fato.C. 136Diodoro 4. 138LIMC Herakles 2692..C. o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. em seguida. como veremos). Ladon i 6. enquanto 134LIMC Herakles 2703. 2707a.137 e.

guardião dos valiosos frutos. 340 a.C. 34-5. o próprio Héracles pega as maçãs. 350 a. faz-se visível. 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38.).146 Se essa hipótese estiver correta.C. evidentemente. enquanto no outro.. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor. a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a. uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules. 350-30 a.. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs). uma Hespéride. então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida. após ter-se apaixonado por ele.C.C. de qualquer tipo.. similarmente.142 Em uma imagem de c. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela.144 Especula-se frequentemente que. 29-31. 142LIMC Herakles 2726. 107 .). uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore.C. deixar seus olhos caírem no sono‖. quando o dragão que jamais dorme. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. semelhantemente. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente.C.).. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos.NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha. 4. 33-5. 63. Ladon i 9. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e. Em uma imagem no início do século IV a. tal como Medeia eventualmente foi.C.147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Herakles 2719.145 e em outras delas erōtes assiste à cena. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos.141 Em uma imagem de c. 36. Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs. 62. 145 LIMC Hesperides 26 (410 a. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2.143 Em duas imagens de c. então.

Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c. supostamente uma conhecida sua. Mas de qualquer forma. está a mais remota terra dos Etíopes. untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras. Aí. de maneira intrigante. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides. alimenta e toma conta de uma serpente. e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore. a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nostoi F6 West (c. a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides.). para as Hespérides em relação a Ládon. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe. 148 108 . a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. embora.738-41 (‗Agamede‘). a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta. À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148.480-6.C. nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado. em todo o caso. 630 a. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. tal como as Hespérides.C. 550 a. onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas. Homero Ilíada 11. do que vice-versa.149 Portanto. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides. 149 Virgílio Eneida 4. Logo. portanto.?).NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir). dessa.

Higeia. que apesar de ter se perdido no tempo. é claro.150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto.. sendo a mais proeminente de todas.C. 150 109 . e que. 151 LIMC Medeia 70.não existem maçãs. Hesíquio s. de alguma forma.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela. em Istambul. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia. mas sua iconografia é distinta.C. nunca. no início do século IV a. aparece representado em uma cópia do século IV a. Pausânias 9. tal como diversas outras divindades. embora esteja prestes a fazê-lo. árvores e. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas.v. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz. οἰκουρὸν ὄφιν. o seu próprio pai e companheiro.C. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado.C. representa Medeia. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas.. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a. Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada. tampouco.).40.410 a. a personificação da Saúde.151 4. a serpentes.NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente. permanece sem um mito. da iconografia de Higeia. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes). Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol.. Asclépio. vívida e largamente consistente. a presença de Ládon.g. Aí. Esse deus observa com interesse E. jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. em um vestido oriental. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon.41. Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta. oikouros ophis: Heródoto 8.

Schol. o arquétipo de monstro marinho. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais. Apolônio Argonáutica 4.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. também seria um irmão das próprias Hespérides. e de Fórcis. As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. desde avatar ou símbolo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ao menos.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. seu atributo. em outras palavras. a serpente. ainda. exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas. no tocante a Higeia. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. Como tal. 110 . que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. Na medida em que a serpente bebe. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e.1399. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz. ao alimentar a serpente. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides. até como um animal de estimação. Já que a relação de Higeia e. Entre essas figuras femininas. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. até mesmo de inscrições. De acordo com Hesíodo.

um aspecto de si mesma.v. Etymologicum Magnum. Higeia. por isso. 5. bizantinos) e modernos. enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar. em sentido maior ou menor. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . δέρκομαι). pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda). dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento. Certamente. já que o próprio nome drakōn. elas próprias. portanto. “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. essa serpente é. ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum. Etymologicum Parvum. A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo.77-8. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. é uma virgem até ser seduzida por Jasão.154 Se as Hespérides. de qualquer maneira. fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia. também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). s. segundo alguns etimologistas antigos (ou. a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. A própria Medeia. 155 Valério Flaco Argonáutica 8. ainda que com retidão ou com artimanhas. igualmente.‖155 Ela. é também evidente.NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf.62-3. à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides]. δράκων. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas. Salus e Valetudo). 154 111 . à época de Valério Flaco. 156 Valério Flaco Argonáutica 8.

C. Ai de mim. 380-60 a.157 Por quanto tempo. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade. seja qual for o caso. como foi primeiramente atestado em vasos de c. Mas. eu não matei você. (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão. eu imploro. de qualquer maneira. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel.MULHERES NA ANTIGUIDADE . então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que. Se a hydria proveniente de Caere de c. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense.41.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair. LIMC Medeia 2. 112 .660-40 a. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. pobre desafortunado.C. sobre um elemento externo. hesitantemente.NEA/UERJ o abraça. Pelo menos. antes de Valério Flaco. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial. você está predestinado a vivenciar um dia cruel. não está representando nem Medeia nem as Hespérides.93-103. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes. Heródoto 8. Então. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me. Em breve. embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício.

pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas. tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas.C. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad. é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida.161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras. quão intensas foram as raivas. que obviamente pertence ao período pós-Píton. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11. Em relação ao primeiro. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. então previa-se o oposto. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão.160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo). O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. Elas teriam surgido de Píton em Delfos.2. o momento Apolíneo do oráculo. e estas eram os animais de estimação do deus. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem. 113 . Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem. na qual a sacerdotisa pítia. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa. Luciano Da Astrologia 23.

sendo devorada pela criatura). por sua vez. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar.C. Em sua carta a sua esposa. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18.3. Eliano nos dá outro relato do rito. um pré-requisito. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a.140-293. naturalmente. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que. estão embrulhados no pano. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘. 162 Quanto aos cultos. 162 114 . uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio. virgens. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram. Sílio Púnica 6. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã.8 ext. Valério Máximo 1. O dragão. Plínio História Natural 8. cuja condição de virgindade era também. Se elas se mantivessem castas. por Lúcio Róscio Fabato.18. pedacinhos de comida. e comia somente o bolo daquelas que eram. aos escritos de Eliano). Aulo Gélio 7. 207 d.46. Arnóbio Adversus Nationes 7. Ele conta que em certos dias.19. posteriormente.36-7.C. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖.C. enfrentar os perigos como resultado. deixando os demais bolos para as formigas. portanto. e que iríamos. Floro 1. No início do século III d.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. Aqui. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. ou seja. carregam. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia).NEA/UERJ águas quentes. nós podemos supor. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco. (anterior. escrita em c. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó. em cestas.

acredita-se.3 Atos de Silvestre A (1). o dragão soprou seu hálito fétido no ar.6. 115 . e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. Ele. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto. os romanos.165 6. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco.NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. o destruiu. junto ao dragão (draco). então. Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era. e que uma vez por vez. PL 51. (?).163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica. são indicadas tendo como base sua virgindade‘. como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a.164 Um texto anônimo do século V. Os Atos de Silvestre. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio. De Promissionibus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sob o governo cristão de Constantino.D.. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema. no final do século IV a. matando. p. magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas. Privado de suas ofertas. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos. De Promissionibus. na virada do século IV para o V).C. um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço.835. então. mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1. compostos primeiramente. conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. na verdade.

isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia. o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas. como parte de sua elaborada descrição de Pélias. O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio. Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39. Lucano Farsália 6. 631-4. desde a terra dos Hiperbóreos.g. 166 167 116 .23.9.355-643. Apolônio Argonáutica 3.1354. 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx). Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes).401-21. 1176-1224.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto. As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion.106-8. Apolônio Argonáutica 3.29. Virgílio Eclogues 8. 1246-67. 171 Ovídio Metamorfose 7.71. 172 E. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra. 169 Valério Flaco Argonáutica 7. contemporâneo de Apolônio de Rodes. Claramente. Horácio Epodes 17. aos Marsi.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sobretudo. mas o seu elmo.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles. 488-91.169 7.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada.467-72.NEA/UERJ respeito166. 168 Valério Flaco Argonáutica 7. Em um episódio singular. [Apolodoro] Biblioteca 1. 170 Diodoro 4.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina. não uma pedra. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias. 8.51. 1026-62.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol.170 8.203.

completa. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima.174 Desde Sílio Itálico em diante. com a referida deusa. tendo combatido doenças com sua arte de curar.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea. No entanto. serpente). é claro. porém.27-9. também anguis. e que.NEA/UERJ Fucino. De tal modo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e até mesmo restaurando a vida nas pessoas. no final do século IV d. 117 .495-99. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. Sílio diz que Angítia. A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca. a Hidra.750. e como domar animais venenosos tocando neles. teria sido elevada à condição e status de uma deusa. conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium). Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7. ‗a filha de Eetes‘.175 Solino.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7. onde se localizava o santuário de sua deusa especial. faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino. ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida. 9. em meados do século IV. e.. Sêneca Medeia 684-705. à serpente controlada por Ofiúco. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce. a Píton. Sílio Punica 8. Solino 2. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent).759-60. Angítia. foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos. Ela recorre. ou ainda.176 Sérvio Honorato. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera. ao seu próprio dragão de Cólquida. portanto.C. por tal razão. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf.

180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto. tem de pagar uma dívida para com a natureza‘. onde seu irmão Apsirto foi enterrado. Suda s. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão. Respondendo aos seus pedidos. subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses.181 11.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26.95-6.C. Apolônio Argonáutica 4. Virgílio Eneida 5. cf. Por um lado. Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba. a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida.NEA/UERJ 10. ao invés de somente uma única serpente. tal como consta na Eneida. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Hyginus De astronomia 2. Eurípedes Ion 987-96. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento. Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. no século II d. em forma de cobra. Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente.179 O que temos nesse caso. Elas permanecem lá até hoje. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘. em certo nível. oferece um exemplo bem conhecido disto. pode ser lido. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e. Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona.v μασχαλίσθηναι. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras.. 118 . uma praga de cobras.477.12 (citing Euhemerus). assim. e se alguma delas acaba saindo.

C.193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3. LIMC Gigantes 389. Quinto Smirneo Posthomerica 12.). 314. com schol.11.). 2005-6. 600-590 a.).4. 2029 (c. 460 a.) 428 (iv-iii a. 500-490 a. Ferécides 22ab Fowler. 590 a. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6. 440 a. LIMC Harmonia 1 (c. 1996 (565-50 a. 192 LIMC Gigantes 311-12 (c.C.187 Belerofonte que mata a Quimera. 183 184 119 . 1990 (= Athena 11.C.).).C.). 2003-4 (c. 1992 (c. 2008 (c. 460-50 a.17.C). LIMC Gigantes 425 (c. 263-70). 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000 (c.274. Helânico F51ab Fowler.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes).6-26.).C.C.). 16 (ca.184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes.). 185 Píndaro Ode Pítica 10.44-7.3.185 Héracles que mata a Hidra.C. Ode Pítica 7. 21. etc. 600-595 a.1.).). Em uma ordem estreita. é claro. 12. 186 Hesíodo Teogonía 313-18.). 35.C.). 15 (= Harmonia 1). as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa.C. 440-35 a.C. cf. 19.63-6 e 84-90.289.186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas.). 2002 (c. [Apolodoro] Biblioteca 3. 500-480 a. 440-30 a. etc. Ferécides FGrH F11 Fowler.C. 132. 520-10 a. 23 26a. 1999 (c. 2010 (c. 190 Homero Ilíada 5.). Pausânias 5. Higínio Fábula 30.C.C.C. 480-70 a.). da mesma forma.370-50 a..) 24 (início do II d.3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc. a taça de Douris) e 36. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf.444-97.29-48. LIMC Herakles 1991 (c.C.C.C. 3. 500 a.192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse. 189 LIMC Iason 32 (c. Lucano 9. Jasão que mata o dragão de Cólquida.C. Ésquilo Fórcides F261 TrGF. 188 Píndaro Olímpio 13. 8 is ca. Homero Ilíada 2.189 Muito frequentemente.). 194 Virgílio Eneida 2. Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2.C.722. cf. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911.666-70.70. 151 (675-50 a.C. 120-2. 585-75 a.VI a.741-2. Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol.199-231 (com Sérvio ad loc.188 e. Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela.). 530 a.). 1995 (c. c. LIMC Perseus 113. Kadmos i 7-9 (no. 550).190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia .

561. LIMC Kekrops 34.v. parece até identificar como a própria deusa.v.199 E de acordo com Filóstrato. [Apolodoro] Biblioteca 3.195 Na cidade de Atenas. tanto em suas narrativas como também na iconografia. Plutarco Temístocles 10.C.).197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes). 197 Amelesagoras FGrH 330 F1.C. apresentam fortes paralelos. 435-30 a. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio.C. com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. certa vez. 500 a. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s.41. LIMC Aglauros 19 (c. Ovídio Metamorfose 2. Etymologicum Magnum s. V a. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon.24.C.). o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). Ἐρεχθεύς. 200 Filóstráto Apolônio 7.196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral.24.). ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope. Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo. criou um drakōn entre os atenienses‖.200 De fato. Hyginus Astronomica 2. 198 Heródoto 8. Erechtheus 30 (c. que Heródoto.13. Ἐρεχθεύς.). a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena. οἰκουρὸς ὄφις.7.MULHERES NA ANTIGUIDADE .14. os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia. Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes. 440-30 a. [Apolodoro] Biblioteca 3.). Eurípedes Ion 16-28. Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol. de fato. 32 (final do séc. possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio. ―A deusa [Atena]. 36 (c.14. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c.. Entretanto.C.v. 199 Pausânias 1. Etymologicum Magnum s. 450-40 a. ela. frequentemente. 195 196 120 .NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua.

Princeton. 1997. E. 29-65. 1931. JESSEN. A sua interação com o dragão de Cólquida.I. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides.1. 1988. mito e Magia: a imagem através do tempo. M. A. Halle... GAGGADIS-ROBIN. Higeia. GENTILI. a deusa-serpente dos Marsi. CLAUSS. GANTZ. 2006. Early Greek Myth. GRIFFITHS. Cannibalisme et immortalité. 121 . Westport CT. identificada com a própria Angítia. HALM-TISSERANT. Medéia.. Medea nella letteratura e nell” arte. ‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33. In : Moreau e Turpin 2000:ii.MULHERES NA ANTIGUIDADE . M. J.J. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. Rio de Janeiro. H. 2 vols. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões. e S. The Myth of Medea and the Murder of Children. 1886. Paris. 1993. LESKY. a sua própria mitologia. 75-71. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. ‗Medeia‘ RE 15.K. Medea. 1914. Baltimore.R. Medeia foi. L. PERUSINO. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas. O. B. Contudo. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides. (eds. Venice. HEYDEMANN. ‗Iason‘ RE ix. V. Medea. B. inclusive. 289-320. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar. por sua vez. L. CANDIDO.NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena. 1993. não somente assemelhada como. F. na forma pela qual a conhecemos. Referências Bibliográficas BELLONI. BRASWELL. 1981.). não obstante. Berlin. A guide to literary and artistic sources. 1998. 2000. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. 2010. (eds. Londres. pode ter.). mas. Jason in Kolchis. Johnston. CORTI. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade. T. as Hespérides e Medeia podem todas. Uma vez levada para a Itália.

J. Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds. Würzburg.-M. ______. SIMON. L. A Sourcebook. Euripides. OGDEN. (LIMC) MASTRONARDE. J. 407-63.Montpellier. MD. 2009. Magic. 4 vols. 1979. . 629-38. La magie. Paris. SCHMIDT. 1980. 1990. ‗Zum Bild der Medeia in der antiken Kunst‘ Klio 61. Des origins à la fin du règne d‟Auguste. 2008. 1954. ZINSERLING-PAUL. TUPET. Rome. New York. TURPIN. 2000. 1927. Wizards and the Dead in the Ancient World. Lanham. 1992.. MEYER. 203-27. i. D. SECHAN. Paris. 1992.1. H. Thelxis: Magic and imagination in Greek myth and poetry. H. M. ‗Iason‘ LIMC v. 122 .‗La légende de Médée‘ REG 40. 1976. A. (eds. Cambridge. A. MOREAU. D. Medea. 234-310. Witches. Zurich e Munich. ______. E. La magie dans la poésie latine.). 1994. VOJATZI. 1982. Frühe Argonautenbilder. M. Londres.-C. Le mythe de Jason et Médée.MULHERES NA ANTIGUIDADE . NEILS. 2002. Medeia und die Peliaden.1: 386-98. V. ‗Die Typen der Medeadarstellungen in der antiken Kunst‘ Gymnasium 61. PARRY.NEA/UERJ Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae 1981-99. Night‟s Black Agents. ‗Medeia‘ LIMC vi. 1990.M. 9 vols in 18 parts. Le va-nu-pied et la sorcière.

capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos. 201 123 . Bisneta. ver: WALLACE. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar.MULHERES NA ANTIGUIDADE .3556-3574. estreada em 1709. e foi estudada largamente ao longo da história204. especialmente durante o século XX. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. L. A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq.ª Sarah F. p. apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana. 204 Sobre a produção historiográfica. foi dedicada a Agripina. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203. naturalmente. XIV. Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto. bolsista da UFOP. 3. que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana.‖ Ann. filha. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine.ª Ms. mas que a mataria. nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina. 9. 1991. Ela é a principal. Fábio Faversani201 Prof. Para um exemplo notável destas reapropriações. contamos 49 personagens femininas. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. Segundo o historiador Tácito. Nos livros XIII a XVI. irmã. A figura de Agripina. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. que dá título à peça. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. considerada como um exemplum. Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano. esposa e mãe de césares. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical.

mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. nem sempre apresentam comportamento com características viris205. como por exemplo. I. masculino e política em contraposição a privado. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa. como por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE .como. Deste modo. 1992: 130-154. 205 124 . Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam. todas elas. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores. embora a percepção da divisão de espaços. Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. gêneros e funções . As personagens femininas. elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. 69. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. Ou seja. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende.) 206 MILNOR. considerando que elas eram peças do jogo político do império. a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais. Por isso. Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. a relação entre público. In: FELDHERR. esta é uma definição básica da transgressão feminina. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército. cf: BAUMAN. feminino e doméstico ser de extrema importância. no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política. Entretanto. não há transgressão206. ou seja. por exemplo. em todos os casos. denotam o caráter de exemplaridade. uma transgressão. 2009: 277. Mas. é considerada como transgressão do comportamento feminino. como apresentada pelas fontes. gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política.NEA/UERJ menções a mulheres.

o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. por vezes negativo e. pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza. Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas. como veremos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tácito as caracteriza também pela 125 . em outros casos. é mencionada em 31 capítulos. A própria figura de Agripina. notamos que 29. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. pois. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área.NEA/UERJ uma linha. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. ou seja. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. partindo das personagens femininas. foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. Muitas delas. aparecem somente uma vez na narrativa. como por exemplo. 59%. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais. aberta a negociações e a sobreposições. estão relacionadas a homens virtuosos. Já Agripina. a figura feminina mais frequente na narrativa. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. Percebemos que. mas não o fazem. embora considerada ícone da transgressão. Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. ambivalentes. Em outras palavras. apresenta valor por vezes positivo. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. não por acaso. Ademais. para além das características individuais das personagens. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino.

auxiliam na caracterização de outras personagens. quando ele foi forçado a sair de Roma. temos Antístia208. 207 208 126 . 71. como já ressaltamos acima. Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. Assim. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. XIV. Ann. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. esposa de Rubélio Plauto. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖. Dentre estas. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. de maneira que. Dentre as mulheres leais aos maridos. Em outras palavras. XV. Ou seja. 34. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. 22. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. ou seja. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. como se ligadas umas às outras. Além dessas. 209 Ann. em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. esposa de Traseia Peto. que também o acompanhou. temos Árria Menor209. XVI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para explorar esta hipótese. Ann. que quis imitar a mãe e morrer com o marido. Por fim.

16. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. além de perpetuar a imagem da mulher honrada. no prefácio das Histórias. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa. o único que. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. famosa pela frase ―Paete. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. Acresça-se que neste caso. No entanto. constantes generi. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro. supremae clarorum uirorum necessitates. escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. Traseia negou esta glória a Árria. mas sua lealdade vai além. 127 . ambição). Comitatae profugos liberos matres. ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. neste dilema. vaidade. Ou seja. ―Peto. 13. genros perseverantes. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. o que não interferiu na reputação elevada do casal. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus. non dolet‖211. poderia persuadi-la a continuar viva). parentes corajosos. Entretanto. foi persuadida por Traseia. 3. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes. Árria Maior. não dói‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. Ep. faz aumentar a glória deste. esposas seguiram os maridos no exílio.NEA/UERJ sendo que Tácito.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. Plínio.

212 213 128 . o foco da narrativa. Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. outra vítima de Agripina Menor. 2. que foi condenada ao desterro por Tibério. Ao comparar. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. por ter aproximadamente 20 anos. 12. Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. XIV. e Popeia216. XIV. 63 Ann. destacamos: Agripina Maior212. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente. Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. é a injustiça sofrida por Octávia. foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. Diferente das esposas leais. (mãe de Popeia.2. Ou seja. evidencia tais virtudes. Tácito não especifica se é Júlia. Júlia213. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. neste momento. XI. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. ver: Ann. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa. O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. destas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. 1 . 43. Tiberius. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. XII. 53. filha de Germânico. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). XIII. Vejamos. de Ann. 22. 214 Ann. estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. filha de Druso.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). apenas para narrar suas ações de lealdade. 63. que também foram desterradas. inspirava ainda mais compaixão. Calpurnia. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. ver: Ann. Lólia Paulina215. Tácito ressalta que Octávia. ou Júlia. Não por acaso. 216 Ann. associada a estes. XIV. A lealdade das esposas. a segunda esposa de Nero).NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. 12 215 Ann. XIV.

3) 218 129 .NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude. ou seja. (Ann. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. e Lólia Paulina. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. e uma vez durante o principado de Nero. resolvemos retroceder um pouco. e. Tácito relata que. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. As acusações foram forjadas por Agripina. dentre elas estava Calpúrnia. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. mas sua sentença foi o desterro. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas. elogiada por Cláudio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nero perdoou algumas vítimas de Agripina. o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina. O César proferiu as acusações frente ao senado. percebemos que as personagens Calpúrnia. Lólia Paulina. 12. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina. Portanto. Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. que foi chamada do desterro. certa vez. XIV. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. e deste modo. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. e Calpúrnia foi. depois da morte da mãe. e foi sentenciada à morte.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). Agripina não é uma má esposa por si. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio. já no início do casamento. que sofreram injustiças semelhantes. Elas foram acusadas no ano de 49218.

