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Dossiê Mulheres na Antiguidade

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MULHERES NA ANTIGUIDADE -NEA/UERJ

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA NÚCLEO DE ESTUDOS DA ANTIGUIDADE

Mulheres na Antiguidade

Novas Perspectivas e Abordagens

Rio de Janeiro NEA/UERJ 2012

MULHERES NA ANTIGUIDADE - NEA/UERJ

Copyright©2012: todos os direitos desta edição estão reservados ao Núcleo de Estudos da Antiguidade – NEA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012. Capa: Junio César Rodrigues Imagem da Capa: Oinochoe: chous (jug). Attributed to the Meidias Painter. Metropolitan Museum. Terracotta Period: Classical Date: ca. 420–410 B.C. Culture: Greek, Attic Medium: Terracotta Dimensions: H. 8 7/16 in. (21.4 cm) diameter 7 1/16 in. (17.9 cm) Classification: Vases Credit Line: Gift of Samuel G. Ward, 1875 Accession Number: 75.2.11 This artwork is currently on display in Gallery 159 Editoração eletrônica: Carlos Eduardo da Costa Campos & Luis Filipe Bantim de Assumpção Esta produção é uma reformulação e ampliação do projeto Mulher na Antiguidade, o qual foi iniciado em 2006, pelo Núcleo de Estudos da Antiguidade. Impressão: Gráfica e Editora Rio-DG ltda. Rua Vaz Toledo, 536 - Engenho Novo - Rio de Janeiro – RJ. CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA M956 CANDIDO, Maria Regina [org.] Mulheres na Antiguidade: Novas Perspectivas e Abordagens. Rio de Janeiro: UERJ/NEA; Gráfica e EditoraDG ltda, 2012. 368 p. ISBN: 978-85-60538-08-9 Palavras Chaves: 1. Mulheres – História. 2. Civilização antiga - Mulheres. I. Candido, Maria Regina

Núcleo de Estudos de Antiguidade Site: www.nea.uerj.br / e-mail: nea.uerj@gmail.com Tel: (021) 2334-0227

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Reitor: Ricardo Vieiralves de Castro Vice-reitor: Christina Maioli Extensão e cultura: Nádia Pimenta Lima Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Dirce Eleonora Rodrigues Solis Departamento de História Maria Theresa Toríbio Paulo Seda Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UERJ) Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Conselho Editorial Alexandre Carneiro (Universidade Federal Fluminense) Carmen Isabel Leal Soares (Universidade de Coimbra) Claudia Beltrão da Rosa (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Daniel Ogden (University of Exeter) Maria do Carmo Parente Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Maria Regina Candido (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Margaret M. Bakos (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Vicente Dobroruka(Universidade de Brasília) Assessoria Executiva Alair Figueiredo Duarte Carlos Eduardo da Costa Campos José Roberto de Paiva Gomes Junio Cesar Rodrigues Lima Luis Filipe Bantim de Assumpção Tricia Magalhães Carnevale

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Sumário 07 PREFÁCIO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 09 A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof.ª Dr.ª Adriene Baron Tacla 26 CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. Dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima 34 EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof.ª Drª. Ana María Vázquez Hoys 49 HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves & Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva 63 MAGNA MATER, CLAUDIA QUINTA, CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof.ª Dr.ª Claudia Beltrão da Rosa 94 MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES Prof. Dr. Daniel Ogden 123 INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Dr. Fábio Faversani & Prof.ª Ms.ª Sarah F. L. Azevedo 138 A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO. ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira 157 AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. 1550-1070 A.C.) Prof. Mestrando Gregory da Silva Balthazar & Prof.ª Doutoranda Liliane Cristina Coelho 175 MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH Prof.ª Dr.ª Jane Bichmacher de Glasman

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190 SENHORA DA CASA, DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Dr. Julio Gralha 203 MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Lourdes Conde Feitosa 219 ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.ª Dr.ª María Cecilia Colombani 237 MULHERES EM TEMPO DE GUERRA - A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Maria de Fátima Souza e Silva 251 A MULHER NO MUNDO MUÇULMANO Prof.ª Dr.ª Maria do Carmo Parente Santos 266 REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido 277 RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva 292 A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Dr.ª Paulina Nólibos 296 IDENTIDADES, RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Prof. Mestrando Pedro Vieira da Silva Peixoto 306 MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Prof.ª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 346 SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS

ORÁCULOS SIBILINOS

Prof. Dr. Vicente Dobroruka 358 LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Dr. Víctor Hugo Méndez Aguirre

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MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em virtude do que fora exposto pontuamos a necessidade de problematizarmos . Tais investigações históricas sobre as especificidades das mulheres na sociedade alinham-se com o processo de transformação historiográfico. diante da diversidade de região. assim como reflexões referentes às suas liberdades de ação. cultura e Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA.como as Mulheres na Antiguidade. o qual passou a privilegiar os aspectos singulares das ações sociais dos indivíduos. ao longo da segunda metade do XX. tanto nos meio formais e/ou informais de atuação.ª Dr. Nos capítulos contidos nesta coletânea verificamos questionamentos sobre como a estratificação social pode ser pensada como um fator determinante para a definição dos status sociais das mulheres. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.ª Maria Regina Candido1 A leitura das páginas que se seguem nos revela que os estudos sobre as Mulheres no Mundo Antigo permanecem como tema de acentuado interesse na atualidade. as suas dependências a figura masculina e os seus possíveis lugares de fala junto à sociedade? Outra questão pertinente é sobre o espaço de ação das profetisas e quais as características ou desígnios das deusas que se encontravam presentes no imaginário social das sociedades na Antiguidade? As respostas a estas questões estão bem dispersas neste livro As Mulheres na Antiguidade que.NEA/UERJ PREFÁCIO Prof. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ.no meio científico atual . participavam da vida social e da esfera política na sociedade ao qual estavam inseridas. 1 7 .

os quais aceitaram o desafio de revisar e produzir novas reflexões sobre a diversidade de condições sociais das mulheres em diferentes sociedades e temporalidades. devido a sua escassez. a mulher grega que é considerada pelo campo historiográfico como uma eterna menor devido a sua dependência a figura masculina como o pai quando adolescente. Nosso objetivo é o de lançar novos debates sobre as Mulheres na Antiguidade. deve ser repensado de acordo com o período histórico e a região estudada. como objeto de pesquisa histórica. Imbuídos dessa perspectiva parabenizamos e agradecemos aos pesquisadores pioneiros e atuantes. renovando as visões da historiografia tradicional que atribui a estas uma atuação limitada ao papel de mãe e esposa. podemos afirmar que o modelo mélissa de mulher grega. subordinada ao marido quando se casa e sujeita ao filho quando fica viúva. propõem uma olhar alternativo que confere visibilidade às ações femininas. na historiografia brasileira. por exemplo. A Arqueologia de Gênero. A referida vertente busca estabelecer o lugar social das mulheres em suas atividades cotidianas. quer seja como parceiras dos homens ou mediante estudos que frisem as funções ativas que ocupavam em prol da manutenção das comunidades as quais estavam inseridas. Nesse sentido. afastando-se do padrão tradicional.NEA/UERJ período nos apontam as especificidade de atuação e perfomance das mulheres. as abordagens que contemplem o tema. Sendo assim devemos romper com os modelos homogeneizantes de mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na atual conjuntura do século XXI temos a necessidade de inovar. por exemplo. A Equipe NEA/UERJ agradece a todos pela colaboração. Diante de tal situação. 8 .

a existência de um ―matriarcado original‖. inclusive. Neyde Theml e financiada pela CAPES. evidenciando sua vivência em sociedade (cf.ª Adriene Baron Tacla2 Muitas autoras feministas têm se voltado para o estudo da posição social da mulher. do poder3 e das relações de gênero nas sociedades celtas considerando que a mulher encontrada nos mitos e lendas célticos registrados na Irlanda e em Gales durante a Idade Média representaria a Mulher Celta. defendida em Março de 2001. 1995: 15). sob orientação da Profa.ª Dr. o conceito de ― poder‖ segundo Gellner (1995: 105).MULHERES NA ANTIGUIDADE . GREEN. apontando-nos sua ligação com a natureza. O estudo de caso aqui apresentado está relacionado com nossa dissertação de mestrado. tais mitos falam-nos das deusas celtas. Ao contrário. desde a Antigüidade até a Idade Média. Titular Dra. 1989: 22-23. que o define como a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza. 9 . a fertilidade e a soberania. que não se confundem – o mundo dos deuses e o dos humanos. ou que um 2Professora Adjunta do Departamento de História. esquecem-se essas autoras que a mulher celta presente nos mitos não é.NEA/UERJ A “DAMA” DE VIX: PODER E PRESTÍGIO DA MULHER CELTA? Prof. Essa é uma versão revista do mesmo trabalho originalmente publicado em 2001. em ao longo deste trabalho. aquela que vive em sociedade. a vida e a proteção da comunidade. são esferas distintas. da Universidade Federal do Fluminense e Coordenadora do NEREIDA/UFF. porquanto não há equivalência possível ente o status de uma deusa e aquele de uma mulher inserida na sociedade. Logo. A partir desses mitos. na Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-graduação em História Social. 3 Utilizaremos. Diplomacia e Hospitalidade – um estudo dos contatos entre Massalía e as tribos de Vix e Hochdorf . Em verdade. inferem elas a existência de um destacado papel da mulher em todas as sociedades celtas. muitas vezes supondo. EHRENBERG. Tampouco podemos considerar que qualquer um desses mundos seja o ―reflexo‖ do outro. de forma alguma. não se tratam de relatos que constituam indícios da participação e do poder políticos das mulheres celtas ou mesmo de seu status e prestígio social.

eram com elas sepultados (vide o caso da chamada ―dama de Vix‖ que analisaremos a seguir). nos apresentam mulheres profundamente diferentes das helênicas ou romanas. nos voltar para os relatos dos autores antigos e a cultura material. Women as focalizers of barbarism in conquest texts. 1989: 245. porque poderiam elas exercer o poder. ser sacerdotisas ou chefes. 137-150. Helenos e romanos. 1985. é preciso que nos voltemos para outra sorte de documentos. isso não significa que houvesse uma igualdade plena entre os sexos. evidenciando sua estranheza ante a relativa liberdade e individualidade das mulheres celtas (RANKIN. segundo os relatos de Tácito e Dião Cássio. cavalos. profetizas ou feiticeiras. seu vigor. porquanto não somente tinham elas direito à posse bens de prestígio – tais como gado. sua participação política na sociedade. 1995: 15). No entanto. vide SAAVEDRA. bem como em diversos âmbitos da vida social – trabalhando nas fazendas. havendo uma efetiva participação delas na política das comunidades. independência e poder na sociedade. sendo sacerdotisas.s. que não houvesse grandes contrastes entre a posição de uma chefe e aquela das demais mulheres no seio da sociedade. Devemos. sobretudo. muitas vezes. T. assim como a documentação arqueológica nos permitem afirmar que não era vetado às mulheres o acesso à chefia. Classical Views. 59-77.NEA/UERJ deles venha a ―espelhar‖ características e/ou aspectos do outro (GREEN. S. 18. participando de banquetes e festas. que nos permitam analisar a posição social dessa mulher. Para a discussão da mulher celta como exemplo de barbarismo na etnografia greco-latina. jóias. vasos de cerâmica ou metal. liderar combates (tal como Boudica que. SAÏD. Destacam eles seu caráter e bravura. ao descreverem em seus relatos as sociedades celtas e seus costumes. n. 251). Usages de femmes et sauvagerie dans l‘ethnographie grecque d‘Herodote a Diodore et Strabon. porque bárbara4. In: La femme dans Le monde mediterranéen – Antiguité I. Se desejamos ir em busca da mulher celta. Paris: CNRS. 4 10 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . XLIII. 1999. Tais relatos. mas. liderou a resistência dos icenosà conquista romana nas Ilhas Britânicas). então. as relações de gênero. que seriam por elas geridos e.

havia mulheres celtas que possuíam status e prestígio singulares. sempre associados à figura masculina e. que. e ao contrário do que pensava Jacobsthal (1934 apud. constituem os símbolos uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo. importante se faz destacar que não havia diferenças de gênero nos enterramentos. principalmente dos enterramentos.NEA/UERJ As evidências arqueológicas. Nesse sentido. marcadores de gênero e sim de status. WITT. leste da França). de Hohmichele e Reinheim (no Baden-Württemberg. poderia até mesmo indicar uma divisão sexual do trabalho e da Segundo Richards (1992: 131. formas específicas de sepultamento para homens e mulheres. como explica ela.tal como as tumbas das damas de Vix (na Borgonha.133). uma linguagem capaz de definir e delimitar o status e o prestígio na economia política das tribos celtas. isto é. tais itens não eram de uso exclusivo masculino. não sendo. mas sim casos isolados demulheres com alto status e prestígio. somente não foram encontrados em tumbas femininas instrumentos de caça e dois símbolos5 de status – o punhal e o chapéu. poucos são os casos que encontramos de mulheres que vierama ser enterradas sós e a ocupar posições de chefia. levar à interpretação dessas mulheres como ―honorary males”. encontramos esqueletos femininos em tumbas de agregação. onde temos o casal enterradoem conjunto. sem que com isso houvesse uma distinção hierárquica entre homens e mulheres. mulheres que em vida teriam exercido atribuições tidas como masculinas e que nos enterramentos seriam identificadas por um mobiliário supostamente masculino. Porém. ofertados vários presentes e erigidos monumentos funerários ricamente mobiliados. pois.. no primeiro milênio a. indicam. para alguns. 1996). Tal poderia.C. sendo enterradas com grandes cerimônias com a presença de toda a comunidade e aliados. que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 5 11 . a exemplo do torc e do serviço de banquete. isto é. Na maior parte dos casos. mais conhecido como a Idade do Ferro dessas sociedades. contudo. identificando-o ante a sociedade. Com efeito. Arnold (1995) conclui que a raridade desses casos aponta-nos não o poder da mulher nas sociedades celtasem geral. havendo em todas elas um mobiliário funerário que marcava o status do morto. sudoeste da Alemanha).

adornado com uma gargantilha (torc) de ouro. um kýlix ático com figuras negras. tornozeleiras e fíbulas. na Borgonha (França) em 1953 por René Joffroy. Na câmara central dessa tumba em montículo foi encontrado o esqueleto de uma mulher de aproximadamente 35-40 anos de idade. e uma taça (―phiále‖) de prata.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as atividades produtivas. ao invés. a divisão dos ofícios ou os ―papéis‖ desempenhados pelas mulheres celtas na Antigüidade. no lado esquerdo da câmara. uma oenochóe de bronze etrusca. O caso de Vix Encontrada na localidade de Vix. um kýlixcom verniz negro. Como vemos na figura abaixo. a tumba de Vix revelou um dos enterramentos mais ricos e melhor preservados da Idade do Ferro na Europa Centro-Ocidental. braceletes. a nos debruçarmos sobre o caso de uma mulher. às margens do Sena. encontrava-se o chamado ―serviço de banquete‖.aos pés do assentamento fortificado de Mont Lassois. e diversas jóias entre colares. Propomo-nos. composto de uma cratera de bronze laconiana. Não desejamos.NEA/UERJ produção em virtude da deposição de instrumentos de caça nas tumbas masculinas. O corpo estava deitado sobre um carro de quatro rodas (desmontado para o sepultamento) disposto com orientação norte-sul. 12 . Tinha ela um chicote na mão esquerda e uma argola grande em bronze depositada sobre o abdômen. constitui um dos mais famosos achados da época hallstattiana. que fora datadado final do período de Hallstatt D3 e início do período lateniano (LT A).Essa tumba. no norte da Cote-d‘Or. contudo. aqui discutir as relações de gênero. a chamada ―dama de Vix‖. três vasilhas de bronze etruscas (duas com alças e uma grande com omphalós).

Entendemos que esta era a tumba da chefe de Vix. mais recentemente. mas foi igualmente acalentada sua condição de sacerdotisa.Foi ela desde suas primeiras análises interpretada como uma chefe/ ―princesa‖. torc e serviço de banquete) e rituais (―phiále‖ em prata. tendo seu status singular marcado tanto pelo depósito de objetos diacríticos (carro.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Fonte: Joffroy. seguem também. consideramos que a mulher nela sepultada fosse a chefe de Vix durante o final da segunda metade do século VI a.Nessa linha interpretativa. Knüsel entende ser a dama de Vix uma sacerdotisa. donde. posto que não há em toda essa região uma tumba masculina que seja comparável a esta. 2003).. quer com relação ao tamanho.NEA/UERJ Planta da tumba da chefe de Vix. quer quanto à riqueza do mobiliário funerário. 1958.C.C e início do século V a. prancha IV. por ser a única tumba desta região que se enquadra na categoria de tumbas de chefes. os estudos de Knüsel (2002) e Milcent (In: ROLLEY. chicote e argola 13 .

De modo semelhante. em verdade. Essa singularidade física constituiria a marca do sobrenatural no próprio corpo da dama de Vix. ao defeito na perna que provocaria andar claudicante. A análise dos usos e empregos desses presentes em cada um desses rituais nos permite enveredar pelo significado de tais relações na economia política das sociedades em questão. argumentaremos em favor da questão de seu poder e do prestígio. do torc e do carro. Esses bens. como vias de construção de identidade. posto que se por um lado a premissa de insígnias de status e ofício é pertinente. a própria hierarquia social era estabelecida a partir dessas relações. pois que a circulação. pendendo para a direita). definindo-se na distância social entre os chefes indígenas. o status e o prestígio eram construídos pelas relações pessoais constituídas por meio da oferta de presentes em banquetes e funerais. seus aliados e o restante da população nesses rituais6 públicos.C. apontando suas relações políticas com outras chefias celtas e com Massalía. Aqui. interpretamos os rituais. tendo por base o caráter religioso da phiále. 344)sugere ser ela uma ―rainhasacerdotisa‖. O estudo do mobiliário das tumbas é preciso ser feito com cuidado e cautela. da cratera. mas também artigos de uso cerimonial. distinguindo-se das ações cotidianas. Ofertas de Prestígio Nas sociedades hallstattianas. seriam não somente bens de grande prestígio social. segundo Gellner (1997). quando expostos nos 6 14 . de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social e de reprodução das relações de poder. Já os depósitos na tumba. uma colônia helênica fundada em 600 a. isto é. os usos e o consumo de bens de grande densidade simbólica7 Os rituais são seqüências de ações praticadas de forma a serem marcadas simbolicamente. e à cabeça torcida.NEA/UERJ em bronze) na tumba quanto por características físicas (seu tamanho diminuto. uma ―alta sacerdotisa‖ que proviria da família do chefe/governante. 7 Weiner (1994: 394) define ―densidade simbólica‖ como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais. Milcent (In: ROLLEY. Seguindo essa linha de raciocínio.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. por outro nem todos os objetos depositados nas tumbas eram pertences dos mortos. o poder. 2003: 325-326.

na primeira Idade do Ferro. que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos. portavam uma mensagem reconhecida do valor do chefe. e em especial. envelhecimento ou ruína. porém. no caso que ora estudamos. segundo Wait (1995: 490). marcando o status e o prestígio de todos quantos dele participavam. não havendo. um sistema estável de alianças de casamento (cf. a ratificação e o reconhecimento de laços pessoais com a chefe e a continuidade de alianças políticas entre as linhagens8 e intertribais. 8 Podemos entender que entre os celtas da Idade do Ferro o parentesco era bilateral. a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo). 15 . Com efeito. ao mesmo tempo. O banquete e a hospitalidade eram. 1985). Ante a remoção de um dos integrantes da rede de relações sociais. não representaria traços de um banquete funerário. mas sem que houvesse doenças. isto é.MULHERES NA ANTIGUIDADE . freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses. não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. da crença céltica do ―banquete do Outro Mundo‖9 (onde o grupo. a disposição de tais artefatos em um contexto funerário segue regras mortuárias e de construção de monumentos funerários de chefes/líderes. e que seria similar ao mundo dos vivos. banquetes ou reunidos no mobiliário da tumba do chefe. GOSDEN. denotando a preocupação de sua linhagem e aliados com a demonstração de sua relação com a chefe morta. ao contrário do que pressupõe Miranda Green (1997: 68-69). à prática da diplomacia pelos chefes hallstattianos. Miranda Green (1997: 68) considera. um meio de criar alianças políticas com estrangeiros/hóspedes e de ratificar a desigualdade social. nem tampouco constituiria uma evidência da existência. nos mitos célticos. tornava-se necessário reorganizar. A deposição de um serviço de banquete nesta tumba. por meio dos ritos funerários. porém. Em se tratando de depósitos intencionais. cognato – as mulheres nunca se desvinculavam de seu grupo de parentesco. a análise dos artefatos depositados na tumba da chefe de Vix – mormente do serviço de banquete– nos aponta as estratégias de seus aliados e dos integrantes de sua linhagem para a demarcação de seu prestígio.NEA/UERJ encontram-se diretamente relacionados à construção das redes de relações pessoais. 9 Devemos destacar que.

ao redor do pescoço e na tampa/coador. dessa forma. SCHEID-TISSINIER. 1979) – para misturar vinho ou. Além disso. da mesma forma. Possui ela decoração nas asas. Trabalharemos.64 m de altura.MULHERES NA ANTIGUIDADE . etc. que a remontou em Vix (JOFFROY.NEA/UERJ toda a teia de relações pessoais entre os líderes das linhagens. 10 ―Prestação é tudo aquilo que é dado. 12 Não há como utilizar uma cratera deste tamanho – que precisaria ser transportada com o auxílio de vários homens e fora transportada desmontada em companhia de um ferreiro. Por outro lado. é um dos exemplares mais excepcionais de toda a Antigüidade segundo os arqueólogos (cf. assim como as alianças intertribais. 1988: 227-228). que evidenciassem seu status e prestígio e. Construíam. do tipo com asas em ― volutas‖. aqui. construindo o lugar social do morto e delimitando a posição de cada um de seus aliados (cf. simbolizassem o vínculo pessoal. com somente uma dessas categorias de prestações: os presentes. não podemos assumir que todas as crateras fossem usadas pelos celtas hallstattianos tal qual entre os helenos. é ela de fato um objeto de ostentação e corresponde ao tipoclássico de presente diplomático13. para conter hidromel. 1994: 167). seu próprio status ante a comunidade e a rede de aliados. oferendas. 1979). ofertado – presentes. 13 Podemos encontrar tanto na Odisséia (cf. Esse serviço de banquete era composto de importações. nunca tendo sido encontrada outra equivalente a suas proporções (1. Honrando o chefe morto com a deposição de bens de grande densidade simbólica.217). 2004. 208 Kg). DRISCOLL. JOFFROY. a nosso ver essa cratera não pode ser considerada como parte do serviço de banquete. No caso desta tumba de Vix.‖ (KING. p. mesmo. a relação/aliança que com ele possuíam seus aliados e descendentes do chefe e de seu grupo de parentesco. o serviço de banquete nela depositado não era formado por artefatos produzidos especialmente para os funerais da chefe e sim por bens da própria chefe e prestações 10 funerárias ofertadas por seus aliados políticos. pois suas proporções não condizem com as de um utensílio de banquete12. 11 Essa cratera. quanto em outras situações de contatos com populações bárbaras. possibilitando a continuidade das relações com a linhagem do morto e seu sucessor na chefia. Ao contrário do que considera a maioria dos arqueólogos. como no 16 . dentre as quais destaca-se a cratera lacônia11. pagamentos.

Em verdade. e. um dos fatores de identificação do gosto dos bárbaroi aos olhos dos helenos. TSETSKHLADZE. pois. que tal cratera consistia em uma prestação funerária (ofertada provavelmente pelos massaliotas). 1998b). cabelos repartidos no meio e portando um véu. Exaltava-se. 14 O pescoço é ornado por um friso composto de vinte e dois relevos maciços de aplique. De acordo com Delepierre (1954) essa imagem seria uma representação da partida dos sete guerreiros para o assalto a Tebas. 15 Trata-se de uma estátua de 19 cm de altura. dos demais só podemos divisar algumas partes. No braço esquerdo. cada qual puxado por uma parelha de quatro cavalos. estando o guerreiro nu entre o fim da couraça e os joelhos. fixados com rebites sobre o vaso.NEA/UERJ Entendemos. na cintura. portando sobre a face um elmo coríntio. ficando marcado seu prestígio e a aliança que os unia. não se tratava apenas de ostentar essa aliança ante a comunidade e demais aliados desta chefe. portam eles um escudo redondo e deveriam ter uma lança que se lhes encaixaria na mão direita.MULHERES NA ANTIGUIDADE . vindo-se a estabelecer outros laços com quem a sucedesse na chefia. com esta prestação o poder e o prestígio desta chefe. por um cinto. caso das colônias helênicas no Mar Negro e suas relações com reis trácios e citas (cf. A imagem deste friso é composta por sete hóplitas e oito carros. enquanto o outro somente possui onze. Os cavalos são vistos de perfil e só aquele que está mais próximo da mão direita do condutor é representado por inteiro. para ser exposta no enterramento da chefe. em verdade. e indicava que se desejaria dar continuidade a esse contato. 17 . de uma mulher vestida com um péplos fechado. ―renome‖ e distinção. ofertando-se para o seu enterramento um presente de grande densidade simbólica em metal. Um lado do pescoço porta doze imagens. Os hóplitas seguiam. crateras confeccionadas em metais preciosos ofertados como presentes diplomáticos para líderes bárbaros. tendo o busto protegido por uma couraça que lhes molda o peito e as pernas cobertas por cnémides. assim como a estatueta de uma mulher15 sobre a tampa da cratera. à frente dos carros. 1998a. que reforçaria seu prestígio. A imagem contida no friso do pescoço14 desta craterafaz alusão ao valor guerreiro. A cena se desenvolve da esquerda para a direita com cada um dos carros sendo conduzido por um auriga e estando separado do carro seguinte por um hóplita. à posição privilegiada desta mulher. porém. ocultando-lhe os braços. sua força política. que lhe cobre as espáduas e desce até as panturrilhas. como também de demonstrar que se honrava a chefe morta.

um vaso ofertado a um chefe bárbaro para o estabelecimento de uma aliança política deveria conter imagens que interessassem e agradassem aos bárbaroi (cf. com a cabeça coberta por um elmo coríntio e vestidos com uma túnica. freqüentes nos enterramentos faustosos hallstattianos. As amazonas estão protegidas por um escudo e empunham uma lança na mão direita e trazem suas cabeças cobertas por um elmo ático (que lhes deixa a face descoberta). Uma delas parece romper o combate ao retornar para lançar sua arma. há pseudo-inscrições. pois. feitas somente com pontos. 16 18 . e a taça de verniz negro figuram nesse enterramento também como símbolos da aliança.NEA/UERJ De forma semelhante. e possivelmente produto de troca oupresentes ofertados no contato dos émporoi massaliotasquer em Vix ou com outras populações da região. Sobre as imagens de amazonomaquia. onde eram celebradas as vitórias. nem compreenderiam a relação de margem/limiar implícita na mensagem dessas imagens. que. uma lança. E ao redor de todos eles. pois se tratava de uma declaração publicada força e da bravura de seus ancestrais. Devemos. Eram esses artefatos típicas importações do mediterrâneo. Donde. aqui. Não podemos assumir que o uso da imagem nele contida se devesse exclusivamente à condição liminar. 1998a). Todavia. temos os guerreiros helenos à esquerda. estão conservados porque simbolizavam seus aliados e aumentavam seu prestígio e o de sua linhagem. destacar que entre as populações célticas em geral havia um grande interesse por temáticas de guerreiros. de alteridade das amazonas. No enterramento. ver Tyrrell (1984). por sua vez. não reconheceriam o estatuto de estrangeiras das amazonas. que se encontram separadas por uma palmeira de cada lado e representam um combate entre helenos e amazonas. Eram elas também associadas à prática do banquete.MULHERES NA ANTIGUIDADE . E nos Em ambas as cenas. o kýlix ático possuía um caráter sobremaneira interessante. entendemos que a seleção desta imagem se deve ao conhecimento que os helenos detinham acerca dessas populações e de seu interesse por imagens de combates. o kýlix ático em figuras negras. na mão direita. protegendo-se com seus escudos e empunhando. que possui cenas de amazonomaquia pintadas nas duas faces16. TSETSKHLADZE. contadas as histórias dos melhores guerreiros e cultuados os ancestrais que lutaram em defesa da coletividade.

havendo. poderia ser considerada como uma prestação de hospitalidade dos helenos. Esta taça recebeu cuidados especiais. tal qual as taças em cerâmica ática. os chefes de comunidades dessa região. aos pés desta. no Alto Saône (em Mercey-sur-Saône). sendo ela uma peça fundamental para essa sorte de ritual funerário. Segundo Joffroy (1979: 77). nos faz atentar para a tipologia desta prestação. casos de imitações desses vasos por indígenas (JOFFROY. há dois outros artefatos nesta tumba depositados que evidenciam a construção de alianças políticas e destacam o prestígio e a força política da chefe de Vix: a taça em prata 17 e oenochóe etrusca18. que. Foram encontradas outras oenochóes similares a essa em tumbas e cemitérios em outras regiões habitadas por tribos celtas. como sugere a análise feita por Kimmig (1999). o serviço de banquete desta tumba já estaria completo sem a presença/inserção desta oenochóe. Kimmig. sendo. que atravessava o vale do Tessin. tendo sido depositada na tumba sobre a tampa da cratera enrolada em um tecido trançado. sua posição no enterramento. Quer dizer. eis que eram elas importadas com uma certa freqüência ao norte dos Alpes. Com isso. à primeira vista.NEA/UERJ depósitos de outras faustosas tumbas hallstattianas. vemos objetos com cenas de jogos e combates guerreiros. 18 A oenochóe etrusca. Logo. Temos. Os cuidados especiais sugeridos por esta forma de deposição parecem estar relacionados ao próprio funeral de um chefe. como aquela de Hochdorf. com as duas taças áticas e a taça proveniente dos Alpes dispostas sobre a tampa da cratera e. pois esta sorte de taça só é encontrada em enterramentos de chefes (nas chamadas Fürstengräber). 1999) não haveria razão para a deposição de um vaso como uma oenochóe. Além desses vasos. outrossim. que todos os presentes de aliados encontravam-se expostos no canto esquerdo (ângulo noroeste) da tumba (ver a planta da tumba). a oenochóe etrusca. consistiam em prestações funerárias ofertadas por aliados dessa chefe. tal como no Marne. na Alssásia (na floresta de Hatten) e na Suíça (no Tessin). seriam provenientes da região dos Alpes. possivelmente. Entretanto. 17 19 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . entendemos que fora este vaso colocado nessa tumba não como mais uma peça de um serviço de banquete necessário ao enterramento da chefe da tribo e sim como uma prestação funerária ofertada por outro aliado da chefe de Vix. que tal como a cratera. assim. que teria a mesma finalidade. pois se a taça de prata fosse utilizada para servir a bebida nas outras taças (cf. esses vasos seriam obtidos pelos celtas através da rota comercial pela via transalpina. 1979: 76-77). em Pouan (Aube).

Por conseguinte. as comunidades vizinhas e os aliados distantes. de continuidade dos laços e relações.MULHERES NA ANTIGUIDADE . destarte. Por meio deste estudo de caso. que marcariam sua ligação com a chefe morta por meio da deposição. mais do que um meio de destruição da riqueza para tornar raros os bens de grande densidade simbólica. bem como na dinâmica das relações entre as populações indígenas e a pólis dos massaliotas. enfim. essa sorte de prestação significava uma via de reorganização social. que seus seguidores. pudemos verificar que tinha esta chefe no banquete uma via de consolidação e ostentação de seu poder. evidenciando a condição social da mulher em uma sociedade celta da primeira Idade do Ferro. porque as relações. retirando-os de circulação e. pois. Procuramos. igualmente. familiares/descendentes e aliados ratificariam seu status e prestígio através da oferta de prestações quando do enterramento da chefe da linhagem/aliada. era preciso afirmar ante a coletividade os laços que os vinculavam à chefe morta. tais como os massaliotas. Concluímos. 20 . reafirmando e reproduzindo a relação que possuíam com ela. fazendo a todos distinguir e reconhecer essa relação pessoal e o prestígio e a distinção social dela advindos. demonstrando. ressaltar a ação política desta mulher – uma chefe que ocupava uma posição central na rede de relações intertribais no interior da Gália e Europa central. fazendo-os inacessíveis quer para a linhagem da chefe morta.NEA/UERJ vemos uma clara distinção dentro da tumba entre a disposição das ofertas de prestações da linhagem da chefe morta e aquelas de seus aliados. as alianças nele estabelecidas corroboravam para que ela exercesse um maior controle sobre sua própria comunidade e ascendesse em prestígio ante as demais linhagens. quer para o restante da população. que a partir dos vestígios materiais da tumba da chefe de Vix nos é possível traçar não somente seu status e prestígio. na tumba. Em outra palavras. de bens que simbolizassem esses laços. mesmo. mas também enveredar pelo estudo das relações de alianças político-diplomáticas desta comunidade com outras unidades políticas. de reprodução das relações sociais no interior da sociedade e de ratificação de contatos e alianças que se desejava perpetuar.

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C. que dependendo de seu prestígio. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima19 O objetivo deste trabalho consiste em destacar a atuação da cativa de guerra Cassandra na peça Agamêmnon de Ésquilo. havia a concentração de prostíbulos (SALLES. Dr. Outros termos fazem menção às prostitutas e cortesãs.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1986: 210). custavam vultosas quantias (MOSSÉ. Pretendemos compreender como este poeta enfocou os múltiplos papéis desempenhados pela personagem na trama. 2001: 61). Nestas casas de prostituição atuavam as pornaí. tanto na região do Pireu (porto) quanto no Cerâmico (dêmos dos artesãos). do VIII ao IV séculos a.NEA/UERJ CASSANDRA: DE PROFETISA À CONCUBINA Prof. nýmphe. jovem. E além delas. até o momento em que a maternidade lhe proporciona o status de esposa ‗bemnascida‘ – gyné (LESSA. ela foi O Prof. da Universidade Federal Fluminense e coordena o Núcleo de Representações e Imagens sobre Antiguidade (NEREIDA/UFF). gostaríamos de ressaltar que os autores helenos utilizavam-se de vários termos para identificar os distintos tipos de mulheres nas póleis. este último seria um tipo muito comum no IV século a. 1995: 15). a mulher teria um espaço e atividades no interior de sua comunidade. os homens com recursos poderiam recorrer aos serviços de uma hetaíra. sob a proteção do pai. As mulheres deste primeiro conjunto têm no casamento um objetivo de vida. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima é integra o departamento de História. nos banquetes privados – symposía – e poderia ser uma escrava sob as ordens de um organizador de banquetes. Desta forma. C. Isso se deve ao fato de que muitas delas foram educadas para atuarem nas salas de banquete. Em Atenas Clássica. podemos identificar os seguintes termos: koré. Lembremos do caso de Neera. A cortesã atuava. Dr. recém-casada. 19 26 . donzela/ virgem. pois elas devem gerar filhos – principalmente do sexo masculino – para a perpetuação da comunidade políade. prostitutas que ofereciam seus serviços por poucos drácmas. da família e do oîkos. Dependendo do status. apontado por Demóstenes. Estes três termos estão relacionados à esfera do matrimônio. geralmente. Inicialmente. Ela também poderia ser uma estrangeira e vender seus serviços.

O geógrafo Estrabão nos conta que as hierodoúles em Corinto honravam a deusa Afrodite (Geografia VIII. KIRK. Como já mencionamos. Não podemos afirmar com segurança a que ‗mundo‘ Homero se refere. Diferentemente do guerreiro políade – o hoplités – que combatia em prol de sua comunidade e deveria ficar no campo de batalha até a morte.NEA/UERJ preparada por Nicareta com o propósito de entreter os convivas por meio da música (execução da lira e do aulós). além dele ser seu próprio juiz quando julga ser necessário sair do campo de batalha em um momento de perigo. 1999: 25). as comunidades do período geométrico e as dos primórdios da pólis (FINLEY. o tipo feminino que nos interessa aqui é o da cativa/ concubina. o herói da Ilíada guerreia em busca da honra individual (timé). do canto. da dança e do ato sexual (LIMA. Para compreendermos o papel destes termos. A Ilíada é por excelência um poema de guerra. 2000: 23). Na documentação pode aparecer como cativa de guerra – aichmalotís – ou como concubina – pallaké. 27 . poderemos compreender os papéis desempenhados pela personagem Cassandra na peça esquiliana. Contudo. 1988: 42-43. O botim de guerra constitui efetivamente em uma fonte importante de benefícios.doúle – que aparecem como amas ou como mulheres que cuidam dos afazeres domésticos. É provável que o aedo tenha misturado vestígios de várias sociedades em seus poemas – a realeza micênica. O intuito maior do poeta Homero era o de cantar e exaltar as façanhas dos grandes chefes (basileis/aristoí) da expedição contra os troianos. Em outras póleis da Hélade existia também outra forma feminina de prostituição: a prostituição sagrada. a guerra é o tema central do poema. bastante freqüentado pelos comerciantes que passavam pelo Istmo (VANOYEKE. Nas passagens com batalhas há o enfoque aos combates individuais dos aristoí. 6. C. devemos primeiro tecer alguns comentários acerca do guerreiro e do botim de guerra nos poemas homéricos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . criado de forma oral por volta do VIII século a. Desta maneira. Além dos termos apontados acima. 1999: 123). 21) em seu santuário na Acrocorinto. Mas não podemos esquecer que o objetivo de uma contenda era a aquisição de bens por meio da pilhagem. 1997: 37). os autores mencionam ainda as escravas . O aedo evoca assim o passado heróico e o apresenta com ‗imagens‘ e valores peculiares ao seu público-alvo: os aristoí (SCHEID-TISSINIER.

Agamêmnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ofertar a um chefe um géras significa reconhecer sua timé (THEML. enfrentar os perigos e a morte. 1965: 431). ou seja. 1990: 105). a prática habitual era o extermínio físico dos homens e a escravização de mulheres e de crianças. O herói Agamêmnon enfrentou muitos destes perigos até conseguir derrotar os troianos. os aedos conservaram na memória dos vivos a lembrança dos guerreiros que escolheram. Entretanto. Sua mãe. privou-a da persuasão (peithó). humilhado. 1995: 151). Havendo adquirido o dom profético mediante o artifício da falsidade. 1999: 45-46). Apolo. ter o dom de profetizar. pois a verdade (alétheia) apolínea carece de persuasão (IRIARTE. incluindo as armas dos guerreiros vencidos. 1999: 31). Hécuba. a princesa Cassandra (Kassándra). então. O deus Apolo concedeu à filha de Príamo o poder de transmitir o seu pensamento. preferindo continuar virgem. Este ‗privilégio‘ – chamado de géras – poderia ser uma jovem e bela cativa. Contrariamente. Como os prêmios dos jogos fúnebres. Cassandra não aceita se entregar à divindade. celebrando os seus grandes feitos. que há a necessidade de sustentar a glória – kléos – dos heróis nos poemas. a mênade 28 . são pilhadas. Podemos perceber. Em um primeiro momento são retiradas as ‗peças‘ mais valiosas para serem ofertadas aos chefes. a palavra de Cassandra não possui credibilidade. Cassandra passa a ser uma estrangeira em sua própria terra. 1212). retirar-lhe o seu géras consiste em contestar a legitimidade da sua posse e a sua honra (SCHEID-TISSINIER. as pessoas não acreditavam mais nas palavras de Cassandra (ÉSQUILO. os tesouros em metal e as cativas que serão vendidas como escravas. Por meio da poesia épica. Após ter cometido esta falta grave (émplakon) à divindade.NEA/UERJ tais como: o gado. um membro estranho em sua própria comunidade. o botim dos guerreiros é depositado no centro – es mésos – em comum sob os olhos atentos da assembléia dos guerreiros (DETIENNE. a bacante. A partir da derrota de uma cidade. Um de seus ‗presentes honoríficos‘ por esta vitória foi a filha de Príamo. Todas as riquezas disponíveis. ao ver as naus gregas zarparem não autoriza Cassandra sair da tenda e entrar em contato com os Aqueus: ―Não deixeis sair Cassandra. rei de Tróia. como privilégio honorífico. ao preço de suas vidas. Para o herói homérico era vantajoso arriscar sua vida pela conquista destes bens (KIRK.

374). que me evite esta nova pena. Todavia. seguidoras do deus Dionisos enlouquecidas pela manía. Cassandra ainda em posição estática é comparada. Agamêmnon.1057). Antes de entrar no palácio. pelo Coro. A volta deste aristós para sua terra – Argos – inspirou o poeta Ésquilo em sua tragédia Agamêmnon. 1035). 1062-1063) Mais uma vez Cassandra encontra-se na esfera do selvagem. II. oferecido pelos guerreiros de Agamêmnon (stratou dórem‟) pela sua honra em combate – timé (ÉSQUILO. um presente honorífico. Cassandra. Esta planejou com seu amante Egisto o assassinato de seu esposo. junto com Agamêmnon.‖ (EURÍPIDES. 500-502) Estas palavras reforçam a idéia que ao dizer as palavras proféticas. e participar dos ritos: as vítimas para os sacrifícios (sphágas) (Ibid. com que infortúnio pôs fim à tua pureza virginal. falta-lhe persuasão e ela toma o aspecto de uma mênade em transe. como um animal de caça. Clitemnestra a chama para entrar no que será o seu túmulo. Agamêmnon passou por inúmeros reveses em sua empreitada contra os troianos e mal sabia que seu fim estaria nas mãos de sua própria esposa Clitemnestra. Clitemnestra continua insistindo para Cassandra segui-la em direção ao palácio. chefe da expedição contra Tróia. ela não consegue expressar qualquer gesto diante das portas do palácio (ÉSQUILO. profetisa e virgem. vale lembrar que o guerreiro Otrioneu pediu-a em casamento a Príamo em troca da expulsão dos Aqueus de Ílion (HOMERO. tu que compartilhas os êxtases dos deuses. ela passou a ser a concubina – pallaké – do basileus Aqueu. A parte que nos interessa nesta obra é a chegada de Cassandra. Antes de analisarmos as passagens referentes à Cassandra em Ésquilo.NEA/UERJ causa de desonra ante os gregos. ao palácio argivo. 168-173) É interessante ressaltar que o tragediógrafo Eurípides relaciona os atos proféticos de Cassandra com o êxtase das backaí. Cassandra não consegue ter credibilidade. 955). Clitemnestra reitera a idéia de que Cassandra está 29 . a um ―animal selvagem recémcativo‖ (therós os neairétou) (Ibid. Mais a frente Hécuba assim se refere à Cassandra: ―Filha minha. mas a pobre mulher permanece inerte. As Troianas. 13.‖ (EURÍPIDES. De princesa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ela foi um géras. Ilíada. Agamêmnon. A estrangeira (xéne) imóvel prevê o seu futuro e o dos Átridas. junto ao fogo sagrado. a primeira peça de sua trilogia intitulada Oréstia. a princesa troiana só deixou de ser casta a partir da derrota de Tróia por meio da sua união com Agamêmnon. As Troianas.

mas o Coro não consegue decifrar as palavras da estrangeira. muito semelhante aos versos de Eurípides em As Troianas.‖ (Ibid. Clitemnestra vocifera as seguintes palavras: ―Ela é louca [maínetaí] e obedece a maus pensamentos [kakon klúei phrenon]. (VIRET-BERNAL. 1112-1113) Nos versos seguintes. ela é a única personagem da Oréstia que consegue descrever as 30 . A imagem da cativa e de suas palavras enigmáticas estão sempre atadas à idéia de morte iminente do personagem (IRIARTE. 1160) Cassandra em um dado momento de sua alucinação profética enxerga as Erínias (IRIARTE. Nesta passagem Cassandra expressa um canto oracular ‗contrário às normas‘. após os enigmas [ainigmáton]. 1990: 98). Cassandra lamenta-se e invoca Apolo como se estivesse em transe. 1093-1094) Constatamos que as metáforas de animais e de caça são constantes na descrição dos atos tanto de Clitemnestra. Ao descer do carro. ela chega aqui ao sair de uma cidade recentemente conquistada [pólin neaíreton]‖ (Ibid. quanto dos de Cassandra. ela segue a pista de mortes [phónon] que vai descobrir [aneurései]‖ (Ibid.morada dos mortos. Agamêmnon. palavra apolínea que o próprio deus se nega a validar (IRIARTE. Ela revela os crimes passados e futuros dos Átridas. daí o seu canto ser qualificado de ‗pouco encantador‘. 1064-1065) Nesta passagem fica clara a condição atual da troiana: cativa. um nómon ánomon. o jogo de palavras formulado por Ésquilo parece traduzir as condições legítima e ilegítima da palavra de Cassandra. 1140). 1996:293) Suas palavras sobre o atentado de Clitemnestra contra Agamêmnon não são compreendidas. 1990: 105). Cassandra continua a profetizar e o Coro intervém afirmando que a cativa está com o espírito alucinado (phrenomanés) por uma inspiração divina (theophóretos) (Ibid. 1990: 128). ―Ainda não compreendo.” (ÉSQUILO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . parte do géras de Agamêmnon e uma bárbara ensandecida. eu acho. O Coro não compreende os lamentos da cativa e profere as seguintes palavras: ―A estrangeira [xéne] parece ter o nariz/ faro [eúris] de um cão [kunós]. obscuros oráculos [thesphátois] que me deixam perplexo. As portas do palácio de Agamêmnon são as portas do Hades . Ana Iriarte explica que se repararmos no sentido jurídico do termo nómos. A cativa profetisa o banho mortal tramado pela rainha aquéia contra seu esposo. logo cantar minhas profecias. As suas vidências logo serão cantadas nos rios do mundo subterrâneo: ―Agora nos rios Cócytos e Achéron irei.NEA/UERJ passando por um estágio de loucura.

Atreu vingou-se do irmão oferecendo-lhe um banquete com pedaços dos sobrinhos. Cassandra compreende que é o momento de encarar a morte e entrar no palácio com odor de sangue. Há também o episódio da vingança de Egisto contra Agamêmnon (ÉSQUILO. a vingança do filho de Tiestes ao filho de Atreu – pelo adultério e o assassinato. A trilogia de Ésquilo mescla valores religiosos. vingando assim tanto o pai quanto a própria Cassandra. justamente. Conferimos isto a partir do relato sobre a morte de Agamêmnon pelas mãos da própria esposa – Clitemnestra. 1995: 12). Esta vinga a morte da filha Ifigênia pelas mãos do chefe aqueu. DE ROMILLY.‖ (ÉSQUILO. a partir do relato de Ésquilo. (ZAIDMAN. 1280). mas: ―O palácio exala um odor de morte e de sangue. 1311) Por fim gostaríamos de explicitar aqui. Podemos verificar isso com a própria fala da profetisa: ―um outro virá nos vingar.‖ (ÉSQUILO. 1584-1595): o pai de Egisto – Tiestes – cometeu adultério com a mulher de seu irmão – Atreu – pai de Agamêmnon. não são os odores das vítimas sacrificadas que a cativa sente. Entretanto. 200-205). Agamêmnon.‖ (ÉSQUILO. De jovem virgem (koré) e bem nascida à profetisa de Apolo. 1038). Agamêmnon.NEA/UERJ furiosas vingadoras. as múltiplas facetas de Cassandra. entidades do mundo ctônico: grupo impetuoso (kômos) e furioso (ménei) que ronda a casa (dómois) dos Átridas sedento de sangue (pepokós/ aima). 1185-1190) As vinganças de sangue dos personagens da trilogia de Ésquilo também são proferidas por meio das vidências de Cassandra. Agamêmnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sacrificou a sua filha virgem para prosseguir a viajem rumo à Ílion (ÉSQUILO. E a profecia mais importante: a volta de Orestes que derramará o sangue de Egisto e de Clitemnestra. 1309. (ÉSQUILO. Agamêmnon. De princesas troiana à concubina e escrava (doúlon) de Agamêmnon (Ibid. ela não correspondeu somente a um tipo de mulher encontrado nos textos helenos: Cassandra atuou em diversas esferas. 1998: 69) ―Um odor semelhante ao que se exala na tumba. um filho que matará sua mãe e vingador do pai (ponátor patrós). mesmo hesitando (DE ROMILLY. dos filhos desmembrados de Tiestes. 2001: 118) Com o fim de suas profecias. A nossa personagem não foi somente uma simples cativa de guerra. Agamêmnon. jurídicos e morais. De pallaké do chefe Atreu ela foi reduzida à 31 . Ele precisava apaziguar a cólera da deusa Ártemis e. Agamêmnon. A peça esquiliana mostra.

Livre VIII. Marie Delcourt-Curvers. Ela era uma parte do géras – presente honorífico – concedido pelos companheiros de armas a Agamêmnon. 1962. Agamêmnon. Les Troyennes. Émile Chambry. Clitemnestra chega a qualificá-la como uma bárbara. Clitemnestra sabia que para não haver mais a memória de seu ex-esposo pelos corredores do palácio era necessário exterminar fisicamente o ‗presente‘ de Agamêmnon. Todos estes dados nos estimulam a pensar em uma questão: Clitemnestra assassinou Cassandra por esta ser uma ameaça ao seu poder. II. Agamemnon. 1995. Paris: Gallimard. Trad. 1274) e chegou. 1273). uma rival de Clitemnestra. O segundo e. O primeiro era o de ter o dom concedido por Apolo: possuía a métis – inteligência e astúcia – que desvendava fatos passados e futuros dos Átridas. Paris: Gallimard.Weir Smith. Paul Mazon. HOMÈRE. Paris: Les Belles Lettres. Paris: Garnier Frères. STRABON. 32 . 1975. Trad. Agamemnon. 950). Cambridge: Harvard University Press. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AESCHYLUS. Contudo. Tome V. 1996: 122). Cassandra viva representava a glória – o kléos – do chefe argivo. Trad.NEA/UERJ mendiga faminta (ptochós/ limothés) (Ibid. o desfecho foi bem diferente e até hoje ficou em nossa memória os feitos do herói aqueu e os lamentos de Cassandra. Mas como uma simples cativa poderia intimidar a soberana de Argos? Cassandra reunia vários predicados que poderiam dificultar os planos da esposa de Agamêmnon. 1978. Trad. 1964.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Trad. ela era uma mulher estrangeira (xéne) (ÉSQUILO. LESKY. E não podemos esquecer que tanto para os troianos quanto para os argivos. 1296. Raoul Baladié. talvez o principal. ESCHYLE. segundo o poeta Ésquilo. a cativa passou a ser a companheira de Agamêmnon. Iliade. Loeb Classical Library Vol. a ser a segunda esposa (gyné) de Agamêmnon (Ibid. H. Géographie. Além de ter também o epíteto de delirante e louca (phoitàs) (Ibid. EURIPIDE.

O Mundo de Ulisses. Paris: EHESS. (org. Politique et Société. Brasília: Unb. In: Tragédies Grecques au Fil des Ans. Paris: Payot. Les Antiquités Grecques du Musée Calvet. 1965. VANOYEKE. In: MOSSÉ.) Problèmes de la Guerre en Grèce Ancienne.Madrid: Taurus.-P. F. la Prostitution revêt un Caractère Sacré. LESKY. 601. L. N. J. Le Commerce des Dieux: Eusebeia. Paris: Armand Colin. Splendeur et Misère de la Courtisane Grecque. KIRK. As Realezas em Homero: Géras e Time. MOSSÉ.B. Annales. DETIENNE. 1996. V. 1996 (1937).) Silence et Fureur: la Femme et le Mariage en Grèce. Avignon: Musée Calvet. no. mai-juin. SCHEID-TISSINIER. São Paulo: Perspectiva. La Guerre et le Guerrier dans les Poèmes Homériques. M. Cultura Popular em Atenas no V Século a. Mulheres de Atenas: Mélissa do Gineceu à Agora. Paris: Les Belles Lettres. A Tragédia Grega. F. 35-37. ______. Rio de Janeiro: Sette Letras. O. A Tragédia Grega. Essai sur la Piété en Grèce 33 . IRIARTE. E.. 1998 (1970). Lisboa: Presença. J. 1988 (1965). Phoînix. C. Les Bas-Fonds de l‟Antiquité. En Grèce Archaïque: Géométrie. 1.C. Las Redes del Enigma: Voces Femininas en el Pensamiento Griego.NEA/UERJ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DE ROMILLY. Cl. 3. À Athènes. 1995. 1999 (1968). 2000. L‟Homme Grec aux Origines de la Cité (900-700 av.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). de Souza. LESSA. 1999. A. G. C. SALLES. A. Année. (org. C. M. (org. In: CAVALIER.) La Grèce Ancienne.C. 1995. 1990. FINLEY.I. In: VERNANT. LIMA. Paris: Éditions du Seuil. ZAIDMAN. Les Hésitations d‘Agamemnon. Quand les Peintres exécutent une Meurtrière: l´Image de Clytmnestre dans la Céramique Attique. J. 425-441. C. 2001. Rio de Janeiro: LHIA/ UFRJ. VIRET-BERNAL. 1995. 20o. THEML. 1986. A. janvier 1997. Historia. 147-155.S.

C. Y el poderoso Asarhadón creyó oportuno separarlas. En aquel momento. En aquel momento del siglo VIII a. y si los poderosos sacerdotes babilonios habían financiado las acciones antiasirias y todos juntos eran los responsables de la muerte del hijo mayor y posible heredero de Senaquerib . descubierta en el palacio real de Nínive. sumergiéndola bajo las aguas del Eúfrates para hacerla desaparecer.. Esta acción contra la antigua y sagrada ciudad. España 34 . esposa del rey Asarhadon ( 680-669 a. ha dado al mundo una gran cantidad de textos antiguos ( VÁSQUEZ HOYS. 2007: 188).NEA/UERJ EL FANTASMA DE LA REINA ASIRIA Prof. Asiria atravesaba una crisis de nacionalismo agudo y 20 Profesora Titular Historia Antigua. quedaba en manos del culto Asurbanipal. cuya biblioteca. mientras que el núcleo original del reino. UNED. cuyos dioses principales. Ana María Vázquez Hoys20 La reina Ešarra-hammat. el príncipe Asurnadinsumi. recientemente conquistada. Las escasas estatuas intactas de los dioses que no resultaron destrozadas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . C. el todopoderoso dios supremo Marduk y el dios de la escritura. sus dioses y sus habitantes es incomprensible . centro del avispero antisirio. Los escasos supervivientes fueron expulsados. cuando diversos problemas y enfrentamientos en el país y la familia real ocasionaron la necesidad de regular la sucesión real y la división del reino.ª Drª. dejando al primogénito la antigua Babilonia. eran adorados en toda Mesopotamia: Sólo si Babilonia centralizaba las intrigas políticas contra Asiria se comprende esta acción. La extraña represión de Senaquerib contra Babilonia El rey asirio Senaquerib (704-681 a. el Imperio Asirio estaba formado por dos partes: Asiria y Babilonia. aprovechando la enfermedad del rey de Elam.C.). Y la tomó y arrasó en diciembre del 689. deportados o vendidos como esclavos. ya que sus antecesores siempre habían respetado las ciudades santas de Babilonia y Borsippa. Assur .) y madre de Asurbanipal II (668-627 ) ya había fallecido. marchó contra Babilonia. Madrid. fueron llevadas cautivas a Nínive. 1. Nabu.

Por eso extraña encontrar datos de la posible acción política de las mujeres reales. esposa de Sargón II. relieve de bronce. foto de I. 2. un princesa de Samaria. Naqi'a. en acadioasirio Zakutu. Algo que a veces es muy difícil de descubrir y apreciar. estalló en Asiria un grave conflicto de la sucesión. tenía aún cinco hijos varones conocidos. cuyo nombre semítico del sur. no sólo personalmente. que esta importancia la tenga el fantasma de una reina fallecida. hijos de otras esposas. era Naqi'a. o arameo. Die Frau im Alten Orient (Leipzig. porque la mujer en los ámbitos mesopotámicos era un ser mudo y casi invisible. defendían sus propias posibilidades de suceder a su padre. que ya había hecho llegar al tálamo real generaciones antes a la reina Atalía. Seibert. 1973) pl. Esta mujer debía tener un gran carácter y además de enérgica. con su hijo. afectado por una grave enfermedad crónica. Para ello contaban con el apoyo de los asirios antibabilonios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Asarhadón. Y más aún. Museo del Louvre (AO 20185). tal vez apoyada y dirigida por un clan arameo antiasirio y probabilonio. ―La más pura‖.NEA/UERJ rechazaba con violencia todo lo que pudiera ser babilonio. la madre del rey Asarhadón de Asiria (identificada por una inscripción). 62. 35 . El problema sucesorio Con la muerte del príncipe heredero. había nacido de su última esposa. sin duda era ambiciosa y debió intrigar inteligentemente a favor de la elección de su hijo. que denunciaban las simpatías de la reina aramea Naqi´a y su hijo por dicha Ciudad-Estado surmesopotámica. de las que se conoce al menos a Thasmtu-sarrat. el más joven de los cuales. a la cultural o política. desde una influencia religiosa. sino como cabeza visible de una minoría aramea que la llevó al harén real asirio. Senaquerib. Pero los hermanos mayores de Asarhadón. junto con las diez tribus del norte de Israel. capital y región anexionada por Asiria.

su abuela Naqi´a Zakutu y otra fallecida. oniromancia incluida. 1987: 140-145). desde luego. la reina Ešarra-hammat. y la reina-madre. en mi opinión no hubiera sido posible sin una minoría de notables que la apoyasen.MULHERES NA ANTIGUIDADE . quedando la parte sur en mano de cualquiera de los numerosos hijos del rey. Melville explica la prominencia de Naqī'a por los planes de largo alcance político de su hijo y sugiere que la guerra civil después de la muerte de Senaquerib hizo que Asarhadón desear a una ascensión al poder más fácil para sus hijos que la que él había tenido y que esa fue la razón para la posición prominente de Naqī'a en su corte. Y dos reinas le ayudaron: Un viva. que ya había fallecido. el príncipe Sinandinapli. Y debieron ayudarles elementos afines arameos. entre los que sin duda el que menos posibilidades debía tener era el menor.NEA/UERJ La sucesión de Asarhadón hizo enfrentarse a sus hijos. que pos su origen oeste-semítico bien podían ser de esta 36 . pero partidarios del nuevo príncipe. cuando el anterior príncipe heredero falleció en 672. para recordar a su esposo que ella apoyaba a su hijo aún después de muerta. porque generalmente se pensaría que el Príncipe heredero de la parte más importante del reino. sería para el hijo mayor de Asarhadón. ya que el rey escogió para sucederle al menor de ellos. posiblemente ideada o propiciada por el mismo príncipe Asurbanipal. Asurbanipal. difícil de cumplir. decididamente antia-sirios. con el fin de sentar en el trono asirio uno de los miembros de su propio clan oeste-semítico. Naqia. La decisión real que debió ser difícil de tomar y. entre los que estarían posiblemente los poderosos sacerdotes de Marduk. Una curiosa trama. Y nadie mejor que el fantasma de la madre fallecida del nuevo Príncipe de la Corona. su propia madre. Assur. estudioso de las antiguas técnicas mágicas mesopotámicas. eunucos de la Corte incluidos. hijo de la reina Ešarra-hammat. Ellas debían tener numerosos partidarios. Asurbanipal. que gustaba del estudio y la colección de de los antiguos textos mesopotámicos y los antiguos métodos de adivinación. Pero no cabe duda de que no estaban solos. Y sin duda los utilizaron. que sin duda tenían un prominente papel político y económico en el reino (READE. Nadie mejor para heredar el trono de su padre que el aplicado e inteligente Asurbanipal. intelectual y sensible . Y probabilonio. que. al norte de Mesopotamia.

madre de Asarhadon y abuela entre otros de Asurbanipal. sino también muerta.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cuyo nombre significa ―La más pura". madre del Asurbanipal. aunque algunos investigadores duden que el fantasma sin nombre sea el de la reina fallecida. es claramente hebreo (cf. un nombre oeste-semítico (TEEPO 2005: 9. 2005: 39) la opinión de Reade de que hay evidencias de las influencias politicas de Naqī‘a y Tašmētu-šarrat en la actuación como gobernante de Senaquerib (READE. se menciona como un hecho prominente en las crónicas contemporáneas. Ešarra-hammat jugó una gran papel en el nombramiento de su hijo Asurbanipal como príncipe heredero y en su acceso al trono. semitas del sur. Todos los reyes neoasirios desde Tiglath-Pileser III a Asarhadón fueron hijos de mujeres arameas por sus nombres y hay indicios de que su lengua materna era arameo Así. la presencia de estas mujeres arameas. sino también económico (MELVELLE. PNA 1/II 433). madre de Ahaziah [c. es el de una mujer. también llamada Zakutu. que no es identificado ni por su nombre ni por ningún título. 844/3 BC] y nieta de Omri. una mujer que tuvo grandes posesiones en todo el Imperio. en la Corte asiria. 1987: 140-145). la reina Ešarra-hammat. Y ella allanaría la ascensión al trono de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin. la lengua de la reina de Sargón II. 1999: 17. era muy conocida fuera de los círculos del palacio real y su muerte. Ataliā (KAMIL. Al menos Parpola asegura que el fantasma (eṭemmu) .Para ello no dudó de hacer uso del fantasma de la reina. Naqia y Essarra-Hamat . Y no solo viva. 1999: 105-112). Naqi´a era esposa de Sennaquerib. 22- 37 .6) ). Athaliah [‗Ătalyā(hū)]). la reina Naqi'a. por lo que su papel no solo fue político. 3.NEA/UERJ procedencia o al menos babilonios o probabilonios. se revela por la onomástica de al menos tres de ellas: Atalía. y 2 Cron. por el sufijo posesivo femenino(-ša) 4.( 2 Reyes 11. Su viudo le dedicó especiales ritos funerarios en la ciudad de Assur. Su sucesora. el mismo nombre en acadio. La Reina y su Fantasma La esposa del rey Asarhadón. n. Las Reinas Oeste-Semiticas-Arameas en Asiria Durante generaciones. ocupando la vacante de la reina fallecida la madre de Esarhaddon. Teepo reconoce (TEEPO. en el año 673.

Esta asunción de deberes para con el mausoleo tiene importancia en relación con la identificación del fantasma sin nombre que se cita en la tablilla SAA 10 188.v. STRECK. Ella construyó un palacio para su hijo. posiblemente en Assur. No hay referencias a ella durante su vida . Yabâ. ministros y eunucos. Algo que ya había sucedido en la época de su padre y había condicionado y confirmado su elección: Los dioses y la magia. 5). actividad constructiva que sólo ejercían los reyes hasta ahora .7ff) y se dice que [el veredicto de la madre del rey. Algo que había sucedido ya con Asarhadón. es tan 38 . Iabâ ) o el de Naqia (Aram. y dejó contancia de ello en una inscripción conmemorativa en Nínive (ARRIM 6 11 no. que probaría la estrecha relación entre el Príncipe heredero y el fantasma de la reina difunta. la citada reina de Senaquerib y madre de Asarhadon (MELVILLE. esposa de Asarhadón(680669). lo que ofrece una evidencia indirecta de que Ešarra-hammat era su madre. madre de Asurbanipal y Šamaš-šumu-ukin (muerto en 672). en colaboración con sacerdotes. Ešarra-hammat fue reina de Asiria. En numerosas cartas se indica su extraordinaria posición política y se la considera ―capaz como Adapa (SAA 10 244 r. 1999. I. 915-9. Y es extraordinario que la fecha de su muerte en Addaru en 672 sea recordada en alguna Crónica babilonia. magistrados. Se conserva también una dedicación a la diosa Belet-Ninua por su propia vida y la de su hijo Asarhadon y otra de la reina a la diosa Mullissu (ADD 645). ―pura‖). sin cuya colaboración ninguna de las jóvenes podrán llegar al lecho real. mi señor]. aunque se sabe el dolor que su muerte causó a su esposo y a su hijo Asurbanipal y que fue recordada con gran cariño y reverencia. PNA 2/I s. fue una princesa judía exiliada a Asiria tras la conquista de Samaría en 722 a. deriva del verbo arameo yhb ―dar‖ (FRAHM.NEA/UERJ 24). Naqī‘a). durante cuyo reinado creció la influencia de su madre.v. PNA 2/II s.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (AfO 13 T4). que se menciona en dos textos administrativos deestaciudad como recibiendo alimentos (SAA 12 81). posiblemente.C. 217). Asarhadón le construyó un mausoleo (BORGER. de cuyo cuidad se ocupaba el principe heredero Asurbanipal. 1956: Ass. Todas ellas pudieron ser la cabeza visible de una minoría que buscaba el poder e introdujo en la Corte asiria y el harén real sus partidarias. Y el nombre de la reina de TiglathPileser III.

1999: 105... 5. todos juntos. interrogó por medio de una consulta hepatoscópica a los dioses Shamash y Adad. Asarhadón. no sólo en materia de culto. Lo que evidencia su importancia. a los habitantes de Asiria. para que todos respetaran mi derecho a la sucesión. recayó sobre su hijo más joven. estos dioses le respondieron con un 'sí' sin ambigüedades: 'es él quien te reemplazará'." 39 . su intervención en los asuntos políticos ( ABL 917 y SAA 10 154).. Se desconoce en qué momento se decidió a Senaquerib a nombrar un heredero. me dio legítimamente la primacía sobre mis hermanos (proclamando) 'Es el quien me sucederá'. Ateniéndose con devoción a su solemne sentencia.) los dioses de Asiria y los dioses que habitan el cielo y la tierra. no pudo conservar intacto el legado de Sargón II. su elección. SAA 13 76 . apoyada por los dioses Shamash y Adad. Se conserva una carta del rey a su madre (ABL 303) y se conoce que ella u otra reina madre tenían posesiones en Babilonia (SAA 14 469) (MELVILLE. SAA 13 77). y delante de (.NEA/UERJ decisivo como el de los dioses (SAA 10 17 r. (mi padre) reunió entonces. Eelementos Divinos y Mágicos en la Elección del Herdero El rey Senaquerib. que se recoge en varias tablilla (por ejemplo SAA 10 313. por orden de los dioses (.). TEEPO. debido a las luchas entre las diferentes facciones que actuaban como factores desestabilizadores en la elección del príncipe heredero. sino lo que aquí se trata de comentar. a mis hermanos y a la descendencia masculina de la casa de mi padre. 2005: 37) y numerosos servidores. que manifestaron su apoyo al rey por medio de los adivinos y un acto de hepatoscopia.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. los ritos que lleva a cabo para ella el exorcista Nabûnadin-šumi (SAA 10 274). cuando al fin lo hizo. les hizo jurar por el augusto nombre de estos dioses. Cuando. pero. mi padre. quien lo describiría más tarde en sus Anales: "Aunque de mis hermanos yo fuera el benjamín. pequeños y grandes. a este respecto. a pesar de todos sus esfuerzos. Las dificultades en la Corte parecían evidentes. 1).

e incluso su padre. Isa 37:37. a la ayuda de sus partidarios. las rivalidades políticas y religiosas no solo no se acallaron sino que crecieron." 132Cr 32:21. que para Parpola. Aunque esta vez. buscando refugio en algún lugar desconocido. Sin perder por ello el título de príncipe heredero. ascendió al trono. llamada en acadio Zaqutu. según el Antiguo Testamento.NEA/UERJ Pero a pesar de los solemnes y sagrados compromisos. Que a la hora de elegir al heredero. esta vez de Asarhadón. Pero unidos al malestar religioso y al temor supersticioso que suscitaba lo que se podía considerar un sacrilegio. era el de la fallecida reina de 40 . con lo que se le acusó de traidor a su patria. 38. recurriendo a la aparición de un fantasma. sus hijos Adramelec y Sarezer lo mataron a espada y huyeron a la tierra de Ararat". "El día 20 de Tebet. una vez más. la reina aramea Naqia. Hasta que los acontecimientos de precipitaron y Senaquerib fue asesinado: El 20 de tevet de 681 a. hepatoscopia incluída. su dios. El día 18 de Sivan. Senaquerib fue muerto por sus hijos en una revuelta. estaba algo irritado. "sucedió que mientras rezaba en el templo de Nisroc. ―Divide y vencerás‖ debía ser la máxima.. no dudó en utilizar un procedimiento oniromántico. Los enemigos políticos de Asarhadón podían ser importantes. Assarhadón. Senaquerib. temor que debieron tratar recontrarrestar los sacerdotes asirios y que los deportados y fugitivos babilonios alentarían. perdidas a causa de los invasores tierras. Y los príncipes mayores y quienes les apoyaban se enfrentaron al nuevo príncipe heredero con toda suerte de chismes y maledicencias. a fin de desacreditarle y atemorizarle. más allá de Khanigalbat. Estas fuerzas encontradas debían seguir existiendo durante el reinado del rey Asarhadón. C. en lo que debieron actual sin duda con gran habilidad los sacerdotes de Babilonia. debió recurrir. podían ser indestructibles. Y las profecías clandestinas señalaban que sería Asarhadón el libertador de Babilonia y el restaurador de los dioses y los templos. en cuya elección debió influir notablemente su madre.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que habían visto los templos de sus dioses destruidos por los asirios y debían rumiar su venganza desde su exilio. su hijo. debió alejarse entonces de Nínive. prebendas y riquezas.

intelectual experto en adivinación por aceite. como había sido su propio caso. que evidencia en la frase ―me bendice de la misma forma que yo le he reverenciado‖. y que la piedad del príncipe para con su madre muert. es decir: Que sus partidarios seguían existiendo. lo que puede probar que sí se trata del fantasma de su madre. NATCP. Algo que su heredero tuvo que justificar. bendiciéndole y nombrándole heredero legítimo de Asiria (SAA 10: 188. nuevamente. 7. como en su caso. dado que él había sido encargado por su padre de ocuparse de su culto funerario. la fallecida madre del príncipe. porque no debía estar la situación muy clara. el mismo año que su otro hijo. que estaba políticamente de acuerdo con su madre. a la vuelta de una expedición a Egipto. una vez más. El Príncipe recibe así. aunque ella hubiese desaparecido. salió de su sepulcro para asegurar el cumplimiento de la designación de su hijo. que había ordenado quien sabe si a su esposo. se apareció al nuevo Príncipe heredero en un sueño. su fantasma. estaba así sancionado por el fantasma de su madre. entre otras disciplina adivinatorias. 1993). PARPOLA. que su hijo pequeño le sucediese. la ciudad del dios Sin. El reinado de Asurbanipal.C.. Ešarra-hammat. y cómo ella misma le designaba como heredero al trono de su padre como miembro de su clan. madre del príncipe Asurbanipal. Según una tablilla contemporanea (Anexo 1 – Final do Texto). Este relación ―especial‖ con el ―posible‖ fantasma de su madre puede evidenciar también la importancia política de la reina fallecida en vida y que continúa tras su muerte. El Fantasma de Ešarra-Hammat Cuando Asarhadon designó a su hijo Asurbanipal oficialmente como Príncipe heredero del Asiria en 672 a. Tal vez.. cuya muerte debía ser muy reciente. preocupado sin duda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 6. que tal vez la añorase ahora . tal elección le costó la vida y Asarhadón murió en Harrán. el premio por honrar la memoria de su madre. el hijo menor del rey. cuando exigió a la 41 . es decir.NEA/UERJ Asarhaddon. El Tratado de Naqi’a Zakutu La última evidencia de la reina Naqī'a es del comienzo del reinado de Asurbanipal. que tal vez ya estaba decidida antes de que ella muriese. a fines del año 669 a.C.

Así púes.92. como en el caso de de Betsabé . era la que había permitido. jefe de la casa del rey y el harén real. C. ya que mantenía su status real tras la muerte de su esposo. este fue el clímax y ela punto final de su carrera política. aunque si su poder crecía. la reina Maaca. con su madre. Y además. el quinto rey de la casa de David y el tercero del Reino de Judá. un juramento de fidelidad a su nieto (SAA 2 8). al juramento. a veces el rey podía alejarla de la Corte. principalmente en el harén. que la joven llegase al lecho de su hijo. porque convenía a sus propios intereses políticos y de su facción aramea. y es fácil comprobar su influencia en otros dos ejemplos bíblicos. su suegra Naqi´a. temiendo por el deseo de heredar a su padre de otro de los hijos de David. El nombre arameo de esta reina era también el de un pequeño reino arameo de Galilea. madre de Asarhadón. Aunque el caso de los fantasmas de reinas que confirman el poder se su hijo es el único 42 . la aristocracia y la nación asiria. Ningún medio era extraño ni estaba de más si se trataba de asegurar el mantenimiento en el trono de su nieto preferido. Pero el fantasma vendría en su ayuda.NEA/UERJ familia real. debido a los problemas que podía causar entre los miembros de la familia real. la esposa preferida de David. 2009: 170). Según Melville. bisnieto de Salomón e hijo de Abías (que tuvo catorce esposas y treinta y ocho hijos). ocupó la vacante política. hija de Uriel de Gibeah nieta de Absalón. consiguieron que David eligiese como heredero a Salomón (el segundo hijo de Betsabé) (NNOVOTNY-SINGLETARY. conservárselo. Ella. a la coacción. El Poder Politico de la Reina Madre La reina madre ocupaba una posición de gran poder.. 8. que ayudada por el profeta Natan el profeta. Para ello hizo intervenir también a los dioses.) y quien sabe si de los arameos que la apoyaban y protegían. ritual y oficial de la reina fallecida. llamada Adonías. La muerte de la joven reina pudo desbaratar los planes de dría en Naqi´a. como hizo en Judá el rey Asa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a la magia. Había que hacer llegar al trono a su nieto favorito. estas luchas fratricidas existían y los manejos en los harenes también. A la muerte de Ešarra-hammat. gobernando entre 913 y 873 a. como madre del nuevo rey. consumación en ella de los planes del hijo (1999:91 de MELVILLE . sin duda.

670 a.700 a. su madre y a su señor Asurbanipal. Si oye y conoce que hay hombres que intentan una conspiración o rebelión armada contra él.C.) ―Tratado de Zakutu.) Madre de Asarhadón (h. que tras condenar el adulterio de David con ella terminó apoyando la subida al trono de su hijo Salomón. un tratado de lealtad que ligase por un solemne juramento a las fuerzas en litigio.NEA/UERJ que conocemos. Quieran Ashur.MULHERES NA ANTIGUIDADE . rey del Asiria. eunucos. si lo oyes y lo conoces. rey del Asiria.C. ni en sus corazones concebirán deseos u acciones malvadas contra su señor Asurbanipal. 670 a. brujas. rey del Asiria. C. no se rebelará contra su señor Asurbanipal. como en el caso de Natán. Cualquier persona incluida en este tratado que la reina Zakutu ha concluido con la nación entera. reina de Senaquerib. A pesar de que eminentes especialistas niegan que la reina Naqia Zekutu tuviese nada que ver con la elección de su nieto Asurbanipal como Príncipe heredero y luego rey de Asiria (MELVILLE. Y posiblemente obligó a firmar a sus enemigos y los del nuevo rey. rey de Asiria.710 a. 2005: 36) .) Esposa de Senaquerib (h.) Abuela de Asurbanipal (h. hecho que la reina Naqia debió utilizar ayudada por militares. TEEPO. pitonisas. nombradas explícitamente en el texto: ―Tratado de la lealtad de Naqia-Zukutu de Asiria (extractos) (h. los prenderás y matarás y les 43 .C. ni tramarán para asesinarle. rey de Asiria. madre de Asarhadón. sean hombres o eunucos o sus hermanos o de la familia real o sus amigos o cualquier persona de la nación entera. venga a informar a Zakutu. exorcistas y profetas. 1999: 29. referente a su nieto preferido Asurbanipal. Si alguno oye hablar de un plan para matar o eliminar a su señor Asurbanipal. lo cierto es que la reina Naqia se apresuró a confirmar su protección a al nuevo rey. Shamash e Ishtar castigar y maldecir a los violadores de este Tratado.

hasta un fantasma era bien recibido. BAKER. H. part II.‖ WO 28. Para ello. ______. H-K. como cabeza visible del clan que la había aupado al trono y al tálamo del rey Senaquerib hacía ya bastantes años. Religions in the Graeco-Roman World 138. Leiden.C. L-N. tu señor‖. I. a cuya elección había contribuido sin duda. 1938. 1999. The Palmyrenes of Dura-Europos: A Study of Religious Interaction in Roman Syria. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. ―The Exaltation of Nabû: A revision of the relief depicting the battle against Tiamat from the temple of Bel in Palmyra.NEA/UERJ traerás a Zakutu. (ed. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. BURROWS. New Haven: Yale. Una vez más. para asegurar la paz para el reinado de su nieto preferido. DIRVEN. 2001. magia y política intervenían en el comportamiento de la ya vieja reina Naqia-Zakutu. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. ______. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHRANI.). (ed. su madre y a Asurbanipal. Gender and representation in Mesopotamia. Los tremendos castigos para quienes violasen dicho tratado iban desde el exterminio físico de toda su familia a la intervención directa contra ellos de los dioses citados en el Tratado y desde luego. volume 2. de las autoridades asirias. 74-90. American Oriental Series 15. rey de Asiria. 2001.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 44 . 1978. London and New York: Routledge.‖. volume 3. Y así se constató en una tablilla conservada para probarlo. Z. por suerte para la posteridad. ______. The Basis of Israelite Marriage. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. 1997. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. 96-116. ―The Western Minorities in Babylonia in the 6th-5th Centuries B. part . 2000. part . L. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. M. volume 2. OrNS 47. PS .I.). 2002. ______. Women of Babylon.

The Role of Naqia/Zakutu in Sargonid Politics. ―Les Dames de l‘empire assyrien‖. In Prosecký. Nissen and J. Renger. Proceedings of the XLVII e Rencontre Assyriologique Internationale. Studia Orientalia.. (ed. 4. 2002. T. State Archives of Assyria Studies 9. In: DAMERJI . 1999. Jahrbuch des Römisch . ―Family Ties: Assurbanipal‘s Family Revisited‖. Helsinki 2009. Ancient Records of Assyria and Babylonia. Intellectual Life of the Ancient Near East: Papers Presented at the 43 rd Rencontre assyriologique international. Kamil. pp. J. (ed. Politische und kulturelle Wechselbeziehungen im Alten Vorderasien vom 4. Letters from Assyrian scholars to the Kings Esarhaddon and Assurbanipal.NEA/UERJ ______. ―The Queen in Public: Royal Women in Neo-Assyrian Art‖. D.). and Scholars. Sex and Gender in the Ancient Near East. Alter Orient und Altes Testament 5/2. 437-447. 200-201. (eds. In: Neo-Assyrian and Related Studies in Honour of Simo Parpola.). J. The Cambridge Ancient History. S. In: PARPOLA. Saana Svärd and Raija Mattila. J. NOVOTNY. 167-177 ORNAN.175-181. Helsinki: Neo-Assyrian Text Corpus Project. GARELLI. Helsinki: The Neo-Assyrian text Corpus project. In: JAHRTAUSEND V. Trees. Published By The Finnish Oriental Society 106.. Part II. (ed. 1988. 2. de. Edited by Mikko Luukko. 1982. P. Helsinki . 1927. Kevelaer: Verlag Butzon und Bercker. Of God(s). Mesopotamien und seine Nachbarn. R. 1998. MELVILLE. J. WHITING. 1983. 45 . Second Edition.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 13-18. M. ______. Gräber assyrischer Königinnen aus Nimrud. 1999. M. bis 1. Prague: Academy of Sciences of the Czech Republic Oriental Institute. PARPOLA. vol 2.). PNA 1/II 433 LUCKENBILL. Vol. ― Syria-Palestine under Achemenid Rule‖.). A.germanischen Zentralmuseums 45. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag. Commentary and appendices. 139167. vol. Mainz. In: BOARDMAN. SINGLETARY. (1982): ―Importance et rôle des Araméens dans l'administration del l'empire assyrien‖. S. Kings. CRRAI 25 = Berliner Beiträge zum Vorderen Orient 1. S. ―Inscriptions on Objects from Yaba's Tomb in Nimrud‖.

1954. . Leipzig. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. SELMS. New Haven. S. Historia del Mundo Antiguo (Próximo Oriente y Egipto). Helsinki: Helsinki University Press. A. J. Studia Semitica Upsaliensia 8. SAAB II/2. SEIBERT. 2007. 1988. 4. (ed. -Id. pp. 1993. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project. K. Assirian Royal Women. 1943 TEPPO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . SAA 9.-M. Woman in the Ancient Near East. B-G. Letters from Assyrian and Babylonian Scholars. Madrid: Editorial Sanz y Torres. ―The Neo-Assyrian word for ‗queen‘‖. 4.). 1986. 2005.). 1987. 73-76. Hesinki. (ed. Vol. I. Marriage and Family Life in Ugaritic Literature. STEELE. 1987. R. 5522. Helsinki: Helsinki University Press. ______. K. The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire. A. Helsinki: Helsinki University Press. Leiden 2002. F. van. SAA 10. Reade. ______. 2. Assyrian Prophecies. (ed.NEA/UERJ ______. O. 1998. VÁZQUEZ HOYS. ―Was Sennacherib a Feminist?‖. 1974. Nuzi Real Estate Transactions. ―National and Ethnic Identity in the Neo-Assyrian Empire and Assyrian Identity in Post-Empire Times― In: 48th Rencontre Assyriologique Internationale. SAA 1. 2004.3 Daughters of kings and other royal women.43.). J. RADNER. 4. 46 . 18. Paris: Editions Recherche sur les Civilisations.). volume 1. 1997. ______. (ed. RADNER. (ed. Mª. 34.2. devoted to the theme “Ethnicity in Ancient Mesopotamia”. 1999a. La Femme dans le Proche-Orient Antique: XXXIIIe Rencontre Assyriologique Internationale. ______. London. part II. A. Pretoria Oriental Series 1. Women and their agency in the Neo-assyrian empire. part I. PEDERSÉN.). The Correspondence of Sargon II. In: DURAND. Journal of Assyrian Academic Studies. 4. American Oriental Series 25.. Helsinki: The Neo-Assyrian Text Corpus Project.). pp. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis. Tesis Doctoral.1 Queen‘s . (ed. Archives and Libraries in the city of Assur. no. 40 . Part I: Letters from Assyria and the West. volume 1. Queens household.34.

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ABREVIATURAS PNA 1/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/I, cfr. Radner 1998. PNA 1/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 1/II, cfr. Radner 1999a. PNA 2/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/I, cfr Baker 2000. PNA 2/II = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 2/II, cfr. Baker 2001. PNA 3/I = The Prosopography of the Neo-Assyrian Empire 3/I, cfr. Baker 2002. RIMA 2 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 2, see Grayson 1991. RIMA 3 = Royal Inscriptions of Mesopotamia 3, see Grayson 1996. SAA 1 = State Archives of Assyria 1, see Parpola 1987 SAA 2 = State Archives of Assyria 2, see Parpola and Watanabe 1988. SAA 3 = State Archives of Assyria 3, see Livingstone 1989. SAA 4 = State Archives of Assyria 4, see Starr 1990. SAA 5 = State Archives of Assyria 5, see Lanfranchi and Parpola 1990. SAA 6 = State Archives of Assyria 6, see Kwasman and Parpola 1991. SAA 7 = State Archives of Assyria 7, see Fales and Postgate 1992.

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Anexo – 1

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HELENA DE TRÓIA E HELENA DO EGITO
Prof.ª Dr.ª Ana Teresa Marques Gonçalves21 Prof.ª Ms.ª Tatielly Fernandes Silva22 Grande número dos trabalhos atuais dedicados ao estudo das mulheres busca demonstrar que estivemos durante longo tempo diante apenas de discursos masculinos acerca das mulheres e que estes tendem a retratá-las como absolutamente passivas, sem participação ativa na sociedade em qualquer esfera relacionada às atividades de caráter público, por estarem as mulheres restritas ao domínio do espaço privado, das atividades domésticas, dos cuidados de dona-de-casa, mãe e esposa. Porém, iniciou-se um período, ainda em vigência, de revisão destes discursos até agora elaborados sobre o feminino, o gênero, a mulher, por ser evidente a necessidade de reelaboração destes. A oposição públicoprivado, especialmente presente nos estudos em Antiguidade, povoa de modos semelhantes a historiografia geral, quando se opõe homens e mulheres. Segundo Raquel Soihet23 (1997: 58), após a eclosão dos movimentos feministas na década de 1970 que tiveram repercussão em diferentes níveis em todo o mundo ocidental, houve uma modificação que levou ao desenvolvimento de uma corrente historiográfica disposta a pensar a ―diferença‖, a inexistência de uma ―essência feminina‖ e observar-se com mais rigor as múltiplas identidades femininas. Bem como as múltiplas identidades, de forma geral, estavam ganhando cada vez mais espaço nas Ciências Humanas. Desta maneira, podemos agora fazer uma História das Mulheres em qualquer período histórico que entenda as
Professora Adjunta de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Doutora em História Econômica pela USP. Bolsista Produtividade do CNPQ. anteresa@terra.com.br 22 Aluna do Programa de Pós-graduação em História – Universidade Federal de Goiás, em nível de Mestrado. Bolsista CAPES. fernandes.tatielly@gmail.com 23 Artigo Enfoques feministas e a História: desafios e perspectivas . In: SAMARA; E. de M; SOIHET, R. MATOS, M. I.S. Gênero em Debate. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo: EDUC, 1997.
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particularidades deste enfoque e, especialmente, que possa lançar um olhar para o gênero feminino e vê-lo como absolutamente plural, já que existem ―várias mulheres‖ e estas estão inseridas na sociedade de formas também absolutamente variadas. Este debate abre um extenso leque de possibilidades para os novos estudos acerca das mulheres, que ultrapassa o limite estabelecido pelo determinismo biológico, e o isolacionismo inerente a este discurso, ou seja, o universo feminino e o masculino eram analisados como duas esferas que não se tocavam, que se moviam autonomamente. Entendemos aqui, porém, que um não pode ser compreendido sem o outro, que são complementares, mais que isso, são componentes um do outro, haja vista que as relações sociais não se estabelecem sem comunicação. Utilizar-nos-emos ainda do artigo de Raquel Soihet para apresentar de forma bastante sucinta a forma como estamos utilizando o conceito de gênero:
Gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo utilizado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente usado pelas feministas americanas com vistas a conceituar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ―sexo‖ ou ―diferença sexual‖. O gênero sublinha o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir por meio de um estudo que os considere totalmente em separado (SOIHET, 1997: 63)

O que nos interessa, principalmente, é a abertura ocasionada por estes movimentos sociais e que nos permitem agora dedicar atenção acadêmica a personagens históricos femininos e considerá-las como atores sociais ativos. Ainda que o movimento feminista contenha em si inúmeras disparidades, discursos contrários, e integrantes ativas que lutam com objetivos distintos, - não cabe agora um detalhamento destes aspectos – o que suas ações trouxeram à tona adquiriu uma vida

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independente e são agora objeto de estudo de vários campos científicos. Cabe a ressalva de que
[...] embora a história das mulheres esteja certamente associada à emergência do feminismo, este não desapareceu, seja como uma presença na academia ou na sociedade em geral, ainda que os termos de sua organização e de sua existência tenham mudado (SCOTT apud GONÇALVES, 2006: 63).

Ao lidarmos com os vestígios que nos permitem estudar o passado humano devemos ter em vista os riscos inerentes ao trabalho historiográfico e a possibilidade de estarmos lidando com fatos que se quer ocorreram ou que podem ter se passado de forma totalmente alheia ao que conseguimos averiguar por meio de nosso esforço teóricometodológico. Lowenthal (1998: 279) afirma que, de qualquer maneira, não devemos por tudo em xeque, pois os vestígios do passado são presentes em nossas tradições e em nossa constituição enquanto seres humanos tais como somos hoje. O que é certamente verificável no que diz respeito à tradição ocidental sobre os lugares definidos para ―a mulher‖. O espaço privado, o silêncio, a obediência permeiam o imaginário relacionado ao assunto ―sexo frágil‖, independente de todas as revisões teóricas, movimentos sociais, e da evidente presença feminina em todas as esferas do espaço público. Assim, nos ocupamos agora, tendo essa ―bagagem em mãos‖ da representação feita por Eurípides da personagem mítica Helena, componente do que convencionamos chamar de mitologia grega24,
Segundo Marcel Detienne em A invenção da mitologia foi através de filósofos, a partir de Xenofonte (aproximadamente 530 a.C.) até Empedocles (450 a.C.) que o termo mito, mythos, passou a ser utilizado pelo pensamento racional, no sentido de narrativa sagrada ou discurso sobre os deuses. Um tecido mítico homogêneo é, portanto, estranho à realidade grega arcaica e em Heródoto, Píndaro, Tucídides, o que distingue o mito da massa de ditos e narrativas é a raridade e o absurdo. O termo mitologia é utilizado pela primeira vez por Platão, quando ―denuncia as narrativas dos antigos como escandalosas e cria seus próprios mitos sobre a alma, sobre o nascimento do universo e sobre a
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integrante do ciclo troiano, na sua dramaturgia trágica, mais especificamente, na tragédia Helena, apresentada em 412 a.C.. Tendo em vista para este fim que não existe uma distinção universal, invariável, natural entre as categorias homem e mulher, masculino e feminino, tratando-se antes de construções discursivas presentes em todas as esferas da experiência humana, portanto, sendo também verificável na manifestação da tragédia no espaço público de Atenas e no discurso dramático trágico de Eurípides. Eurípides é o tragediógrafo grego que mais peças teve conservadas e costuma ser lembrado por apresentar na maioria de suas obras protagonistas femininas, além de ser considerado o autor que elevou o gênero trágico ao seu ápice e esgotamento na Grécia. A peça Helena é assinalada por Albin Lesky (1990: 174) como uma construção atípica do tragediógrafo e que já caminha para a comédia nova por destoar da elaboração do trágico que leva à catarse do público assistente. Essas mulheres apresentadas no palco certamente nos permitem aproximar das mulheres contemporâneas aos escritores trágicos, uma vez que a tragédia é um texto que de maneira nenhuma pode ser visto separadamente do seu contexto de produção, exatamente como qualquer outra produção cultural, no entanto, se essa observação fazemos é devido á estreita vinculação do gênero com um determinado momento da história de Atenas e a vida desta cidade, ―a verdadeira matéria da tragédia é o pensamento social próprio da cidade‖ (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 1999: 03) A nosso ver Helena, na obra homônima é um autêntico modelo da mélissa, da esposa legítima do cidadão ateniense. Casta, fiel, obediente. No entanto, Helena possui atributos que a levam a manifestar um caráter ambíguo, pois, por mais casta que seja, é dotada de uma beleza sensual, sedutora, sem igual entre as mortais, que recebeu como herança de Zeus, seu pai. Estas características, Eurípides evidencia em Helena. A protagonista é possuidora de um caráter respeitável, honesto, porém, ainda assim capaz de despertar paixões por onde passa. Páris, quando
vida do além‖ (DETIENNE, 1998: 152) e é o filósofo que aponta Hesíodo e Homero como os construtores do edifício da ―mitologia‖.

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solicitado por Zeus a escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual a mais bela, escuta as ofertas que cada uma lhe faz para ser eleita, e recusa poder, autoridade e domínio para ter Helena, o prêmio oferecido por Afrodite e esta consegue o que deseja. Essa é a versão apresentada por Eurípides nesta tragédia, o mito, como a maioria, possui outras versões e sofre variações no decorrer do tempo. Helena tem como pai humano, Tíndaro, rei de Esparta, esposo de sua mãe, Leda. É, portanto, uma ―cidadã‖25, esposa legítima de
Segundo Giselle da Mata, em comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no XVIII Ciclo de Debates em História em setembro de 2008, os argumentos disponíveis para justificar a possibilidade de uma cidadania feminina na Atenas Clássica ocorre em virtude de sua participação na transmissão da cidadania e nos ritos religiosos. Esta integração ocorre por intermédio da Lei Pericliana de 451 – 450 a.C., que restringiu a cidadania a filhos de pais e mães atenienses eupatridaí, assim como nos ritos religiosos oficiais citadinos, espaço público em que observamos a presença das Gynaikes. Deste modo, a observação de uma cidadania feminina na polis ateniense segue duas vertentes. A primeira sugere, mesmo que indiretamente de forma não institucionalizada, a integração da Mélissa na cidadania democrática, em virtude de sua importância para a continuidade da mesma e na vida religiosa... As Melissaí não eram definidas como cidadãs, pois não participavam da política, mas de acordo com a Lei de Péricles as condições de acesso à cidadania na polis derivava do nascimento de pais cidadãos. Desta maneira, os homens só se tornavam cidadãos pelas mulheres. Na Aténas do século V a.C., segundo Claude Mossé, em ―Péricles: O Inventor da Democracia‖, ser cidadão não significava apenas fazer parte de um grupo integrado à vida política, mas participar da tomada de decisões dessa mesma comunidade no plano religioso, mantendo uma boa relação com os deuses para que garantissem benefícios e proteções (MOSSÉ, 2008: 47). ―Quanto às mulheres, embora excluídas da política, participavam no âmbito da civilidade definida como vida religiosa‖ Era através da religião que as mulheres tinham condições de envolver-se mais livremente na vida comunitária (MASSEY, 1988: 38). As mulheres (esposas e filhas de cidadão) eram responsáveis por inúmeros rituais: casamentos, nascimentos e funerários, além dos inúmeros cultos oficiais da cidade dos quais eram parte integrante. Na esfera religiosa as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e deveres que os homens ao desempenharem as funções de sacerdotisas sendo tratadas com equidade (ZAIDMAN, 1990: 456). Dentre os principais cultos nos quais as mulheres estavam presentes podemos citar: as Adoníades, os rituais iniciáticos de Ártemis, as Leneias, as
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A mulher virtuosa deveria negar sua feminilidade. porque estava envolvida nele e se comprometeria com seu Antestérias. segundo Andrade (2010: 117). Hermíone. (FARIA. dedicada à economia doméstica e ao cuidado dos filhos. sendo a mélissa. Helena. a contraposição da mulher dotada de todos os atributos femininos como a sedução. No entanto. / Ao céu prouvesse/ que estes meus traços se apagassem. ainda que a contragosto. acumulava ambas as características. pois. está sendo representada por um ateniense . pois a vemos amaldiçoar e negar sua beleza por ter sido a causadora de tanto sofrimento. estão. Teonoe. a astúcia. alimenta contra os gregos.NEA/UERJ Menelau. irmã de Teoclimeno. minha beleza e Afrodite/ causaram-me a desgraça. havia um par de opostos. especialmente. como/ as cores da pintura. porém./ de que houvesse nascido um ovo branco. Helena é ardilosa.349 a 359). silenciosa. 1990). ou grega ou bárbara. emoção. como tudo quanto/ me aconteceu. Como se pode ver nos versos abaixo: Helena: Não houve outra mulher. vs. portanto. do marido daquela que deseja esposar.que baseia-se na exemplaridade doméstica. sendo que deste último ritual participavam somente as esposas legítimas (LISSARRAGUE. 2007: 211-212). a boa esposa.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ponto de se poder falar a seu respeito de „cidadania cultual‟ ‖. 54 . Minha vida/ é maravilha. Enquadra-se. por diversas formas./ como aquele do qual proveio a filha/ de Zeus e Leda. no estatuto da mulher ateniense. Seguindo a ordem dos deuses. astuciosa. que Zaidman (1990: 411) a denominou de cidadã cultual: ―(. no entanto integradas.. as Panateneias e também as Tesmofórias. não admira o estratagema de Helena. A presença da gyné gameté no âmbito religioso constituía um traço tão marcante na organização da pólis. rei do Egito após a morte de Proteu. e é graças a esses talentos que ela consegue elaborar o plano que a salvará juntamente com seu esposo Menelau do rancor que Teoclimeno. na vida religiosa da cidade. E estas características ela não renega e mesmo seu esposo não a censura..) as mulheres a priori excluídas da vida política portanto do sacrifício. e que a beleza/ cedesse em meu semblante.apesar de ser uma espartana. Helena. Entre as próprias mulheres. parte dela o plano de salvação de ambos. ambigüidade de caráter. do nomós e da physis uma boa esposa deve ser casta. com quem tem uma filha. á fealdade! (EURIPIDES. .

. Digamos que há uma Helena que é Helena. encaminha para o Egito. porém. na companhia da casa real troiana até o final da guerra. Teoclimeno. as hetairas. possuíam o seu estatuto e lugar definido dentro da organização social da cidade. contudo. não pudesse ser considerada cidadã no sentido estritamente institucional do termo. acentuarmos que dentro destes modelos haverá também distinções. que o desposa e permanece com ele até ser resgatada. vs. que possuem status diferenciados na sociedade ateniense do século V a.NEA/UERJ irmão. Helena é Penélope. espécie de fantasma. Nosso olhar volta-se assim. para a esposa legítima do cidadão ateniense. Enquanto a outra. (EURIPIDES. Porém. aparecem outros modelos femininos muito distintos destes. a que está em Tróia com Páris. a esposa por excelência. 2005: 302)26 Na leitura de Bárbara Cassin. sendo desposada em seguida por seu cunhado Deífobo. Portanto. permanecendo. sendo ainda possível. falamos aqui de mulheres atenienses do século V a. Ainda que as mulheres estivessem em todo o momento sob tutela de um homem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . há uma outra Helena. na casa de um velho rei que já não lhe pode sequer fazer mal. Ali ela espera o tempo passar.C. perfeita esposa de marido partido para a guerra (CASSIN. a mélissa.C. mas é este o motivo que a leva a recusar inicialmente e não outro. e mesmo a mélissa. Helena. Bustamante. obviamente. as pornaí e as escravas. Uma questão apontada por Andrade (2010: 05) é a da apropriação destas Artigo componente do livro Memória e Festa. lutando contra um só pretendente. primeiramente. presente na bibliografia. permanece ao lado do amante em Tróia até a morte deste.1329 a 1309) No entanto. jamais de uma mesma mulher. eidolon. da infidelidade. como as concubinas ou palákinas. e que Hera. 26 55 . para livrá-la de todo esse lado malsão do rapto. da ruptura de contrato. Proteu.. devemos nos lembrar de que na Antiguidade ateniense clássica. É o protótipo da mulher fiel. organizado por Fábio de Souza Lessa e Regina da C.

é. tanto no espaço público quanto no privado. Lidamos ainda com o fato de nosso objeto de estudo ser uma personagem mítica. a terra.50 a 54). vs. para livrá-la desse mal Zeus arquitetou a guerra com a finalidade de obter uma redução demográfica. como dissemos anteriormente. portanto. Segunda a autora. ou seja. possuem sentido./ para livrar a nossa mãe. Menelau lá governa por haver se casado com ela. ao espaço de atuação de uma boa esposa. Não devem ser vistas apenas como uma nova versão de um mito. mas não a vemos destacar-se no campo político. Andréa Lisly Gonçalves (2006: 91) acentua que os estudos sobre mulheres durante longo tempo dedicaram-se à narração biográfica de rainhas. 56 . (EURIPIDES. Helena.. o que nos leva à necessidade de entender a relação estabelecida entre a representação feita por Eurípides no teatro com a forma como essa sociedade lidava com estes personagens. Helena. entre outras notáveis. princesas. mas todo ele é parte de um conflito olímpico e obedece á necessidade de manutenção da ordem e estabilidade da terra./ do fardo de uma multidão inútil. que se destacavam no campo político. Tragédias não são mitos. que ateou a guerra cruenta entre os Gregos e os Frígios infelizes. o ponto focal do conflito. VIDAL-NAQUET. 1999: 04) relacionadas ao contexto específico no qual os tragediógrafos produziram. Helena é uma rainha. são eles: a disputa entre as três deusas pelo prêmio da beleza e o excesso de homens sobre a terra que a cansavam demasiadamente. para a mélissa ateniense adequar-se a esse modelo garantia-lhes prestígio e diferenciação do restante das mulheres. rainha de Esparta. intenção. são ao contrário uma releitura específica de um período da história de Atenas do fim do século VI ao V a.C. estruturas próprias (VERNANT. em uma esfera dominada pelo masculino e às demais mulheres a historiografia concedia papel secundário. No prólogo da peça são enumerados por Helena os motivos para justificar a guerra. ainda que tenha sido o motivo que levou à eclosão da Guerra de Tróia.NEA/UERJ mulheres de um discurso masculino a seu respeito. Helena: A esses males juntaram-se os desígnios/ de Zeus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . sua atuação está limitada.

um duplo seu. foi levado por Páris a Tróia. Helena foi levada ao Egito e esteve aos cuidados de Proteu e um eidolon. A protagonista lamenta sua triste sina e as desgraças que ―seu nome‖ e não seu ―eu verdadeiro‖ causaram a tantos gregos e troianos. ela apenas lida com estes ―talentos‖ conforme as circunstâncias. temos como tema principal o reencontro dos esposos há muito separados. Pois. Cada um deles lhe atribuiu um dom: recebeu assim a beleza. à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino (GRIMAL. Pandora é. Não configurando-se desta forma como ações voluntárias de Helena. por ordem de Zeus. a mentira. Foi criada por Hefesto e Atena. mesmo o que é inato às mulheres não é algo que lhes possamos atribuir como tendo tido desenvolvimento próprio ou voluntário.NEA/UERJ Na tragédia Helena. a destreza manual. e posteriormente retomado por Menelau. o ardil. Pandora é tomada como esposa por Epimeteu. A excepcionalidade do discurso presente nesta obra que apresenta uma personagem que poderia causar certo desconforto ao unir à mulher ideal para esposar o cidadão ateniense a sensualidade. VIDAL-NAQUET. primeira mulher. irmão de Prometeu e aí seguem-se duas versões. a manifestação de características típicas das mulheres. As características típicas do feminino foram dadas pelos deuses olímpicos a Pandora. com o auxílio de todos os outros deuses. integrando-se numa ordem que ultrapassa o homem e a ele escapa‖. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais. onde elas assumem seu verdadeiro sentido. sendo o primeiro resultado de sua filiação e os dois seguintes. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. A primeira diz que 57 . 2000: 353) Ainda segundo o verbete do Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. a capacidade de persuadir e outras qualidades. (VERNANT. a primeira mulher. num mito hesiódico. ignorado do agente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e Zeus destinou-a à punição da raça humana. a graça. 1999: 23). ―O domínio da tragédia situa-se nessa zona fronteiriça aonde os atos humanos vem articular-se com as potências divinas . criada como castigo para o homem que agora dependeria de uma intermediária para continuar reproduzindo os seus iguais.

intitulada Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. uma comia as carnes consagradas. carrega em si a herança daquela que foi enviada como castigo para o homem e espalhou o mal pela Terra. Ainda que este seja o transgressor. segundo o recipiente em que é colocada. o poeta [Semonides] criou um catálogo de defeitos femininos no qual as mulheres não possuíam nenhuma qualidade.C. no século VII a. presença física. de Amorgos. uma acolhia qualquer um em seu leito para os atos de Afrodite.. Desta forma.C.. mudando constantemente de sentimentos.C.NEA/UERJ Pandora teria aberto um recipiente que continha todos os males e estes se espalharam pelo mundo e a segunda afirma que o vaso continha todas as coisas boas. e suas características natas estarão presentes em todas as mulheres. Esta é a Eva da Atenas do século V a. a outra não trabalhava. Eurípides as apresenta em Helenas bastante humanizadas. a ―Helena de Tróia‖ não é de todo distante da ―Helena do Egito‖. pois esta é ainda mulher e. uma roubava.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a outra era dissimulada. 27 58 . Keila Maria de Faria27 discorrendo sobre as ressignificações de Pandora na literatura ateniense. Ao comparar a mulher e os animais. cita a decomposição desta em vários modelos de mulheres elaborada pelo poeta Semonides. De qualquer maneira. assim como a água altera sua forma. por uma atitude imprudente movida pela curiosidade Pandora trouxe a desgraça à Terra. o causador da guerra. a ―real‖. a mélissa. consequentemente. o infiel. a lista de deficiências é imensa. uma falava demais. Depois de levantada a tampa que as continha voltaram para o Olimpo restando aos homens apenas as coisas ruins. a outra era ardilosa e astuta. pois não Dissertação de mestrado apresentada em 2007 ao Programa de PósGraduação em História da UFG. a outra se banhava em excesso. feito de éter. Uma gostava da sujeira. a outra queria ouvir demasiado o que não lhe convinha. em oposição ao seu ―nome‖ que perambula carregado pelo seu eidolon. na qual a única mulher que não recebe críticas é a mulher-abelha.

assim deveria ser a esposa ideal. É descrita como fútil. perpetuando a descendência do oikos e gerando os cidadãos à pólis. 2007: 91-92). mentirosa. Ainda que Eurípides tenha se utilizado de suas protagonistas como porta-vozes do que desejava dizer aos seus contemporâneos. inclusive a rainha Hécuba.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a personagem recebeu um tratamento mais duro. 2006: 119). como acontece nas demais tragédias de Eurípides que fazem referência a este episódio28. mas não é vista como uma igual por estas. há um clima geral de rancor contra Helena. Recatada. a mélissa não deveria reivindicar o prazer sexual. a mulher adúltera que causou a destruição de Ílion. que possuía como função precípua conceber herdeiros legítimos mediante matrimônio. ainda que não o seja em carne e osso. A ―Helena de Tróia‖ é a mulher. enquanto as demais serão enviadas como escravas para terra estrangeira. ―mas. Porém. tornando-a protetora dos navegantes. silenciosa e discreta. sua imortalização quando Apolo. 1638 a 1642). inevitável que este a possuísse. que traiu o marido. a salva de ser assassinada por Orestes. cedeu aos encantos concedidos a este por Afrodite para seduzi-la. e esposa de Menelau que voltará com ele para Esparta. 28 59 . abandonou-o para seguir a Páris.. Helena teria sido apenas a ―Helena de Tróia‖. Helena está junto das cativas. mais fria e monolítica‖ (NÓLIBOS. nem determinada como em Helena. Orestes. portanto. ao contrário é reconhecida como fórum de apresentação e de debate de problemas éticos. o sexo no casamento era exclusivamente para reprodução (FARIA. (EURIPIDES. vaidosa.NEA/UERJ pontuamos todos os defeitos. é acima de tudo. Em As Troianas. Em Orestes. querendo ou não. vemos a sua volta para casa. Não fosse o estratagema de Hera. da manifestação de suas opiniões a respeito de questões referentes á vida da cidade. ―Não é tão arguta como em Troianas. a pedido de Zeus. portanto. sendo. mas Menelau teme por sua vida e tenta protegê-la. uma vez que. é a única ocasião em que temos um fim determinado para a personagem. e por fim. Até porque.. Nesta tragédia. O episódio possui notável destaque e desenvolvimento em As Troianas e Orestes. o reencontro com a filha. tornando-se mais superficial. vs. a tragédia não é dissociada do espaço político. a deusa a havia prometido como recompensa ao príncipe frígio.

motivos que vão desde ser um franco galanteador famoso entre as mulheres até a ser um Entendemos aqui imaginário nos termos definidos por Gilbert Durand em O Imaginário. são de uma movimentação contínua na qual um gera e alimenta os demais e é simultaneamente alimentada por estes. traços característicos das mulheres com as quais ele relacionava-se em sua comunidade ou. está implícito em seu discurso e podemos ler de diversas formas a presença de um referencial feminino baseado numa tradição que ao mesmo tempo define e é construída pelas narrativas míticas. nos permite reconhecer. 2006: 83). prudentes em cumprir suas funções. concede voz. transmissão e recepção e o ―museu‖ de todas as imagens passadas. que não dialogamos sozinhos ou com um interlocutor do futuro. rebeldes. estudiosos ao longo destes mais de dois milênios. mais provavelmente. certamente tem despertado a curiosidade de demais poetas. Afirmamos apenas que não existe escrita neutra. Muito. Não queremos com isso reafirmar o discurso historiográfico que vê Eurípides como misógino nem enquadrá-lo em uma tosca espécie de pré-feminista. (Estenóbeia. determinadas. se discutiu acerca dos motivos específicos da vida pessoal do tragediógrafo para apresentar tantas mulheres protagonistas. espectadores. aquelas que deveriam ser em tudo discretas e silenciosas. produzidas e a serem produzidas em um determinado tempo e espaço. Macária)‖ (FARIA.NEA/UERJ sociais e religiosos‖ (NÓLIBOS. do imaginário29 ateniense do século V a. Medéia) como mulheres abnegadas e devotadas ao sacrifício (Alceste. que não nos dissociamos do nosso tempo por mais vanguardistas que possamos ser. que chegam aos limites dos sentimentos humanos no amor ou no ódio. Fedra. o imaginário. pois Eurípides coloca no palco. Eurípides ao apresentar mulheres fortes. e ―apresenta tanto heroínas depravadas. O fato de assim expor uma grande diversidade de mulheres em um espaço público. ainda que nas entrelinhas.C. a tradição e as representações sociais. nas quais se pode ir e voltar de um para todos os outros lugares. temos então que imaginário é ao mesmo tempo os processos de produção. acerca destas mulheres. ativas. Não podemos traçar uma seqüência linear nem mesmo circular. representadas obviamente por atores masculinos. assim. vingativas. são ao contrário. Ifigênia. 2007: 49). políticas. A relação entre a memória. de modo que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . possíveis. comedidas. O tragediógrafo trás a público. culturais. 29 60 . assim como os cidadãos atenienses deveriam ser racionais e não passionais. vias diversas.

dão sentido à organização do cosmos e do homem dentro deste. consequentemente. o tempo do princípio (2001: 11). a partir daí na memória da sociedade ateniense vinculada a ele e perpetua-se na memória ocidental. 2005. a música. BUSTAMANTE.de S. Mas. Ainda que. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL EURÍPIDES.P: Labeca – MAE/USP. sigamos então com Helena. da C. a novela – entendida no sentido televisivo . Ainda que menos recorrente no teatro do que outras personagens euripidianas. de forma geral. componente de uma narrativa mítica integrante do ciclo troiano Helena. Helena. povoa a literatura.) Memória e Festa. Helena. Não dispomos aqui de espaço suficiente para nos dedicarmos a esta querela. Rio de Janeiro: Mauad. 1986.e é relida e reinterpretada constantemente a partir do modelo inicial ateniense.NEA/UERJ enamorado sem sucesso com o sexo oposto. de caráter fraco. Helena torna-se parte da memória deste e insere-se.M. F. até a atualidade. S. Rio de Janeiro: Agir. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. Segundo Mircea Eliade. por exemplo. 61 . os mitos são relatos de histórias sagradas que ocorreram num tempo primordial. novamente. como Medéia.M. R. compõe um conjunto de narrativas que dizem respeito a um tempo primordial.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. possivelmente traído por uma de suas esposas. 2010. ao ser reinterpretada pelo teatro. como observado anteriormente. como dito anteriormente. Sendo. o cinema. sempre tendenciosa à mentira e à traição. como a personificação do ideal de mulher no sentido da beleza e sensualidade e também na personalidade feminina não confiável. configuram neste sentido. Memória e renome femininos em contextos funerários: a sociedade políade da Atenas Clássica.(Orgs. das origens de tudo o que se conhece e que. M. LESSA. Tradução de José Eduardo do Prado Kelly. estas narrativas não possuíssem a unidade que agora lhes conferimos sob os nomes de mitos e mitologia. uma memória coletiva daqueles que se vêem como herdeiros destes heróis fundadores presentes nestas narrativas.

2009. São Paulo: Perspectiva.NEA/UERJ BUSTAMANTE. 2007.) La Grèce au Féminin.. R. El Pasado es un Pais Exraño. Aspectos da Antiguidade. Sp: Papirus.L. FARIA. Rio de Janeiro: Mauad. Lisboa: Edições 70. 2006. São Paulo: Alameda. J. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. P. Os usos da mitologia grega. 1998.) Estudos Sobre o Teatro Antigo. Z. A.. da C. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand.. MATOS. de M. Madrid: Akal. GONÇALVES. DOWDEN. SAMARA. Coimbra: F. Entre o Sagrado e o Profano. 2006.. Medéia e Mélissa: representações do feminino no imaginário ateniense do século V a. M. São Paulo: Perspectiva. Pierre. (Orgs. 1994. SOIHET. Campinas. LESSA. Rio de Janeiro. M. 2005. A História Cultural. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. Paris: Lês Belles Lettres. DETIENNE. A tragédia grega. Albin. Rio de Janeiro: Zahar. Paulina T. R. Gênero em Debate. Labirintos do Mito. LOWENTHAL. FLOWERS. Neyde (Orgs) Olhares do Corpo. S..). J. São Paulo: Associação Palas Athena. 1998. Nicole (Org. Trajetória e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. R. 1998. FERREIRA. M. 1999. 1990. LORAUX. E. K. NÓLIBOS. DURAND. Porto Alegre: UFRGS. São Paulo: Perspectiva. A. David.S. 62 . José R.). 2003. ELIADE. São Paulo: Martins Fontes. Ken. R. Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher. 2001. ______.M. São Paulo: EDUC. F. História & Gênero. A. ______. Moses. I. FINLEY.C. 1991. J. FERREIRA. Eros e Bía entre Helena e Cassandra: gênero.. Rio de Janeiro: DIFEL. VERNANT. DUARTE. 2003.U.MULHERES NA ANTIGUIDADE . CAMPBELL. VIDAL-NAQUET. A invenção da mitologia. 2010. A Grécia Antiga. sexualidade e matrimonio no imaginário clássico ateniense. CHARTIER. Mito e Realidade. de S. O poder do Mito. THEML. 1997. M. GRIMAL. Betty Sue (Org. (Org. São Paulo: Martins Fontes. G. CARDOSO. 2000.. Belo Horizonte: Autêntica. O Imaginário. Entre práticas e representações. LESKY. 1990.L. 2000. Brasilia: Jose Olympio: UnB.C. 2004. 1992. Goiânia: UFG.P.

Deusa. na antropologia. E meu contrato por piedade aceita. A religião dá sentido e cria um mundo ordenado para os seres humanos. na sociologia. T. o impacto dos estudos de gênero tem sido grande na história. A perspectiva dos Estudos Culturais. decide. sejam individuais ou coletivas e. Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação. ensinando-lhes seus lugares. de puras mãos deixa levar-te (Ovídio. aceito a morte. E desatadas pelos ombros as tranças. WOODWARD. Fasti. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. que és pura. os ordenamentos jurídico. familiar. Petrópolis: Vozes.) Identidade e Diferença. CLAUDIA QUINTA. se inocente sou. As crenças e práticas religiosas têm um papel decisivo na formação das identidades. Sinal é que a mereço. nas artes etc. ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. In: SILVA. 30 63 . 2008:40.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. (org. político etc. Woodward. .NEA/UERJ MAGNA MATER. Se me fores contrária. quanto por meio de formas de exclusão social ‖. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.. K. eu.ª Claudia Beltrão da Rosa30 Com os olhos fitos na divina imagem. formando sua compreensão de Professora Associada do Departamento de História. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Referências da Antiguidade e Medievo – NERO/UNIRIO. ouve meus rogos. que um teu prodígio O comprove e me salve.MULHERES NA ANTIGUIDADE . IV). têm sua base no complexo sistema religioso romano31. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Sou inocente. no caso específico da sociedade romana antiga. e nos estudos sobre a religião romana são também profícuos. 31 Segundo K. delineando suas imagens e seus corpos. Nas últimas décadas.ª Dr.T. CLAUDIA METELLI (CLODIA): A CONSTRUÇÃO DE UM MITO NO PRINCIPADO AUGUSTANO Prof. negam-no.. Ó tu.

Essa marcação de diferença ocorre tanto por meio dos sistemas simbólicos de representação.E. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual.). pois os padrões dinâmicos do gênero estão profundamente arraigados nas diversas religiões. op. ser aceita como norma por mulheres e homens. frequentemente oferecem narrativas de redenção e de salvação (. segundo Ursula King.. WIESNER-HANKS. 33 KING. WOODWARD. de autoridade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . universalmente33. The Blackwell Publishing Ltd. termo que.) Identidade e Diferença. de poder... fundidos e interestruturados nas experiências religiosas. K. (org. 64 . A Companion to Gender History. veiculando normas e valores. 2008:40. reforçaram-nos (. Tampouco são duas realidades independentes que são simplesmente reunidas numa comparação simples.NEA/UERJ mundo.. designando a adequação da experiência masculina nas sociedades europeias e europeizadas ocidentais com a experiência humana geral. T. portanto. 32 KING..).). quanto por meio de formas de exclusão social‖. Religião e gênero não são apenas análogos. Era frequente entre os escritores romanos o uso de mitos nos quais a personagem feminina surgia como símbolo de virtudes ―as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. e incutindo em mulheres e homens seus papeis sociais. (edd. religiões criaram e legitimaram os gêneros.. Este arraigamento significa que o gênero é inicialmente difícil de identificar e separar de outros aspectos da religião (. In: SILVA. A sociedade romana era androcêntrica. Religion and Gender: Embedded patterns. e que deveria. surgiu na sociologia norte-americana do início do século XIX. 2004: 71. M. In: MEDDE.. 73. interwoven frameworks. A perspectiva dos Estudos Culturais. cit. p.) 32. T. Petrópolis: Vozes.A. existindo paralelamente uma ao outro no mesmo nível. U. Ursula King chama a atenção para a importância da religião como fator central na construção e na dinâmica da relação entre os gêneros: As religiões proveem mitos e símbolos de origem e de criação.T.

In: MENDES. SILVA. na sociedade romana. B. TACLA. nos traz problemas suplementares. além desta ser uma área de estudos na qual as crenças e ideologias pessoais costumam interferir com visível facilidade. C. ―impedimento‖ que. que podemos detectar em momentos diversos de sua trajetória no tempo e no espaço.) Experiências Politeístas. Ao buscar uma compreensão menos superficial das estruturas político-religiosas romanas. BELTRÃO. 2008. 2006. temos que tudo o que seria (para nós) religioso tem implicações políticas. que têm de ser formulados e respeitados religiosamente35.M. percebemos que esta visão moderna é. N.MULHERES NA ANTIGUIDADE . criou-se um consenso de que. pela proibição ou pelo temor reverencial. A Religião na urbs. se expressa como ―escrúpulo‖. a própria crença de que os romanos não tiveram mitos além dos ―importados‖ da Grécia. Transformar dados da realidade vivida em mito é um traço fundamental da sociedade romana. um tipo de contrato firmado entre seres humanos e seres divinos. grosso modo. tem sua tradução e expressão no plano religioso34. e o mito é um objeto de pesquisa muito complexo. G. Ano I. 34 65 . quando lidamos com um mito. In: LIMA. A cf.NEA/UERJ ou vícios passados. C.) Repensando o Império Romano. 1. redutora..V. ainda comum entre os próprios antiquistas. após o fim da monarquia. BELTRÃO. Cadernos do CEIA. C. De fato. numa visão hipercrítica moderna. Considerações em torno de religio em suas manifestações literárias. uma separação entre o que seria o religioso e o que seria o político. os romanos teriam desconhecido ou repudiado o mito. Os atos rituais romanos são. A. que nos parece ser fruto da crença comum de que o mito é a antítese da história. no mínimo. e tudo o que seria (para nós) político.(orgs. podemos dizer que o vocábulo indica o sentido de ―constrangimento‖. (org. 35 Um aspecto importante da religião romana está contido no significado do próprio termo religio. Considerando que não houve. Rio de Janeiro: Mauad X. Analisar mitos é uma ação cujo interesse variou (e varia) ao longo dos tempos. Niterói: Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA/UFF). E outro traço característico do sistema religioso romano é a presença de elementos que podemos denominar mágicos. Em linhas gerais. Particularmente no caso dos mitos romanos. se não equivocada. C. no. a despeito da (moderna) distinção rígida entre religião e magia. Há muito que avaliar.cf.. A.

termos inseparáveis no estudo da Roma antiga. identificada com a ―honra‖ e a própria ―identidade‖ masculina. que não conseguia exercer o devido controle sobre ―suas‖ mulheres36. portanto. sociedade e instituições são. assim como nenhum gênero. ver. vistos como falhas do grupo familiar. Os exemplos de mulheres que agiam de modo independente ao androcentrismo reinante. somos herdeiros sob muitos aspectos. ou mesmo da sociedade como um todo. narrativas que podemos considerar político-religiosas. permitindo lançar luz sobre a construção da identidade social romana da qual. Os mitos femininos romanos são. E. Nenhuma religião. Lívio ( AUC XXXIV. Religião. veiculando e instituindo recorrentemente. criado por T. e não nas relações entre gêneros – o que também é compreensível. posto que a subcategoria mais problemática dos estudos de gênero é ―o feminino‖ – acreditamos que uma abordagem da religião romana que inclua elementos dos estudos de gênero pode ser produtiva para a compreensão de fenômenos e instituições sociais da antiguidade romana. por exemplo. na essência.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e que foram muito bem-sucedidas em termos de poder e de longevidade. apesar de não haver consenso na definição da categoria analítica do gênero – ou justamente por isso –. Isso nos leva a crer que há estruturas profundas na vida religiosa romana que precisam ser ―escavadas‖. queiramos ou não. como os papeis sociais de gênero. nas mentes das gerações que os ouviam. ou agiam ―impropriamente‖ (para usar um termo comum entre escritores romanos). e reconhecendo que o foco de análise da maior parte dos estudos de gênero está centrado na história das mulheres. 1-8). o discurso de Catão sobre o movimento das mulheres da elite política romana contra a Lei Ópia. a castidade feminina funcionava como fundamento da honra e da identidade masculinas. é uma categoria de análise estável e a-histórica. em suma. eram modelos de vícios fundamentais. 36 66 . censurando senadores por permitirem que suas mulheres ―agissem livremente‖.NEA/UERJ religião romana é um sistema complexo de crenças e ações que garante simultaneamente a legitimidade das ações humanas. estruturas que são a base de instituições formadoras da sociedade romana. o ideal romano da castidade feminina. a legitimidade do poder e o locus da comunidade humana estabelecida na urbs.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . que Claudia Quinta pudesse admoestá-la a imitar a glória feminina do elogio doméstico (. assumido e desenvolvido pela restauratio augustana: Claudia Quinta. reprovando a irmã do tribuno.C. em um assalto em Puteoli e a uma propriedade de Palla e insinuava o envolvimento de Célio no assassinado de Díon. Clodia era a principal testemunha de acusação. à época casada com Cecílio Metelo. o filósofo. já que nossas imagines viris não a comovem. A defesa de Cícero foi montada e conduzida de modo a desacreditar a principal acusadora. em um ataque dos bandos de Célio a Nápolis. Um mito trazido à cena pela invectiva ciceroniana. o caso das Bacchanalia. pontuado por elementos teatrais. em 186 a. numa clara referência à poetisa Safo de Lesbos. A acusação radicava. nem progenitores como eu. assumindo o papel de Ápio Claudio. Clodia Metelli. Clodia Pulchra. a principal testemunha de acusação. Cícero. Cael.. embaixador alexandrino que pretendia o apoio romano contra Ptolomeu Aulete no Egito. o Censor. Clodio Pulcher. ou Claudia Metelli38.)? (Cícero. também relato por Lívio. sendo considerada 67 . posto que as reuniões que planejaram o ataque a Díon foram feitas em sua casa no Palatino. A acusação também citou a alegação de Clodia de que Célio lhe teria roubado jóias a fim de subornar escravos para permitir o acesso ao embaixador e que tentara envenená-la para garantir o seu silêncio. ancestral de Clodio.34). Num ponto dramático do discurso Pro Caelio37. investindo contra P. um modelo para a matrona. 14. Clodia e Claudia Quinta Seria possível. cuja ―voz‖ invoca a figura de Claudia Quinta. ―Lésbia‖ foi o pseudônimo usado por Catulo para falar de Clodia. Licinio Crasso e Cícero foram seus advogados de defesa. M.NEA/UERJ Acompanharemos alguns momentos da construção de um desses mitos femininos no contexto das instituições político-religiosas romanas. Do mesmo modo. 37 M.. Clodia escrevia poesias em grego. nos permite entrever muitos aspectos da visão romana sobre as mulheres. Célio Rufo era então acusado pela quaestio de ui (sedição). Marco Túlio Cícero apresenta uma prosopopeia. e o fez apoiando-se num célebre discurso misógino. concretamente. 38 Claudia Pulchra Tertia Metelli é também a imortal ―Lésbia‖ dos Carmina de Catulo (Gaius Valerius Catullus)..

NEA/UERJ por desonrar. dedicados somente ao prazer. M. Disponível em: http://www. 2007. 40 cf. Disponível em: http://dictynna. the Megalenses and the Defense of Caelius. Atacando a Clodia. é Claudia Quinta. C. Clodia foi casada com seu primo.pdf. 39 cf.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. De haruspicum responsis: religião e política em Cícero. que elogia os poemas da ―Clodia dos belos olhos‖. novamente evocando Claudia Quinta como contraponto irônico a Clodia: boa escritora por Catulo e por Cícero. AJP 103 (1982): 299-304.htm 68 . com seu comportamento ―imoral‖. W. como Cícero e Catão o Jovem. Colóquios . a partir de então. II Colóquio Nacional de História e Historiografia no Vale do Iguaçu. matrona que se tornará.revistamirabilia.Revista do Colegiado de História da Faculdade Estadual de Filosofia. sua família sempre fora uma caução da ordem moral tradicional de Roma. eram filhos de Ápio Claudio e Cecília Metela. Um mês depois do Pro Caelio. sua antepassada. à bebida.univlille3. 1: 56-62. Dictynna 4. Cícero. C. o nome da gens Claudia. um mito político-religioso em Roma. que se estendia para além do retorno de Cícero do exílio. à prodigalidade e aos escândalos sexuais. Nenhum dos seus poemas chegou aos nossos dias. LEACH. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. Clodia qua meretrix: o Pro Caelio de Cícero. E. R. Os irmãos Clodios.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O círculo de políticos e artistas que se reunia em torno de sua família era caracterizado pelos conservadores. União da Vitória: FAFIUV. Sua família era ilustre e seus ancestrais foram cônsules em todas as gerações. 2007. como nobres degenerados. cunhado de Pompeu e antecessor de Júlio César no comando da Gália. Q. membros da mais alta nobreza romana.revue. BELTRÃO.com/Numeros/Num3/artigos/art2. BELTRÃO. Ciências e Letras (FAFIUV). Cícero profere o discurso De Haruspicum responsis40. Cícero investia contra seu principal desafeto da época. aquele que considerava responsável por seu exílio e consequente afastamento da arena política romana39. e viveu na linha de frente de uma geração que cresceu nos anos turbulentos das guerras civis da República romana tardia. SALZMAN. v. O contexto é a querela política de Cícero com os Clodios. Cecílio Metelo Celer. Mirabilia 3 (2003). A personagem que serve de contraponto virtuoso para a ―viciosa‖ Medeia do Palatino. um dos vários apelidos pejorativos que Cícero dá a Clodia.

27). ele foi acolhido pelo homem mais bem considerado pelo povo romano. que nossos ancestrais (maiores) fizeram vir este culto da Frigia e o estabeleceram em Roma. nem seus ancestrais associados a esses ritos sagrados. riacho perto de Roma. um dos quinze sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. XIII. Cipião. assombrosamente imitada por tua irmã [Clodia]. novamente uma referência aos Ludi Megalenses. incluindo mimos (os ludi Megalenses). com base em ataques de seus bandos armados (as famosas operae de Clodio) em Roma durante um festival das Megalensia. nada disso te impediu de profanar os Jogos mais puros por todo tipo de infâmia. nem teu próprio sacerdócio. Os edis eram responsáveis. P. No De haruspicum responsis. Cibele. resp. havendo edis de origem plebeia e edis de origem patrícia (edis curuis). Jogos realizados durante o festival das Megalensia. 41 69 . nem a edilidade curul42. que tem como primeiro dever mantê-los. Outro rito era a lauatio. maculá-los pela desonestidade e marcá-los pelo crime (Har. O discurso Pro Caelio foi pronunciado em 4 de abril de 56 a. aceita em No mesmo discurso. 43 As Megalensia (Megale = Magna) ocorriam entre 4 e 10 de abril.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na passagem. censura a Clodio por não ter.. pela supervisão dos Jogos. A data do discurso é significativa. era uma divindade ―estrangeira‖ matriarcal. no início dos Ludi Megalenses. sobre o qual repousa. A Mater Deum Magna Idaea (―Grande Mãe dos Deuses do Monte Ida‖). e pela mulher reputada como a mais casta das matronas. e Cícero. que soube otimizar a presença de uma matrona dos Claudios na recepção da deusa em Roma. pelo conselho desta profetisa [a Sibila] 41. quando edil curul.NEA/UERJ Foi então. o banho ritual da deusa no Almo. Cícero chama de ―sacerdote da Sibila‖ ao XV uir sacris faciundis. 42 A edilidade era o primeiro grau do cursus honorum das magistraturas superiores romanas. pensamos. num tempo em que a Itália sofria a Guerra Púnica e era devastada por Aníbal. cuja antiga austeridade era.C. merecendo a menção de Cícero no discurso. Cibele43. em honra da Magna Mater. Claudia. Q. dentre outras. cumprido com os deveres de seu ofício. Desse modo.