Para se separar de Octávia. mas o encontramos em Dio Cassius.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a lembrança do episódio. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. 222 Ann. Tácito narra que algumas. 3-4) 220 130 . 60 e 62. Entretanto. já estava estabelecida. capítulo 43. 221 Ann. LXII 13. XIV. XIV. é mencionada em três capítulos: Ann. XIV. por decorrência. 223 Tácito não cita este nome. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. 60. Tácito retoma o episódio no livro XIII. História Romana. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais. 4. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223.‖ (Ann. 5-6. e Acerrônia222. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio. aliás. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. XI. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. a escrava desleal de Agripina. devido à dor. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. a escrava leal de Octávia. Uma das escravas. que. neste momento da narrativa. Suílio. já havia sido morta neste momento do relato. quando relata as acusações feitas a P. mãe da segunda esposa de Nero. 1-2. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama. notamos que a personagem de Popeia. neste ponto do relato. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. 4. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. citamos Pythias221.NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. Seguindo esta mesma lógica. Como exemplos. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. através de seus atos cruéis e. por ser aliado de Messalina. As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. Deste modo. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. Messalina.

uma existência virtuosa ou viciosa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas diferente daquelas. MURNAGHAN. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. gritou que ela era Agripina. portanto. Assim. Em contraposição. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. Agripina. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor. O plano de Nero falhou. Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. modelo vicioso. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar. Acerrônia. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. a escrava de Agripina. Ann. 225 226 131 . 1960: 48. 167. 227 DAITZ. ficou calada e se pôs a nadar até a margem. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. 51 e 57. Interessante notar. num ato de esperteza. simplesmente o fazem. As interações não são circunstâncias isoladas. In: JOSHEL. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente. Mas em Tácito. Nesta perspectiva. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. nos exempla de escravos leais. modelo virtuoso. Deste modo. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. Envolvida na conspiração pisoniana. mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. XV. Acerrônia. mas criam em seu conjunto. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. fazem parte do exemplum que o senhor representa. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. ou seja. a liberta foi PARKER. como temos visto. p. então.NEA/UERJ Holt Parker225. 1998. ela também aparece duas vezes na narrativa226. percebendo toda a trama. as interações não só reforçam as características individuais. ambicioso e desleal. apresenta raciocínio servil e. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. XV. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. como mulher.‖ (Ann.NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito. 230 JOLY. lhe aconselhou o pior. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana. Milicho. resolveu pedir conselhos a sua esposa. 4) 228 132 . demonstram a superação de sua natureza. XV. significa uma transgressão. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat. assim como as esposas leais. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum. 54. e também fazem parte da natureza feminina. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada. que sem sofrer tortura alguma. denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros. Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais. e muitas vezes perverte estas mesmas regras. o que. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. 57.) 229 Como já ressaltamos. XV. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil. ao adotar um comportamento excepcional.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa. se o denunciava ou não. Em dúvida. 54-55. Tácito narra que ela.‖ (Ann. Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa. no caso dela. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. equestres e cidadãos romanos. multosque adstitisse libertos ac servos. no início do texto. Tácito compara a conduta dela. qui indicio praevenisset. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais. at praemia penes unum fore. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. liberto de Cevino. 231 Ann. 2. 2003: 71. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas.228 Os escravos leais.

reservada ao paterfamilias. 2001: 95. como por exemplo. propriedade física. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois apesar de possuir honor. cf: POMEROY. 1998: 87-93. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. 234 SALLER. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. mas que se faz ausente no escravo. Aqui. considerando tanto a casa.NEA/UERJ denunciar. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. o denunciou. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. os ganhos seriam maiores. Todavia. obedecendo aos deveres da ―amizade‖. Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. 233 133 . como também o controle sobre os residentes desta. 235 DIXON. ela não detinha a potestas (autoridade). Entretanto. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora). enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). que é reconhecida na materfamilias. 1995: 149-163. Milicho. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais. as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233. claramente. Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. igualmente ambicioso e desleal ao patrono. como o fato da mulher ter direito à propriedade. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores.

Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dentre eles estava o liberto Páris. tia de Nero. segundo Tácito. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. Agripina conseguiu provar sua inocência. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237. Nos capítulos 19. Domícia parece não ter sofrido punição.19. Inimigas de Agripina. Um exemplo é Júnia Silana. RODRIGUES. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. tinha acesso à casa imperial. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. e Júnia Silana foi desterrada. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. 21 e 22 do livro XIII. devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. segundo. 21 e 22. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. e sem filhos. principalmente através de Ann. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). Ao mesmo tempo. 12. XIV. XIII. Essas personagens com menor visibilidade. devido à ausência de herdeiros masculinos e. Deste modo. primeiro. A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. 19. Júnia Silana aparece associada à Domícia. que. viúva. uma mulher rica. estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. XIII. 238 Ann. 236 237 134 . 2008: 291.

Ela aparece pela primeira vez no livro XIII. Aelia Paetina.. 2. Como nos lembra Corbier243.‖ (Ann. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto. Retomando as personagens com menos visibilidade. além da avó paterna Lívia.. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. Claudii Caesaris filia. ad eliciendum vulgi favorem. LEVICK: 178. XV. Cláudio. XI. percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241. o casamento de Nero com Octávia. relacionada a uma falsa denúncia de conspiração. sobre este ponto.NEA/UERJ casamentos e filhos. no livro XV. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes. sua avó. filha de Claudio e sua primeira esposa. In: HAWLEY. o prestígio destas matronas foi. de certo modo. elucidativas. depois da pretendida morte de Nero. In: HAWLEY. 239 240SUETONIUS.comitante Antonia. e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Claudius. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula. o que explica a recorrência CORBIER. são. 3-4) 243 CORBIER. como por exemplo. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio. 53. De acordo com os planos da conspiração pisoniana. mandou divinizar Lívia240. LEVICK: 187. 135 . ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração. XIII. Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. depois de sua ascensão. Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro. pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. 23 e XV. 242 ―. por exemplo.. Claudia Antonia e Claudia Octavia. Curiosamente. 241 Ann. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. 53.. ex-marido de Claudia Antonia. logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio.

uma vez que além de mulheres. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. 1951. Texte établi et traduit par Henri Goelzer.C. Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. Histoires. 136 .1. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino. G. The younger. como indivíduos. SUETONIUS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (Loeb Classical Library). Cambridge: Harvard University Press. ricas ou pobres. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. Translated by J. TACITE. 2 vv. 244 Ann. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. (Loeb Classical Library). 8 PLINY. Oxford: Oxford University Press.NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. fazendo uso de personagens femininas. Translated by Earnest Cary. além de denotar os meios utilizados por Tácito para. Dio. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. estabelecendo. v. Rolfe. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas. 1989. as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas. Ademais. Cambridge: Harvard University Press. 60-61. elas são também aristocratas ou escravas. como identidades se construindo em oposição. Complete Letters. de Tácito. 2006. XIV. como pudemos observar. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. Translated by P. v. Walsh. 1925. portanto. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla. Roman History. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. Lives of the Caesars.

Suzanne. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles. Nuno Simões. and MURNAGHAN. JOLY. Richard. Wives. Cláudio e Nero. pp. 1991.). Kristine Gilmartin. 30-52.281-295. Andrew (ed. p. 1937. (Loeb Classical Library). Women in Roman Historiography. 2009. CORBIER. In: Goddesses. Tácito e a metáfora da escravidão. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire.NEA/UERJ TACITUS. ANRW II 33.157-178. Women in Antiquity: New assessments. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. Stephen G. In: HAWLEY. Translated by John Jackson. pp. Sarah B. Women and politics in Ancient Rome. Richard. pp. Madrid. v. v. p. PARKER. Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. Holt. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. Richard and LEVICK. MILNOR. Gerión. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. Sandra R.). Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. pp.149-189.). Kristina. 26. núm. 1960. 1992. Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. Fábio Duarte. London: Routledge. Mireille. 1903–1986.69-156. Sheila (ed.87-93. SALLER.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2008. Cambridge: Harvard University Press. In: FELDHERR.178193. and Slaves: Women in Antiquity. In: JOSHEL. London: Routledge.5: 3556–3574. POMEROY. 1995. 1998. London: Routledge. Sheila (ed. 81.1.276-287. The American Journal of Philology. Sandra R. DIXON. New York: Shocken books. 1995. London: Duckworth. Whores. The Cambridge Companion to The Roman Historians. 1998. Women in Tacitus. In: JOSHEL. DAITZ. In: Reading Roman Women. Tacitus‘ Technique of Character Portrayal. Cambridge: Cambridge University Press. São Paulo: Edusp. 2003. Annals. 2001. Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. WALLACE. London: Routledge. pp. pp. RODRIGUES. 137 . Barbara. and MURNAGHAN.

A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. parciais ou integrais. salvo entre as Musas. Dr. De acordo com o registro arqueológico. registrada desde os primórdios da civilização suméria. pela sua singularidade. 245 246 138 .NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. chamam-nos a atenção. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. da Universidade Federal de Pelotas. uma harpa de forma triangular. a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto. Professor de História Antiga. no terceiro milênio antes de nossa era. as cenas que representam o trígōnon. segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2).

247 139 . 121199. 1989 : 32-33. em forma de cabeça de touro. Londres.2). Fonte: SPYCKET. ― uma caixa de madeira. Proveniente das tumbas reais de Ur. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. inv. Conforme Kátia Pozzer (2007: 147. Meados do terceiro milênio. fig. Museu Britânico. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli. Londres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . recoberta de betume. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖. Acredita-se que este objeto.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. 1989: 34-35. mostra harpista animando banquete (detalhe). conchas e calcário vermelho. datado de 2600 a 2400. Museu Britânico. com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz. Fonte: SPYCKET. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247. serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur.

mesmo nestes autores. Mas. Mármore de Paros. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. 2800 a 2300 a. 140 .Fonte: Foto do autor. como um estrangeirismo. ao final do século sétimo. Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto. esse instrumento aparecia como uma novidade. inv.NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. Anacreonte e Píndaro. de fato. Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. 3908. Alceu. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica. Proveniente de Keros.). a Safo. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto.C. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

Os textos arcaicos e clássicos citavam. associado a Orfeu. COMOTTI. para Comotti. por sua vez. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. a pēktís e a mágadis. SNYDER. 1992: 70-74. por sua vez. três tipos de harpa. de quem seria aluno. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. A cultura grega do período clássic o.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. aluno ou mestre. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. ―Griechische Harfen‖. De modo geral. 1994: 304. tais como Antiphemos ou Eumolpos. Heinhard. Athenische Abteilung 54. requintes orientais. Na iconografia ática. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional. 1989: 147-151. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento. 1983: 57-71. A iconografia ática. como membro da confraria musical divina. MAAS. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento. dispensando o uso do plêktron. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. apontados ambos também como pai dele. o trígōnon. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. amante.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a Tamiras. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. 164-193. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. a Apolo. e duas outras formas. p. Para West. Segundo Pierre Grimal. termo derivado do verbo psállein. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito. de quem seria filho. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST. o termo psaltría. não angular. 248 141 .)248. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos. 1929. seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. Museu aparece com freqüência associado às Musas. 1991. Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. verbete ―Musée‖). e a Linos. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. então.

numa kýlix de Paris.Museu toca trígōnon. & MURRAY. enquanto o professor. 19. c/fig. aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). simboliza o jovem ateniense livre. apresentando Museu com um trígōnon. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos. de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. estudados por Giuliana Ricioni.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Oswyn. encontramos uma pequena série de vasos áticos. Oxford. o pintor nos surpreende. The Education. entre seis Musas (uma com lýra.Fonte: Foto do autor. De certa forma. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra.) The Oxford History of the Classical World. Figura 4 . In: BOARDMAN. ―Life and Society in Classical Greece. No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia. Kýlix. comum nos vasos da segunda metade do século quinto. Tamiras toca kithára.NEA/UERJ e ao ambiente escolar. Bib. 430-20. Atenas. olhando um díptykhos aberto. 227. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas.: MURRAY. Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo. p. Pýxis. Louvre. sentado sobre um klismós. G 457. É assim que encontramos Museu. nu.. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé. Em torno de 420-10. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). J. Museu Nacional. Figuras vermelhas. 249 142 . Paris.636. GRIFFIN.‖. O. (org. J. está abrindo um rolo. produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século.249 Nessa mesma perspetiva. outra com rolo) e Apolo.

Descrição: Mousaios com lýra. Roma.NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. Para 443. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação. Para 398/70bis). Villa Giulia. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas. Berlim. Figuras vermelhas. (ARV² 623/70bis. 2391. a harpa (RICCIONI. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon. ―cítara de berço‖ no campo. Figuras vermelhas. Add² 319) Londres. Figuras vermelhas. Museu Britânico. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos.1a-c. Pintor de Villa Giulia. Melousa com aulós. Staatliche Antikesammlungen. 2) Hydría. Pintor de Peleu. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras. tal qual às Musas. 1986: 730-744) 250. 250 143 . 440.MULHERES NA ANTIGUIDADE .: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. (ARV² 1039/13. E 271. sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. Bib. 11. Ca. Retornando à classificação organológica.15. Terpsichore com pēktís. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto. usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos. enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís.: MAAS. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. 1989: 163. Bib. quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). 460-450.251 Hydría. fig. pr. 64917. 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora. SNYDER. à cultura e à educação.

indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. Lucaniana. Ápula. IV. Metropolitan Museum of Arts. figura iconográfica que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 81392. Nápoles. Séc.1a-c.6. A representação do trígōnon. Eupolis. 252 144 . 11. apesar da sincronia existente (Sófocles. ao mesmo tempo. Figuras vermelhas. IV. 3) Ânfora. fr. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. Phérekrates. 81953.360. 2) Cratera em cálice. Final do séc. Na iconografia ática do Estilo Clássico. Ápulo.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. Em torno de 440. IV. Museo Nazionale. 42-Edmonds. Ápula. Figuras vermelhas. Ápula. Séc. Alabastro. Londres. Nova Iorque. 77-Edmonds e Platão comediógrafo. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc.252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense. ―cítara de berço‖ suspensa. Figuras vermelhas. fr. 1554. a harpa. V. Museu Britânico. pr. 4) Oinokhóe. 412Pearson. E 271. Ânfora. 69. Museo Archeologico. Ruvo. notadamente o trígōnon. nos idos dos anos 430-20. fr. Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. Figuras vermelhas. Figuras vermelhas. Nápoles. 1. Figuras vermelhas. constataremos um desacordo entre ambas.10-14-Edmonds). Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático. III I c. aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina.63.Fonte: CVA Museu Britânico 3. V e do séc. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13). Museum of Fine Arts. 00. IV.21. IV. Séc. Séc. Museo Nazionale. Boston.

a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. MAAS. Jovem reclinado. 1989: 150). as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). no entanto. durante um sympósion. atribuída ao Pintor de Eretria. O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. Trata-se de uma khoûs ática.425-420 a. e. Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem. Museu Nacional. Nos textos coetâneos.Banquete. 2000: 36.NEA/UERJ ―cidadãs‖. Figura 6 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . 145 . Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas. reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). esse exemplar foi consumido no mercado local. casualmente. Khoûs ática. datada de aproximadamente 425-20. Um único vaso. Figuras vermelhas. Fonte: Foto do autor. SNYDER. 15308.C. de longe. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas. junto com as cenas de kômos. Pintor de Eretria. 2001). inv. em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais. da lýra (CERQUEIRA. que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa. em mãos de uma cortesã. contra 165 exemplos catalogados. Atenas.

uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco. conforme West (1992: 79). provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. 253 146 . O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu. não para ser tocada pelos convivas. No último quartel do século quinto. Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. 51. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. Eupolis. Constitui-se. bem como do týmpanon. da psaltría. 63-64. Num outro fragmento de Eupolis.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nos textos antigos. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. 139-Edmonds). 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. 77-Edmonds). como os demais. assim. 40. Ver: MILES. 14. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes.638. tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. Tocadoras de trígōnon. ásperos julgamentos morais. termo frequentemente usado. Alguns o associam à poesia trágica. Assim. defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. fr. 69. fr. as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion.10-14-Edmonds). que registrei. que trouxe novidades musicais e que recebeu. fr. 2009: 26-29. no único exemplo iconográfico.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. De qualquer modo. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. associando-as à pecha da prostituição. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis. acompanhando as tradicionais aulētrídes. outros à comédia.

73 (CERQUEIRA. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. Sheramy D. não correspondendo a uma situação cotidiana real. pr. 334). cat.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation.255 Esse argumento é improcedente.22. diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos. 2001. haja vista não haver relação alguma. 332). Cerqueira. 1992. 2001. 2001. Fonte: West. 334) appear contrary to reality. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame. cat. there are anomalies. Pintor do Banho (ARV2 1126/6. As has been pointed out elsewhere. however. whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair. cat. on MMA 16. Figuras vermelhas. 332. because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing. em coerência com suas interpretações simbolistas.‖ 255 147 . Add2 332) Período: 430-20. the standing position of the harpist also appears unlikely. 2001.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. cat. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA.NEA/UERJ Figura 7 . afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA. 16. cat.73. Metropolitan Museum of Art. em BUNDRICK. 2001. Lébēs gamikós. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. Bundrick.

Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos. na categoria de musicista-cortesã. deslizando de um grupo social a outro. entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. E.. o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico. se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. na medida em que não há referência literária alguma. de uma situação social a outra.NEA/UERJ iconografia. Efetivamente. 148 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais. pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas. A disseminação da arte da harpa.. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico. no rol das prostitutas. A falta de exatidão no desenho do trígōnon. o Pintor do Banho. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída. afinal. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas.2)256. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista. deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa. por sua vez. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido. O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer. de modo geral. Contudo. E. a retrata como digna noiva ou esposa.

apesar de os pintores. não o representarem. 1938: 366-369). antes ou depois dele.NEA/UERJ ático o fez. que passava a ser a sua (ZEVI. cofres. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida. mesmo que idealizado. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. SNYDER. Com base nessas considerações. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. lekanídēs. como o quer Bundrick. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. alábastroi.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa. os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas. a forte associação simbólica do aulós à prostituição. como ocorreu com a lýra. 2000: 181-182). por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto. É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. de outro lado. julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. com a única exceção do Pintor de Eretria. como aquele da Magna Grécia? Ora. indica seguramente a 149 . a kithára e o aulós. a forte associação simbólica da harpa às Musas. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa.

150 . não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. 1995: 226). mesmo não retratando o momento da epaulía. Essa análise. na terceira cena. 1972. 1995: 225). 334) apresentam a harpista numa situação diferente. Por outro. para uma noiva. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder. No caso da pýxis. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. como é comum nessa forma de superfície cilíndrica. cenas seqüenciadas. ela está sentada sobre o leito nupcial. como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. sua presença traria outras conotações. Todavia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o banquete. flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. pr. na outra. ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. Seguramente. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. na manhã após a noite de núpcias. acompanhada por outra moça. E. O vaso de Würzburg. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira. a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría. Já no lébēs de Atenas (Figura 8). cat. A figura central está sentada sobre um klismós.NEA/UERJ epaulía. cat. temos. Ela está desconfortavelmente de pé. Por um lado. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). quando. 2001. alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. a anakalyptēría.1-3). a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. 2001. porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon. assim. 6. tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada. ela já era considerada esposa. a noiva aparece retratada como harpista. Enfim.

2001. Museu Nacional.Atenas. Figuras vermelhas. chegando o momento de se casar. evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais. 8. cat. Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía. a recepção de presentes. cat. 2000. o aulós. Fonte: Foto do autor.Fonte: Cerqueira. Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva. Lébēs gamikós. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. retratada aqui como aulētrís. fig. A cena traz claramente uma representação da apaulía. Preparativos para casamento ou recepção de presentes.Mulheres no gineceu. a phórminx 151 . 14791 (1171). 24.MULHERES NA ANTIGUIDADE . especificamente o bárbitos. 334. Os pintores mais criativos e requisitados. Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420. Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina.NEA/UERJ Figura 8 . a noiva poderia saber tocar algum instrumento. procuravam fazer variações temáticas. presentes para a noiva. Mulher toca harpa de pé. Bundrick. a lýra. como o talentoso Pintor do Banho.

sugere que. De resto. mais que isso. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. associado às Musas (Figura 4). Todavia. em certos contextos sociais. em uma pýxis do Pintor de Meidias. à lýra. terracotas). tocando harpa. por via de regra. como um estrangeirismo. à kithára ou ao bárbitos. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos. A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina. a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. pintura de vasos. na Atenas da época do Pintor do Banho. a pēktís e a mágadis). É interessante observar que. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista).NEA/UERJ ou o trígōnon. Considerações finais A harpa. nos últimos anos do século quinto. a existência de convergências e divergências. entre os gregos. na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa. é um instrumento para ser tocado por mulheres. tocado pela própria noiva ou por uma convidada. 152 . Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. A principal convergência é a vinculação da harpa. As convergências param por aí. na cultura grega. comparativamente ao aulós. contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. ao feminino. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. constatamos. foi um instrumento menos usual. A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura. apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu. A iconografia sugere que.

com a exceção de Museu. No gineceu. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. mulheres bem-nascidas. De outro lado. é tocado tanto pelo personagem central. por sua vez. Constata-se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inclusive durante os festejos da epaulía. a indignidade da prostituição. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). nunca aparece. de que tanto nos falam os textos. no ambiente mitológico. na cerâmica ática conhecida por nós.NEA/UERJ ambiente. retratado no ambiente do gineceu. quanto por um personagem secundário. O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. nas últimas décadas do século quinto. uma cortesã-harpista. em seus divertimentos no gineceu. A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. ainda. caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . CERQUEIRA. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. e das Musas. foi vista como um instrumento refinado. é sobretudo um instrumento do gineceu. até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. No ambiente mitológico. A pēktís. De fato. entre os pintores de vasos áticos. para os pintores de vasos áticos. no ambiente humano. podemos dizer que a harpa. no caso. tão logo se espalhou entre os atenienses. em Atenas. é tocado por alguma Musa. Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa. Assim. 2001: 198).2. Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos. uma pēktís – trata-se portanto. na pinturas de vasos. a dignidade do gineceu e das Musas. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. de uma psaltría. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8).

O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses. a comparação com a cerâmica italiota. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. O estudo da harpa nos permitiu. de outro. que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. Finalmente. No entanto. entre as mulheres bem-nascidas. entre os gregos. indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido. assim. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos. como instrumento para entretenimento no gineceu. da harpa como instrumento feminino. possibilitou-nos ver a cristalização. 154 . sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. identificando convergências e divergências.NEA/UERJ parentes. Ao mesmo tempo. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural.

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Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof. O debate crítico acerca da História das Mulheres. sob orientação da Profa. sobretudo das individualidades desse sexo. Assim. que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense. Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS.C. tem seu perfil construído ao longo da história. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR.) Prof. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. Portanto. tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo. como proposto por uma historiografia tradicional. fruto da busca de novos campos de interesse da História. Essa mudança. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil.NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. lilianemeryt@hotmail. faz parte de seu papel socialmente construído. Assim. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente. Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino.com 258 157 . que. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto. 1550-1070 A. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo. 1990: 7). resultou no aparecimento do termo Gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Renata Senna Garraffoni. gsbalthazar@gmail. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. para a historiadora Joan Scott. longe de ser tratado como vítima. Dra.

MULHERES NA ANTIGUIDADE .. (. tenha muito pouco. 1990: 16).). 260 158 . determinar a existência de sociedades ginecocráticas. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia. as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(. que. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada. 1990: 07). pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens.) assim se apresentava a mulher egípcia. Para além desses aspectos. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos. E é nesse contexto. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais. ou melhor.. desde a origem.. o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖. Assim. (LESKO. a experiência de um sexo. Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana. ou nada. até o final do século XX. sendo resultado de uma criação masculina... por exemplo. a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado.260 Leiam-se. na Antiguidade.. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. que ―(. De fato. a aparente proeminência das mulheres egípcias. tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖. 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. Nessa premissa. portanto. a ver com o outro sexo‖ (SCOTT.

uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. é uma clara recorrência a uma história das origens. em um estudo sobre a XVIII Dinastia. A egiptóloga. Há trabalhos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina. Nessa perspectiva. tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. contudo. 1996: 23-24).NEA/UERJ Esse pensamento. que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). concedidas às mulheres de sangue real. Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). Para tanto. originado no seio dos estudos feministas. um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. corroboram com este processo matrilinear. a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. Nesse contexto. a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 . essa linha historiográfica entende. por exemplo. Por fim. ou ―teoria da herdeira‖. nessa perspectiva. como foi o caso do Egito. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. e a matrilinearidade. que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação. não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. Acredita-se. como o da inglesa Gay Robins. em especial pelas mães. que refutam tais teorias. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real.

na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade. mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres.261 são provenientes de diferentes contextos. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. é importante ter em mente que. De fato. precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER. Jaromir. 2005: 205). Atlas of Ancient Egypt. contudo. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres. 261 160 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. segundo Liliane Coelho. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico. tradicionalmente datada de c. Nessa perspectiva. 30-52. Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. p. Assim. Sendo assim. 2008: 65). John & MÁLEK. é importante entender que. as representações humanas. as mulheres [egípcias]. Oxford: Phaidon.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino. iconográficas e textuais). no Egito antigo. assim como nas outras fases da vida. mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA. 3000-332 a. embora respeitadas como membros da família. 1980. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas.. foram produzidas pela elite masculina egípcia. a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES.