8. The Classical Journal 96. LEEN. contrastado com o suposto comportamento vicioso de Clodia. E o público ouvinte de Cícero provavelmente não teria dificuldades de relacionar as duas representantes da gens Claudia. Cibele sempre foi vista com reserva pelos conservadores romanos. sacerdotes responsáveis pelos Livros Sibilinos. um modelo de emulação para mulheres romanas. Cícero utiliza. A.MULHERES NA ANTIGUIDADE . fortíssimo. e Valério Máximo a cita como milagrosa (Memorabilia. No seio do embate contra os Clodios. e era reputada prodigiosa por ter escapado ao fogo que destruiu o edifício. não conseguiriam frear o avanço do cartaginês e que era necessário apelar a Cibele. 44 70 . em dois discursos que se revelam preciosos para o estudo dos papeis de gênero na Roma tardorepublicana.2 (2000-01): 141-162. provavelmente. conhecia a estátua de Claudia Quinta no vestíbulo do templo da deusa no Palatino45. Cícero apresenta Claudia Quinta como uma matrona ―virtuosa‖. O argumento de Cícero era. ocorrido em 111 a. Um novo incêndio no templo. que tinham dificuldade de lidar com um sistema religioso encabeçado por uma divindade feminina autônoma44. que não chegou até nós. um modelo de castidade. quando os quindecimuiri sacris faciundis.NEA/UERJ Roma à época da crise instaurada pela invasão de Aníbal.11).. declararam que as divindades romanas. Em geral. 46 cf. para que os romanos pudessem lidar com a astúcia (métis) de Aníbal. consultados pelo Senado. 45 Esta estátua. desta feita em 3 a. radicando na tradição religiosa e moral familiar romana46.C. as divindades femininas latinas são paredras subordinadas às masculinas. Claudia Oppugnatrix: the Domus Motif in Cicero‘s Pro Caelio. também deixou a estátua ilesa. portanto. então. Claudia Quinta é.C. uma figura feminina para desmoralizar outra da mesma família. para Cícero. 1. bem como. sem fornecer nenhuma indicação de que teria ocorrido qualquer tipo de prodígio ou milagre durante a recepção da Magna Mater. com seu apelo tradicional à fides. escapara a um incêndio no templo.

como a tradição registra.C.C. Aproveitando as dificuldades de Cartago. centros agrícolas na Campânia. senhora da Itália.MULHERES NA ANTIGUIDADE . da Sardenha e da Córsega (237 a. trouxeram importantes conseqüências para as instituições romanas. Lívio. A unidade da península itálica sob sua hegemonia era um grande desafio. agora. e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. 14. pois significava o surgimento de uma possível ameaça em sua zona de domínio comercial. levando Cartago a aceitar um tratado de paz. 47 71 . As cidades do Mediterrâneo ocidental reconheciam a supremacia cartaginesa. E a II Guerra Cartago. Roma tornara-se também uma potência marítima e territorial: com a conquista da Sicília (241 a. agora. 9).). era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres (T. cidade fundada pelos fenícios no século IX a. Os vencidos desocuparam a Sicília e aceitaram pagar em dez anos uma pesada indenização. ilha situada entre Roma e Cartago. com Cartago47. Roma. Nosso contexto.C. mas a rapidez da expansão romana funcionou como um alerta para Cartago. Roma era. é o final da II Guerra Púnica e o expansionismo romano no Mediterrâneo. e englobava populações e realidades bastante diversas: poleis helênicas meridionais. Roma ocupou também a Sardenha. Os enfrentamentos entre as duas poderosas cidades tiveram início na Sicília. era uma superpotência do Mediterrâneo antigo.). Ao longo da I Guerra Púnica (264-241 a. Foi o início da expansão territorial romana fora da Península Itálica. Observemos com mais detalhes um elemento deste argumento: a relação entre Claudia Quinta e a Magna Mater. e conseguiu destruir uma grande frota púnica nas ilhas Egates. C). no norte da África. As guerras e os pactos de aliança que pontuaram o século III a. Após vencer a I Guerra Púnica.C. precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear os estabelecimentos cartagineses na Sicília. que jamais enfrentara um combate naval. XXIX.NEA/UERJ Magna Mater e Claudia Quinta Sua reputação que. além de comunidades pastoris nos Apeninos. cidades etruscas. agravado pelo contato. agora direto. pôde organizar estas ilhas como as primeiras províncias romanas e expandir-se pelo mar Mediterrâneo.

ficaram apavorados. Seguiu-se uma guerra de devastação de ambas as partes. de um festival. invadindo a Itália pelo noroeste. por mais importante que fosse o grupo humano que as invocava49. e conseguiu a adesão de muitos dos aliados dos romanos..C. o general Aníbal retomou a guerra contra Roma a partir da Península Ibérica. Públio Cornélio Cipião foi enviado para invadir a África. p. foi um marco.C. verdadeiros tanques de guerra. Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. Os Livros Sibilinos e o Oráculo de Delfos teriam.. que nunca tinham visto um elefante. Ressaltamos aqui o fato de que as divindades romanas. chegando a atravessar os Alpes. ou convidada a vir em socorro ou a ser testemunha dos Em 218 a.NEA/UERJ Púnica. trouxe grandes dificuldades para Roma48. perto de Cartago. 41. Os itálicos. com seus arsenais e minas de prata. causando graves problemas sociais na Itália. na qual Roma chegou a recrutar 25 legiões. 49 Segundo Durkheim.C. ―a religião é algo eminentemente social.C. op cit. os cartagineses aceitaram a paz em 201 a. A derrota romana em Cannae (216 a. Vários aliados de Roma passaram para o lado de Aníbal. manter ou recriar certos estados mentais nesses grupos‖. seguiu-se uma guerra de desgaste. e sofreram uma grave derrota no lago Trasímene. então. recomendado o culto de Cibele aos romanos. a fim de que pudessem vencer Aníbal e os cartagineses. respeitavam algumas leis físicas relativas ao tempo e ao espaço. que incluía seus temíveis elefantes. e os cavalos aterrorizados quando viram a chegada do exército cartaginês. como na maior parte dos povos mediterrânicos antigos e ao contrário do deus judaico-cristão. Finalmente. enfraquecendo o poder da urbs.).C. Derrotados em Zama.C. e Aníbal foi chamado de volta para defender a cidade. Sua presença numa cidade ou num ritual não podia ser considerada certa de antemão. Durkheim apud WOODWARD. A divindade tinha de ser convidada a participar de um ritual. se dirigiu para a Itália meridional. os ritos são uma maneira de agir que ocorre quando os grupos se reúnem. Aníbal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . abandonando a península itálica. que se instalou em Cápua.. recuperou Tarento e Cartagena. 48 72 .. sendo destinados a estimular. Só em 211 a. Em 209 a. A travessia de Aníbal com seu exército se tornou um mito. a guerra de Aníbal (218-201). A partir de 215 a. Os romanos foram obrigados a defender o Vale do Pó.. segundo a tradição. As representações religiosas são representações coletivas que expressam realidades coletivas.

P. A Magna Mater foi parte deste simbolismo. e isso implicava um esforço por parte dos seres humanos para atrair seu interesse50. a Magna Mater chegou a Óstia em 204. C. culminando na instalação da imagem da deusa no Templo da Vitória. poderia agora favorecer a expedição que prometia encerrar a guerra contra Cartago.1).M.. op. no Palatino. Cibele permaneceu no Templo da Vitória até que seu próprio templo fosse dedicado. Gruen ressalta o significado simbólico da cerimônia: . A deusa teria vindo acompanhada por seus sacerdotes. ao declararem que Apolo e Ártemis nasceram em sua cidade. líder das matronas romanas. Ann. N.C. Pela documentação percebemos que. G.) Repensando o Império Romano. Segundo Erick Gruen51. No mesmo momento. SILVA.NEA/UERJ pleiteantes. a nova deusa sem asas (Niké Ápteros) não poderia mais deixar o território da polis. Studies in Greek Culture and Roman Policy.(orgs. E. numa grande cerimônia cuidadosamente orquestrada pelo Senado romano... A Religião na urbs.V. O favor divino. Por sua vez. 52 GRUEN. em 191 a. sendo recebida por P. p. simbolizada por sua recepção conjunta por Cipião Nasica e Claudia Quinta 52. 2006:146. 50 73 . Rio de Janeiro: Mauad X. Cipião (futuro Africano) viaja para a África com suas legiões. 3.61. quando chegou a Roma. Cipião Nasica e por Claudia Quinta. sua recepção em Roma coincidindo com a afirmação da solidariedade romana. Cibele passou à lista das maiores divindades a partir desta data53. 1990. Tácito. a instalação de Cibele no templo da Vitória ocorreu próximo à partida de Cipião Africano para Cartago. automaticamente negavam o nascimento dos deuses gêmeos em Delos (cf. e seus rituais foram gradativamente incorporados ao calendário dos festivais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . S. os galli. 53 BELTRÃO. sua imagem e seu culto foram Quando os atenienses cortaram as asas da deusa Niké. cit. Cincinnati Classical Studies 7: Leiden. Apesar de seu caráter radicalmente ―estrangeiro‖.. 51 GRUEN. os efésios. endossado tanto pelos Livros Sibilinos quanto por Delfos. 27. In: MENDES.

derivado de interpres. 56 As pesquisas arqueológicas jamais conseguiram identificar uma cidade com este nome. e a expressão interpretatio romana surge na Germania de Tácito (Germ.g. a introdução do culto era uma inovação dramática. contudo. 1988.247-72 Sobre a conexão mítica com Ida. além de ter sido domesticada como Magna Mater. COLONNA. celebrado anualmente num santuário arcaico no monte Albano. uma montanha próxima de Tróia55. Ant. J. Rom. Patria diversis gentibus una? Unità politica e identità etniche nell‘Italia antica. 20 -22 settembre 2007/a cura di Gianpaolo Urso.I. fundaria Alba Longa.NEA/UERJ cuidadosamente controlados. as aldeias dos Montes Albanos. Ovídio. Fasti 4. Hal. dentre outros elementos que dificilmente seriam compatíveis com a notória ―falocracia‖ romana54. é um vocábulo que tem sua origem na língua do direito (ERNOUTMEILLET. In: Itália Omnium Terrarum Alumna. – Pisa: Edizioni ETS. 2. ou neto. Milano: Scwegwiler. tb. esta interpretatio57 garantiu-lhe um estreito contato com as mais profundas raízes da identidade romana. dado que alguns rituais e práticas exóticas do culto de Cibele não eram aceitáveis para os romanos. Italia y Roma desde una perspectiva legendária. se o culto era novo e. sua autodenominação. A própria cerimônia de recepção trazia a deusa. de certo modo. Dion. e dali ele iniciou seu périplo que o levaria ao Lácio. ―Cybele. 2008: 9-26. Virgil and Augustus‖. mas o título que recebeu em Roma e a localização do novo templo fizeram com que ela não parecesse uma deusa nova e estrangeira. reunindo os povos latinos. Cividale del Friuli. inaceitável para a tradição romana. existentes desde o período do Bronze.v. 57 Interpretatio. ―Studies in Greek Culture and Roman Policy‖. que ganhou um sentido disfórico na modernidade. Ver. E.19. e cuja comunidade era expressa por ritos comuns. cf.S. Então. a começar pela autocastração de seus sacerdotes. Mas o termo 54 55 74 .3). G. 43. podem explicar a cidade mítica. T. Este termo enfatiza a integração. MARTINEZ-PINNA.P. mas simplesmente a ―Mãe do Monte Ida‖. Desse modo. O Monte Ida teria sido o local para onde se dirigiu Enéas após a destruição de Tróia.247-72 de Ovídio. a mítica predecessora de Roma56. como o festival do Latiar. Poetry and Politics in the Age of Augustus e Gruen. I Latini e gli altri popoli del Lazio. ao centro da religião romana pelas mãos de um futuro paterfamilias e uma matrona de gentes ilustrissimas. simultaneamente. e. ver os Fasti 4. cujo sentido nos negócios é o mais antigo atestado. interpres).MULHERES NA ANTIGUIDADE . s. suas vestes e penteados femininos. onde seu filho. cf. Wiseman. a extensa Alba. e é certamente preferível a sincretismo.

Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa de muralhas. uma colina ligada à mais antiga tradição romana. um símbolo de antiguidade e perpetuidade da urbs. e sua interpretatio. por fim. pois destaca tão-somente o papel de Roma no processo. 58 Gruen. Gruen chama. ao mesmo tempo. cit. op. provia uma justificativa para a expansão romana no Mediterrâneo oriental.. porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. 75 . como sustenta Gruen.) juntaram-lhe as feras porque toda a descendência. a atenção para o fato de que os Cipiões e os Claudios. então.MULHERES NA ANTIGUIDADE . p. por mais brava que seja. recebendo a deusa que lhe garantiria a vitória contra Cartago. especialmente em tempos de Teoria Pós-Colonial. Ressalte-se sua instalação no Palatino. chocavam-se politicamente com frequência. A introdução do culto da Magna Mater permite entrever o modo como se processava a introdução de uma nova divindade e/ou culto em Roma. a escolha senatorial de um jovem membro dos Cipiões. e de uma matrona destacada dos Claudios simbolizava a união das lideranças políticas em prol da salvação da urbs58. como a introdução do culto da Magna Mater e a associação entre Cibele com o Monte Ida pode. simbolizando o pertencimento de Roma à cultura helenística... nos apresenta uma imagem da deusa e de seu ritual: A ela (Grande mãe dos deuses) cantavam os doutos poetas gregos (. A urbs estava unida por seus mais destacados membros. à época da II Guerra Púnica. E é ainda com essas também tem seus limites. e a vinculação do culto da deusa com a ―herança troiana‖.NEA/UERJ A deusa proveria a caução externa para a investida romana contra Cartago e. nos ajudar a responder a questões como: até que ponto as novas divindades mantinham suas características originais após a interpretatio? Qual é o tipo de equilíbrio nesta ―mistura‖? Até que ponto a interpretatio teria obliterado as características das divindades apropriadas por Roma? Lucrécio. em seu poema político-filosófico De rerum natura. e o estudo de inovações religiosas. 26. se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais.

no meio de um respeitoso temor. 643-44)..) Tocam tambores tensos. beneficia os mortais com sua calada proteção. e.. porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade. e dão-lhe por guarda bandos frígios porque. tudo isso. (. Lucrecio nos apresenta a deusa ―interpretada‖ das Megalensia. as tubas cantam roucas suas ameaças. II. que lhe faz dizer ―. pulam em cadência. os fieis. para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos ímpios do vulgo com o temor da poderosa deusa. revela-nos que Cibele..) Logo que. silenciosa...) vão lutando entre si. ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha que defendamos com armas o valor da pátria.. o santuário do Palatino A supervisão deste colégio sacerdotal. as mãos fazem soar. à volta. juncam com bronze e prata as ruas que percorre e uma chuva de rosas sobre a mãe e os bandos que a acompanham. anda muito longe da verdade‖ (RN. a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais de violento fervor. 600-642). Apesar de seu ceticismo epicurista. apesar da interpretatio... chamaram-lhe Mãe do Ida. alegres como sangue (. Juntaram-lhe eunucos. foi desta região que se espalharam pelo orbe as produções da seara. RN. homens armados acompanham a grande mãe. e sejamos a guarda da honra de nossos pais (Lucrécio. responsável pelos Livros Sibilinos e pelos cultos estrangeiros. Vários povos.NEA/UERJ insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras.. segundo os antigos costumes sagrados. cuja supervisão estava sob a responsabilidade dos quindecemuiri sacri faciundis59. (. com generosa oferta.). Grupos armados (. Por isso. sempre foi 59 76 . II.. No festival da Magna Mater. segundo dizem. levada através da cidade. no entanto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . côncavos címbalos. apesar de tão belo e tão bem imaginado.

77 . e o cerimonial que acompanhou a chegada da nova deusa a Roma: Foi uma decisão de importância incomum que ocupou o Senado: quem era o melhor homem do Estado. op. em TURCAN. 14. cujo culto tinha de ser mantido sob rigorosa inspeção e controle. entregá-la às matronas para ser levada.MULHERES NA ANTIGUIDADE .vol. o de Claudia Quinta. NORTH & PRICE.) A Públio Cornélio [Cipião Nasica] foi ordenado que fosse a Óstia com todas as matronas para receber a deusa.g. enquanto a cidade se preparava para conhecê-la. 1996: 28-74. vol. 15) e em BEARD. 96 ss. era inicialmente duvidosa fez sua castidade mais famosa pela escrupulosa realização de seus deveres. como a tradição registra. 1. As matronas passaram-na [a imagem da deusa] de mão em mão.. e. Dentre elas. op. 61 ver mais detalhes sobre Cibele e as Megalensia. e em BEARD. e houve um lectisternium. Ele deveria retirá-la do barco pessoalmente e.. e Jogos. The Great Mother and her Eunuchs. após ser retirada com segurança. um nome se sobressaía. VI. no Palatino.cit. Sua reputação que. NORTH & PRICE. Tito Lívio descreve o transporte de sua imagem (uma pedra negra) de Pessinus.L. cit. Lívio... Oxford: The Blackwell Publishing Ltda. (. (. Multidões levaram presentes para as deusas do Palatino.. The cults of the Roman Empire. 96 ss. no dia que antecede os Idos de abril.NEA/UERJ era aberto entre 4 e 10 de abril. R.. (.). considerada uma deusa estrangeira. até Roma. na Frigia62. 62 Segundo Varrão.) Eles instalaram a deusa no Templo da Vitória. 60 Muitas peças de Terêncio que chegaram até nós foram encenadas pela primeira vez durante as Megalensia. XXIX.1. e os edis ofereciam ao povo encenações teatrais60 e corridas no Circus Maximus. In: ______. p.. Este era um dia de festival. que foram chamados Megalensia (T. a Magna Mater teria vindo de Pérgamo (L.5-14). para onde a estátua de Cibele era levada61. p. de uma a outra sem falhas..

são elementos significativos para nós. sem lhe indicar nenhuma ação especial no evento. 78 . antes de Lívio. exigia. E o papel desempenhado por Claudia Quinta. quando o barco que levava a pedra negra encalhou num banco de areia. (Ovídio. e seu culto demandava controle. com base na tradição. o expurgo de suas características ameaçadoras ao status quo. IV. nada comenta sobre esta suposta reputação. E acrescenta um dado a mais: uma inicial reputação duvidosa. talvez por desconhecer – o que nos parece improvável – tal reputação. 247-348) Claudia Quinta tornou-se uma mulher de reputação imoral que é ―redimida‖ ao salvar a deusa. a matrona com prévia reputação duvidosa. A construção do mito: a matrona casta na restauratio augustana De torpeza era ré na voz da fama. e a preparação da cidade para receber a deusa. Em Ovídio (Fasti.NEA/UERJ A presença do ―melhor homem do Estado‖. Em versões posteriores. A figura de Cibele. no desenvolvimento do mito. como a identificar elementos constituintes dos papeis e das relações de gênero na Roma antiga. IV. de ―todas as matronas‖. entre as matronas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pode não apenas nos ajudar a compreender como foi realizada a interpretatio de Cibele. ou ainda por esta reputação não existir à época do Pro Caelio e do De Haruspicum responsis. mas a apresenta como apenas uma dentre todas. Esta versão de T. por seus escrúpulos religiosos. mas sua domesticação foi operada pelos seres humanos. Assim. com seus ritos estrangeiros incompatíveis com a tradição romana. senado. cavaleiros. Sua inclusão no pomerium tinha sido recomendada divinamente. tudo Conflui alvoroçado à tusca praia. talvez por não querer diminuir a força de seu argumento. Cícero. Fasti. para ser aceita. O poeta narra a chegada de Cibele a Óstia: Plebe. 253-56) Voltemos à figura de Claudia Quinta. ―redimida‖ pela escrupulosa realização de seus deveres. sua história se desenvolveu de um modo cada vez mais patético. vemos um ponto acrescentado à história de Claudia Quinta. Lívio destaca a presença de Claudia Quinta.

Pela corrente o barco peregrino Recusa remontar. E desatadas pelos ombros as tranças. Matronas. virgens. rompe da turba. Claudia. . Delirante todos a crêem. Forte com a aprovação da consciência Dos rumores plebeus zombava e ria. Sobre a cabeça a verte por três vezes. Que prol. Dos penteados seus. Tão bela quanto ilustre. pura na vida. Chega ao Tibre. todos no empenho Põem mais que humano esforço. ó Vesta. De torpeza era ré na voz da fama. 79 . suam. que entre as matronas virtuosas Lá se achava também. Por três vezes as mãos aos céus levanta. enche d‘água as palmas côncavas. e as que. do antigo Clauso prole. Lá vão correndo em confusão festiva. Secura estranha Tisnava já há muito os chãos ervosos. Mas em vão longo cabo atado à proa Valentes braços puxam. Sem ousar a surdir. já o pavor domina o povo! Claudia Quinta. Contudo. a crer no mal propendem todos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ajoelha. se firme a nau dá mostras de ilha Que tem sáxea raiz no mar profundo! Pasmo. De hora a hora o descrédito medrava. ouve meus rogos. cansam. noivas. Com os olhos fitos na divina imagem.Mãe dos Deuses – clama – onipotente Criadora Cibele. Virgens velam no altar teu santo lume. era uma dessas Que a pudica inocência em vão defende Contra calúnia atroz. alta celeuma Dobra vigor aos obstinados pulsos.NEA/UERJ A saudar desde a barra a imortal hóspede. e a lingua ferina Entre os graves anciãos a condenavam.

. torna-se a lenda de uma matrona casta difamada. Na poesia de Ovídio. asperge sua cabeça com a água do Tibre por três vezes. eu. os rituais incluíam fórmulas imperativas. e os versos de Ovídio podem ser vistos como a dramatização de um ritual63. que um teu prodígio O comprove e me salve. Claudia Quinta. lhe permitisse mover o barco com suas mãos nuas. Sobe uníssono aos céus clamor fervente. se fosse casta. Scheid. e o discurso verbal é inseparável da ação. Claudia Quinta se separa da multidão. se inocente sou. Pela acclamatio de Claudia Quinta. Entre a multidão que assistia à chegada da deusa. Segundo J. o ritual é performativo. que és pura. por exemplo. Seus atos eram. Quando o barco encalha. pobre humana De uma sentença tua apelaria? Mas. aceito a morte. Fasti IV. complementados com fórmulas verbais e.) (Ovídio. A deusa atende ao pedido e Claudia Quinta. decide. de puras mãos deixa levar-te – Diz. muitos levantavam calúnias. 247-348) Ovídio insere muitos elementos em sua versão da chegada de Cibele: o barco que trazia a deusa para Roma. havia uma jovem de origem nobre.NEA/UERJ E meu contrato por piedade aceita. portanto. então.MULHERES NA ANTIGUIDADE . solta-o e o conduz ao porto. os oficiantes liam os textos. Se me fores contrária. Sou inocente. Ó tu. a glorifica.(. puxando o cabo do barco. encalha num banco de areia. puxa manso a corda O que refiro é. ou estes eram lidos por um assistente – uerba praeire – para que não 63 80 . O ―milagre‖ de Claudia Quinta se desenvolveu no período augustano. Deusa. que ainda hoje espanta em cena. de quem. a deusa testemunha sua virtude. negam-no. muitas vezes. Sinal é que a mereço. Ante o povo a protege. Bóia a nau! Fende o rio! A deusa avança! E seguindo a formosa condutora. seguindo a linguagem oficial dos magistrados romanos. invocando a Magna Mater. Geralmente. pedindo que. e ergue seus braços.. por ser muito bela e expor suas opiniões livremente.

contribuindo para aumentar seu impacto emocional na audiência. de figuras como a hipérbole e outras. na presença de uma audiência. An introduction to Roman Religion. bem como outras derivações (exclamo. 81 . Tais sinais visuais eram complementados por sinais auditivos como hinos. repetida. Outros elementos importantes dos rituais. 2003:98. coroas e guirlandas. mas também a aprovação verbal desta audiência. derivado de clamo/clamare. desta feita extraverbais. preces. 64 O termo acclamatio. propiciavam o favor da divindade. eram as roupas brilhantes. vinho e carnes queimando no altar. esperando ou solicitando não apenas a aprovação da divindade. s. não se podia voltar atrás. confirmavam a crença de seus fiéis. A mesma aclamação podia ser. mesas enfeitadas etc. nas ocasiões de comunicação institucional entre seres humanos e seres divinos. ao pronunciarem os nomes das divindades que invocavam. As acclamationes visavam. por exemplo. proclamo. O estudo da acclamatio torna-se difícil devido ao fato de que acclamationes são pouco mencionadas em leis ou decretos concernentes a houvesse erros. por vezes. performances musicais. ou seja. reclamo etc. Esses cuidados eram especialmente relevantes nas acclamationes: SCHEID. contribuíam para criar o elemento emocional durante uma cerimônia ou ritual. e desempenhavam várias funções: davam testemunho público do poder de uma divindade.v. com o sentido de ―criar versos‖. ―pedir em voz alta em favor ou contra alguém‖ (ERNOUT MEILLET. e geralmente adotava-se fórmulas estereotipadas. sendo um importante meio de comunicação no mundo romano.NEA/UERJ As acclamationes64 eram um elemento-chave dos rituais romanos. As acclamationes eram elementos fundamentais nos rituais. apesar de haver registros de variações e elaborações estilísticas. a emocionar sua audiência durante a realização de rituais. altares decorados. os celebrantes eram cuidadosos. pois. Bloomington. e sinais aromáticos de perfumes e incensos. clamo). belos animais com chifres ornados. J. invocavam o poder protetor da divindade para este grupo etc. Assim. tanto na estrutura rítmica.) remete à vocalização. Indianapolis: Indiana University Press. e podem ser definidas como fórmulas rituais vocalizadas por um grupo ou um indivíduo. pois uma vez pronunciada a fórmula ritual.MULHERES NA ANTIGUIDADE . expressavam a solidariedade e a identidade de um grupo. quanto no uso de neologismos.

ou público. Scheid considera que a instauratio realizada tinha a intenção de restaurar imediatamente a pax deorum. em primeiro lugar. Pelos relatos e narrativas que nos chegaram. Le délit religieux dan la Rome tardo-républicaine. realizado no acampamento militar romano. celebrada pro populo pelas Vestais e por matronas em 13 de dezembro de 62 a.) Contribuition à l‘étude de la religion publique romaine.(Coll. e SCHEID. na casa do então pretor e pontifex maximus Júlio César. cuja condução era plena de rituais e fórmulas religiosas. TATUM. contudo. Segundo Cícero. o que aumenta o valor documental de fontes literárias como as poesias. Este. F. Chapel Hill-London: University of North Carolina Press. irmão de Clodia Metelli. b) a função testemunhal.C. J. atestando o poder da divindade e/ou convidando-a para testemunhar em favor do celebrante. decerto visando atraí-las para o ritual ou a ação que se desejava realizar. 2002 66 A euocatio era um antigo ritual. mais frequentemente. portanto. e c) a função de instauratio (repetição). Era . Ver esp.-4ème s. como performances orais endereçadas às divindades. 65 82 . W. portanto. decidindo que o caso fora nefas. mas também serviam para impressionar a audiência. 1981. 17) Paris: Les Belles Lettres. Clodiana religio. como no caso de Claudia Quinta nos Fasti. D »Etudes anciennes. a instauratio. as Vestais realizaram a instauratio logo após a expulsão de Clódio da casa. MOREAU. remeteu a questão aos pontifices e às Vestais que. 1999: 62-86.MULHERES NA ANTIGUIDADE .a. em rituais como a euocatio66. In : Le délit religieux dans la cité antique (Table Ronde – Rome.-C. ou seja. J. Paris : Palais Farnese. podemos entrever três funções das acclamationes: a) a função propiciatória. de um ritual em espaços cerimoniais. Un procès politique en 61 av. Ph. As acclamationes podem ser vistas. durante a cerimônia da Bona Dea. The Patrician Tribune Publius Clodius Pulcher. que prometia domicílio e/ou culto.p. Brepols Publishers. em Roma. um dos ritos relacionados à guerra em Roma.C. e o caso provocou um escândalo e uma discussão no Senado. ou seja. Bruxelles -Rome : Institut Historique Belge de Rome. a divindades de povos inimigos. indicaram a repetição da celebração que fora interrompida pela invasão.NEA/UERJ assuntos religiosos65. Le Collège Pontifical (3ème s. de propiciar a retomada de um rito que tenha sido conspurcado por alguma falha em sua execução67.C. 1982 : 58-62 . 6-7 avril 1978) Coll. de reconciliar alguém com uma divindade ou. foi o que se seguiu à irrupção de Clodio. Podemos VAN HAEPEREN. 67 Um bom exemplo da terceira função da acclamatio. de l‘École Française de Rome. e J. Os ritos da Bona Dea eram interditos aos homens. J.

. e podemos imaginar o poder dramático da acclamatio bem-sucedida de Claudia Quinta.revue. Claudia Quinta (Pro Caelio 34) and an altar to Magna Mater. fazendo o elogio da castidade da matrona romana e de sua grandeza.R. 71 LEACH. E. apresenta a protagonista Claudia Quinta como uma sacerdotisa da deusa. uxor Fulvi Flacci. Cambridge: Cambridge University Press. turritae rara ministra deae: Propercio.F. 51-52. S. a matrona romana encontraria sua gloria. W. A versão milagrosa da chegada de Cibele em Roma popularizouse em Roma. Eleanor W. Plínio o Antigo a caracteriza como a pudicissima femina que conduziu a Magna Mater a Roma69. 70 BEARD. NORTH. por exemplo.univlille3. Leach71 analisaram um interessante altar encontrado no início do século XVIII d. Propércio. na margem do Tibre. 2 (A Sourcebook). sob o Aventino: 68…uel tu. Elegia 4. que residiria na observância dos deveres familiares.pdf 83 .C.fr/1Articles/4Articlespdf/Winsor. iterum religionis experimento Claudia inducta Romam deum matre: Plínio. VI. Dictynna 4. quae tardam mouisti Cybeben (Cybelen).. Naturalis historia. Mary Beard. posteriormente. J. PRICE. Religions of Rome. 38. electa ex centum praeceptis quae simulacrum Veneris ex Sibyllinis libris dedicaret. A narrativa ovidiana desenvolveu-se. A própria indicação de que teria uma reputação duvidosa reforçava a mensagem: pela castidade. Sua performance levava à ilusão de um contato direto com a divindade..MULHERES NA ANTIGUIDADE . consolidando a versão milagrosa da chegada de Cibele a Roma. que realiza um milagre68. o Antigo. Claudia. 10.NEA/UERJ considerar que as acclamationes eram parte integrante e importante da criação/consolidação da identidade coletiva do grupo que o realiza/assiste. 69 Pudicissima femina semel matronarum sententia iudicata est Sulpicia Paterculi filia. Disponível em: http://dictynna. vol. M.A. John North e Simon Price70 e. de uma relação privilegiada com uma deidade. 1998: 45-46. 2007.

72 84 . a deusa surge no centro. a um ramo da gens Claudia. sua imagem está plenamente interpretada segundo as tradições figurativas religiosas romanas.NEA/UERJ (fonte http://www. traz uma inscrição votiva72 e uma representação figurativa referente à chegada da deusa a Roma. sentada num trono. ou seja. ao modo da deusa. datado do século I d.C. A deusa está vestida com um véu. nascida livre ou liberta.vroma. A tradução da inscrição proposta é: À mãe dos deuses e ao navio salvia/Como um voto feito à Salvia/Claudia Syntyche/Dedicou este dom. A imagem feminina em frente ao navio da deusa segura um cabo ligado a ele.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com o chiton e o himation.jpg ) O altar. em um navio. e projeta-se numa plataforma. com uma provável aedicula atrás dela.org/images/raia_images/claudia_syntyche. Na imagem. Esta figura também está velada e usa um chiton. apesar de alguma idiossincrasia na iconografia. O evento representado imageticamente remete a Claudia Quinta. mas provavelmente pertence. Não se sabe exatamente quem é a ―Claudia‖ que dedica o voto..

70 (1980): 12-27. Claudia Quinta se tornou uma Virgem Vestal. que ultrapassavam o limiar dos apanágios masculinos.. 11)74. para tal. Religions of Rome. nem o das matronas. Uma interessante interpretação das Virgens Vestais foi proposta por Patricia Horvat: ― . portanto. Se eram mulheres com privilégios cívicos. protagonista da criação e. 2. v. em Herodiano (Hist. mas o mítico veículo de sublimação e renovação de todas as coisas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Quanto ao mola salsa. P. ver: BEARD. e. como surge. não tinham o cândido significado das meninas. cf.. no século II d. 2007. 75 ver o tema de Claudia Quinta como Vestal na pintura do Renascimento. No que concerne aos comuns atributos da identidade feminina. NORTH & PRICE. O fogo das Vestais era. exercendo o fascínio do interdito. e a consciência desta oposição. podemos dizer que as Vestais. 1998: 45. especialmente em representações imagéticas. M. E é como Vestal que Claudia Quinta atravessará os séculos futuros. como tal. o fogo que elas manipulavam não seria o reservado fogo acalentador. ―The sexual status of the Vestal virgins‖ Journal of Roman Studies. corpo da família.g. 1.‖ cf. no estágio final do desenvolvimento dessa narrativa já lendária. os Di consenti. sempre elegantemente paramentadas. Esta associação teve um longo sucesso. que na vida doméstica faziam o pão. o prolongamento ígneo da luz. na poesia e na pintura através dos séculos.C. O Templo de Vesta e a idéia romana de centro do mundo. pão sagrado reservado aos banquetes em honra a Júpiter e às principais divindades do Estado.NEA/UERJ E. BEARD. que remeteria a um regaço materno. até a modernidade. marcados pela vinculação cristã do modelo feminino ao ideal de virgindade75. responsáveis pelo calor e pela proteção da casa. Phoînix 13. lhes era conferido um caráter de incolumidade. próprio aos rituais agrícolas. Se eram matronas. cujo milagre deu testemunho de sua virgindade. do devir dos elementos e de toda história. Rio de Janeiro. o eram da terra.73. Cambridge: Cambridge University Press. que repetiam a destruição e a regeneração da natureza. as Vestais eram revestidas de sacralidade. em Bartolommeo Nerone (il Riccio) e em Lambert Lombard.. seria antes uma poção sagrada do que um alimento. suspeita de ter violado seus deveres de castidade. geração consumada. que desenvolviam atividades aparentemente domésticas. num período já marcado pela propaganda cristã da virgindade. materializado pela exigência férrea de castidade. Em relação à dubiedade do papel de gênero das Vestais. e. e a quem era facultado observar a vida pública. 74 A tardia associação de Claudia Quinta com uma Virgem Vestal é significativa. HORVAT. para os homens romanos a principal virtude feminina. 73 85 . geração em potencial.

ambos. com a ênfase positiva na castidade feminina.v. que não corresponde à virgindade. no casamento. aspectos centrais da reforma augustana. agora. A casa familiar (domus) romana é um santuário.MULHERES NA ANTIGUIDADE . familia 76 86 . MEILLET. por meio da geração de filhos homens.NEA/UERJ Esses textos e imagens nos permitem entrever como a imagem e o status das mulheres foram prescritos. idealizados ou vilipendiados através dos séculos. cujos restos repousavam em um sítio que na urbs encontrou lugar fora das casas. que teve um impacto direto em suas principais instituições. Do fundamento religioso do casamento se depreende a ênfase na desejada castidade feminina. e o casamento é a uma instituição estabelecida pela religião doméstica. A matrona romana é uma figura que surge e tem o seu sentido dentro da instituição do casamento. Importa. Do mesmo modo. que implica propriedade e patrimônio. tendo em conta sua relação com o religioso e o econômico. exaltando a figura da matrona. por procriar filhos legítimos para a familia de seu marido. e sim à proibição às mulheres do adultério e da poligamia. A questão da mulher e do casamento exige um marco mais amplo para o seu estudo. A sacralidade dessa instituição se manteve após a fundação e o desenvolvimento das instituições cívicas da urbs. do culto dos maiores. E a mulher. A tradição da religio domestica. já que a matrona. o lararium passou a ser o centro da religião doméstica. A família patriarcal romana era um agrupamento de pessoas livres e não livres76. de onde deriva o nome família: ERNOUT. local no qual residia o Lar familiaris. portanto. com seus Lares e Penates. Com o passar do tempo. está na base do regramento romano de gênero. sem maiores considerações a laços sentimentais. escravos. próximo à lareira eram oferecidos os sacrifícios propiciatórios que estabeleciam as relações com os seres divinos e com os numina dos antepassados. o laço religioso é o fundamento da família. instituição que significava a passagem da mulher de um culto – o da família de seu pai – a outro – o da família de seu marido. não podia pertencer a mais de um culto familiar. observar esta figura. e os principais ritos famuli. que são. no qual oficiava como sacerdote o paterfamilias. s. de forma quadrangular. garantia a continuidade. Em um altar (ara) de pedra.

por sua natural falta de uirtus.. na prática.. Esta mudança dificilmente teria correspondido a um processo de ―libertação feminina‖. Na verdade. A uirtus é. A mulher. e apenas ele era um cidadão completo. como sabemos.NEA/UERJ familiares ocorriam. o poder absoluto do pai ser limitado de vários modos. WIESNER-HANKS. P. e por sua consequente falta de domínio sobre si mesma. manumissões.). preservando assim a ligação com sua família de origem e sua independência do marido em matéria de propriedade. 2004: 293. sua masculinidade pública era definida por seus direitos de propriedade e seu papel como soldado. presididos pelo paterfamilias (casamentos. apesar de. Paul Halsall diz: . a pública e a privada. E a exaltada ideologia da familia estimulava o culto da matrona romana. M. tangendo HALSALL. tratava-se de um assunto do interesse dos homens de família. O poder de agir em ambas as esferas. por exemplo. uma mulher que produzia filhos valorosos e lhes incutia os valores romanos77. Uma transformação do sistema familiar da elite romana ocorrera com a expansão do Império. seus filhos e seus escravos (patria potestas). significando o domínio que o homem tem sobre si mesmo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A atitude recomendável do marido em relação à mulher era pautada na própria essência da uirtus que. A Companion to Gender History. portanto. Early Western Civilization under the sign of Gender: Europe and the Mediterranean. tem a mesma raiz de uir (homem). sua propriedade mantinha-se no domus de origem. 77 87 .). A antiga prática do acordo entre duas famílias pelo qual a mulher deixava a casa de seu pai e passava ao controle do marido. T. que adquiria o manus sobre ela. ritos de passagem à idade adulta etc. Sua masculinidade privada derivava de seu direito de governar sua mulher. (edd. Do paterfamilias. é considerada débil. definia a identidade masculina. tendia a ser substituída por um sistema no qual a mulher retornava à casa de seu pai uma vez por ano. The Blackwell Publishing Ltd..A. In: MEDDE.E. uma qualidade exclusivamente masculina.

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as transferências de direitos de herança que o casamento tradicional cum manus garantia. Voltemos à restauratio augustana, observando alguns de seus elementos religiosos. Se na Roma monárquica, o rei é o sacerdote e desempenha o papel principal da comunidade cívica, dotado de uma grande capacidade de inovação político-institucional, inaugurador (pela investidura auspicial), senhor do tempo (pela proclamação do calendário), senhor do espaço (pela construção da cidade), senhor do corpo cívico (pela condução da guerra e garantia da unidade civil), na República oligárquica seu poder será disseminado, pulverizado entre magistrados, senadores e collegia sacerdotais. O principado augustano buscará recompor esta unidade. E se, na República tardia podemos distinguir entre os escritores uma recusa ao mito em prol da racionalidade cívica – recusa correspondente à defesa da libertas aristocrática –, sob Augusto, o passado tomará as cores do mito, numa restauratio mundi que terá, na exaltação da figura da matrona da tradicional familia romana um de seus pontos principais78. É, contudo, consenso entre os estudiosos que as mulheres romanas desempenhavam papeis limitados no culto público. Podemos argumentar, porém, que a própria presença de mulheres em rituais de grande importância política como a chegada de Cibele a Roma seria um indício seguro de sua importância nos rituais. Tais registros demandam maior atenção dos antiquistas. Para Beryl Rawson79, por exemplo, os registros da participação política feminina ocorrem em tempos de crise institucional. As crises multiplicadas e reiteradas na República tardia abriram espaço para o surgimento de alguns nomes femininos com destaque na vida pública, como Sempronia, Servília, Fulvia e Clodia. E a autora verifica, a partir de 18 a.C., uma virada na restauratio augustana; após a pacificação política, a intensa atenção e as ações relativas às

BELTRÃO, C. Fortuna, uirtus e a sujeição do feminino em Horácio. Phoînix 14, Rio de Janeiro, 2008:130-146. 79 RAWSON, B. Finding Roman Women. In: ROSENSTEIN, N.; ORSTEINMARX, R. A Companion to the Roman Republic. The Blackwell Publishing Ltd. 2006: 324-341
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questões de temas da ―moralidade pública‖, com as leis relativas ao casamento e à vida familiar (e.g. lex Iulia de adulteriis). As novas disposições de Augusto sobre a moral e o casamento: a lex Iulia, relativa aos casamentos e que dispunha, entre outras coisas, sobre o novo casamento para as viúvas e divorciadas, com o qual era reformulado o costume da mulher uniuira (de um só homem). A mesma lei, como sabemos, criava incentivos aos casamentos que gerassem três ou mais filhos, e penalizava aos pais que impediam o casamento de seus filhos. A lex Iulia sobre o adultério, além disso, penalizava as relações extraconjugais da mulher, com o desterro, e dificultava o divórcio sob o pretexto de adultério. A restauração da urbs passava necessariamente pela instituição do casamento, tanto por motivos religiosos quanto econômicos. A exaltação da uirtus e da traditio como valores centrais se traduzia na necessidade de controle do elemento feminino, que deveria se vincular a um homem pelo casamento, numa espécie de ―administração do feminino‖ que surge como absolutamente necessária para a manutenção dos mores, a ponto de a legislação sobre o casamento reformular o costume de que a mulher deveria ―pertencer‖ a um único homem durante toda a sua vida, a fim de evitar as ―viúvas‖, ou seja, as mulheres sem marido. A legislação sobre o divórcio foi também um claro indício do objetivo de restauração da urbs, objetivo também buscado por meio de outros atos de governo: uma hierarquização rigorosa das classes sociais, a reorganização militar e financeira etc. A família romana, considerada pelos moralistas e pelo governo augustano em perigo de desintegração, o que era interpretado como um desequilíbrio do elemento feminino, deveria ser conservada mediante a restauração do casamento. A figura da matrona Claudia Quinta serviu a Cícero para construir uma argumentação baseada na ideia de uma radical oposição moral entre Claudia Quinta e Clodia Metelli, e conseguiu difamar a segunda. Retratada deste modo por Cícero, tornou-se o símbolo da ―decadência moral‖ de fins da República romana para tradição literária ocidental: a mulher livre e desregrada que dá vazão aos seus impulsos sexuais e que não obedece a ninguém senão a si mesma, desprezando seus ilustres antepassados, Ápio Claudio Censor e Claudia Quinta.

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Nos primeiros anos do principado de Augusto, a imagem de Lívia, a pudica e reservada mulher do imperador que dedicava seus dias a fiar os mantos do seu dominus, será apresentada como o oposto de Clodia, ―perpétuo escândalo‖, ―Medéia do Palatino‖. Ovídio fez do relato políticoreligioso de Claudia Quinta a ocasião de uma acclamatio bem-sucedida, resultando num milagre. Segundo R. J. Littlewood, Ovídio exaltava, assim, a Lívia e a seu filho Tibério, também ligados à gens Claudia, tornada modelo de virtudes por seu marido e pai adotivo, Augusto. E tal tema disseminou-se rapidamente, seguindo os passos da ascensão da gens Claudia no principado80, contribuindo significativamente para o conservadorismo moral do principado e de seus porta-vozes. Ressaltamos, então, a tese de Judith Butler do gênero como ―performativo‖, ou seja, constituindo uma identidade proposta por um processo político e educacional, entendendo-o como uma construção social, culturalmente contingente, e não como uma concretização de uma distinção ―biológica‖, e assumindo que ―verdades‖ sobre as diferenças entre mulheres e homens, são enraizadas no discurso e nas práticas sociais e culturais81. Nas estruturas religiosas romanas vemos uma hierarquia institucionalizada, baseada em relações assimétricas de gênero, tanto em termos de organização institucional quanto de representação social. Assim, parafraseando P. Bourdieu, tais estruturas consagram a ordem (masculina) desejada e imposta, ―trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial‖82. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAYET, J. La religion romana, historia política e psicologica. Madrid: Ed. Cristandad, 1984 BEARD, M. & NORTH, J. A. (ed.) Pagan Priests. Religion and Power in the Ancient World. London: Routledge and Kegan Paul, 1990
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MEDEIA, SENHORA DAS SERPENTES E DRAGÕES83
Prof. Dr. Daniel Ogden84 Introdução No final da Antiguidade, a tradição relacionada a Medeia fez dela uma verdadeira senhora de serpentes e, em particular, de grandes e sobrenaturais membros dessa raça, os drakontes (dracones) ou dragões, com habilidades tanto de controlá-los como de destruí-los. Em sua última biografia, dentro da ordem sequencial aproximada dos episódios canônicos, temos: 1. Ela fornece a Jasão uma poção de invencibilidade contra os guerreiros de Eetes nascidos da terra a partir do dente do Dragão de Ares, que fora destruído por Cadmus. 2. Ela repousa, ou mata o dragão de Cólquida, que jamais dorme e que guarda o velo de ouro. 3. Ela se utiliza de drogas para evocar dragões fantasmas contra Pélias. 4. Ela reúne serpentes e dragões de todas as espécies (comuns, cósmicos e míticos), a fim de tirar-lhes sua peçonha para elaborar o veneno que queima para o vestido de casamento de Glauce. 5. Depois de ter matado suas crianças, ela escapa de Corinto numa carruagem puxada por um par de dragões. 6. Ela lança a praga de serpentes que afligia a região de Absoris para dentro da tumba de Apsirto, fazendo com que as serpentes permaneçam confinadas lá. 7. Ela visita os Marsi na Itália e lhes ensina como controlar e destruir serpentes, sendo por eles reconhecida como a deusa Angitia.
83.

Meus mais sinceros agradecimentos à Profª. Maria Regina Candido, por terme gentilmente feito o convite de apresentar este artigo na UERJ durante o I Congresso Internacional de Religião, Mito e Magia no Mundo Antigo entre os dias 8-12 de Novembro de 2010, e a Pedro V. S. Peixoto da UFRJ por sua cuidadosa tradução. 84 Prof. Dr. Daniel Ogden, leciona na Universidade de Exeter, Inglaterra

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um dos quais possui uma inscrição com o nome Medeia ( nós. GaggadisRobin 2000). Direcionar. contida em um vaso de c. Mastronarde 2002:44-57. Moreau 1994. Séchan 1927. 330 a. mostra a carruagem em movimento com Medeia em pé. Simon 1954.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Gentili e Perusino 2000.C. 400 a.530. A maioria das evidências principais é iconográfica. É válido notar que uma descrição dessa mesma cena. de Canosa di Puglia. HalmTisserant 1993. por sua vez. Meyer 1980. Corti 1998. 86LIMC Medeia 3-6. ainda. 95 .. conferir Heydemann 1986. seria um caso de trocar o obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro). para entender os contextos e significações de tais aquisições. Belloni 1981. Esta é a data de uma série distinta de quatro lekythoi áticos. Moreau e Turpin 2000:ii. entre um par de serpentes que olham para ela. Tupet 1976. que segura serpentes em cada uma de suas mãos.87 Por isso. façam alusão ao episódio da carruagem. Candido 2010. Neils 1990. de fato. Clauss e Johnston 1997. então. o olhar sobre a então conhecida ‗deusa serpente‘ minoana. resta-nos pouco para contextualizá-los. 87 LIMC Medeia 29. Ainda que certas conexões a níveis 85Para discussões gerais a respeito da tradição de Medeia. Jessen 1914. A carruagem de dragões A primeira associação que podemos fazer entre Medeia e serpentes ou dragões remonta a cerca de 530 a. 245 –333 (especialmente. não seríamos capazes de identificá-la de outra forma). Parry 1992. Contudo. Schmidt 1992. seria com aquelas relativas ao par de serpentes aladas que puxam a carruagem na qual ela escapou de Corinto. inclino-me a acreditar que as imagens de c. primeiramente atestadas em c.C. 2009:78-93.NEA/UERJ Este artigo busca investigar os episódios e formas pelas quais Medeia adquiriu os drakōn e as serpentes.85 1. talvez. Gantz 1993:358-73. se dissociarmos os lekythoi do episódio da carruagem. em vasos.86 Se estas. Lesky 1931.C. de modo muito semelhante. Zinserling-Paul 1979. certamente. Esses lekythoi são decorados com um busto feminino de perfil localizado entre um par de serpentes com barbas e de bocas abertas. Ogden 2008:27-38. 312-15. Braswell 1988:6-23. Griffiths 2006. Vojatzi 1982. pudessem ser relacionadas com alguma outra representação da tradição de Medeia.

ter sido elaborado tendo a peça. 88 96 .C. 400 a. 64.C. igualmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE .). uma relação iconográfica mais forte pode ser obtida entre essas figuras e aquelas pertencentes aos mitos arcaicos e clássico. 39. à conclusão de Medeia de Eurípedes apresentando um triste e angustiado Creonte que alcança uma Glauce derretida pelo fogo e que jaz caída no chão. elas seriam possuidoras da habilidade mágica de voar.400 a. 116. 107.90 As serpentes não aparecem com asas. 50-1. especificamente. 58. 105. No próprio texto. não intimidadora. em diante. 18. Iason 73 = Medeia 37. 96-7.400 a. Isto. de galinhas. 117.89 Um dos primeiros vasos desse tipo relaciona-se. 52. em diferentes configurações. 12.92 Tem sido especulado (e isso não é irrelevante.91 As serpentes mantiveram suas asas. ou não descartadas. 91 LIMC Medeia 39. 48. 63. nesses vasos. 90 LIMC Iason 70 = Medeia 35. 55. Medeia aparece em sua ―carruagem do Sol‖. 38.C. Medeia 29. 73-4. embora os artistas tenham deixado bem claro que eles estavam desenhando a carruagem cruzando os ares. 42.400 a.C. 51. como as Erinyes (Erínias). 108. 460 a.400 a. 118. 36 (c.C. não era bom o suficiente para um artista falisco que.). de boa qualidade. efetivamente.C. uma série de bem decorados vasos provenientes da Lucânia e Apúlia exibe a cena das serpentes e da carruagem em todo o seu esplendor. então. a partir de c.. muitas das quais.C. portanto. de maneira muito próxima.. em mente. Iason 72. combinadas com as asas. correndo atrás de suas vítimas com uma serpente em cada mão. 80.C. tendo em vista o vaso que saúda o desfecho da Medeia de Eurípedes) que as primeiras representações da carruagem de Medeia surgidas a partir de c. 55. 58. deu asas as suas serpentes. Iason 71 (c. 112. 62. Elas possuíam barbas bem elaboradas e longas cristas que.. 119. 89 LIMC Iason 70 = Medeia 35 (c. 11. 34-7. mas foram capazes de se tornar mais intimidadores em uma série de esculturas romanas em relevo datadas do segundo século d.). 113. no entanto. conferiam-lhes uma aparência surpreendente.88 Desde c. 41. porém. 27-30. 57. parecendo.C. 70. 38. em diante podem ter sido inspiradas na encenação de tal peça. 115.NEA/UERJ iconográficos possam ser feitas. que eram frequentemente representadas. na qual ela LIMC Erinys 1 (460-50 a.). na segunda metade do quarto século a. 114. 67-9. 53. 92 LIMC Medeia 46.

ou 400 a.).C. presumivelmente. embora nenhuma menção explícita seja feita em relação às serpentes e a sua conexão com a carruagem.96 Nas cenas de Triptólemo.C. 450 a. que Medeia adquiriu sua carruagem de serpentes. não obstante.C. e o contexto. O par de serpentes que move ou acompanha a carruagem voadora que Deméter havia dado a Triptólemo é representado em vasos áticos a partir de c. 111. Mas já que o mito de Triptólemo não possui nada de óbvio a oferecer à tradição de Medeia.). que se refere. 93 A presença de serpentes aladas (ἅρματος δρακόντων πτερωτῶν) é. neste contexto. debruçarmo-nos sobre os registros iconográficos. aparece impressa junto ao texto principal nas melhores edições. a justificativa para a sua carruagem ter sido remodelada como uma versão daquela possuída por Triptólemo pode ser. 114.T: Medeia 1321.. 116 (c. Termo técnico utilizado pelos antigos e pelos bizantinos. ter aparecido no palco.).94 que a torna válida (o detalhe de asas é suspeito dada a ausência de dados iconográficos anteriores à segunda metade do século IV a. 470 – c.95 e serpentes poderiam. novamente. logo é possível que olhemos para outras influências sobre a temática e. anterior a c.C.NEA/UERJ escapa de Corinto. apenas pelo fato de que Medeia tenha já desenvolvido uma associação convincente com dragões em outras partes e momentos de sua tradição. A menção mais distinta na literatura posterior a carruagens com serpentes vem da Metamorfose de Ovídio. LIMC Triptolemos 91. foi somente em 431 a. e Mastronarde. contudo.400 a. certamente.. 97 . cf. Se. sugere que ela possuía a habilidade de voar. frequentemente. por exemplo. 100. quando Medeia parte em sua carruagem em busca das drogas do rejuvenescimento de que ela vai 93Eurípedes 94N. demonstrada na Hypothesis. efetivamente. se não na performance original de 431 a.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 480 a. efetivamente identifica aí uma linha de influências. de fato. 480 a. Eurípedes Medeia. temos que admitir que essas imagens causam-nos uma impressão muito próxima àquela da carruagem de Medeia. 95Hypothesis. um par de serpentes acompanha protegendo os flancos da carruagem em vez depuxando o veículo.C. e que. a uma introdução de uma peça. em uma reencenação distinta da peça. entretanto.C.C. 105. 96LIMC Triptolemos 87 = Demeter 344 (c.

permitindo.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Medeia 2-4. então.149-58. O dragão engoliu e regurgitou Jasão antes do heroi matá-lo. uma vez colhidas. 99Píndaro Ode Pítica 4. Uma das primeiras evidências diretas e positivas do dragão de Cólquida é. Em versões tardias.100 Com base nessa imagem. a Jasão roubar o velo. 98 . Metamorfose 7. Valério Flaco Argonáutica 8.24 Bond. no entanto) sobre uma série de 97Ovídio 98Schol. O dragão de Cólquida repousa para dormir Parece que nas primeiras versões do mito do dragão de Cólquida. 8 West. Hyginus Fabulae 22. Eurípedes Medeia 480-2.97 Outra tradição interessante conta que.NEA/UERJ precisar para restaurar a juventude de Éson. Diodoro da Sicília 4. esp. ela deixou cair uma caixa de drogas mágicas sobre a Tessália: isso fez com que a terra fosse.242-50. igualmente. 236-7. As Nuvens 749a. tornando-se jovens de novo. podemos conjecturar que uma série de imagens semelhantes (sem o velo. Herodorus of Heracleia FGrH 31 FF53-4. Ovídio Metamorfose 7. em 431 a.54-121. [Apolodoro] Biblioteca 1. na qual a parte superior do corpo de Jasão (ele é nomeado) projeta-se para fora da boca de um dragão desenhado em detalhes. dando origem à famosa cultura de bruxaria/feitiçaria na Tessália. 480-70 a.23.. então. Hypsipyle F752f TrGF/Collard linhas 19-25 (F I. O cheiro das plantas.123-66.26).48. Ferécides F31 Fowler. Jasão rouba o velo de ouro de Eetes que estava escondido. Ela teria usado uma de suas drogas para fazer com que o dragão. p. semeada com plantas mágicas e nocivas. LIMC Iason 22-54. Apolônio Argonáutica 4. O velo está pendurado em uma árvore e Atena observa a cena.C. enquanto Medeia voava em sua carruagem-serpente. Argonáutica Órfica887-1021. Parece mais seguro concluir que ela não participava de nenhuma forma central antes da era da Medeia de Eurípedes.179-237. Aristófanes. uma das mais magníficas: a kylix (taça) de Douris de c. com a ajuda da filha do rei. Medeia. faz com que as serpentes se soltem de suas peles antigas. caísse no sono.9.ii. que jamais dormia. Naupactica FF6.99 A dificuldade inicial em reconstruir o episódio do dragão é identificar o ponto no qual Medeia se insere nele. Eetes designa Jasão para pegar e trazer até ele o velo de ouro que ficava guardado pelo dragão em um pequeno bosque.98 2. 100LIMC Iason 32.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . 470-8. Outra possibilidade é a de que Jasão. tenha deixado-se engolir pelo dragão gigante.. A imagem contida na ânfora de Caere.451-578. no caminho para fora da boca do dragão. 99 . 660-40 a. 104N.103 A taça de Douris provavelmente favorece esta última alternativa: o estado de Jasão nesta imagem. 632-29 a. ou fosse cuspido fora por alguma outra razão. [Apolodoro] Bibliotheca 2. já teria sido totalmente engolido. provavelmente. Philostratus Minor Imagines 12. Hyginus Fabulae 31 and 89.C. Uma delas é a de que o dragão conseguiu engolir Jasão.). LIMC Hesione 6. como Hércules fez com kētos102 em Tróia.‖106 101LIMC 102N.199-215.C.T: Iason 30-1 (vii a.C.6.4.101 Este tipo de imagem não corresponde a nada do que possuímos através dos registro literário preservado do mito. O primeiro destes é um par de imagens de Corinto do final do século VII a.C.145-8. acariciando (ou alimentando?) duas das cabeças de um contorcido enorme dragão de três cabeças. representa uma mulher com veu. ou pelo menos metade dele. encontrando-se.32. e um fragmento de Mimnermo. monstro marinho gigante enviado por Poseidon. [Licofron] Alexandra 31-6. Ovídio Metamorfose 11. através de suas drogas. então. sem resistência e acabado. observadas em conjunto podem ser pensadas como indicadores da existência de uma tradição que lembra aquela encontrada em Apolônio. em que Medeia.. mas oferece duas amplas possibilidades de leitura. Duas outras peças do século VII a. deliberadamente. 103Homero Ilíada 20.C. Helânico F26b Fowler. 106Mimnermus F11 West. abrindo caminho para sair da boca do animal. até que Jasão conseguisse lutar e resistir.NEA/UERJ diferentes meios de comunicação também mostrem Jasão sendo projetado da boca do dragão. Diodoro da Sicília 4.2. ajudou Jasão a obter o velo do dragão que o guardava: uma ânfora de figuras vermelhas e brancas de Caere104 de c.105 O fragmento de Mimnermo de c. 42.T: As hydriae de Caere foram produzidas por um pequeno grupo de artistas jônicos que se estabeleceram na Etrúria no momento das invasões pérsicas.9. sugere que ele. 105LIMC Medeia 2.5. 33-5. Valério Flaco Argonáutica 2. afirma que ―Jasão sozinho jamais teria conseguido trazer de volta o grandioso velo de Aea. a fim de matá-lo por dentro. crua embora eloquente.

como é encontrado no conjunto de fontes do século V a. ao contrário.C. 500 a.C. não há como estarmos certos de que a mulher que aparece é. 100 .C. Medeia. anteriores a Medeia de Eurípedes. Três cabeças: LIMC Atlas 8 = Herakles 1702/2680 (c. 16 (450-25 a. parecem não concordar – ou em nenhum nível serem compatíveis – com a versão de que Jasão teria roubado o velo de Eetes sem que o rei o soubesse.). Se Mimnermo se referia à ajuda de Medeia.C. 500 a.C.C. primeiramente.).). As fontes literárias e iconográficas do quinto século a.). 490 a.C.C. apresentado com três cabeças em algumas de suas primeiras representações imagéticas e que as Hespérides apareçam de tal maneira carinhosas com Ládon desde c. por exemplo. qualquer outra como..C. não obrigatoriamente essa ajuda necessitaria estar vinculada ao episódio do dragão. c. estar referindo-se ao auxílio prestado por Medeia em derrotar.C. como nós veremos a seguir. se a ajuda à qual se faz referência seria aquela fornecida por Medeia ou. a começar com a taça de Douris. os touros de fogo. de deusas como Hera. na medida em que ela fornece a Jasão a poção da invencibilidade (como é primeiramente atestado por Píndaro). e Medeia não possui envolvimento algum com o dragão de Cólquida no próximo conjunto de fontes iconográficas.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. Ladon i 12 (450-30 a.500 a.C.). seguramente. e algumas boas considerações argumentam em sentindo oposto a tal identificação: não existe nenhum signo relativo ao velo.).107 Quanto ao fragmento de Mimnermo. Duas cabeças: LIMC Herakles 2692 (c. 480-70 a. ou em relação aos guerreiros nascidos da terra. 15 (450-400 a.. 500 a.NEA/UERJ Mas em relação à ânfora. 450 a. LIMC Ladon i 13 (c.).. LIMC Herakles 2681 = Ladon i 1 (c. nós não somos capazes de saber se o dragão aparece em qualquer momento da história e.). de fato. ao contrário. muito antes de Medeia ser encontrada pela primeira vez acariciando o dragão de Cólquida.). É possível que a mulher na imagem trate-se de uma das Hespérides tomando conta de Ládon: mesmo que ela esteja sozinha e não exista nenhum signo relativo a maçãs. o dragão de Cólquida em nenhum outro lugar foi representado com três cabeças. Atena ou Afrodite. ou até mesmo em levar o velo do palácio de Eetes. ele poderia. LIMC Herakles 2714 = Hesperides 24 (c.380-60 a. ou ainda que tivesse tido a ajuda direta 107Uma cabeça: LIMC Herakles 2716 (c. ainda. é digno de nota que Ládon é.

tendo atuado sozinho. nesta batalha. eventualmente. Este.108 Com base nisso. (Píndaro Ode Pítica 4.242-50) Não existe aqui nenhuma menção à conexão direta entre Medeia e o dragão. e levou consigo Medeia com sua cooperação. mas porque ele era impossível de ser digerido 108 Píndaro Ode Pítica 4. Eetes estabelece a tomada do velo tão somente como um desafio a Jasão. 101 . o filho maravilhoso de Hélios.NEA/UERJ de Medeia. está sendo vomitado pelo dragão. feito pelos golpes de ferramentas de ferro. dos efeitos da poção de invencibilidade (technais?) que Medeia havia lhe dado antes.. quando ele teve de enfrentar o desafio dos touros de fogo. O dragão entra nos registros literários de forma bastante surpreendente. contou-lhe a respeito da pele brilhante e do lugar em que as facas de sacrifício de Frixo recaíram sobre ela. permitindo. aparentemente inerte. mas Afrodite acaba com seus planos fazendo com que o rei caísse no sono. obtém sucesso e traz o velo de volta para o palácio de Eetes. não porque ele teria lutado por seu próprio caminho para fora do animal de maneira impestuosa. Arcesilau. que acaba pegando para os Argonautas o velo do local onde ele estava guardado no palácio. Medeia. ainda. mas é possível imaginarmos que Jasão estaria se beneficiando. Mas esse era um trabalho que não esperava que ele concluísse. e nos perguntarmos se Jasão.C. aos Argonautas fugirem e levarem Medeia consigo. a matadora de Pélias.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de talvez apenas alguns anos antes. o qual superava em largura e comprimento um navio de cinquenta remos. Com dispositivos (technais). ele matou a cobra (ophis) de olhos cinza e coloração negra. na quarta Ode Pítica de Píndaro de 462 a. adjacente às agressivas mandíbulas de um dragão (drakōn).220-23. então.. podemos olhar para a taça de Douris. O soberano então dá um jantar em honra aos Argonautas no qual ele planeja matálos.: Imediatamente Eetes. Pois ele recaía em um pequeno bosque. Ao contrário.

Mas ardilosamente ele [Eetes] convidou-os [os Argonautas] para um banquete". acreditar. então. após ter feito amor com ela. 114 Eurípedes Medeia 480-2. começa a mudar com a Medeia de Eurípedes. 454 a. enquanto Atena observa novamente a cena. furtando o velo de debaixo de uma pequena serpente. do jantar no qual eles deveriam ser assassinados.. Jasão foi enviado em busca do velo por Eetes. sozinho.NEA/UERJ graças à loção de invencibilidade.112 Em seguida. na qual nós podemos ou não. 113 Naupactica F8 West.111 Tanto a Naupactica como Herodorus contam que os Argonautas escaparam. 109 110 102 .C. a Naupactica narra que Medeia levou consigo o velo guardado na casa de Eetes. ele caísse no sono.. dentro do contexto. Relativamente contemporânea a Píndaro é a imagem de uma cratera ática de c. mais uma vez. enquanto ela fugia com os Argonautas. que mostra Jasão. constitua a base do envolvimento direto ou mais explícito de Medeia no episódio do dragão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ferécides F31 Fowler.) podem ajudar a dar sentido a essas informações desfragmentadas. não há. Herodorus diz que "Após os Argonautas terem partido. com a ajuda de Afrodite.109 Um conciso fragmento de Ferécides. igualmente. Nesta. LIMC Iason 36. não há nenhum sinal de Medeia. 112 Naupactica F6 West e Herodorus FGrH 31 F54. 111 Herodorus FGrH 31 F53.C. 470-60 a.113 Essa narrativa. fazendo com que. supostamente.110 Fragmentos de Naupactica ( séc V ?) e de Herodorus de Heracleia (séc V – IV a. pois a deusa inspirou em Eetes desejos carnais por sua esposa Eurílite. também. portanto. na tradição posterior.C. aparentemente. referência à participação direta de Medeia. Medeia protesta: ―E eu matei o dragão (δράκων) que jamais dorme e que guardava o todo dourado velo abraçado a ele em muitas dobras de suas escamas. c. possibilitando a fuga dos Argonautas. Ele matou o dragão e trouxe o velo de volta para Eetes.114 É possível que esta afirmação. relata que o dragão fora morto por Jasão. eu indiquei para vocês a luz da libertação‖.

23.MULHERES NA ANTIGUIDADE .128. segurando uma phialē.69-121. Hyginus e na Argonáutica Órfica.. Ovídio Metamorfose 7.117 Contudo.119 na qual Medeia senta-se adjacente à cobra e sua árvore. 117 LIMC Iason 37. representa uma Medeia bem orientalizada. Valério Flaco Argonáutica 8. portanto.118 Estamos pisando em terreno mais firme.C. 270-45 a.9. na medida em que uma cratera voluta originária de Apúlia mostra Medeia atrás de Jasão. da qual somos induzidos a acreditar que a serpente tenha bebido e.NEA/UERJ O conto canônico no qual Medeia ajuda diretamente Jasão a roubar o velo do dragão. ela pode ser atestada desde c.C. Hyginus Fabulae 22. ps. segurando uma caixa de ervas..115 Mais à frente. a mensagem parece ter sido a de que Medeia.149-58. permitindo que os Argonautas escapem com Medeia e com o velo que o rei guardava em sua casa. segurando uma caixa de drogas e alcançando a cabeça da serpente. a fim de fazer Jasão invencível diante do dragão (tal como Píndaro e Apolônio nos contam que ela fez em situações anteriores em que Jasão enfrentava os touros de fogo).120 Como já vimos. e o heroi com a espada desembainhada tenta retirar o velo de debaixo do dragão. de modo que ele. LIMC Iason 39.).121 Apolônio Argonáutica 4. Afrodite inspira desejos em Eetes por sua esposa Eurílite. provavelmente. caia em sono . 119 LIMC Iason 40.C.220-3.116 Iconograficamente. 380-60 a. 120 LIMC Iason 38.. Orphic Argonautica 887-933. 121 Naupactica FF6 e 8 West.C. então.415 a.?). 115 116 103 .-Apolodoro. emerge pela primeira vez em aspectos literários através da Argonáutica de Apolônio (c. na medida em que droga a besta fazendo com que ela durma.360 a. a temática do feitiço que faz adormecer parece ter originado-se em qualquer lugar no conto de Cólquida. em vez de fazer o animal dormir. [Apolodoro] Biblioteca 1. quando nos deparamos com uma hydria da Lucânia de c. já que o dragão está visivelmente acordado. após ter feito sexo com ela. Argonáutica Órfica 3. encontra-se também presente em Ovídio. 41-2. da mesma maneira. Na Naupactica ( séc V a. cf. uma cratera em formato de sino da Apúlia c.C.1026-62. 118 Píndaro Ode Pítica 4. Valério Flaco. teria feito uso de suas drogas. 1191-1267.

126 Valério Flaco Argonáutica 8. ela continua untando. lambuza o draco com a ‗erva do suco do Leteu.).145-66. Hyginus Fabulae 22.123 Em Apolônio. repetindo três vezes o feitiço. uma técnica similar é usada: Jasão. mas o seu papel é. mas suas funções parecem ter sido apenas as de fornecer coragem suficiente para enfrentar a besta. senhora do subterrâneo. de uma maneira bárbara. 124 Apolônio Argonáutica 4. seja para alimentar diretamente a serpente ou para esfregar as drogas na criatura (c. É-nos dito que Medeia teria colhido raízes venenosas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ele próprio.).69-121. 39.124 Em Ovídio. pedindo-lhe que ele tomasse uma forma muito próxima à do seu irmão gêmeo. a partir de uma phialē (boa parte destas são de c.380-60 a. ela entoa encantamentos enquanto esfrega os olhos da serpente com uma infusão de drogas através de ramos recémcortados de zimbro.127 No sentido oposto ao da tradição. tiradas de uma caixa de medicamentos. Novamente. 41. por vezes.NEA/UERJ Como o sono é lançado sobre a serpente? Na maioria das imagens ela alimenta a criatura com drogas. 122 123 104 . a dificilmente canônica Argonáutica Órfica coloca Medeia junto ao dragão e a Jasão.‘125 Para Valerius Flaccus. e por último.C. 46. presumivelmente em forma líquida.23. 125 Ovídio Metamorfose 7.149-58. praticamente e inteiramente reduzido. Medeia lança o sono primeiramente pronunciando um feitiço verbal. 360 a. no dragão. 127 [Apolodoro] Biblioteca 1. invocando o Sono e Hécate. Sua Medeia também agita um ramo de árvore do Leteu. a Morte. em seguida.).9. Medeia levantou suas mãos e sua varinha para as estrelas e invocou o ‗Sono‘ com feitiços tártaros.É o próprio Orfeu que lança o sono sobre o dragão na medida em que canta e toca sua lira.C. já que o poema favorece a atuação de Orfeu. 360 a.C. LIMC Iason 40 (c.C. 47b. 126 (Pseudo) Apolodoro e Hyginus apenas mencionam brevemente que Medeia usou drogas para induzir o dragão ao sono. e abandonasse a todos os que existiam no mundo para que entrasse. então. em sua totalidade.). 42-3. manchando a cabeça adormecida da serpente com o líquido até que Jasão tenha conseguido o velo. 380-60 a. LIMC Iason 38 (c.122 embora em alguns casos ela pareça segurar uma erva em forma de folha ou ramo. fornecido por Medeia.

a serpente recebe cuidados e mantém um relacionamento especial com uma ou mais jovens virgens.128 Nas duas circunstâncias. Em ambos os casos. igualmente.133 Entretanto. com o conto Ládon é próxima. de acordo com algumas variantes. consequentemente.5. que a tradição iconográfica dos dois dragões devam convergir fortemente. e talvez. 3. apresenta o dragão e as Hespérides como guardiões das maçãs lado a lado. Fontes tardias. 132 [Apolodoro] Biblioteca 2. as representa tentando pegar ou até mesmo Cf. uma serpente que vive em uma árvore onde se enrosca. Primeiro mitógrafo vaticano 1. 470-60 a. em todos os casos. Nos dois casos. afirmam explicitamente que elas atuavam ao lado de Ládon guardando as maçãs (de Afrodite129 ou Héracles130). Apolônio parece achar que elas lamentaram também sobre o abate do dragão realizado por Hércules (em oposição a apenas o roubo das maçãs). uma porção significativa da iconografia relacionada às Hespérides de c.1396-1407. Teócrito 3.40.39. portanto.4. Agroitas FGrH 762 F3a (iii-ii a. que significa. As Hespérides eram personagens ambivalentes. Hesíodo Catálogo de Mulheres F76 MW.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tesouros estes. 128 129 105 .NEA/UERJ o Sono personificado é invocado a tomar lugar e fazer o serviço de adormecer o dragão.) e Diodoro 4. schol. conectados pelo termo mēla.113.26-7. o tesouro é roubado por um visitante homem enquanto a serpente é drogada ou distraída com alimentos pela virgem que lhe tomava conta. vigia e guarda um tesouro de ouro. 133Pediásimo 11.C. Não surpreende. as quais ele nomeia individualmente.131 (Pseudo)Apolodoro deixou bem claro que a serpente guardava as maçãs na companhia das Hespérides. "maçãs" e "ovelhas". em sua forma canônica. A interação de Medeia com a tradição de Ládon e das Hespérides A convergência da narrativa da história do dragão Cólquida. Sérvio Comentários sobre a Eneida de Virgílio 3.g. 131 Apolônio Argonáutica 4.11. [Eratóstenes] Catasterismi 1. semelhantemente.C. 130 E. curiosamente interligados.132 Pediásimo.

28 (?). 454 a. é difícil não ler esse tipo de imagem como uma primeira representação do momento em que a mulher droga a serpente para que esta.500 a. 2726.8 = LIMC Hesperides 64.NEA/UERJ conseguindo pegar as maçãs elas próprias. 36. c. 7 (c. 470-60 a. 2707a. 2717.C. 106 . 550 a. a linha de influência entre as duas tradições iconográficas é evidente. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 4. em seguida.138 Mas é somente no período de c. A imagem em si de uma mulher alimentando uma serpente com uma phialē é provável que tenha sida derivada de uma terceira tradição iconográfica. conta que uma serpente estava parada sobre as maçãs porque as ―virgens filhas de Atlas ficavam pegando-as muito frequentemente‖. de fato. é também nesse período que encontramos pela primeira vez tanto Medeia como as Hespérides dando de comer aos seus dragões de suas mãos ou oferecendo-lhes uma bebida a partir de um phialē . como veremos em breve. 30.29. em diante.C. Hesperides 2. 135Ferécides F16c Fowler. 137Pausânias 6.C.C. No caso de Medeia. 139LIMC Iason 40. como veremos). Sabemos que na iconografia Ládon estava convencionalmente enrolado na árvore com as maçães que ele guardava.137 e. No caso das Hespérides. Nas imagens de 380-60 a. encontramos uma das Hespérides alimentando a serpente. enquanto o gesto poderia. 138LIMC Herakles 2692. que o dragão de Cólquida sobe em sua árvore ao lado do velo que ele guarda. em teoria. Ladon i 6. ou pelo menos.27.C.). No entanto. 63.134 Ferécides.139 A este respeito. o contexto sugere que as Hespérides também estão drogando sua serpente. 3.38. enquanto 134LIMC Herakles 2703.. 136Diodoro 4. 41. a fim de roubarem as maçãs. representar um simples cuidado ou ato de alimentar o animal.MULHERES NA ANTIGUIDADE .135 De acordo com algumas tradições (não todas. distraindo-a com comida e bebidas. pelo menos desde c. Primeiro mitógrafo vaticano 1. 9.C. as Hespérides eram de fato as filhas de Atlas.2-1. 380-60 a.136 É possível que a noção de que as Hespérides estivessem envolvidas no furto do seu próprio dragão pode ter incentivado Medeia a mudar para um papel mais central dentro do episódio do dragão de Cólquida.484. caia no sono.. existem imagens que sobreviveram que revelam a mesma cena de c.

C. E é possível que a Hespéride tenha sido traída em seu amor.C.. então. em uma versão das histórias relacionadas às Hespérides. uma Hespéride em especial parece ser atraída por Hércules. após ter-se apaixonado por ele. de qualquer tipo. Tal traição pode ter sido aludida por Sêneca em seu Hercules Furens: ―Que [Héracles] engane as irmãs e traga consigo as maçãs. Herakles 2719.). então nós teríamos mais um paralelo entre a história das Hespérides e o episódio de Cólquida. 36. o próprio Héracles pega as maçãs.144 Especula-se frequentemente que. a sedução de uma virgem implica a perda de um tesouro 140LIMC 141LIMC Hesperides 3 (380-60 a. guardião dos valiosos frutos. 33-5. uma delas tenha se apaixonado por Héracles e.143 Em duas imagens de c. no qual Medeia ajuda Jasão contra a serpente.MULHERES NA ANTIGUIDADE .142 Em uma imagem de c. 143LIMC Hesperides 36 144LIMC Hesperides 38. 350-30 a. Ladon i 9. enquanto no outro.C.146 Se essa hipótese estiver correta. uma Hespéride.. Héracles situase entre duas Hespérides que realizam seus habituais truques com as mãos.141 Em uma imagem de c. uma Hespéride alimenta Ládon com uma tigela em um lado da árvore. quando o dragão que jamais dorme.C.. 63. 4. 340 a.). 145 LIMC Hesperides 26 (410 a. 34-5. uma Hespéride presenteia Heracles com um galho de maçãs de ouro. 350 a. presenteia Héracles com um galho semelhante (este contendo exatamente três maçãs). semelhantemente.C. deixar seus olhos caírem no sono‖. 147 Sêneca Hercules Furens 530-2.147 Tanto com Ládon como com o dragão de Cólquida.140 Também existem imagens que deixam claro que esse truque foi praticado para o benefício de Héracles. evidentemente. 146 LIMC Hesperides 30-2 (370-60 a. aceitado a proposta de pegar algumas maçãs para ele: em algumas cenas de vasos. 142LIMC Herakles 2726.C. enquanto do outro lado da árvore outra Hespéride alimenta Ládon com uma tigela. 107 .NEA/UERJ outra delas pega as maçãs do outro lado da árvore: a artemanha. 62. 29-31.).C. similarmente. à espera de receber os frutos que elas ganhariam dessa forma..145 e em outras delas erōtes assiste à cena. tal como Medeia eventualmente foi. Em uma imagem no início do século IV a. faz-se visível.

C. está a mais remota terra dos Etíopes. supostamente uma conhecida sua. de Afrodite a Eetes para Medeia em relação ao dragão de Cólquida e. untando uma mistura de mel com papoulas dormideiras. e ela tomava conta dos galhos e ramos sagrados da árvore. 149 Virgílio Eneida 4. Logo. embora. a imagem parece ser inicialmente de uma mulher que.149 Portanto. do que vice-versa. alimenta e toma conta de uma serpente. a uma famosa passagem da fala de Dido na Eneida. A noção de que as Hespérides devem ter drogado Ládon para fazêlo dormir tal como uma bruxa eventualmente faria remonta. em todo o caso. Ela costumava dar as refeições ao dragão (draco). Nostoi F6 West (c. Homero Ilíada 11. é mais provável que a temática relacionada ao ato de drogar a serpente parece ter-se deslocado mais do conto de Medeia para os das Hespérides.C. a vinheta que ela constroi de uma bruxa Massaliana.480-6. 630 a. Aí. 148 108 . À parte da associação geral e antiga de Medeia com as drogas 148. a sedução por uma virgem resultará em um ano infértil. tal como as Hespérides. acrescenta detalhes intrigantes: Próximo aos confins do Oceano e do sol que se põe. onde o grande Atlas carrega em seus ombros a esfera que é posta com as estrelas em chamas.738-41 (‗Agamede‘). portanto.?). para as Hespérides em relação a Ládon.NEA/UERJ dourado: em Lanúvio (discutido a seguir). nós fomos capazes de ver que a temática do ―feitiço do sono‖ provavelmente pode ser inicialmente encontrada em uma parte diferente da história de Cólquida: ela parece ter se deslocado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas de qualquer forma. dessa. 550 a. de maneira intrigante. Desta região uma sacerdotisa dos Massalianos foi indicada a mim como guardiã do templo das Hespérides. O mel pode ou não possuir um significado apropriado: ele é o adoçante LIMC Medeia 1 (c. devemos concluir que o período entre 380-60 testemunhou uma contaminação de mão dupla entre as iconografias de Medeia e das Hespérides.).

em um vestido oriental.410 a. Esse deus observa com interesse E.não existem maçãs.40. da iconografia de Higeia. Higeia ganhou proeminência no final do século V a. e junto com ele Amfiarau e Trofônio (em diferentes níveis relacionados a divindades serpentes).41.. que apesar de ter se perdido no tempo.. Trofônio: Aristófanes As Nuvens 508 (com schol. em Istambul. sendo a mais proeminente de todas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Por que alguém iria dar tal presente ao guardião que se esperava estar sempre alerta. o seu próprio pai e companheiro. permanece sem um mito. Pausânias 9.).C.151 4. 151 LIMC Medeia 70. carregando sua caixa característica de drogas nos jardins das Hespérides pode ser descartada: pode de fato ser que se trate de Medeia. Asclépio. mas sua iconografia é distinta.. Zeus Meiliquios e Agathos Daimon. Medeia e Higeia A temática de uma jovem alimentando uma serpente com um phialē é difícil de ser dissociada. a personificação da Saúde.g. enquanto o deus segura um bastão (sem serpentes) coroado com uma pinha: ele ainda não adquiriu sua própria serpente como atributo na tradição iconográfica existente. Asclépio e Higeia aparecem sentados lado a lado. Ela não parece um presente apropriado a ser dado para um guardião ideal feroz.150 Mas a papoula dormideira parece fora de contexto. pois não há nenhum de seus atributos específicos ao lado dela. no início do século IV a.C. οἰκουρὸν ὄφιν.C. Hesíquio s. e que. 150 109 .C. Higeia. de alguma forma. a serpentes. representa Medeia. Aí. tampouco. é claro. porém não há motivo algum para identificar as Hespérides nas duas figuras femininas. nunca. vívida e largamente consistente. a presença de Ládon. árvores e. As primeiras imagens de Higeia relacionada a serpentes às quais temos acesso nos dias de hoje provêm de um relevo do século V a. tal como diversas outras divindades. jamais dormia? A afirmação potencialmente intrigante de que um vaso de c.NEA/UERJ tradicional ou o alimento doce ofertado em bolos para obter as graças dos deuses em formato de serpente. oikouros ophis: Heródoto 8.v. embora esteja prestes a fazê-lo. juntamente com uma falange de outros seres em forma de serpente ou divindades relacionadas.C. aparece representado em uma cópia do século IV a.

Apolônio Argonáutica 4. ainda. de acordo com a tradição preservada por Apolônio. até como um animal de estimação. A única qualificação a qual poderíamos nos aventurar aqui a fazer é a de que. Schol. Mas o que poderia ser dito a respeito da noção de equivalência entre uma figura humana e a serpente alimentada no caso das Hespérides e de Medeia? No tocante às Hespérides. é posto no mesmo nível que Asclépio com seu igual atributo paralelo da serpente. também seria um irmão das próprias Hespérides. ao menos. tanto nos cabelos como também em volta de seus pescoços e suas cinturas. ao alimentar a serpente. nós dependemos unicamente de suas imagens para construir um sentido para o seu relacionamento com a sua serpente. desde avatar ou símbolo. seu atributo.152 Dada a falta de descrições e narrativas textuais. em outras palavras. e de que tal interação pode sugerir – ou não – um pequeno nível de diferenciação entre a divindade e a serpente. que tal relacionamento poderia recair em qualquer lugar ao longo das diferentes modalidades possíveis. De acordo com Hesíodo. Como tal. a serpente das Hespérides era um dos filhos de Ceto. no tocante a Higeia. a serpente.NEA/UERJ enquanto Higeia faz uma performance daquilo que viria a ser seu gesto mais canônico: alimentar uma serpente com a sua phialē. exibemse diferentes níveis de integração com as serpentes. Já que a relação de Higeia e. o arquétipo de monstro marinho.1399. Ládon é irmão das Górgonas e das Greias e. As Górgonas tinham cabeças de serpentes em seu próprio corpo. 110 . As Greias manipulavam um olho e um dente em comum que compartilhavam 152 153 LIMC Hygieia 5 = Asklepios 98. Na medida em que a serpente bebe. ela se enrosca naquilo que parece ser um tipo de lâmpada ou candelabro: daí para a cena em que Medeia alimenta a serpente que se enrosca em uma árvore é um pulo pequeno. e de Fórcis. um argumento pode ser feito no sentindo de que elas compartilhavam de um profundo vínculo e ligação com a sua serpente. Entre essas figuras femininas. pode-se presumir que a relação de Higeia com sua serpente se assemelhe a de Asclépio com a sua respectiva criatura.MULHERES NA ANTIGUIDADE . até mesmo de inscrições.153 Todos esses grupos femininos encontram-se açambarcados no mito de Perseu. Higeia interage com ela de uma maneira mais frequente do que aquela que Asclépio faz.

enquanto você descansa um pouco de seu longo trabalho penoso?‖156 Quando ela finalmente põe seu ‗querido‘ dragão para descansar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. Ele costuma me chamar por livre vontade e me pede por comida com uma língua bajuladora (blanda). significa ―aquele que olha fixamente‖ (cf. A sua Medeia diz para Jasão: ―Eu sou a única para a qual ele olha com medo. Etymologicum Magnum.‖155 Ela. não obstante o seu paralelismo com esses outros grupos femininos pode desde já implicar que elas gozavam de um vínculo estreito com a serpente. O papel das Hespérides como virgens que cuidam de um dragão. δράκων. Certamente. ela se atira sobre ele e Etymologicum Gudianum. 154 111 . à qual ele faz alusão junto a elas [Hespérides]. é uma virgem até ser seduzida por Jasão. pode ser considerada uma virgem na medida em que alimentava sua serpente com uma phialē ou patera e. à época de Valério Flaco. bizantinos) e modernos. “As virgens criadoras de dragões” As ―virgens que cuidam de dragões‖ são um fenômeno da cultura grecoromana menos divulgado do que deveria ter sido. em sentido maior ou menor. 5. um aspecto de si mesma. Salus e Valetudo). δέρκομαι).154 Se as Hespérides. também seria uma virgem (embora deva-se admitir que bruxas romanas não costumavam ser). A própria Medeia.v. elas próprias. Etymologicum Parvum. trabalham em conjunto com uma serpente que possui partes do corpo separadas.62-3. Higeia.77-8. s. igualmente. Virgílio não nos conta se a bruxa massaliana. dá a entender que a serpente confia nela: ―Que artimanhas você teme enquanto estou por perto? Eu mesma tomarei conta do bosque por um momento.NEA/UERJ entre si: duas partes do corpo que podem ser características de uma serpente. 155 Valério Flaco Argonáutica 8. de qualquer maneira. ainda que com retidão ou com artimanhas. 156 Valério Flaco Argonáutica 8. a filha de Asclépio que nunca se casou (como também suas correspondentes romanas. já que o próprio nome drakōn. é também evidente. segundo alguns etimologistas antigos (ou. essa serpente é. por isso. fica claro que o dragão de Cólquida é o animal de estimação de Medeia.

Heródoto 8. era alimentado e cuidado por uma sacerdotisa da Atena Polias. então ela nos fornece mais um outro exemplo de uma mulher que. Em breve.158 E há as instâncias em que o fenômeno parece recair.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pelo menos. Você não estava assim quando tarde da noite eu lhe trouxe oferendas e banquetes.C.93-103. chorando por si mesma e por sua cria para com quem ela foi tão cruel. Como você pesa quando descansa! Como você respira devagar quando está aí deitado imóvel.159 Afirma-se geralmente que tal sacerdotisa tinha de ser casta em seu ofício.NEA/UERJ o abraça. não está representando nem Medeia nem as Hespérides. você está predestinado a vivenciar um dia cruel. LIMC Medeia 2. de qualquer maneira. pobre desafortunado. 112 . antes de Valério Flaco. seja qual for o caso. Ai de mim. nem eu era assim quando coloquei bolos de mel em sua boca vazia e fidedignamente alimentei você com meus feitiços/venenos.41. o qual havia celebremente ficado sem seus bolos de mel para prever o saque persa à cidade. mas provavelmente isto está implícito na boa vontade demonstrada pela serpente em receber alimento das mãos dela. hesitantemente. Heródoto implica que o oikouros ophis da acrópole ateniense. 380-60 a. como foi primeiramente atestado em vasos de c. ela felizmente localiza a origem deste fenômeno em um estágio bem antigo e inicial. Se a hydria proveniente de Caere de c.660-40 a. retire-se e passe sua velhice em outros bosques e esqueça-me. Mas. eu não matei você.C. sobre um elemento externo. embora ainda não 157 158 159 Valério Flaco Argonáutica 8. eu imploro. (não podemos especificar se ela era virgem ou não) tomava conta de um dragão. Então.157 Por quanto tempo. você não verá o velo nem oferendas brilhantes sob sua sombra. imaginou-se que Medeia possuísse tal relacionamento íntimo com o dragão de Cólquida é algo incerto.

Luciano Da Astrologia 23.161 Roma e a Itália também oferecem alguns exemplos desse mesmo fenômeno. Se elas comessem muito rapidamente de maneira ansiosa. Esse dragão também tinha seu próprio grupo de virgens. Mas caso elas se assustassem ou recusassem a comida. Elas teriam surgido de Píton em Delfos. Em relação ao primeiro. ambas em níveis míticos (ou o que efetivamente é o mito) e dos cultos. tivemos nós a experiência! Nossos profetas piedosos explicaram a questão.160 Isso levanta questões a respeito da possibilidade de ter havido uma conexão importante entre o pensamento antigo relacionado a Píton de Delfos e à pítia ou pitonisa (a sacerdotisa pura e virgem de Apolo). é inspirada por um drakōn que fala debaixo de sua trípode e compartilha algum tipo de vínculo com o drakōn das estrelas. com que sanções futuras fomos nós destinados a concordar com essa guerra! Quão grandiosos foram os castigos. Aconselharam-nos que nós destruíssemos com nossas próprias mãos o servo (famulus) das irmãs Naiad. O mais próximo que somos capazes de chegar é da fantasia astrológica caleidoscópica de Luciano. O dragão teria sido supostamente morto em 256-5 a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma espécie de equivalente antigo aos filmes americanos modernos em que estes combatem extraterrestres utilizando-se de armas nucleares. que obviamente pertence ao período pós-Píton. na qual a sacerdotisa pítia.NEA/UERJ necessariamente uma verdadeira virgem.C. 113 . tem-se o dragão do rio Bagrada pertencente a um dos últimos grandes mitos clássicos relacionados à temática do combate a essas criaturas. Eliano fala de um santuário de Apolo em Épiro cheio de cobras. previa-se que estava por vir um ano de saúde e prosperidade. quão intensas foram as raivas. o qual o rio Bagrada alimenta em suas 160 161 Eliano Sobre a natureza dos animais 11. As serpentes eram alimentadas com meiligmata ("mitigações/ apaziguamentos") por uma sacerdotisa virgem. então previa-se o oposto. pelo exército de Régulo que teria se valido de catapultas.2. o momento Apolíneo do oráculo. e estas eram os animais de estimação do deus. embora Silius coloque o dragão como seu servo e não vice-versa: Ai de nós.

uma inesperada nota de Propércio conta-nos de um rito praticado em Lanúvio. A menina cujo bolo não era comido caía em desgraça e era punida (embora não da mesma forma como é indicado na leitura de Propércio. naturalmente. escrita em c. Aqui. 162 Quanto aos cultos. cuja condição de virgindade era também. Floro 1. Em sua carta a sua esposa. seria capaz de detectar quais delas eram virgens e quais não eram. Tertuliano faz alusão ao sacrifício de uma mulher cristã em Lívio Periochae 18. sendo devorada pela criatura). Ele conta que em certos dias. nós podemos supor. 162 114 .MULHERES NA ANTIGUIDADE .18. A jovem segura seu vestido na frente para fazer uma pequena rede de apoio para o bolo ou bolos que. Valério Máximo 1. e que iríamos.140-293.3.NEA/UERJ águas quentes. aos escritos de Eliano).46. descendo um caminho sagrado até o local onde havia um antigo draco. O dragão. o qual ele acidentalmente transfere para Lavínio localizando-o em um santuário de ‗Hera Argiva‘. O reverso representa uma menina alimentando uma cobra que se enrola em um nó.C. Arnóbio Adversus Nationes 7. por Lúcio Róscio Fabato. (anterior. deixando os demais bolos para as formigas. em cestas. ou seja. e comia somente o bolo daquelas que eram. 207 d. estão embrulhados no pano. Este rito prestado fazse de uma maneira mais visível a nós através de moedas cunhadas entre 64 e 54 a.19. carregam. virgens carregavam bolos de cevada em suas mãos em um bosque sagrado de árvores espesssas e que eram guiadas através dele até o covil do dragão pela sua respiração. virgens. pedacinhos de comida. enfrentar os perigos como resultado.C. onde elas foram transferidas para Roma e então associadas com as ainda mais famosas Virgens Vestais. um pré-requisito. Tais tradições pagãs foram curiosamente levadas para o interior da tradição cristã. Plínio História Natural 8. as quais devem ser cuidadosas ao caminhar. No início do século III d. por sua vez. Se elas se mantivessem castas. portanto.36-7. posteriormente.. Eliano nos dá outro relato do rito. elas conseguiriam retornar para os seus pais e os agricultores gritavam: ―o ano vai ser fértil‖.8 ext. Sílio Púnica 6. Aulo Gélio 7. O anverso mostra a cabeça de Juno Sospita (pois esta era a Hera à qual o culto de fato pertencia).C.

Mas o monge ele próprio resolveu descer à caverna e descobriu que o dragão era.163 Esta fantasia cristã foi tomada pela tradição hagiográfica. matando.. as mulheres que lidavam com as imagens naquele fogo que jamais se estinguia consideradas como possuidoras de pressários sobre seus próprios sofrimentos. O fragmento relevante que diz respeito a tal passagem foi preservado em um comentário de Apolônio. o destruiu. acredita-se.MULHERES NA ANTIGUIDADE . conta-nos que um dragão vivia a 365 passos no fundo de uma caverna. Privado de suas ofertas. então. magos e ‗virgens profanas‘ carregavam até lá comida e oferendas. São Silvestre foi ele próprio lá embaixo na caverna e trancou o dragão para sempre no fundo de seu buraco. a serviço de seu Satã: ―Pois em Roma. na virada do século IV para o V). são indicadas tendo como base sua virgindade‘. chamando a atenção para o fato de que até mesmos os pagãos eram capazes de suportar e lidar com tal problema. compostos primeiramente. um dispositivo mecânico com olhos feitos de pedras preciosas e uma língua afiada de aço.6. De Promissionibus. e que uma vez por vez. A defesa contra os guerreiros semeados a partir do dente do dragão de Ares Jason passou pela prova de ter de enfrentar os guerreiros-da-terra nascidos do dente semeado do dragão de Ares que fora morto por Cadmo. Ele. junto ao dragão (draco).164 Um texto anônimo do século V. mas isto também é muito pouco e precário para que se monte algo de consistente a 163 164 165 Tertuliano Ad Uxorem 1. os romanos. o dragão soprou seu hálito fétido no ar. e o quadro defeituoso no qual o comentário menciona o fragmento pode implicar que Medeia teve algum envolvimento no episódio. fala a respeito de virgens levando oferendas para o dragão no fundo da caverna em Roma até a época de Estilicão (portanto.165 6. na verdade. p.D. De Promissionibus. (?). PL 51. no final do século IV a.3 Atos de Silvestre A (1).835.NEA/UERJ permanecer celibata após a viuvez. Os Atos de Silvestre. então.C. sob o governo cristão de Constantino. 115 . como pode ser visto em descrito por Eumelo já desde meados do século VI a.

isto saúda o tema da própria carruagem de serpentes de Medeia. 168 Valério Flaco Argonáutica 7.203.355-643.168 Valério Flaco também coloca Medeia usando sua magia de um modo diferente contra os guerreiros nascidos da trerra: Jasão joga no meio deles. Lucano Farsália 6. O envolvimento de Medeia no episódio aparece de maneira segura somente a partir de Apolônio.23. os quais ela alega terem arrastado Ártemis pelos ares em sua carruagem até Pélias. Medeia usa suas drogas para conjurar fantasmas (eidōla) de dragões (drakontes). o qual Medeia havia imbuído de drogas mágicas. 488-91.106-8. 169 Valério Flaco Argonáutica 7. não uma pedra. 1246-67. mas o seu elmo. 172 E. 631-4. 166 167 116 . Ovídio Medicamina Faciei Femineae 39. aos Marsi.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em um episódio singular.401-21. sobretudo. 173 Lucílio Livro 20 F7 Charpin (575-6 Marx). 1176-1224. 171 Ovídio Metamorfose 7.173 Os Marsi viviam ao longo do lago Eumelo F 21 West = schol. [Apolodoro] Biblioteca 1.g.9.170 8. Em sua Argonáutica Medeia usa sua magia para criar uma poção que faça Jasão invencível para que ele possa lutar contra os touros-de-fogo e os guerreiros-de-terra.NEA/UERJ respeito166.51. como parte de sua elaborada descrição de Pélias.29.467-72. 170 Diodoro 4.169 7. 8. 1026-62. Medeia se torna a Angítia dos Marsi Ovídio já sabia que Medeia tinha o poder de fazer aparecer serpentes com seus encantamentos. desde a terra dos Hiperbóreos.71. Claramente. contemporâneo de Apolônio de Rodes. Virgílio Eclogues 8. Horácio Epodes 17.1354. As serpentes fantasmas de Ártemis Os longos relatos de Diodoro sobre as aventuras de Medeia são derivados dos trabalhos de Dionísio Scytobrachion.171 Embora outras bruxas similarmente possam ser atribuídas com as mesmas habilidades na tradição poética latina. Apolônio Argonáutica 3.167 Tanto Valério Flaco como (Pseudo)Apolodoro seguem Apolônio em relação a este aspecto. Apolônio Argonáutica 3.172 a habilidade de matar serpentes através de mágicas que as separassem ou as explodissem era originalmente associada.

174 Desde Sílio Itálico em diante. ou ainda. a Píton. ela decide que serpentes comuns não seriam suficientes para tal tarefa. e que. por tal razão. conta que Medeia veio aos Marrubianos (os Marsi cuja capital era Marruvium).175 Solino.C. De tal modo.. 117 . No entanto. alimentando uma serpente a partir de uma phialē ou patera. com a referida deusa. nós encontramos Medeia identificada de maneira muito próxima. faz de Angítia uma irmã de Medeia (e de Circe) que teria vivido pelo lago Fucino. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 7.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ‗a filha de Eetes‘.759-60. serpente). porém. portanto. e ensinou-lhes remédios contra as serpentes e como torturá-las (angerent). e. completa. e até mesmo restaurando a vida nas pessoas. Sílio Punica 8. Sêneca Medeia 684-705. em meados do século IV. causa pela qual eles a chamaram de Angítia (cf. 9. à serpente controlada por Ofiúco. foi a primeira a ensinar aos Marsi como anular o veneno das víboras utilizando-se de ervas e encantamentos. e que ela deveria assim também retirar a peçonha de cobras cósmicas e míticas. a bruxa é representada reunindo cobras a fim de coletar suas peçonhas para elaborar o veneno com o qual ela iria imbuir o vestido de Glauce. teria sido elevada à condição e status de uma deusa. A coleção de venenos para as poções mágicas Na Medeia de Sêneca. ao seu próprio dragão de Cólquida. Solino 2.176 Sérvio Honorato. ela pode também revocar Medeia em sua posição como aquela que fornece alimentos ao dragão de Cólquida. no final do século IV d. Angítia.750. tendo combatido doenças com sua arte de curar. onde se localizava o santuário de sua deusa especial.NEA/UERJ Fucino.177 Os poucos pobres fragmentos que sobreviveram da estatuária de Angítia sugerem que ela pode ter sido representada sentada ou em pé de modo semelhante a Higeia/Salus e deusa romana Bona Dea. também anguis.178 174 175 176 177 178 Virgílio Eneida 7. a Hidra. Ela recorre.27-9. Sílio diz que Angítia. e como domar animais venenosos tocando neles. é claro.495-99.

em certo nível.179 O que temos nesse caso.NEA/UERJ 10. a figura mitológica de Medeia muito proximamente se assemelha à de Atena. tem de pagar uma dívida para com a natureza‘. oferece um exemplo bem conhecido disto. 118 . Os mortos heroicos frequentemente se manifestavam sob a forma de cobras: a manifestação de Anquises em sua tumba. ao passo que o confinamento das serpentes de volta na tumba por parte de Medeia pode ser considerado como uma medida do mesmo tipo que o confinamento do ‗fantasma‘.95-6. Eurípedes Ion 987-96. cf. em forma de cobra. como uma manifestação do heroi morto Apsirto. Elas permanecem lá até hoje. ao invés de somente uma única serpente. assim.477.v μασχαλίσθηναι. Os habitantes locais estavam sendo oprimidos por uma multidão de cobras. Absoris e Apsirtos Nós dependemos dos escritos de Higino. Hyginus De astronomia 2. Com suas próprias mãos ela lutou contra a Górgona. Suda s. Respondendo aos seus pedidos.12 (citing Euhemerus). Atena repetitivamente combate monstros em formatos de serpente. e se alguma delas acaba saindo. onde seu irmão Apsirto foi enterrado.. para identificar a tradição que associa Medeia ao controle das serpentes de Absoris: ―Medeia pegou seus dragões e retornou de Atenas para Cólquida.182 a Aegis (a dupla de quimeras-dragões venenosas)183 e o 179 180 181 182 Hyginus Fabulae 26. uma praga de cobras. Por um lado. no século II d.180 A própria multidão de cobras que infestavam o local pode ser lida como um modo de expressar a ira e o descontentamento do assassinado Apsirto.181 11.C. Virgílio Eneida 5. Medeia reuniu todas as cobras e lançou-as dentro da tumba de seu irmão. Medeia e Atena Enquanto sendo uma compreensiva senhora de dragões. pode ser lido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apolônio Argonáutica 4. seu espírito) a dificuldades e impedimentos advindos do ‗maschalismos‟ ou esquartejamento. tal como consta na Eneida. Ao longo de sua viagem ela foi até Absoris. subjugando-os e destruindo-os de acordo com seus próprios interesses. em paralelo com a tradição na qual Medeia e Jasão sujeitam o corpo de Apsirto (e.

). 520-10 a. etc.274.C. 194 Virgílio Eneida 2.C. 314.).29-48.188 e. Ode Pítica 7. LIMC Gigantes 425 (c.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1992 (c. 120-2. 2010 (c. 2008 (c.C. 263-70). 460-50 a. Ferécides FGrH F11 Fowler.). Quinto Smirneo Posthomerica 12.VI a.C. 500-480 a. 186 Hesíodo Teogonía 313-18. 600-595 a.).). Jasão que mata o dragão de Cólquida.C. 192 LIMC Gigantes 311-12 (c. 1996 (565-50 a. 500-490 a. 187 Estesícoro F195 PMG/Campbell. LIMC Perseus 113. 193 Sófocles Philoctetes 1326-8 (cf.).).187 Belerofonte que mata a Quimera.).C. 585-75 a. 440 a.3. 35.C. 2005-6. 2000 (c. Ferécides 22ab Fowler. 183 184 119 . Kadmos i 7-9 (no.741-2. Em uma ordem estreita.C. Higínio Fábula 30.). cf. 2002 (c. 188 Píndaro Olímpio 13. 3. 550). 600-590 a. 590 a. cf. Pausânias 5. 2029 (c. Eurípedes As Fenícias 638-48 (com schol.C). 480-70 a.).6-26. 23 26a.). 190 Homero Ilíada 5.C.C. as evidências apresentam os seguintes herois: Perseu que mata a Medusa.).).C.C.) 428 (iv-iii a.190 o escudo-brasão de serpente191 e as serpentes que independentemente lutam ao seu lado na Gigantomáquia . 440-35 a.C. etc. 189 LIMC Iason 32 (c. LIMC Gigantes 389.C. 8 is ca.C.722.184 Mais frequentemente ainda ela fornece auxilio a herois que lutam contra figuras em formato de serpentes. 12. 185 Píndaro Ode Pítica 10.370-50 a. Helânico F51ab Fowler. da mesma forma. é claro.199-231 (com Sérvio ad loc. Lucano 9. 21. com schol.193 o par de cobras que (de acordo com Virgílio) ela manda contra Laocoonte e seus filhos194 e a serpente que Diodoro 3.44-7.). LIMC Herakles 1991 (c. Homero Ilíada 2. 440-30 a. 16 (ca. 2003-4 (c.666-70.444-97.).C.186 Cadmus que destroi a serpente de Ares em Tebas. 191 LIMC Gigantes 343 (final do séc.70. 530 a.C. 19. [Apolodoro] Biblioteca 3. c.C.NEA/UERJ gigante anguípede (com partes de serpentes). Atena aparece alinhada com serpentes que lutam em seu nome: assim é tal com as serpentes na Aegis que ela porta ou com a cabeça da Górgona incorporada a ela.1.63-6 e 84-90.11.17. Sérvio Sobre a Eneida de Virgílio 6. 151 (675-50 a.3-6 = Dionysius Scytobrachion FGrH 32 F8.) 24 (início do II d. 500 a. 1999 (c.4. LIMC Harmonia 1 (c.289.). 1990 (= Athena 11.).192 a serpente que guarda seu santuário na ilha de Chryse. Eustátio Sobre a Ilíada de Homero 2. Ésquilo Fórcides F261 TrGF. a taça de Douris) e 36.185 Héracles que mata a Hidra.C. 460 a.). 15 (= Harmonia 1). 132. 1995 (c..C. Tzetzes sobre [Lícofron] Alexandra 911.189 Muito frequentemente.).

certa vez.C. no tocante a uma possível informação a respeito de Erictónio. 197 Amelesagoras FGrH 330 F1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . parece até identificar como a própria deusa.C.561.14.7. Plutarco Temístocles 10.13.. 440-30 a. [Apolodoro] Biblioteca 3.NEA/UERJ ataca Ajax quando este tenta violentar Cassandra diante da estátua. Entretanto.). 195 196 120 .C. com os episódios relacionados a outras figuras mitológicas. 199 Pausânias 1. Erechtheus 30 (c.24.v. Hyginus Astronomica 2. Etymologicum Magnum s.198 a serpente que se enrosca abaixo de seu escudo na famosa estátua de Fídias no Partenon. tanto em suas narrativas como também na iconografia. 36 (c.v.).197 o oikouros ophis de Erectónio (mencionado antes).195 Na cidade de Atenas. se a Higeia de Asclépio/Esculápio realmente tiver suas origens no culto da Higeia da acrópole de Atenas. Ἐρεχθεύς. o anguipede (que possui a parte inferior do corpo tal como uma serpente). LIMC Kekrops 34. οἰκουρὸς ὄφις. possivelmente a ser identificada como a própria Atena (como um atributo ou um avatar) ou com o oikouros ophis ou com Erictónio. Conclusão A extensa natureza do envolvimento de Medeia com serpentes e dragões permanece única e intrigante como um todo. V a. Enquanto uma figura feminina especializada por um lado em controlar e domesticar amistosos dragões e por outro lado capaz de destruir dragões e serpentes.C.). 450-40 a. apresentam fortes paralelos.14. de fato. [Apolodoro] Biblioteca 3. Filarco FGrH 81 F72 = Fócio Lexicon s.). 200 Filóstráto Apolônio 7. Etymologicum Magnum s. ela acompanha ou preside um bom grupo de serpentes: Cécrope.v. 198 Heródoto 8.24. os episódios individuais das serpentes – ou dragões – de sua biografia.196 o par de serpentes que guardam Erictónio em seu peitoral. ―A deusa [Atena].41. LIMC Aglauros 19 (c.200 De fato. Aristófanes Lisístrata 758-9 com schol. 32 (final do séc. Ἐρεχθεύς.). Eurípedes Ion 16-28. a serpente que constitui o avatar de Higeia pode ter sido também de Atena. frequentemente.C. 500 a. 435-30 a. que Heródoto. Medeia traz uma ampla semelhança LIMC Erechtheus 47 = Aias II 42 (c. criou um drakōn entre os atenienses‖.199 E de acordo com Filóstrato. ela. Ovídio Metamorfose 2.

GAGGADIS-ROBIN. H. 1914. 289-320. Jason in Kolchis. por sua vez. LESKY. (eds.. pode também possuir certo débito à tradição da carruagem de Triptólemo. ‗Κουρὴ Αἰήτεω πολυφάρμακος: les images de Médée magicienne‘. a sua própria mitologia. 2006. 2 vols. mas. na forma pela qual a conhecemos. Princeton.1. identificada com a própria Angítia. 29-65. Medea. 75-71. 121 . ‗Medea πολυφάρμακος‘ CCC 2: 117–33.).). Higeia.J. Medea. GENTILI. Medéia. inclusive. V. B. CANDIDO. e S. J. que pode ter começado meramente como uma relação de reciprocidade. não obstante. a deusa-serpente dos Marsi. mito e Magia: a imagem através do tempo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1998. exercido um impacto sobre a tradição das Hespérides. A Commentary on the 4th Pythian Ode of Pindar. O. Johnston. Venice. T. The Myth of Medea and the Murder of Children. parece então ter sido influenciada pela figura de Higeia e pela tradição de Ládon e das Hespérides. na medida em que ela fornece a Jasão uma porção da invencibilidade contra a criatura. ‗Iason‘ RE ix. 1993. Paris. M. CLAUSS. M. Contudo. HEYDEMANN. A carruagem voadora arrastada por dragões pode ter suas origens em Medeia. A guide to literary and artistic sources.R. E. BRASWELL. não somente assemelhada como. Medeia foi. 1981. as Hespérides e Medeia podem todas. GRIFFITHS. funcionar como representativas de uma tradição antiga e contínua envolvendo virgens que cuidam de dragões. CORTI. GANTZ. 1993. Early Greek Myth. 1886. B. (eds. JESSEN. 1931. PERUSINO. Berlin. na qual ela era uma celebrada manipuladora de drogas.. Uma vez levada para a Itália. L. Medea nella letteratura e nell” arte. Cannibalisme et immortalité. 1997. In : Moreau e Turpin 2000:ii. A sua interação com o dragão de Cólquida. Westport CT. Rio de Janeiro. pode ter. L. F.. HALM-TISSERANT.NEA/UERJ estrutural com a deusa Atena.I. Referências Bibliográficas BELLONI. 2000. 2010. Halle. Baltimore. ‗Medeia‘ RE 15. 1988. A.K. Londres.

D. Magic. 407-63. ______. (eds. Euripides. H. 2009. New York. Medea. 1992. 1982. PARRY. M. 1990. SECHAN. A Sourcebook. Witches. VOJATZI. Thelxis: Magic and imagination in Greek myth and poetry. D. H. ‗Zum Bild der Medeia in der antiken Kunst‘ Klio 61. SCHMIDT.).NEA/UERJ Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae 1981-99. SIMON.1. Paris. Paris. 1992. A. 1990. 9 vols in 18 parts.‗La légende de Médée‘ REG 40. i. ______. E. Wizards and the Dead in the Ancient World. J.MULHERES NA ANTIGUIDADE .Montpellier. 1927. A. Würzburg. . J. ‗Die Typen der Medeadarstellungen in der antiken Kunst‘ Gymnasium 61. La magie. La magie dans la poésie latine. OGDEN. 629-38. MOREAU. Le va-nu-pied et la sorcière. 2008. 1980. 234-310. Le mythe de Jason et Médée.-C. TUPET. Cambridge.-M. 2002. Night‟s Black Agents. 4 vols. 1954. M. 122 .. Zurich e Munich. 1979. (LIMC) MASTRONARDE. Des origins à la fin du règne d‟Auguste. Rome. Lanham. MD. NEILS. TURPIN.1: 386-98. Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds. Medeia und die Peliaden.M. ZINSERLING-PAUL. 203-27. 2000. Frühe Argonautenbilder. ‗Medeia‘ LIMC vi. MEYER. 1994. Londres. L. V. 1976. ‗Iason‘ LIMC v.

especialmente durante o século XX. Observando ser uma quantidade expressiva de Professor de História Antiga da Universidade Federal de Ouro Preto. Azevedo202 ―Occidat inquit dum imperet‖203. nos quais Tácito relata acontecimentos do principado de Nero. Agripina tinha a suprema ambição de ver o filho governar. Nos livros XIII a XVI. que dá título à peça. apresenta um interessante distanciamento do modelo ideal de matrona romana.ª Sarah F. Bisneta. esta foi a resposta de Agripina aos Caldeus. estreada em 1709. 201 123 . e foi estudada largamente ao longo da história204. ver: WALLACE. considerada como um exemplum. foi dedicada a Agripina. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR). Para um exemplo notável destas reapropriações.NEA/UERJ INTERAÇÕES PESSOAIS E VALORES MORAIS EM TÁCITO: UM ESTUDO DE ALGUMAS PERSONAGENS FEMININAS Prof. Agripina é a principal personagem feminina na narrativa taciteana sobre o período neroniano. 1991. XIV. contamos 49 personagens femininas. A obra foi apresentada em uma sequência inédita de 27 aparições consecutivas e projetou seu autor na cena musical. Ela é a principal. Ela é retratada por Tácito como uma mulher ávida por poder. p. naturalmente. 3. Segundo o historiador Tácito. esposa e mãe de césares. 9. ambição que a fazia exceder os limites de sua natureza feminina. que tiveram como objeto Agripina e as outras mulheres da narrativa taciteana.3556-3574. mas que a mataria.‖ Ann. 204 Sobre a produção historiográfica. filha. Membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (LEIR) 203 ―Que me mate desde que reine. A figura de Agripina. 202 Mestranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. L. bolsista da UFOP. Fábio Faversani201 Prof. mas não é a única personagem feminina a figurar nos livros neronianos dos Anais. irmã. A personagem de Agripina não foi estudada apenas por historiadores. capaz de todos os tipos de perversidade para realizar seus intentos.ª Ms. quando foi consultá-los sobre o futuro de Nero e lhe foi revelado que Nero governaria. Dr. bastará dizer que a primeira ópera de George Frideric Handel (HMV6). A presente pesquisa conta com financiamento do CNPq.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

Deste modo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nem sempre apresentam comportamento com características viris205. 205 124 . 1992: 130-154. cf: BAUMAN. As personagens femininas. embora a percepção da divisão de espaços. Uma vez que as próprias fronteiras entre público e privado não representavam Muitas vezes a influência e participação das mulheres na política. 69. não há transgressão206. como por exemplo. mas também esta miríade de inserções de mulheres no relato de Tácito. feminino e doméstico ser de extrema importância. compreendemos também que o envolvimento delas com a política nem sempre é representado como uma transgressão. Mas. elas mereceram um lugar na narrativa por apresentarem um comportamento que pode ser louvável ou vituperado. a relação entre Agripina Maior e o exército romano em Anais. masculino e política em contraposição a privado. não é suficiente para uma compreensão pormenorizada da representação das mulheres na historiografia. I. considerando que elas eram peças do jogo político do império. por exemplo. Por isso. todas elas. é considerada como transgressão do comportamento feminino. (Sobre o envolvimento de Agripina Maior com a política e exército. gerar sucessores legítimos (e lutar para garantir seu sucesso) ou mesmo vir a se ligar à casa governante através de casamento com motivação política. O fato de mulheres demonstrarem comportamento com característica viris não representa.NEA/UERJ menções a mulheres.como. In: FELDHERR.) 206 MILNOR. notadamente da domus governante (que é o foco principal da narração taciteana). Desde que o envolvimento da mulher com a política permaneça no âmbito da domus e relacionado aos seus deveres com os membros desta. como por exemplo. como apresentada pelas fontes. 2009: 277. gêneros e funções . torna-se pertinente questionar as razões desta forte presença em uma narrativa historiográfica e analisar não apenas aquelas que ganham maior visibilidade na narrativa taciteana e nos estudos posteriores. no interior da qual elas possuíam funções relacionadas à política. Entretanto. em todos os casos. a relação entre público. Junte-se a isso também o fato delas aparecerem muitas vezes relacionadas a homens da domus a que pertenciam. denotam o caráter de exemplaridade. esta é uma definição básica da transgressão feminina. a sua inserção em um relato historiográfico é algo que não surpreende. Ou seja. ou seja. uma transgressão.

como por exemplo. quase sempre associada a personagens ou eventos de valor negativo. estão relacionadas a homens virtuosos. por vezes negativo e. apresenta valor por vezes positivo. ou seja. outros tipos de relações perpassam este campo e se fazem importantes para o entendimento da presença de mulheres nos Anais. como veremos. Vale ressaltar que a maior parte dessas personagens de ocorrência única no texto apresenta virtudes. não por acaso. que não são fixos e delimitados como campos apartados e nitidamente separados que se definem pela relação de um com o outro. Muitas delas. embora considerada ícone da transgressão. notamos que 29. em outros casos. Estas personagens femininas aparecem associadas a personagens masculinas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois Tácito também faz associações entre personagens femininas com objetivo de ressaltar vícios ou virtudes de uma determinada mulher. a figura feminina mais frequente na narrativa. Em outras palavras. com um claro objetivo de evidenciar algum aspecto destas últimas. Ademais. Percebemos que. aberta a negociações e a sobreposições. frente a homens que deveriam estimular tal comportamento. quando personagens femininas apresentam virtudes que não são próprias de sua natureza.NEA/UERJ uma linha. Procuramos identificar quais os efeitos dessas associações na narrativa. aparecem somente uma vez na narrativa. nossa análise aqui não se centra exclusivamente na relação entre masculino e feminino. é mencionada em 31 capítulos. Já Agripina. 59%. e não é utilizado somente para caracterizar personagens masculinas. O nosso principal objetivo neste texto é tentar compreender como Tácito fez uso de associações entre personagens. Dentre estas 49 personagens femininas que são mencionadas por Tácito ao longo do relato do principado de Nero. Analisaremos também questões relativas à participação das mulheres na política imperial. mas uma ampla e muitas vezes pouco clara área. o mesmo pode se dizer para os espaços da política que podiam ser o fórum e a domus e os papéis masculino e feminino. Este recurso retórico é muito comum na narrativa taciteana. mais do que o estudo de cada personagem isoladamente. Tácito as caracteriza também pela 125 . pois. mas não o fazem. A própria figura de Agripina. ambivalentes. foram inseridas na narrativa com efeito de auxiliar na caracterização de uma outra personagem. partindo das personagens femininas. para além das características individuais das personagens.

Além dessas.NEA/UERJ associação ou dissociação entre personagens (masculinas ou femininas) e os vícios e virtudes de suas respectivas naturezas. Tratamos como menos visíveis as personagens femininas a que Tácito faz menção entre uma e quatro vezes durante o relato. esposa de Rubélio Plauto. analisaremos neste texto apenas alguns episódios envolvendo as personagens femininas ―menos visíveis‖. as características das personagens e a construção dos exempla decorre muitas vezes de como as personagens são colocadas em interação. elas foram intencionalmente inseridas no relato em momentos ideais. como se ligadas umas às outras. 34. ou seja. Ann. que também o acompanhou. Dentre estas. Elas acompanharam os maridos no desterro depois de eles serem acusados de envolvimento na conspiração pisoniana. de maneira que. 71. Comecemos pelas personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa. identificamos dois tipos paradigmáticos: Primeiro temos aquelas que constituem exemplos de mulheres fiéis e leais aos maridos e em segundo lugar temos aquelas que sofreram injustiças. 207 208 126 . XIV. Ou seja. XV. 22. temos Antístia208. XVI. temos Árria Menor209. Acompanhar o marido no desterro é um comportamento louvável. Em outras palavras. destacam-se: Antonia Flacila e Inácia Maximila207. quando ele foi forçado a sair de Roma. esposa de Traseia Peto. Assim. Muitas aparecem em determinados momentos da narrativa com função de evidenciar as virtudes ou vícios de outra personagem. 209 Ann. mulheres virtuosas que foram acusadas injustamente. uma personagem pode ser mostrada como virtuosa ou viciosa quando associada ou se afastada de uma personagem antes mostrada como virtuosa ou viciosa. Dentre as mulheres leais aos maridos. esposas de Nónio Prisco e Glício Galo. como já ressaltamos acima. Por fim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Elas não são menos importantes no sentido de necessariamente terem um papel menor no relato e também não necessariamente gozam de uma posição social menos destacada. em razão do espaço disponível para a apresentação do estudo. Ann. Para explorar esta hipótese. auxiliam na caracterização de outras personagens. que quis imitar a mãe e morrer com o marido.

No entanto. Tácito menciona os nomes de cada uma destas esposas leais 210 211 Tradução nossa. 3. Acresça-se que neste caso. Traseia negou esta glória a Árria. equiparando seu fim com as mortes gloriosas dos antigos. ―Peto. escravos cuja lealdade fora contumaz mesmo diante dos maiores tormentos. homens ilustres que toleraram corajosamente as circunstâncias derradeiras. Plínio. constantes generi. 13.210 Tácito emprega o topos da mulher leal com o claro objetivo de evidenciar as virtudes do marido. o que não interferiu na reputação elevada do casal. não dói‖. non dolet‖211. além de sua sobrevivência ser também prova de sua lealdade (já que obedeceu ao marido. além de perpetuar a imagem da mulher honrada. indica que estas mulheres representam bona exempla: Non tamen adeo uirtutum sterile saeculum ut non et bona exempla prodiderit. famosa pela frase ―Paete. mas sua lealdade vai além. ela logo demonstrou desejo de morrer junto ao marido e imitar o exemplo de sua mãe. esposas seguiram os maridos no exílio. Suicidar junto ao marido é a prova máxima da lealdade de uma esposa. Ep. 127 . parentes corajosos. Entretanto.NEA/UERJ sendo que Tácito. no prefácio das Histórias. faz aumentar a glória deste. ipsa necessitas fortiter tolerata et laudatis antiquorum mortibus pares exitus.16. contumax etiam aduersos tormenta seruorum fides. o século não foi de tal forma estéril que não produzisse bons exemplos: mães acompanharam os filhos proscritos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ambição). a mulher se torna testemunha viva da injustiça sofrida pelo marido. poderia persuadi-la a continuar viva). Comitatae profugos liberos matres. secutae maritos in exilia conuiges: propinqui audentes. foi persuadida por Traseia. que lhe pediu que continuasse a viver para não deixar a filha desamparada. Vejamos o exemplo de Árria Menor: ela não acompanha o marido no desterro. supremae clarorum uirorum necessitates. Ou seja. Árria Maior. uma vez que a preservação da própria vida é apresentada como um sacrifício maternal. o único que. Quando Traseia Peto foi condenado por envolvimento na conspiração pisoniana. as virtudes dele é que fazem surgir na esposa o sentimento de lealdade e superar os inatos vícios femininos (luxúria. vaidade. genros perseverantes. neste dilema.

Ambas morreram no desterro na época de Cláudio. que também foram desterradas. O sofrimento de Octávia é comparado ao de Agripina Maior217 e Júlia. apenas para narrar suas ações de lealdade.NEA/UERJ somente uma vez durante todo o relato. recebeu ordem para morrer depois de ser falsamente acusada. condenada ao desterro por Cláudio (sob influência de Messalina). foi persuadida a se matar por intrigas de Messalina. Calpurnia. Agripina Maior e Júlia aparecem somente no capítulo 63 do livro XIV. Vejamos. Elas aparecem em um determinado momento da narrativa. 43. que foi condenada ao desterro por Tibério. quando Tácito narra as falsas acusações de Nero contra Octávia e seu desterro para a ilha Pandatária. Tiberius. evidencia tais virtudes.2. Lólia Paulina215. o foco da narrativa. filha de Druso. de Ann. 212 213 128 . XIV. Elas auxiliam na construção da imagem de outra personagem feminina. Diferente das esposas leais. 214 Ann. possivelmente para a mesma ilha que Octávia. ou Júlia. neste momento. 63. por ter aproximadamente 20 anos. A lealdade das esposas. associada a estes. é a injustiça sofrida por Octávia. XII. 217 Sobre o desterro de Agripina Maior para esta ilha: SUETONIUS. todos os maridos destas esposas leais são homens de virtudes. 12 215 Ann. Não por acaso. e ser mais jovem que Agripina Maior e Júlia. destacamos: Agripina Maior212. XIV. 1 . XI. 2.MULHERES NA ANTIGUIDADE . XIV. ver: Ann. 216 Ann. filha de Germânico. Ou seja. Júlia213. (mãe de Popeia. XIV. 53. 12. destas. outra vítima de Agripina Menor. Tácito não especifica se é Júlia. inspirava ainda mais compaixão. quando o historiador pretende exaltar a virtude de alguma personagem masculina. 22. e Popeia216. Para o relato da acusação contra Calpúrnia e Lólia Paulina. Ao comparar. 63 Ann. ver: Ann. XIII.214 também condenada ao desterro por Cláudio (agora sob influência de Agripina Menor). estas mulheres que sofreram injustiças estão diretamente associadas a outras mulheres. Tácito ressalta que Octávia. a segunda esposa de Nero). Sobre a intriga de Messalina para matar Popeia. O segundo tipo de personagens femininas de ocorrência única e positiva na narrativa são as mulheres que foram acusadas injustamente.

e Lólia Paulina. Agripina não é uma má esposa por si. Estas ações de Nero visavam mostrar sua clemência. Elas foram acusadas no ano de 49218. Portanto. O efeito das interações entre as personagens se reforça uma vez mais. elogiada por Cláudio. e Calpúrnia foi. Tácito não menciona qual foi a acusação contra Calpúrnia. e foi sentenciada à morte. além de serem personagens de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos. para a qual o príncipe permitiu que erigissem um túmulo para as suas cinzas. durante a narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio. Lólia Paulina foi uma das concorrentes ao casamento com Cláudio. e deste modo. Lólia Paulina foi acusada de consultar adivinhos sobre as núpcias de Cláudio. certa vez. Já Calpúrnia e Lólia Paulina são personagens que fazem tornar evidente a crueldade de Agripina. percebemos que as personagens Calpúrnia. As razões femininas de Agripina e as sentenças sofridas pelas acusadas revelam a crueldade de Agripina. ao mesmo tempo agravar o sentimento de aversão a Agripina.219 Nos dois momentos da narrativa em que Tácito A fim de compreender o motivo da inserção destas mulheres na narrativa dos Anais durante o relato dos acontecimentos do principado de Nero (livros XIII a XVI). Tácito narra estas acusações no capítulo 22 do livro XII. que foi chamada do desterro. e a razão dela para querer eliminar essas mulheres era apenas o ciúme. elas aparecem uma vez na narrativa sobre o principado de Cláudio. e. (Ann. Cláudio ao abrigar as acusações injustas e usar de seu poder para fazê-las prosperar estimula o perfil negativo da sua esposa. depois da morte da mãe. dentre elas estava Calpúrnia. O César proferiu as acusações frente ao senado. Nero perdoou algumas vítimas de Agripina. além de demonstrar a influência que ela exercia sobre Cláudio. 219 “Ceterum quo gravaret invidiam matris eaque demota auctam lenitatem suam testificaretur”. faz realçar mais o caráter virtuoso de Octávia. mas sua sentença foi o desterro. resolvemos retroceder um pouco. Tácito relata que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ou seja. também aparecem uma vez na narrativa dos acontecimentos do principado de Cláudio (livros XI e XII). O historiador recoloca essas duas mulheres na narrativa apenas no livro XIV.NEA/UERJ modo que o contraste com outras mulheres de virtude. Lólia Paulina. XIV. As acusações foram forjadas por Agripina. que sofreram injustiças semelhantes. 3) 218 129 . 12. e uma vez durante o principado de Nero. já no início do casamento. o mesmo ano do casamento de Cláudio e Agripina.