2009: 162). formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. A mulher era sempre representada de maneira ideal. O objetivo deste trabalho. associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente. já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. 15501070 a. retirado do Papiro Chester Beatty IV.) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. entretanto. 2040-1640 a. e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos.). traduz uma visão idealiza do feminino. . por meio de cópias. O Reino Médio (c. até chegarmos ao Reino Novo. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios. e desta maneira.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. 161 . Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia. é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade. ao longo dos períodos históricos que se sucederam. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO.. que as traduziram e revelaram ao público atual. do que construir uma tumba em uma necrópole. Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. e as composições desta época. inclusive. Segundo a visão de mundo egípcia. então. assim como a arte. ao ser produzida por homens. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia.que prediziam o que estava por vir. seus nomes durarão para sempre.NEA/UERJ por homens. por exemplo. Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor..C. de maneira contínua. em conjunto com aquelas do Reino Novo. Durante o Reino Novo (c. A literatura. e que reflete o ponto de vista masculino.

assim. por fim. Lisboa: Livros e Livros.Um homem morre. 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo. seu cadáver vira pó. Tendo em vista tais considerações. segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). Dentro da literatura fantástica.Eles não planejaram deixar herdeiros. . gênero do qual fazem parte os poemas de amor. analisamos composições que podem ser classificadas. tendo completado sua vida. e. que escreveram. Mitos e Lendas: Antigo Egipto. ou a nota final de um texto. Os nomes de Senu e de seu pai. 2005. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções. crianças que conservassem seu nome. dependendo da função à qual se aplica o texto. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas. 2000: 280). (ARAÚJO. . 262 162 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . para este artigo.NEA/UERJ embora tivessem partido. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários.. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. . literatura gnômica. As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras. mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê... mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. como literatura fantástica. foram eternizados por meio do texto escrito.. filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO.Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido.. a literatura lírica. Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu. Em um dos contos do Papiro Westcar262. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes. Luís Manuel de. todos os seus contemporâneos perecem. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖..

o levou para o fundo. Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes. O sacerdote. na estação da semeadura. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. e seguiu seu caminho. associada ao adultério. Bata negou-se. A mulher. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema. 263 163 . Anpu. contudo. assim como na história de Ubaoner. Quando saía da propriedade. no entanto. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. e eles sumiram para sempre. O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. sendo perseguido por Anpu. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro. Avisado pelo jardineiro. cujo nome não é citado. e a esposa deste. Nesta história. sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. que o servidor deveria colocar no lago do jardim. Bata vivia com seu irmão mais velho. Bata foi interpelado pela cunhada. A mulher. Certo dia. Certo dia. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. foi castigada. respondendo que a considerava como uma mãe. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. Furioso com a atitude de sua mulher. Anpu voltou para casa. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães. transformado em um animal de verdade. datado do final da XIX Dinastia. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que passara um tempo com o faraó. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. após a explicação do ocorrido ao faraó.

Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela. desobedecendo às ordens do marido. e que por isso acabaram punidas. Reddjedet. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este. Ra enviou as deusas Ísis.NEA/UERJ Em outro momento. é apresentada a imagem da mulher ideal. após muitas transfigurações. Em outro conto do Papiro Westcar. Ao final do conto. Sahure e Neferirkare –. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. nas três situações ilustradas nestes contos. que mentira a respeito do artefato. 164 . e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. Depois de levá-la consigo. mãe e provedora. Temos. no entanto. Nesta história. que era um bem precioso para os antigos egípcios. sem uma autorização do marido. então. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. a mulher aparece como a mãe e provedora. No conto. é narrada a história de Reddjedet. pois as consequências poderiam ser trágicas. pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. para auxiliar a mulher na hora do parto. no mesmo conto. por sua vez. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. acompanhadas por Khnum. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. que foi deixado propositalmente na casa por elas. foi perdido. Apaixonado por ela. que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. Bata a avisou que não se aproximasse do mar. Falsidade. mas certo dia. Néftis. Em ―O nascimento dos príncipes‖. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água. já que este poderia ir atrás da esposa. composição que data da XIX Dinastia. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. O final da história. o faraó pesou em matar Bata. Meskhenet e Heket. no entanto. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. contudo. Assim. A mulher. filhos de Ra.

NEA/UERJ mas. 2000: 251-252). também.. Nos dois últimos casos. e no qual foi encontrado por uma mulher. no segundo. com o tempo. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. onde ficou protegido. a mulher é mostrada como a mãe protetora. por exemplo.‖ (ARAÚJO. 2000: 252).) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. Juntos. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa. que só soube quem era seu pai muito tempo depois. às mulheres desconhecidas. Ptah-hotep. deveria ser bem nutrida. quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. não a fixe quando ela passa. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa. já rapaz. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO. porém..) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. pois ―.. não a conheça carnalmente (. por não revelar. O comportamento mais marcante. segundo ele.. este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (. Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres. aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―. 2001: 35). ela aparece como o ideal feminino. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada. sejam elas esposas. neste caso. Sabendo da verdade. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias. no entanto... desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade. Verdade foi então abandonado num local rochoso. de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha. Verdade e a mulher tiveram um filho. e deveria ser sempre um 165 . A esposa. a mulher apresenta uma falha: no primeiro. é o da mãe. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any.. alguém não conhecida na sua cidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nos dois.. são outras: nestes casos.

. Ou seja. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e.NEA/UERJ exemplo a ser seguido. mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta. a mulher deveria servir ao homem. alegre e conhecida pelos de sua cidade (. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep. contudo: ―não a julgues.C. não a repilas. e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. para este sábio. 1640-1550 a. Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa. na literatura gnômica. Por último. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele. então. Comportamentos que não devem ser seguidos. tal qual o das esposas e. assim como elas. Em apenas um caso analisado. a mulher aparece como sofredora. 2001: 35). Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher. 166 . Ptah-hotep aconselha. também mereciam um tratamento especial. Trata-se de uma comparação feita por Khéti. e aparece. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS. não deveriam ocupar posições de poder.) –. (mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO. no início do Reino Novo. assim. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada.) Sê bom para ela (durante) algum tempo. As concubinas. na ―Sátira das Profissões‖. produzidos por homens. que a imagem feminina nos textos. assim. 2000: 221). deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO. 2000: 256-257). Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. Fica demonstrado.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. é marcada pela idealização. da vida após a morte. consequentemente. Para ele. 2000: 252). Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c.

A literatura. por meio de práticas sociais. sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. do Museu Egípcio de Turim. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. Portanto. divide-os em poemas de fala masculina. atualmente em Dublin. constroem uma imagem idealizada da mulher –. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. As sensibilidades. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. a que aqui se refere. e poemas de fala feminina. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. 2007: 10). imagens e materialidades. por sua vez. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. tão em voga neste período. discursos. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. são sutis e difíceis de capturar. Posener (apud ARAÚJO. como os textos analisados anteriormente. Papiro Turim 1996. ou do homem ou da mulher. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 . 2000: 302). representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. e Óstraco do Cairo 1266+25218. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301). chamando a atenção. traduzindo emoções. nestes casos. 2007: 226). tais como espaços e objetos construídos. a saber: Papiro Chester Beatty I. mas eles transmitem. As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco. Os amantes nunca se tratam pelo nome. conservado no Museu Britânico. Barbara Lesko. pautada nesta distinção. Papiro Harris 500. a sensibilidade feminina de maneira aguçada. 2000: 302) argumenta que os banquetes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. que apresentam uma linguagem mais refinada.NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite.

2000: 307). 2000: 307). seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. o que desperta nela ―extrema alegria‖. meu coração. Assim.). onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado.) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖. também. Esta urgência. as fontes literárias. como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó. é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. De fato. ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (. percepções sobre o mundo e é. não palpites‖ (ARAÚJO.) às manifestações do pensamento ou do espírito. Deste modo. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e por isso pede ―ó.. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. que o simples fato de pensar no homem amado. 2000: 308-9). 2000: 306)..)‖ (ARAÚJO. vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. as falas femininas dos Poemas de Amor. ao contrário das masculinas. traduzem um amor sensível.. neste caso específico os Poemas de Amor. pois a mulher espera que ―(. da necessidade da presença do ―irmão‖.. narrativa. no quarto poema do mesmo conjunto. o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO. Tais sentimentos. Observa-se. apreensões. sensibilidades. pelas quais aquela relação originária é organizada. eu o beijarei na frente dos que o cercam (. deviam ser velados... medos. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz.. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. contudo. se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados. 168 .NEA/UERJ anseios. pois. Deusa de Ouro. 2000: 304). sensibilidades que correspondem ―(. como é visível no sexto poema do conjunto. também faz com que o ―coração palpite‖.. Ó. em sua maioria velado e platônico. 2007: 10).

do Papiro Harris 500. idéias e ideologias‖. por mais ‗insubstancial‘ que seja. é a vida do homem inteiro. com seu tom de confidência. Nela. tê-lo ―como esposo. o estudo destes poemas. sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. servindo-te meu amor‖. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. que viva tão somente na cotidianidade. Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. embora essa o absorva preponderantemente. daquele ―insignificante‖. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). ou seja. pois ―Todos a vivem. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. Pretende. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade. paixões. na mulher do quinto poema. com o teu braço no meu braço. Na linguagem comum. o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. 2000: 316). antes de qualquer coisa. ao contrário. de sua singularidade. quando o amor faz surgir.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 317). não há nenhum homem. de sua personalidade. ao capturar um pássaro do Punt. compreende-se. Desta forma. 2000: 317). Nesse sentido. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. E. utilizados na época. além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. seu gosto pelo detalhe fútil. portanto. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. que a vida cotidiana é. Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). 264 169 . colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. a vida de todo homem.NEA/UERJ Os Poemas de Amor. desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. tão repleto de sentido.

em tal poema. a fertilidade e o nascimento. vem. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. Neste. 265 170 . meu amor. particularmente para as mulheres (ROBINS. venero Hator. O resultado foi uma multifacetada deusa. a saber. ―Ao invocá-la. contudo. 2000: 306) e. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. cada poema começa com o nome de uma árvore. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. A aflição do amor não correspondido. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. Logo. a maioria dos poemas é de fala masculina. a música. por exemplo. O quinto poema. a magia.. De todas as fontes que contêm estes poemas. cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996. acima citado. 325). meu irmão. Percebe-se. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços.).. O terceiro poema. que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. cultuo sua majestade. se faz presente no cotidiano dos egípcios. explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. pois incorpora diversas características. que esperavam. o amor. segue-se o pedido. após. por exemplo. 2000. travestida em preces à deusa Hator265. cuja fala se direciona ao casal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2000: 323). personalidades e funções. a sexualidade. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante. 1995: 99).NEA/UERJ A religiosidade. Neste. traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. a sutil sensualidade da conquista. e este se estendeu durante todo o período faraônico. (. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. Ó. a dança. dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. meu irmão. louvo a Senhora do Céu. olha para mim!‖ (ARAÚJO. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. contado por um sicômoro.

contudo. de maneira geral. o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (. Olhos na estrada. mas. As diversas formas de enterramento. ainda hoje. as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. por sua cultura singular. espero por aquele que me despreza‖. há cerca de seis mil anos. sentimento este capaz de resistir aos séculos. Este estudo. ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. acerca dos Poemas de Amor de fala feminina. tão distantes temporalmente de nós. De fato. é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. expressas nos Poemas de Amor. mantendo-se. por exemplo. O que demonstra que. como os monumentos e a literatura. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. 2000: 305). sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. às vezes. Em outras palavras. revelam como estas mulheres. as múltiplas formas de sensibilidades. o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . pela localização das cidades em zonas de inundação. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo.). isto é. a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto. o que ocasionou o seu desaparecimento. transmitida por testemunhos de várias ordens. comumente. 2009: 12). percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. evidencia sensibilidades passadas. 2000: 319). como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR. A crença egípcia na vida após a morte.. Consequentemente. ouvidos atentos.. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. em especial.NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sergio Donadoni (1994: 217). assim. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas.

a análise dos poemas de amor. Em suma: (. como as pirâmides e os textos funerários. enfim. consequentemente. Nessa premissa. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO.. a fala feminina. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. Pensar nas sensibilidades. Portanto. e. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI. com o seu cotidiano. Portanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. ou melhor. um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade.. implícitas nas entrelinhas dos poemas. 2003: 58). ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I. inscrita nos poemas aqui analisados. com o presente texto. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. no caso. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema. Assim. que ressalta a paixão pela vida. as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida. tentar entender as sensibilidades.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos. com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário. 1994: 12). Assim. Nesse sentido. das trajetórias de vida. entende-se.NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. 172 . ao contrário da tendência apontada por Donadoni. faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres.

John & MÁLEK. príncipe do meu coração! Tão doces são as horas com você. 2001. 173 . 1996: 45) DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL ARAÚJO. 1994. A Mulher no Reino Médio (c. Emanuel. Ensaios sobre Plutarco: Leituras LatinoAmericanas. Luís Manuel de. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAINES. BAKOS. 1996. Começa quando deito com você. 2009. 1994. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. ______. 2010. Rio Grande: Editora da FURG. Barbara. LESKO. Sergio. Vida Pública e Vida Privada no Egito do Reino Médio (c. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.. Judith. pp. Fatos e Mitos do Antigo Egito. Lisboa: Livros e Livros. 1980. Atlas of Ancient Egypt. Você exaltou meu coração (Papyrus Chester Beatty I.C. A Mulher no Tempo dos Faraós. In: DONADONI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . NOBLECOURT. São Paulo: Paz e Terra. Mitos e Lendas: Antigo Egipto. MATOS. Niterói: UFF. O Homem Egípcio. LESKO. Poder e Sedução: A Imagem Através do Tempo. (Dissertação de Mestrado) DONADONI. 2010. Christiane. Plutarco e Cleópatra. 2005. Porto Alegre: EdIPUCRS. BALTHAZAR. O Morto. Margaret M. Liliane Cristina. The Remarkable Women of Ancient Egypt. Gregory S. 2008. Sergio. HELLER. Maria Aparecida de Oliveira & CERQUEIRA. Júlia S. O Cotidiano e a História.).. Fábio Vergara. BUTLER. Oxford: Phaidon. Recto 7. BALTHAZAR. Pelotas: Editora da UFPel. Providence: Scribe. Brasília: UNB. Lisboa: Editora Presença.3. 2008. ARAÚJO. 2009. Diálogos com o Mundo Faraônico. Na tristeza e na alegria. 2040-1640). Cleópatra. Margaret Marchiori. In: SILVA. Elas fluem de mim para a eternidade. Agnes. (Monografia de Bacharelado) ______. COELHO. In: BAKOS. Porto Alegre: FFCH-PUCRS. Escrito para a Eternidade: A Literatura no Egito Faraônico.NEA/UERJ Ó. 2000. 215-136. Jaromir. 2040-1640 a. Gregory da Silva. Campinas: Papirus.

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principalmente. por duas tendências principais. a do racionalismo . mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião.com. Literaturas e Cultura Judaica (USP). A outra é a do misticismo.NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof. Anjos. em 9 de novembro de 2010.br ou janebg@hotmail. A mais preponderante tem sido sem dúvida.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. escritora. A diferença entre as duas correntes reside. através de sua longa história. alegoricamente. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico. também. pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado. porém.com 266 175 . Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga. presumir que o Talmud não é. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ.MULHERES NA ANTIGUIDADE . milagres. Um corpus de lendas. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). Desde os relatos bíblicos.ª Dr. complementares uma da outra. (GLASMAN. 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário.representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI. mesclado de misticismo e obscuridade. na ênfase dada à lógica e à mágica‖. encontramos mitos e lendas que. ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. compõem um acervo da ordem do fantástico. sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá. NEA -UERJ. É falso. janeglasman@terra. oposta ao conhecimento. que gerou incontáveis interpretações e releituras.

O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. era 2/3 deus e 1/3 humano.268 Na etimologia hebraica. o nascimento de um mito Há 4. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. Ela é. do raio e do trovão).000 anos Lilith tem vagado pela terra.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lilith e Dibuk. A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu. Suas origens remontam à demonologia babilônica. e autor de feitos sobre-humanos. a raiz Lil. no nome de Enlil (deus sumério do Ar. Segundo o mito. que significa vento. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a. figurando nas imaginações míticas de escritores. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. Os relatos de sua biografia são contraditórios. não leite. 268 176 .NEA/UERJ personagens como o Golem. sem dúvida. Lilith. Seus peitos são cheios de veneno. artistas e poetas. através do misticismo judaico. que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana. Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite. C. Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. por exemplo. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. protagonizando a literatura da Cabalá. senhor das tempestades. Na Suméria. aparece. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças. uma personagem bastante controversa.

Em seu jardim às margens do Rio Eufrates. Neste baixo-relevo em terracota. datado de cerca de 1950 a. ‖269 Usando armadura pesada. Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro).C. conhecida como o Relevo Burney. quando um vil triunvirato se apodera da árvore. ambos empregados Traduzi de Kramer. do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore. de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si. Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. sumério ou assírio. 1938.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco.NEA/UERJ Num episódio. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica." Gilgamesh corre para ajudar Inana. identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270. a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro). Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. o bravo Gilgamesh mata a serpente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . deusa do amor. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . Os planos de Inana quase são frustrados. no entanto.. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto".

onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder. Afinal. ela voa com asas de demônio. Datando do oitavo ou sétimo século a. descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas. por exemplo. Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. séc.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. no topo da Estela de Hamurábi (séc. como muitos deuses de povos vencidos. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta. aparentemente curvando-os à sua vontade. Porém. sabemos que ela é uma deusa. British Museum). Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. um modo convencional de transporte para residentes do submundo. Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271.NEA/UERJ em cerimônias religiosas. há uma placa de parede de pedra calcária.C.C. que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes. O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. XVIII a. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei. Em primitivos encantamentos contra Lilith. Além disso. acadêmicos identificaram a figura como Inana. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). 272 Mais recentemente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 271 178 . IX a. que integra atualmente o acervo do Louvre272. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra. ao que parece.C. teria sido transformada em demônio em época posterior.

casamento. uma demônia foi creditada como responsável. e achará pouso para si. Presumivelmente. ela é mencionada só uma vez. e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. referidos frequentemente como Primeiro Isaias.C. 179 . אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ . ela temeria ser reconhecida e partiria. O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos. No texto bíblico Na Bíblia. pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. que migrou para o mundo dos antigos hititas. Em situações críticas na vida da mulher. em 1933. por exemplo. podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias. que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz.).NEA/UERJ pedra‖ em turco). A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith. perda da virgindade ou parto . se Lilith visse seu nome escrito na placa. que contém uma menção horrível de Lilith.menarca. As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil. No Capítulo 34. De acordo com este poema apocalíptico poderoso. Com o tempo.‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais). em Isaias 34. israelitas e gregos.povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e Lilith descansará ali. Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos." (Isaias 34: 14). na Síria. os primeiros 39 capítulos do livro. Por todo o livro. Fez uma aparência solitária na Bíblia. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas. egípcios.

Talvez dada a sua longa associação à noite. esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖. O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física. tradução inglesa da bíblia. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. a Versão King James. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. criatura da noite e bruxa273. se lilith é um animal indeterminado. Se lilith é uma demônia. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. 273 180 . demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. então se'ir é uma espécie de demônio. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. A seita de Qumran absorveu demonologia. mas a situa em lugares desolados. como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono). e Lilith aparece na Canção para um Sábio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se'ir é um bode.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. não havendo menção da coruja. As traduções também diferem para se'ir: é bode. traduz lilith como "o pio da coruja". lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica. comparativamente. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas.NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto". enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith. A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith.

e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico.C.. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. mais ou menos literal. frequentemente apenas de versos individuais ou de partes. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto. 11. somente porções do mesmo em inúmeras passagens. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d. após o cativeiro da Babilônia no século VI a. o Sábio. Provavelmente não é apenas uma licença poética. ao contrário de Isaias.).C. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias.. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral.4-6a // frag. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções.NEA/UERJ ―E Eu. no singular. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas. tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural. 10. demônios. Liliths. 274 275 181 . corujas e chacais. O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag.. Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. Quando.

também souberam de Lilith. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. O demônio feminino da noite é Lilith. Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. os vasos de encantamento. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a). Babilônia. As referências talmúdicas a Lilith são poucas. noite adentro. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. Por vezes. por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b).NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais. 182 . Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. Adão transtornado separa-se de Eva. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio.. Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas. um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. circundada por um texto profilático em aramaico. Lilith atacava mesmo os homens casados e.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . De acordo com folclore popular. mostram em que pessoas comuns acreditavam. para combatê-la. E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. expulsando-os nus. o Talmud informa. espíritos. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth. de cerca de 600 d.

como Lilith.C. Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão. Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo. Solomon Shechter.NEA/UERJ matavam crianças humanas. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original. Invocando o nome de Deus. considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi. Na Idade Média. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. que causam doença e morte. Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico. ela recebeu características novas e mais sinistras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem. como os da Literatura bíblica de Sabedoria. Até certo ponto. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia. Neste vaso em particular. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações. antes de Eva. O jovem filho do rei está doente. Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. Entre os séculos VIII e X d. enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). no entanto.. É uma coleção de provérbios e máximas. 277 183 . pode voar e tem atração por sexo. teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. depois que um erudito inglês. correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico. com 22 episódios. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. É um texto anônimo. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus.

traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. eles são semelhantes em importância. Lilith. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz. Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. Em teologia e prática judaica. o nome inefável do Senhor.A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. No Alfabeto. há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus. só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano. Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. no Dia da Expiação. associado com a raiz hebraica de "ser". por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. não tenta dominar ninguém. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. Logo o casal humano começa a discutir. O nome de Deus YHWH. adamah = terra). Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. Lilith ganha 184 . No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. por outro lado. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas. mas nenhum realmente ouve o outro. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu. uma fêmea chamada Lilith. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). Então Lilith alça vôo e vai-se. Durante os dias do Templo de Jerusalém. mas ele insiste que este é seu lugar. adm (Adam = Adão.NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. Lilith foge para espaços desertos. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". Deus forma outra pessoa da terra. O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado. A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico.

os seres vivos aparecem numa ordem específica. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. ela se recusa a retornar ao Éden. Uma interpretação tradicional desta 185 . A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. mas também uma mãe incrivelmente fértil. Deus apresenta a mulher a Adão. 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. homem é criado primeiramente. Aparentemente. que a aprova e a nomeia Eva. Em Gênesis 2. Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. é ela que se sente rejeitada e zangada. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. reivindicando que foi criada para ferir crianças. no entanto. Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). sem reconciliar. No fim. formando a mulher de uma costela sua. Em Gênesis 1. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças.NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). Nesta versão. seguido por plantas. Para que os anjos não a afoguem no mar. animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. Três anjos são enviados à procura de Lilith. Quando eles a encontram no Mar Vermelho. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. ambos perdem. Mas mesmo sendo quem parte. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. forjando um acordo com Deus e os anjos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. plantas. Para GAINES (2009). O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. animais e finalmente a mulher. ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal. o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. Ironicamente.

186 . compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história. Por esta razão. apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. ridiculariza a Bíblia. A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva. Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. De fato. O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden. mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época.então devem ter sido duas mulheres. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas. no fim. é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. flatulência e cópula por animais. no entanto. outra vez da costela do homem . Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar. de todos os mitos de Lilith. Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. Neste contexto. Deus cria a mulher duas vezes . Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico). Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico. comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. usando fontes anteriores. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. o Talmud e outras exegeses rabínicas. Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas.NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele.uma vez com homem.

então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele".MULHERES NA ANTIGUIDADE . à imagem de Deus Ele criou-o. como os tratamentos anteriores de Lilith. macho e fêmea Ele os criou"). Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. concebe suas crianças e então as infecta com doença. e a interpretação desta passagem no Talmud. Esta porção desprendida é "a Lilith original. É associado com Satã. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal. Adão é uma de suas vítimas. criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. Lilith vai-se embora.NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. A Shekhiná. 279 187 . também aparece no Talmud. chamada Samael ou Asmodeus. mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). a vê como uma sedutora de homens inocentes. O Zohar. inspira sua luxúria." em Gênesis 1: 27. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. Se a Shekhiná é a mãe de Israel. A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. então Lilith é a mãe da apostasia de Israel. Em vários pontos. No Zohar. pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith. a serpente e o líder dos anjos caídos. A porção feminina do ser humano era unida no lado. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b). chamado Shekhiná279. cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico.

quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith. outro testamento ao poder duradouro da demônio. Podemos citar os nomes de Goethe. Lilith e Eva". em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca. noturna. O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. Dante Gabriel Rossetti. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão. e causa grande tristeza a Deus. a cobra. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos. na literatura e nas artes. depravação. por exemplo. 280 188 . devoradora de crianças. Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden. Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. a emprestar-lhe uma forma de réptil. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus. etc. causadora pragas. John Keats. Robert Browning. homossexualidade e vampirismo. John Collier.MULHERES NA ANTIGUIDADE . através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280.

asp acesso em 21/5/09. São Paulo: Trejger Editores. 1998. Jane Bichmacher de. Eisenstein. CHUMASH. Rio de Janeiro. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. trans. pp. 1993. Janet Howe. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. vol. Chicago: University of Chicago.D. Isidore Epstein. 1938. Com comentários de Rashi. em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. 1915). pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem. GAINES. nº 2. Assyriological Studies 10. ISTARJ. 189 . jan/jun 98. Gershom. KRAMER. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J. ano II. com efeito.bibarch. SCHOLEM. À medida que crescemos e mudamos com os milênios. 1963. 1948. Revista IDEA. Bíblia. 1. As peregrinações de Lilith continuam hoje. GLASMAN. quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. on line http://www. Zohar: The Book of Splendor. 35–49. Samuel N. Esta criatura alada da noite é. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review.org:80/e-features/lilith. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher. Lilith: Seductress. March/April 2009. Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. New York: Schocken Books. London: Soncino. 17 vols.

notadamente membros da família real. 281 190 . o que Prof. relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Momento em que a mulher. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida.NEA/UERJ SENHORA DA CASA.C. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a. apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes. Seja estando a frente. Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity). tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale). Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. Por último a mulher na condição de monarca. 19a e 20a dinastias.C. do Núcleo de Estudos em História Medieval. ou seja. O primeiro. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. entre 1550 e 1070 a.) nos concentraremos principalmente na 18a. do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). apesar da inconstância. Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe. Assim sendo. Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. e 30 a. Dr.C. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos. Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG. Coord. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba. Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). Entretanto. de um modo geral. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher. O segundo como divindade.

1993: 2). Assim sendo. Assim sendo. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades. todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. Elemento igualmente interessante era o matrimônio. pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito. Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento. Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. com o general Horemheb que assim. Assim. Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti. 2000: 104). esposa do faraó Akhenaton —. mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas. rainhas ou parentes próximos). tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher. os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 .NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar.

Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. 2000: 301-330). Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras. 192 . 1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro.) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz. senão já teria escrito à minha mãe. De fato ele é um tolo. Por outro lado. Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços. Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele. Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum. perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO. mas sou como ele. sou tomada pelo amor que sinto por ele.C.). Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. seja ele masculino ou feminino. o tormento apodera-se de mim. é possível.MULHERES NA ANTIGUIDADE . através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134).NEA/UERJ VIII a.C. Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele. Assim.

entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. ―sair para fazer compras‖. ó meu irmão (ARAUJO. Ou mesmo ―escolhendo-o‖. mas 193 . para que contemple tua beleza. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . meu pai e minha mãe ficarão encantados. A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. toda minha família te aclamará em uníssono. Em certa medida não é tão diferente de hoje. e como tal. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades. sobretudo. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. eles te aclamarão. Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . que no caso da mulher. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. 1990:5). as causas poderiam ser relativas ao adultério. quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. meu irmão. mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro. à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio.NEA/UERJ Ó. cuidava do lar e dos filhos. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios. pode não configurar uma prática de contratos sem amor. 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. É claro que a posição social.

Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos. 1990:5). Apesar de raros.NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância. Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. 194 . Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas. (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt). Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos. a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade. 2400 a.C. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt). mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia. mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. Assim sendo.). pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. Mênfis.

Thot. representação da umidade e de aspecto feminino. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. neste contexto.NEA/UERJ Hermópolis. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. o poder de Ra.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e. Ptah. possuía o aspecto destrutivo do raio solar. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. Tebas e Elefantina. Por outro lado. foi posto um fim a destruição (GRALHA. característica específica de deuses como Ra/Atum. Em um dos mitos relativo à deusa Isis. é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. embriagando-se ao bebê-lo. O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. 195 . e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos. pois esta havia se voltado contra ele. a grande maga. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. 2000: 93). Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. e Tefnut. o que confere um poder significativo a Isis. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O deus Ra. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. obtém do deus Ra seu nome secreto. este casal gera Osíris e Isis. Assim sendo. Ou seja. Em outro mito. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade. no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. Isis faz o impossível. o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina.

Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres. prosperidade e saúde‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . notadamente rainhas. Na estela abaixo. 196 . Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). sobretudo após o seu falecimento. LESKO. com apoio de sua mãe. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. a rainha Ahmés-Nefertari. E ao que parece. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. 1994. entrada para as 12 horas da noite. fossem cultuadas como divindades. Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino. (ver NOBLECOURT. a deusa Ahmés-Nefertari.

entretanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. É o caso de Hatshepsut. e o caso de Nefertiti. 2002: 98). o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas. estabeleceu seu culto. rainha do faraó Akhenaton. O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum. que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. 197 . que ao se tornando faraó. 1993: 123.NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari. GRALHA.

198 . entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois. fazer incenso) incenso para Amon-Ra. Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo. far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida. sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo. A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon. Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em um segundo bloco. O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. Na primeira.NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. Nesta cena. O caso mais conhecido. Thutmés III.

Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. Hatshepsut. era necessário que o futuro monarca. mãe de Queóps (4ª dinastia). Segundo Gay 199 . como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. pudesse estar ligado às duas linhagens. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. Para que tal possibilidade fosse afastada. ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. Contudo. Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo. Nefertiti (18ª dinastia).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Torna-se mais claro. filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. Thetisheri (17ª dinastia). o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Pela primeira e única vez. Tiy. ou seja.C. não poderia ser palco de um novo conflito. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica). No entanto. Ahmés Nefertari. Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono). Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. não configurando usurpação e muito menos regência. Ou seja. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. agora interno. o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião.NEA/UERJ No culto de Amarna. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. como deus único. algumas rainhas teriam sido faraós. dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton. a tríade da religião de Aton era invertida.) O Egito.

NEA/UERJ Robins. Mãe. uma forma de monarquia dual. não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados. a posição de rainha. pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei. Filha.). não configurando uma co-regência tradicional. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP.. Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993. esposa de Akhenaton. a tese de Amanda Weidemann (UFF.C. Entretanto. dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa). 2005). Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo. complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000. 5354). Como rainha ela parecia ter grande poder.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF. que a idéia de um governo conjunto. 139-140). 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a. através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó. É possível.C. Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a. com o jovem rei Thutmés III. com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti. Esposa.C.). Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. 200 . 44-51). 2007) O culto a Arsione II Filadelfo.

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bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade. de seu cotidiano e de suas percepções e valores. Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo.NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof. 282 203 . religiosas. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp. Professora da Universidade Sagrado Coração.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir. já não mais limitada às expressões das elites brancas. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. Bauru/SP. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples. étnicas. em sua área de conhecimento. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. focos de minhas análises. tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura. Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS.ª Dr. a história daqueles até então dela excluídos. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas. Nesse ambiente. sexuais e de gênero. e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. à masculinidade e ao conceito de sexualidade. título desse livro.

Passato Prossimo. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e.283 Embora em menor número. 3. n. CANTARELLA. 44. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. 1998. 1990. 1978. D. a busca de maior liberdade. formas de atuação política e os fundamentos. v. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. E. no Estado e no espaço público. Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. Milano: Feltrinelli. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. S. Sobre a História Antiga Romana. p. a iconografia. as tumbas funerárias.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. também ganharam valor documental as inscrições. desde então.MULHERES NA ANTIGUIDADE . F. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos. Donne romane da Tacita a Sulpicia. The public role of Pompeian women. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos. além dos tradicionais escritos oficiais. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. as estátuas. CHERRY. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. 204 . bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. 244-266. Phoenix. BERNSTEIN. a numismática. Torino: Giulio Einaudi. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica. Com esse olhar. Donne in Atene e Roma. 1987. S. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. Michigan: Ann Arbor.

Questions on women domestics in the Roman west. 185-201. 76-104. R. M. Women in Antiquity. 4. H. Jobs for women. FANT. Jobs for women. AJAH. KATZ.284 Entretanto. KAMPEN. pp. M. 1982. P. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. 205 . (Eds. R. Porto: Afrontamento. N. v. M. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História. 1.. Tradução de Coelho. In: HAWLEY. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. C. 12691278. S. FRANCO. 1981. TREGGIARI. 47 bis. mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. p. 1976. S. S. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. desde a década de 1980. MURNAGHAN. A. aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. G. (Eds. 123-130. 1998. Roma: L´Erma.. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. 2000. AJAH. 1992: 09). p. 1993.) História das mulheres no Ocidente. V. 1981. M. 185-201. H. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. 1. 1. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século. apresentando diferentes e mesmo DUBY. J. 1995 e JOSHEL. (Dir.MULHERES NA ANTIGUIDADE . et alli. S. LEFKOWITZ.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias. M. 284 Cf. REL. In: Schiavitù. livres e escravas  em seus ofícios e na política local.. Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. PERROT. 76-104. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. 1976. A Antiguidade. P. B. TREGGIARI. v. 1981. London: Routledge. S. TREGGIARI.) Women‟s life in Greece and Rome.. LeGALL. 1970. TREGGIARI. Berlin: Mann. Image and status: Roman working women in Ostia. R. Questions on women domestics in the Roman west. LEVICK.) Women & slaves in Greco-Roman culture. S. London: Routledge. Roma: L´Erma. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. G. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. pp. B. In: Schiavitù. Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO. Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum.

a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. tanto no Brasil como no exterior. Desta maneira. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. A distinção está. pode-se citar Costa e Bruschini. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. 2003. 285 206 . Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. no tratamento privilegiado das mulheres. por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. o papel de comando e domínio. Funari. 1998. 1998 e Bessa. elas são diferentes. Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino. É justamente nesse ponto. A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. 1998. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fixas e universais. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. para além das essências. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas. grupos étnicos e tradições culturais. Feitosa. Com isso. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. 1992. as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. sexuais. nas relações Como exemplo. Pedro e Grossi. justamente.NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285. Silva.

Nesse aspecto..287 Como enfatiza Matos. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. de um poder masculino sobre o feminino. 1995: 88). Western. de seu uso para a sociedade romana antiga. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289). Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero. 2001. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. denunciada pelo feminismo. Nesse aspecto. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . Piscitelli.. faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. ou não. 1988 e 1995. Para Jean Scott. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição. Baxter. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher. muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. 2009. pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele. dentre outros aspectos. ―mas das disputas. resultantes não de um consenso social. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas. 287 207 . em nível discursivo e social.NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. Formuladas entre os grupos sociais. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher. as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões. Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. ―existem muitos gêneros. ver Scott. Em função disso.

béticos. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. neutro e consensual. mas presente na trama histórica‖ (MATOS. podem ser de reciprocidade. por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. a da existência do feminino e do masculino 208 . MATTOSO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . germanos. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. Esse imenso império emaranhado de latinos. conferindo-lhes um sentido descritivo. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d. 1997: 13). ou seja. étnicas. apresenta diversidades jurídicas.NEA/UERJ 1995: 86-87). Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. dácios. A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. egípcios. além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. complementares ou de prestígio (MACHADO. O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. Diante disso. com grande variedade de povos. muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. masculino. gálatas. profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖. 2009: 283). gregos. 1992: 35. 1994: 44). entre tantos outros. 2009: 287). sexo. obscurece a percepção de diferentes poderes. pode-se considerar que as relações de gênero. 1995: 180. 1988: 192). que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. econômicas. de idade. Contudo. além dos vínculos de poder. Desta maneira. SKINNER.

Boswell (1990). 2009: 289). noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. p.. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. parasitas da elite. Aliado a esse. ou com a homossexualidade (MATOS. com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele. das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional.288 Destarte. é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. cf. 289 Cf. de 1997. Feitosa. L. Hallett e Skinner (1997). 2010. é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order. mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino. desocupados. enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes.NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. slaves. 288 209 . que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. C. escravos. por exemplo. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado. 2005 e Feitosa e Garraffoni. como nova categoria. Libertos. livres. A ênfase de Skinner. 1997: 25). dominadores e virtuosos. Para Maria Izilda Matos. 67). 1990: 595-596). with special attention to finding evidence of how marginal populations  women.

a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. ator. Se. prostituta ou dono de bordel já implicava. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. 3. mas de idades e categorias sociais diferenciadas como. puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. a iniciar por sua própria identificação. Grimal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por exemplo. por outro. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. a integridade do Vir consolidar-se-ia. Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. Assim. também. libertos. por exemplo.NEA/UERJ profissionais. 2. 290 210 . Autores modernos como. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. Segundo Walters. Além disso. e a partir de uma determinada prática sexual. em restrições jurídicas e políticas291. cf. por exemplo. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. por exemplo. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. Garraffoni 2005. D. diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). terra. à medida que a atividade ―lícita‖. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. Cf. por um lado. O simples fato de ser gladiador. 1997: 30). Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001). 1981. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. ―normal‖. Justiniano. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. músicos e corredores de bigas.

pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas. E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que. o pensamento dessa elite romana. Embora satirizado por Suetônio. o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. publicamente. era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. 1997: 51). e de mulheres aristocráticas. casadas. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. o que punha todas as mulheres em condição inferior. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas. 211 . A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . L). segundo Suetônio. que indicava a não penetração de outro cidadão.NEA/UERJ aristocráticos. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. solteiras ou viúvas. um dos mais importantes da política romana. Desta maneira. por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares. Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. à superioridade bélica. bem como a conquista. jovem ou adulto. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. em De vita duodecim Caesarum (I. Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . 3130. Entretanto. conotações diferentes às aristocráticas. 3478. em suas escritas. 5380. 490. Culinari. IV. IV. Caupones. dentre aqueles que partilhavam desse universo. CIL. padeiros. CIL. Unguentari. 202. cocheiros. CIL. IV. 710. 7669/71/74 (joalheiro). 275 (professor). CIL. 609. 336. Aliarii. 2005: 184). 998. IV. 373. IV. 293 294 212 . ajudantes de cozinha. 960. tecelões. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. 180. 429. CIL. de vitória. 295 Pomari . 241. IV. 134. IV. 951. 97. Galinarii. como esta deixada a Taine. 373. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. CIL. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. IV. Pistori. vendedor de roupas e jóias294. cotidianamente. na parede de uma casa: Cf. 4100. alfaiate. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. oficinas e padarias293. 480. 2966. 4227. comentado a seguir. 183. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. IV. 3485. 4888. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. Lignari. o mundo do trabalho. vendedores de alho e de aves. CIL. Inserida e construída nesse âmbito do labor. CIL. 4102/03/07/09/12/18/20. CIL. IV. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. CIL. CIL. CIL. 206. 4472/3 (Oficina dos Atti). aproximando a vida de populares à condição de infamia. Agricolae. 113. lenhadores. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. Aurificis. 7749. IV. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam. IV. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. IV. 485. ourives. IV. CIL. Muliones.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). Efusivas declarações podem ser encontradas. CIL. 3529. perfumistas. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. 368. a funções autônomas de professor.

feitas por homens que. por meio do relacionamento amoroso. IV. Amo tanto a Taine. Rogo. domina. IV. em obras da historiografia. 8364) Secundo a sua querida Prima. ut me ames (CIL. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. doce amor. 213 .NEA/UERJ Dulcis amor. 8137) Oxalá pereça. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma saudação cordial. em uma linguagem simples e direta. IV. Desta maneira expressou-se Secundo. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha. I 9. Já na inscrição CIL. 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf. 4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. IV. Peço. ou que foram um dia neles conquistados. Am. pedem o amor da mulher estimada. minha dulcíssima amada. senhora. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. 1. registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). indicado no próprio CIL.

cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t. além de indicar a satisfação de um conquistador. hinc vine veni vide Anthusa (CIL. uini. IV. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. Saudações. Val(e) (CIL. o heterogêneo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. Assim. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. 297 César: ueni. vi e venci Antusa297. de lazer e por meio das paredes da cidade. interagiam em ambientes de trabalho. Inscrição encontrada na Casa do 214 . Calpurnia te diz. A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites. Mas. na Via Consolare.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo. IV. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. uidi. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. no desejo. na tarefa de focar a diversidade. 37. o local e o específico. Suetônio. A frase de Fortunato. Aqui vim. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. Cirurgião. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. ou idealizados por eles e para eles. 230) Fortunato fodeu. a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito.

nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais. econômicas. das tensões. o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . ou seja. mas também por meio das sensibilidades. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. mas de estudá-las em conjunto. Portanto. a questão de gênero.NEA/UERJ cotidiano. conceitos.. masculinos e femininos. das sociabilidades. atitudes e embates em suas relações sociais. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. Como considera Mattoso. na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. formulam múltiplos vínculos. do imaginário e do discurso.]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖. mas relacional e analítica. nem só pelos movimentos demográficos. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos. ambigüidades e obstáculos. é preciso reescrever a História (MATTOSO. a partir de seus valores. visões e espaços sociais. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens. Desta maneira. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. culturais e políticas. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . comportamentos. segundo Scott. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas.. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183). [. mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais.

T. 216 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . J. Concepts experience and sexuality. In: FUNARI. 2005. do passado e atuais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAXTER..) Uma questão de gênero. (Orgs. P.). SUETÔNIO. E. C. J. Londres. v. FEITOSA. (Ed. C.Corpus Inscriptionum Latinarum. v.) Reconfigurations of Class and Gender. K. masculinidades. Stanford: Stanford University Press. BESSA. 1992. Cadernos Pagu. L. J. C. (Org. Berlim: Akademie Verlag. COSTA. Campinas: Ed. Editorial Arazandi. desejo e poder na Antigüidade: relações de gênero e representações do feminino. heterogêneo e vibrante. Pamplona. 2001. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. G. 1990.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy.. Garraffoni e Pedro Paulo Funari. BRUSCHINI. C. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL CIL . de modo complexo.. In: STEIN. E. G.. L. In: STEIN. 1968. IV. C. Rolfe). O. BOSWELL. 1998. Coleção Loeb. BOSWELL. (Org. 11. Harvard University Press.NEA/UERJ humanas. 1989. J. Agradecimentos: Meus sinceros agradecimentos aos colegas Maria Regina Candido. Gênero e o erótico em Pompéia. G. M.. M. desde 1863. (Eds. De vita duodecim Caesarum libri VIII. da Unicamp. WESTERN. P. SUETÔNIO. Renata S. Amor e sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pompéia. J. D‘Ors. L. Milano: Bur. 1998. M. New York/London. C. Amor. As idéias apresentadas são de minha responsabilidade. A. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. São Paulo: Fapesp/Annablume. The lives of the Caesars. JUSTINIANO. FEITOSA. M. SILVA. A. FEITOSA. A. et alli). A. 1990. 2003. (Ed.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy.) Trajetórias do gênero. New York/London.. (trad. Digesto (trad. Concepts experience and sexuality.C. T.

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distancia que debe medirse Prof. la Salvaje. la que recorre los bosques. tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico.299 A. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo. intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad..ª Dr. 300 Esta introducción.NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. Prometeo. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto.ª Dr. histórica o económica. 299 Vernant. P. consagrada a la virginidad eterna. hermana de Apolo. no sólo desde una perspectiva política. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof. La muerte en los ojos. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses. acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político.MULHERES NA ANTIGUIDADE . donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología. sino desde una dimensión antropológica. 2009. Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo. no campo da Filosofia Antiga.200. Buenos Aires. la Parthenos pura. J.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja. portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. Es la cazadora. de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 .

A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad. Antropología de la Grecia Antigua 220 . fundamentalmente. inédito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. el modo de aproximarse o de alejarse. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. Es esta distancia lo que determina los dos planos. de considerarlo. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. incluso por el propio temor. sin duda. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. la continuidad y la discontinuidad. poco común. lo semejante y lo desemejante. raro. La metáfora impacta. A partir de esta tensión que borda la trama cultural. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. que se juegan. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301. La problemática transita. por una dimensión ontotopológica. La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. L. en el modo de concebir al otro. en primer lugar. Pensar y 301 Gernet.

extraño por extranjero y extranjero por extraño. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. 221 . que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad. conservación. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. en su doble acepción de lugar y condición. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo. puntualmente en el topos de Artemisa. en el límite. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. identidad. homogeneidad. y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. al tiempo que niega esa extrañeza radical. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. lo moral y lo inmoral. regido por las pautas de la semejanza. horadando las certezas que lo Mismo otorga. para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. A la luz del marco teórico precedente. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. en el margen donde claudican las propias certezas. tópico que hemos puesto en juego. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. familiar y conocida. su paradojal fascinación y su inusual presencia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lo normal y lo anormal. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. una diosa ―aparentemente‖ marginal. lo legal y lo ilegal. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad. desde su lógica áltera. alejándose del imaginario que ella misma genera.NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco.

p. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras. Los dioses de Grecia. Alejada de la función materna en su calidad de virgen. Tal como sostiene Otto. maternal y delicadamente solícita. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. Diosa vinculada a la naturaleza. Presencia paradojal que. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302. alejada de todo contacto. al igual que su hermano. no obstante. y. tal como la describe Otto. es ella quien preside la ritualidad femenina. enlazada con la lógica del parto. 67. 222 . ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. W. W. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. Los dioses de Grecia.NEA/UERJ B. desde la distancia. Artemisa: las huellas de la distancia. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. Diosa virgen. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. tensionando la díada cercano-lejano. sin ser ella misma madre. que sí se 302 303 Otto. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna. Otto. se relaciona con los hiperbóreos. 50. sólo pobladas por animales salvajes. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él. p. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función. La misma distancia habla de su condición virginal. La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. no es la gran madre universal. solitarias. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal. cumple una función íntima.

He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. una diosa civilizadora por excelencia. es. asimismo. como de la sociedad en su conjunto. lo civilizado y lo salvaje. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes.NEA/UERJ entregan al amor. La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. sino instituyentes del topos identitario. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. en el marco de la lógica identitaria que se impone. de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. Del mismo modo. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. se juega en los márgenes de la lejanía. y.. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Dicha configuración se articula. C. Artemisa. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. como términos constituyentes de la configuración identitaria. tal como hemos intentado referir. donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 . tanto del individuo. Alejada del matrimonio. delinea el topos de lo Mismo. a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. en última instancia. Términos no sólo constituyentes. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. de la dominancia de una sobre otra. Artemisa es una divinidad que. Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería. en su identidad civilizadora. de los lugares poblados. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes. no obstante.