60. XIV. LXII 13. já havia sido morta neste momento do relato. quanto a crítica àqueles que a estimulavam. XIV. Tácito retoma o episódio no livro XIII. Nero a acusou falsamente de adultério e mandou submeter à tortura todas as suas escravas. Entretanto. enquanto outras foram persistentes em afirmar a inocência da ama. Suílio. 60 e 62. Seguindo esta mesma lógica. a lembrança do episódio. capítulo 43. Messalina. Analisaremos agora as personagens femininas que foram mencionadas entre duas e quatro vezes nos livros neronianos. Como exemplos. por ser aliado de Messalina. Algumas delas também auxiliam na caracterização de uma personagem de maior visibilidade na narrativa. tanto o elogio dos que se opunham a seus desmandos. fizeram confissões que poderiam comprometer Octávia. durante o relato dos acontecimentos do principado de Cláudio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . neste momento da narrativa. é mencionada em três capítulos: Ann. dizendo-lhe que até as partes íntimas de Octávia eram mais puras que a boca dele224. notamos que a personagem de Popeia. Segundo Esta Popeia é personagem de ocorrência única na narrativa dos livros neronianos dos Anais. através de seus atos cruéis e. 4. e uma delas era estar envolvido na morte de Popeia. Uma das escravas. 223 Tácito não cita este nome. a intenção é clara: a caracterização de Agripina. também aparece na narrativa com função de evidenciar a crueldade de Messalina. 222 Ann. a escrava desleal de Agripina. 3-4) 220 130 .NEA/UERJ menciona Calpúrnia e Lólia Paulina. quando relata as acusações feitas a P. serve mais para incriminar Suílio do que para caracterizar Messalina. que. 221 Ann. 224 ―…ex quibus una instanti Tigellino castiora esse muliebria Octaviae respondit quam os eius. aliás.‖ (Ann. demonstrou lealdade de tal maneira que chegou a insultar o torturador. XIV. a escrava leal de Octávia. XI. e Acerrônia222. Para se separar de Octávia. As intrigas da imperatriz são narradas no início do livro XI220. por decorrência. citamos Pythias221. Tácito narra que algumas. Deste modo. neste ponto do relato. 1-2. devido à dor. mas o encontramos em Dio Cassius. 4. Devemos atentar para o sentido deste nome: Pythias remete a um modelo de amizade verdadeira. mãe da segunda esposa de Nero. História Romana. a qual Dio Cassius nomeia Pythias223. já estava estabelecida. 5-6.

modelo virtuoso. a personagem de Epícaris é utilizada para gerar uma contraposição de comportamentos227. mas promovem uma nova realidade para além das individualidades. MURNAGHAN. ela também aparece duas vezes na narrativa226. Um outro exemplo interessante relacionado à lealdade de libertos é o da liberta Epícaris. Nesta perspectiva. porque além dos tripulantes terem se atrapalhado no momento do naufrágio. ficou calada e se pôs a nadar até a margem. XV. Acerrônia. gritou que ela era Agripina. enquanto a que apresenta vícios está associada à Agripina. então. Interessante notar. 51 e 57. uma existência virtuosa ou viciosa. Acerrônia. a liberta foi PARKER. 167. percebendo toda a trama. Ann. fazem parte do exemplum que o senhor representa. 1998.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 225 226 131 . ambicioso e desleal. nos exempla de escravos leais. Em contraposição. Assim. simplesmente o fazem. Acerrônia acompanhava Agripina na embarcação que Nero mandou construir para forjar um naufrágio. Agripina. Pythias é um exemplo claro de personagem que foi inserida na narrativa para evidenciar as virtudes de Octávia. que a escrava que apresenta virtudes está associada à Octávia. pois assim a morte da mãe teria aparência de acidente. Mas seu ardil levou a que fosse morta de imediato por golpes de remos e outros objetos navais. Envolvida na conspiração pisoniana. os inferiores não são constrangidos a agir bem ou mal. portanto. ou seja. mas criam em seu conjunto. a escrava de Agripina. Como as escravas de Octávia e Acerrônia. Pessoas virtuosas geram coletivos virtuosos.NEA/UERJ Holt Parker225. modelo vicioso. apesar de terem ficado presas debaixo da armação de um leito. O plano de Nero falhou. as virtudes apresentadas pelo escravo se tornam uma testemunha do bom caráter do senhor. especialmente se elas são superiores hierárquicos e têm poder sobre a ação alheia. imaginando que isto faria com que a salvassem primeiro. 227 DAITZ. p. Deste modo. as interações não só reforçam as características individuais. Mas em Tácito. As interações não são circunstâncias isoladas. In: JOSHEL. como temos visto. 1960: 48. apresenta raciocínio servil e. num ato de esperteza. Agripina e Acerrônia conseguiram se salvar. as histórias de virtudes de escravos são devidas à fama do senhor e reforçam a imagem deste. mas diferente daquelas.

lhe aconselhou o pior. que sem sofrer tortura alguma.‖ Um exemplo típico deste tipo de comportamento seria o liberto Milicho231 e sua esposa.) 229 Como já ressaltamos. resolveu pedir conselhos a sua esposa.228 Os escravos leais. 230 JOLY. no caso dela. descobriu que seu patrono estava envolvido na conspiração pisoniana.MULHERES NA ANTIGUIDADE . denunciavam aqueles que lhes deviam ser caros. 2. at praemia penes unum fore. Milicho. 54-55. uma das principais características do que poderíamos denominar de uma „racionalidade servil‟ é a conduta pautada pela satisfação de interesses pessoais do escravo. e muitas vezes perverte estas mesmas regras. 231 Ann. significa uma transgressão. XV. 232 “Etenim uxoris quoque consilium adsumpserat muliebre ac deterius: quippe ultro metum intentabat.‖ (Ann. 57. Agripina é exemplo de ambição excessiva e extremada. pois lhe disse que se ele fosse o primeiro a ―clariore exemplo libertina mulier in tanta necessitate alienos ac prope ignotos protegendo. XV. Esta ambição é caracterizada pela busca de vantagens pessoais.NEA/UERJ submetida à tortura e preferiu suicidar ao invés de denunciar os conjurados. cum ingenui et uiri et equites Romani senatoresque intacti tormentis carissima suorum quisque pignorum proderent. qui eadem viderint: nihil profuturum unius silentium. Tácito compara a conduta dela. ao adotar um comportamento excepcional. Agripina é uma personagem marcadamente ambiciosa.‖ (Ann. assim como as esposas leais. 2003: 71. Sem ter na respublica uma via de ascensão e distinção sociais. demonstram a superação de sua natureza. XV. já que recomendou ao marido que denunciasse o patrono232. equestres e cidadãos romanos. 4) 228 132 . Tácito narra que ela. multosque adstitisse libertos ac servos. A ambição e o individualismo são características próprias da condição servil. qui indicio praevenisset. Esta ambição a faz superar sua natureza feminina. que na condição de liberta e mulher foi muito mais leal que senadores. 54. como mulher. se o denunciava ou não. mulheres e escravos construiriam mecanismos de promoção que desconsidera as regras cívicas. Escravos e mulheres geralmente são caracterizados tendo a ambição como um vício em comum.229 Como bem nos lembra Joly230: ―Para Tácito. e também fazem parte da natureza feminina. liberto de Cevino. no início do texto. O argumento usado pela mulher para convencer o esposo demonstra sua ambição e individualismo. Em dúvida. o que.

1998: 87-93.MULHERES NA ANTIGUIDADE . enquanto escravos eram algumas vezes designados pueres (meninos). reservada ao paterfamilias. o direito à propriedade conferia certa autonomia às mulheres. incluindo a possibilidade de ela ser proprietária até mesmo de uma domus. os ganhos seriam maiores.NEA/UERJ denunciar. Milicho. 2001: 95. Mas o que melhor demonstra as diferenças entre escravos e mulheres do ponto de vista estatutário e jurídico é que as esposas podiam ter escravos. predominam ações pautadas em uma lógica egoísta em detrimento de uma lógica altruísta. A denúncia se dá porque ambos acreditam que ninguém atuará eticamente. mas que se faz ausente no escravo. o denunciou. cf: POMEROY. pois apesar de possuir honor. o que denota a ausência de dignidade adulta e julgamento independente. 1995: 149-163. enquanto Sobre os princípios legais da autoridade do paterfamilias sobre a mulher e as práticas sociais das mulheres da elite. Entretanto. como também o controle sobre os residentes desta. que é reconhecida na materfamilias. importante lembrar que o direito romano não a reconhecia como ‗chefe‘ de família. claramente. As diferentes relações estabelecidas por mulheres e escravos com seu paterfamilias fazia com que suas condições sociais fossem desiguais. Embora estejam inseridos em um quadro jurídico de inferioridade em relação a seus esposos e senhores. O autor demonstra esta diferença através da análise de alguns hábitos cotidianos domésticos relacionados ao campo linguístico. Todavia. obedecendo aos deveres da ―amizade‖. ela não detinha a potestas (autoridade). 235 DIXON. o fato da mulher ser respeitosamente chamada domina (Senhora). igualmente ambicioso e desleal ao patrono. escravos e mulheres não devem ser considerados como agentes equivalentes. 234 SALLER. Práticas jurídicas também demonstram esta assimetria. Mas é importante ressaltar que apesar de apresentarem semelhanças em suas caracterizações. como por exemplo. 233 133 . considerando tanto a casa. Aqui. como o fato da mulher ter direito à propriedade. Richard Saller aponta que a base da distinção entre mulheres e escravos está na ideia de honor (honra)234. fazendo até com que algumas delas pudessem ser reconhecidas como patronae235. propriedade física. as noções de deveres e obediência com aquele que possui a tutelas destes eram diferentes233.

que. 21 e 22. Para produzir essa intriga e fazer a notícia chegar até Nero. devido às conexões que poderiam estabelecer com o centro de poder. e sem filhos. tinha acesso à casa imperial. Essas personagens com menor visibilidade. Inimigas de Agripina. devido à ausência de herdeiros masculinos e. como também podem nos ajudar no entendimento de questões relacionadas à presença das mulheres na política romana. RODRIGUES. Tácito a menciona em quatro capítulos na narrativa236 sobre o período neroniano. XIII. Domícia parece não ter sofrido punição. Deste modo. segundo. Estas duas personagens são importantes na medida em que nos permitem mapear a extensão de algumas redes de influência encabeçadas por mulheres237. XIII. XIV. 238 Ann. as relações que esposas e escravos estabelecem com os senhores são claramente distintas. Agripina conseguiu provar sua inocência. uma mulher rica. viúva. 2008: 291. Na dinastia Júlio-Cláudia as mulheres foram peças políticas essenciais na sucessão de poder. dentre eles estava o liberto Páris. e Júnia Silana foi desterrada. mencionadas entre duas ou quatro vezes no relato. não só auxiliam na compreensão do processo de caracterização de uma personagem mais destacada na narrativa. primeiro. elas contaram com o auxílio de clientes e libertos. é de se esperar que esposas conquistem um espaço mais destacado nas domus e sejam mais impactantes nas suas intervenções fora deste ambiente doméstico. Nos capítulos 19. Um exemplo é Júnia Silana. 12. Ao mesmo tempo.19. Júnia Silana aparece associada à Domícia. principalmente através de Ann.NEA/UERJ escravos não podiam ter esposas (no máximo estabeleciam conubium com o consentimento de seus senhores). tia de Nero. Um exemplo destacado e que já mencionamos é a legitimidade política transmitida ou reforçada por elas. segundo Tácito. 19.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A presença de personagens femininas em uma narrativa histórica pode ter vários motivos. estas duas mulheres aparecem no relato relacionadas a uma denúncia de falsa conspiração na qual Agripina estaria envolvida238. 21 e 22 do livro XIII. e nos leva a refletir sobre as modalidades do envolvimento das mulheres em assuntos políticos. 236 237 134 .

Como nos lembra Corbier243. Claudii Caesaris filia. Tácito deixa claro que a intenção dos conjurados em fazer com que a filha de Claudio acompanhasse Pison era obter aprovação do povo através da presença de uma representante da gens Cláudia como garantia de continuidade242.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o casamento de Nero com Octávia. como por exemplo. LEVICK: 187. Cláudio. Vale lembrar que as duas filhas de Cláudio. através das quais o César mantinha uma conexão com Augusto.comitante Antonia. Retomando as personagens com menos visibilidade. 242 ―.. Aelia Paetina. por exemplo. 53. mandou divinizar Lívia240. Curiosamente. Claudia Antonia e Claudia Octavia. In: HAWLEY. 239 240SUETONIUS. 135 . logo depois dele já ter sido adotado por Cláudio. o prestígio destas matronas foi. 3-4) 243 CORBIER. filha de Claudio e sua primeira esposa. 241 Ann. sua avó. relacionada a uma falsa denúncia de conspiração. Ela aparece pela primeira vez no livro XIII. ad eliciendum vulgi favorem. ela aparece mais uma vez relacionada a uma conspiração. Claudia Antonia iria acompanhar Pison na apresentação que fariam dele. de certo modo. depois da pretendida morte de Nero.NEA/UERJ casamentos e filhos. no livro XV. LEVICK: 178. XV. elucidativas. receberam os nomes da mãe e avó materna de Cláudio.. a personagem de Claudia Antonia confere legitimidade a um possível César. depois de sua ascensão.. 53. 2. que pretenderiam transferir o império a Cornélio Sula. na qual foram acusados de envolvimento Palas e Burro. De acordo com os planos da conspiração pisoniana. XIII. são.‖ (Ann. Nos dois momentos em que aparece durante a narrativa. pois ela representava a conexão direta dele com Augusto. percebemos que as duas menções que Tácito faz de Claudia Antonia241.. Os imperadores desta dinastia procuravam legitimar o seu poder estabelecendo uma relação direta com Augusto. In: HAWLEY. Casamentos também serviam para aumentar a legitimidade do César. sobre este ponto. ex-marido de Claudia Antonia. XI. 23 e XV. além da avó paterna Lívia. Claudius. transmitido para as filhas de Cláudio através dos nomes. o que explica a recorrência CORBIER. e muitas vezes esta ligação se deu através das mulheres239.

estabelecendo. A fronteira entre masculino e feminino não pode ser representada por uma linha e tanto menos entendida como um jogo de soma zero. Complete Letters. The younger. ricas ou pobres. Paris : Société d‘édition ―Les Belles Lettres‖. uma análise sistemática das menções a estas se faz importante. 1925. TACITE. pois permite o entendimento de processos retóricos de caracterização de personagens. (Loeb Classical Library). Ademais. É relevante para o estudo de Tácito o entendimento dos princípios éticos em que estavam pautados os exempla. Translated by P. v. Translated by J. portanto. XIV. uma vez que além de mulheres. 244 Ann. 1989. v. Translated by Earnest Cary. 2 vv. (Loeb Classical Library). Oxford: Oxford University Press. Roman History. Dio. SUETONIUS. Cambridge: Harvard University Press. Uma condição ética positiva ou negativa surge muito mais como resultado de interações do que como resultado de convicções ou ações ―absolutas‖ individuais sem relação com o ambiente onde ocorrem e com os outros indivíduos que comparecem às cenas construídas por Tácito. como indivíduos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Lives of the Caesars. Histoires. 60-61. 1951. fazendo uso de personagens femininas. DOCUMENTAÇÕES TEXTUAIS CASSIUS. Rolfe. Texte établi et traduit par Henri Goelzer. como identidades se construindo em oposição. 2006. além de denotar os meios utilizados por Tácito para.NEA/UERJ dos conspiradores a Antônia e a revolta do povo quando Nero se separou de Octávia244. todo um escopo de relações que transpõem aquelas que são próprias do campo masculino-feminino. Concluímos que para o estudo das personagens femininas nos Anais. as relações entre masculino-feminino não se dão em contraste apenas. 8 PLINY. na medida em que podemos perceber quais eram as virtudes e os vícios que estas personagens ressaltavam nas suas relações e não em si mesmas. Para esta análise das personagens femininas se mostra desafiador ir além das relações de gêneros. G. elas são também aristocratas ou escravas.C. construir um imagem da política imperial como sendo dominada pelas grandes casas.1. como pudemos observar. de Tácito. Cambridge: Harvard University Press. 136 . Walsh.

Whores.69-156. In: JOSHEL. 1995. In: FELDHERR. ANRW II 33. London: Routledge. (Loeb Classical Library). RODRIGUES.149-189. CORBIER. núm. PARKER. Women and politics in Ancient Rome. 1960. Andrew (ed. pp. Tacitus‘ Technique of Character Portrayal. 81. Cambridge: Cambridge University Press. Cambridge: Harvard University Press. 2001. São Paulo: Edusp. 2008. SALLER. v. Kristine Gilmartin. Male power and legitimacy through women: the domus Augusta under the Julio-Claudians. JOLY. Tácito e a metáfora da escravidão. and MURNAGHAN. Stephen G. The Roman Matron of the Late Republic and Early Empire. Sheila (ed. 1903–1986. Sarah B.NEA/UERJ TACITUS. Gerión.). pp. Richard and LEVICK. and Slaves: Women in Antiquity.178193. New York: Shocken books. and MURNAGHAN. 30-52. Women in Antiquity: New assessments. Richard. 1991. v.87-93. Madrid. Symbols of gender and status hierarchies in the roman household. pp. Sandra R. p. Reading the Public Face: Legal and Economic Roles.281-295. London: Duckworth.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Women in Tacitus. In: JOSHEL. Agripina e as outras: Redes femininas de poder nas cortes de Calígula. DIXON. Loyal slaves and loyal wives: the crisis of the outsider – within and roman exemplum literature. Suzanne. Women in Roman Historiography. In: HAWLEY. 1995. The American Journal of Philology. 1998. pp. 1937. DAITZ. Wives. In: Reading Roman Women. 2003. 1992. 2009. 137 .5: 3556–3574. Sandra R.157-178. p. MILNOR. Fábio Duarte. Barbara. WALLACE. London: Routledge.276-287.). Sheila (ed. The Cambridge Companion to The Roman Historians. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. Nuno Simões. Mireille. London: Routledge. Annals. In: Goddesses. Richard. POMEROY. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. 1998.).1. 26. Holt. Kristina. pp. Translated by John Jackson. Cláudio e Nero. London: Routledge. Women and Slaves in Greco-Roman culture: Differential Equations. pp.

ENTRE A ESPOSA BEM-NASCIDA E A CORTESÃ. as cenas que representam o trígōnon. Dr. A arqueoorganologia é uma especialização arqueológica que se dedica ao estudo dos vestígios materiais. Professor de História Antiga. uma harpa de forma triangular. 245 246 138 . segundo testemunhos arqueoorganológicos246 e iconográficos das harpas com ornamento em forma de cabeça de touro (Figura 1 e 2). registrada desde os primórdios da civilização suméria. REGISTROS LITERÁRIOS E ICONOGRÁFICOS EM DESCOMPASSO? Prof. retratando mulheres com instrumentos musicais no gineceu. de instrumentos musicais pré-históricos e históricos. salvo entre as Musas. pela sua singularidade. parciais ou integrais. instrumento completamente ausente de qualquer outro contexto na pintura vascular ática. De acordo com o registro arqueológico. a harpa inclui-se entre os mais antigos instrumentos musicais de cordas nas regiões mediterrânica e levantina. da Universidade Federal de Pelotas. Fábio Vergara Cerqueira245 Ao estudarmos a série iconográfica de pinturas de vasos áticos de figuras vermelhas da segunda metade do século quinto.NEA/UERJ A HARPA E A HARPISTA EM ATENAS NO FINAL V SÉCULO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . chamam-nos a atenção. no terceiro milênio antes de nossa era.

Acredita-se que este objeto. ― uma caixa de madeira. Proveniente das tumbas reais de Ur. Museu Britânico. Fonte: SPYCKET. Conforme Kátia Pozzer (2007: 147. onde foram incrustados fragmentos de lápis-lázuli. 1989 : 32-33. 247 139 .2). fig. conchas e calcário vermelho. inv. mostra harpista animando banquete (detalhe). Meados do terceiro milênio. Museu Britânico. Proveniente de um dos três túmulos do Cemitério Real de Ur. Figura 2 – Face da Paz do Estandarte de Ur247. Fonte: SPYCKET. Londres. 121199. em forma de cabeça de touro. serviria como uma caixa de ressonância para um instrumento musical. com duas faces: a Face da Guerra e a Face da Paz.NEA/UERJ Figura 1 – Harpa de Ur. A Face da Paz representa a realização de um banquete com as diversas etapas de sua preparação‖. medindo 47 cm de comprimento e 20 cm de altura. datado de 2600 a 2400.MULHERES NA ANTIGUIDADE . recoberta de betume. Londres. 1989: 34-35.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Figura 3 – Estatueta de Harpista Museu Arqueológico Nacional de Atenas. É de se imaginar que sua inserção na Atenas clássica deve ter sido interpretada como mais uma renovação entre os vários modismos trazidos pela Nova Música introduzida e desenvolvida precipuamente por músicos vindos da Grécia do Leste. 140 . Alceu.C. Eles mencionavam duas formas de harpa denominadas paktís (no dialeto lesbiano e no dórico) ou pēktís (no jônico-ático) e mágadis. Proveniente de Keros. de fato. para o grego da Ática ou Grécia balcânica do século quinto. ao final do século sétimo. inv. Parece-nos irônico que ela pudesse ser vista como novidade nesta Atenas que queria ser vista como tão cosmopolita. como um estrangeirismo. uma vez que as referências literárias gregas a este instrumento remontam à lírica arcaica. Mármore de Paros.NEA/UERJ Os indícios arqueológicos apontam também que já era utilizada no espaço cultural do Egeu desde um período tão recuado quanto a civilização cicládica (2800-2300) e minóica (Minoano Médio II: 19001700) (Figura 3). mesmo nestes autores. Apesar dos quase três mil anos de história desse instrumento nas regiões circunvizinhas à Grécia. Mas. a Safo.). Anacreonte e Píndaro. sendo registrado na cerâmica ática apenas a partir da segunda metade do século quinto. Cicládico Recente II (cultura KerosSyros. 2800 a 2300 a.Fonte: Foto do autor. esse instrumento aparecia como uma novidade. 3908.

p. A cultura grega do período clássic o. por sua vez. o termo psaltría. como apontam os textos antigos e a iconografia dos vasos áticos. Mitteilungen des deutschen archäologischen Instituts. uma delas ou as duas devendo ser identificadas com a pēktís. não angular. que designa o ato de fazer soar as cordas com os dedos. conferiu à mulher a atribuição de tocar esse instrumento. a Linos O texto de referência mais detalhado sobre a harpa grega continua sendo: HERBIG. requintes orientais. a Tamiras. associado a Orfeu. apontados ambos também como pai dele. Heinhard. 1992: 70-74. dispensando o uso do plêktron. bem como a personagens lendários notabilizados como músicos. 164-193. 248 141 . como membro da confraria musical divina. supostamente alheios à tradição organológica grega tida como nacional.NEA/UERJ constavam como instrumentos estrangeiros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Os autores discordam sobre a identificação da mágadis. ambas representadas exclusivamente entre as Musas. Para West. a Apolo. de quem seria aluno. apresentanos três formatos distintos de harpas angulares: a harpa triangular – a forma registrada nas cenas de gineceu –.)248. para Comotti. o trígōnon. pēktís e mágadis seriam duas denominações do mesmo instrumento. COMOTTI. 1983: 57-71. 1989: 147-151. A iconografia ática. SNYDER. MAAS. a mágadis corresponderia a outra forma de harpa. figura mitológica de personalidade eminentemente musical. as harpas podem receber a denominação de psaltērion. então. sendo conhecida na historiografia da música grega a celeuma entre Giovanni Comotti e Martin West a esse respeito. amante. com a capacidade de produzir um acorde de oitava. e duas outras formas. O único personagem masculino que lhe é associado é Museu. verbete ―Musée‖). ―Griechische Harfen‖. sendo o gênero masculino excluído de sua prática. 1929. tais como Antiphemos ou Eumolpos. três tipos de harpa. identificava a harpista – a forma geral do termo no feminino reforça a ligação desse instrumento com as mulheres (WEST. por sua vez. 1994: 304. Na iconografia ática. Museu aparece com freqüência associado às Musas. a pēktís e a mágadis. seria o ―doublet‖ de Orfeu na tradição lendária ática (GRIMAL. termo derivado do verbo psállein. e a Linos. de quem seria filho. aluno ou mestre. Athenische Abteilung 54. 1991. Segundo Pierre Grimal. Os textos arcaicos e clássicos citavam. De modo geral.

) The Oxford History of the Classical World. c/fig. GRIFFIN. Tamiras toca kithára. nu. o pintor o representa de forma coerente com sua associação a Apolo e à condição de aluno: Museu segura uma lýra. Bib. 227. ―Life and Society in Classical Greece. simboliza o jovem ateniense livre. In: BOARDMAN. em que Museu está associado às Musas: tratam-se de 5 vasos. No exemplar conservado no Museo Nazionale di Villa Giulia.Fonte: Foto do autor. G 457. aluno de música e freqüentador da escola patroneada pelas Musas e por Apolo.: MURRAY. Atenas. entre seis Musas (uma com lýra. Figura 4 .NEA/UERJ e ao ambiente escolar. Oswyn. Já no excepcional fragmento de uma pýxis do Museu Nacional de Atenas. & MURRAY.‖. (org. 430-20.636. Em torno de 420-10. apresentando Museu com um trígōnon. outra com rolo) e Apolo. Pýxis. olhando um díptykhos aberto. É assim que encontramos Museu. Kýlix. Pintor de Meidias (Para 479/91bis). De certa forma. Louvre. O. 249 142 .249 Nessa mesma perspetiva. estudados por Giuliana Ricioni. 19. está abrindo um rolo. p. qual uma Musa ou mulher (Figura 4). de modo que os pintores costumam apelar ao recurso da inscrição para assegurar sua identificação. J. Museu Nacional. o pintor nos surpreende. Sua representação se confunde muito com a imagem juvenil de Apolo. enquanto o professor. The Education. J. numa kýlix de Paris. sentado sobre um klismós. produzidos no período que se estende dos anos 460-50 aos fins deste século. comum nos vasos da segunda metade do século quinto. Oxford. Paris.MULHERES NA ANTIGUIDADE .Museu toca trígōnon. encontramos uma pequena série de vasos áticos. retratado como aluno de Linos: o jovem está de pé. Figuras vermelhas..

2391. usufruindo o privilégio de tocar o instrumento que era prerrogativa exclusiva delas entre os olimpianos. Descrição: Mousaios com lýra. Para 398/70bis). 251 Musas com pēktís: 1) Ânfora. no contexto da iconografia das Musas e das representações idealizadas da escola comuns no último quartel do século quinto. O paradigma mitológico que inspira os pintores de vaso coloca a harpa como um instrumento feminino e ligado. 250 143 .NEA/UERJ Se pensássemos na acusação de efeminação que recaía sobre Orfeu e outros músicos históricos e lendários. Staatliche Antikesammlungen. 440. 2) Hydría. (ARV² 623/70bis. Figuras vermelhas.: MAAS. 1989: 163. 1986: 730-744) 250. Pintor de Villa Giulia. Retornando à classificação organológica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (ARV² 1039/13.: CVA Museu Britânico 3 (Grã-Bretanha 4) III I c. Figuras vermelhas. pr. seria plausível pensarmos que o pintor desta pýxis estaria acusando Museu de efeminação.251 Hydría. Figuras vermelhas.1a-c. Berlim. Add² 319) Londres. quase nunca representada pelos pintores em contexto humano (Figura 5). Bib. Dada sua inapropriação para simbolizar a educação dos meninos. E 271. sendo a única exceção a pýxis ateniense do Pintor de Meidias com um Museu harpista. Bib. Para 443. Ca. 64917. ―cítara de berço‖ no campo. Terpsichore com pēktís. 460-450. Melousa com aulós. 11. enquanto as Musas ocupam-se igualmente da pēktís. Pintor de Peleu. o Pintor do Banho (the Washing Painter) transportou-a para o universo feminino do gineceu de modo a simbolizar a cultura musical da qual muitas mulheres atenienses bemnascidas seriam detentoras. a harpa (RICCIONI. fig.15. é mais provável pensarmos que o pintor quis mostrar Museu como aluno das Musas. Museu Britânico. Roma. à cultura e à educação. SNYDER. tal qual às Musas. Villa Giulia. a única forma de harpa representada no gineceu é o trígōnon.

77-Edmonds e Platão comediógrafo. ―cítara de berço‖ suspensa. 42-Edmonds. Museu Britânico. 81953. A representação do trígōnon. Lucaniana. pr. IV. Figuras vermelhas. Terpsichore toca pēktís e Melousa segura aulós. Final do séc. 81392. a harpa.NEA/UERJ Figura 5 – Museu com lýra. Museo Nazionale. fr. Museo Archeologico. E 271. Boston. V. Séc. Pintor de Peleu (ARV² 1039/13). Séc. IV. Séc. 11.1a-c. Séc. nos idos dos anos 430-20.21. Museum of Fine Arts. 412Pearson. IV. Se observarmos a relação entre a tradição literária e tradição gráfica no contexto ático. Nápoles. Na iconografia ática do Estilo Clássico.63. Figuras vermelhas. Alabastro. fr. tanto entre as Musas quanto entre mulheres. Museo Nazionale. Nova Iorque. indica uma disseminação desse instrumento na Atenas desse período. 252 144 .6. 4) Oinokhóe. 3) Ânfora. 00.Fonte: CVA Museu Britânico 3.252 É portanto o trígōnon que nos interessa para o estudo das cenas de musicistas no gineceu ateniense. Ruvo. 69. III I c. Metropolitan Museum of Arts. Figuras vermelhas. Phérekrates.10-14-Edmonds). Nápoles. apesar da sincronia existente (Sófocles. Ápula. constataremos um desacordo entre ambas. Ápula. aparece idealizada como símbolo da sociedade musical feminina. fr. IV. Em torno de 440. Ápulo. Ápula. notadamente o trígōnon. Figuras vermelhas. Eupolis. Londres. ao mesmo tempo. Figuras vermelhas. 1554. V e do séc. 2) Cratera em cálice. IV. Ânfora. 1. figura iconográfica que. Figuras vermelhas.MULHERES NA ANTIGUIDADE .360. remete-se à ocupação e educação musical das mulheres 1) Peliké. A pēktís somente aparecerá representada em mãos de figuras femininas humanas na arte italiota de finais do séc.

da lýra (CERQUEIRA. atribuída ao Pintor de Eretria. inv. junto com as cenas de kômos. contra 165 exemplos catalogados. 2000: 36. casualmente. encontramos um único exemplo que registra o uso da harpa.Banquete. 15308. e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . SNYDER. durante um sympósion. em companhia de uma cortesã que toca a pēktís. Atenas. Entre o vasto repertório de vasos áticos retratando cenas de banquete (que constituem. que retratam predominantemente o uso do aulós e do bárbitos. Khoûs ática. reforçando a conexão da imagem representada com a vida social ateniense de finais do século quinto (Figura 6). em nosso inventário de cenas cotidianas com instrumentos musicais. 2001). Figura 6 . Pintor de Eretria. MAAS. a harpa é associada às cortesãs (BUNDRICK. esse exemplar foi consumido no mercado local. Um único vaso. 145 . Jovem reclinado. Figuras vermelhas. Encontrado nas escavações junto ao Teatro de Dioniso em Atenas. Trata-se de uma khoûs ática. no entanto. bem como à assimilação ideológica das mulheres bemnascidas às Musas. 1989: 150).425-420 a.NEA/UERJ ―cidadãs‖. Museu Nacional. as séries iconográficas numericamente mais representativas nos séculos sexto e quinto). O dado mais interessante nesta khoûs do Pintor de Eretria é que a cortesã-harpista está tocando uma pēktís. de longe. Nos textos coetâneos. em mãos de uma cortesã.C. datada de aproximadamente 425-20. Fonte: Foto do autor.

fr.NEA/UERJ instrumento usualmente associado às Musas. 14. que trouxe novidades musicais e que recebeu. para se referir à hetaira que tocava harpa durante os banquetes. uma forma de harpa com caixa de ressonância em forma barco. conforme West (1992: 79). No último quartel do século quinto. 40. Constitui-se. 63-64. associando-as à pecha da prostituição.638. Eupolis. Aguça-se assim a incompreensão de como esse instrumento poderia estar ligado a mulheres bem-nascidas – ligação simbólica preferida pelos pintores de vasos áticos. termo frequentemente usado.10-14-Edmonds). fr. ásperos julgamentos morais. Num outro fragmento de Eupolis. Ver: MILES. outros ainda à poesia erótica e ao elogio ao adultério. 51. as fontes escritas apontam que a harpa se tornou popular no sympósion. no único exemplo iconográfico. da psaltría. outros à comédia. Assim. tornaram-se figuras usuais nos banquetes bem aparatados (Platão comediógrafo. como os demais. Devemos imaginar a possibilidade de esses comediógrafos áticos terem levado harpas ao palco. fr. 253 146 . 2009: 26-29. provavelmente pertenceu ao grupo da Nova Música. não para ser tocada pelos convivas. O trígōnon e a sambýkē253 eram usados por hetairas para cantar canções noturnas de Gnesippos254 dedicadas a adúlteros (Ateneu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . assim. Alguns o associam à poesia trágica. fica clara a associação que os poetas cômicos faziam da harpa. com a obscenidade: ―Você que toca bem o týmpanon / e dedilha as cordas do trígōnon / e requebra seu traseiro / e joga suas pernas pro ar‖ (Eupolis. nos textos antigos. que registrei. nem tampouco para acompanhar nobres e respeitosas canções da lírica tradicional. bem como do týmpanon. acompanhando as tradicionais aulētrídes. Tocadoras de trígōnon. defrontamo-nos diante de uma dúvida: o trígōnon representado nas cenas de gineceu pelos pintores seria um instrumento efetivamente utilizado nesse contexto (Figura 7)? Sambýkē ou iambýkē são. 254 Há controvérsias sobre este poeta do século V. 139-Edmonds). 77-Edmonds). De qualquer modo. 69.

255 Esse argumento é improcedente. 2000: 37-38: ―Despite the care lavished on the harp‘s representation. cat. 2001. On the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. cat. Sheramy D. Bundrick. Lébēs gamikós. pr. 334). the rather large harp is preciously balanced on the player‘s knee as her right arm is draped over the back of her chair.73. Figuras vermelhas. The strings run from the soundbox into both the neck and the post of the frame. 2001. 334) appear contrary to reality.22. 2001. cat. the arrengement of the strings on the Würzbug pyxis (CERQUEIRA. 2001. 332). cat. 2001. haja vista não haver relação alguma. 333) and the Athens lebes gamikos (CERQUEIRA. whereas in reality they would run from soundbox to neck alone. em BUNDRICK. cat.73 (CERQUEIRA. These instances show that the representations of musical instruments on vases should not be taken as necessarily realistic or illustrative of actual practice. 332. não correspondendo a uma situação cotidiana real. afirma que essas cenas com harpa apresentam uma idealização. Cerqueira. As has been pointed out elsewhere. on MMA 16.MULHERES NA ANTIGUIDADE . because in reality the unwiedly harp would be difficult to hold and play while standing.‖ 255 147 . Pintor do Banho (ARV2 1126/6. however. Metropolitan Museum of Art. there are anomalies. The way the woman holds the harp sometimes seems improbable. 1992. the standing position of the harpist also appears unlikely. Add2 332) Período: 430-20. diante das evidências literárias e da imperfeição do desenho desses instrumentos.NEA/UERJ Figura 7 . 16. Fonte: West.Mulher com harpa no gineceu durante epaulía Nova Iorque. em coerência com suas interpretações simbolistas.

O pintor pode representar com perfeição o objeto e dar uma abordagem completamente idealista à cena – o contrário também podendo ocorrer. pode ter atingido inclusive o círculo respeitável das mulheres bem-nascidas. O argumento de que não há referências literárias a mulheres bem-nascidas tocando harpa não tem o valor definitivo que lhe é freqüentemente conferido.. E. de modo geral. A disseminação da arte da harpa. a retrata como digna noiva ou esposa. O fato é que Bundrick (2000) sempre reluta em aceitar a relação que os instrumentos musicais representados têm com situações reais. na medida em que não há referência literária alguma. o que incomoda ao historiador é a radical diferença entre o testemunho literário e o iconográfico. no rol das prostitutas.. afinal. desde os comediógrafos do fim do século quinto até Aristóteles no século quarto (A Constituição de Atenas 50. Tudo indica que a harpa integrou dois ambientes sociais antagônicos: a aclamada decência e recato do gineceu e a promiscuidade dos banquetes e prostíbulos. A falta de exatidão no desenho do trígōnon. Contudo. deslizando de um grupo social a outro. à música praticada pelas mulheres em contexto doméstico.NEA/UERJ iconografia. Efetivamente. E. o estudo detalhado da iconografia cotejada com os textos apresenta vários percursos do uso dos instrumentos musicais. deve decorrer do fato de ser uma novidade em Atenas e de que o Pintor do Banho foi o único que se dedicou a representá-lo em contexto humano – nenhum outro pintor 256 ―kai tás te auletrídas kai tas psaltrías kai tas kitharistrías‖. por sua vez. 148 . tampouco um pintor de vaso colocaria esse instrumento nas mãos de uma Musa. na categoria de musicista-cortesã. de uma situação social a outra. apontada por Bundrick como argumento contrário a uma interpretação de fundo realista. moda é moda! Atravessa diferentes grupos sociais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . entre a exatidão de representação do referente (do objeto) e a intenção de realismo ou idealismo da mesma. se a harpa fosse de fato completamente indigna como sugere o uso generalizado do termo psaltría para identificar uma cortesãmusicista. mesmo que impulsionada inicialmente por cortesãs vindas da Grécia do Leste e regiões circunvizinhas. o Pintor do Banho.2)256. Enquanto a psaltría (harpista) era incluída.

como aquele da Magna Grécia? Ora. Elena Zevi foi a primeira a identificar essas cenas com essa cerimônia: apesar de se confundir com as cenas comuns de gineceu. apesar de os pintores. lekanídēs. a forte associação simbólica do aulós à prostituição. SNYDER. 2000: 181-182). mesmo que saibamos que as cortesãs tocassem também instrumentos como a harpa. de outro lado. de modo que não se desenvolveu uma técnica apropriada de representação desse instrumento. julgamos legítima a interpretação que vê nas cenas de gineceu com mulheres harpistas um retrato. envolvidas em preparativos ou festejos nupciais (MAAS. Se a ligação da harpa com as cenas de casamento fosse apenas uma idealização ática localizada na pintura dos anos 30 e 20 do século quinto. indica seguramente a 149 . É interessante fazermos também o raciocínio inverso: por que os pintores áticos quase nunca representaram prostitutas tocando harpas. kálathoi) bem como o uso do diadema pela esposa apresentam-nos a cerimônia da epaulía. cofres. a forte associação simbólica da harpa às Musas. os presentes trazidos pelas outras mulheres (caixas. a kithára e o aulós. mesmo que idealizado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na cerâmica italiota também são comuns as cenas de noivas tocando harpa. 1938: 366-369). de uma situação real dos festejos matrimoniais: a epaulía. nem tampouco estar se vestindo ou sendo vestida. Com base nessas considerações. não obstante acreditemos que elas de fato tocassem esse instrumento na sua vida doméstica. como o quer Bundrick. por que essa mesma idealização se repetiria num contexto cultural distinto. não o representarem. Ellen Reeder acrescenta mais alguns detalhes que garantem a identificação desses vasos do Pintor do Banho representando mulheres harpistas: o fato da mulher central não estar usando véu ou stéphanos. quando a noiva começava sua vida de esposa na casa do marido. enquanto os textos nos informam que elas o faziam? A resposta está em que a pintura dos vasos mistura cargas variadas de realismo e idealização: de um lado. pelo meio do que as mulheres eram assimiladas ideologicamente à dignidade e à atividade musical e poética das mesmas. alábastroi. muito embora não haja nenhuma referência literária a esse respeito. com a única exceção do Pintor de Eretria.NEA/UERJ ático o fez. que passava a ser a sua (ZEVI. antes ou depois dele. como ocorreu com a lýra.

o banquete. flanqueada por duas mulheres e sendo coroada por Eros. Seguramente. sua presença traria outras conotações. temos. 6. 333) e do lébēs de Atenas (Cerqueira. 1972. como invocação do lazer almejado na sua futura vida de casada. simbolizando o conflito psicológico pelo qual a noiva passava. na terceira cena. Por um lado. Ela está desconfortavelmente de pé. A concentração da nubente em sua música conotaria sua nova identidade de mulher casada. No caso da pýxis. cenas seqüenciadas. 2001. mesmo não retratando o momento da epaulía. 1995: 225). A figura central está sentada sobre um klismós. a representação de uma mulher recém-casada distraindo-se com a harpa lhe indicaria os momentos de lazer prometidos para sua vida de casada (REEDER. acompanhada por outra moça. a nymphagōgía e o canto do epithalámion na noite de núpcias. na outra. não devendo ser identificada com a noiva ou esposa. assim.1-3). para uma noiva. alusivas aos festejos nupciais: uma cena mostra dois Erotes lutando. simbolizando a concretização do casamento após a noite de núpcias. a anakalyptēría. ela já era considerada esposa. 334) apresentam a harpista numa situação diferente. confirma a idealização da noiva como harpista proposta por Reeder. 2001. a situação é bem diferente: a harpista não ocupa um lugar de centralidade. ela está sentada sobre o leito nupcial. pr. a harpa seria uma referência sinóptica a toda música que acompanhava o ritual do casamento: a loutrophoría.NEA/UERJ epaulía. como é comum nessa forma de superfície cilíndrica. Essa análise. E. a noiva aparece retratada como harpista. ao abandonar seu passado ingênuo de menina para seguir seu futuro incerto de esposa (SIMON. O vaso de Würzburg. pode ser aplicada aos lébētes de Nova Iorque (ver Figura 7). não sendo mais retratada envolvida em preparativos nupciais. 1995: 226). 150 . tocando esse instrumento pesado que devia preferencialmente ser tocado na posição sentada.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na manhã após a noite de núpcias. a composição iconográfica da pýxis de Würzburg (Cerqueira. mas recepcionando suas amigas e parentes que lhe traziam presentes (REEDER. Reeder percebe uma significação especial do trígōnon nas cenas de epaulía do Pintor do Banho. porém não vale para todo conjunto de cenas com trígōnon. ouvindo sua companheira tocar o trígōnon. cat. cat. Todavia. quando. Por outro. Enfim. Já no lébēs de Atenas (Figura 8).

a phórminx 151 . Proveniência: santuário da Ninfa das escarpas da acrópole de Atenas. como o talentoso Pintor do Banho.Fonte: Cerqueira.Mulheres no gineceu. especificamente o bárbitos. Figuras vermelhas. Os pintores mais criativos e requisitados. Museu Nacional. 8. presentes para a noiva. chegando o momento de se casar. 24. cat. 2000. mostra como essas representações não se prendiam completamente a idealizações. cat. Lébēs gamikós. a lýra. fig. a noiva poderia saber tocar algum instrumento. Davam vazão assim às variações da própria realidade: conforme a educação recebida pela menina.Atenas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2001. procuravam fazer variações temáticas. evitando que suas peças se tornassem repetitivas demais.NEA/UERJ Figura 8 . Os presentes trazidos para a noiva sugerem que tenhamos aqui de fato uma representação da epaulía. Preparativos para casamento ou recepção de presentes. Fonte: Foto do autor. 14791 (1171). Bundrick. O fato de a harpista ser uma companheira e não a própria noiva. Pintor do Banho ARV2 1126/5) Em torno de 420. 334. Mulher toca harpa de pé. A cena traz claramente uma representação da apaulía. retratada aqui como aulētrís. o aulós. a recepção de presentes.

mais que isso. comparativamente ao aulós. em certos contextos sociais. a sociedade grega do século quinto ainda o via como uma novidade e. A variação dos instrumentos representados se deve a esse leque de escolha aberto pela educação musical feminina. Os autores antigos usam o termo psaltría (harpista). A única exceção constatada ocorre na iconografia de um personagem mitológico: Museu figura. Todavia. É interessante observar que. constatamos. esse instrumento pode ter sido utilizado para acompanhar o himeneu257 executado nesse momento dos festejos. para se referir a cortesãs que atuavam como musicistas nos banquetes. terracotas). na cultura grega. em suas diferentes formas conhecidas entre os gregos do período clássico (o trígōnon. As convergências param por aí. a pēktís e a mágadis). ao feminino. associado às Musas (Figura 4). A iconografia sugere que. a pintura dos vasos e demais suportes imagéticos são muito claros: a harpa. é um instrumento para ser tocado por mulheres. por via de regra. pintura de vasos. tocando harpa. sugere que. A principal convergência é a vinculação da harpa. à lýra. Ao nos propormos interpretar os usos sociais deste instrumento e seus respectivos sentidos. Considerações finais A harpa. tocado pela própria noiva ou por uma convidada. nos últimos anos do século quinto. como um estrangeirismo. foi um instrumento menos usual. foi um instrumento representado em escala bastante reduzida nos suportes iconográficos mais usuais da época que se conservaram até nossos dias (escultura. nos últimos anos do século quinto e primeiras décadas do século quarto. apesar de ser um instrumento conhecido há muito tempo no espaço cultural do Egeu. na relação entre os testemunhos textuais e imagéticos. 152 . De resto.NEA/UERJ ou o trígōnon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . contratadas para alegrar o 257 Canto cuja performance ocorria durante a noite de núpcias. em uma pýxis do Pintor de Meidias. a repetição do trígōnon em cenas relativas à epaulía. entre os gregos. Os registros visuais apontam que seu uso se espalhou em Atenas. na Atenas da época do Pintor do Banho. a existência de convergências e divergências. à kithára ou ao bárbitos.

De outro lado. uma cortesã-harpista. a dignidade do gineceu e das Musas. no caso. foi vista como um instrumento refinado.NEA/UERJ ambiente. tão logo se espalhou entre os atenienses. os pintores de vasos inserem a harpa sobretudo em dois contextos iconográficos correlatos e divergentes com relação ao ambiente da prostituição. podemos dizer que a harpa. para os pintores de vasos áticos. no ambiente mitológico. No ambiente mitológico. Assim. na pinturas de vasos. em Atenas. no ambiente humano. inclusive durante os festejos da epaulía. tocavam o trígōnon entre suas amigas e 153 . O trígōnon é representado tanto no ambiente humano quanto no mitológico. até mesmo satisfazendo desejos sexuais dos convivas. O contraste entre o registro visual e textual aponta-nos que a harpa. mulheres bem-nascidas. um tratamento particularizado com relação aos diferentes tipos de harpas. a indignidade da prostituição. A khoûs ática do Pintor de Eretria (Figura 6) aponta uma convergência entre os textos e a iconografia: apresenta-nos uma cortesã tocando harpa. entre os pintores de vasos áticos. A pēktís. Sua percepção de refinamento gerou dois resultados distintos: de um lado. Ficaria assim a pergunta: existiria uma dissociação total entre a conotação social da harpa e das harpistas entre os produtores de textos e de registros visuais? Nos textos. No gineceu. em seus divertimentos no gineceu. ainda. e das Musas. é sobretudo um instrumento do gineceu. nenhum outro personagem mitológico aparece na iconografia associado à harpa. é tocado tanto pelo personagem central. retratado no ambiente do gineceu. de uma psaltría. nas últimas décadas do século quinto. caracterizado nos textos coetâneos: o ambiente mitológico das Musas e o ambiente cotidiano do gineceu. na cerâmica ática conhecida por nós. uma pēktís – trata-se portanto. De fato. por sua vez.MULHERES NA ANTIGUIDADE .2. que não devia exceder dois dracmas (A Constituição de Atenas 50. de que tanto nos falam os textos. quanto por um personagem secundário. é tocado por alguma Musa. identificável como a noiva ou esposa (Figura 7). CERQUEIRA. nunca aparece. 2001: 198). Aristóteles chega ao ponto de informar a remuneração devida a estas profissionais em Atenas. com a exceção de Museu. Constata-se. identificável como amiga ou parente da noiva ou esposa (Figura 8).

indicando que na Grécia ocidental o preconceito de estrangeirismo não fazia muito sentido. assim. Ao mesmo tempo. 154 . fazer um interessante exercício sobre o cotejamento entre os testemunhos literários e imagéticos na interpretação arqueológica. consolidando-se como um instrumento apreciado pelas mulheres bem-nascidas e pelos homens freqüentadores dos banquetes. circulando entre diferentes esferas sociais de gênero: das bem-nascidas às hetairas. entre as mulheres bem-nascidas.NEA/UERJ parentes. a comparação com a cerâmica italiota. Já os pintores ápulos representaram este instrumento de forma mais freqüente que os pintores áticos. o que se traduz na baixíssima incidência de sua representação pelos pintores de vasos áticos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como instrumento para entretenimento no gineceu. indica a crescente popularidade que as harpas conquistaram no mundo grego. entre os gregos. identificando convergências e divergências. possibilitou-nos ver a cristalização. No entanto. O que prevaleceu foi o gosto pelo instrumento. sobretudo a cerâmica ápula do início do século quarto. de outro. seu estudo enseja reflexões sobre questões de etnicidade e geografia cultural. tocar harpa (trígōnon ou pēktís) tornou-se um predicado para uma hetaira. Sua percepção como um estrangeirismo foi sempre muito presente nos principais centros da Grécia balcânica. Alguns colocaram em cheque o tom realista do uso da harpa no ambiente do gineceu entre as mulheres atenienses. da harpa como instrumento feminino. que gostavam de ter uma psaltría tocando harpa e cantando canções eróticas nessas festas. O estudo da harpa nos permitiu. Finalmente.

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com 258 157 .C.NEA/UERJ AS MÚLTIPLAS SENSIBILIDADES DO FEMININO NA LITERATURA EGÍPCIA DO REINO NOVO (C. gsbalthazar@gmail. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nos últimos vinte e cinco anos observou-se o crescimento dos estudos sobre o feminino. fruto da busca de novos campos de interesse da História. como proposto por uma historiografia tradicional. 1990: 7). faz parte de seu papel socialmente construído. sobretudo das individualidades desse sexo. Pesquisadora do Grupo de Estudos Egiptológicos Maat (GEEMAAT) do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (CEIA) da UFF. tem sua origem em um movimento de contestação social: o feminismo. resultou no aparecimento do termo Gênero. escrever uma História das Mulheres foi durante muito tempo uma questão incongruente ou ausente. Assim. O debate crítico acerca da História das Mulheres. lilianemeryt@hotmail. sob orientação da Profa. Professora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval das Faculdades Itecne – Curitiba – PR. 1550-1070 A. Dra. que. discorrer sobre o feminino por vezes é difícil.) Prof. ―estudar as mulheres de Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. Portanto. Renata Senna Garraffoni. Essa mudança. Este vocábulo surgiu do esforço intelectual das feministas americanas que buscavam marcar o caráter primariamente social das diferenças baseadas no sexo (SCOTT. Mestrando Gregory da Silva Balthazar258 Prof. para a historiadora Joan Scott. que ao se centrar na figura feminina acabou isolando-as do resto do contexto. tanto dos objetos quanto dos métodos de estudo. longe de ser tratado como vítima. que produziram uma revisão no modo de fazer a pesquisa histórica. Doutorando Liliane Cristina Coelho259 Introdução O silêncio é o comum das mulheres. tem seu perfil construído ao longo da história.com 259 Mestre e doutoranda em História Antiga pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisador adjunto da Comissão de Estudos e Jornadas de História Antiga (CEJHA) da PUCRS.

Assim. 1996: 01) tornou a civilização egípcia um refúgio para a crítica feminista. ou nada. a ver com o outro sexo‖ (SCOTT..MULHERES NA ANTIGUIDADE .. 260 158 . 1990: 16). na Antiguidade. tal teoria influenciou toda a produção historiográfica sobre o antigo Egito. 1990: 07). desde a origem. Nessa premissa. como um fato natural e tão profundamente enraizado que o problema foi sequer levantado. que.260 Leiam-se. ou melhor. defendeu a ideia da existência de uma igualdade entre os sexos na sociedade egípcia. (. sendo resultado de uma criação masculina. por exemplo. Para além desses aspectos. E é nesse contexto.. De fato. o Egito é o único país que verdadeiramente dotou a mulher de um estatuto igual ao do homem ‖. que as primeiras feministas se voltaram para o passado buscando encontrar sociedades pré-patriarcais. Nesse sentido: O gênero é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre as diversas formas de interação humana. feliz cidadã de um país em que a igualdade dos sexos parece ter sido considerada. a categoria gênero amplia a investigação sobre as mulheres no passado. que ―(.. Quando as (os) historiadoras (es) buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais elas (eles) começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos. a aparente proeminência das mulheres egípcias. pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT. que via nessa sociedade a prova da existência de culturas pré-patriarcais. a experiência de um sexo. determinar a existência de sociedades ginecocráticas.. as palavras de Christiane Noblecourt (1994: 207): ―(. pois afirma que o mundo feminino faz parte do mundo dos homens.) usufruíram de maiores direitos legais e privilégios que as mulheres de muitas nações do mundo de hoje‖. até o final do século XX.). portanto. (LESKO.) assim se apresentava a mulher egípcia.. tenha muito pouco.NEA/UERJ maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera.

não se provou recorrente na primeira linhagem dinástica do Reino Novo. tornou-se problemática na materialização de uma noção idealizada do passado. por exemplo. como foi o caso do Egito. 1996: 23-24). e a matrilinearidade. tendo como premissa que a mulher do antigo Egito exerceu certa influência na esfera pública e/ou o fato de que muitos homens egípcios descreviam a si mesmo fazendo alusão ao nome da mãe ao invés daquele do pai. concedidas às mulheres de sangue real. em especial pelas mães. que é a forma social na qual o poder é exercido pelas mulheres. com base no monismo egípcio e nas características apontadas outrora. Acredita-se. Os estudos de Barbara Wattersom (1998: 23-24). originado no seio dos estudos feministas. contudo. evidenciou que o estudo das titulações de ―filha do rei‖. Há trabalhos. em um estudo sobre a XVIII Dinastia. que refutam tais teorias. essa linha historiográfica entende. como o da inglesa Gay Robins. que se dividiriam em duas formas: o matriarcado. um tempo anterior ao que se conhece por patriarcado. nessa perspectiva. ou ―teoria da herdeira‖. já que algumas mulheres de sangue não-real receberam tal titulação.NEA/UERJ Esse pensamento. Para tanto. uma retificação de uma esfera pré-cultural do autêntico feminino. A egiptóloga. corroboram com este processo matrilinear. que o poder régio egípcio foi assegurado por um sistema social matrilinear. Por fim. a estudiosa britânica finaliza seu raciocínio apresentando o fato de que as esposas principais dos faraós Thutmés III. que essa busca de um passado utópico (sociedades matriarcais ou matrilineares). é uma clara recorrência a uma história das origens. comprovou a impossibilidade de se traçar uma linhagem de mulheres de descendência real. Nessa perspectiva. onde a tradição sociocultural é transmitida e assegurada pela figura da mulher. onde o trono egípcio seria transmitido por uma linhagem feminina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Amenhotep II e Amenhotep III eram de origem não real (ROBINS. No último século o meio acadêmico fervia com discussões acerca da existência ou não de culturas prépatriarcais. Nesse contexto. a filósofa Judith Butler explica que: Esse recurso a uma feminilidade original ou genuína é um ideal nostálgico e provinciano que rejeita a demanda contemporânea de formular uma 159 .

assim como nas outras fases da vida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . John & MÁLEK. p. não tinham realmente nenhum tipo de regalia que as igualasse a seus companheiros do sexo masculino. embora respeitadas como membros da família. 1980. no Egito antigo. as representações humanas. As fontes sobre a mulher egípcia e sua representação durante a história do período faraônico.C. 261 160 . 2005: 205). Atlas of Ancient Egypt. 2008: 65). Esse ideal tende não só a servir a objetivos culturalmente conservadores. segundo Liliane Coelho. a arte era produzida As datas seguem a cronologia proposta por BAINES. a história das origens (sociedades pré-patriarcais) desmascara as afirmações auto-reificadoras da dominação social masculina. Assim. Sendo assim. mas a construir uma prática excludente no seio do feminismo. mas acaba promovendo uma retificação politicamente problemática das experiências das mulheres. já que muito do que era permitido aos homens estava completamente vedado às mulheres (OLIVEIRA. tradicionalmente datada de c. Oxford: Phaidon. na arte egípcia: Independente do tipo de monumento e de sua finalidade. Jaromir.261 são provenientes de diferentes contextos. se diferenciam entre aquelas que mostram homens e aquelas que trazem mulheres. contudo. De fato.. Nessa perspectiva. é importante entender que. é importante ter em mente que. as mulheres [egípcias]. 30-52. precipitando precisamente o tipo de fragmentação que o ideal pretende superar (BUTLER.NEA/UERJ abordagem de gênero como uma construção cultural. foram produzidas pela elite masculina egípcia. iconográficas e textuais). 3000-332 a. As fontes disponíveis para o estudo sobre a mulher egípcia (arqueológicas.

Muitos dos textos surgidos nestes dois períodos foram difundidos por escribas e estudantes. de maneira contínua. datado originalmente da Época Raméssida: Quanto aos escribas sábios. a forma como os homens construíam a imagem do feminino – nosso objetivo nessa seção. e que reflete o ponto de vista masculino. que as traduziram e revelaram ao público atual.. O Ideal Feminino na Literatura Egípcia Antes de passarmos aos Poemas de Amor é importante discutirmos como a imagem feminina foi idealizada pela literatura egípcia. ao ser produzida por homens. então. A mulher era sempre representada de maneira ideal. A literatura. Durante o Reino Novo (c. 2009: 162). foi produzido um gênero literário que evidencia o olhar egípcio acerca do amor e da sexualidade – os Poemas de Amor. traduz uma visão idealiza do feminino. e desta maneira. ao longo dos períodos históricos que se sucederam. formam um grande corpus que pode auxiliar para o entendimento de alguns aspectos da sociedade egípcia como. 161 . por meio de cópias. Essa afirmativa fica bem clara no trecho abaixo. e as composições desta época.. 2040-1640 a. assim como a arte. por exemplo. O Reino Médio (c. inclusive.C. associar o nome ao escrito era uma forma de preservar a própria existência e esta era mais eficiente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . retirado do Papiro Chester Beatty IV. seus nomes durarão para sempre.que prediziam o que estava por vir. Segundo a visão de mundo egípcia.NEA/UERJ por homens. Tais obras estão entre as mais conhecidas da literatura egípcia. O objetivo deste trabalho. do que construir uma tumba em uma necrópole. .) é considerado o período clássico da literatura no Egito antigo. conforme a visão idealizada pelo homem (COELHO. entretanto. até chegarmos ao Reino Novo. 15501070 a.C. em conjunto com aquelas do Reino Novo.). é compreender como os antigos egípcios percebiam a relação das mulheres egípcias com as questões que envolvem o amor e a sexualidade. já na contemporaneidade foi possível a sua transmissão e seu resgate pelos pesquisadores da língua e da literatura egípcias. e os nomes de alguns destes autores foram eternizados justamente por meio de seus textos.

a literatura lírica. por fim. .NEA/UERJ embora tivessem partido. como literatura fantástica. . assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 262 162 . mas fizeram como herdeiros de si os livros e ensinamentos. que se caracteriza por uma quebra da realidade que resulta em eventos extraordinários. do Conto dos Dois Irmão e do conto Verdade e Falsidade consultadas para a elaboração deste artigo foram aquelas presentes na obra: ARAÚJO. que escreveram. gênero no qual se inserem os chamados ensinamentos ou instruções. Os nomes de Senu e de seu pai.. crianças que conservassem seu nome. literatura gnômica. 2000: epígrafe) Ainda dentro da mesma visão de mundo. enquanto todos os seus contemporâneos foram esquecidos. (ARAÚJO. datado do Reino Médio e intitulado ―O marido enganado‖. Luís Manuel de. seu cadáver vira pó. filho do pai do deus Pamiu" (ARAÚJO. para este artigo. dependendo da função à qual se aplica o texto. foram eternizados por meio do texto escrito. gênero do qual fazem parte os poemas de amor. e. a mulher do sacerdote Ubaoner apaixonou-se por um homem da cidade e passava com ele ―dias As traduções do Papiro Westcar... analisamos composições que podem ser classificadas. . 2005. mas um livro faz com que seja lembrado na boca de quem o lê. Lisboa: Livros e Livros. Dentro da literatura fantástica. outra maneira encontrada pelos escribas para preservar seu nome foi por meio do colofão. todos os seus contemporâneos perecem. ou a nota final de um texto.. 2000: 280).Sua lápide está coberta de areia e seu túmulo esquecido. a mulher aparece pelo menos de duas formas diferentes. Um exemplo aparece nos Ensinamentos de Amenem-ope: ―(O texto) chegou a seu fim na escrita de Senu. Em um dos contos do Papiro Westcar262. mas seu nome é pronunciado por causa dos livros. onde ficaram anotados os nomes de alguns escribas copistas.. segundo Emanuel Araújo (2000: 53-57). As referências à mulher nestes gêneros literários se fazem de diferentes maneiras.Eles não planejaram deixar herdeiros.Um homem morre. tendo completado sua vida.. Tendo em vista tais considerações. Mitos e Lendas: Antigo Egipto.

foi castigada. associada ao adultério. A mulher. fingiu que fora abusada sexualmente e disse a seu marido que quem a atacara fora o irmão mais novo. Bata disse então que iria para o Vale dos Cedros e contou o que realmente havia acontecido ao irmão. Bata vivia com seu irmão mais velho. O sacerdote. Anpu voltou para casa. o levou para o fundo. Nesta história. sendo perseguido por Anpu. e a esposa deste. Anpu. Ubaoner confeccionou um crocodilo de cera. sendo queimada e suas cinzas lançadas na água. Certo dia. ―Passar um dia feliz‖ é uma das formas correntes na literatura para referir-se ao tema. Bata negou-se. A mesma imagem feminina é transmitida pelo Conto dos Dois Irmãos. que queria ―passar com ele uma hora feliz‖. A mulher. respondendo que a considerava como uma mãe. 263 163 . que o servidor deveria colocar no lago do jardim. e pediu então ao crocodilo para que viesse à tona. chamou o rei para ver uma coisa extraordinária em sua casa. Avisado pelo jardineiro.NEA/UERJ felizes‖263 em um pavilhão no jardim da casa do sacerdote. datado do final da XIX Dinastia. Anpu então se escondeu no estábulo para matar o irmão. este autorizou Ubaoner a fazer o que achasse sensato ao homem. Bata disse também que colocaria seu coração em um cedro. Os egípcios antigos costumavam referir-se ao sexo com algumas figuras de linguagem. com medo do que Bata poderia ter contado a Anpu. mas este foi avisado pelas vacas e fugiu. matou a esposa mentirosa e jogou seu corpo aos cães. transformado em um animal de verdade. Certo dia. na estação da semeadura. pois o que levaram para o campo não fora suficiente. cujo nome não é citado. e seguiu seu caminho.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Quando saía da propriedade. no entanto. o homem foi banhar-se no lago e o crocodilo de cera ali colocado pelo jardineiro. Ele então mandou que o crocodilo o levasse. no qual o homem da cidade se purificava ao final de cada tarde. O crocodilo aproximou-se com o homem na boca e. assim como na história de Ubaoner. e que o irmão deveria procurálo assim que recebesse um copo de cerveja que transbordasse. após a explicação do ocorrido ao faraó. que passara um tempo com o faraó. contudo. Furioso com a atitude de sua mulher. Bata foi interpelado pela cunhada. e eles sumiram para sempre. Anpu pediu a seu irmão que fosse até o sítio onde viviam e trouxesse mais sementes.

após muitas transfigurações. Em ―O nascimento dos príncipes‖. que dá à luz os três primeiros faraós da V Dinastia – Userkaf. que mentira a respeito do artefato. no entanto. 164 . por sua vez. que passa pelas agruras do parto para dar continuidade à família. já que este poderia ir atrás da esposa. Assim. o faraó pesou em matar Bata. Temos. Falsidade. Ao final do conto. Depois de levá-la consigo. acompanhadas por Khnum. Nesta história. é narrada a história de Reddjedet. é apresentada a imagem da mulher ideal.NEA/UERJ Em outro momento. a mulher aparece como a mãe e provedora. mandou que o cedro que guardava o órgão fosse cortado. Alguns dias depois Verdade tornou-se porteiro de Falsidade. desobedecendo às ordens do marido. mãe e provedora. Bata foi presenteado pela Enéada com uma mulher que era muito bela. e que por isso acabaram punidas. pratica um mau ato quando manda que uma servidora utilize o cereal das deusas. Ra enviou as deusas Ísis. filhos de Ra. Tal cacho chegou ao local onde a roupa do faraó era lavada. composição que data da XIX Dinastia. a mulher foi à praia e teve um dos cachos de seu cabelo cortado por uma árvore e jogado à água. que foi deixado propositalmente na casa por elas. para auxiliar a mulher na hora do parto. então. pois as consequências poderiam ser trágicas. Verdade foi punido pela Enéada com a cegueira por ter perdido uma faca que pertencia a seu irmão. e o rei apaixonou-se pelo cheiro da moça. Meskhenet e Heket. mulheres que retratam um comportamento que não era o ideal esperado para o feminino egípcio. Bata consegue finalmente se vingar da mulher e ela tem um final trágico. Os textos transmitem uma clara mensagem às mulheres: que elas não seguissem o exemplo da esposa infiel e mentirosa. Reddjedet. Sahure e Neferirkare –. A mulher.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Bata a avisou que não se aproximasse do mar. e não há como saber o que aconteceu depois disso a Reddjedet. sem uma autorização do marido. no mesmo conto. O final da história. que era um bem precioso para os antigos egípcios. Outro conto que mostra a mulher com bom comportamento é Verdade e Falsidade. Em outro conto do Papiro Westcar. no entanto. Apaixonado por ela. nas três situações ilustradas nestes contos. foi perdido. mas certo dia. contudo. No conto. contou ao rei onde estava o coração de Bata e este. Néftis.

quando perguntou para a mãe quem era seu progenitor. neste caso. Ptah-hotep aconselha ao marido para que trate bem de sua esposa... aconselha àquele que entra na casa de um homem como seu convidado: ―. e no qual foi encontrado por uma mulher.. Nos dois. é o da mãe. o filho decidiu vingar o pai e fez o tio ser julgado e punido pela Enéada. 2000: 252). sejam elas esposas. de maneira semelhante: ―Cuidado com uma mulher que é estranha. pois ela seria a responsável pela continuidade da família e também pela educação dos filhos pequenos. e seu comportamento deve ser seguido por todas as mulheres. Juntos. com o tempo. 2000: 251-252).. por não revelar. no segundo. porém.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O comportamento mais marcante. Sabendo da verdade. alguém não conhecida na sua cidade. que só soube quem era seu pai muito tempo depois. pois ―.. desde o princípio a verdade sobre o filho de Verdade. Já na literatura gnômica são comuns os conselhos direcionados a como tratar as mulheres. não a conheça carnalmente (. provida com vestimentas e cosméticos e muito amada. e deveria ser sempre um 165 . em qualquer lugar onde entres evitas aproximar-te das mulheres! (.. concubinas ou as mulheres que poderiam ser encontradas nas casas de outros homens.. Verdade foi então abandonado num local rochoso. por usar o cereal das deusas sem a permissão do marido e. ela é um campo fértil para o seu senhor‖ (ARAÚJO.) Aquele que se consome por causa de seu desejo por elas não prosperará em nenhuma atividade. 2001: 35). Ptah-hotep. são outras: nestes casos. segundo ele. que posteriormente foram tratadas pelo escriba Any. É importante observar que Ptah-hotep refere-se. deveria ser bem nutrida. por exemplo. a mulher apresenta uma falha: no primeiro.) ela está pronta para engodar você‖ (BAKOS. este percebeu que nunca se livraria da culpa pela cegueira do irmão enquanto o outro estivesse próximo. Verdade e a mulher tiveram um filho.NEA/UERJ mas. às mulheres desconhecidas. já rapaz.‖ (ARAÚJO. a mulher é mostrada como a mãe protetora. As posições de Ptah-hotep e Any com relação à esposa. onde ficou protegido. e é este deveria ser seguido pelas mulheres egípcias. no entanto. não a fixe quando ela passa. também.. que se apaixonou por ele e pediu a seus serviçais que o levassem para servir como porteiro em sua casa. ela aparece como o ideal feminino. em uma composição que data originalmente da XVIII Dinastia. A esposa. Nos dois últimos casos.

todo homem deveria observar com cuidado sua esposa para ver o quanto ela era habilidosa em seu trabalho. Comportamentos que não devem ser seguidos. sejam eles sexuais ou não – e que não condizem com o ideal feminino – são punidos com a destruição do corpo e. tal qual o das esposas e. 166 . As concubinas. Ptah-hotep aconselha. Já a esposa fiel e boa mãe é recompensada. e aparece. Os Poemas de Amor e as Múltiplas Sensibilidades do Feminino A estabilidade política que passou a existir após a expulsão dos hicsos – os estrangeiros que governaram o Egito durante o Segundo Período Intermediário (c. da vida após a morte. alegre e conhecida pelos de sua cidade (. 2000: 252). 2000: 221). então. as concubinas também foram lembradas por Ptahhotep. assim.. assim. como o ideal a ser seguido pelas mulheres egípcias. Any também considera que a esposa deve ser respeitada pelo marido por suas qualidades: ―Não controle sua mulher na sua casa. não a repilas. contudo: ―não a julgues. quando você sabe que ela é eficiente: nunca diga para ela: „Onde está isto? Pegue-o!‟ quando ela o tinha colocado em lugar certo‖ (BAKOS. Para ele. 2000: 256-257). para este sábio. consequentemente. deixe-a comer (à vontade)‖ (ARAÚJO.NEA/UERJ exemplo a ser seguido. 1640-1550 a.C. e por isso não podemos chegar a uma conclusão precisa. também mereciam um tratamento especial. na ―Sátira das Profissões‖. produzidos por homens. entre a condição feminina e a de um tecelão: ―o tecelão na oficina é mais desventurado que uma mulher‖ (ARAÚJO. Estas deveriam ser bem tratadas para que continuassem alegres e distribuíssem sempre a felicidade: ―se tomares uma mulher como concubina. e não ocupar uma posição na qual pudesse mandar nele.) –. (mas) afasta-a de uma posição de poder‖ (ARAÚJO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas o sábio diz que o tecelão seria açoitado caso não cumprisse uma determinada meta. assim como elas. não deveriam ocupar posições de poder. é marcada pela idealização. que a imagem feminina nos textos. Por último. no início do Reino Novo. a mulher deveria servir ao homem. Não é fácil precisar a que se devia tal desventura. Fica demonstrado. Trata-se de uma comparação feita por Khéti.) Sê bom para ela (durante) algum tempo. a mulher aparece como sofredora. na literatura gnômica. Em apenas um caso analisado. 2001: 35). Ou seja.. Em nenhum outro documento se fala de tal maneira sobre a sorte da mulher.

que apresentam uma linguagem mais refinada. conservado no Museu Britânico. e poemas de fala feminina. os de fala feminina não apresentam uma imagem autoconstruída ou de uma mulher ideal. por meio de práticas sociais. representavam a ocasião ideal para a apreciação de um novo tipo de canção surgido nessa época e logo transformado em literatura escrita: os Poemas de Amor. a que aqui se refere. Não há como saber se os poemas de fala feminina – que correspondem a setenta e cinco por cento do conjunto – foram realmente escritos por mulheres. é o registro de alguma coisa que também se passou na esfera do sensível: é o registro de algo que diz respeito a 167 . sentimentos e valores que não são mais os nossos (PESAVENTO. do Museu Egípcio de Turim. discursos. pois se inscrevem sob os signos da alteridade. Diferentemente do que acontece com os poemas de fala masculina – que. a delicadeza de sentimentos e um erotismo velado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . nestes casos. chamando a atenção. traduzindo emoções. Papiro Turim 1996. tais como espaços e objetos construídos. que têm origem mais popular e cujos temas estão mais voltados ao cotidiano (WIEDEMANN. constroem uma imagem idealizada da mulher –. como os textos analisados anteriormente.NEA/UERJ trouxe novamente aos escribas egípcios a possibilidade de usar a escrita para a apreciação e o deleite. são sutis e difíceis de capturar. atualmente em Dublin. por sua vez. As sensibilidades. Os amantes nunca se tratam pelo nome. Barbara Lesko. pautada nesta distinção. sendo designados apenas como ―irmão‖ e ―irmã‖. e Óstraco do Cairo 1266+25218. mas eles transmitem. Cada um dos poemas presentes nos conjuntos é um monólogo. Papiro Harris 500. 2000: 302). 2007: 10). As versões que nos chegaram de tais poemas foram escritas em três papiros e um óstraco. 2000: 302) argumenta que os banquetes. mas sem que tal forma de tratamento tenha qualquer conotação familiar. tão em voga neste período. a análise das sensibilidades implica na percepção e na tradução das subjetividades da experiência humana no mundo. Portanto. 2007: 226). a sensibilidade feminina de maneira aguçada. A literatura. a saber: Papiro Chester Beatty I. segundo aponta Emanuel Araújo (2000: 301). imagens e materialidades. fragmentos de um vaso encontrado em Deir el-Medina (ARAÚJO. divide-os em poemas de fala masculina. Posener (apud ARAÚJO. ou do homem ou da mulher.

neste caso específico os Poemas de Amor.... 2000: 304).) não se diga [dela]: „Esta mulher está caída de amor‟‖. O segundo conjunto de poemas do Papiro Chester Beatty I mostra a necessidade do coração feminino da presença de seu amado: ―Ó. ela ora à deusa Hathor: ―Se minha mãe soubesse o que passa em meu coração (. é a maneira como se iniciam os três poemas do conjunto. se justifica pela busca de uma efêmera felicidade proporcionada pelo encontro dos apaixonados. o que desperta nela ―extrema alegria‖.. deviam ser velados. que o simples fato de pensar no homem amado. Esta urgência. ao contrário das masculinas. Assim. seu ―coração rebenta de felicidade‖ à vista de seu irmão! (ARAÚJO. Este poema demonstra a relação das mulheres egípcias com o amor antes do casamento. sensibilidades que correspondem ―(. 2000: 307). em sua maioria velado e platônico.. conforme apresentado nestes versos do segundo poema do primeiro conjunto do Papiro Chester Beatty I: ―Meu irmão agita meu coração com sua voz. pois. Deusa de Ouro. Observa-se. também faz com que o ―coração palpite‖.. se constituem como um espaço das sensibilidades que se manifestam em uma esfera anterior à reflexão. 2007: 10). vem depressa para tua irmã‖ (ARAÚJO. eu o beijarei na frente dos que o cercam (. Ó.NEA/UERJ anseios. meu coração. da necessidade da presença do ―irmão‖. 168 . pois a mulher espera que ―(. De fato. não palpites‖ (ARAÚJO. como o disparar de um coração ao ouvir a voz do amado. também. interpretada e traduzida em termos mais estáveis e contínuos‖ (PESAVENTO. Deste modo. as fontes literárias. põe isso no coração dela e então correrei ao meu irmão. 2000: 308-9). e por isso pede ―ó.). contudo. Tais sentimentos. 2000: 306).. como é visível no sexto poema do conjunto. no quarto poema do mesmo conjunto. onde a mulher passa em frente a uma porta aberta e é observada por seu amado. medos. 2000: 307). sensibilidades.)‖ (ARAÚJO. as falas femininas dos Poemas de Amor. pelas quais aquela relação originária é organizada.) às manifestações do pensamento ou do espírito. traduzem um amor sensível. percepções sobre o mundo e é. narrativa. apreensões.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. o tormento apodera-se de mim‖ (ARAÚJO.