El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. lógica 224 . de confín. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. la tierra cultivada de la no cultivada. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. entre un topos firme. de margen que delimita espacios heterogéneos. se ha retirado.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. lo humano y lo salvaje. como los pantanos o las ciénagas. marcados por la noción de límite. de distinta densidad topológica. Artemisa civilizadora. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. el espacio otro es el espacio no cultivado. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios. la geografía humanizada de la no humanizada. deviniente y móvil. Así. que instituye la custodia de los territorios. asiento de la ciudad y otro acuoso. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. o bien permanece. no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. donde el agua. a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras. dejando un topos anegado. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos. lo culto y lo bárbaro. sino un conjunto de lugares liminales. pero también de distinta densidad antropológica. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. o bien. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores. El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . prepara el pasaje al meson. La ciudad es un espacio reglado. preparar. nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos. Ordenar. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige. convirtiendo a la ciudad en un espacio común. guardiana del orden. La ciudad tiene sus exigencias. que responde a la anarquía del azar. los mismos y los otros. Lejos de ser un territorio improvisado. la batalla. arregla las condiciones del tránsito. el matrimonio. Se trata de una acción cosmificante. implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra. la ciudad es un kosmos. Artemisa ordena el espacio. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. desde cierto lugar marginal. configurando sus límites. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que. El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. gobernar. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico. celebrar. arreglar. disponer. en un topos donde se coloca lo que es de todos. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. gobierna y manda sobre todos los espacios. 304 225 . allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. que exige orden para su constitución y organización. D. el parto.

no saben delimitar fronteras. como su hermano. velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad. la guardiana del orden. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. entre lo mismo y lo otro. en su dimensión de nomothetes. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. ya que su acción es productora de efectos.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. reconocer al Apolo de los caminos. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. entre lo humano y lo bestial.MULHERES NA ANTIGUIDADE . en tanto involucrada directa en el orden de la misma. a su vez. Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. 305 226 . el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. entonces allí están los hermanos. desde sus territorialidades singulares. Apolo con su función legislativa. también vela por el triunfo de la sophrosyne. Interviene allí. Si los hombres. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano. En el marco de la expansión colonial griega. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema. En cierto sentido. desde sus peculiaridades identitarias. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. Esto abre una dimensión política de la diosa. constructor de ciudades. hijos ambos de Zeus y Leto. Apolo con el cuchillo en la mano. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica. por su propia precariedad antropológica. rasgos que suponen. puede consultarse el libro de Marcel Detienne. el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. es. Artemisa política.

lleva de una orilla a otra. D.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant. J. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura.P. celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada. la oportunidad. Aretemisa es la gran conductora.1. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. de convertirse él mismo en presa. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone. por ejemplo. Artemisa preside la caza‖306. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. de la vida misma. Artemisa conductora. produce el pasaje de un estado a otro. el momento oportuno. conductora del parto y por ende. La muerte en los ojos. la batalla. para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. Es una justa entre hombre y bestia. 24. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. para medir la conducta del varón prudente. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. 227 . El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. es el kairos.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos. de la niñez a la adultez. p. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. dirige la transición de una categoría a otra. entre lo humano y lo no humano. educa a las niñas en vista de su formación de esposas. sino también la guerra. la coyuntura favorable. observa que se cumplan sus regulaciones. Como otras tantas actividades que la vida social propone. Es el espacio de consolidación de la virilidad. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos.

lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos. Artemisa legisladora.P. El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. culturalmente valorada y socialmente observada. Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. Artemisa no es el salvajismo. por así decirlo. La muerte en los ojos. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. la función de la diosa es imprescindible. 228 . Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro. lo incivilizado y lo civilizado. D. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. aunando en su función la dupla saber-poder. vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. a la adolescencia. lo bestial y lo humano. como digna hermana de Apolo. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. p. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. 24. Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan. Artemisa conoce las reglas del tránsito. 2. porque la caza permite atravesarlas. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. más precisamente. momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad. J. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede.

La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. antes de dar ese paso. una vez más. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. La función tampoco conoce de sexos. Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. como ciudadela a proteger y el orden del oikos. La función de la diosa es altamente calificada. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. de la niña a la parthenos. estatutos. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. pura. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior. Su función se vuelve. sociopolítica. como estructura isomorfa308. casi animal. espacialidades y roles atribuidos. como arte de administración del oikos. ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. los jóvenes. frontera entre dos topoi. y el mundo adulto. Una vez más su lugar es el topos de la frontera. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano.NEA/UERJ sueña. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería. categorías. funcional al dispositivo político. virgen. la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. 308 229 . como la diosa. Del niño al joven.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa.

P. distingue. los jóvenes de los adultos. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. para hacerse osas. Para ello. despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina. distingue entre lo femenino y lo masculino. asume el campo lexical del verbo krino. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. 3. la consolidación de lo Mismo. al configurar las consolidaciones identitarias. discierne. J. D. Artemisa pedagoga. sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento. vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. Facilita la entrada al mundo de la mismidad. incierta y equívoca.NEA/UERJ liminar. p. Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. lo animal y lo humano. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. esto es de la condición de niña o cachorra. Alejadas de sus hogares. 230 . En efecto. No sólo al pasaje de estadios y registros. instalándolas en la comunidad civilizada. distribuidoras de roles y funciones. todavía no están cristalizadas309. Artemisa instituye. lo niño y lo adulto. 25. plasmada en la organización de la ciudad. las bestias de los hombres. reglada por sus instituciones. La muerte en los ojos. En cambio. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos. Conductora del tránsito. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. en última instancia.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. 231 . guerra. la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. pasajes.NEA/UERJ misma. la única capaz de parir. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. el alumbramiento constituye el momento más animal. desde la primera infancia. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. preside el parto. más sanguíneo de la institución matrimonial. Artemisa. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. caza. La Artemisa Lochia. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. confusa. visible en el parto. completando su función de nodriza. ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. matrimonio. conductora del parto y del nacimiento. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento. hasta la madurez del alumbramiento. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. En efecto. Presente en la caza. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. Artemisa es una diosa nomádica. insistente en la guerra. parto. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual. articulada con el nacimiento. Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. acompaña el desplazamiento. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. las bestias devuelven su rostro otro. Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia.

imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar. p. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural. aunque. al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta.P.NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. marcada en el presente trabajo más de una vez. natural. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa.parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. La muerte en los ojos. en un primer momento. dolores.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 29. Su contacto con la animalidad. en el inicio de una vida atravesada por la cultura. imágenes de ese mundo salvaje. Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. El parto es el momento oportuno. gemidos. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. bestial. el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería. D. 232 . despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. Si Artemisa cumple una función socio-política. es ahora la mujer la que. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio. no civilizado aún. gritos. J. 4.

30. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos. una vez más.NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros. guardar. conservar. vigilar. con el imperativo del verbo fulasso. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. ni subjetiva. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra. estar de guardia o centinela. Mucho ha costado delimitar las fronteras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ni territorial. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. Artemisa cumple. J. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant. dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. 233 . proteger. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. en ese ámbito Otro. por su posible des-orbitancia. p. La muerte en los ojos. tener cuidado de. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. custodiar. velando por ella. mantener. Por ello debe velar Artemisa. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa. ni moral. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica. hybris. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico. estar en guardia o con cuidado.P. Guardiana de los órdenes. observar. y la impulsan brutalmente al salvajismo311. Magnífico abanico semántico. atender. El salvajismo constituye un estado otro. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado. Artemisa guardiana.

no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. el deguello sangriento de la bestia. E. p. en el momento crítico. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. J. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia.P. La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. con su esbelta talla. La muerte es también un acto cultural. territorios. Conclusiones Sin duda la Antropología. La muerte no escapa a las generales de la ley. la sphage. y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. en una situación liminal. tanto desde el pasado como en la actualidad. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. 312 Vernant. velando por la lucha digna. La problemática transita por una cuestión topológica. Tal como sostiene Vernant. […]en la intersección de los dos campos. la paz y la batalla. Por lo tanto allí está Artemisa. de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar. 234 . La muerte en los ojos. de una muerte salvaje. Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad. 31. según su cualificación antropológica.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana.

La muerte en los ojos. 313 Vernant. p. salvadora de la guerra y la batalla. partera. 235 . J. serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. exclusión. Los topoi. entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen. Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder.P. que incluye prácticas de internamiento. con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme. como modo de conjurar su peligrosidad. territorios. supone cierta cartografía. secuestro. cierta distribución de los sujetos en el espacio. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. Visibilizarla. En el corazón de esta preocupación.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. cimiento. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. territorializarla y manejarla tecnológicamente. nodriza. Cazadora. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia. 31. inconmovible para toda construcción identitaria. se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad. o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. espacios. como Grund.MULHERES NA ANTIGUIDADE . La otredad no escapa a la regla. de la extrañeza.

Taurus. 2001.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Antropología de la Grecia antigua. L. C.E. ______.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL XENOPHON (Jenofonte). J. Barcelona. Editorial Eudeba. Buenos Aires: Editorial Caligraf. La muerte en los ojos. Buenos Aires. M.-P. C. 1973. 1986. M.. Historia de la religiosidad griega. 1999. Buenos Aires. Ariel. Paris. Textos de Antropología. M. M. Foucault y lo político. s/d REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLOMBANI.Apolo con el cuchillo en la mano: Una aproximación experimental al politeísmo griego. Taurus. Librairie Garnier Frères. F. W. México. M. 1969 OTTO.C. La trama cultural. Maestros de Verdad en la Grecia Arcaica. y BELLELI. 236 . 2009 DETIENNE. ______. Madrid. P. Anabase. .Èconomique. NILSSON. VERNANT. Editorial Gredos. Las Palabras y las Cosas Siglo XXI. Madrid. 1968 GARRETA. GERNET. Madrid. FOUCAULT. Madrid. Los dioses de Grecia. Akal. 1981. Buenos Aires. Prometeo. 2001. 2000. Mito y pensamiento en la Grecia antigua.

desde logo. G. vide P. impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. tudo indica que seja anterior a 423 a. segundo uma perspectiva individual e colectiva. 1. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. American Journal of Philology 99. axioma são avaliados na pureza do seu sentido. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. ‗Hecuba‘s revenge‘. 1. perante os Aqueus vencedores que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. Stanton (1995). a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. C. 314 237 .ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. nomos. 96-99. condicionar a opinião pública. dike. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. aliciar o apoio das massas. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes. 11-33. R.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA . enfim. 1. com insistência. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. de regresso à pátria. Meridor (1978). gratidão e reciprocidade. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316. É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. no acampamento aqueu na Trácia. Com a ruína. Mnemosyne 48. coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala. Sobre o assunto da datação da Hécuba. o quadro e os agentes que interagem. por exemplo. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. Charis e philia. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis. vide R. em primeiro plano. os princípios que a tradição consagrou. valores como charis. Em diversos tons e contextos. 28-35.A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. 315 Embora a data da peça não seja precisa. lá se detêm. tornam-se polémicos. E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão. colectiva e pessoal. Schubert (2000). baixam os braços. philia.ª Dr.

o exemplar completo do retórico contemporâneo. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. sem marido. um traço superior de civilização. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro). em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições. Hécuba. impõe-se um conflito de culturas. Troianos e Bárbaros se polemizam. símbolo extremo da ruína humana.NEA/UERJ sobrepõem. perante a homenagem devida a Aquiles. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. a philia torna-se um processo destrutivo. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos. como um processo de alianças políticas. sofre do mesmo mal. Mais do que envolvê-la. sem pátria‟. a velha rainha de Tróia. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. inimiga. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. como se os grandes princípios universais. estrangeira. cativa. Entendida. O que vale a vida de uma jovem. Por fim. um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana. decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos. a solidariedade. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. onde Gregos. 669 -. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. com Agamémnon. No meio do mesmo descalabro social. o 238 . susceptíveis e frágeis na sua contingência. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. o primeiro dos heróis. para mais mulher. Entrelaçada com charis e philia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ou permeada de afecto. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). com habilidade oratória. prática e salvadora. de respeito pela vida e coesão humanas. que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais.

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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cf. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância.NEA/UERJ amigo e aliado. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. se. 416. Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. passa a dar prioridade à vingança. determinada. M. a philia exige um código retributivo. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima. ‗Violence and the other: Greek. o motivo retórico que cruza a peça.. de contrapor. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘. uma outra. Transactions of the American Philological Association 120. ‗Hecuba and nomos‘. Entra naquilo que Ch. é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem. cit. W. G. Transactions of the American Philological Association 14. Kirkwood (1980). como é a posição defendida por W. a uma primeira Hécuba. Munich. D. Schubert. vingativa. Nussbaum (1986). op. Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. D. Como se. quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. para Eurípides.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Studien zum antiken Drama. Cf. mesmo assim. Steidle (1968). 87-88. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. The Athenian homicide law in the age of the Orators. M. no código moral grego. cf. 1-2. M. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. no seu desrespeito pela vida Como é sabido. MacDowell (1963). 109. além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. M. Blundell (1989). Hécuba muda simplesmente de tom. Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. A study in Sophocles and Greek ethics. 322 Na verdade. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. 321 Não se trata. Segal (1990). P. 1. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse. J. está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. cit. de dois temas distintos. 320 246 . Cambridge. mais ou menos incoerente. o chefe supremo dos Aqueus. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. com simetria de argumentos. op. 30-44. Helping friends and arming enemies.. na sua aposta. igualmente bárbaro. activa. e que se repete. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . Conacher. o seu novo interlocutor. designa por factores de ‗unidade temática‘. Cambridge.

e da distinção de uma afinidade particular (793-796).. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. o seu lado mais tenebroso e. após a impiedade e o assassínio. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia. Torna-se. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi. Baltimore and London. deixa os Gregos insusceptíveis324. a súplica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas que vence. superior a todas as hierarquias humanas. é um valor divino. 83.‟ Dentro de igual princípio. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. absoluto. nomos. que traz enfim ao de cima. na alma da rainha de Tróia. 323 247 . uma argumentação pragmática e amoral. op. Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. sob as aparências. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). coloca o desrespeito pelos mortos. com ele. do convívio à sua mesa. 324 Segal. mais uma vez. agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima.NEA/UERJ humana. que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. usados para com Ulisses. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. ‗a lei‘. E numa escala ascendente. The heroic Muse. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . 124. que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. mas. Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. Como afirma D. cit. incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem. de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805).

op. peado por Segal. E só depois do fulgor desta Persuasão. aos teus joelhos. com todo o tipo de argumentos‘. como podem ser distorcidos e amesquinhados. mostra como são relativos no seu mérito. 325 248 . do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social. como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços. as noites partilhadas. neste caso. Hécuba remata num apelo. pés. sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. A passagem abrupta. o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. mas também ele. 832)325. mantém-se fiel aos valores em discussão. 123. comprometido. Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio.. respeitador dos princípios da piedade. O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). mãos. por interesses pequenos e condenáveis. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). cit. encarnada num gesto falante de súplica. justiça e hospitalidade (852853). na rhesis de Hécuba. charis. por artes de Dédalo ou de um deus. os abraços de amor (828829). como Ulisses. mas ao retomá-los. Na sua nova abordagem da causa que defende. todos a um tempo. contra Polimestor. discreta e apagada. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. o apelo a Cípris. se não parecesse. na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita. para se prenderem. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. é ainda devida à justiça (844-845).MULHERES NA ANTIGUIDADE . o reconhecimento face a uma amante. Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860).NEA/UERJ ao seu dispor.philia e charis. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio. por entre lágrimas e apelos. Philia é. vou usá-lo‘. nem da sua hierarquização em sociedade. como a desejável punição para quem prevarica. perante o exército. teria todo o prazer em agradar a Hécuba.. cabelos. uma última palavra. se vê enleado em compromissos. Mas pouco importa.

no limite. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. O bom senso e uma louvável prudência (1137). De resto. entre Hécuba e Polimestor. Polimestor não pode.NEA/UERJ interesses em conflito. Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. que é. como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. a philia. parece. pura falácia (1197-1201). e um gesto de protecção para com o seu povo. a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político. a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados. chama-se ‗ouro‘. assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144. em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. com Agamémnon por juiz (1129-1131). em momento de crise. à luz da evidência. Despida de uma capa de dignidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Resta um último agon. com cuidadosa simetria. Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. despojada de argumentos. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada. A philia invocada por Polimestor. só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime. 1175-1177). invocado como justificação para um assassinato. tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235). no meio de uma controvérsia de valores. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. por qualquer habilidade retórica. os senhores de Tróia (1228-1232). cada argumento do adversário (1187-1196). É simples a intervenção de Hécuba. negar o homicídio de que é acusado. uma evidência. Hécuba desmonta. suprimindo-lhes de vez o inimigo. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136). a verdade crua. como ponto de partida para o argumento da legitimidade. entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito.

‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. é óbvio que aos primeiros. enquanto dura. porque à ventura. R. Helping friends and arming enemies. 1995. 2000. In Euripides ‗Hecuba‘.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira. American Journal of Philology 99. ‗Hecuba and nomos‘. além de confrontarem comportamentos e princípios. Transactions of the American Philological Association 14. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. 1. ‗Euripides‘ Hecuba‘. A study in Sophocles and Greek ethics. P. compete representar um nomos tradicional. 1989. American Journal of Philology 82. Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva. Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. ‗Violence and the other: Greek. M. Cambridge. Lisboa. opõem também Bárbaros contra Gregos. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. W. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS. 1978. STANTON.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 28-35. NUSSBAUM. 250 . 1986. ______. F. female and barbarian. The heroic Muse. 193-219. R. incapaz de persistir nos valores solidários. Classical Quarterly 16. SILVA. 1980. KOVACS. que. M. Baltimore and London. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. Eranos 81 (1983) 13-20. Cambridge. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. 1987. 1. D. M. 109-131. G. MERIDOR. quando encarnados pelos Troianos. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. BLUNDELL. 1. CONACHER. 1-26. A. Transactions of the American Philological Association 1990. 'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. 11-33. W. KIRKWOOD. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘. 96-99. 1961. J. 2005. ‗Hecuba‘s revenge‘. Ensaios sobre Eurípides. D. 30-44. Mnemosyne 48. SEGAL. C. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. 120. M. G. 1966. H. SCHUBERT. não faltam os amigos‘.

impedindo. A demonização do ―outro‖ é. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. distorcendo a realidade sobre a família árabe. sem dúvida. Maomé era retratado como um lúbrico ancião.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como no mundo contemporâneo. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga. muitas vezes. a questão sexual. Nesta estratégia. Além disso. a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. Mas. formando a Umma. ganhou uma grande importância. ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano. uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖. 326 251 . mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito. o perigo da contaminação doutrinária. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. Era necessário que se apontasse. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. Ela era a base da própria identidade coletiva. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos. Desta maneira. que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.ª Dr. Na campanha difamatória. a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos. Após a sua morte. evitando assim. marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. muitas vezes.

A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. podia comerciar e dispor de seus bens. cujos autores eram soberanos e vizires. A pesquisa em outras fontes. na prática. devido pelo homem à mulher. O costume tribal. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. isto nem sempre tenha ocorrido. persa. judaica. Os homens podiam casar-se 252 . se um número expressivo de meninas nascesse. além de permitir a poligamia. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. Para muitos. Tal fato não deve causar admiração. Embora. até mesmo caucasiana.NEA/UERJ ocorre. redigidos numa linguagem pública e oratória. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo. a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. ao contrário do que se pensa. egípcia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando da consumação do casamento seria entregue a esta. O Profeta quis proteger a mulher. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. herança mesopotâmica. tentou melhorar a situação da mulher. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. helenística e. A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. pela própria natureza das fontes. pois isto significava uma perda financeira. sendo considerados meras propriedades. Maomé para evitar isto. Assim. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. Sabemos que o Profeta. A partir da época dos abássidas. o que de certa maneira. embora. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo. não gozavam de nenhum direito. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. daremos o devido mérito ao Profeta.

253 . assim se chamava ela. embora. podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. Mas. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. Pelo menos. e. principalmente. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. tratando-as com crueldade também deve ser repensada. embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. graças aos lucros auferidos na atividade comercial. Mas. a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas. dividindo com estes a mensagem recebida. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto. á dos coraixitas. já havia enviuvado duas vezes. como já acima já mencionamos. que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão. era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo. Khadija. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos. para que o aconselhasse. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. na qual Maomé havia nascido. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. é o que podemos depreender . O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade. Foi deste modo. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. pois se para os olhos da cultura ocidental. Mas. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. que lhe propôs o casamento.

entre os que apoiavam o Profeta. Assim. até então havia lhe conferido o status de Deus único. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval. Contudo. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e. tendo o casal tido seis filhos.. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico. O que aponta para isto é o fato de que. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. Mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . se para nós. Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa. mas no caso de Khadija. Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. onde existia um importante templo da deusa al-Lat. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas. mas ninguém. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. 254 . Assim. o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos. isto. Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e. quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca. como Taif. discordando assim da postura de seus maridos. mas também em cidades . as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva.NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio.

uma criança de seis anos de idade. ao longo do tempo o criticassem e. mas tentando aproximar-se dele. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade.nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. embora para alguns estes possam parecer estranhos. Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. o que não causaria nenhuma estranheza no meio social. chefe dos Amir. uma vez que a poligamia era uma prática comum. Mas. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. de uma vez por todas. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa . a qual não contou com a presença da noiva. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais. -. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. 255 . Abu Bakr. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele. Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. o tio de Maomé. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta. Assim. muitas vezes utilizado para promover alianças. Mas. a sua filha Aisha. constituindo-se a monogamia numa exceção. ou até mesmo pervertidos. prima e cunhada de Suhayl. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. dirimindo conflitos. Contudo. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. após este haver se recusado. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. Após a morte de Khadija. imagem esta que. de forma nenhuma corresponde à realidade.

um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. Mas. Assim. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas.NEA/UERJ Como já afirmamos. Hafsah. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . Desta maneira. já se dispunham à ação. Sua vida em Meca corria um grande perigo. sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. como foi o caso da jovem de dezoito anos. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração. os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca. Todos juntos participariam do assassinato. protegia melhor seus membros. Além disso. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta. conseguiu fugir sem ser notado. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. tornava-se fortemente reprovável. o que lhe garantiria uma maior proteção.e. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. As batalhas e. numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência. No dia combinado. segundo relatos era culta como seu pai. deveriam contentar-se com uma indenização. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado. Para isso.Umar. sabendo ler e escrever.MULHERES NA ANTIGUIDADE . levara a formação de uma conspiração para matá-lo. Por isso. uma vez que. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças.

ao qual só os poderosos poderiam arcar. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos. A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. o que significou para o noivo uma nova aliança política. sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia. e assim mesmo. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. o quadro era bem outro. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia. isto sim. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. Ao longo do tempo. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos. a cada homem só era permitido ter quatro esposas. os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens. querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas. de nenhum modo. 257 . a proteção daquelas. desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. Nas zonas urbanas. Tais determinações. ou seja. Mas. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. uma vez que. mas visava.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Deste modo. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. Não se tratava. A explicação é de ordem econômica. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho. uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. de proporcionar prazer sexual a estes. O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. contudo restringindo-a. o que significava um enorme gasto. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa.

como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança. que variou ao longo do tempo. este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. ou mesmo. contudo. irmão ou na falta destes um membro da família. até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos. por outro lado. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. Mas. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa. uma vez que. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. loucura. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. somente uma ausência de recusa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. Na questão da repartição da herança. Além disso. quando analisamos a questão do divórcio. fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas. uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos. Contudo. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino.

embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido. até mesmo de primeiro grau. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia. emancipasse a mãe. Mas. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos. Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio. O Islã admite o casamento entre primos. Mas. apelava-se também para a endogamia. Assim. A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. Podia apenas tê-la como concubina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo. o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. a não ser que este se convertesse. contrariamente. Para conjurar este mal. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação. sem exigir a conversão. 259 .NEA/UERJ masculinos. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica.