2000: 317). do Papiro Harris 500. ―o desejo de cuidar de tuas coisas [refere-se ao amado] como dona de tua casa. Nela. por meio das palavras de Agnes Heller (2008: 31). Na linguagem comum. é a vida do homem inteiro. permite perceber as sensibilidades que tecem o cotidiano do feminino no antigo Egito. portanto. colocam-se ‗em funcionamento‘ todos os seus sentimentos. e na [sua] boca o suave vinho de romã parece [a ela] ser de fel‖ (ARAÚJO. 2000: 316). tê-lo ―como esposo. servindo-te meu amor‖. compreende-se. encontra-se a descrição do papel da Senhora da Casa. na mulher do quinto poema. Os poemas de fala feminina do conjunto intitulado ―Começo dos belos poemas de prazer de tua irmã amada quando ela volta do campo‖. a vida de todo homem. 2000: 317). o estudo destes poemas. Nesse sentido. paixões. Pretende. tão repleto de sentido. além de contar sobre as ânsias e sentimentos femininos. por mais ‗insubstancial‘ que seja. Além de instrumentos de caça e de alguns alimentos. sem nenhuma exceção qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. quando o amor faz surgir. seu gosto pelo detalhe fútil. tendo em uma das mãos a gaiola e na outra a rede e o bastão‖ e. daquele ―insignificante‖. Mas entende-se este termo como algo mais profundo que isso. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humana genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. com o teu braço no meu braço. ou seja.NEA/UERJ Os Poemas de Amor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . antes de qualquer coisa. que a vida cotidiana é. de sua personalidade. descrevem atividades desempenhadas pelas mulheres no dia-a-dia e as dificuldades de se concentrar nestas tarefas ao pensar em seu amado. ao capturar um pássaro do Punt. utilizados na época. de sua singularidade. com seu tom de confidência. idéias e ideologias‖. sem ele sou como alguém no túmulo‖ (ARAÚJO. não há nenhum homem. Desta forma. o termo cotidiano significa ‗o que se faz ou sucede todos os dias‘. Como é o caso da mulher que foi ―preparar a armadilha (de pássaros). que viva tão somente na cotidianidade. E. também ajudam a entender o cotidiano264 das mulheres na sociedade egípcia. pois ―Todos a vivem. desejava soltá-lo para ficar sozinha com o amado (ARAÚJO. O quarto poema do mesmo conjunto descreve como a distância do amado faz com que sabor do ―bolo doce é para [ela] como sal. 264 169 . ao contrário. embora essa o absorva preponderantemente. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade.

. De todas as fontes que contêm estes poemas. que esperavam. em tal poema. segue-se o pedido. O terceiro poema. a dança. contudo. a sexualidade. queria ser dada a ti pela Deusa de Ouro das Hator foi uma das mais importantes deidades do antigo Egito. dou graças à minha senhora divina‖ (ARAÚJO. cuja fala se direciona ao casal. Essa deusa é um dos mais complexos membros do panteão egípcio. Percebe-se.). e este se estendeu durante todo o período faraônico. particularmente para as mulheres (ROBINS. mas chama a atenção o terceiro poema do primeiro conjunto – este de fala feminina – no qual a mulher se banha com uma túnica branca e deseja: ―Ó. louvo a Senhora do Céu. explicita como atrai ―para sua fresca sombra‖ os apaixonados. Logo. 1995: 99). ―Ao invocá-la. 2000: 306) e. traz como eram as preces: ―Adoro a Deusa de Ouro. 2000: 323). cujo culto se tornou especialmente influente durante o Reino Novo. a que se encontra mais fragmentada é o Óstraco do Cairo. vem. se faz presente no cotidiano dos egípcios. A importante relação que os egípcios mantinham com a natureza transpassa os poemas do Papiro de Turim 1996. meu amor. usualmente que trouxesse a pessoa amada para si. personalidades e funções. [que] ela ou[ça suas] súplicas e mand[e]‖ a pessoa amada ao encontro da suplicante. o amor. Neste. venero Hator. cultuo sua majestade. sempre ocupou um lugar de destaque na vida dos antigos egípcios e não pode ser diferente na relação das mulheres com o amor. a magia. (. Neste. após. por exemplo. O resultado foi uma multifacetada deusa. O quinto poema. por exemplo. A aflição do amor não correspondido. tornando-se um abrigo para os casais que buscavam sua proteção para passarem ―um dia feliz‖ (ARAÚJO. a fertilidade e o nascimento. 265 170 .. Existem traços de seu culto já no Reino Antigo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cada poema começa com o nome de uma árvore. meu irmão. contado por um sicômoro. 2000. também transparece nas linhas dos poemas: ―Ele não sabe o desejo que tenho em tomálo nos braços. 325). bem como sua relação protetora com o rei ou como uma divindade funerária. a música. Ó. a saber.NEA/UERJ A religiosidade. a maioria dos poemas é de fala masculina. meu irmão. pois incorpora diversas características. travestida em preces à deusa Hator265. olha para mim!‖ (ARAÚJO. que auxiliava o morto a ter uma jornada pacifica no além túmulo. a sutil sensualidade da conquista. acima citado.

espero por aquele que me despreza‖. foram resguardadas pelo clima favorável à preservação no deserto. tão distantes temporalmente de nós. por exemplo. expressas nos Poemas de Amor. 2000: 305). o feminino se resguarda na espera de que o ―irmão‖ venha tomá-la como sua senhora: ―Meu olhar voltou-se para a porta do jardim (. revelam como estas mulheres. o que ocasionou o seu desaparecimento. percebiam e se relacionavam com o mundo que as rodeava. Este estudo. as formas culturais que nasceram às margens do Nilo. Em outras palavras. 2000: 319). pela localização das cidades em zonas de inundação. De fato. como os monumentos e a literatura.. 2009: 12). ora esperando que o ―irmão‖ percebesse e correspondesse seus sentimentos ou que os pais permitissem a sua união com o amado. transmitida por testemunhos de várias ordens. mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Consequentemente. sempre exerceram um enorme fascínio sobre a humanidade. há cerca de seis mil anos. evidencia sensibilidades passadas. de maneira geral. Considerações Finais A civilização do antigo Egito é conhecida. Olhos na estrada. em outras palavras arranjou outra mulher e ela fascina os seus olhos‖ (ARAÚJO. comumente. esse gênero literário permite compreender as subjetividades daquilo que já foi vivido e sentido em um outro tempo. sentimento este capaz de resistir aos séculos.). as mulheres assumiam um papel de espectadoras de suas vidas. A crença egípcia na vida após a morte. como um povo que permanece envolto em uma aura de mistério e magia (BALTHAZAR. assim. pontua essa questão explicando que os traços sobre a vida cotidiana dos antigos egípcios são pouco acessíveis às pesquisas arqueológicas. ainda hoje. mantendo-se. acerca dos Poemas de Amor de fala feminina. marcada por uma arquitetura grandiosa e pela crença na imortalidade. ouvidos atentos.. As diversas formas de enterramento. é uma das principais características estudadas e conhecidas daquela sociedade. contudo. em especial. às vezes. Sergio Donadoni (1994: 217). as múltiplas formas de sensibilidades. o que permitiu a sobrevivência de um grande número de fontes que expressam 171 . por sua cultura singular. a notícia por tanto tempo aguardada não se apresenta como se esperava: ―Ele te engana. isto é. O que demonstra que.NEA/UERJ mulheres‖ (ARAÚJO.

Em suma: (. Assim. tentar entender as sensibilidades. um pouco mais sobre a relação que as mulheres egípcias mantinham com o amor e a sua sexualidade. das trajetórias de vida.. enfim. retirado do conjunto que integra o Papiro Chester Beatty I. se materializa como um estudo sobre a visão egípcia acerca da vida. faz com que o fascínio que os egípcios sentiam pela morte se desvaneça frente à sede de vida implícita nos sentimentos de diferentes mulheres. ou melhor.NEA/UERJ a relação dos antigos egípcios com a morte. entende-se. é incidir sobre as formas de valorização e classificação de mundo dos egípcios. Pensar nas sensibilidades. Portanto. consequentemente. com o seu cotidiano. É também lidar com a vida privada e com todas as suas nuances e formas de exteriorizar – ou esconder – os sentimentos (PESAVENTO. Nesse sentido. Portanto. implícitas nas entrelinhas dos poemas. como as pirâmides e os textos funerários.) as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos. acredita-se ser mais coerente finaliza-lo com um poema. 172 . ao contrário da tendência apontada por Donadoni. no caso. 1994: 12). que ressalta a paixão pela vida. inscrita nos poemas aqui analisados. é não apenas mergulhar no estudo do indivíduo e da subjetividade. Nessa premissa. ao invés de terminar este artigo com argumentos científicos. Assim. 2003: 58). com vistas a perceber as sensibilidades femininas explicitadas nesse gênero literário. que é desapertada pela companhia do homem amado: Eu desenhei perto de você para ver seu amor. e.. acabou tornando a morte o principal objeto de estudo da egiptologia (DONADONI.MULHERES NA ANTIGUIDADE . as sensibilidades aqui se traduzem como representações de uma visão de mundo específica: a relação das mulheres egípcias com a vida. que foram resguardados nas linhas destes Poemas de Amor. a análise dos poemas de amor. a fala feminina. com o presente texto.

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A outra é a do misticismo. que gerou incontáveis interpretações e releituras. por duas tendências principais. Literaturas e Cultura Judaica (USP). Mito e Magia no Mundo Antigo e IX Fórum de Debates em História Antiga. fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ. A mais preponderante tem sido sem dúvida.com. presumir que o Talmud não é. na ênfase dada à lógica e à mágica‖.com 266 175 . ou que a Cabalá seja inteiramente divorciada da razão. fundou e dirigiu o Programa de Estudos Judaicos UERJ. Professora Adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Orientais da UERJ. alegoricamente. É falso. milagres. A diferença entre as duas correntes reside. mesclado de misticismo e obscuridade. escritora. seres fantásticos e eventos desafiando as leis naturais fazem parte deste imaginário.br ou janebg@hotmail. encontramos mitos e lendas que. oposta ao conhecimento. principalmente. sistematizada em várias obras coletivamente chamadas de Cabalá.ª Jane Bichmacher de Glasman267 Introdução: Literatura Hebraica e Misticismo ―De uma forma sintética. mitos e superstições trouxe para a tradição judaica Texto apresentado no I Congresso Internacional de Religião. Anjos. a do racionalismo .representada pela maior parte do Talmud e pela vasta literatura de comentários escrita em torno dela desde o século VI. através de sua longa história. NEA -UERJ. janeglasman@terra. Desde os relatos bíblicos. 1998) A magia sempre fez parte do universo cultural e literário judaico. também. Um corpus de lendas.ª Dr. Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada). pode-se dizer que o pensamento judaico tem se caracterizado. 267 Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica. (GLASMAN. em 9 de novembro de 2010.MULHERES NA ANTIGUIDADE . complementares uma da outra. compõem um acervo da ordem do fantástico. porém.NEA/UERJ MULHER E RELIGIÃO: O MITO DE LILITH266 Prof.

C. do raio e do trovão). não leite. O sincretismo mais conhecido é a combinação entre lendas mesopotâmicas e israelitas. onde amuletos e encantamentos eram usados contra os poderes sinistros deste espírito alado que vitimava mulheres grávidas e crianças. a raiz Lil.NEA/UERJ personagens como o Golem. que significa vento. tendo se livrado de armadilhas colocadas por eventos fantásticos e divinos. intrepidamente matava monstros e procurava em vão o segredo da vida eterna. Existe um parentesco também entre Lilith e as palavras sumérias lulti (lascívia) e lulu (libertinagem) e de palavras sumerianas para demônios femininos ou espíritos de vento: lilītu e ardat lilǐ. sem dúvida. através do misticismo judaico. era 2/3 deus e 1/3 humano. Ardat lilī é uma fêmea sexualmente frustrada e estéril que se comporta agressivamente com homens jovens. Lilith. 268 176 . no nome de Enlil (deus sumério do Ar. o nascimento de um mito Há 4.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Seus peitos são cheios de veneno. O poderoso governante Gilgamesh é o primeiro herói literário do mundo. protagonizando a literatura da Cabalá. aparece. Segundo o mito. A mais antiga menção do nome Lilith aparece em Gilgamesh e a árvore Hulupu. Ela é. Lilith e Dibuk. artistas e poetas. uma personagem bastante controversa. por exemplo. Ele foi um dos reis sumérios que governaram após o dilúvio histórico. Suas origens remontam à demonologia babilônica. Os relatos de sua biografia são contraditórios.268 Na etimologia hebraica. Lilith é uma figura mitológica cujas origens se perdem em priscas eras. que traz em si o conflito e o paradoxo que constituiu a visão do feminino na história humana. Lilītu habita em desertos e espaços abertos e é especialmente perigosa para mulheres grávidas e crianças. Na Suméria. senhor das tempestades. e autor de feitos sobre-humanos.000 anos Lilith tem vagado pela terra. figurando nas imaginações míticas de escritores. depois de milênios de misturas entre crenças de vários povos. Lilith ‫לילית‬ deriva de Layl ‫ ליל‬que significa noite. um poema épico sumeriano encontrado numa tábua em Ur e datando de aproximadamente 2000 a.

O pássaro Zu (Anzu) pôs seus filhotes nos galhos da árvore. 1938. datado de cerca de 1950 a." Gilgamesh corre para ajudar Inana. identificada como a primeira representação pictórica conhecida de Lilith270. do erotismo e da fertilidade entre os antigos sumérios. deusa do amor.E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco. Originária da mesma época do épico de Gilgamesh é uma placa de terracota. ambos empregados Traduzi de Kramer. Samuel Kramer identificou Lilith no Relevo Burney. de cuja madeira ela espera moldar um trono e uma cama para si. "depois que céu e terra tinham se separado e homem tinha sido criado. a mulher-pássaro nua segura dois pares do ―círculo mágico‖ e da ―arma santa‖ (a vara ou cetro de madeira de cedro). Um dos vilões é Lilith: ―Então uma serpente (dragão) que não podia ser encantada Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu. Os planos de Inana quase são frustrados. fazendo o Pássaro Zu voar para as montanhas e Lilith horrorizada fugir "para o deserto". Em seu jardim às margens do Rio Eufrates.MULHERES NA ANTIGUIDADE .NEA/UERJ Num episódio. peça da coleção particular do coronel Norman Corville 269 270 177 . no entanto. o que tem sido alvo de críticas por parte da comunidade acadêmica. o bravo Gilgamesh mata a serpente.. ‖269 Usando armadura pesada. quando um vil triunvirato se apodera da árvore. Inana amorosamente cuida de uma árvore hulupu (identificada como um salgueiro). Neste baixo-relevo em terracota.C. conhecida como o Relevo Burney. sumério ou assírio.

que integra atualmente o acervo do Louvre272. ao que parece. British Museum). há uma placa de parede de pedra calcária. Além disso. aparentemente curvando-os à sua vontade. Em primitivos encantamentos contra Lilith. Datando do oitavo ou sétimo século a. como muitos deuses de povos vencidos. no topo da Estela de Hamurábi (séc. Afinal.C. O problema em identificar esta mulher-pássaro com Lilith está nos objetos que ela porta. pois ostenta um chapéu triangular escalonado (mitra). ela voa com asas de demônio. séc. adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo271. o que significa que os escultores que a moldaram não lhe deram o tratamento de uma simples humana nem tampouco de um demônio que se desejasse exorcizar. esta mulher-pássaro estaria utilizando sua magia para subjugar feras. A associação de Lilith com a coruja -um pássaro predatório e noturnoevidencia uma conexão com vôo e terrores noturnos. descoberta em Arslan Tash (que significa ―leão de Assim figura.C. O que sabemos é que a entidade feminina representada no Relevo Burney é a mesma retratada em uma placa do antigo período babilônico. Este tipo de chapéu é de uso exclusivo de divindades. sabemos que ela é uma deusa. XVIII a. IX a.C. varinha e báculo? Por que ornaria tal ser com colares e braceletes dignos da realeza? Por que lhe conceder a coragem de um rei. por exemplo.NEA/UERJ em cerimônias religiosas.) e num tablete representando a reedificação de um templo de (Sippar. acadêmicos identificaram a figura como Inana. que são representados em afrescos coloridos por cores diferentes. Na iconografia babilônica os deuses podem presentear humanos (reis e sacerdotes) com estes dois objetos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em ambos os casos esta jovem mulher com asas e pés de pássaro é o elemento central de um complexo tema heráldico. onde o deus sol Shamash porta os objetos de poder. um modo convencional de transporte para residentes do submundo. teria sido transformada em demônio em época posterior. dominador de leões? A resposta é simples: Quando essas peças foram moldadas ela ainda era retratada como deusa. Porém. esculpida de pé sobre um par de leões e entre duas corujas. 271 178 . 272 Mais recentemente. por que alguém esculpiria uma demônia portando mitra.

referidos frequentemente como Primeiro Isaias.). O Livro de Isaias é um compêndio de profecia hebraica através de muitos anos.menarca. israelitas e gregos.povos antigos achavam que forças sobrenaturais estavam em ação. forasteiros perenes e inimigos dos israelitas antigos. se Lilith visse seu nome escrito na placa. e Lilith descansará ali. uma demônia foi creditada como responsável.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C. 179 . As histórias de Lilith e amuletos provavelmente ajudaram gerações a enfrentar seu temor. A placa assim oferecia proteção contra más intenções de Lilith para com uma mãe ou criança. ela temeria ser reconhecida e partiria. perda da virgindade ou parto . que se acreditava estar espreitando na porta e figurativamente bloqueando a luz. um Yahweh empunhando espada busca vingança contra os infiéis edomitas. Em situações críticas na vida da mulher. casamento.‫אי ִים‬ ִ -‫צי ִים אֶת‬ ִ ‫פגְׁשּו‬ ָ ‫ּו‬ ‫ח‬ ַ ‫מצְָאה לָּה מָנֹו‬ ָ ‫ ּו‬. Fez uma aparência solitária na Bíblia. De acordo com este poema apocalíptico poderoso. egípcios. Com o tempo. em 1933.‫ִרגִיעָה לִילִית‬ ְ‫ה‬ "E as feras do deserto se encontrarão com hienas (raposas/chacais). que migrou para o mundo dos antigos hititas." (Isaias 34: 14). ele encoraja os judeus a evitar embaraços com estrangeiros que adoram divindades alheias. No Capítulo 34. A placa provavelmente foi pendurada na casa de uma mulher grávida e servia como um amuleto contra Lilith. e achará pouso para si. na Síria. Edom tornar-se-á uma terra caótica e deserta onde o solo é estéril e animais selvagens vagam: ‫ׁשָם‬-‫ְרא. Presumivelmente. ela é mencionada só uma vez. que contém uma menção horrível de Lilith. e o sátiro (bode/demônio) clamará ao seu companheiro. por exemplo. em Isaias 34. pessoas por todo o Oriente Próximo tornaram-se crescentemente familiares com o mito de Lilith. Por todo o livro. No texto bíblico Na Bíblia. אְַך‬ ָ ‫רעֵהּו יִק‬ ֵ -‫שעִיר עַל‬ ָ ‫ו‬ ְ . podem ser designados ao tempo quando o profeta viveu (aproximadamente 742–701 a. os primeiros 39 capítulos do livro. Para explicar o alto índice de mortalidade infantil.NEA/UERJ pedra‖ em turco).

mas outras versões são fiéis à sua antiga imagem como um pássaro. se lilith é um animal indeterminado. Se lilith é uma demônia. traduz lilith como "o pio da coruja". Aos tradutores ingleses do versículo às vezes carece confiança no conhecimento dos seus leitores de demonologia babilônica. Lilith é banida de território fértil e exilada para deserto estéril. A passagem carece de detalhes ao descrever Lilith. se'ir é um bode. A tradição judaica aponta na direção da criatura mitológica. demônio ou sátiro? Provavelmente o significado de se'ir tem sido determinado pelo de lilith. um hino usado em exorcismos: É preciso salientar. ela reaparece nos Manuscritos do Mar Morto. enquanto que as Escrituras Sagradas da Sociedade Judaica de Publicação de 1917 a chamam de ―monstro da noite. esta passagem relata que ―os animais noturnos ali pousarão‖. Manuscritos do Mar Morto Apesar de Lilith não ser mencionada outra vez na Bíblia. é um lugar onde a criatividade e a vida em si facilmente são extintas. e Lilith aparece na Canção para um Sábio. a Versão King James.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como é freqüente embora erroneamente citado no Brasil (tratando-se de um exemplo da forte influência da cultura anglo saxã no mundo lusófono). não havendo menção da coruja. comparativamente. Talvez dada a sua longa associação à noite. lembrando as qualidades de pássaro sinistro da demônia babilônica.‖ O texto hebraico e suas melhores traduções empregam a palavra lilith na passagem de Isaias. A Versão Normal Revisada escolhe seus hábitos noturnos e a etiqueta como "a bruxa de noite" em vez de lilith. As traduções também diferem para se'ir: é bode. que na versão em língua portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida. tradução inglesa da bíblia. criatura da noite e bruxa273. O descampado tradicionalmente simboliza aridez mental e física. 273 180 . A seita de Qumran absorveu demonologia. então se'ir é uma espécie de demônio. O verso bíblico liga assim Lilith ao demônio do épico Gilgamesh que foge "para o deserto".NEA/UERJ Lilith demônio era aparentemente tão conhecida do público de Isaias que não era necessária nenhuma explicação sobre sua identidade. mas a situa em lugares desolados.

C. 10. e os que atacam inesperadamente para desencaminhar o espírito de entendimento‖ (11QPsAp274) A comunidade de Qumran era familiar da passagem de Isaias. após o cativeiro da Babilônia no século VI a. ao comentar a bênção sacerdotal de Números 6: 26 com esta versão: "O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lilim!" Lilith no Talmud Séculos depois que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos. de porções do Antigo Testamento utilizado em sinagogas da Palestina e da Babilônia. Quando. Outro ponto a destacar é que aqui temos lilith no plural.. mais ou menos literal. pois a tradição diz que Lilith teria filhos chamados de Lilim. e a caracterização incompleta de Lilith ecoa por este Manuscrito do Mar Morto litúrgico. demônios.NEA/UERJ ―E Eu. O contexto deixa claro que vê o versículo bíblico referindo-se ao demoníaco mais do que a animais do deserto. frequentemente apenas de versos individuais ou de partes. o aramaico substituiu o hebraico como língua falada em geral. O Targum Yerushalmi é também chamado de Fragmentário porque o de todo o Pentateuco não foi preservado. Estes fragmentos foram impressas na primeira Bíblia Rabínica de 1517. no singular. proclamo a majestade de seu esplendor a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos. Apenas uma pequena parcela dos muitos Targumim orais que foram produzidos sobreviveu. 11. Provavelmente não é apenas uma licença poética.1f Um Targum aramaico é qualquer uma das traduções.).. o Sábio.. sendo que este termo aparece no Targum Yerushalami275. tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras. 274 275 181 . corujas e chacais. rabinos eruditos completaram o Talmud Babilônico (redação final ao redor de 500 a 600 d. ao contrário de Isaias. e demônios femininos transitaram por investigações acadêmicas judaicas. somente porções do mesmo em inúmeras passagens.C.4-6a // frag.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O Talmud (o nome vem da raiz 4 QCânticos do Instrutor/ 4QShir — 4Q510 frag. Liliths.

Lilith atacava mesmo os homens casados e. um demônio em forma feminina que fazia sexo com homens enquanto eles dormiam. Durante o período de 130 anos entre a morte de Abel e o nascimento de Seth. O "exorcismo" de Lilith e de quaisquer espíritos que a acompanhavam muitas vezes tomava a forma de um mandado de divórcio. Sua imagem foi desenterrada em numerosos pratos de cerâmicas conhecidos como vasos de encantamento pelas inscrições aramaicas de feitiços neles. Se o Talmud demonstra o que acadêmicos pensavam sobre Lilith. demônios não só 276 Em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. Babilônia. noite adentro. Vasos de encantamento Ao tempo que o Talmud foi completado. os judeus desenvolveram rituais elaborados para bani-la de suas casas. o Talmud informa. de cerca de 600 d.C. circundada por um texto profilático em aramaico.NEA/UERJ hebraica que significa "estudo") é um compêndio de discussões legais. por ela ter "cabelo longo" (Eruvin 100b) e ―asas‖ (Nidah 24b). As referências talmúdicas a Lilith são poucas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . espíritos. 182 .. O demônio feminino da noite é Lilith. Durante este tempo ele torna-se o pai de "fantasmas e demônios masculinos e femininos [ou demônios da noite]‖ (Eruvin 18b). pessoas que viviam na colônia judaica de Nipur. para combatê-la. mostram em que pessoas comuns acreditavam. A Lilith do Talmud lembra imagens babilônicas mais antigas. os vasos de encantamento. Também reforça impressões mais antigas dela como um súcubo. E os que tentaram construir a Torre de Babel transformaram-se em "macacos. demônios e demônios da noite‖ (Sanhedrin 109a). Adão transtornado separa-se de Eva. Práticas sexuais nocivas são ligadas a Lilith quando ela poderosamente incorpora o mito de demônioamante. contos rabínicos e comentários sobre passagens bíblicas. como o prato276 que é um amuleto persa com Lilith no centro. também souberam de Lilith. expulsando-os nus. A inscrição é para oferecer a uma mulher chamada Rashnoi proteção de Lilith. mas fornecem um vislumbre do que intelectuais pensavam sobre ela. Por vezes. De acordo com folclore popular.

depois que um erudito inglês. correspondendo às 22 letras do alfabeto hebraico. Um tesouro em manuscritos foi descoberto numa guenizá do Cairo. 277 183 . Ben Sira: Texto grego dos apócrifos baseado num original hebraico. embora alguns pesquisadores sustentem que a história possa ser mais antiga. e ele ordena a um cortesão chamado Ben Sira a curar o rapaz. O jovem filho do rei está doente. como os da Literatura bíblica de Sabedoria.. que causam doença e morte. É um texto anônimo. Ben Sira grava um amuleto com os nomes de três anjos curadores. Invocando o nome de Deus. Mas o quinto episódio inclui uma Lilith que iria atormentar o povo por gerações. Deus percebe que não é bom para o homem estar só (Gênesis 2: 18). enfatizando a grandeza de Israel e a fruição dos prazeres deste mundo dentro dos limites proscritos. ao acrescentar ao enredo: é a primeira esposa do Adão. Lilith no Alfabeto de Ben Sira Até o século VII EC. eles também produziam prole depravada unindo-se a seres humanos e copulando de noite. Então relata uma estória de como estes anjos viajam ao redor do mundo para subjugar espíritos do mal. O autor revela uma tendência marcante para as idéias religiosas dos fariseus. Lilith era conhecida como uma perigosa encarnação de obscuros poderes femininos. o Alfabeto de Ben Sira mostra uma Lilith familiar: é destrutiva. Neste vaso em particular. com 22 episódios. Solomon Shechter. como Lilith. Até certo ponto. É uma coleção de provérbios e máximas. Na Idade Média. pode voar e tem atração por sexo. que audaciosamente deixa o Éden porque é tratada como inferior ao homem. Entre os séculos VIII e X d. considerado parte do cânon das escrituras por algumas denominações cristãs.MULHERES NA ANTIGUIDADE . antes de Eva. o Alfabeto de Ben Sira277 foi introduzido no mundo judaico medieval. no entanto. A narrativa do Alfabeto sobre Lilith é moldada dentro de um conto sobre o Rei Nabucodonosor da Babilônia. Ben Sira cita a passagem da Bíblia onde depois de criar Adão.NEA/UERJ matavam crianças humanas. ela recebeu características novas e mais sinistras. teve acesso a uma página de um original hebraico de Ben Sira proveniente de lá. Entre os manuscritos que ele recuperou estava uma grande parte do original.C. uma ordem judaica de divórcio expulsa os demônios da casa de Rashnoi.

Assim como os israelitas alcançaram a liberdade do Faraó aí. O Tetragrama é considerado "o nome que abrange o todo" (Zohar 19a). o nome inefável do Senhor. Deus explica o significado do nome divino como "sou o que sou" ou "serei o que serei" um tipo de fórmula para YHWH. não tenta dominar ninguém. Então Lilith alça vôo e vai-se. No episódio bíblico da sarça ardente em Êxodo 3. Como Lilith e Adão são formados da mesma substância. Lilith. Lilith foge para espaços desertos. Sua partida dramática restabelece para uma nova geração uma Lilith de caráter sobrenatural como um demônio alado. eles são semelhantes em importância. por muito tempo tem sido considerado tão sagrado que é inexprimível. por outro lado. Lilith peca por insolentemente proferir as letras sagradas. Lilith se recusa a deitar embaixo de Adão durante o sexo. demonstrando assim a uma audiência medieval ser indigna de residir no Paraíso. O total da Torá considera-se ser contido dentro do nome sagrado.A luta continua até que Lilith torna-se tão frustrada com a obstinação e a arrogância de Adão que audaciosamente pronuncia o Tetragrama. local de importância histórica e simbólica para o povo judeu. simplesmente afirma sua liberdade pessoal e declara: "somos iguais porque ambos fomos criados da terra". Em teologia e prática judaica. associado com a raiz hebraica de "ser". A validade do argumento de Lilith é mais aparente em hebraico. Ele aparentemente acredita que Lilith deve executar deveres de esposa submissa. tendo obtido poder para tal ao pronunciar o nome de Deus. Deus forma outra pessoa da terra. há ainda mistério e majestade ligados ao nome especial de Deus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . no Dia da Expiação. Durante os dias do Templo de Jerusalém. traduzido como "Senhor Deus" na maioria das Bíblias e aproximadamente equivalente ao termo Yahweh. Lilith ganha 184 . Logo o casal humano começa a discutir. pois as palavras para homem (Adão) e terra vêm da mesma raiz. O nome de Deus YHWH.NEA/UERJ Nas adições fantásticas de Ben Sira ao conto bíblico. No Alfabeto de Ben Sira seu destino é o Mar vermelho. uma fêmea chamada Lilith. No Alfabeto. adamah = terra). só o Sumo Sacerdote dizia a palavra em voz alta e só uma vez por ano. adm (Adam = Adão. Na epopeia de Gilgamesh e no episódio de Isaias. mas nenhum realmente ouve o outro. mas ele insiste que este é seu lugar.

Nenhum dos dois tenta resolver a disputa ou alcançar alguma espécie de compromisso onde alternem estar no topo (literal e figurativamente). o conflito de Lilith com Adão é o da autoridade patriarcal contra o desejo matriarcal de emancipação. sem reconciliar. "nenhuma ajuda adequada foi achada" (Gênesis 2: 20). Ironicamente. O que compeliu o autor a teorizar que Adão teve uma companheira antes de Eva? A resposta pode ser encontrada nos dois relatos bíblicos da Criação. Lilith demonstra que não é totalmente separada do divino. Lilith jura em nome de Deus que não prejudicará qualquer criança que usar um amuleto portando seu nome. seguido por plantas. forjando um acordo com Deus e os anjos. os seres vivos aparecem numa ordem específica. plantas. Mas mesmo sendo quem parte. Deus então lança um sono profundo sobre Adão. Nesta versão. ela se recusa a retornar ao Éden. homem é criado primeiramente. mas também uma mãe incrivelmente fértil. No fim. Uma interpretação tradicional desta 185 . no entanto. que a aprova e a nomeia Eva. O homem não consegue lidar com o desejo da mulher por liberdade e a mulher não se contentará com nada menos. homem e mulher são criados juntos e parecem ser semelhantes. Em Gênesis 2.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Para que os anjos não a afoguem no mar. Três anjos são enviados à procura de Lilith. ambos perdem. ajudando assim a manter o equilíbrio do mundo entre bem e mal. Para GAINES (2009). Deus apresenta a mulher a Adão. formando a mulher de uma costela sua. Aparentemente.NEA/UERJ independência de Adão indo para lá. A história de Ben Sira sugere que Lilith é compelida a matar bebês em retaliação ao mau tratamento de Adão e à insistência de Deus em matar 100 de sua prole diariamente. animais e finalmente a mulher. animais e finalmente homem e mulher são feitos simultaneamente no sexto dia: "Macho e fêmea Ele os criou" (Gênesis 1:27). Eles representam a batalha arquetípica dos sexos. 100 de seus filhos devem morrer a cada dia. Vem por último porque dentre os animais que Deus tinha criado. reivindicando que foi criada para ferir crianças. Deus conta a Adão que se Lilith não retornar. Em Gênesis 1. é ela que se sente rejeitada e zangada. Lilith não é apenas uma feiticeira assassina de crianças. Quando eles a encontram no Mar Vermelho.

comentaristas necessitavam que um midrash ou história explicasse a disparidade nas narrativas da Criação de Gênesis 1 e 2. de todos os mitos de Lilith. De fato. que elabora o conto anterior ao nascimento de Lilith no Éden.então devem ter sido duas mulheres. a história de Lilith talvez tenha sido uma paródia que nunca representou o verdadeiro pensamento rabínico. no fim. a linguagem do Alfabeto é freqüentemente grosseira e seu tom irreverente. apesar da possibilidade de que seu autor ludibriasse textos sagrados. expondo as hipocrisias de heróis bíblicos como Jeremias e oferecendo discussões de questões vulgares como masturbação. Pode ter servido como divertimento lascivo para estudantes e o público. o desejo de Lilith por liberação é oposto ao determinado pela sociedade macho-dominada. o Talmud e outras exegeses rabínicas. Lilith foi identificada como a primeira para completar a história. Deus cria a mulher duas vezes . Embora leitores medievais possam ter rido da linguagem obscena da história. A Bíblia nomeia a segunda mulher de Eva. sua descrição no Alfabeto de Ben Sira é hoje a mais alardeada. no entanto. Lilith na Cabalá: Zohar O próximo marco na jornada de Lilith está no Zohar. usando fontes anteriores. ridiculariza a Bíblia. Por esta razão. 186 . Outra teoria plausível sobre a criação desta história de Lilith. mas era em parte desconhecido por acadêmicos sérios da época. compilado na Espanha por Moisés de Leon (1250–1305). é que o conto de Ben Sira é uma peça deliberadamente satírica que zomba. flatulência e cópula por animais. as interpretações místicas e alegóricas da Torá do Zohar são consideradas sagradas. A Lilith do Zohar 278 Acadêmicos a identificam como a mais antiga das duas narrativas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . outra vez da costela do homem .uma vez com homem. O Zohar (que quer dizer "Esplendor") é o título hebraico de um tomo fundamental cabalístico.NEA/UERJ segunda história de Criação278 é que essa mulher foi feita para agradar o homem e ser inferior a ele. Neste contexto. Considerando que cada palavra da Bíblia é exata e sagrada. Aos cabalistas (membros da escola medieval de pensamento místico).

macho e fêmea Ele os criou"). e a interpretação desta passagem no Talmud. o Zohar escapa da apresentação tradicional da personalidade divina como exclusivamente masculina e discute um lado feminino de Deus. Outra passagem indica que logo que Eva é criada e Lilith vê sua rival unir-se a Adão. É associado com Satã." em Gênesis 1: 27. 55a) e incorporam a obscura esfera negativa do depravado. o Talmud sugere que o primeiro ser humano era uma única criatura de andrógina. A inovação final do Zohar concernente ao mito de Lilith é a associação dela com a personificação masculina do mal. como os tratamentos anteriores de Lilith.NEA/UERJ depende de uma releitura de Gênesis 1: 27 ("E Deus criou homem à Sua imagem. A Shekhiná. Se a Shekhiná é a mãe de Israel. Em vários pontos. com duas distintas metades: "A princípio era a intenção que dois [macho e fêmea] deviam ser criados. cujo nome significa "a Presença Divina" em hebraico. concebe suas crianças e então as infecta com doença. pela força da impureza que ele tinha absorvido" de Lilith. a luxúria que Lilith instiga em homens envia a Shekhiná ao exilo. chamada Samael ou Asmodeus. inspira sua luxúria. também aparece no Talmud. Lilith vai-se embora. chamado Shekhiná279. a serpente e o líder dos anjos caídos. A passagem vai além dizendo que ela paira sobre suas vítimas sem desconfiança. Lilith e Samael formam uma aliança ímpia (Zohar 23b. então Deus colocou Adão num sono fundo e "serrou-a fora dele e adornou-a como uma noiva e a trouxe para ele". Esta porção desprendida é "a Lilith original. a vê como uma sedutora de homens inocentes. No Zohar. Séculos mais tarde o Zohar elabora que macho e fêmea logo foram separados. O Zohar. à imagem de Deus Ele criou-o. Baseado na mudança de pronomes de "criou-o" ao plural "criou-os. 279 187 . criadora de espíritos do mal e portadora de doença: "Vagueia à noite. que esteve com ele [Adão] e que concebeu dele" (Zohar 34b). pois ele serve como pai de "muitos espíritos e demônios. A porção feminina do ser humano era unida no lado.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mas finalmente só um foi criado" (Eruvin 18a). Adão é uma de suas vítimas. então Lilith é a mãe da apostasia de Israel. atormentando os filhos de homens e causando-os a se poluir [emitir semente]" (Zohar 19b).

Uma Lilith conspiradora e malévola convence seu amante anterior. Robert Browning. depravação. O poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti (1828–1882) imaginativamente descreve um pacto entre Lilith e a serpente da Bíblia. e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos. e causa grande tristeza a Deus. por exemplo. etc. outro testamento ao poder duradouro da demônio. Lilith e Eva".MULHERES NA ANTIGUIDADE . John Keats. Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus. a cobra. convence Eva e Adão a pecar comendo a fruta proibida. homossexualidade e vampirismo.NEA/UERJ Tendo Lilith aparecido no Zohar e em muitas lendas populares anônimas por toda a Europa. Dante Gabriel Rossetti. causadora pragas. Disfarçada como uma cobra Lilith retorna ao Éden. noturna. John Collier. devoradora de crianças. na literatura e nas artes. através dos séculos ela atraiu a atenção de alguns dos artistas e escritores mais conhecidos da Europa280. em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca. e o poeta vitoriano inglês Robert Browning (1812–1889) escreveu "Adão. Podemos citar os nomes de Goethe. quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith. Michelangelo Johann Goethe da Alemanha (1749–1832) refere-se a Lilith em Fausto. 280 188 . a emprestar-lhe uma forma de réptil.

GLASMAN. ano II. 189 . SCHOLEM. GAINES. em que a noite escura com seus mistérios passa a ser temida e não mais celebrada. 1938. pp. London: Soncino. CHUMASH. Bíblia. Gershom. Zohar: The Book of Splendor.bibarch. Rio de Janeiro. Esta criatura alada da noite é. trans. New York: Schocken Books. Isidore Epstein. Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A Reconstructed Sumerian Text. jan/jun 98.NEA/UERJ Conclusão A figura mítica de Lilith ilustra bem a passagem. vol. 1993. São Paulo: Trejger Editores. 17 vols. As peregrinações de Lilith continuam hoje.org:80/e-features/lilith. Lilith sobrevive porque é o arquétipo para o papel cambiável da mulher. 1. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: The Babylonian Talmud. a única mulher demônio "sobrevivente" do império babilônico. Lilith: Seductress. Samuel N. 1915). pois ela é renasce a cada vez que sua personagem é reinterpretada. Assyriological Studies 10.asp acesso em 21/5/09.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Revista IDEA. O recontar do mito de Lilith reflete visões do papel feminino a cada geração. 1963. Cabalá: Misticismo e Pensamento Judaico. Janet Howe. Com comentários de Rashi. 1998. 35–49. quando a Grande Deusa é vilipendiada do seu trono e metamorfoseada em consorte do demônio e símbolo do mal. Heroine or Murderer? In: Biblical Archeology Review. 1948. KRAMER.D. Eisenstein. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFABETO DE BEN SIRA em: Ozar Midrashim: A Library of Two Hundred Minor Midrashim (New York: J. nº 2. Jane Bichmacher de. com efeito. À medida que crescemos e mudamos com os milênios. March/April 2009. on line http://www. ISTARJ. Chicago: University of Chicago.

ou seja. é possível verificar algo que denota uma outra forma de poder pendendo para a mulher. 19a e 20a dinastias. Entretanto. Coord. O segundo como divindade. do Núcleo de Estudos em História Medieval. tanto após a morte (mais comum) quanto em vida. relativo ao cotidiano da egípcia comum como ―senhora da casa‖ (nbt-pr). Tomando por base os estudos sobre stelas votivas e funerárias e. o que Prof. DIVINDADE E FARAÓ AS VÁRIAS IMAGENS DA MULHER DO ANTIGO EGITO Prof. Por último a mulher na condição de monarca. Dr. é possível perceber que na iconografia o homem está invariavelmente numa posição de destaque em relação a mulher.C. O primeiro. Antiga e Arqueologia Transdisciplinar (NEHMAAT) e Coord. Rei do Alto e Baixo Egito (nsw bity). Senhora da Casa: ser ou não ser eis a questão Dentre os vários aspectos da vida cotidiana da senhora da casa alguns são bem significativos. desempenhado pela mulher no Antigo Egito tomando por base três aspectos que consideramos significativos.C. apresentou uma projeção sócio-política e religiosa aparentemente sem precedentes. Seja estando a frente.) nos concentraremos principalmente na 18a.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tumbas de privados (ver Ciro Flamarion Cardoso e Sheila Whale). Julio Gralha281 As várias faces da mulher egípcia O presente artigo é um breve trabalho sobre o papel (em boa parte através da iconografia). Momento em que a mulher. de um modo geral. Nas inscrições destaca-se a descendência da família dada sempre pela mãe. e 30 a. 281 190 .NEA/UERJ SENHORA DA CASA. do Estudos Orientais no Lato Sensu em História Antiga e Medieval do Núcleo de Estudos da Antiguidade da UERJ (NEA). Adjunto de História Antiga e Medieval da UFF-PUCG. apesar da inconstância. Assim sendo. notadamente membros da família real. seja na posição em pé ou sentando e aparecendo como o proprietário da tumba. entre 1550 e 1070 a.C. Apesar de tomarmos exemplos dos três mil anos do Egito Faraônico (aproximadamente entre 3000 a.

NEA/UERJ chamamos de sobrenome era derivado do nome da mãe – ―Fulano filho da senhora da casa fulana‖. rainhas ou parentes próximos). Assim. tal ato social e cultural possivelmente envolveria festividades. Através do casamento de Mutnedjmet — irmã da rainha Nefertiti. 1993: 2). com o general Horemheb que assim. Segundo Gay Robins: Não existe qualquer menção em nossas fontes de qualquer cerimônia legal ou religiosa para formalizar o casamento. todo monarca deveria nascer de uma rainha ou legitimar-se pelo casamento do pretendente ao trono com um membro da família real do sexo feminino (princesa. talvez como forma de formalizar ou demonstrar para os grupos sociais locais o estabelecimento do casamento. Assim sendo. esposa do faraó Akhenaton —. mesmo não sendo ele de linhagem real (GRALHA. De fato um ato significante parece ter sido a coabitação. Assim sendo. pode estabelecer sua legitimidade como monarca e ascender ao trono do Egito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Este não era ―sacramentado por qualquer sanção ritual ou administrativa‖ (CARDOSO. Um dos termos usados para tal era estabelecer um lar. os primeiros contratos encontrados são de pelo menos 300 anos depois (por volta do século 191 . Não está claro como os contratos de casamentos eram produzidos durante o Reino Novo uma vez que. o que pode significar que a expressão não tem exclusividade masculina. Todavia expressões como tomar alguém ou no caso feminino tomar um marido também poderia ser encontrada. tanto como senhora da casa ou rainha a legitimidade da família e sua linhagem deveria ser dada pela mulher. 2000: 104). Elemento igualmente interessante era o matrimônio. Um bom exemplo pode ser encontrado nos momentos que se seguiram o período de Amarna. No que concerne a realeza a mesma prática cultural parece ter sido usada com algumas variações uma vez que a perpetuação da linhagem da teocracia faraônica ou monarquia divina deveria ser dada através da rainha-mãe ou parentes femininos próximas.

NEA/UERJ VIII a. senão já teria escrito à minha mãe. Weidemann (2007) em um estudo significativo salienta em sua tese que: Não fica claro qual seria o papel do amor na escolha de um parceiro no casamento: parece que a maioria dos casamentos no Antigo Egito era arranjada (2007:134). 192 . Neste sentido é possível questionar se foram realmente produzidos pelo egípcio comum. Ele é vizinho da casa de minha mãe e não posso chegar até ele. o tormento apodera-se de mim. Assim. seja ele masculino ou feminino.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Um destes poemas é particularmente interessante: Poema do Papiro Chester Beatty I datado da 20ª dinastia (1196-1070 a. 2000: 301-330). Ele não sabe o desejo que tenho de toma-lo nos braços.C. Minha mãe tem razão ao dizer-me: "Pára de olha-lo!" Mas meu coração sofre quando penso nele.). através dos poemas de amor (ver diversos em ARAUJO. Talvez estivessem implícitos por uma espécie de regras de costume ou direito consuetudinário. é possível. De fato ele é um tolo. perceber (ou inferir) que existia grande afeição pelos nubentes (ROMANO. 1990: 5) o que em parte pode significar certa liberdade para a escolha do parceiro. Por outro lado. mas sou como ele. penalidades contra o adultério masculino e agressão masculina são particularmente interessantes e podiam levar ao divórcio e compensações financeiras.) Meu irmão (trata-se da pessoa amada e não o irmão biológico) agita meu coração com sua voz.C. sou tomada pelo amor que sinto por ele. Os contratos são significativos durante o período ptolomaico e é possível identificar uma grande quantidade com regulações e penalidades para os membros infratores.

à infertilidade e a não compatibilidade por exemplo. meu pai e minha mãe ficarão encantados. toda minha família te aclamará em uníssono. Em certa medida não é tão diferente de hoje. Ou mesmo ―escolhendo-o‖. quisera eu ser dada a ti pela Deusa de Ouro das mulheres! (deusa Hathor) Vem a mim. cuidava do lar e dos filhos. Em todo caso em uma análise rápida e sintética é possível perceber que a jovem amante e sua família aceitariam o jovem amado. A parte repudiada no matrimônio recebia uma compensação. e como tal. mas 193 .NEA/UERJ Ó. para que contemple tua beleza. 2000: 303-304) Provavelmente tal poema foi escrito por um escriba (existe a possibilidade de escribas femininas. nos matrimônios comuns e de segmentos menos favorecidos. sobretudo. ―sair para fazer compras‖. Ela se insinua para o jovem e a mãe alerta Pára de olhalo! O poema parece demonstrar a afeição livre da jovem e da família. podia ser de 1/3 das propriedades do marido mais as penalidades do divórcio. 1990:5). pois é possível verificar segmentos sociais similares unidos pelo amor e pelo poder/patrimônio. É claro que a posição social. Na tradição egípcia o divórcio era permitido e praticado por ambas as partes. as causas poderiam ser relativas ao adultério. ó meu irmão (ARAUJO. Particularmente defendo a possibilidade de ambas as formas de casamento — por contrato de arranjo e por amor — . pode não configurar uma prática de contratos sem amor. meu irmão. bem como segmentos sociais distintos estabelecendo matrimônios. Mesmo em segmentos de egípcios bem nascidos poderia haver amor e o estabelecimento de laços matrimonias de modo a manter ou aumentar o patrimônio familiar. entretanto os indícios não são claros) a partir de experiências femininas. eles te aclamarão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cultural e econômica do casal (e da família) também deve ser levada em conta. que no caso da mulher. Uma clausula comum parece ser uma espécie de dote para a noiva em função da perda da virgindade (ROMANO. Apesar de administrada pelo marido a mulher podia ter propriedades. mas é significativo que admitindo a possibilidade de casamento por amor também haja a possibilidade da mulher aceitar ou não determinado parceiro.

e um outro que faz conexão com a medicina como supervisora das mulheres médicas. 194 . Tiy e Nefertiti na iconografia dos templos é possível identificar que tais egípcias podiam aparecer oficiando determinados cultos. pois poderiam ter ocupação urbana em estabelecimentos comerciais da época. Exemplo interessante da ocupação da mulher em cargos significativos na administração egípcia se refere à dama Peseshet. Era comum também encontrar damas da corte encomendando estelas votivas e funerárias em função de determinados cultos e oferendas. Elas estão presentes nos principais mitos primordiais ou cosmogônicos: refiro-me aos mitos da criação de Heliópolis. cada divindade parece ter uma função e/ou posição na visão dos segmentos sociais egípcios que em certa medida expressam as relações sociais a partir de práticas culturais e desejos. Assim sendo. Deusas e Mulheres Divinas O panteão egípcio esta repleto de divindades femininas que ao lado das divindades masculinas expressam a dualidade da natureza egípcia e do pensamento religioso. a Hathor e Sekhmet no mito da destruição da humanidade. 1990:5).NEA/UERJ isso não a impedia de ter outras ocupações na sociedade egípcia.C. Elas também podiam testemunhar e estabelecer testamentos como os homens (ROMANO. Mesmo não tendo uma posição dominante na sociedade egípcia. 2400 a. Em uma porta falsa na mastaba é possível identificar um título de um de caráter religioso como a diretora das sacerdotisas do ka da mãe do rei (imyt-r hm(wt)-ka mwt-nswt).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apesar de raros. mãe de Akhethetep (mastaba G 8942 em Gizeh) que viveu na 4ª dinastia (aprox. (com o) conhecimento real (imyt-r swnwt rxt nswt). Em algumas situações certas divindades assimilam funções ou atributos de outras. algumas conseguiram ocupar posições relevantes na sociedade egípcia.). Mênfis. mas tendo certa igualdade de posição em relação aos homens. Como exemplo é possível identificar a relação entre Isis e Hathor e. Tais como: inspetoras e escribas além de cargos religiosos. Durante o momento de rainhas poderosas como Hatshepsut. o exemplo de Peseshet pode indicar que outras mulheres tenham ocupado cargos de importância.

possuía o aspecto destrutivo do raio solar. foi posto um fim a destruição (GRALHA. AmonRa e Khnum dos referidos mitos acima. este casal gera Osíris e Isis. obtém do deus Ra seu nome secreto. O deus Ra. Em um dos mitos relativo à deusa Isis. e Tefnut. enviou a deusa Sekhmet para destruir a humanidade. tendo aplacado sua ira e lamentando seu desejo de destruição que poria fim à humanidade.NEA/UERJ Hermópolis. e Seth e Neftís outros dois casais na criação finalizando ao processo simbólico da origem do Cosmos. Com a promessa de livrá-lo da dor que divindade alguma consegue sanar. Em outros episódios divindades femininas demonstram o grande poder que possuem. O casal Shu-Tefnut então continua o processo de criação do Cosmos gerando um novo casal — Geb a terra e Nut divindade feminina da abobada celeste — Por sua vez. Em variantes do mito Atum gera os seres humanos a partir de suas lágrimas e encerra sua função na criação. Thot. Assim sendo. Ele fez com que fossem derramados no caminho da deusa 7. Ptah.000 cântaros de cerveja tingidos de vermelho para que esta acreditasse que era sangue e. pois esta havia se voltado contra ele. característica específica de deuses como Ra/Atum. embriagando-se ao bebê-lo. neste contexto. o deus Ra – o deus criador – tendo se arrependido de haver criado a espécie humana. a grande maga. Por outro lado. o poder de Ra. o que confere um poder significativo a Isis. Sekhmet (deusa com a cabeça de leoa) em um dado momento destruiu e se satisfez com a morte e o sangue dos rebeldes humanos que haviam fugido para o deserto. se utilizou de um artifício ou estratagema e não de uma ordem direta à deusa Sekhmet com o intuito de findar a carnificina. através de estratagema faz com que um escorpião de uma picada no deus Ra durante sua caminhada diária. Ou seja. Tal deusa era identificada com o olho do sol e. Isis faz o impossível.MULHERES NA ANTIGUIDADE . é interessante notar que não figuravam como divindade que dá início a criação do Cosmos. 2000: 93). 195 . no mito de Heliópolis Atum emerge do oceano celestial (Nu) e a partir de suas ações cria o primeiro casal divino: Shu representando o ar e caráter masculino. representação da umidade e de aspecto feminino. Em outro mito. Tebas e Elefantina.

a deusa Ahmés-Nefertari. Era do ventre da deusa Nut que Ra nascia em uma variante do mito. Tendo em vistas estes exemplos não é de se estranhar que algumas mulheres. fossem cultuadas como divindades.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Provavelmente o caso mais importante seja da mãe de Amonhotep I. (ver NOBLECOURT. Na estela abaixo. com apoio de sua mãe.NEA/UERJ Outra deusa bastante significativa está ligada ao firmamento que também possuía ligações com o deus Ra. 196 . sobretudo após o seu falecimento. Talvez o mais importante princípio no pensamento mágicoreligioso egípcio seja personificado pela deusa Maat – o princípio de Verdade e Justiça – Tal princípio era elemento significativo da manutenção da Ordem Cósmica e luta contra o Caos e apesar desta qualidade importante não foram encontrados templos ou cultos. LESKO. não havia um corpo sacerdotal reforçando assim a idéia central de princípio divino. notadamente rainhas. 1999) Tal viagem acontecia todos os dias e expressava um aspecto da eternidade cíclica (o nascimento do sol todos os dias após a noite). Em parte a observação do sol cruzando céu seria o mesmo que navegar em sua barca (o sol) pelo corpo de Nut saindo do seu ventre no leste chegando ao que parece na boca ao oeste. 1994. ambos são cultuados pelo capataz Neferhotep Na verdade uma ação mítica se processa ao criar-se uma estela na qual o deus Amonhotep I. E ao que parece. a rainha Ahmés-Nefertari. faz uma proclamação em favor do capataz pela qual ―Eles concedem vida. prosperidade e saúde‖. entrada para as 12 horas da noite.

entretanto. O culto ao rei e rainha já falecidos não era algum incomum.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que ao se tornando faraó. 1993: 123. que formavam o casal divino do culto ao deus Aton. É o caso de Hatshepsut. rainha do faraó Akhenaton. GRALHA. e o caso de Nefertiti. o Reino Novo parece trazer uma novidade – o culto em vida de monarcas e rainhas. 197 . 2002: 98). O capataz Neferhotep está em posição de adoração (ROBINS. estabeleceu seu culto.NEA/UERJ Figura – Estela do Capataz Neferhotep Legenda: na parte superior da estela (luneta) podem ser identificados Amonhotep I e sua mãe Ahmés Nefertari.