As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e. O adultério. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente. o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge. na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas. uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal. À princípio a concubina não deveria procriar. Diferentemente do casamento. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. o que não é de admirar. quando ela engravidava e dava a luz mudava de status. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima. repreensíveis. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. 260 . leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . Sendo assim. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. limitado a quatro. sendo quase desconhecido no mundo rural. aumentando o seu preço no mercado. o que explica a clausura em que vivia. adquirindo certos direitos. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. ela é enorme. tornando-se um-al-walad. por isso mesmo. a permissão do concubinato e a própria existência do harém. a primeira. de quem o marido exigia seriedade. que amenizavam sua condição servil. Além disso. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. quando praticado entre duas pessoas casadas. Mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quando descoberto.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. Mas. que deveria ser realizado numa festa. A existência da poligamia. o número de concubinas era ilimitado.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Na cidade de Caiurão. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. a pergunta se impõe. No mundo muçulmano. a prostituição. Mas. principalmente as celebrações de casamento. Mas. contudo. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática. Mas. O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. nunca pela prostituição. Embora. Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. Mas. 261 . onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita. Assim. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. não há nada de mais falso. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica. para a visão ocidental. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. jamais foi erradicada. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. que. uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. apesar dos esforços de Maomé. não parece ter sido alvo de discriminação e ódio.NEA/UERJ Embora. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes.

Tal situação. o que nem sempre ocorria. A mulher vivia encerrada em sua casa. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. o que fazia com que durante sua vida. Na verdade. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. ―mãe de fulano. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân. pois tal como os homens. quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. a vida religiosa não lhe era vedada. A maternidade conferia uma importância e segurança. Além disso. mais do que de meninas. Apesar. equivalente as termas romanas. Mas. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana.‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo. praticamente só visse homens. No caso. sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana. 262 . criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher. localizadas em Meca e Madina. além do seu marido. descendentes e irmãos. ser mãe de meninos . ela. o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. onde se pode. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . para as mulheres ―trabalhadoras‖. Rio de Janeiro: Ed. 2001. como as que habitavam a zona rural. a formulação de uma outra pergunta se impõe. acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura. 263 . proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. pois.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira. Primeiramente. seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas. p. ficando atrás dos homens. ela é praticamente inexistente. 24. Maria Clara Luccheti (org.198. Violência e Religião: Cristianismo. Mas. Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito.). Contudo. o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327. por exemplo. Então. gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. PUC-Rio. sem medo de errar. São Paulo: Loyola.4. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada. Ao finalizarmos este modesto trabalho. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres.

direcionadas para regiões específicas. livres de anacronismos e preconceito. a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio. Embora. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso. não poderia. que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. Nas duas primeiras religiões citadas. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. isto é. Finalmente. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e.NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a misoginia é patente. tradição esta oriunda do judaísmo. contudo. isto é. gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que. 264 . na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem. a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. Deste modo. As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Maria Clara Lucchetti(org). A sexualidade no Islã. Rio de Janeiro : PUC-Rio. Albert. Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. Rio de Janeiro : José Olympio. 2001 265 . André. Violência e Religião. Armstrong. 1996 BOUHDIBA. Paulo: Cia das Letras.Tradução William Lagos. S. Thierry. 2002 SONN. Tradução Marcos Santarrita.Paulo: Cia das Letras. Uma breve história do Islã. In: História da Família. Tâmara.Islã. A família no Islã.Porto Alegre : RS: L &PM. 2006 KAREN. Maomé uma biografia do Profeta. Tradução Andréia Guerrini.NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA.2010 BINGEMER. Abdelwahab. São Paulo: Globo. Paul. 2006 HOURANI. S. São Paulo : Loyola . 2001 BLANQUIS. Lisboa: Terramar. Uma história dos povos árabes. BURGUIERE .

Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude.1998: 99). destinadas a eterna subordinação a figura masculina. tanto do século XIX quanto do século XX. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo. o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. O movimento social feminista. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ.1995:09).MULHERES NA ANTIGUIDADE . teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. mas intensas. na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas. Na década de 90. O debate em torno da opressão sobre a mulher. Judith M. 2006: 54). foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History . ao longo da história. 328 266 . Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ. ou seja.a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL.NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas. a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. Segundo Rachel Soihet.

sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. 1995: 11). O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal. 1995: 10). Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. entretanto buscar a motivação dos fenômenos. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher. que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. 1997: 279). se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia. 1988: 141). buscando as origens da dominação masculina. sem. desde a década de 70. Por outro lado. usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado." (SCOTT. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. desde os anos 60. Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres.NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL. assumindo um caráter descritivo. tanto no passado quanto no presente. A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 . Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. O termo têm sido. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder. porém. não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero.

Gero com Engendering Archaeology. Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. como tal. Conkey e Joan M. Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 . 1998: 10). nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET. 2003: 27). 1988: 146). No continente americano caracterizou-se por duas vertentes.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. As duas vertentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por outras. por vezes se contradizem.NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero. no gênero feminino. torna-se inseparável. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher.women and Prehistory (Oxford. a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. ou seja. A proposta norte-americana representada por Margaret W. Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual. As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. parecem paralelas e/ou se tornam complementares. ou seja. O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e. não antecede a organização social. Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo. A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero. mas. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho.

a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um.NEA/UERJ trazer para debate a interação social. Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação. 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. agricultura e cuidados com a família. A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. modelo histórico e cultural. O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . Enquanto que o masculino está relacionado a caça.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada. a mulher na história. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY. Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. Segundo Conkey. Segundo Conkey. especifico da vertente anglo-americana. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino. Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte. as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. 1997: 415).

O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino. A pesquisadora C. Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. como os de Marie Huot (1892). Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993). Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado. 1997: 414). Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . 1991: 07). O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX. 2006: 54). Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911). Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia. No século XIX. As pesquisadoras perceberam que. as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil.NEA/UERJ anglo-saxão. 1997: 423).

Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. identidade e etnicidade. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. Para Sarah W. 2007: vii). ou seja. A ação da mulher tem sido visível na arqueologia. em particular tempo e lugar. Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos.NEA/UERJ diferenciação. Seguindo a proposta de abordagem interacionista. implicações políticas. através de suas escolhas e abordagens. tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. sepulturas e representação imagética. A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça. existem muitos caminhos para abordagem do tema. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. 2003: 19) . 2003: 01). estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON. pois existem diferentes papeis sociais. a pesquisadora Elizabeth M. mas não de forma isolada. dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros. Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. dependendo do 271 . a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. classe. sociais e econômicas. A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas. ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia. Segundo Elizabeth M. particularmente. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas. nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. epigrafia e imagens parietais através da comparação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Entretanto. primordial para os estudos da arqueologia de gênero. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL. de negociação. Como por exemplo. de formas diferentes. Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . 2007: 10). status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. afrescos e cerâmica. Em arqueologia. citamos as mulheres representadas. A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade.

A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero. As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. O estudo de caso torna-se muitas vezes. Para E. A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. espera-se apreender as relações de tensão. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2007: 12).Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado. confronto. A partir dessa perspectiva. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia. identificando o espaço de produção. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social.NEA/UERJ normas. A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 .M.. recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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Conhece. confidenciara. com detalhes precisos. posição de Dom Laporte. excelente mesmo. inclusive dando os nomes dos beneficiados. ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours. não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa. Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós). e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. portanto. deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. devido à idade avançada das suas testemunhas. faz citações diretas. só para as mais íntimas. Contudo. compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. apesar de todos estes dados a favor. seguida por Franca Consolino. pelo que foi dito mais acima.NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. nos seus pormenores. posicionamo-nos no sentido de acreditar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . além de usar o texto de Venâncio Fortunato. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências. colocando-se. já que não estariam destituídos de sentido. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia). Mas. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. nos sinaliza em direção à terceira opção. datas e fatos. 281 . As referências que a escritora faz são muito precisas. respectivamente. que Baudonívia conviveu com Radegunda. Em algumas passagens. os milagres realizados pela santa. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. Por fim. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese.

imersa em seus jejuns e mortificações. Portanto. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. que objetiva apresentar. E. força de vontade.NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. CHARRONE: 2007. (SILVA: 2011. que por sua tenacidade. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. por extensão. supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. em reconhecimento pelas suas virtudes335. mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. 37-38). poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. podemos citar a famosa Questão Franciscana. comparando-o com o de autores masculinos. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto).MULHERES NA ANTIGUIDADE . no latim cristão. uma imagem unificada do santo. sob a pena de Fortunato. 335 Se. por outro. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis. Assim. viril. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. mas. Como exemplo desta prática. o herói nas línguas neolatinas. o próprio milagre realizado. o termo passará a designar ―virtude‖. que. aqui. na humildade do seu proceder junto às companheiras. no caso da santa é levado ao extremo. 334 282 . abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir. na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina. ela é a santa que se isola do mundo. fazendo dela um modelo da mulher forte. 183-185. à primeira vista. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto.

NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. com as querelas envolvendo os soberanos francos. Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. Em seu texto. II). ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir. alguns dos quais seus enteados. portanto. ela lançava. Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. da narrativa de Venâncio Fortunato. Já quanto a Baudonívia. de forma a construir seu modelo. o olhar para o mundo externo. mais inclinada a mostrar que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. o modelo religioso de Poitiers. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. difere enormemente tanto nos objetivos. conversio. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos. 70). na época de Radegunda. que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. Sua postura diante de Radegunda. as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época. nota anterior. quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. a quem não se cansa de chamar de rainha. ela vai além do proposto no seu Prólogo. diga-se de passagem. já que ela continua a ser rainha.. sem se deter nos detalhes. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. miracula. como na apresentação dos temas. mas com o qual parecia extremamente preocupada. escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. conversartio. mesmo do mosteiro. mesmo dentro dos muros monásticos. em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. já que para Leonardi (1991. o processo de adoção da vida 336 V. a vida de penitências e mortificações da santa. Nossa autora apenas menciona. Ela está. assim. 283 . onde não mais vivia. ―por piedade e caridade‖ (cap. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖. sua morte e seu funeral. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. Dito em outras palavras: a vida no século.

por sua vez. os povos firmassem a paz entre si.] a santa rainha. ou melhor. ante seus rogos. seu comportamento quando no século. tentando defender o templo. em oposição ao Rei celestial. Uma outra leitura. no texto de Sulpício Severo. que. Pelo contrário. Baudonívia demonstra respeito. Os Francos reagem. bendizeram ao Senhor. 1). a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. grupo étnico ao 284 . sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo. Seu casamento com Clotário é descrito como breve. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. escrita por Venâncio Fortunato. enquanto [. Neste episódio.. com tenacidade e vigor. destruía símbolos. ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. inspirada. qualquer que seja o soberano mencionado. por onde passava. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. perseverando imóvel. ídolos e templos pagãos. uma certa tensão. nos levaria a perceber. Aliás. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours. nesta parte da narrativa.. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. aí. Feito isto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. bastante interessante.NEA/UERJ religiosa ou conversão. na defesa da religião cristã. que levava a Cristo em seu coração. Destaca-se. dedicação e lealdade profunda à realeza. onde ―foi mais celestial que terrena‖ . e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖. dizendo. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours. o capítulo 2. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre. dois séculos antes. pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha.

assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio. na ocasião. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. Baudonívia utiliza. rechaçou um amor 285 .. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. Na seqüência. aqui. também. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖. que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato. 9. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento. quando ele narra as orações noturnas da santa. sua corte e signatários pertenciam. cap. também. Aqui.NEA/UERJ qual o rei Clotário. o mais áspero. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖. 16 e 19).. passou por cima da doçura de um esposo. 5.) impôs-se o tormento do jejum. A doação do rei da villa de Saix. como já mencionamos mais atrás. até pelo contraste. para o qual Radegunda voltava às costas. também. Estaríamos já. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. pois sofria muito com sua ausência. chama a atenção. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖. 3) e é. 5). A se destacar. pela primeira vez. não se esquecendo do título mundano que carregava. diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. tomada de empréstimo a Fortunato. 4). (. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. 8. Neste lugar. 13. e de ―bem-aventurada rainha‖. uma expressão. à turíngia e católica Radegunda. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário.

que quer recuperá-la. destaques para a amargura do rei. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. abandona seus bens. compaixão. castidade. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. ―o excelso rei‖. juntamente com seu filho Sigiberto. Paradoxalmente. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. recorre ao bispo de Paris. Já vivendo no mosteiro. das bodas com o rei celeste. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos). e da situação. para ele extremamente humilhante. onde a ―santa rainha. É eleita abadessa. 5). ingressa‖. para entregar-se ao ―celestial esposo‖. Diante de tudo isto. chamada Eodegunda. em vez de seu nome. 8). Germano. Radegunda. quando a quis chamar. de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. Na narrativa. A atitude que. caridade. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio. caridade. um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro.NEA/UERJ mundano.. então. na prática. e para as suas qualidades de bondade. mas renuncia ao cargo. na aceitação das limitações alheias.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. passando a viver da prática da humildade. para Baudonívia. a quem pede perdão. humildade. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. pobreza. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. enquanto para si. Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. assim como para seu arrependimento. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo. com ênfase para o tema nupcial.. em Poitiers (cap. usava de severidade permanente. exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap.

a filha espiritual de Radegunda. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . um ano antes de seu trânsito. durante um ano. de ―França‖. obedecendo a uma ordem sua. apesar de já estar na vida religiosa. os reis são denominados de excelsos. aqui. mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. chamado Leão. já fosse viúva. a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. contemplou. a fez fugir). Neste mesmo capítulo. Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. anteriormente. pela ocasião. curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome).MULHERES NA ANTIGUIDADE . 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). da paz e da guerra entre os reis merovíngios. também. Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras. a quem busca pacificar. ou que. enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. é a da abadessa Inês.NEA/UERJ pelas outras. quando. e também aos altos dignatários. em uma visão. na obra de Baudonívia. Aqui. após sua abdicação do cargo de abadessa. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda. 20 (de como. 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada. 15 (de como um ilustre varão. 17 (acerca de seus emissários. Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. Uma ausência importante. Se. no mosteiro. acompanhada pela comunidade. esta se encontra totalmente superada. 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda). o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha. escrevendolhes pedindo paz.

V). as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). com a devida honra. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. a ―boa governadora‖ que. por Baudonívia. domínio sobre a natureza. 338 288 . como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. Suas armas são sempre a oração contínua. os jejuns. obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. Ela é a ―provedora ótima‖. Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. para não deixar suas ovelhas abandonadas. que entronizasse. que fez com que fosse chamada. Na continuação do capítulo. a bem-aventurada Radegunda‖. o que assim se fez‖. este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. Da mesma forma. poder sobre demônios. visões)337. sempre que estes se colocam como entraves as suas ações.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Comparada a Helena. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão. Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico. o fez na Gália. a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. Eufronio. o poder sobre os elementos. de são Mames e de outros santos). ―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda. também.NEA/UERJ (curas. depois da sua morte. sobre os elementos naturais. a expulsão dos demônios. acaba por ordenar ao bispo de Tours. é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado. pelas relíquias e méritos.

Acesso em: 10/07/2011. devido à presença do santo lenho. o momento em que escrevia. a língua dos mudos retorna a sua função. os coxos andam. na ausência do bispo local. os olhos dos cegos recobram a luz. reforçando. a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [. afligido por qualquer tipo de enfermidade. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios. seu trânsito (21 e 22). se tornaria um centro de peregrinação para curas. pelo bispo de Tours. os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais. pois. entre lágrimas e com profunda dor. realizadas. e remete à realização dos milagres para o presente. Os ouvidos surdos se abrem. um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia.. suas exéquias.fr. O que mais? Todo aquele que.] ali. senhora.. principalmente a Sigiberto e sua esposa. Disponível em: http://cour-de-france. Emmanuelle. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. Há.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339. chegar com fé. Gregório (23 e 24). e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). volta curado pela virtude da santa cruz (cap. como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos. o mosteiro. os demônios são postos em fuga. études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. 16). 339 289 . igualmente. Assim. sendo. La politique territoriale des reines mérovingiennes. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário). Documents. Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra. assim. de sés origines au 19 e siècle. e de garantir a sua sobrevivência material.NEA/UERJ celestial‖.

313-360. Francisco. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. escrita por Baudonivia. 170-273. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. Paris: Éditions du CERF. 56. 2006. uma mãe. Règle des Vierges. CÉSAIRE D‘ARLES. Oeuvres Monastiques. 1977. In ---. VENANZIO FORTUNATO. pp. Roma: Città Nuova. as palavras de Baudonívia. daqui. In: ---. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap. In: PEJENAUTE RUBIO. a quem não se cansa de pedir pela paz. seja na relação com os poderosos do mundo. e seu ascetismo acentuado. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. perdemos no presente século uma senhora. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. de forma permanente. Vita di Radegonda di Poitiers. A Radegunda de Baudonívia mantém. Vida de Santa Radegunda. 290 . Para finalizar. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. Tome I. para sempre. uma consciência política.MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. mas enviamos. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. seja na evangelização dos pagãos. aquilo que o povo cristão espera dele. La Vida de Santa Radegunda. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. 1988. Oeuvres pour les Moniales. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. seja no socorro ao sofrimento humano. Oviedo. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖.NEA/UERJ a rainha santa. para o reino de Cristo.

JOYE. 2003. 2007. XXXI. 2005. 2011. In: BERTINI. pp. PEJENAUTE Rubio. LX. SILVA. 2003. LEONARDI. 25-45.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. Female voices in convents. 2010. Disponível em: http://redalyc. Roberta. Moyen Age.pdf. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. Esperienze religiose nel Medioevo. 1987. 13. Laterza. 20-40. (ed. Madrid: Alianza. Roma: Viella. Historiographie. 291 . Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato. 174-189. pp. _____. CHARRONE. Anna et al.univparis1. pp. João Paulo. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. La santità. la biógrafa. 69-94. Baudonivia. Roma-Bari. 1999. courts and households. Santidade. 18. VAUCHEZ. La Mujer Medieval. F. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin. Paris: LAMOP/CNRS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sofia. pp. Oviedo. 2010. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación. pp.). 12. The French Middle Ages. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. Ana Belén Sánchez. Sonya. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ.2. André. Sagrado/Profano. Acesso em: 03/04/2012.fr/IMG/pdf/joye. Minerva. pp. Enciclopédia Einaudi. Cambridge: Cambridge University Press. A History of Women‟s Writing in France (ed. Miriam Lourdes I. In: CANDIDO. Acesso em: 03/04/2012. Valladolid. F. Sylvie. KRUEGER.). Storia della santità nel cristianesimo occidentale. 171-186. 287-300 _____. Maria Regina (org. Disponível em: http://lamop. In: Mythos/Logos. Claudio. In: STEPHENS. Roma: Viella. 63-74. Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices. 2000.). La educación de la mujer antes del año 1000. 57. 2005. Les Élites Féminines au Aut.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo.pdf. BOESCH GAJANO. 289-340. pp. pp. PRIETO. 1999. Archivum.uaemex.

e não individualmente. no Rio Grande do Sul. 340 292 . as companheiras do deus Dioniso. Na Grécia dos documentos literários.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e as menades. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. romperam com o contato masculino. e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar. como Helena.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. nem sequer seus nomes. e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. como em As Bacantes. Antígona ou Medeia.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof. Penélope. vinculadas à casa. Conhecemos as mulheres livres muito menos. 177). constituindo tíasos. e se comportam de forma beligerante. Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos. no sentido de viverem dentro do gineceu. Odisseu. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. sendo conhecidas como guerreiras. As amazonas. para se constituir. que podem ser consideradas domésticas.ª Dr. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. aparecem usualmente em grupo. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. que certamente são mais bem estudadas. pois estas não constituíram narrativas privadas. e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição.

Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido. em 404. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. que terminaria um ano mais tarde. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso. à loucura e ao milagre. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. Mas a idéia de Trabulsi (2004). Além de nos criar um problema formal.NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. ou menades. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. o vinho. 293 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . compartilhada com outros helenistas. claramente presente no coro de Bacas. tragédia de Eurípides341. do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. as companheiras que seguem o jovem deus. no caso d‘―as mulheres‖. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. e que são as que respondem no coro. de caráter eminentemente político. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística. é presumidamente do final de sua carreira. pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖. e o das ―tebanas enlouquecidas‖. o outro conjunto. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo. ao poder. nitidamente distinto do das mulheres do deus. contra a família e a cidade de Tebas. Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. neste caso. é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. certamente abre uma discussão quanto às variações.

seus significados. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão. as mineides. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖.NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. Ele foi escolhido. Certo que. a questão de gênero colocada. e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. submissa e leal. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. mas elas o acompanham livremente. e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. portanto. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. 342 294 . mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso). passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. basicamente. citado na epígrafe. ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. ser reclusa ao interior do oikos. se discute sobre o poder342. contamos com o livro de Trabulsi. o representante legal do sexo masculino responsável. personagens femininas da narrativa. as com ou sem kýrios. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis. Para este último ponto. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. o que já modifica o estatuto na base. nas Metamorfoses. que será motivo de discussão adiante por comparação. problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. até ser silenciosa. Além disso. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. que implica desde ser virgem. decidem contar histórias. possibilidade de existência histórica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. para isso. e articulada à relação do dionisismo com o poder. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. roupas sem amarras. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. o que corrobora sua erudição.

até mesmo o maior dos homens da cidade. neste caso especialmente acentuada. próprio dos alívios cômicos de Eurípides. selvagem e avesso às práticas normativas. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. aqueles que. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. pois jamais será uma mulher. mesmo se cultuado em Delfos. e o espaço sagrado fica vazio. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. problema que ocupa a centralidade da peça. visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. a rainha mãe de Penteu. às novas alternativas que o culto deste deus aporta. o rei. aponta que. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. Em Bacas. à espera de novas futuras investigações. e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. acaba como mulher. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. e das tebanas. e nem ao de nenhuma outra. Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. A importância da distinção de gênero. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. de Agave. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. e como elas reagem. preparam a catástrofe que se segue. Ou seja. na cena imediata que antecede sua morte. habita o santuário no inverno.NEA/UERJ As outras questões. Dioniso é o deus marginal por excelência. o rei. a gestora principal da ação trágica. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e. Trabalho árduo e gigantesco. em geral. exigem uma busca às fontes antigas. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. numa inversão visível e risível. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. e a aderência à prática de seus cultos e. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. e as bacas o reconhecerão como 295 .

mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas.. estas. protegidas. pois sangue familiar foi derramado. Agave.. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. tecendo e atendendo as necessidades domésticas. já que matando Penteu. são consideradas inferiores porque. e pensando ter caçado um leão.6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. No menadismo. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 . Observemos que os mitos. numa posição servil. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. o que acentua um conflito de poder . seguidoras de Dioniso. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. matou seu filho. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv. venturosa caçada (. 177). pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe. foi executado um regicídio e. as domésticas. caça e assassinato na montanha. como em As Bacantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um sacrilégio. Ela chama e anuncia (VV. estas bacas. ao mesmo tempo.. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto. reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador. Com a sua perseguição. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade. Aquela é sua terra de origem. imortal agressão de Hera à minha mãe‖. ignoram os rituais dionisíacos. não são mais mulheres comuns. ou enquanto. uma mãe.NEA/UERJ seu inimigo. de Eurípides.) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado.entre o seu poder e o do rei atual.1168-1175) ―Bacas da Ásia (. aqui mais gravemente por se tratar da própria família. E inclusive para as iniciadas.) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖..

por fim. mulheres que o seguem desde a Ásia. são primos. Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos. Pesa sobre sua mãe uma má fama. e ele anuncia no v. portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior. de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv. sendo.36). quantas cadméias mulheres havia. Seu tipo de poder. e toda fêmea semente. que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel. Sua alternativa. como também na ética.. Dão valor intenso à vida. as mulheres do cortejo de Dioniso. As outras. manipulando-as segundo a sua vontade. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais. Penteu. que justifica tais maneiras de agir. poderíamos denominar ―iniciático‖. e que certamente é um processo de afastamento radical.32 . As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. não só no comportamento.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. na sua prática aproximando vida e morte. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. nem de mim se lembra nas preces‖. não persegue o lugar instituído do rei (v. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas.45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . é explícita (v.‖ e. passaram por um processo que. e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. ―habitam as montanhas aturdidas‖. grosso modo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. portanto. enlouqueci de seus lares”.. se houver reação negativa. não que Dioniso o queira. atacarei chefiando as loucas‖. sendo extático e inebriante. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. conforme Dioniso (v. bárbaras entre os gregos.NEA/UERJ semeado por Cadmo.

pelo movimento rítmico pulsante. portanto. Nosso estudo. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades. ou como máscara teatral. Percebemos que. quanto. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. “kyrios”. desde o início. Seus corpos dobram. da montanha. e em grande número. mas não por convulsões dolorosas da visão profética. Até a produção deste texto. diferentes das ―outras‖. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. tanto nos vasos de figuras negras. de estilo mais antigo. os cidadãos de Agamêmnon. As ménades serão. quase inumana. o cortejo dionisíaco. E.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nosso conhecimento. como menades. vinho. embora não dessexuadas. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos. as mulheres de Corinto de Medeia. tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. Em Bacas não. seja histórico ou literário. embora de mesma matriz referencial. Conhecem e ―dominam‖ a loucura. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. A dança exprime o corpo feliz. que infelizmente é muito lacunar. segundo o mensageiro da tragédia. “mania”. leite. Dioniso representado tanto em forma humana. os marinheiros de Filoctetes. das mulheres domésticas. se remete à análise desta ambivalência. e sim pela dança. de alguma forma. como em estátua votiva. o corpo envolto em serpentes. sátiros. Muitas cenas diferentes aparecem.NEA/UERJ de conceber e parir. Fazem a pedra produzir mel. propriamente o coro no sentido dialogal. mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. como as da apolínea Kassandra. de peplos soltos. existem as que estão sendo arrancadas com 298 . nitidamente construída na tragédia Bacas. vivem soltas na zona selvagem. nos vasos de figuras vermelhas. no imaginário clássico ático. Estão livres de homens. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. portanto. pela violência do revide. água.

Biblioteca. narra o episódio de Licurgo. segundo DETIENNE. 349 Eliano. sobre o Menadismo343. H. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas. Ésquilo. posteriormente. e do tear.J. 69-81 ed. p. 344 Ésquilo. (b) os das Proitidas e das Miníades. nota 6 do cap. 2002. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. Antonino Liberalis347.125. p. 274). segundo DETIENNE. v. amplamente tratado por Trabulsi. já aparece num artigo de 1940. 1988. Edônios344. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. 31. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. Histórias Variadas III. de Dodds. 345 Apolodoro.125.33. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. 1988. Também Apolodoro. nota 54.NEA/UERJ furor de dentro de suas casas. XIV. X. 1988. 347 Antonino Liberalis. nota 49. Mette. p. 258. rei dos edônios. Metamorfoses. M. 38. XIV. sua tarefa doméstica de maior alcance. em uma tragédia perdida. 346 Plutarco. M. M. Ovídio348 e em Eliano349. 348 Ovídio. segundo TRABULSI. 175).1. segundo DETIENNE. F.124. 5. 42. 2004. Questões Gregas. Metamorfoses. Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. III. nota 6 do cap. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. 2004. Este fenômeno de resistência a Dioniso. 343 299 . p. 258. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. pois ele persegue as amas de Dioniso. 299 E-300 A. 176). nota 50.MULHERES NA ANTIGUIDADE . segundo TRABULSI. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review. IV. p. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. (c) o de Penteu.

põe-se a balançar. golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro. até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. Licurgo recebe uma última punição.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. mas. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas. Assassino de seu próprio filho. amarrado. Licurgo. o Delirante (mainómenos). Mas Licurgo. desta vez. os edônios o levam. dispersa as portadoras de tirso.29). terra suposta de suas origens nãogregas. o telhado é tomado por um delírio báquico.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. rei-delirante. Dioniso o faz voltar à razão. Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura. Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos. a dançar. Por sua vez. à maneira de Apolo nas alturas de 300 . que profetiza pela voz de uma mulher. persegue o jovem deus assustado. o bando de sátiros aprisionado. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. Levanta o machado de dois gumes. onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. Dioniso o leva até seu filho. que Dioniso encontra seu primeiro adversário. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. e estivesse manchado com o sangue familiar. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. corta os sarmentos e o pé da vinha. para o interior das florestas geladas. o rei dos edônios. no monte Pangeu. quer derrubar a vinha. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar. cercado por seus sacerdotes. desta vez partindo de Apolo. ataca as amas de Dioniso. Como tivesse executado um ato sacrílego. Turvando sua visão. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. Licurgo entra em delírio. As bacantes são acorrentadas.

Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos. a mãe de Penteu. embora com alto teor dramático. Proitos então cede. adivinho que conhece o remédio para o mal. como em Bacas. já que as filhas de Cadmo. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres. Observemos. morte política.30). Nem Licurgo e seus descendentes. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. A cidade condenou Licurgo. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo. em número de três. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que é um homem muito jovem). o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. que este número é quase uma constante nesses mitos. nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. Nesta narrativa. Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder. Lisipe. elas vagam por toda parte e. Teseu. como as Miníades. entre as quais Agave. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. mas pela força de cavalos. Assim como as Miníades. também são em número de três. atravessada por pathos. Ifinoe e Ifianassa. Proitos. terá purificado a região. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto). Acometidas de mania. como a de Hipólito. condenado por seu pai. em As bacantes.NEA/UERJ Delfos. ele organiza corridas de perseguição 301 . Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são. num primeiro momento. Outra narrativa é a das Proitidas. como Proitos. elas não aceitam os ritos de Dioniso. de passagem. matam seus filhos. e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco.

leopardo. E perturba-as com suas metamorfoses: touro. Sob a máscara de uma jovem. depois de matar seu filho.NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. são mortos. cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. Temos ainda um terceiro documento narrativo. as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso. se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. as três. Leucipe. que balançam. em Tebas e em Orcômeno. O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu. Apavoradas diante de tais prodígios. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. com a ajuda de suas irmãs. As três Miníades. colocam. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno. ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus. Arsipe e Alcatoe. as de Proitos e as 302 . Elas não lhe dão atenção. na região da Beócia. reis. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. as filhas de Mínias. Finalmente elas deixam a montanha.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sortes em um vaso. Mínias. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. segundo Antonino Liberalis. filhas do rei de Orcômeno. segundo Eliano. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. e o primeiro. leão. Aristipe e Alcitoe. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. ―Sem perda de tempo. Leucipe. dilacera a carne de seu próprio filho. a sorte cai em Leucipo.

. no Párodo. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência. quando as bacas. princesas. onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖. estas são iniciadas sem iniciação. dominadas por uma força maniática. os outros mal‖. conforme descritas 303 . O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos. pois aos homens pertence o poder político. sem a consciência do que estão fazendo. em analogia com o morcego. 195) ―. mas não podem permanecer entre as bacas. que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas. 196) ―. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. fiam a lã ou tecem os fios. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. todos estão sendo chamados. O sexo masculino é o primeiro alvo.Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v. são levadas a experimentar o estado báquico.Só nós pensamos bem. em sua casa. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te. demonstra que todos devem acorrer. num castigo peculiar. dançará a terra toda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . são levadas a deixar a casa e a matar os filhos.. ressaltando a ligação das três jovens com a casa. 69). mas sem anuência. à montanha. elas terminam as narrativas impuras.NEA/UERJ de Cadmo. Elas são levadas à montanha. O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. avô de Dioniso e de Penteu. quanto às mulheres recalcitrantes. mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha. não como verdadeiras menades. Mas que ritos seriam estes. convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva. Em Eurípides. Quando Cadmo pergunta (v. o velho rei da cidade. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo.) Somente as Mineides.

impuras. e o mata. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . Cadmo.NEA/UERJ por Diodoro. descrito nas Bacantes. e. carregando sua cabeça até a cidade. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. enxergar literalmente o ocorrido. parte com um futuro promissor pela frente. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. podem ficar em solo tebano. As mulheres desta tragédia. e neste drama. Harmonia. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. assume proporções significativas. toda coberta de sangue humano. são oficiantes de estranhos prodígios. com requintes de elaboração. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. que incluem um aumento significativo de força física. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. Nem o antigo rei e sua esposa. potente analogia do poder real. A mãe deste. nas últimas décadas. e sem alternativas de redenção. A estas ele reserva o exílio. os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. depois de esforços por parte do pai. Este estranho rito. O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. e. Apenas então. e a ordem de Dioniso é implacável. é praticado por sociedades femininas (2002. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar. devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. assim como nas outras histórias. tias do deus. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. 272). filial. para a história da cultura. a família cadméia está desfeita. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. uma vez na montanha. por fim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. o que não é o caso das filhas. uma fúria assassina. configurando a distinção que. é que se descortina a verdade e ela consegue. o que. uma potência transmutadora. embora estivessem todas na mesma região da montanha. Agave.

visíveis no Menadismo. Belo Horizonte:UFMG. 1995.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Erwin. 1991.. São Paulo: Escuta. Marcel. desagregação pelo abandono destas forças. São Paulo: Companhia das Letras. 1986. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art. 1988. Princeton: Princeton University Press. Dioniso a Céu Aberto. 2002. José Antonio Dabdab. 305 . Wilfred G. Pandora – Women in Classical Greece. 2004. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. ―Maenads‖. Erwin R. CALASSO. TRABULSI. Roberto. a discussão mudou de nomes. KERENYI. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. qual seja. Carol. destas potências que são arcaicas e imemoriais. Desde então. Mexico:Fondo de Cultura Económica. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. mas o sintoma é o mesmo. Ellen. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON.NEA/UERJ gerações. Os Gregos e o Irracional. Poder e Sociedade. DODDS. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. Cornelia Isle e WATSON. Its Developement in Black-Figure Vase Painting. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. DETIENNE. CARPENTER. e as figuras femininas também. 1995. pp. Thomas.381 a 392. 1983. Oxford: Clarendon Press. As Bacas.E. Dionisismo. in REEDER. São Paulo: Hucitec. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva.

2006: 73. [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. sob a orientação da Prof.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e mais especificamente. A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas.Dr. afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. COLLIS. especialmente devido à celtomania 351 e. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações. da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. CUNLIFFE. 1999: 161). RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. igualmente. de que teriam sido os celtas. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. em parte. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS. Pode-se dizer que. ao longo das últimas décadas. 1997: 197. Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais. GUYONVARC‘H & LE ROUX. 2003: 117). podemos claramente identificar 350 306 . CUNLIFFE. sobretudo por um público não-acadêmico. mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. É membro do LHIA (UFRJ). ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. 2003: 111-122. 1986: 17). Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. os druidas. A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca. Fábio de Souza Lessa. por exemplo. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). [re]descoberta. a ideia. ainda. 2008: 42-44. completamente anacrônica.ªDrª.NEA/UERJ IDENTIDADES. Adriene Baron Tacla.

as mulheres gregas. vem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas. 1989: 63). acredito que argumentações de tal natureza. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades. Em linhas gerais. Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. encontros. isto é. além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. como veremos a seguir.NEA/UERJ feministas que. são advindas. 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal. as quais. ainda nos dias atuais. iguala-se aos homens em diversos aspectos. associações e sociedades. a respeito das mulheres celtas. 2006a: 165-172. um aumento significativo de eventos. Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO. A meu ver. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo. que intervém em interesses masculinos. publicações impressas ou digitais. para produções como as de Markale (1986). majoritariamente. seitas e grupos pseudo-religiosos. muitas vezes. (3) o anacronismo. primeiramente. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. em linhas gerais. no Brasil (cf. participa de disputas. Gostaria. na maioria dos casos. de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. por fim. e que.AMIM. sobretudo. como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. 2010). a mulher celta que pega em armas. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência. da documentação escrita na Antiguidade. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. que se faz ser obedecida. basta direcionar o olhar. festivais de música. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e. sobretudo. por exemplo. 307 . portanto. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas. a celtomania pode ser qualificada.

Amiano Marcelino. Plutarco. Esses textos. 2004: 09. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. entretanto. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. nesses relatos. em especial. como muitos pensam. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. 2002: 109). Logo. por exemplo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . unicamente. então. outro tipo de documentação de natureza distinta. isto é. quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. não é. ainda. WELLS. como a cultura material –. Em vez de buscar. Tácito. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. em autores como. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. como veremos a seguir. políticas. 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. apresentam-nos. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN. algumas dificuldades e desafios singulares. esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. dentre outros. Diodoro da Sicília. comumente designadas como celtas. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. Estrabão. igualmente. 308 . Assim sendo. ao invés de meramente desconsiderar tais relatos.

de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo. chama a ajuda de sua esposa. ou o que caracterizaria os celtas como tais. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. então. a respeito das mulheres celtas. não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf. em batalha. como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA. Ao confrontar os escritos. 12.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente. uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise. assim. um gaulês. 309 . perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. (XV. FILHO. Em outras palavras. portanto. consideradas como vivendo em estado de barbárie. 2008: 12-3). É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos. por exemplo. Trata-se. 2003: 139-145). 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta.NEA/UERJ diversas. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. que possuímos nos dias atuais. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. desejo discernir comparáveis.CUNLIFFE. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. Para não alongar muito este texto. buscando. Não se trata.

as mulheres. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. elas mesmas. 4.‖ (IV. por sua vez. eles possuem suas mulheres as quais. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho.6) Citando Possidônio. 4.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr. 310 . existe uma ilha habitada somente por mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE .me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário. por sua vez. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas.‖ (IV. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. navegavam em certas ocasiões para o continente. contudo. Nenhum homem.)/ Geographia (lat) (V. colocava os pés em tal ilha. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis.‖ (V. mas elas também a eles se igualam em força física.

)/ De Mulierum Virtutibus (lat. inclusive em questões militares. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. no final. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo.) (III. (XXII) – Relato sobre Chiomara. um dos mais poderosos homens da Galácia. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. não tendo conseguido engravidar. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. esposa de Ortiagon. em segredo. O marido. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 . após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. Os dois morrem. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e.

provando. porém Chiomara.C. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. terem derrotado os gálatas em 189 a. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. chefe dos Catuvellauni. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. após a morte de Prasutagus. toma a 312 . seu marido. mulher que tomou o poder. sua própria honra e valor ao seu marido. assim. Boudicca. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes.. visando assim a obter riquezas em troca. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo. (XIV. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. após os romanos. ela dá a última palavra. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. A troca de fato se dá. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (III. rainha dos icenos. 35) Relato sobre Boudicca.

.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contudo. Cartimandua e Boudica). portanto. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. Essas características. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode.‖ Pode-se. Plutarco e Tácito). em comando. assumindo para si funções vitais políticas. fazem parte de discursos particulares. . primeiramente. violentas. dessa forma. o poder de liderança e comando militar – havendo. mencionadas por Tácito). indomáveis.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. em geral.elas. que tais relatos constituem-se em discursos e. (I. na concepção dos autores. causando. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. perigosas. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. Estrabão.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: .NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. Camma. quase sempre. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. igualmente. que tais representações construídas em relação às 313 . Deve-se ter em mente. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. portanto. ainda. seriam bastante imprevisíveis. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. assassinas e vingativas. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta.

inclusive. 1996: 33). com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas. tanto através da escrita. como pela tradição e educação desses indivíduos. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. Isto é. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. consequentemente. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. que é difundido. 314 . ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. constituem-se como representações – com implicações políticas. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. Dessa forma. em sua maioria. mais enquanto discursos possíveis do que. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. existem nos textos gregos e latinos. 1976: 114). 1996: 32). como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. sociais e culturais. Ou seja. algum conhecimento prévio do Oriente. Não nos falta. Nesse sentindo. propriamente ditas. de certa maneira. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH.) presume algum antecedente oriental.NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. os celtas. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. antes de tudo.. 2003: 12) e. se dão.. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. 1996: 18).MULHERES NA ANTIGUIDADE . dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID.

devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. autocontrolados e civilizados. construir noções próprias de identidade. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. por sua vez. a um determinado grupo social. Assim. a meu ver. mas. portanto. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. ainda. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. Em outras palavras. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. como construções culturais (WELLS. a uma tradição. por isso. os celtas só podem ser pensados como os Outros. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL.NEA/UERJ ―realidades concretas‖. indivíduos pertencentes a uma sociedade. consequentemente. por sua vez. especialmente. (BLUNDELL. necessitavam estar sob o controle masculino352. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. seria sustentada pela imagem do outro. devam ser entendidos. também necessitam.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quanto como. HARTOG. antes de tudo. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. tanto como indivíduos. 1999). destacando seus atributos de barbárie. sim. Esta definição. 1998: 100) 352 315 . 2001: 222. 2002: 105). Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. Esses discursos. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas.

em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. Isto. 353 316 . por sua vez.sejam elas bárbaras ou não. 2003: 55-60). ainda. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. entendido aqui como não-civilizado.] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. não estando. A autora demonstra que. portanto. limitadas à interioridade do espaço doméstico. a imagem da mulher bárbara é. 1998: 95). dentro da concepção clássica. Parece-me que. Conclui-se daí que. na visão dos autores antigos. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353.. ser aplicado aos romanos. Segundo Iain Ferris (2003: 54). por sua vez. o mesmo princípio poderia. 2003: 79). ou seja. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse.. de construírem uma noção particular de barbárie.NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. de certa maneira. atualmente. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. a mais comum na arte imperial romana. [. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. O autor analisa. consequentemente. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território.MULHERES NA ANTIGUIDADE . far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. de fato. contudo. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. A construção de tal alteridade. na concepção desses autores.

por sua vez.me refiro ao fato de 317 . 4. (V. Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. (XV. 2003: 80). misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis. eles possuem suas mulheres as quais. 12.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . por exemplo.‖ (V. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. chama a ajuda de sua esposa. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. mas elas também a eles se igualam em força física.NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS.‖ (IV. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. em batalha. um gaulês.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

elas mesmas.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas.NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr.)/ De Mulierum 318 . Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. existe uma ilha habitada somente por mulheres.6) Citando Possidônio. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. (III. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. por sua vez. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. inclusive em questões militares.‖ (IV. 4.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. colocava os pés em tal ilha. Nenhum homem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . navegavam em certas ocasiões para o continente. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. contudo. as mulheres.

Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. (XXI) – Relato sobre Stratonice que. esposa de Ortiagon.NEA/UERJ Virtutibus (lat.MULHERES NA ANTIGUIDADE . porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. após os romanos. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. O marido. em segredo. (XXII) – Relato sobre Chiomara. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. um dos mais poderosos homens da Galácia.. o centurião negocia a devolução 319 . Depois de ter se aproveitado de Chiomara. terem derrotado os gálatas em 189 a. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. Os dois morrem. não tendo conseguido engravidar. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. no final. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela.C.

35) Relato sobre Boudicca.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. (XIV. (III. ela dá a última palavra. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. assim. chefe dos Catuvellauni. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. após a morte de Prasutagus. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. mulher que tomou o poder. seu marido. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua.MULHERES NA ANTIGUIDADE . rainha dos icenos. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 . provando. Boudicca. porém Chiomara. visando assim a obter riquezas em troca. A troca de fato se dá. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. sua própria honra e valor ao seu marido.

militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. assumindo para si funções vitais políticas. igualmente. perigosas. Camma.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. em comando. Plutarco e Tácito). assassinas e vingativas.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. (I. dessa forma. . . violentas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Estrabão.‖ Pode-se.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. indomáveis. seriam bastante imprevisíveis. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. 321 . 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . em geral. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo.elas. causando. o poder de liderança e comando militar – havendo. na concepção dos autores. descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. Cartimandua e Boudica). portanto. mencionadas por Tácito). toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. quase sempre.

ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. como pela tradição e educação desses indivíduos. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE.) presume algum antecedente oriental. contudo..MULHERES NA ANTIGUIDADE . dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. 1996: 33). Não nos falta. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. que é difundido. portanto. primeiramente. que tais relatos constituem-se em discursos e. consequentemente. 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. fazem parte de discursos particulares. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. algum conhecimento prévio do Oriente. 1996: 18). com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . sociais e culturais. Dessa forma.. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. em sua maioria. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. tanto através da escrita.NEA/UERJ Essas características. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. 2003: 12) e. Nesse sentindo. inclusive. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. 1976: 114). Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. constituem-se como representações – com implicações políticas. se dão. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. Deve-se ter em mente. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. 1996: 32). defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. ainda.

Esses discursos. quanto como. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. os celtas só podem ser pensados como os Outros. os celtas. Isto é. por sua vez. Assim. portanto. Esta definição. mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. de certa maneira. Em outras palavras. mais enquanto discursos possíveis do que. sim. Ou seja. antes de tudo. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. construir noções próprias de identidade. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. destacando seus atributos de barbárie. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. por isso. HARTOG. antes de tudo. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. a uma tradição. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. especialmente. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. tanto como indivíduos. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. também necessitam. a meu ver. propriamente ditas. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. 1999). como construções culturais (WELLS. ―realidades concretas‖. necessitavam estar sob o controle masculino354. por sua vez. seria sustentada pela imagem do outro. autocontrolados e civilizados.NEA/UERJ das mulheres celtas. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . Embora tal Ressalta-se. devam ser entendidos. ainda. indivíduos pertencentes a uma sociedade. a um determinado grupo social. 2002: 105). 2001: 222. existem nos textos gregos e latinos.

na concepção desses autores. o mesmo princípio poderia. portanto. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. de fato. a imagem da mulher bárbara é. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. Segundo Iain Ferris (2003: 54). Parece-me que. 324 . tratam de homens não eram e. (BLUNDELL. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. atualmente. a mais comum na arte imperial romana. A autora demonstra que. ou seja. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. contudo. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. limitadas à interioridade do espaço doméstico. 1998: 95). entendido aqui como não-civilizado. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. dentro da concepção clássica. ainda. consequentemente. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. por sua vez. ser aplicado aos romanos. não estando. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. A construção de tal alteridade. 1998: 100) 355 O autor analisa. consequentemente. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico.sejam elas bárbaras ou não. de certa maneira. na visão dos autores antigos. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. 2003: 55-60). de construírem uma noção particular de barbárie. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural.

Defendo. vê-se. também. portanto. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher. Por outro lado. por sua vez. como restritos ao universo masculino. o mesmo acontece em relação às mulheres celtas.]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 . tal como aos costumes e ritos de comensalismo. visando a facilitar a compreensão de minha argumentação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . situando. 1985: 139-150). no caso. então. Elaborei. o que. Isto é. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. por sua vez.. Conclui-se daí que: [. 2003: 80). Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos. 2003: 79). assim. esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão. Suzanne Saïd (1985). Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades. de fato. o mesmo mecanismo.. bárbaros. que.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. na concepção dos autores helenos e latinos. por excelência. demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas. Em outras palavras. Isto. sempre situados à margem do universo. ou lógica argumentativa.

não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO. Estrabão Sim .MULHERES NA ANTIGUIDADE . 39). carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. BH. V. Nenhum. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência. ao contrário de virtudes. excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero.na medida em Sim – já que as funções Zelo. assumiriam filhos. V. cargos e funções de poder. A coragem/ espírito destemido (DIODORO. 356 326 . BH. portanto.

Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no caso em alguns casos por de Roma. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem. de justiça. reinando sobrevalece com o auxílio a família. não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. Nem tampouco é estranho que esses autores. negociações intervêm disputas. senso questões palavra final em debates. WELLS. Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. 2002: 109). si só.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN. Sendo assim. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice. assuntos militares. no caso de de Boudicca. Assim sendo. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. na verdade. as circunstâncias. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . decidem públicas. 2004: 09.

2003: 11). espaço e grupos sociais. Contudo. ainda. WEELS. 253). também.NEA/UERJ (cf. 1995: 153. observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa. espero ter sido capaz de chamar a atenção. SAÏD. Consequentemente. nesse sentido. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções.MULHERES NA ANTIGUIDADE . embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. uma matrona romana e que. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. 357 328 . Assim. 2002: 147. de certa forma. 251. resulte em uma ginecocracia. comumente. cultura material. O que surge. portanto. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. inclusive. seletivo e exagerado. 1989: 152. sem que isso. ainda. naturalmente. por exemplo. 1985: 150). Tentei. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. pode-se. resume-se. acredito. dentro de uma metodologia comparativa. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. que possui variabilidades de acordo com o tempo. ainda que pequena sob diversos aspectos. o estereótipo deve ser sempre generalizado. é uma caricatura. tais construções devido a motivações das mais variadas357. em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. masculinas. Minha intenção de contribuição. e como todas as caricaturas. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível. com este volume. que busca. (RANKIN. 2002: 109) e que manipulavam. ARNOLD. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. mais efetivamente. portanto. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural.