O caso mais conhecido. Em um segundo bloco. Tal figura parece ser um híbrido de Hatshepsut em forma osiríaca e o deus Amon. Nesta cena. está queimando incenso diante de Hatshepsut em uma forma osiríaca. Figura – Hatshepsut em culto Legenda: A figura da esquerda é a representação da rainhafaraó com o seu nome de coroação no cartucho (Henemet-Amen Hatshepsut). far-se-ia representar como deus que se auto-cultuava em vida. sua imagem representada está oficiando o culto diante de sua representação na forma osiríaca. encontramos a expressão máxima de Hatshepsut como deus vivo.NEA/UERJ No caso de Hatshepsut existem duas cenas da Capela Vermelha que ratificam sua posição como deus vivo. A figura da direita tem acima o nome de nascimento da rainhafaraó (Maat-Ka-Ra) e a inscrição filha de Amon.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 198 . Hatshepsut deve ter sido o primeiro exemplo do culto ao monarca em vida por ele mesmo. fazer incenso) incenso para Amon-Ra. entretanto é o de Amonhotep III que algumas décadas depois. O registro hieroglífico abaixo e no centro da cena pode ser traduzido como: queimando (lit. Na primeira. Thutmés III.

filha do primeiro faraó Thutméssida (Thutmés I) e da rainha Ahméssida Ahmés. Para que tal possibilidade fosse afastada. tinha sido reunificado e ainda estava em processo de reorganização. Contudo.NEA/UERJ No culto de Amarna. como formar uma tríade se só há a dualidade (Aton e o rei)? Na verdade. ou seja. Nefertari (19ª dinastia) e Cleópatra (dinastia ptolomaica). ela deveria torna-se o monarca para assumir o trono do Egito. No entanto. Nefertiti (18ª dinastia). Somente Hatshepsut possuía as qualidades necessárias. o porquê de Nefertiti ser representada de forma atuante e importante em todos os cultos ligados à nova religião. pudesse estar ligado às duas linhagens. Ahmés Nefertari. Hatshepsut. era necessário que o futuro monarca. o deus Aton não tinha uma deusa ao seu lado. Torna-se mais claro. Mulheres Monarcas Parece ter havido rainhas fortes ao longo da história do Egito tais como: Hetepheres. que 70 anos antes do reinado de Hatshepsut. Parece haver a possibilidade que durante o Reino Antigo. entre duas linhagens: thutméssidas e ahméssidas. se desdobrava no monarca e na rainha – princípio masculino e feminino que deveriam ser cultuados em vida como o próprio deus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como deus único. não poderia ser palco de um novo conflito. dois seres humanos em vida estavam desempenhado papéis divinos na tríade e são os únicos (filhas também) tocados pelos raios de Aton.) O Egito. não configurando usurpação e muito menos regência.C. Segundo Gay 199 . Esposa do Deus (de Thutmés II) e coregente de Thutmés III (o futuro e jovem rei de fato ainda muito novo para assumir o trono). Ou seja. agora interno. ele era único e é provável que possuísse os aspectos masculino e feminino da divindade. Como o cargo de faraó deveria ser ocupado por um membro da família real do sexo masculino. Tiy. Pela primeira e única vez. Thetisheri (17ª dinastia). a tríade da religião de Aton era invertida. os indícios claros desta prática cultural e político-mágico-religiosa só foram observados no Reino Novo (1550-1070 a. mãe de Queóps (4ª dinastia). algumas rainhas teriam sido faraós.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . complementaria a manutenção do equilíbrio de poder entre as linhagens (GRALHA: 2000. 44-51).C. 200 . não podemos esquecer que um provável casamento de Neferu-Ra com o jovem Thutmés III deve também ter ocorrido. Outro exemplo que nas últimas décadas tem atraído a atenção dos pesquisadores é papel desempenhado por Nefertiti. a tese de Amanda Weidemann (UFF. Como rainha ela parecia ter grande poder.C. 2007) O culto a Arsione II Filadelfo. não configurando uma co-regência tradicional. Em uma cena ela aparece golpeando inimigos com uma massa iconografia tradicional e ritual executada somente pelos faraós. É possível.NEA/UERJ Robins. Esposa. Filha. que a idéia de um governo conjunto. Com estes exemplos tentamos evidenciar o papel da mulher em alguns segmentos da sociedade egípcia e em certa medida tal papel não é tão diferente daquele que podemos presenciar no mundo moderno e contemporâneo.). com o título de Esposa do Deus seria dado a sua filha Neferu-Ra como forma de manter o princípio masculino e feminino na monarquia egípcia (ROBINS: 1993. 2007) A questão do Gênero na Literatura Egípcia do II milênio a.). Irmã: um estudo iconográfico acerca da condição da mulher no Antigo Egito durante a 19ª dinastia (1307-1196 a. pois em várias cenas aparece oficiando culto ao deus Aton sem a presença do rei. a posição de rainha. a dissertação de Alex dos Santos Almeida (MAE-USP. dado a documentação escrita e iconográfica que existe (já impressa). 2010) A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo – sécu XV a. esposa de Akhenaton. 139-140). através da descoberta de iconografia descrevendo a rainha como faraó. uma forma de monarquia dual. com o jovem rei Thutmés III. 2005).C. Entretanto. Mãe. algo no mínimo raro (ver ROBINS: 1993. Existem controvérsias entre os pesquisadores em certos objetos o que é algo salutar e estudos significativos estão sendo (e podem ser) realizados. Neste sentido gostaria finalizar ressaltando alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros (disponíveis on-line) tais como: a tese de Haydée Oliveira (UFF. e a dissertação de Aline Fernandes de Sousa (UFF.. 5354).

A Cultura Material do Cotidiano: Espaço Urbano e Moradias no Egito Faraônico. DAVIS. 2000. Escritos para a Eternidade: A literatura no Egito faraônico. A Família vista através da iconografia funerária privada egípcia da primeira parte da XVIII dinastia (meados do século XVI a meados do seéculo XIV a. Ciro Flamarion. 2002. Akhenaten and the Religion of Light. MONTSERRAT. Brasília: UNB. Christian. GRALHA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Chronicle of the Pharaohs.Austin. Peter A. Erik. 201 . 1999. 1994. SP: Papirus Editora. Deuses. MEEKS. University of Texas Press. The Art of Ancient Egypt. Cambridge: Published by Cambridge University.A. 1993. Múmias e Ziguratts. Christiane D. E. As Egípcias: Retrato de Mulheres do Egito Faraônico. 1994 ______.C. The Canonical Tradition in Ancient Egyptian Art(Cambridge New Art History and Criticism). MONTET. CARDOSO. A Vida Sexual no Antigo Egito.London: Thames & Hudson. ______. 1989.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO. Julio. David. O Egito no Tempo de Ramses. La Vie Quotidienne des Dieux Ëgyptiens. inédito ______.. 1997. Paris. Fogolari. P. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. O‘CONNOR.). 2005. 1990. ROBINS. SP: Cia das Lestras. Porto Alegre:EDIPUCRS. Ancienty Egypt Society. Erichin (RS).P. Rio de Janeiro: Barroso. Habitus. London: Keagan Paul International. Proportion and Style in Ancient Egyptian Art.NY:Cornell Univ. Tânia Pelegrini. A Mulher no Tempo dos Faraós. pp.) Estudos de Arqueologia Histórica. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press 1997. Dominic. 1989. Fowler (Illustrator ). Press. P. Hachette. MANNICHE. Faraós e o Poder. 1999. JACQ. Lise. Trad. CLAYTON.. Deuses. HORNUNG. 115-132. Pittsburgh (PA): The Carnegie Museum of Natural History. Whitney. In: Funari. 1990. Pierre. 1996. NOBLECOURT. (eds. Gay e Ann S. Rio de Janeiro: Imago Ed. Emanuel. Sex and Society in Graeco-Roman Egypt. 1 ed. 2000. Dimitri.

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uma vez que para torná-las possível faz-se necessário a revisão dos paradigmas da História tradicional e a busca por novas fontes. já não mais limitada às expressões das elites brancas. Nesse ambiente. O primeiro desafio foi suplantar as grandes narrativas universalizantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . étnicas. novas abordagens e novos métodos para organizar e desenvolver as pesquisas históricas. a história daqueles até então dela excluídos. título desse livro. sexuais e de gênero. de seu cotidiano e de suas percepções e valores. e pela valorização dos registros e manifestações de grupos periféricos àqueles eruditos e europeus. quando diversos movimentos organizaram-se contra as desigualdades sociais. discussão e visibilidade a partir das últimas décadas do século XX. as diferenças de cunho sexual e racial e as formas de dominação originadas pelas sociedades capitalistas. 2009: 279) não tem sido uma tarefa simples.ª Lourdes Conde Feitosa282 A mulher no Mundo Antigo. religiosas. Bauru/SP. nos remete a uma temática que vem ganhando maior interesse. bem como o desenvolvimento de importantes discussões que estimularam a busca de novas referências para entender os significados atribuídos à feminilidade. centradas nas elites Doutora em História Cultural pela Unicamp. Essas questões influenciaram de modo decisivo as Ciências Humanas e nos temas históricos essas abordagens passaram a refletir o anseio de pesquisadores preocupados em questionar enraizados pressupostos e a buscar outras histórias e suportes teóricos que permitissem inserir. o que significa vencer obstáculos e tradições acadêmicas. Esta atenção em escrever a história de pessoas comuns. foi fortemente influenciada pela reelaboração do significado de cultura.ª Dr. 282 203 . Esse anseio pelas ―histórias de gente sem história‖ (MATOS. em sua área de conhecimento. Professora da Universidade Sagrado Coração. tornaram-se mais freqüentes as lutas contra as diferenças sociais. focos de minhas análises. à masculinidade e ao conceito de sexualidade.NEA/UERJ MASCULINO E FEMININO NA SOCIEDADE ROMANA: OS DESAFIOS DE UMA ANÁLISE DE GÊNERO Prof.

CHERRY. n. Ampliaram-se os estudos principalmente daquelas pertencentes a grupos aristocráticos. o papel feminino passa a ser investigado nos mais diversos tempo e espaços históricos. as estátuas. The minician Law: marriage and the Roman citizenship. de igualdade de direitos e de representação ocasionaram um avanço significativo dos estudos sobre a mulher. além dos tradicionais escritos oficiais. bem como repensar conceitos como ―público‖ e ―privado‖. E.283 Embora em menor número. 1998. Phoenix. na busca por compreender como foram construídas as diferenças instituídas entre os sexos e as relações de poder estabelecidas entre eles. Passato Prossimo. ―trazer para a História‖ as experiências e os olhares femininos. Milano: Feltrinelli. a iconografia. também ganharam valor documental as inscrições. Michigan: Ann Arbor. v. 44.NEA/UERJ masculinas brancas e nos heróis. A participação mais intensa da mulher no mercado de trabalho e no universo acadêmico. F. composição e participação dos grupos sociais nas diversas esferas da organização social. CANTARELLA. Dentre essas abordagens e debates estão os estudos feministas. 1987. The public role of Pompeian women. 1990. as tumbas funerárias. esses estudos têm possibilitado rever as áreas de atuação tradicionalmente atribuídas às mulheres. D. no Estado e no espaço público. Colocou-se em debate o papel das mulheres na História. a busca de maior liberdade. S. Donne in Atene e Roma. Essas discussões feministas vieram acompanhadas de uma redefinição do conceito de documento histórico e. Com esse olhar. S. 3. Nos estudos publicados entre os anos de 1960 a 1980 percebe-se a preocupação em evidenciar quem eram essas mulheres e quais as atividades e papéis sociais desempenhados por elas na sociedade. 244-266. a numismática.MULHERES NA ANTIGUIDADE . desde então. Donne romane da Tacita a Sulpicia. Torino: Giulio Einaudi. juntamente com discussões mais particularizadas sobre a sua influência e participação nas esferas pública e de poder. valiosas pesquisas 283 Alguns exemplos são os textos de POMEROY. formas de atuação política e os fundamentos. 1978. que enfatizam as desigualdades entre homens e mulheres nas sociedades contemporâneas e a exclusão feminina da análise histórica. BERNSTEIN. p. 204 . e muitos outros vestígios arqueológicos que permitiram. Sobre a História Antiga Romana.

aceite y vino de la Bética en el Imperio Romano. LEFKOWITZ. que trouxeram importantes contribuições para o conhecimento do mundo do trabalho urbano no âmbito popular. surgem as reflexões sobre as relações de gênero. 1. H... mas distante dela em relação a uma definição binária de masculino e de feminino. 4.284 Entretanto. 1. 76-104. Berlin: Mann. FRANCO. (Dir... pp. Metiers des femmes ou Corpus Inscriptionum. Nos estudos de sociedades antigas esse tipo de abordagem ganha maior destaque a partir dos anos de 1990. AJAH. Permeadas pela perspectiva do olhar crítico feminista (MACHADO. REL. G. 205 . desde a década de 1980. 1970. In: HAWLEY. 1981. H. Image and status: Roman working women in Ostia. TREGGIARI. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico. Jobs for women. TREGGIARI. S. v. P. Tradução de Coelho. as análises de gênero ampliam o campo da discussão e acirram os debates em torno da construção dos conceitos de ―feminino‖ e ―masculino‖. M. M. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. C. M.MULHERES NA ANTIGUIDADE . KATZ. M. 1993. 1992: 09). Actas del Congreso Internacional ex Baetica Amphorae: Conservas. Women in Antiquity. N. 2000. Jobs for women. Porto: Afrontamento. 1981. 1995 e JOSHEL. pp. et alli. S. PERROT. (Eds. LEVICK. R. 185-201. In: Schiavitù.) História das mulheres no Ocidente. KAMPEN. p. Participación de la mujer hispanorromana en la producción y comercio del aceite Bético. 76-104. LeGALL. MURNAGHAN. 1976. J. Atti del Colloquio Internazionale su la Schiavitù. Roma: L´Erma. Roma: L´Erma. Questions on women domestics in the Roman west. 1976. Questions on women domestics in the Roman west. (Eds. S. TREGGIARI. S. apresentando diferentes e mesmo DUBY. manumissione e classi dipendenti nel mondo antico.NEA/UERJ também foram realizadas a respeito das atividades desempenhadas por aquelas das ―classes baixas‖  plebéias.) Women‟s life in Greece and Rome. 12691278. S. A. livres e escravas  em seus ofícios e na política local. 284 Cf. FANT. 123-130. p. R. London: Routledge. V. 1. v. P. 1998. B. R. 47 bis. G. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. A Antiguidade. 1981. 185-201. Ideology and ‗the status of women‘ in ancient Greece. B. AJAH. S. London: Routledge.) Women & slaves in Greco-Roman culture. TREGGIARI. no interior desse debate sobre o papel das mulheres na História. e no Brasil os estudos de gênero em sociedades antigas mostram os seus primeiros resultados na virada do século. M. In: Schiavitù. 1982.

Pesquisar e escrever sobre gênero não significa o mesmo que traçar uma História das Mulheres. A distinção está. uma preocupação das epistemologias de gênero é a de compreender como. são estabelecidos os papéis entre o feminino e o masculino em suas atribuições familiares e domésticas. o papel de comando e domínio. fixas e universais. Pedro e Grossi. sexuais. que atribuem à mulher a condição de passiva e submissa e ao homem. Funari. A aceitação de características próprias e inerentes ao feminino e ao masculino confere à diferença sexual a condição de naturalidade e não de construção social. A sua proposta é questionar o uso dos conceitos ―homem‖ e ―mulher‖ como categorias biológicas. 1992. É justamente nesse ponto. 1998. nas relações Como exemplo. Silva. Ainda que essas instâncias analíticas sejam próximas. para além das essências. Com isso. Feitosa. 1998 e Bessa. tanto no Brasil como no exterior. que se encontra um dos maiores méritos dos estudos de gênero — a constatação de que as categorias de identidades foram e são cultural e socialmente construídas. grupos étnicos e tradições culturais. 1998. 286 Maria Lygia Quartim de Moraes. Desta maneira. a complexidade e variedade de acepções levantadas em torno das palavras ―homens‖ e ―mulheres‖ têm permitido questionar os paradigmas interpretativos alicerçados em modelos rígidos e generalizantes de comportamento. 285 206 . pode-se citar Costa e Bruschini. a desnaturalização das identificações por meio das características físicas. em momentos históricos específicos e no interior das diferentes classes sociais. onde diversas áreas apresentam a complexidade e a diversidade de posicionamentos. as contribuições de gênero são importantes na medida em que vêm conferir à diferença sexual não apenas um parâmetro exclusivo e natural da distinção entre eles. 2003.NEA/UERJ divergentes abordagens e trajetórias pelas quais os estudos de gênero têm sido pensados e polemicamente utilizados em diversas áreas do conhecimento285. elas são diferentes. Ainda que resguardadas as devidas especificidades físicas entre o masculino e o feminino. mas das marcas culturais estabelecidas no ambiente social286. no tratamento privilegiado das mulheres.MULHERES NA ANTIGUIDADE . por contraposição à ênfase nas relações entre o feminino e o masculino introduzidas pela Historiografia de Gênero. justamente.

1995: 88). Formuladas entre os grupos sociais. Para Jean Scott. muitos ―femininos‖ e ―masculinos‖. Nesse aspecto. 2009. de seu uso para a sociedade romana antiga. o que significa ―pensar a mulher e o homem enquanto diversidade no bojo da historicidade de suas inter-relações‖ (2009: 289).NEA/UERJ sexo-afetivas e com o mundo do trabalho e da educação. Nesse aspecto. resultantes não de um consenso social. e temos que reconhecer a diferença dentro da diferença‖ . faz-se necessário uma discussão a respeito de algumas premissas e da pertinência. denunciada pelo feminismo. as representações de si e do outro são alicerçadas em abordagens que evidenciam marcas das tensões.. Piscitelli. A primeira delas é a idéia de imposição do poder do homem sobre a mulher. ver Scott. dentre outros aspectos. é sob o prisma das inquietações de gênero que se faz presente a possibilidade de contemplar análises históricas preocupadas em apreender como as distinções sociais fundadas sobre o sexo são perpassadas por relações de poder. construíram-se discursos que estabeleceram e padronizaram determinadas imagens de homem e mulher. gênero é ―um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos‖. nas tradições judaico-cristãs e islâmicas‖ (SCOTT. ou não. em nível discursivo e social.. uma das grandes teóricas sobre as relações de gênero no mundo contemporâneo. pelo menos para algumas sociedades: ―gênero não é o único campo. 287 207 . ―mas das disputas. Também Heilborn (1992: 93) e Montserrat (2000: 164) destacam a importância das construções discursivas constituídas no interior das sociedades com o propósito de justificarem as diferenças sexuais. 1988 e 1995. Com essa proposta de analisar os significados de feminino e de masculino formulados em relações sociais específicas. a autora partilha com Foucault a idéia de uma imposição. mas parece ter sido uma forma persistente e recorrente de possibilitar a significação do poder no Ocidente. dos conflitos e das contradições originadas nas relações sociais em que são articuladas. dos conflitos e das repressões‖ (SCOTT. 2001. ―existem muitos gêneros. pondo esta em situação de detrimento e subordinação em relação àquele. Western. Como exemplo da teorização sobre as questões de gênero. de um poder masculino sobre o feminino.287 Como enfatiza Matos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Em função disso. Baxter.

além dos vínculos de poder. SKINNER. 1988: 192). com grande variedade de povos. outra é a de evitar oposições binárias fixas e naturalizadas. 1995: 180. uma opção é pressupor uma generalizada dominação masculina sobre o feminino. 1994: 44). masculino. pode-se considerar que as relações de gênero. Variedades que interferiam no lugar social ocupado pelos diferentes indivíduos e que são elementos importantes a serem considerados pelo pesquisador interessado em uma análise de gênero no Mundo Antigo (FUNARI. ou seja. ―é importante observar as diferenças sexuais enquanto construções culturais e históricas. Essa observação é particularmente significativa para a análise do mundo romano. 1997: 13). a da existência do feminino e do masculino 208 . profissão e língua que acabam sendo camufladas e simplificadas pela expressão ―povo romano‖.NEA/UERJ 1995: 86-87). Por isso uma preocupação ainda presente nas reflexões de gênero é com o seu emprego em conotação vaga e geral para designar apenas a existência de homens e mulheres. Desta maneira. conferindo-lhes um sentido descritivo. gregos. dácios. complementares ou de prestígio (MACHADO. C circundava todo o mar Mediterrâneo e integrava inúmeras regiões anexadas ao longo do processo de conquista. por isso a necessidade de estudos localizados e atentos às variações das relações entre os indivíduos (LÓPEZ. MATTOSO. Contudo. neutro e consensual. gálatas. 1992: 35.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Diante disso. podem ser de reciprocidade. étnicas. obscurece a percepção de diferentes poderes. O vasto território que compôs a sociedade romana dos séculos I e II d. germanos. mas presente na trama histórica‖ (MATOS. 2009: 287). entre tantos outros. que incluem relações de poder não localizadas exclusivamente num ponto fixo. sexo. O que significa retomar a experiência coletiva articulada entre o feminino e o masculino em toda a sua complexidade e as contribuições de cada um deles no processo de construção histórica (MATOS. muitas vezes instalados no feminino e não no masculino. de idade. apresenta diversidades jurídicas. béticos. econômicas. egípcios. A noção generalizante de imposição masculina sobre o feminino. 2009: 283). além de não conseguir dar respostas satisfatórias à diversidade de comportamentos atribuídos tanto a um quanto a outro. Esse imenso império emaranhado de latinos.

cf. já que seu uso teve uma acolhida maior entre os historiadores desse tema (1998. ou com a homossexualidade (MATOS. 289 Cf. 1990: 595-596). Feitosa. o que ainda caracteriza um número significativo de abordagens historiográficas que privilegia as experiências femininas em detrimento da relação de seu universo com o masculino. slaves. escravos. enquanto os das camadas populares são referenciados como dependentes. 288 209 . por exemplo. L. desocupados. raríssimas são as que abordam grupos nãoaristocráticos. outro aspecto que ainda merece atenção é a superação da escrita de uma ―História das Mulheres‖ que não veja esta última de um ponto de vista relacional.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com destaque para a pluralidade das articulações vivenciadas entre ele. dominadores e virtuosos. C. livres. de 1997. p. é comum encontrarmos referências aos homens das elites como fortes guerreiros. Para Maria Izilda Matos.288 Destarte.. das mais distintas origens étnicas e ocupações Como contraponto. parasitas da elite. with special attention to finding evidence of how marginal populations  women. que concerne focar o feminino e o masculino no universo romano. 2009: 289). 67). e muitas análises que utilizam esse conceito referem-se a mulheres. Para uma breve reflexão a respeito das masculinidades romanas. mas vulgarmente ainda é usado como sinônimo de mulher. Libertos. Boswell (1990). Aliado a esse. Dentre as poucas análises revisionistas do papel masculino romano289 e da sexualidade. como nova categoria. Hallett e Skinner (1997). é atual e desafiadora: […]further research on the rhetoric of sexuality is in order.NEA/UERJ singularizado por suas características físicas (PANTEL. o gênero vem procurando dialogar com outras categorias históricas já existentes. noncitizens  designate themselves in respect to the conjunction of class and gender (SKINNER. 2005 e Feitosa e Garraffoni. 2010. é imprescindível para a afirmação da proposta de ―gênero‖ superar a ideia de ser sinônimo de História das Mulheres e assumir a ampla conotação que lhe caracteriza. A ênfase de Skinner. deslocado da complexidade histórica na qual é formulado. 1997: 25).

e a partir de uma determinada prática sexual. por outro. Garraffoni 2005. Para uma reflexão crítica acerca dessa questão. cf. terra. Finley (1985) e Garnsey e Saller (2001). 3. Assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ―normal‖. Além disso. vinculam o estilo de vida da elite romana à tradicional exploração agrária. mas de idades e categorias sociais diferenciadas como. por um lado. por exemplo. foram constantemente taxados de figuras ambíguas e infames por estes modelos interpretativos290. libertos. Grimal. por exemplo. tradição e riqueza seriam os componentes característicos desse estilo aristocrático e de seu distanciamento das atividades consideradas vulgares ou infames. diferente de outros termos usados para apresentar indivíduos do mesmo sexo. seria aquela que lhe caberia a ação de penetrar. puer ou juvenis para os filhos da aristocracia ainda menores e homines ou puer para adultos escravos. por exemplo. Justiniano. o vocábulo latino Vir era utilizado para caracterizar um aristocrático como homem em sua plenitude. a justa medida estaria em respeitar a norma social estabelecida para os Para a imagem decadente ou ambígua da plebs romana cf. a atuação econômica desempenhou um papel importante na definição de dignitas e infamia para a historiografia moderna. Segundo Walters. por meio do tratamento social dispensado ao seu corpo. 2. Cf. 290 210 . ator. como a sua integridade física e não violação de seu corpo. à medida que a atividade ―lícita‖. a iniciar por sua própria identificação. que lhe asseguraria o papel de ser o ativo em toda e qualquer relação sexual. músicos e corredores de bigas. em restrições jurídicas e políticas291. a integridade do Vir consolidar-se-ia.NEA/UERJ profissionais. Autores modernos como. também. 1997: 30). Mommsen 1983 (ambos autores publicaram a primeira edição de seus trabalhos ainda no século XIX). prostituta ou dono de bordel já implicava. por exemplo. não cidadãos e mesmo cidadãos de classes mais baixas (WALTERS. D. 291 Vale ressaltar que há profissões relacionadas ao espetáculo público e que não são infames como. O simples fato de ser gladiador. 1981. Se a prática sexual ativa tanto com homens quanto com mulheres era aceita. o aspecto social também foi considerado um diferencial dos homens dignos. Se.

jovem ou adulto. um dos mais importantes da política romana. 211 . 1997: 51). em De vita duodecim Caesarum (I. Ser o ativo passou a ser interpretado como uma atividade essencialmente masculina. Esse discurso idealizado de masculinidade tinha a finalidade de representar. era homem de toda mulher e mulher de todo homem292. pois a penetração acontece com o pênis e tanto a felação como a cunilíngua caracterizar-se-iam como violações às práticas lícitas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . segundo Suetônio. casadas. por outro lado também expressam argumentos e pontos de vista que induziram os estudiosos modernos a produção de uma visão bastante negativa das camadas populares. solteiras ou viúvas. ser penetrado pelo ânus e receber o pênis em suas bocas. a atuação em uma sociedade guerreira e conquistadora consolidaria uma imagem de virilidade associada à força física. sendo essa a mais humilhante e vexatória das três situações (PARKER. bem como a conquista. o domínio e a autoridade sobre os outros indivíduos e povos. Desta maneira. Embora satirizado por Suetônio. A idealização desse padrão de atividade sexual estaria intrinsecamente atrelada a uma projeção de prática social que lhe atribuía o comando e a manutenção da ordem. L). Esse conjunto de normas deixa claro que não seria o aspecto físico o definidor do conceito de homem para essa elite. Nesse comportamento sexual idealizado por essa elite romana haveria uma ―escala de humilhação‖: ser penetrado na vagina. o pensamento dessa elite romana. publicamente. ao caráter e à sexualidade do cidadão aristocrático romano. nem por isso deixou de ocupar o cargo de cônsul romano. Essa conotação pejorativa atribuída às camadas populares e sua relação com a infamia podem ser interpretadas como um 292 ‗omnium mulierum uirum et omnium uirorum mulierem‘. o que punha todas as mulheres em condição inferior. à superioridade bélica.NEA/UERJ aristocráticos. mas um conjunto de pré-requisitos estabelecido para destacá-lo dos demais. que indicava a não penetração de outro cidadão. e de mulheres aristocráticas. Se as fontes escritas são imprescindíveis para entendermos aspectos dos ideais de masculinidade da elite romana. o que não significava que todos acatassem e respeitassem tais idéias. E como exemplo mais significativo de infração a essa convenção sexual podemos citar o caso de Júlio César que.

IV. vendedores de alho e de aves. que dependiam dele para a sua subsistência e que ali estabeleciam as suas relações e referências. 373. a funções autônomas de professor. Aliarii. IV. IV. IV. O apreço e a consideração pela mulher querida foram registrados com freqüência em Pompéia. CIL. Entre tantas inscrições encontramos referências a pequenos proprietários de tabernas. IV. cocheiros. 998. 7669/71/74 (joalheiro). CIL. IV. CIL. oficinas e padarias293.MULHERES NA ANTIGUIDADE . IV. CIL. 5380. 4227. CIL. 368. 97. 206. IV. Pistori. IV. 373. tecelões. CIL. CIL. 480. 429. Efusivas declarações podem ser encontradas. 275 (professor). 134. 336. como esta deixada a Taine. dentre aqueles que partilhavam desse universo. 293 294 212 . CIL. a inúmeras associações como as de vendedores de frutas. IV. Caupones. na parede de uma casa: Cf. de vitória. 4102/03/07/09/12/18/20. 241. 2966. comentado a seguir. Esta censura moral aristocrática a um conjunto de profissões exercidas por populares levou muitos estudiosos modernos a classificálas como degradantes. Inserida e construída nesse âmbito do labor. 4100. conotações diferentes às aristocráticas. 3478. 609. 202. alfaiate. 4472/3 (Oficina dos Atti). ajudantes de cozinha. 490. 4888. 3529. CIL.NEA/UERJ tipo de censura moral a determinadas ações e modos de vida dos populares pelos membros das elites romanas (Garraffoni. Galinarii. aproximando a vida de populares à condição de infamia. ourives. CIL. Agricolae. IV. lenhadores. IV. Aurificis. 3130. IV. 710. 951. Lignari. vendedor de roupas e jóias294. 3485. cotidianamente. 183. CIL. CIL. 7749. a masculinidade popular também era modelada pela experiência sexo-afetiva. IV. 295 Pomari . 960. Esses grafites indicam-nos a valorização dessas atividades profissionais e a importância que possuíam para essas pessoas que a praticavam e a vontade de perpetuar uma imagem de sucesso. 113. Entretanto. taberneiros e trabalhadores agrícolas295. CIL. CIL. 485. padeiros. Se para as elites essas atividades sinalizavam funções vis e desprezíveis. parece-nos que tais conotações perdem esses sentidos entre aqueles que viviam. perfumistas. Fullones (os que preparam o pano depois de tecido). Muliones. 2005: 184). 180. em suas escritas. Culinari. o mundo do trabalho. ao olharmos os grafites nos muros de Pompéia percebemos milhares de registros feitos pelos próprios populares que indicam. Unguentari.

IV. O verso de Ovídio inspirou a escrita deste grafite: Militat omnes amans (CIL. Peço. IV. 4858 é possível saber o valor que Valentina teve para a vida de Ametusto. senhora. feitas por homens que. 1. ou que foram um dia neles conquistados. IV. 3149) Todo enamorado é um soldado! 296 296 Cf. IV. Amo tanto a Taine. 8364) Secundo a sua querida Prima. doce amor. por meio do relacionamento amoroso. em uma linguagem simples e direta. Já na inscrição CIL. 8137) Oxalá pereça. em obras da historiografia. minha dulcíssima amada. uma saudação cordial. 213 . pedem o amor da mulher estimada.NEA/UERJ Dulcis amor. no átrio de uma casa: Secundus Prim(a)e suae ubi/que isse salute(m). Desta maneira expressou-se Secundo. Am. indicado no próprio CIL. Rogo. reflete-se sobre aqueles que estão distantes dos campos de batalha. As paredes também guardam os registros das muitas súplicas amorosas. me ame! A forte mentalidade guerreira e conquistadora atribuída aos ―romanos‖. domina.MULHERES NA ANTIGUIDADE . registrado por ele em um dos muros: Amethusthus nec sine sua Valentina Ametusto não vive sem sua Valentina. perias eta (pro ita) Taine bene amo dulcissima / Mea / Dulc (CIL. ut me ames (CIL. I 9.

interagiam em ambientes de trabalho.NEA/UERJ Aqui a batalha é travada no campo sexo-afetivo. de lazer e por meio das paredes da cidade. A frase de Fortunato. 37. nos obstáculos e nos acordos estabelecidos entre os amantes. Cirurgião. Saudações. 1819) Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito. os estudos de gênero deslocam-se para a trama política do Diuus Iulius. IV. o local e o específico. além de indicar a satisfação de um conquistador. como faz Calpurnia: Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde Sitit Calpurnia tibi dicit. vi e venci Antusa297. o heterogêneo. Assim. uini. 230) Fortunato fodeu. no desejo. Mas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 297 César: ueni. na tarefa de focar a diversidade. Aqui vim. Fotunato escreveu dando glórias pelo ―combate amoroso‖ estabelecido com Antusa. na Via Consolare. Val(e) (CIL. a batalha amorosa também exigia mobilização feminina. também evidencia um jogo amoroso instituído na afetividade. Suetônio. Esses grafites são exemplos que podem nos indicar a construção de outros parâmetros sexo-afetivo vivenciados por esses homens e mulheres que trocavam opiniões. A partir dessa amostra de textos e grafites podemos perceber experiências de vida e de valores muito distantes daqueles das elites. uidi. Inscrição encontrada na Casa do 214 . hinc vine veni vide Anthusa (CIL. ou idealizados por eles e para eles. IV. quando relacionada ao conjunto de inscrições em análise. Calpurnia te diz. cuja vitória lhe foi tão significativa que mereceu ser festejada com uma paráfrase à conquista de César na Gália: Fortunatus futuet t.

é preciso reescrever a História (MATTOSO.NEA/UERJ cotidiano. mas que precisam se entrecruzar com a dinâmica das transformações sociais. das sociabilidades. [. mas relacional e analítica. masculinos e femininos. A idéia é que não basta apenas aumentar a quantidade de informações sobre as mulheres ou os homens. ambigüidades e obstáculos. nem só pelos movimentos demográficos. a questão de gênero. das tensões. a partir de seus valores. mas também pela dialética feminino-masculino (1988: 182-183). conceitos. econômicas.. aspectos esses vivenciados no interior dos grupos..MULHERES NA ANTIGUIDADE . o que possibilita vislumbrarmos as experiências 215 . atitudes e embates em suas relações sociais. ainda é grande o desafio de construir uma história que não seja apenas descritiva das atribuições masculinas e femininas. ou seja. na qual o feminino seja compreendido em sua articulação com o masculino e vice-versa e ambos com a sociedade a qual pertencem. formulam múltiplos vínculos. do imaginário e do discurso. Assim. nem só pelo funcionamento da economia e da produção. mas de estudá-las em conjunto. culturais e políticas.]a História não se compreende apenas pelo papel que nela exercem os indivíduos. Portanto. apresenta-se com um campo profícuo para pensarmos a pluralidade e como os variados agentes. comportamentos. Desta maneira. é pertinente aos estudos de gênero a construção de uma ―nova história‖. visões e espaços sociais. embora relativamente nova enquanto categoria de análise científica e permeada por incertezas. 1988: 181) para que seja possível vislumbrarmos outras conotações e entendimentos da complexa construção histórica e de suas relações sociais. mas também por meio das sensibilidades. Como considera Mattoso. segundo Scott. articulações e conflitos vivenciados entre os muitos femininos e masculinos. apresentada não apenas pelo olhar de grupos privilegiados e masculinos ou pelo viés das estruturas econômicas que se sobrepõem aos Homens na trama histórica. nem só pelas estruturas e distribuições dos homens em classes sociais.

(Org. 216 . São Paulo: Fundação Carlos Chagas. As idéias apresentadas são de minha responsabilidade. Coleção Loeb. E. desejo e poder na Antigüidade: relações de gênero e representações do feminino. Milano: Bur... SILVA. 11. São Paulo: Fapesp/Annablume. Garraffoni e Pedro Paulo Funari. Renata S. da Unicamp. Agradecimentos: Meus sinceros agradecimentos aos colegas Maria Regina Candido. SUETÔNIO. J. v. COSTA. M. A. WESTERN. Cadernos Pagu. New York/London. et alli). Amor.. K. Concepts experience and sexuality. (Org. BESSA. J. L. A. Stanford: Stanford University Press. FEITOSA. M. 1992. G. heterogêneo e vibrante. Editorial Arazandi.C. 1990. E. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAXTER.. JUSTINIANO. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL CIL . T. In: FUNARI.) Trajetórias do gênero. BOSWELL. Berlim: Akademie Verlag.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy. (Ed. (Ed. C. de modo complexo. (Eds. A.) Reconfigurations of Class and Gender. G. P. A. 2003. M. C. do passado e atuais. Rolfe). 1968. In: STEIN.. D‘Ors. (trad. The lives of the Caesars. SUETÔNIO. (Orgs. Gênero e o erótico em Pompéia. desde 1863. Londres. L. Pamplona. Campinas: Ed. P. New York/London. C. IV. 1998. FEITOSA. L. J. In: STEIN. v.Corpus Inscriptionum Latinarum. T.) Forms of desire: sexual orientation and the social constructionist controversy. G.). Amor e sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pompéia. M. 2001. C..) Uma questão de gênero. masculinidades. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. Harvard University Press. 1989. J. C. 2005. Digesto (trad. De vita duodecim Caesarum libri VIII. C. 1990. J. O. BRUSCHINI. Concepts experience and sexuality. 1998.NEA/UERJ humanas. FEITOSA.MULHERES NA ANTIGUIDADE . BOSWELL.

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intentaremos una lectura crítica de la presencia de Artemisa en la consolidación de la Mismidad. distancia que debe medirse Prof. portadora como él del arco y la lira Artemisa presenta un doble aspecto. Tal como sostiene Gernet la antropología constituye la representación del ser humano en el plano religioso del mundo. de la consolidación del topos simbólico que la cultura determina en su poiesis 298 219 . P. donde la tensión Mismidad-Otredad es analizada como factor determinante de la construcción de la trama cultural. hermana de Apolo. histórica o económica. andarivel que hemos elegido para transitar las complejas relaciones entre los hombres y la divinidad.. acompaña las consideraciones vertidas en mi libro Foucault y lo político. la Parthenos pura. la que recorre los bosques. la Flechadora que mata a las bestias salvajes con sus dardos (…) Es también la Joven. consagrada a la virginidad eterna. 2009.Introducción300 El propósito de la siguiente comunicación consiste en efectuar una lectura de las distintas funciones de Artemisa al interior de la consolidación de la polis como estructura compleja. a partir de la distancia que separa a hombres y dioses.299 A.ª Dr. tarea que lleva necesariamente una mirada-incorporación de la Otredad al escenario antropológico.ª Dr. J. 300 Esta introducción. la Salvaje. La muerte en los ojos. 299 Vernant. no campo da Filosofia Antiga.ª María Cecilia Colombani298 Hija de Zeus y de Leto.200.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Buenos Aires. Pensando en la clásica definición de Louis Gernet en torno a la noción de antropología.ª María Cecilia Colombani integra o corpo docente das Universidades de Morón e Mar del Plata. no sólo desde una perspectiva política. que abre el horizonte de la antropología como marco interpretativo del presente trabajo.NEA/UERJ ARTEMISA: LAS DELICIAS DE LOS MÁRGENES. Prometeo. Es la cazadora. sino desde una dimensión antropológica. MISMIDAD Y OTREDAD EN EL ROSTRO DE LA DIOSA Prof.

Pensar y 301 Gernet. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. Lo Otro abre el campo de lo fantasmagórico porque suele estar asociado a la idea de lo extraño. de considerarlo. El presente artículo propone moverse en esa complejidad que el escenario antropológico sugiere. por una dimensión ontotopológica. y la dimensión de un margen como geografía de espacialización de lo Otro. Antropología de la Grecia Antigua 220 . sin duda. incluso por el propio temor. A partir de esta tensión que borda la trama cultural. sobre el topos mental que le asigno a la diferencia y siempre implica la perspectiva de un centro como núcleo-territorio de instalación de lo Mismo y como preservaciónconservación del topos de la identidad. La tensión entre la Mismidad y la Otredad al interior del escenario antropológico-filosófico representa la tensión entre lo homogéneo y lo heterogéneo. aparecen diferentes modos y tekhnai de abordar la problemática del Otro. diferentes modelos de instalación que suponen diferentes miradas. en el modo de concebir al otro. La metáfora impacta. lo semejante y lo desemejante. poco común. la continuidad y la discontinuidad. el modo de aproximarse o de alejarse. aquello que conserva la tradición y la memoria y aquello que desde su diferencia irrumpe discontinuando la tradición como suelo de pertenencia. raro. rechazo o fascinación que su presencia áltera genera. razas o mundos de los que habla el propio Gernet301. fundamentalmente. en primer lugar. A su vez el campo antropológico despliega la relación entre lo Mismo y lo Otro como categorías constitutivas y problemáticas del propio topos disciplinar. Es esta distancia lo que determina los dos planos. que se juegan. inédito. La problemática transita. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia.NEA/UERJ en parámetros ontológicos porque lo que está en juego es la condición de mortales que sostienen los anthropoi en relación a los Sempiternos Inmortales como los denomina Hesíodo. L. al tiempo que se define el registro de ser del Otro. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

conservación. Por eso la construcción de la Otredad es histórica y deviniente. su paradojal fascinación y su inusual presencia. que viene a discontinuar-fracturar el apacible topos de lo Mismo. Lo Otro irrumpe desde su radical heterogeneidad. tópico que hemos puesto en juego. extraño por extranjero y extranjero por extraño. en su doble acepción de lugar y condición. alejándose del imaginario que ella misma genera. 221 . En esa línea iniciaremos el apartado desplegando algunas marcas identitarias de la diosa. que siempre conmueve las identidades conservadas y convoca a una mirada interpretativa. Se trata siempre de una irrupción de la diferencia en el marco de lo Mismo. al tiempo que niega esa extrañeza radical. lo moral y lo inmoral. lo legal y lo ilegal. a un gesto de traducción de esa ininteligibilidad desde la certeza interpretativa que la Mismidad se arroga. que introduce una fractura en el paisaje onto-antropológico. como modo incluso de conjurar su peligrosidad. homogeneidad. puntualmente en el topos de Artemisa. La construcción de lo Otro es la mismísima condición de posibilidad de la reafirmación de lo Mismo. una diosa ―aparentemente‖ marginal. Lo normal y lo anormal. regido por las pautas de la semejanza. ver cómo se juega en la tensión Mismidad-Otredad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . en el límite. horadando las certezas que lo Mismo otorga. y otras tantas díadas conceptuales se nutren al amparo de esa primaria partición entre lo Mismo y lo Otro. Lo Mismo se mira en ese espacio extraño y refuerza su propia imagen. A la luz del marco teórico precedente. para ver cómo repercuten los conceptos vertidos a propósito de topos recortado. desde su lógica áltera.NEA/UERJ enfrentar al Otro es una forma de mirar aquello opaco. en el margen donde claudican las propias certezas. proponemos ubicarnos en el territorio de la divinidad. identidad. para luego en el marco de las funciones que las caracterizan. familiar y conocida. Es el mismo topos de la Otredad el que refuerza el dominio de la Mismidad como espejo invertido. Mirar esas otredades sobre las que se depositan los fantasmas es situarse en el borde. Lo Otro porta con su presencia el germen de la discontinuidad.

tensionando la díada cercano-lejano. Divinidad concebida exclusivamente como virgen. sino también con cierta experiencia ambigua y paradojal de su propio registro divino. Artemisa: las huellas de la distancia. al igual que su hermano. W. enlazada con la lógica del parto. Alejada de la función materna en su calidad de virgen. desde la distancia. Esto no implica contradicción alguna con su ser maternal. que pare y alimenta la vida toda como rasgo dominante. rodeada siempre de doncellas divinas que constituyen sus infaltables compañeras. 50. El tipo de maternidad que Artemisa representa supone la lejanía de quien sólo preside la función. Las paradojas de lo próximo y lo lejano Artemisa es una diosa lejana por excelencia. Su reino es siempre lejano: las regiones despobladas. su registro parece estar asociado a la libertad que ésta encarna.MULHERES NA ANTIGUIDADE . y. maternal y delicadamente solícita. no obstante. solitarias. es ella quien preside la ritualidad femenina. no se trata de lo femenino desde el registro canónico de las especificidades del género. Comanda y preside el parto desde la distancia de quien no se involucra en él.NEA/UERJ B. Los dioses de Grecia. Los dioses de Grecia. p. La misma distancia habla de su condición virginal. 67. Las marcas territoriales como constitutivas de su identidad parecen asociarse a su ser en lejanía. ―ama la solicitud de las selvas y montañas y juega con los animales salvajes‖302. se relaciona con los hiperbóreos. La ambigüedad parece marcar su campo identitario. Es como si lo lejano se solidarizara con lo extraño y misterioso que su propio estatuto como divinidad guarda. tal como la describe Otto. También es propio de ella desaparecer hacia la lejanía: ya los argivos celebraban su salida y su entrada. Tal como sostiene Otto. conjurando cualquier cercanía que suponga contacto con el otro. Otto. sin ser ella misma madre. que sí se 302 303 Otto. W. ―la maternidad solícita se aviene con la frialdad virginal‖303. no es la gran madre universal. alejada de todo contacto. Diosa vinculada a la naturaleza. cumple una función íntima. Presencia paradojal que. p. sólo pobladas por animales salvajes. 222 . Diosa virgen. La lejanía parece estar vinculada no sólo con ciertas preferencias geográficas y de compañías.

de los propios hombres en su proximidad con los animales salvajes. Artemisa es una divinidad que. es.NEA/UERJ entregan al amor. al tiempo que borda las fronteras entre lo permitido y lo no aceptado. sino instituyentes del topos identitario. se juega en los márgenes de la lejanía. asimismo.. Términos no sólo constituyentes. no obstante. una diosa civilizadora por excelencia. la polis organiza su identidad socio-antropológica a partir de la misma hegemonía. Artemisa cumple un lugar preponderante en este juego de gendarmería.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Dicha configuración se articula. lo civilizado y lo salvaje. La polis misma se instituye sólo a partir del triunfo de lo Mismo sobre lo Otro. a partir de los juegos y tensiones de ambas estructuras. tal como hemos intentado referir. He aquí el primer hilván de una trama que asocia a la diosa con la construcción de lo Mismo como ficción cultural. de la hegemonía o sumisión que desplieguen en el escenario de constitución aludido. más allá de que toda construcción implica la tensión de los términos. Los topoi en cuestión son los que representan la Mismidad y la Otredad como categorías dominantes. Artemisa. Del mismo modo. Su territorialidad es el enclave donde se demarcan territorios. en esta vigilia sostenida para terminar alzándose con el 223 . donde se bordan las fronteras y los espacios que obedecen a ciertas reglas o no. Artemisa: una cuestión de gendarmería Artemisa es una diosa de los márgenes. como términos constituyentes de la configuración identitaria. delinea el topos de lo Mismo. en última instancia. Alejada del matrimonio. de la dominancia de una sobre otra. C. en su identidad civilizadora. como de la sociedad en su conjunto. tanto del individuo. una divinidad cercana y próxima al mundo de la cultura. siempre lejana y rehusando las delicias de los contactos más cercanos. y. de los lugares poblados. Un individuo se constituye culturalmente a partir de la victoria de los rasgos civilizatorios sobre las marcas de salvajismo. en el marco de la lógica identitaria que se impone. Por ello Atalanta es la más artemisiana de las jóvenes.

marcados por la noción de límite. a riesgo de caer en los peligros que uno de los topoi conlleva. un topos que representa el territorio donde se constituye la Mismidad y uno donde se territtorializa la Otredad. Artemisa se juega en una espacialidad difusa entre lo Uno y lo Otro pero la lección es de neto corte antropológico: es ella la que custodia el espacio Mismo. de distinta densidad topológica. lógica 224 . El fondo del espacio a delimitar es el topos de lo civilizado frente al territorio incivilizado. que instituye la custodia de los territorios. no son los bosques y las montañas sus únicos enclaves. El espacio en realidad es el referente metafórico de una especialidad otra que tensiona lo civilizado y lo incivilizado. asiento de la ciudad y otro acuoso. deviniente y móvil. de margen que delimita espacios heterogéneos. la geografía humanizada de la no humanizada. la delimitación de los espacios para mantener los respectivos estatutos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . El relato topológico es excusa de la narrativa antropológica. o bien permanece. tecnología indispensable para el dispositivo ordenador. Artemisa civilizadora. la tierra cultivada de la no cultivada. o bien. el espacio otro es el espacio no cultivado. Fundamentalmente se trata de ese espacio entre el agua y la tierra. sino un conjunto de lugares liminales. la vigilancia de lo que no puede mezclarse ni confundirse. entre un topos firme. de confín. Artemisa es la divinidad territorializante por excelencia. dejando un topos anegado. lo culto y lo bárbaro. La dominancia del verbo colo asociado a la noción de cultura marca el gesto interpretativo. lo humano y lo salvaje.NEA/UERJ triunfo de lo civilizado frente a lo salvaje. como los pantanos o las ciénagas. Su tarea es precisamente esa tarea de gendarmería. donde el agua. Sus espacios son los lugares generalmente húmedos. capaz de custodiar las fronteras que delinean conductas y valores. pero también de distinta densidad antropológica. Así. la región marcada por la cultura de la porción aún no culturalizada. pero hay un espacio vinculado a la noción de lo Mismo y es {ese que ha pasado por el gesto civilizatorio. Pensemos cuál es el territorio comprometido y cuáles son las funciones para ver sus rasgos civilizatorios. Hay siempre un topos mismo y un topos otro. se ha retirado. Cuando los espacios son heterogéneos la función de gendarmería es capital porque implica la custodia de las fronteras.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ordenar. D. el matrimonio. allí donde se trata de traspasar las fronteras de lo salvaje para penetrar en el espacio de lo civilizado. Escogemos algunos sentidos porque impactan directamente en el escenario de configuración de una divinidad que. un microcosmos que refleja en su organización la misma regulación que el kosmos. configurando sus límites. El tránsito de lo salvaje a lo civilizado. guardiana del orden. No hay topos de inscripción de las palabras y las cosas. dispone la ritualización que todo pasaje implica cuando el desplazamiento está subtenido por las regulaciones que la divinidad exige. Artemisa ordena el espacio. en un topos donde se coloca lo que es de todos. que responde a la anarquía del azar. convirtiendo a la ciudad en un espacio común. el parto. la batalla.NEA/UERJ disciplinar que evita las mezclas y las confusiones a-cósmicas304. Artemisa: Las exigencias de la ciudad. prepara el pasaje al meson. celebrar. Se trata de una acción cosmificante. La ciudad es un espacio reglado. nada más imprescindible que una divinidad capaz de conducir los tránsitos de un espacio a otro y de territorializar los elementos heterogéneos. los mismos y los otros. Se trata entonces de una geografía sobrecargada de marcas culturales que la convierten en un escenario textil: allí se despliega el tejido de la urdimbre cultural. El relato referido al dispositivo ordenador supone la interpretación de Michel Foucault sobre las exigencias del orden y de la disciplina en la constitución de lo Mismo y de lo Otro. disponer. gobierna y manda sobre todos los espacios. Lejos de ser un territorio improvisado. El horizonte del verbo kosmeo se reactualiza en esta Artemisa funcional a la gesta civilizatoria. que exige orden para su constitución y organización. desde cierto lugar marginal. de lo que se ve y de lo que se nombra sin esa planicie que el control delinea en su gesta instituyente. celebra el pasaje porque de él depende la consolidación del espacio cívico. 304 225 . arregla las condiciones del tránsito. Nada más peligroso que las intersecciones indeseables. preparar. implica la observancia de ciertos enclaves que deben ser considerados con esmero: la guerra. gobernar. rasgo instituyente de la polis en su configuración políticoantropológica. La ciudad tiene sus exigencias. la ciudad es un kosmos. arreglar.

la asaeteadora Artemisa como la llama Hesíodo muy inauguralmente cuando describe la primera genealogía olímpica. reconocer al Apolo de los caminos. en su dimensión de nomothetes. rasgos que suponen. Artemisa política. en tanto co-gestora de una legalidad que no puede prescindir de sus dones regulativos. La figura del pastor que caracteriza a su prestigioso hermano. entre lo mismo y lo otro. por su propia precariedad antropológica. en el cual el autor presenta esa dimensión cartográfica del Apolo arquitecto. velando por las demarcaciones constituyentes de la subjetividad.NEA/UERJ todos intersticios por donde circula la tensión entre hybris y sophrosyne. Apolo con su función legislativa. aquella que conjura el tránsito peligroso hacia la otredad. el proceso de fundación de las ciudades exigió la presencia de ese Apolo nomothetes como garante de la configuración cartográfica que terminó desplegando el mapa de los griegos305. Esto abre una dimensión política de la diosa. es. 305 226 . En el marco de la expansión colonial griega. puede consultarse el libro de Marcel Detienne. Apolo con el cuchillo en la mano. no saben delimitar fronteras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . en tanto involucrada directa en el orden de la misma. Sus recomendaciones en torno a la mesura y los riesgos de la hybris se inscriben en una narrativa análoga que hace de la cuestión del límite una pieza dominante en la economía cívico-religiosa griega. Si los hombres. entre lo humano y lo bestial. entonces allí están los hermanos. constructor de ciudades. el peligroso límite entre lo salvaje y lo civilizado. la ciudad reclama expertos en el arte de la conducción. Interviene allí. Hay en ella un punto de contacto con su hermano Apolo. Artemisa se hace presente complementando la labor familiar. ya que su acción es productora de efectos. desde sus peculiaridades identitarias. desde sus territorialidades singulares. a su vez. la guardiana del orden. En cierto sentido. Artemisa es funcional a las exigencias de la ciudad. también vela por el triunfo de la sophrosyne. se perpetúa en esta divinidad Sobre este tema. como su hermano. También de ella la ciudad requiere funciones capaces de aliviar el difícil trance hacia la vida cívica. en cada una de las regiones que la polis exige para su consolidación cívica. hijos ambos de Zeus y Leto.

MULHERES NA ANTIGUIDADE . celebra los pasajes aludidos como corresponde a semejante momento. D. J. señalando sus límites y asegurando con su presencia su justa articulación. p. quien se ve obligado a desplegar la estilística que la caza supone como actividad pautada. Si la actividad se inscribe en el horizonte 306 Vernant. 227 . lleva de una orilla a otra. Aretemisa es la gran conductora. de convertirse él mismo en presa. La muerte en los ojos. ya que está atravesada por un marco sobrecargado de reglas y valores que ponen a prueba la integridad del varón. el momento oportuno. que obedece a cierta legalidad porque es también el lugar propicio para la desmesura. guarda las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. de la vida misma. La caza es una actividad fundamental al interior de la constitución de la subjetividad griega. por ejemplo. entre lo humano y lo no humano. es ella la que advierte los peligros que tamaña empresa entraña. para medir la conducta del varón prudente. la oportunidad. traza las condiciones de los rituales que el propio tránsito exige. dirige la transición de una categoría a otra. El escenario de la caza ―En las fronteras de dos mundos. la batalla. Es el espacio de consolidación de la virilidad. observa que se cumplan sus regulaciones.1. produce el pasaje de un estado a otro. de la niñez a la adultez. Artemisa parece conjugar como buena olímpica las dimensiones del verbo ago: conduce la batalla para cuidar sus límites humanos.P. Es una justa entre hombre y bestia. El peligro de caer en el salvajismo es directamente proporcional al peligro de caer presa de la desmesura. Artemisa conductora. sino también la guerra. cuando el imperativo es conducir con arte y mesura la caza de la presa deseada. lugar propicio de un posible triunfo de la desmesura. 24. Artemisa preside la caza‖306. educa a las niñas en vista de su formación de esposas.NEA/UERJ acostumbrada a conducir no sólo los tránsitos necesarios. para transgredir la frontera humana y mimetizarse con la presa. es el kairos. la coyuntura favorable. Como otras tantas actividades que la vida social propone. conductora del parto y por ende. lo estrictamente antropológico y lo Otro en tanto bestia. Es el escenario propicio para una demostración de destreza y tekhne que posiciona al varón en el lugar privilegiado del vencedor del pequeño agon que la pieza opone.

Artemisa conoce las reglas del tránsito. Tránsito y pasaje de estado es el imperativo de esta nueva función socio-política que asegura la constitución de las poleis en la medida que reporta el recurso adulto que ejerce la función política. tanto animales como humanos conocen y se benefician de su función. aunando en su función la dupla saber-poder. 24. Artemisa se vuelve ella misma nomothetes porque. momento nodular en la historia del individuo porque marca el inicio de la sociabilidad. Actúa de manera tal que las fronteras entre lo salvaje y la civilización se vuelven permeables. a la adolescencia. lo incivilizado y lo civilizado. lo bestial y lo humano. Tarea cartográfica de deslindar lo Mismo de lo Otro como forma de conjurar los peligros que las mezclas reportan.MULHERES NA ANTIGUIDADE . vela por la observancia de las leyes que hacen de la caza una actividad humana. como digna hermana de Apolo.P. Se trata de la nodriza que conoce las reglas de maduración y sabe el camino que conduce a la etapa adulta. Tal como sostiene Vernant: Por consiguiente. D. culturalmente valorada y socialmente observada. 2. Pero al mismo tiempo las fronteras conservan su nitidez. La muerte en los ojos. porque la caza permite atravesarlas. la función de la diosa es imprescindible. J. El escenario de la crianza Su dimensión de nodriza no conoce distinción de categorías. Artemisa legisladora. p. Se trata de conducir el pasaje de la niñez a la adultez. por así decirlo. que la territorializa a esa doble condición política: sabe y puede. Se trata de depositar al joven en ese exacto lugar que la ciudad sabe capturar para ejercer sobre el futuro hombre político el trabajo de la paideia como empresa modeladora y moral.NEA/UERJ de ciertas prescripciones socio-religiosas. Artemisa no es el salvajismo. 228 . Artemisa vuelve a parecer en ese topos delicado que constituye la frontera entre lo Mismo y lo Otro. Para que la ciudad haga del joven el ciudadano que espera y 307 Vernant. lo cultivado y lo no cultivado en términos humanos. caso contrario los hombres caerían en el salvajismo307. más precisamente.

Su función se vuelve. es menester cumplir con las pautas que el tránsito exige. sociopolítica.NEA/UERJ sueña. Artemisa es una artista en las filigranas del tránsito. antes de dar ese paso. funcional al dispositivo político. retorna en el cuidado de las fronteras que vigilan el orden de la ciudad. categorías. No sin una serie de rituales perfectamente delimitados y custodiados por Artemisa. Aquella tarea reservada a Artemisa en su función de delimitar las fronteras entre el mundo infantil. estatutos. casi animal. Tal como sostiene Vernant: […] durante su crecimiento. 308 229 . de la niña a la parthenos. virgen. De eso se trata la función de la synergos al interior de la gestión económica. ya que se trata de administrar prudentemente lo acumulado y conservado en su interior. como la diosa. espacialidades y roles atribuidos. como arte de administración del oikos. No en vano estos últimos términos forman parte de las acepciones de la palabra topos. La función tampoco conoce de sexos. Si el efebo es conducido hasta el umbral del soldado-ciudadano. consolidando y asegurando los modelos genéricos que la polis delinea. la niña es conducida hasta el margen del matrimonio. y el mundo adulto. como estructura isomorfa308. ocupan una posición Tal parece ser la preocupación político-económica que Jenofonte plantea en su Económica como problematización del arte de gobernar la casa. pura. La tarea de vigilancia se repite pues en el plano humano. llevan a niños y niñas a los umbrales de la edad adulta y las exigencias de la vida cultural de la polis. La esposa y el polites constituyen las figuras emblemáticas de una sociedad que monta su modelo de constitución en cierta partición genérica en torno a las funciones. una vez más. como ciudadela a proteger y el orden del oikos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ya que prepara lo que va a constituir el escenario cívico: los varones ciudadanos y soldados. Una vez más su lugar es el topos de la frontera. futura esposa que ha de darle a la polis los hijos que ésta requiere para el recambio político. frontera entre dos topoi. velando por los límites ordenados de la ciudad y las mujeres coadministrando el oikos en una tarea de gendarmería. Del niño al joven. los jóvenes. La función de la diosa es altamente calificada.

distribuidoras de roles y funciones. Alejadas de sus hogares. en última instancia. J. como tránsito hacia la vida 309 Vernant. distingue. las hijas de Atenea sí logran el pasaje satisfactoriamente. lo niño y lo adulto. 230 . sino también al más contundente de los tránsitos: el que supone el nacimiento.NEA/UERJ liminar. al configurar las consolidaciones identitarias. p. la consolidación de lo Mismo. esto es de la condición de niña o cachorra. Para ello. La dimensión del parto Artemisa se hace presente en cada lugar vinculado al tránsito.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Artemisa pedagoga. abandonar su estatuto de osas salvajes y domesticarse junto a la artesana de los tránsitos. plasmada en la organización de la ciudad. asume el campo lexical del verbo krino. obturando el salto hacia la orilla del matrimonio. Conductora del tránsito. instalándolas en la comunidad civilizada. las mujeres aprenden en su estadía junto a Artemisa las delicias de la vida conyugal. distingue entre lo femenino y lo masculino. Sólo Atalanta parece haberse quedado sin cruzar las fronteras. aferrada a una virginidad que le imposibilita hacerse mujer. lo animal y lo humano. 3. vela por la realización del modelo instituido y cumple una función crítica. La muerte en los ojos. desde los cinco a los diez permanecen junto a Artemisa. 25. No sólo al pasaje de estadios y registros. D. donde las fronteras que separan a los niños de las niñas. En efecto. Ritual y disciplina parecen ser los ejes que posibilitan el tránsito. incierta y equívoca. todavía no están cristalizadas309. discierne. reglada por sus instituciones. las bestias de los hombres.P. para hacerse osas. En cambio. los jóvenes de los adultos. despeja las mezclas y las confusiones y así discrimina. Facilita la entrada al mundo de la mismidad. Artemisa instituye. Artemisa logra que se franqueen las fronteras entre lo Mismo y lo Otro. Son estas niñas que siguen el camino de la osa las mejores discípulas de una Artemisa nodriza que conoce como nadie las delicias de los cambios de registro.

Puro movimiento de una divinidad que conjura con su presencia las configuraciones estáticas y cristalizadas. conductora del parto y del nacimiento. más sanguíneo de la institución matrimonial. la única capaz de parir. confusa. ya que sin movimiento no hay pasaje de fronteras. Podemos afirmar que se trata de una divinidad subjetivante. parto. Todo proceso de subjetivación implica cruzar fronteras. Artemisa. un rasgo de animalidad suele acompañarla en cada instancia. desde la primera infancia. lo más salvaje de la vida se muestra en estado crudo. preside el parto.MULHERES NA ANTIGUIDADE . completando su función de nodriza. Es como si la diosa acompañara los distintos momentos. las bestias devuelven su rostro otro. El movimiento es la antítesis de lo inmutable. tan emparentada aún con lo animal y con la indefinición sexual. En efecto. visible en el parto. momento de nitidez en los registros antropológicos: es una mujer adulta. el alumbramiento constituye el momento más animal. Artemisa es una diosa nomádica. matrimonio. con lo cual consolida su dimensión fuertemente ligada a lo femenino. hasta la madurez del alumbramiento. caza. Capital paradoja de quien vela por los topoi emblemáticos de la consolidación familiar manteniéndose ella misma alejada del topos. acompaña el desplazamiento. Artemisa parece estar marcada por la proximidad a lo animal. La Artemisa Lochia. Artemisa está así fuertemente vinculada a los procesos de constitución identitaria: las niñas que se hacen mujeres y madres. pasajes. Matrimonio y parto parecen ser los enclaves de una tradición que ubica a las mujeres en el centro de la vida socio-cultural. cierra así una tarea que se ha iniciado con la preparación para este momento culminante. Presente en la caza. los niños que se hacen hombres y soldados o ciudadanos. insistente en la guerra. porque interviene directamente en los procesos de constitución de los sujetos. 231 .NEA/UERJ misma. articulada con el nacimiento. cada tránsito que posibilita entraña cierto parentesco con lo Otro. la posibilidad de la muerte acecha a cada paso. por eso Artemisa está fuertemente emparentada con la vida: crecimiento. guerra. Artemisa parece delinear el camino que recorre las fases subjetivantes de las respectivas identidades que la polis alberga. ya que supone el movimiento y el cambio como motor de la constitución.

imágenes de un topos otro que es precisamente el que Artemisa permite abandonar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . gemidos. en un primer momento. gritos. es precisamente ella la que […] expresa a los ojos de los griegos el aspecto salvaje y animal de la femineidad en el preciso momento cuando la esposa. 4. al entregar un futuro ciudadano a la ciudad -reproduciéndola. J. una nueva oportunidad para entrar en escena y 310 Vernant. La muerte en los ojos.P. despliega una función socio-política brindando los hijos que la polis requiere para su conservación como estructura organizada. bestial. Si Artemisa cumple una función socio-política. La dimensión de la guerra y la batalla La guerra constituye un nuevo kairos para una diosa acostumbrada a la conducción. posibilitando la entrada a otro territorio sobrecargado de gesto cultural. en el inicio de una vida atravesada por la cultura. marcada en el presente trabajo más de una vez. D. el riesgo que el propio momento conlleva la pone en una actitud atenta y vigilante para que ese tránsito hacia la vida sea satisfactorio.NEA/UERJ El parto parece evocar con los distintos elementos que lo constituyen. La llegada del recién nacido aleja ese mundo y pone al niño en el umbral del topos civilizado. imágenes de ese mundo salvaje.parece más integrada que nunca al mundo de la cultura310. Artemisa ha demostrado vocación por los cuidados y la observancia. para que ese tránsito quede perfectamente vigilado en su funcionalidad específica y los topoi heterogéneos que el mismo entraña queden cuidadosamente preservados. El parto es el momento oportuno. dolores. 232 . desde su rol subordinado en un universo viril por excelencia. él mismo evoca la imagen de un indefenso animal. es ahora la mujer la que. Su contacto con la animalidad. Tal como sostiene Vernant a propósito de la mujer parturienta. aunque. natural. 29. no civilizado aún. p. el nuevo kairos para que la diosa ejerza su función de gendarmería.

NEA/UERJ deleitarnos con una acción humanizadora. cuidar los límites y las demarcaciones para que el furor bélico no vuelva el universo a-cósmico. 30. mantener. donde cada término parece impactar en las dimensiones de la diosa gendarme. atender. La batalla es el escenario propicio para una nueva presencia de la diosa. hybris. La asaeteadora Artemisa conduce la guerra. velando por ella. guardar. topos desubjetivante que acarrea el mayor de los peligros.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Magnífico abanico semántico. Con el estado bestial al que la guerra puede conducir. ni subjetiva. p. Artemisa cumple. No hay constitución alguna por fuera de un dispositivo de gendarmería: ni política. el hombre cruza nuevamente el límite de lo otro y así peligra su condición. La delimitación de cualquier territorio supone la cuidadosa partición de los elementos.P. El peligro acecha nuevamente en ese lugar liminar donde la dimensión agonística que la batalla implica pone a los hombres en el 311 Vernant. ni moral. una vez más. custodiar. El salvajismo constituye un estado otro. 233 . precisamente porque retrotrae al hombre a un estado animal que lo aleja de su dimensión antropológica. en ese ámbito Otro. ni territorial. Mucho ha costado delimitar las fronteras. y la impulsan brutalmente al salvajismo311. estar de guardia o centinela. J. vigilar. Artemisa guardiana. En ese sentido: Artemisa interviene en el enfrentamiento cuando el empleo excesivo de la violencia rompe los marcos civilizados en cuyo interior rigen las normas de la lucha militar. proteger. Guardiana de los órdenes. Hay en ella una dimensión salvífica porque guía a los hombres para que no caigan en la animalidad. tener cuidado de. Por ello debe velar Artemisa. observar. conservar. vale decir el universo pautado que hace de la ciudad un kosmos habitable. dejar de ser hombres al transgredir con su ación el topos de la cultura. por su posible des-orbitancia. La muerte en los ojos. con el imperativo del verbo fulasso. un cruce de límites entre lo aceptado y lo rechazado. estar en guardia o con cuidado.