I. 1931. (Vol. (Vol. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero. nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS. H. de acordo com diferentes momentos de sua história. In: PLUTARCH. The Histories.02. S. Geography (Vol.tufts. Levene. The Annals. ainda. Portadoras de virtudes importantes ou não. Agricola.MULHERES NA ANTIGUIDADE . II). assim. é social. 1997. por conseguinte. variando segundo as sociedades ou. a alteridade da alteridade. Trad: Anthony R. STRABO. Library of History. as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. Birley. Trad: W. III) Trad: C. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. History (vol.perseus. Rolfe. London: Loeb Classical Library. Trad: Frank Cole Babbitt. assim como toda identidade. C. Acredito. III). 329 . detentoras de marcas dessa ex-centricidade. São. consequentemente. Oxford: Oxford University Press. 1917. textuais ou imagéticos).: Horace Leonard Jones. TACITUS. ______. DIODORUS SICULUS. assim. 2000. Books 14-19). H. Oldfather. 1999. cultural e discursivamente produzido‖. London: Loeb Classical. Moralia. ______. 1935. Oxford: Oxford University Press.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999. On the Bravery of Women.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G. London: Loeb Classical Library. Fyfe e D. ___________.NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. Dísponível em: http://www. Trad. London: Harvard University Press. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. na visão daqueles que as relatam. Trad: J. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade.

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como expressa Moses Finley (1991. mais conhecida como Apologia. Pudentila. as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado.NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. ou ao extravagante e cruel. Profa. extremamente interessante como documento para o tema. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado. Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. 358 332 . como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. Dra. e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. 149).MULHERES NA ANTIGUIDADE . como Messalina e Agripina. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. a estas informações foram acrescidas leituras. rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio. É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas. uma matrona real. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. também orientado por esta professora. Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca). Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. a matrona Pudentila. escrito por Apuleio. Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila.

com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico.359 Mas. sponsalia. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres. relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. a viúva Emília Pudentila. LXVIII. Sicinio Claro. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. para uma abordagem de gênero como construção relacional. Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista. segundo as indicações de Apuleio. entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. LXIX). Apologia. passou pela cidade de Oea (atual Trípoli. Na autodefesa de Apuleio desta acusação. na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. Tratar sobre Apuleio é fundamental. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. segundo Bradley (1991: 93). Após o casamento. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖. 1980: 170). Apologia. portanto seu cunhado. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 359 333 . um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila. 1954). a família do marido falecido de Pudentila. por isso. em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. formada por membros da elite local de Oea (GUEY. 5-6. LXXII. há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia. rompendo a noção biológica do sexo. gênero e etnicidade.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. LXXIII). Apuleio. Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe.

para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. Portanto. A maioria das fontes latinas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. Casamento. concubinas. As matronas eram protegidas por leis e decretos. além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos. escravas. se remete a essas romanas honradas. uma deusa feminina. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. prostitutas. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos. assim como a de um pai de família. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. e as libertas. quando dão alguma informação sobre mulheres. 1990: 352).NEA/UERJ com Pudentila. mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. Dessa forma. Assim. Faremos. por isso eram respeitadas e honradas. Feito isso. preparadas para receberem um dia um marido. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos. a seguir. dependia do casamento. como protetora do lar. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana. dançarinas. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. paterfamilias. A designação jurídica de uma mãe de família. mulheres oriundas das famílias abastadas. deveriam ser mães e se casarem. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. matresfamilias. 360 334 . Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. Às matronas romanas.

271). uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no caso da morte deste. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher. No período republicano. com membros das camadas populares. introduziram-se novos costumes. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas. como se fosse uma de suas filhas (loco filiae). o casamento sine manus. Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. prevalecendo a forma de casamento sine manu. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão).. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas. o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. de um parente agnado mais próximo. De acordo com Bradley (1991: 85). colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. Em geral.NEA/UERJ romanos.C. através da Lei Canuléia de 445 a. 1991: 65). Assim. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes. Conforme Norbert Rouland (1997. O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. ainda mais enriquecidos. havia gradativamente se transformado. 1971: 55). Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos. p. as mulheres estavam sob o poder do pai ou. levou à criação de uma nova forma de casamento. já no século II d.C. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99).

Dessa forma. principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas. ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL.C. 336 . que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink. não sendo uma decisão individual do casal. talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio. mais casamentos são também encontrados. Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos.C. As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a. 1991: 06). pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. Discordamos porque. que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar. no I século. e diz que o filósofo Sêneca. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas. comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. assim também eram os casos de divórcios. mas de suas famílias (CROOK. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias. Assim. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. 1991: 79). homens e mulheres.) exigiam dos cidadãos. no qual viveram Apuleio e Pudentila. 1967: 105).-14 d. que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública. O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento.

‖ Na Apologia (LXVIII. sob a tutela do filho Ponciano. podendo também ficar sem tutor por certo momento. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu. Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. Seu nome. as mulheres romanas não recebiam nome individual. com a morte deste. como citamos na Introdução. acrescidos de termos como ―mais velha‖. já que. mas apenas frações de uma família.NEA/UERJ primeiramente. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. ela passaria para a potestas de seu sogro. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem. Neste sentido. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. conforme Finley (1991: 151-152). faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. ―primeira‖. e em segundo lugar porque. ou Emília Pudentila. ―mais nova‖. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio. o que era possível no período. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio. ―segunda‖. com a morte deste. De acordo com Finley (1991: 151). por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos. só temos informações sobre Pudentila na Apologia. os mais frequentes no período. podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. ―é como se os romanos quisessem sugerir. Porém. Segundo informações da Apologia. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. Aemilia Pudentilla. não muito sutilmente. provavelmente. ou ser uma mulher emancipada.

XCIX. já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva. 338 . se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse. mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido.C-14 d...MULHERES NA ANTIGUIDADE . havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191). ela escapava do controle dos seus irmãos. [. Pudente.] Depois da morte de seu filho Ponciano. assim como as demais citações da Apologia. com muita resistência de sua parte. movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias. tive que convencê-la. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu. Apologia. as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem. Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento.C. Neste sentido. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento..) regulamentando o casamento. A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo.. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse. Caso a mulher com sua mãe.C.NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona. na forma cum manu. ou seja. para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. por este estar sempre contra ela. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor. Sicinio. Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d. 362 Esta citação. Talvez fosse este o caso de Pudentila.362 Neste sentido. após as leis do Imperador Augusto (27 a. tios e primos. foi traduzida por nós. 3-5). estando viúva.] (APULEIO.).

casada em regime cum manu. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio. talvez seja 339 . sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. podendo contrair um novo casamento à vontade. p. estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. eu. se mostrou. Conforme Yan Thomas (1990. Assim. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. tios e primos de seu marido. não o deixe sem amparo (APULEIO.NEA/UERJ viúva. 1991: 76). segundo Apuleio.C. não necessitando nem da autorização de seu filho. Apologia. tinham direito de dispor de suas heranças. como marido. que. a favor do matrimônio. porém. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã. 2). segundo Carcopino (1990: 107). a mais frequente do momento. as mulheres do século II d. já que. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho. 184) se a mulher não tivesse filhos. podendo deixar parte para o marido. ela escapava do controle dos irmãos.

Além disso. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. Que. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano. A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo.. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 . Ao mesmo tempo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tinha. 5-6). combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. posto que.NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. por vontade dos deuses. deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. assim. Nas passagens abaixo. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil. Como bem nos indica Hunink (1988: 282). Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. Explicou-lhe. pois. todos os motivos de sua decisão. colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. depois disso. mediante sua prolongada viuvez. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. 8-9). LXXIII. como boa matrona. se fosse emancipada. ponto por ponto. que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. Apologia. e em outras da Apologia. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual. LXX. Apologia. com desprezo de sua própria saúde. que. o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou..] (APULEIO. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa.

alguns campos férteis. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. azeite de oliva 341 . não estando sob a força de seus poderes mágicos. 1991: 266). em forma de terras tachadas por baixo. ao fim. supostamente. conforme seus acusadores alegam. Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . repito. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. Aconselhei-a que lhes desse. a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens. segundo a avaliação de seus próprios filhos. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades. uma casa grande. cujos bens. Na segunda passagem citada acima. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. provida de toda abundância. eu havia gastado completamente. aconselhei. Aconselhei minha esposa. o que ajudaria. segundo dizem meus adversários. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. ademais. e logrei convencê-la. Segundo a historiografia. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. de seu próprio patrimônio. no caso das viúvas. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. cevada. e uma grande quantidade de trigo.

segundo os olhares masculinos da elite. Assim. 2). se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363.] esta mulher prudente. mesmo em meio à situação dramática da acusação. sem dar lugar a falatórios. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa. de forma que chega a parecer exagerada. LXIX. debilitada pela prolongada abstinência. 363 342 .. 3-4). Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia. CARVALHO. LXVIII. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época. Novamente. esta mãe extraordinariamente responsável [. Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa.. SILVA. Como exemplo. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES. privada do uso habitual do matrimônio.. Conforme Rousselle (1990: 386).. Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. ao descrever Pudentila. tomada por graves transtornos. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez. como as atenienses.. 1997: 14).. 5). Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada.NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal. [.] (Apologia. XCIII.] (Apologia. temos o trecho da obra citado abaixo.

foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. Neste sentido. 343 . acima de tudo. seu cuidado com os filhos. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. obviamente. estamos diante. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. contida e extremamente preocupada com seus filhos. estiveram presentes nas descrições da Apologia. contendo. como uma mãe zelosa. da visão masculina de Apuleio. Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. portanto. Assim. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio. a disposição sobre sua própria herança. etc.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. Sendo assim. portanto. Como uma defesa. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia. Considerações finais Como percebemos. conforme o objetivo que pretendeu. a obra é repleta de recursos retóricos. sua situação jurídica. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. Para compreender melhor a situação de Pudentila. uma matrona virtuosa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. tais como os tipos de seus dois casamentos. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa.

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mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável . Charlesworth (ed. 1985). em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária. optei por mudar apenas alguns poucos tópicos.1 (OTP 1). 346 . não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖. dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra. é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica.lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. 1983-1985. Vol. 364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília. Dr. Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. Doutor em Teologia.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda. New York: Doubleday. As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo. que lembraria um Homero rude. Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. notadamente de minha tese de doutoramento. bem entendido) . 1951. é uma figura mitológica . A primeira. The Old Testament Pseudepigrapha. além do mais. já que trata-se. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library. As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria. Em segundo lugar. Collins na obra de Charlesworth supracitada. para que não tivesse de parafrasear a mim próprio.por várias razões -. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H. e mais óbvia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus. Berlin: Heimeran.0. como é comum no mundo pagão antigo. Sibyllinische Weissagungen.).

Em suma. para isso. outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses. Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. compulsão profética como castigo .106. casamento. David S. teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. 366 Nota com mss. o termo designasse uma figura profética apenas. o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto.Falam abertamente de sexo e matrimônio. entre os autores antigos.Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. entre outros -.V a. dão testemunho de uma coleção de textos estranha.C. P. 3. mas sua longevidade é surpreendente. pois: 1. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina. para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . os OrSib são os que mais falam de sexo. Se não for exagerado. E não dispomos. como disse). mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). Potter. 1990.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 . 365 347 . 2.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal .vide Hystaspes e Apolo.A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso . Oxford: Clarendon Press.em suma.já se possa afirmar que no séc. aos olhos de um observador moderno. embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física). permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico . desde temas até personagens).sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente. Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle.

e não por luxúria (Jb 4:17-19). 369 Walter Burkert. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. no entanto. o Testamento de Ruben (Test12Rub). Enoch. Assim. mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres. Como observa Burkert. Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo. A mulher surge noutros apocalipses. as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. num certo sentido. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos). nesse sentido. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses. Greek Religion.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖. VanderKam. o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes. interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos. Há de se fazer uma ressalva . convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro. 1985. por assim dizer. recomendo James C. os anjos que pecaram contra a criação de Deus.3. 1995. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais. Columbia: University of South Carolina Press. no Livro etiópico de Enoch (1En). MA: Harvard University Press.a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. Pp. com seu grego macarrônico. temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas. 367 348 . na figura mais notável na apocalíptica.NEA/UERJ constitui-se.112 ss. Pp. Hystaspes ou Apolo). retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368). Noutro pseudepígrafo notável.116-118. 368 De cultu feminarum 1. Cambridge. ao contrário dos OrSib.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A Man for all Generations.

―frigia‖ ou ―troiana‖. no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). Portanto. a líbia (lembrando que o termo compreendia. 370 349 . pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna. uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. na Antigüidade. Nas Metamorfoses. desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. Cf. Apolo concedeu o favor. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. a eritréia (da Ásia Menor . a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. a Ciméria e a Tiburtina. no livro 10. mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo. nos legou uma Descrição da Grécia na qual. como os profetas pré-exílicos. Balaão (Nm 22:4-5. como o nabi (―profeta‖). a caber num vasinho (ampulla). sendo esta última a de existência mais duvidosa. O deus nada fez. Tornara-se tão encarquilhada que passou. a de Cumae. na forma em que os conhecemos. que nomeia ―Sabbe‖. Dt 23:3-6). A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru. Como outros cultos ou práticas extáticas. e que podem mesmo estar associadas. tornou-se cada vez mais velha.também chamada de ―helespontina‖. ao baru cananeu370.12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. 14. a de Samos. 1943. um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. 371 Pausânias. até que por fim restara apenas sua voz. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo).NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas).MULHERES NA ANTIGUIDADE . A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. O baru era. Embora os OrSib sejam. As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371). Aurelio Peretti. incompletos ou negados. pela proximidade dessas localizações). 22. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último. Firenze: La Nuova Italia. eventualmente.

i. 13:1-5 e o fragmento 8. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões.186. a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar. não pode ser acidental. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ . Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão. o uso da mesma figura. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis. Em termos de preparação visionária. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas. Jewish.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais.C. Feitas todas essas ressalvas. 2005. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa.único personagem de origem pagã na literatura examinada. P.e. The Provenance of the Pseudepigrapha. a Sibila . 372 350 . e podem ter sido escritos entre 30 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas. cf. a Sibila. renovada graças ao Possivelmente uma glosa. bem como a natureza prazerosa dessa experiência. 11:315-324.): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. ou um de teor legalístico a Baruch. 2:340. Davila. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens. 5:51372. e 250 d. mas Deus me anuncia cada coisa. as passagens mais importantes são OrSib 2:1. James R.C. 3:1-7.

. pois meu coração está cansado por dentro. que trovoas nas alturas. quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno). eu me fechei para os necessitados. e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [. Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote. estúpida [que sou]. ou ―ASC‖ .MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ favor divino. que tem os querubins como trono.fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia .. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo. celestial.C. Isso contrasta com outras passagens sibilinas.] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖. OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia .como em 4Ezra 5:20. A Sibila indicada.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito. ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar.―altered state of consciousness‖ . pode implicar uma camada redacional mais antiga.e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a. que era o de um homem rico. eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. pobre de mim. que me compele de dentro. de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão. como 2:340: Ai. pecadora e promíscua. 351 . O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei. mas sim do remorso por uma vida mal vivida.

NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. que não desanime deles. Mas.. que sou amiga íntima de Ísis [.: Três vezes desgraçada. uma redação judaica para o trecho. o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura. Assim.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs). Philadelphia: The Westminster Press. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras. Ainda em OrSib 5:52 ss. Pp. Mas quando ele se aproximar dos livros. 373 352 .142 ss. e portanto podemos falar de possessão nesse caso. 374 Epíteto de Deus. estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos. príncipe374. Russell. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo. A passagem repete certo número de temas já conhecidos. eu. Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata. 1964. David S.. nesse contexto. uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado.. pare agora meu adorável discurso.. The Method and Message of Jewish Apocalyptic . mas garanta uma pausa agradável. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

com voz enlouquecida.). pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede. a proclamar essas coisas aos reis. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum.NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d. ó mestre. é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. Heráclito nos diz que ―A Sibila.ex. erguida sobre a Terra. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf. novamente para cantar uma palavra grande e incrível.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ele que deu o poder a reis. e deles o tomou de volta. O divino Deus também me pressiona muito. 375 376 353 . Ecl 3:2 ss. para a vida e para a morte375. proferindo coisas das quais não se deve rir. o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila].. p. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. Pela franqueza do trecho. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos.C. Um fragmento do qual sabemos muito pouco. Por fim. Jr 4:19 ss. localizado no Discurso aos santos de Constantino. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. retornando ao tema das origens da Sibila. sem adornos e sem perfumes. acerca do domínio real. diz ela. por mais que eu relute. E. para Deus: ‗Por quê.

negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno).1. Feia (por imprudência ou desleixo). pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos.12. proveniência ou localização geográfica378). Mas aqui. 377 378 354 . um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido . como disse no início do texto. é mediante o recurso à pseudonímia mas este. ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor. quer nos OrSib. se o faz. romanos. fr.). judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que. questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento . As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito. contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Jr 20:7 é ótimo exemplo. por outro lado. até mesmo a possibilidade de ter permanecido. sem atrativos femininos.NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377. a Sibila exibe comportamento semelhante . era comum à apocalíptica judaica. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras.8 dos OrSib).independência quanto ao mundo doméstico. a Heráclito. Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. que tal proeza em termos autorais (ou melhor.317-326. não existindo consenso quanto à sua datação. Nesse sentido. de substratos pagãos a textos puramente cristãos. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares). vol. Collins na edição de Charlesworth dos OTP. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns. depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade.como no fr. quer nas descrições mais antigas. portanto. até o momento carece de investigação mais detalhada. Pp.

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las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. 379 358 . en sentido similar. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. Las fuentes son abundantes. me refiero a las helenas. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. otras mujeres. Dr. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito. pero en las primeras democracias. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores. no menos excepcionales. entre las que se encuentran las fuentes escritas. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. De entre las mujeres de la antigüedad. los Professor de Filosofia Antiga. ninguna mujer se adjudicó realmente el poder.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer. entre las griegas Artemisia. protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas. da Universidad Nacional Autónoma de México. Por una extraña paradoja. gobernante de Halicarnaso.

Sea como fuere.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. Luego. Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios. Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general. Y es que el pueblo. La constitución de los atenienses. cuando menos Aristóteles lo plantea así. El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES. 9). al tener control sobre el voto. Política. El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. el derecho de apelación al tribunal. III i 1275 a 22-24). El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa. 1. el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense. Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–. y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES.

el hogar u oikos.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos.. Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 .NEA/UERJ buscado deliberadamente. Las funciones principales de las ciudadanas. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO. y cuidarse de no sufrir esto él mismo. 2002: 15-16). mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN. 42).] podría. en el diálogo epónimo. La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES. esposas y madres de los ciudadanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . hija o madre de atenienses. Si quieres la virtud de la mujer. existen ciudadanos y ciudadanas. Menón. siguiendo el razonamiento de Mossé. significar que [Jantipa. pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. En Atenas clásica pues. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres. Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean.. Menón.. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar. afirma: [. La constitución de los atenienses. El lugar de las mujeres es el espacio privado.. se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. 71 e). no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa. Politis y aste son los femeninos de polites y astos. Sin embargo.] Aste estaría en relación con el derecho de familia.. [. hijas..

la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social. Es recluido en prisión (Critón). política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres. Esta doble ciudadanía. De joven discute con filósofos mayores (Parménides). regresa a sus actividades tradicionales. Finalmente es ejecutado (Fedón). Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. y cuando retorna. El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). 1991: 155) como la política y la judicatura. Por lo tanto. Combate en las batallas libradas por su polis. Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras). como afirma explícitamente Menón. ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. 2. En lo que respecta a 361 . 2011: 218). Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón. y alternar en el poder corresponde a los varones. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano. Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología). La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana. ciudadana en tanto que politis y aste. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ. Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. Galeno. Tertuliano. y procreó con él. Cicerón. Aspasia y Diótima. Teodoreto. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. no a Diótima. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. Aspasia. tanto como a la democracia. 2003: 1516).NEA/UERJ las mujeres. Jerónimo. Epicteto. Libanio. Suda. Luciano. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. incluyen nombres de la talla de Aristipo. Estobeo. a diferencia de las otras dos. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. Filopon. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 . Platón.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Jantipa. Sócrates. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. fue mujer de Pericles. Ateneo. Eliano. Plutarco. se afincó en Atenas. Marco Aurelio. quien la amó tierna y apasionadamente. las otras proceden de poleis diferentes. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. según el exhaustivo estudio de Inés Calero. Diógenes Laercio. la segunda de Mileto y la última de Mantinea. perteneció. una politis (CALERO. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa. al círculo intelectual ilustrado ateniense. Tzetzes y Valerio Máximo. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten. Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. Cirilo. a pesar de ser originaria de Mileto. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. Jenofonte. 3. Sinesio. Olimpiodoro. enseñó retórica en Atenas. Temistio.

60 a-b). El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Sin embargo. Pero lo importante es que. corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. esto es. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. Los discursos privados de Demóstenes. XXIX. 26 y 33). en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado.NEA/UERJ [. Su discurso Contra Afobo. Sócrates!. Al vernos. Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres.. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. 4. Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . la Apología. aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia.con su hijo en brazos y sentada a su lado. ajena a las actividades en las que sí participa su esposo. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos. A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él. La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente. Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. por ejemplo. su lugar es el hogar. 1980: 45).. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. y a Jantipa -ya la conoces. Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. ‗!Ay. narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta. Fedón.

pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. Nicias. 2010: 39). y de Pericles mismo. entre ellos. 1985: 48).MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. con sujetos bien conocidos. pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. p. 249 d). al menos en algunas esferas judiciales. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. 1981.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. 1994. porque vivía de 364 . Trasíbulo o Terames (BREMMER. Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente. y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. Y Aspasia de Mileto. Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer. Plutarco. El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN. Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza. pues el mismo Sócrates. de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. XLI). protagonista de uno de los diálogos de Platón. Lamachus. frecuentó su casa. un proceso por impiedad. algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA. Jurídicamente. pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. como Protágoras y Sócrates. 426). existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS. o al de las ya difuntas (VIAL. Menéxeno. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. 1977: 323-330). ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. 1994: 85). a pesar de ser originaria de Mileto. sufrió. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno.

Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO. XXIV). Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia. a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . le exigiría una capacidad retórica adecuada. lo cual no es incompatible ni con que. Ahora bien. y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [. y en particular de Pericles. mujer y extranjera en Atenas. Pericles. a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. 1994: XXIX). en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ.] que Aspasia fue maestra de oratoria. es indudable que la actividad política del estratego ateniense.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pero esta milesia. 1994: 84). Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos.] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey. Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes. y por medio de ellos.NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO. XXIV). Solana afirma [. años antes de unirse con Aspasia.. a través de Pericles. Sucintamente.. Pericles.. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos. lo confirman muchas fuentes. como eran poderosos y de autoridad..

la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar. 366 . a. Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. a partir de los diálogos de Platón. con actividad política del más alto nivel. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad. estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. a través de ésta. Sea como fuere. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. entre otras fuentes posibles. es una ciudadana ateniense. esposa y madre de ciudadanos. C. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. hija.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. Sucintamente. creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes. Jantipa. labores imprescindibles para la existencia de las poleis. Sin embargo.

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guerreiras. santuários e artefactos arqueológicos escavados. feiticeiras ou profetisas. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram. a partir da cultura material. mas. deusas. rainhas.Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. . Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade.

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