Los sujetos quedan siempre espacializados al interior de ciertos topoi. que se juega en prácticas de territorialización y desterritorialización. 234 . y la perspectiva de un margen como espacio de lo Otro. Conclusiones Sin duda la Antropología. E. el deguello sangriento de la bestia.NEA/UERJ umbral de una muerte no humana. 31.P. La muerte no escapa a las generales de la ley. En ese otro se juegan ciertas dimensiones que pasaremos a enmarcar en un juego de metáforas. enfrenta la compleja tensión entre la Mismidad y la Otredad como uno de los núcleos dominantes de problematización al interior de su campo disciplinar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . territorios. en el momento crítico. La problemática transita por una cuestión topológica. p. de una muerte transida por las pautas bestiales del salvajismo. La muerte es también un acto cultural. Los espacios suelen ser funcionales a las utopías clasificatorias y a las necesidades ficcionadas por los dispositivos de poder. transido por una legalidad que le es propia para que pueda ser encerrada en los parámetros civilizados. con su esbelta talla. que suele ubicarlo en un punto de irracionalidad. según su cualificación antropológica. La metáfora implica la perspectiva de un centro como núcleo de instalación de lo Mismo y como preservación del topos de la identidad. también cuestiona el límite entre el orden civilizado (…) y el reino del caos312. la sphage. de una muerte salvaje. La muerte en los ojos. Tal como sostiene Vernant. Por lo tanto allí está Artemisa. Hybris y sophrosyne persisten e insisten en cada manifestación de la vida de los hombres que han pactado vivir en sociedad. ya que la tensión aludida parece resolverse en una metáfora espacial. no sólo representa la frontera entre la vida y la muerte. Hay en el Otro una cierta dimensión de opacidad. tanto desde el pasado como en la actualidad. […]en la intersección de los dos campos. y como forma de la exclusión-fijación de la diferencia. la paz y la batalla. 312 Vernant. J. en una situación liminal. velando por la lucha digna.

serán cuidadosamente delimitados y celosamente custodiados. como modo de conjurar su peligrosidad. entre otras experiencias políticas tendientes a fijar a los sujetos a los espacios que sus peculiaridades exigen. que incluye prácticas de internamiento. supone cierta cartografía. 313 Vernant. territorializarla y manejarla tecnológicamente. como Grund. Artemisa es funcional al dispositivo de consolidación del territorio de lo Mismo. cimiento. Si lo Otro constituye esa amenaza latente. En el corazón de esta preocupación. territorios. al tiempo que se generarán saberes y discursos a los efectos de poder visibilizar la diferencia.NEA/UERJ La Mismidad construye la familiar consideración autorreferencial de la humanidad y la Otredad interpone la duda de la no humanidad. Artemisa es siempre la divinidad de las márgenes.P. nodriza. Los topoi. p. entonces se explica la metáfora espacial de un cuidadoso trabajo de gendarmería. con el doble poder de administrar el pasaje necesario entre el salvajismo y la civilización y delinear estrictamente sus fronteras precisamente cuando llega el momento de franquearlas313. Cazadora. La muerte en los ojos. 31. Visibilizarla. cierta distribución de los sujetos en el espacio. secuestro. o de una humanidad disminuida en su plenitud de ser. espacios. exclusión. partera. J. se trata siempre de cierta e incomodante forma de la anormalidad.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inconmovible para toda construcción identitaria. que rompe las certezas que lo Mismo otorga como suelo firme. El espacio es una variable insustituible a la hora de delinear ciertos dispositivos de poder. salvadora de la guerra y la batalla. de la extrañeza. Sabemos de la solidaridad entre los espacios y las configuraciones mentales. 235 . La otredad no escapa a la regla.

Buenos Aires. y BELLELI. México. 1969 OTTO. FOUCAULT. M. Ariel. Editorial Gredos.-P. C. C. L. Mito y pensamiento en la Grecia antigua. Paris. M.Apolo con el cuchillo en la mano: Una aproximación experimental al politeísmo griego. Buenos Aires. Antropología de la Grecia antigua. 2000. 236 . Madrid. W. P.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Buenos Aires. 2001. ______. Prometeo. Los dioses de Grecia. 1999. M. s/d REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLOMBANI. Textos de Antropología. Madrid.C. 2009 DETIENNE. Taurus. Madrid. Maestros de Verdad en la Grecia Arcaica. La trama cultural. Librairie Garnier Frères. Taurus. Historia de la religiosidad griega. Foucault y lo político.. 1981. VERNANT. M. ______. Madrid. 1973. F. Las Palabras y las Cosas Siglo XXI. Editorial Eudeba.E. M. NILSSON. 2001. Anabase. GERNET. Barcelona.Èconomique. 1986. Buenos Aires: Editorial Caligraf. Akal.NEA/UERJ DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL XENOPHON (Jenofonte). . 1968 GARRETA. J. La muerte en los ojos.

1. valores como charis. R. Sobre o assunto da datação da Hécuba. o quadro e os agentes que interagem. valores que regiam as relações interpessoais com base no reconhecimento. Stanton (1995). a qual atua na Faculdade de Letras e Ciências Humanas. É a memória de uma cidade feita em fumo e a imagem de mulheres e jovens condenadas à servidão e à morte. baixam os braços. enfim. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. American Journal of Philology 99. coincide uma profunda crise de valores que a guerra inevitavelmente instala. ‗Hecuba‘s revenge‘. A vivência democrática que estrutura a sociedade ateniense reparte. condicionar a opinião pública. lá se detêm. no acampamento aqueu na Trácia. vide R. segundo uma perspectiva individual e colectiva. philia. E são claros os princípios que Eurípides traz à discussão.MULHERES NA ANTIGUIDADE . colectiva e pessoal. aliciar o apoio das massas. tudo indica que seja anterior a 423 a. 1. 1. por exemplo. de regresso à pátria. axioma são avaliados na pureza do seu sentido. Com a ruína. nomos. 11-33.NEA/UERJ MULHERES EM TEMPO DE GUERRA . G.ª Maria de Fátima Souza e Silva314 A Hécuba pertence ao número das peças que Eurípides dedicou a um retrato do pós-guerra. em confronto com uma relatividade a que a guerra e a nova ordem social que Atenas vive os sujeitou316. e sem dúvida inspirado na experiência em que quase uma década de guerra mergulhara o mundo grego315. perante os Aqueus vencedores que. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. 96-99.ª Dr.A HÉCUBA DE EURÍPIDES Prof. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. desde logo. 314 237 . em primeiro plano. dike. centrado não sobre a glória que os heróis almejam retirar do combate. os princípios que a tradição consagrou. com insistência. Meridor (1978). tornam-se polémicos. impor paradigmas cívicos – se lhes Professora da Universidade de Coimbra. Charis e philia. Em diversos tons e contextos. Schubert (2000). 28-35. quando os interesses da colectividade – honrar os seus heróis. Mnemosyne 48. C. mas sobre os destroços que restam quando os combatentes. gratidão e reciprocidade. vide P. 316 Sobre a aplicação e discussão destes princípios na Hécuba. 315 Embora a data da peça não seja precisa.

que se vê abalado e relativizado por um nomos meramente político e circunstancial. Mais do que envolvê-la. com Agamémnon. dike perdeu a limpidez de um conceito norteador em sociedade. símbolo extremo da ruína humana. de fazer uma avaliação do mundo que a cerca. A ficção dramática permite a Eurípides incumbir a sua protagonista. O que vale a vida de uma jovem. No meio do mesmo descalabro social. inimiga. Por fim. estivessem condicionados por barreiras geográficas ou políticas. ou para defender o assassínio de um hóspede por motivos de mera ambição. Entendida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Hécuba. 669 -. para mais mulher.NEA/UERJ sobrepõem. impõe-se um conflito de culturas. Além de consentir o sacrifício injustificado de uma vida. como uma espécie de cúmulo exemplar de decadência pessoal e cívica. prática e salvadora. um símbolo helénico de glória militar? Com a própria interrogação é o respeito fundamental pela vida humana. ou permeada de afecto. claramente hesita na indigitação das suas vítimas (quando permite a condenação de uma Políxena inocente em vez de Helena). perante a homenagem devida a Aquiles. o exemplar completo do retórico contemporâneo. decepada de todos os bens que estruturam a civilização – ‗sem filhos. a velha rainha de Tróia. onde Gregos. Como protectora essencial da vida e dos direitos humanos. susceptíveis e frágeis na sua contingência. como um processo de alianças políticas. a justiça deixou-se abalar por outros interesses e motivações pessoais. em sucessivos conflitos retóricos com os mais temíveis adversários – com Ulisses. sobre todas essas regras construtivas de um verdadeiro sentido de humanidade. com habilidade oratória. a solidariedade. se a ela se puder recorrer para justificar a legitimidade da condenação de uma jovem ao sacrifício. sem marido. o 238 . de respeito pela vida e coesão humanas. Troianos e Bárbaros se polemizam. sem pátria‟. o primeiro dos heróis. como se os grandes princípios universais. Entrelaçada com charis e philia. despojada do seu carácter absoluto para se ver objecto de todos os condicionamentos e contradições. um traço superior de civilização. mais do que como um vínculo pessoal que age em situações de dificuldade e salva. a philia torna-se um processo destrutivo. cativa. sofre do mesmo mal. estrangeira. ou na avaliação das infracções grotescas que é chamada a punir (como o crime agravado por todos os maus motivos e estratégias que é o cometido por Polimestor contra o troiano Polidoro).

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comandante em chefe do inimigo; ou, finalmente, com a violência grotesca do bárbaro Polimestor -, o poeta conferiu-lhe a competência geral de um crítico, capaz de apontar, com exactidão, os vícios essenciais desse produto cultural contemporâneo. A reprovação essencial que Hécuba pronuncia contra os oradores incide sobre a retórica política (254-255): ‗Ingrata raça a vossa, de quantos ambicionais, com os vossos discursos, os favores populares‘. Um primeiro conflito se afirma, latente; charis, ‗a gratidão‘, ‗o reconhecimento‘, que deveria suscitar o seu recíproco, baqueia perante o objectivo de uma time, ‗honraria ou prestígio‘, que se conquista por uma técnica simplesmente amoral ou pragmática. Mas já charis se associa à philia, como um outro valor interpessoal, que não resiste às exigências da sedução política (255-257): ‗Vocês que se não preocupam com prejudicar os amigos, desde que aliciem os ouvidos das massas‘. Consciente dos propósitos mesquinhos que os animam, Hécuba faz-se porta-voz da animosidade com que a opinião pública avalia os peritos em retórica, ela mesma uma vítima modelo do vazio de um discurso, mero sofisma, que é capaz de defender a condenação, criminosa, de uma vida inocente e promissora. Pelo poder do dinheiro, eis que se pode comprar a chave invencível do êxito, a persuasão, uma receita de comprovados efeitos; tudo se vence e tudo se consegue com esse produto milagreiro (812819)317. O que distingue a sagrada Persuasão é a sua versatilidade, a capacidade de discutir ‗em todos os tons‘, ‗com todo o tipo de argumentos‘ (840); nesta maleabilidade vai incluída a falta de ética e um tremendo pragmatismo, que tem por adquirido que ‗não é com honestidade que se vence o infortúnio‘. A mentira ou uma verdade simplesmente virtual ganha terreno sobre a realidade objectiva, num contexto onde palavras e factos parecem ter perdido a mais elementar correspondência. Após anos de aplicação, no entanto, o efeito conseguido é realmente assustador. Sobre o cidadão comum, o curso dos tempos, difíceis, imprimiu um processo de limitação de liberdades. Por motivos vários, que vão da própria sobrevivência económica às contingências da sorte, a verdade é que o cidadão se tornou num escravo, incapaz de fazer
É clara a alusão que Hécuba aqui faz ao ensino dos sofistas, pago a preço de ouro, mas capaz de todas as vitórias.
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prevalecer os ditames da sua consciência sobre as múltiplas pressões que o condicionam, num padrão de vida onde a liberdade e a igualdade se apregoam como alicerces de uma partilha social. Em contrapartida, o próprio modelo de sucesso parece dar também os primeiros sinais de ruptura, que deixam prever, no caos social que se adivinha, a inevitável decadência (1192-1194): ‗São hábeis os inventores dessas subtilezas, mas não conseguem manter-se eternamente hábeis. Triste é o fim que lhes está reservado, a que nenhum ainda conseguiu escapar‘. Num contexto de dificuldades profundas, esse acampamento aqueu, que é uma espécie de microcosmos da realidade grega contemporânea, tornou-se um ponto de confluência de todas as sensibilidades sociais. Ulisses figura nele como protótipo do orador contemporâneo, sem escrúpulos, ousado, ambicioso. A sedução do seu discurso é claramente superficial; versátil, cativante, fluente, demagógico, é este o registo que sobressai numa primeira avaliação, onde a forma se impõe ao conteúdo. E a verdade é que, no primeiro confronto em que, na peça, Ulisses afirma a sua arete retórica, na assembleia dos Aqueus onde se discutia a satisfação da exigência de Aquiles de um geras para o seu túmulo, esses atributos lhe valem a vitória: ‗persuade‘, ou seja, ‗vence‘ (133). Perante as posições controversas que aí se geraram, Ulisses soube esgrimir um argumento aglutinador, decisivo, capaz de criar uma conivência colectiva, que se verificasse esmagadora perante qualquer outra ordem de razões (138-140): para que se não pudesse dizer ‗que ingratos perante os Dânaos mortos ao serviço da pátria, os Dânaos deixaram a planície de Tróia‘. Charis é usada por Ulisses, diante da mole imensa do exército, com um real sentido da oportunidade, como o argumento másculo e político, que aniquila quaisquer outros motivos, sentimentais ou privados, que se pudessem aduzir. Face à competência suprema do filho de Laertes, o coro de mulheres, que antevê o prolongamento iminente da discussão, agora no privado, perante Hécuba, a mãe que vai perder uma filha em nome da vénia devida a um herói já morto, encarna a população anónima, desarmada diante da habilidade retórica, frágil face ao poder esmagador de um universo que desconhece. Não lhes vem à cabeça a ideia de contra-argumentar, um processo que lhes está, na sua condição de mulheres detentoras de uma mentalidade tradicional e impreparada,

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distante e inacessível. À rainha sugerem o recurso a súplicas e preces, aos deuses e ao poder dos homens, sem consciência da inutilidade de tais recursos quando o verdadeiro pragmatismo se instala (144-147). Hécuba, apesar de mulher, de troiana, de uma velha rainha vencida pelos acontecimentos, tem, na peça, uma verdadeira competência retórica. Aos gritos e lamentos, simples armas da emotividade feminina, ela antepõe os argumentos, ‗o que poderei aduzir?‘ Despojada de qualquer apoio, de pátria, de parentes e de amigos, Hécuba sente que é antes de mais de si mesma e dos argumentos que conseguir encontrar que depende o sucesso da sua causa: salvar a vida de Políxena. Há que reconhecer-lhe, nos diversos agones que é chamada a travar, uma clara competência retórica. Sabe escolher os argumentos certos, ordenálos com lógica, esgrimi-los de acordo com a circunstância. É acutilante no enunciado, seleccionando as palavras certas e sublinhando, pela insistência oportuna em vocábulos chave, os conceitos que, a cada momento, traz a debate. Condimenta a racionalidade do discurso com o espectáculo emotivo do apelo e da súplica, sobretudo a rematar cada uma das suas intervenções, de modo a susceptibilizar o auditório difícil que é o que lhe está destinado. Há, no entanto, uma aprendizagem que as circunstâncias lhe impõem ex abrupto. Não basta usar argumentos éticos e justos, não são esses os que obtêm sucesso num mundo feito de compromissos e de condicionalismos. Como lembra a Políxena (382383): ‗Não é com um discurso honesto que se escapa à adversidade‘. Se necessário, é preciso avançar para razões amorais, apelar a motivos adika, não hesitar perante qualquer baixeza, legítima em nome do supremo objectivo da vitória. É esta a degradação retórica que acompanha todo o processo de decadência humana que a antiga senhora de Tróia sofre na peça. De vencida, ela sai tristemente vencedora, obtendo não uma desejável e honrosa liberdade – o maior objectivo de quem, de soberano, se vê escravo -, mas a satisfação de uma sede insaciável de vingança. O relato de uma assembleia dos Aqueus, de que o coro foi testemunha, envolve, desde logo, um dos grandes motivos da tragédia – o sacrifício de Políxena – numa moldura de debate retórico. À distância, os Gregos agem de acordo com os seus hábitos democráticos, num contexto onde a vontade dos homens públicos se sujeita à das massas populares, onde a autoridade verdadeira de um chefe cede lugar a um

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hábil exercício de persuasão. Esta é uma causa que justifica dois debates na peça: uma assembleia pública, masculina e política, que decorre fora de cena, seguida de um agon a dois, pessoal e directo, entre Ulisses e Hécuba. Vários são os fios que estreitam estes dois momentos retóricos: o filho de Laertes, como interventor em ambos, e a questão em debate, a sorte de duas filhas de Hécuba, Políxena e Cassandra, cujo destino, a diferentes níveis, está em causa. Ainda que numa terminologia genérica, sem usar os vocábulos apropriados que se vão tornar adiante insistentes, o coro, desabituado destas lides, captou-lhes no entanto o sentido essencial. Tratava-se de um confronto de duas argumentações simetricamente opostas (117) – ou seja, de um puro exercício de retórica – em torno de um caso onde charis e philia ponderavam: a concessão de um geras devido a Aquiles e por ele reclamado do além-túmulo. Ao que parecia ser um entendimento colectivo, cívico, dos deveres para com um companheiro de armas e herói público, vieram subrepticiamente adicionar-se motivações pessoais e íntimas, de credibilidade duvidosa. Agamémnon (120-122), por charis e philia, ‗gratidão e sentimento‘ para com assandra, com quem gostosamente partilhava o leito, contrariava a pretensão de Aquiles, aliás seu rival nas honras em debate junto a Tróia. A voz ateniense, a própria encarnação do modelo democrático de retórica, representada pelos dois filhos de Teseu, Acamas e Demofonte (123-124), em uníssono defendia a reivindicação do herói morto, mas não pelos melhores motivos; não era sobretudo a time devida a um companheiro que os movia, mas o desejo de contrariar o comandante, Agamémnon, e os seus inconfessáveis impulsos pela cativa troiana. Afinal, neste debate, a vida de Políxena não se discute perante os interesses de um único opositor, o herói da Ftia; com a sua eventual sobrevivência joga-se, como um preço a pagar, ‗a escravização de Cassandra‘. Ulisses interveio para aniquilar escrúpulos, repor a discussão no plano colectivo e recolocar, no centro da polémica, o conceito em debate, a charis devida ao herói (138). Quando Ulisses chega, como mensageiro da decisão dos Aqueus (218-228), omite a sua intervenção no processo e escuda-se no voto colectivo. É manifesto o seu desejo de executar rapidamente uma sentença, imoral e controversa, sem deixar margem a quaisquer outros argumentos (220-224): ‗Decretaram os Aqueus que a tua filha Políxena fosse

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degolada sobre o túmulo de Aquiles. Foi-me dada a incumbência de escoltar e conduzir a jovem; quanto ao sacrifício, terá por executor designado e celebrante o filho de Aquiles‘. Hécuba, porém, não se deixa iludir pela frieza burocrática da comunicação. Sente que é chegada a hora de um agon supremo (229), da troca decisiva de argumentos, para além dos inevitáveis soluços e lágrimas. Hécuba assume a prioridade nas intervenções, colando ao argumento antes aduzido por Ulisses na assembleia, que condenava Políxena, os conteúdos próprios de uma rhesis de defesa. Com uma clara competência, o primeiro motivo que introduz é o de charis; o reconhecimento e a reciprocidade que exige de um favor prestado transita de um plano colectivo, o que relaciona o exército com o mais prestigiado dos seus elementos, para o privado, o que vincula Ulisses a uma Hécuba, outrora poderosa, a quem ficou a dever a própria vida, quando penetrou, como espião, em terreno inimigo e se viu identificado por Helena318. A charis associam-se as ideias de xenia e philia, diversificando o conteúdo do conceito (251-257). Ao protesto pela reciprocidade de obrigações, como eco das razões invocadas por Ulisses, Hécuba soma questões de ‗justiça‘. Mede, em primeiro lugar, a imposição que tornaria o sacrifício de Políxena uma fatalidade ou uma conveniência (260-261; cf. 265, 267). Mistura a ‗necessidade‘ com ‗vontade‘ para colocar a exigência do ritual a um nível puramente humano, que se pode contestar ou repudiar. E não hesita em o referir como um ‗crime‘, assumindo, para a própria interrogativa, uma opinião clara: não é legítimo sacrificar vidas humanas. O sacrifício é então, sem reservas, colocado no plano de um delito, que, mesmo assim, admite níveis de rigor e de justiça: se há que encontrar uma vítima, porque há-de ser Políxena, que nada fez contra Aquiles, a pagar com a vida? É Helena quem deve ser sacrificada, porque a ela o herói deve o sofrimento e a morte (265-266). De resto, como vítima, Helena cumpre todos os requisitos: é bela como nenhuma outra, além da culpa que lhe assiste (267-268). Após esta incursão pelo tema da justiça – ‗é em nome da justiça que uso este argumento‘ -, Hécuba volta a charis
D. J. Conacher (1961), ‗Euripides‘ Hecuba‘, American Journal of Philology 82, 5, sublinha que este episódio relatado por Hécuba parece invenção de Eurípides; o efeito que produz, ainda que marginal, é curioso, pelo contributo que dá à discussão do tema charis que persiste em toda a peça.
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(176), sublinhando com insistência a simetria dos favores prestados. É este para ela, como também para Ulisses, o argumento forte; ‗dar em troca‘ (272) e ‗trocar um gesto recíproco de súplica‘ (275) sublinham o justo paralelo de duas situações (273-276), ‗tocaste-me mão e face … também eu te toco mão e face‘. A reciprocidade introduz o assunto do amor pela filha e da necessidade premente que a desventura lhe exige desse último afecto. Do seu infortúnio, Hécuba parte, num encadeamento lógico – como se de salvar a própria vida se tratasse –, para a desventura que é, na existência humana, o contraponto da felicidade e do poder (282-283): ‗Os poderosos não devem abusar do seu poder, nem julgar, enquanto a sorte os bafeja, que ela durará para sempre‘. E logo recorre ao exemplo, o seu próprio, para abonar o princípio (284-285). À efemeridade, o tempo vem opor um toque de ironia: o que parecia ‗eterno‘ (283) desmorona-se ‗num só dia‘ (285). Na súplica final, Hécuba retoma, sinteticamente, os argumentos anteriores, agora acrescidos de pontos que lhe parecem dever tocar um grego, homem público e prestigiado pelos seus; nomos,‗a prática ou a lei‘, que, na Grécia, em questões de sangue, trata por igual homens livres e escravos (291-292); axioma, ‗o prestígio‘, com a sua capacidade particular de persuadir e de imprimir aos argumentos uma distinção de que um simples anónimo não é capaz (293-295)319. Ulisses, instigado ao debate, não hesita na resposta que organiza, como expert que é em matéria retórica. Passando em claro o argumento da justiça, visivelmente desfavorável ao lado da condenação, expande-se sobre charis. O mesmo conceito regressa ao debate, agora torneado com cautela por um orador que se diz disposto a respeitar a reciprocidade que lhe é exigida, mas de um modo directo, circunscrito à sua benfeitora de outrora, Hécuba, e não à filha (301-305). Mas além dessa charis pessoal, há uma outra pública, que o enleia, a que deve, como membro de um colectivo, a um herói (304-305). E sem falar de justiça, Ulisses relativiza o valor da vida humana, sobrepondo ao carácter absoluto do princípio o condicionamento político do nomos (304-308). Estão em jogo, lado a lado, os interesses de um homem, o primeiro dos heróis entre os seus
Sobre a valorização relativa dos argumentos aqui usados por Hécuba, vide A. W. H. Adkins (1966), ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘, Classical Quarterly 16, 193-219.
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pares, a par de uma jovem, mulher, anónima, estrangeira e cativa. Ulisses fala como se Hécuba não fosse capaz de entender a lógica dos valores colectivos e másculos, que além de distinguirem os homens das mulheres, opõem também Gregos e Bárbaros. ‗Para nós‘ - argumenta com uma carga irónica que coloca este ‗nós‘ num ascendente inatingível de nobreza e de glória – ‗Aquiles é digno do nosso reconhecimento‘. Na morte, como na vida, merece a vénia dos companheiros (310). A charis e philia Ulisses associa time, um valor masculino e militar que Hécuba desconhece, mas sobre que, na sua opinião de homem e de guerreiro, se constrói a verdadeira e duradoira (320) estabilidade social (315-316): ‗Haverá disposição para se dar a vida pela pátria, ao ver-se um morto despojado da honra que lhe é devida?‘ Confrontando-se depois com a súplica de Hécuba, o senhor de Ítaca nada diz sobre o argumento do poder contraposto à fragilidade da fortuna, nem sobre o prestígio que faria dele um decisor escutado. Aduz o exemplo paralelo das mulheres gregas, também elas vítimas sofredoras da guerra, e aconselha resignação (322-326). A questão do nomos, Ulisses alarga-a à falta de perspectiva da prática bárbara e avalia-a, não de acordo com uma desejável equidade na preservação da vida, um valor universal, mas ainda uma vez por um critério político, o de uma time que, do seu ponto de vista, é a verdadeira razão de ser da comunidade social (326-327). A essa vénia, ao prestígio e à glória, que a Grécia, como Ulisses a conhece, reverencia acima de tudo, opõe os ‗pobres‘ bárbaros, que acusa de indiferença para com os seus heróis e de uma amathia sem sentido. Hécuba sai vencida deste recontro retórico, não porque lhe falte competência oratória, mas porque se limita a argumentos de justiça, a valores éticos, que não têm, perante a sociedade ambiciosa, amoral e pragmática que Ulisses representa, um peso decisivo. A debilidade de uma causa justa fá-la pagar um preço elevado para o seu coração de mãe: a perda de uma filha. Mas o que parecia o último dos golpes era apenas mais uma etapa num calvário de amarguras; pois já uma escrava, activa na preparação das exéquias de Políxena, era portadora de mais um golpe, a morte de Polidoro, desta vez vítima simplesmente da falsidade e da ambição do trácio Polimestor, a quem Príamo o confiara como a última esperança para a ressurreição futura de Tróia. Não se tratava agora da crueldade de um inimigo, mas do crime de traição cometido por um

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Hécuba compreende que está diante de uma nova crise e. a falta de respeito pela piedade devida às leis divinas. se. Steidle (1968). 30-44. cit.. Transactions of the American Philological Association 14. de contrapor. A study in Sophocles and Greek ethics. a uma primeira Hécuba. são éticos os argumentos que ensaia junto de Agamémnon. Como se. Blundell (1989). vingativa. Hécuba brada contra a impiedade do gesto de Polimestor. o motivo retórico que cruza a peça. o seu novo interlocutor. M. D.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 416. para Eurípides. ‗Violence and the other: Greek. 87-88. Segal (1990). MacDowell (1963). Nussbaum (1986). op. Entra naquilo que Ch. quando estão em causa os interesses de Políxena ou de Polidoro. M. Transactions of the American Philological Association 120. de quem suplica justiça e a punição dos culpados. J. Studien zum antiken Drama. The Athenian homicide law in the age of the Orators. na sua aposta. com simetria de argumentos. cf. G. 322 Na verdade. designa por factores de ‗unidade temática‘. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy . 1. igualmente bárbaro. 1-2. cf. passa a dar prioridade à vingança. Conacher. Schubert. Cambridge. além da quebra dos deveres impostos pela xenia e philia. Helping friends and arming enemies. D. mais ou menos incoerente. no seu desrespeito pela vida Como é sabido. M. A mesma regra tinha aplicação em sociedade. o chefe supremo dos Aqueus. é mais um factor a contrariar a interpretação de alguns estudiosos de que a Hécuba seja a colagem. no código moral grego. Vemo-la repetir a estratégia retórica322 primeiro usada com Ulisses. a philia exige um código retributivo. impondo-se às famílias obter a desforra pelo crime de que algum dos seus membros tivesse sido vítima. P. cit. de dois temas distintos. Hécuba muda simplesmente de tom. uma outra. e que se repete. op. Cambridge.NEA/UERJ amigo e aliado. a agir em nome de um objectivo reprovável a que tem de ajustar argumentos igualmente reprováveis. como é a posição defendida por W. W. female and barbarian in Euripides‘Hecuba‘. mesmo assim. 109. está também consagrada a vingança como um dever de compensação perante um inimigo. a nobreza de alma que ainda resiste a orientasse. determinada. Kirkwood (1980). 321 Não se trata. ‗Hecuba and nomos‘. antes de passar ao seu principal argumento na circunstância. Munich. percebemos um sinal de defesa de um princípio de retribuição320 a que as próprias circunstâncias a condenam (756-757)321: ‗que somente eu castigue os culpados e aceito ser escrava a vida inteira‘. M. Cf. 320 246 .. activa.

na alma da rainha de Tróia. ao contrário do que antes se passara com Ulisses. superior a todas as hierarquias humanas. É a aparente indiferença de um Agamémnon que se afasta. 324 Segal. nomos. Aos homens compete tão somente a execução das regras superiormente estabelecidas e aos que detêm o poder o seu arbítrio. cit.NEA/UERJ humana. que pretende suscitar respeito ou consideração por quem se encontra à mercê de um inimigo. deixa os Gregos insusceptíveis324. Torna-se. inspirador de uma distinção essencial entre o que é justo e injusto. Entre o comportamento de Ulisses e o de Polimestor há claramente apenas uma diferença de grau. usados para com Ulisses. 83. o seu lado mais tenebroso e. O apelo final de Hécuba perante Agamémnon retoma os motivos anteriores. é um valor divino.. do convívio à sua mesa. incapaz de exercer as responsabilidades de chefe que lhe incumbem. agora agravado pelo vínculo de xenia que o ligava à sua vítima. absoluto. uma argumentação pragmática e amoral. sob as aparências. mas. a indiferença pelos princípios mais elementares de uma verdadeira civilização é rigorosamente a mesma. com ele. a súplica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . após a impiedade e o assassínio. evidente que os princípios de que a rainha de Tróia se faz defensora perderam sentido nos representantes de um novo estado democrático. defende com razão que Agamémnon não deixa de ser tocado pela piedade e pela justiça. que torna o bárbaro mais grotesco e o grego mais sofisticado na medida dos seus gestos. E numa escala ascendente. Hécuba sabe ponderar a validade relativa dos argumentos que tem (1987). ‗a lei‘. (…) Logo não se tomam quaisquer medidas sobre crimes contra xenoi. coloca o desrespeito pelos mortos. que o levou a deixar insepulto o cadáver da sua vítima. mais uma vez. Reclama uma reciprocidade infringida por quem outrora partilhou da sua hospitalidade em Tróia.‟ Dentro de igual princípio. 323 247 . 124. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides . Como afirma D. Kovacs323: ‗À mentalidade colectivística não interessa a compreensão pelas razões do privado. e da distinção de uma afinidade particular (793-796). Baltimore and London. que traz enfim ao de cima. de modo que a desejada igualdade entre os homens persista (802-805). mas que vence. The heroic Muse. op.

teria todo o prazer em agradar a Hécuba. por interesses pequenos e condenáveis. como a desejável punição para quem prevarica. como Ulisses. Não restam dúvidas sobre a escala de valores com que Hécuba apela. sublinha o tom degradante que este argumento reveste na boca de Hécuba. E só depois do fulgor desta Persuasão. o apelo a Cípris. justiça e hospitalidade (852853). uma última palavra. perante o exército.philia e charis.. na rhesis de Hécuba. peado por Segal. quando reflecte (824-825): ‗Talvez este seja um argumento vazio. op. pés. se não parecesse. discreta e apagada. aos teus joelhos. dar prioridade ao amor de Cassandra (855). mantém-se fiel aos valores em discussão. mas também ele. Na sua nova abordagem da causa que defende. A passagem abrupta. o vínculo erótico que Agamémnon mantém com Cassandra. vou usá-lo‘. como podem ser distorcidos e amesquinhados. os abraços de amor (828829). cit. neste caso. encarnada num gesto falante de súplica. nem da sua hierarquização em sociedade. a quem se deve o prazer de noites memoráveis (830. comprometido. é ainda devida à justiça (844-845). 832)325. por artes de Dédalo ou de um deus. Hécuba usa o corpo de Cassandra para obter charis de Agamémnon e o seu favor‘. na cedência de Agamémnon a arbitrar o último dos agones a que o poeta a sujeita.NEA/UERJ ao seu dispor. Porque finalmente eis que a primeira vitória lhe sorri. cabelos. Este é o padrão do árbitro que tem na mão a execução da justiça. Diz Segal: ‗Os Gregos usam o corpo de Políxena como oferenda a Aquiles para lhe expressarem charis e para obterem o seu patrocínio. 325 248 . quando se serve da escravização a que Cassandra está sujeita. as noites partilhadas. todos a um tempo. o reconhecimento face a uma amante. charis. para se prenderem.. mostra como são relativos no seu mérito. respeitador dos princípios da piedade. Tomada enfim por algum desespero que se vai tornando em delírio. como interessante metamorfose de uma súplica num golpe de retórica (836-840): ‗Que ganhassem voz os meus braços.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Porque o exército vê no Trácio um amigo (858) e no morto um inimigo (859-860). Philia é. Uma teia controversa de razões deixa-o manietado. com todo o tipo de argumentos‘. O Atrida afirma-se sensível à súplica (850851). do argumento da justiça para o do sexo deixa bem clara a ineficácia profunda da legalidade e a sua inoperância como valor pessoal e social. 123. por entre lágrimas e apelos. contra Polimestor. o que a torna tão vítima quanto a própria Políxena. Hécuba remata num apelo. mãos. se vê enleado em compromissos. Mas pouco importa. mas ao retomá-los.

entalado entre prioridades cívicas e pessoais que parecem talhadas para um eterno conflito. Mas por trás desse móbil prioritário está o jogo político. a verdade crua. chama-se ‗ouro‘. para com aqueles que eram os seus verdadeiros aliados. Despida de uma capa de dignidade. com Agamémnon por juiz (1129-1131). Resta um último agon. e um gesto de protecção para com o seu povo. os senhores de Tróia (1228-1232). só a ruína da corte de Príamo o incentivou ao crime. no limite. Por isso adopta a táctica ajustada à situação: confessa o crime (11321136). a recordar o seu mérito essencial (1226-1227): ‗É na desgraça 249 . suprimindo-lhes de vez o inimigo. com cuidadosa simetria. pura falácia (1197-1201). É simples a intervenção de Hécuba. assim acautelado de qualquer previsível invasão por uma nova arremetida contra Tróia (1138-1144. E Hécuba termina com uma definição do que seja a verdadeira philia como que impulsionada. De resto. Que philia poderia recomendar que Polimestor guardasse para si o ouro. tudo parece tão nítido de razões que a condenação é segura (1234-1235).NEA/UERJ interesses em conflito. orientava-o um rasgo de philia para com os Aqueus seus aliados. quando se trata apenas de legitimar um castigo violento que já foi aplicado antes da sentença. a philia. em momento de crise. no meio de uma controvérsia de valores. Polimestor não pode. Polimestor não agiu quando Tróia era poderosa. que o levou a aniquilar um possível renascimento de Tróia por iniciativa do mais novo dos herdeiros de Príamo. sido oportuno que desse mostras de uma verdadeira philia. à luz da evidência. A philia invocada por Polimestor. em vez de o pôr à disposição dos aliados fustigados pela dureza de um longo combate (1217-1223)? Teria então. como uma aliança entre Gregos e Bárbaros. invocado como justificação para um assassinato. parece. O bom senso e uma louvável prudência (1137). cada argumento do adversário (1187-1196). Em discussão persiste um valor que cruza toda a peça. Depois de um preâmbulo doutrinário sobre a justeza dos argumentos face aos actos cometidos. por qualquer habilidade retórica.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a ambição primária que justificou o mais vil dos actos (1206-1207). entre Hécuba e Polimestor. despojada de argumentos. como ponto de partida para o argumento da legitimidade. 1175-1177). que é. Hécuba desmonta. negar o homicídio de que é acusado. uma evidência.

‗Euripides‘ Hecuba‘. ‗Hecuba‘s revenge‘. 1978. enquanto aos Gregos cabe a imagem de uma sociedade democratizada. Transactions of the American Philological Association 14. STANTON. In Euripides ‗Hecuba‘. Nos sucessivos debates que perpassam toda a peça. vitoriosa sobre todas as considerações: o poder persuasivo do discurso. 1-26. ______. female and barbarian. KIRKWOOD. Studies in the Hippolytus and Hecuba of Euripides. 1961. em nome do predomínio asfixiante dos interesses colectivos. que. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADKINS.MULHERES NA ANTIGUIDADE . porque à ventura. patrocinado por uma autoridade firme e coesa. incapaz de persistir nos valores solidários. M. A. KOVACS. CONACHER. MERIDOR. ‗Hecuba and nomos‘. 30-44. Helping friends and arming enemies. ‗Violence and the other: Greek. SCHUBERT. BLUNDELL. 96-99. W. M. 250 . Em toda esta polémica radical uma arma se impõe como decisiva. R. J. 2005. opõem também Bárbaros contra Gregos. 1. 11-33. 28-35. M. Classical Quarterly 16. 2000. não faltam os amigos‘. Eranos 81 (1983) 13-20. R. Mnemosyne 48. 193-219. D. 1. SEGAL. F. A study in Sophocles and Greek ethics. 1987. G. Transactions of the American Philological Association 1990. C. American Journal of Philology 99. SILVA. Cambridge. 1995. 1989. W. 'The function of Polymestor' s crime in the 'Hecuba' of Euripides'. ‗Basic Greek values in Euripides‘ Hecuba and Hercules Furens‘. H. Baltimore and London. 1986. NUSSBAUM. 1980. 120. Lisboa. compete representar um nomos tradicional. 109-131. M. quando encarnados pelos Troianos. Ensaios sobre Eurípides. ‗Aristocratic obligation in Euripides‘ Hekabe‘. é óbvio que aos primeiros. Quaderni Urbinati di Cultura Clássica 64. 1. ‗L‘Hécube d‘Euripide et la définition de l‘étranger‘. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and philosophy. além de confrontarem comportamentos e princípios. D. P. Cambridge. G. American Journal of Philology 82. 1966. The heroic Muse.NEA/UERJ que se reconhece a amizade verdadeira. enquanto dura.

a expansão islâmica destruiu o império sassânida e colocou as populações cristãs do império Bizantino em permanente estado de guerra contra os seguidores desta nova religião monoteísta. ao longo dos séculos foram se cristalizando estereótipos relacionados ao mundo muçulmano.ª Maria do Carmo Parente Santos326 A oposição entre cristãos e muçulmanos é bastante antiga. que se denunciasse com veemência os hábitos escandalosos e chocantes do inimigo. como no mundo contemporâneo. Isto Professora Associada do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. formando a Umma. Desta maneira. sem dúvida. Na Antiguidade Tardia a religião não era uma questão de foro íntimo. 326 251 . a questão do harém muçulmano incendiava a imaginação dos cristãos. uma estratégia para evitar uma aproximação perigosa entre ―nós‖ e ―eles‖. Era necessário que se apontasse. muitas vezes. impedindo. o perigo da contaminação doutrinária. distorcendo a realidade sobre a família árabe. A demonização do ―outro‖ é. Na campanha difamatória.NEA/UERJ AS MULHERES NO MUNDO MUÇULMANO Prof. Maomé era retratado como um lúbrico ancião. A poligamia praticada pelos árabes foi apontada como prova de sua bestialidade e da dificuldade sentida por eles de refrearem os instintos. uma maior compreensão de suas estruturas sociais. evitando assim. Nesta estratégia.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Além disso. muitas vezes. Podemos afirmar que nasceu no momento em que Maomé iniciou a unificação das tribos arábicas. que buscava o deleite sexual ao casar-se com mulheres muito jovens. determinando quem pertencia ao grupo e quem era considerado o ―outro‖. Ela era a base da própria identidade coletiva.ª Dr. mesmo hoje o conhecimento sobre a família muçulmana e o lugar que a mulher ocupava na sociedade é bastante restrito. marcando a enorme diferença existente entre os que professavam a verdadeira fé. a questão sexual. sublinhando a alteridade destes em contraposição aos crentes de um falso deus. Mas. Após a sua morte. ganhou uma grande importância. Coordenadora do Curso de Especialização em História Antiga e Medieval – UERJ e membro do Núcleo de Estudos da Antigade.

devido pelo homem à mulher. estabeleceu que apenas uma pequena parte do douaire. A partir da época dos abássidas. ao contrário do que se pensa. o que de certa maneira. A vida nas estepes desérticas era extremamente difícil para os membros das tribos nômades e somente os fortes podiam sobreviver. A pesquisa em outras fontes. se um número expressivo de meninas nascesse.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois isto significava uma perda financeira. o infanticídio era praticado sem que isso despertasse nenhum protesto. uma vez que corresponde a aculturação sofrida pelos conquistadores árabes ao se estabelecerem em regiões distantes de seu local de origem. sendo considerados meras propriedades.NEA/UERJ ocorre. daremos o devido mérito ao Profeta. Assim. egípcia. helenística e. Para muitos. podia comerciar e dispor de seus bens. A parte principal só lhe seria entregue em caso de repúdio. O costume tribal. pela própria natureza das fontes. tentou melhorar a situação da mulher. O historiador vê-se limitado a recorrer a escritos oficiais. redigidos numa linguagem pública e oratória. Os homens podiam casar-se 252 . judaica. uma vez que as tramas dos relatos são calcadas em esquemas criados por outros povos. a iniciativa de Maomé parece ter sido muito tímida. Sabemos que o Profeta. embora. persa. Maomé para evitar isto. deixando as mulheres mais velhas numa situação de imensa fragilidade. levava a que o marido pensasse melhor antes de fazê-lo. a mulher vivesse enclausurada e não dispusesse livremente de seu corpo. como a análise do trabalho de poetas e contadores de história também não leva a um maior esclarecimento da questão. herança mesopotâmica. O Profeta quis proteger a mulher. não gozavam de nenhum direito. Embora. além de permitir a poligamia. quando da consumação do casamento seria entregue a esta. As mulheres como os escravos recebiam um tratamento muito cruel. fazia com que o repúdio de uma esposa fosse bastante fácil. isto nem sempre tenha ocorrido. até mesmo caucasiana. cujos autores eram soberanos e vizires. o que indiretamente levaria a um progresso da condição feminina. os juristas resistiam em aplicar esta legislação modernizadora. na prática. mas quando verificamos a situação das mulheres antes do estabelecimento do islamismo. Tal fato não deve causar admiração.

embora a descendência considerada fosse a matrilinear e a propriedade fosse herdada pelas mulheres isto não lhes garantia nenhum poder. Durante os episódios da Revelação em que ele ficava aterrorizado após ter tido visões. o elemento feminino não desfrutava de quaisquer direitos. para ele incompreensíveis e que o faziam por vezes acreditar estar sendo possuído por algum jinni. alguns episódios da vida de Maomé oferecem-nos uma outra visão. que ela contratou o seu futuro marido para que levasse suas mercadorias à Síria. Mas. embora. tinha filhos e vivia desfrutando de conforto. pois se para os olhos da cultura ocidental. Mas. já havia enviuvado duas vezes. para que o aconselhasse. é o que podemos depreender . Mas. que lhe propôs o casamento. Foi ela que o instou a procurar um cristão chamado Waraqa. e. O próprio matrimônio do Profeta com Khadija parece ter sido pleno de companheirismo e amizade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Pelo menos.NEA/UERJ com quantas mulheres quisesse e. graças aos lucros auferidos na atividade comercial. mas como uma empresária contratasse aqueles que fariam esta tarefa. como já acima já mencionamos. aparentemente uma viuvez transformava esta condição de subordinação. assim se chamava ela. não tendo nenhuma capacidade de decisão sobre nenhum assunto. podemos afirmar que a idéia de que todos os homens desprezassem as mulheres. 253 . Foi deste modo. que foi pouco a pouco se materializando na recitação das suras do Corão. Não devemos acreditar que ela mesma viajasse pelo deserto acompanhando as caravanas. a proposta religiosa monoteísta ia de encontro à religião tradicional das tribos beduínas. dividindo com estes a mensagem recebida. A questão da avaliação do grau de submissão das mulheres nas tribos beduínas é sempre uma questão delicada e complexa. tratando-as com crueldade também deve ser repensada. Khadija. á dos coraixitas. quando lemos a forma como Maomé foi abordado por sua primeira esposa. era para a esposa que corria em busca de amparo e consolo. principalmente. o tratamento dispensado às mulheres possa parecer chocante aos olhos contemporâneos. Quando o Profeta começou a ter suas visões apoiou-se em alguns parentes chegados. na qual Maomé havia nascido.

quanto no meio familiar as conversões ocorridas demonstraram que emanavam de decisões pessoais. o Profeta ficou decepcionado quando seus tios Abu Talib. muitas vezes é considerado algo desejável e benéfico. O que Maomé propunha significava o abandono de crenças ancestrais e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . cuja sobrevivência está profundamente vinculada à obtenção de recursos no espaço geográfico em que vive. O casamento parece ter se constituído num feliz consórcio. onde existia um importante templo da deusa al-Lat. isto. o mesmo não se aplica a uma sociedade de aspectos arcaicos.. Assim. se para nós. Assim. Como acima já falamos a iniciativa de contrair o primeiro matrimônio não partiu exatamente de Maomé. O que aponta para isto é o fato de que. como Taif. Para estas dar as costas aos antigos deuses representava um enorme perigo. discordando assim da postura de seus maridos. mas ninguém. tendo se convertido à nova fé e aqueles que persistiam na religião tradicional. até então havia lhe conferido o status de Deus único. pois os desprezados podiam enviar-lhes todo tipo de infortúnios. Aceitar esta nova postura religiosa significava quebrar a tradição e.NEA/UERJ Um fato interessante é que Alá como um deus já era conhecido pelos coraixitas. Mas. entre os que apoiavam o Profeta. Contudo. Embora Maomé fosse muito estimado tanto em Meca. 254 . as esposas dos dois últimos converteram-se ao islamismo. tendo o casal tido seis filhos. como era de se esperar nem todos estavam dispostos a fazê-lo e adotar a nova proposta religiosa. mas também em cidades . mas no caso de Khadija. pode causar estranheza a liberdade de certas mulheres em fazer a opção religiosa. mostrando desta maneira não ser ela submissa a nenhum poder masculino quando ficou viúva. podemos afirmar que o islamismo dividiu os clãs da tribo dos coraixitas. Dentre estes antigos deuses encontravam-se três entidades femininas – al-Lat. Uma reflexão sobre os episódios conhecidos da vida do Profeta no seu relacionamento com as mulheres pode levar-nos a um razoável grau de conhecimento acerca da posição do sexo feminino na Arábia medieval. Abbas e Hamzah negaram-se a fazer a apostasia e persistiram na prática de sua antiga religião. a divisão podia ser percebida mesmo entre pessoas da mesma família e neste ponto. al-Uzza e Manat--bastante reverenciadas pelo povo de Meca.

imagem esta que. Abu Bakr. 255 . reconhecer a divindade das banat al-Llah ele decidiu ser melhor aliar-se ao clã de sua esposa . de uma vez por todas. Após a morte de Khadija. a qual não contou com a presença da noiva. de forma nenhuma corresponde à realidade. Maomé casou-se com uma mulher de nome Sawdah. Abu Lahab fora desde o começo hostil à sua pregação. o que não causaria nenhuma estranheza no meio social. se procurarmos realizar esta análise levando em consideração os valores sociais das tribos árabes. Mas.NEA/UERJ enquanto Khadija foi viva. que se convertera fervorosamente ao Islã e se ligara ao Profeta. embora para alguns estes possam parecer estranhos. uma criança de seis anos de idade. ofereceu-lhe como esposa aquela que no futuro deveria exercer uma forte influência sobre ele. após este haver se recusado.nunca é demais sublinharmos — este entendimento só será conseguido. Ela era viúva e a união pareceu bastante adequada para todos. A aceitação de Maomé fez com que se realizasse a cerimônia do noivado. a sua filha Aisha. A análise de alguns destes matrimônios é bastante pertinente. Mas. o tio de Maomé. ou até mesmo pervertidos. constituindo-se a monogamia numa exceção. dirimindo conflitos. prima e cunhada de Suhayl. para um maior entendimento da vida das mulheres árabes. Contudo. forçando os rapazes a repudiarem as duas moças. desejando estreitar ainda mais seus laços de amizade. Os vários casamentos de Maomé posteriormente realizados fez com que muitos ocidentais. prometeu em casamento dois de seus filhos às filhas do Profeta. muitas vezes utilizado para promover alianças. chefe dos Amir. Assim. O matrimônio numa sociedade tribal era um recurso. ao longo do tempo o criticassem e. No período em que os convertidos ao Islã enfrentavam resistências e até mesmo hostilidade na cidade de Meca com a divisão das próprias famílias os arranjos nupciais tornaram-se ainda mais importantes e necessários. mas tentando aproximar-se dele. -. de forma leviana ou totalmente desinformada tenham construído uma imagem distorcida do Profeta. uma vez que a poligamia era uma prática comum. Os diversos casamentos do Profeta atenderam a questões vinculadas à própria afirmação de Maomé como líder espiritual e político do que a considerações sentimentais.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Maomé não tomou mais nenhuma outra esposa.

um episódio da vida de Maomé parece apontar para um certo sentimento de respeito à figura feminina. já se dispunham à ação. deveriam contentar-se com uma indenização. num momento em que sua pregação já criara uma grande agitação em Meca. Para isso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . conseguiu fugir sem ser notado. embora o ato do homicídio não fosse condenável em si. constituindo-se os inúmeros casamentos de Maomé uma sábia estratégia para estabelecer laços de parentesco. Todos juntos participariam do assassinato. Desta maneira. até mesmo as escaramuças entre os seguidores de Maomé e 256 . como foi o caso da jovem de dezoito anos. tornava-se fortemente reprovável. protegia melhor seus membros. Ela era filha de um leal servidor de Maomé. os Hashim não tendo condições de lutar contra todos os coraixitas. segundo relatos era culta como seu pai. o que lhe garantiria uma maior proteção.NEA/UERJ Como já afirmamos. poucas pessoas na região deveriam ser partidárias da monogamia.O fato ocorreu pouco antes da ida de Maomé para Yatrib. Algumas esposas que ao longo dos anos vieram a integrar o harém do Profeta casaram-se com ele ao ficarem viúvas. uma vez que sua obstinação em pregar a nova fé e sua recusa peremptória de fazer qualquer concessão à antiga religião dos árabes. cada clã escolheria um homem forte e de prestígio. quando ouviram vindo de uma janela a voz de Sawdah e das filhas dele. os jovens reuniram-se em frente a casa de Maomé e. Além disso. As batalhas e. quando a vítima era um parente do criminoso ou até mesmo seu aliado. Por isso.Umar. sendo não pouco numeroso o grupo de seus inimigos. No dia combinado. ele tendo anteriormente tomado conhecimento da conspiração. Sua vida em Meca corria um grande perigo. sabendo ler e escrever. Hafsah. a família que conseguia por meio de acordos matrimoniais estabelecer uma extensa rede de alianças. cujo marido morrera pouco depois da batalha de Badr. numa sociedade tribal o casamento era utilizado para amainar a violência.e. Assim. O plano dos envolvidos era praticar esta ação de uma forma que não acarretasse uma vendeta. uma vez que. Avaliaram ser um ato vergonhoso matar um homem na frente de suas mulheres e decidiram esperar até que o Profeta saísse de casa para atacá-lo. Mas. levara a formação de uma conspiração para matá-lo.

uma vez que. além do que nas cidades as mulheres eram mais preocupadas com suas roupas e de seus filhos. Maomé incentivou os homens a seguir o seu exemplo. isto porque a cada esposa deveria ser dada uma moradia. Ao longo do tempo. Nas zonas urbanas. somente os homens da elite mantiveram-se polígamos. Só para se ter uma idéia no confronto em Uhdu morreram 65 homens. o que significou para o noivo uma nova aliança política. O próprio Profeta casou-se pela quarta vez. se levadas em consideração desestimulavam a prática da poligamia. Os camponeses não dispunham de recursos para comprar escravos. isto sim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma vez que seria uma tarefa impossível cumpri-las. além de tratá-las equanimemente do ponto de vista financeira e legal.NEA/UERJ os habitantes de Meca criaram um sério problema. a proteção daquelas. múltiplos matrimônios podiam tornarem-se mais uma fonte de despesas insuportáveis do que qualquer outra coisa. o que significava um enorme gasto. casando-se com mulheres que haviam perdido seus maridos no campo de batalha. desde que pudesse sustentá-las do mesmo modo. de proporcionar prazer sexual a estes. a revelação recebida por Maomé em que Alah permitia a cada muçulmano ter quatro esposas resolveu um grave problema social. ou seja. de nenhum modo. contudo restringindo-a. Mas. a cada homem só era permitido ter quatro esposas. 257 . ao qual só os poderosos poderiam arcar. Não se tratava. Deste modo. Tais determinações. O islamismo acolheu a prática tradicional da poligamia. sendo também filha de um chefe beduíno da tribo dos Amir. A escolhida era viúva de um homem que perecera na batalha de Badr . mas visava. querendo isto dizer que o homem deveria passar exatamente a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas. e assim mesmo. surpreendentemente a prática tornou-se mais difundida nas zonas rurais do que nas cidades. os muçulmanos mortos deixavam mulheres e filhos que precisavam de amparo e sustento. A explicação é de ordem econômica. o quadro era bem outro. tornando-se assim os casamentos múltiplos um ótimo expediente para conseguir uma mão-de-obra feminina sempre disposta ao trabalho.

tal não podia ser aplicado às viúvas ou àquelas que haviam sido repudiadas. podemos afirmar que havia uma clara vantagem dos homens.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma vez que. relatavam que os muçulmanos haviam conseguido do Profeta a alteração desta recomendação.NEA/UERJ A concepção do Islã como uma grande família deu uma ainda maior importância ao casamento. somente uma ausência de recusa. como pode ser comprovado pela leitura de diversos códigos legais. Mas. Estas deveriam expressar claramente sua vontade. Os casos em que a esposa poderia pedi-lo eram bastante restritos. por outro lado. ou mesmo. uma vez que ter filhos era um dever dos muçulmanos. loucura. Argumentando que o pudor de uma virgem impediria que ela manifestasse seu desejo. contudo. uma vez que uma filha receberia metade da parte que cabia ao descendente masculino. bastando apenas pronunciar determinada fórmula verbal na presença de testemunhas. após a sua morte fontes provavelmente apócrifas. Contudo. sendo o restante herdado pelos parentes 258 . que variou ao longo do tempo. A criação dos filhos ficaria a seu cargo até estes completarem uma determinada idade. quando analisamos a questão do divórcio. até que ponto o consentimento da mulher era necessário para que o matrimônio se realizasse? Ao que parece. impotência e negação por parte do consorte dos direitos da esposa. este sistema legal estipulava que toda mulher deveria ter um guardião homem – o pai. podendo voltar com seus bens para a casa da família paterna. só caberia às suas filhas uma certa proporção dos bens. irmão ou na falta destes um membro da família. Mas a subordinação da mulher ao homem foi sacramentada na charia. Na questão da repartição da herança. A mulher repudiada contaria com a proteção e solidariedade de seus parentes masculinos. fica patente a desigualdade dos direitos entre homens e mulheres no Islã. Além disso. Caso um homem viesse a falecer sem deixar herdeiro masculino. haviam obtido a determinação de que bastaria um simples sinal de consentimento. Maomé teria recomendado que era necessário a concordância da noiva. este poderia solicitá-lo sem nenhum motivo. A questão do consentimento feminino para a realização do matrimônio podia ser contornada contratando-se o casamento da mulher quando ela ainda fosse criança.

mas sim a de que os traços referidos ligavam-se a idéia de honra familiar. ainda assim a responsabilidade de defendê-la de uma futura injúria permanecia sendo de responsabilidade de seus irmãos e de seus tios maternos. Tais determinações visavam evitar a fragmentação do patrimônio do grupo.NEA/UERJ masculinos. As regras elaboradas permitiam o casamento de um muçulmano com uma cristã ou judia. Para conjurar este mal. contrariamente. sem exigir a conversão. a não ser que este se convertesse. Assim. mas impedia a realização amorosa de qualquer matrimônio contrário aos interesses do grupo. mesmo que a noiva chegasse ao casamento com sua integridade himenal preservada. embora o nascimento de uma criança do sexo masculino originado da relação. embora não devamos interpretá-los como uma exigência ligada à virtude pessoal ou a necessidade da manutenção de um compromisso assumido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . A expansão muçulmana colocou os seguidores do Islã em contato com judeus e cristãos. todos os homens da família consideravam-se responsáveis pela entrega de uma noiva virgem no dia do matrimônio. Mas. emancipasse a mãe. sendo os filhos da união considerados muçulmanos. Mas. até mesmo de primeiro grau. Alguns traços referentes à moral imposta às mulheres era comum aos seguidores das três religiões monoteístas. Isto levantou uma questão da qual se ocuparam os juristas. o que inevitavelmente levaria ao contato sexual entre homens e mulheres de diferentes religiões. apelava-se também para a endogamia. O Islã admite o casamento entre primos. ao homem livre era vedado casar-se com uma escrava. Podia apenas tê-la como concubina. por outro lado era proibido o casamento de uma mulher muçulmana com um seguidor de outra religião. elaborando normas que enquadrassem estas relações dentro da moral islâmica. 259 . O casamento entre uma mulher livre e um escravo era permitido e tornava-o emancipado. pois se tal não ocorresse era a estes que o marido e sua família apresentavam a queixa exigindo reparação. A virgindade da jovem antes do casamento e a fidelidade da mulher casada são exemplos destes. Esta prática evitando a rotação de mulheres evitava a dispersão do patrimônio.

a permissão do concubinato e a própria existência do harém. o que explica a clausura em que vivia. A existência da poligamia. quando descoberto. a primeira. o que não é de admirar.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Mas. que amenizavam sua condição servil. o casamento legal reservava a pessoa unicamente para o seu cônjuge.NEA/UERJ Não devemos acreditar que esta norma levasse a constantes e sangrentas querelas. de quem o marido exigia seriedade. pois as relações carnais com o seu senhor destinavam-se apenas a satisfazê-lo sexualmente. O concubinato dava-se entre os senhores e suas escravas. limitado a quatro. Os jurisconsultos da lei religiosa – alfaquis – foram unânimes em afirmar que todo homem ou mulher de condição livre e pertencente a comunidade islâmica . As relações sexuais fora do casamento ou da concubinagem eram consideradas espúrias e. repreensíveis. leva a que no mundo ocidental se torne bastante difícil avaliar a real importância do casamento para a sociedade islâmica. que deveria ser realizado numa festa. O casamento era compreendido como o estabilizador da ordem social. na maioria das vezes recebeu uma instrução refinada. e não somente o reconhecimento da legitimidade das relações sexuais entre homem e mulher. isto porque o fato de a endogamia patrilinear ter sido freqüente fazia com que os conflitos fossem resolvidos de maneira mais tranqüila do que se envolvessem grupos familiares estranhos. Além disso. quando praticado entre duas pessoas casadas. o número de concubinas era ilimitado. levava a aplicação da pena máxima: os dois seriam apedrejados até a morte. uma vez tendo se casado legalmente estavam adstritos a uma estrita fidelidade conjugal. aumentando o seu preço no mercado. uma vez que sua habilidade na poesia e na música fazia com que fosse mais hábil em distrair os homens. Mas. A concubina gozava de uma liberdade desconhecida da esposa legítima. adquirindo certos direitos. O adultério. Diferentemente do casamento. tornando-se um-al-walad. sendo quase desconhecido no mundo rural. Sendo assim. À princípio a concubina não deveria procriar. na qual não poderiam faltar as danças e os cantos. Esta importância pode ser percebida na exigência de publicidade do ato matrimonial. por isso mesmo. 260 . quando ela engravidava e dava a luz mudava de status. ela é enorme.

contudo. Nas cidades pequenas eram conhecidas pelo nome e até mesmo convidadas para festas familiares. O Islã ao organizar as relações sexuais dentro de uma estrutura centrada na família polígama. principalmente as celebrações de casamento. Profundamente arraigada na cultura da Arábia pré-islâmica. assim como em qualquer outra cultura há uma grande distância entre a doutrina e a prática. A escrava pode prestar favores sexuais ao seu senhor. em todas as regiões do império muçulmano a presença de mulheres que vendiam seu corpo nas chamadas ―casas de tolerância‖ era tão grande que o viajante podia encontrar bairros inteiros reservados à prática. para a visão ocidental. Na cidade de Caiurão. podemos afirmar que o sexo pago era uma prática desconhecida no mundo árabe-muçulmano? A resposta é negativa. que. 261 . não parece ter sido alvo de discriminação e ódio. apesar dos esforços de Maomé. nunca pela prostituição. este desejo só pode legalmente ser satisfeito por meio do casamento e do concubinato. os ensinamentos de Maomé sejam bastante claros quanto ao tema. a pergunta se impõe.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estabelecendo uma taxa que deveria ser paga pelas meretrizes. na sociedade muçulmana a prostituta era uma ―fora da lei‖. mais da metade dos imóveis onde as mulheres se prostituíam eram prédios religiosos. não há nada de mais falso. Mas. jamais foi erradicada. Mas. Nada impedia que se casassem abandonando seu ofício.NEA/UERJ Embora. a concubina possa ser aproximada à figura da prostituta. Mas. uma vez que antes da pregação do Profeta a prostituição era bastante difundida e considerada uma prática legítima. Apesar das determinações religiosas os Estados islâmicos acabaram por admitir a existência da prática e numa atitude extremamente pragmática viu que poderia obter lucro. onde o casamento podia ser desfeito de forma rápida ensejando a realização de um novo casamento de forma rápida permitiu que a satisfação do desejo sexual fosse conseguida de maneira quase permanente e lícita. No mundo muçulmano. Assim. esta determinação ia de encontro aos costumes árabes pré-islâmicos. Mas. Embora. mas não poderia ser forçada por ele a prostituir-se. a prostituição.

ser mãe de meninos . é a maternidade que funda a relação entre marido e mulher. Não podemos esquecer que um jovem para casar-se necessitava dispor de recursos para pagar o dote. ela. ―mãe de fulano. a vida religiosa não lhe era vedada. sem nenhuma dificuldade perceber a institucionalização do poder masculino. além do seu marido. No caso. mais do que de meninas. aqueles pertencentes a uma dessas categorias: ascendentes. o que fazia com que durante sua vida. longe dos olhares de estranhos e severamente vigiada pelo marido. o que consequentemente levava a uma amabilidade conjugal. Os laços afetivos entre eles adquiriam uma importância muito maior que o amor devotado à esposa. Tal situação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois tal como os homens. Apesar. Mas. apesar disto não lhe era negado o prazer de freqüentar o hammãm. pois esta era a lógica da sociedade muçulmana. de Maomé ter durante sua vida afirmado haver uma complementaridade entre os sexos. onde ela poderia passar um dia inteiro cuidando de seu corpo e relaxando. Além disso. que jamais seria conseguida por uma esposa estéril. A maternidade conferia uma importância e segurança. equivalente as termas romanas. A mulher vivia encerrada em sua casa. as mulheres tinham a obrigação de fazer a peregrinação e freqüentar as duas mesquitas santas. onde se pode. criando no homem um claro sentimento de gratidão à esposa que lhe deu filhos. quando em suas narrativas evocam as relações entre um homem adulto e sua mãe. Na verdade. 262 . fez com que a maternidade se constituísse no foco de sua vida e fosse procurada a qualquer custo. localizadas em Meca e Madina. impedindo que a mulher muçulmana pudesse realizar suas potencialidades e cerceando-lhe qualquer outra escolha.NEA/UERJ A quem ela atendia? Principalmente jovens recém-chegados à puberdade. o que nem sempre ocorria. praticamente só visse homens.‖ A ligação estreita entre mãe e filho pode ser observada em diversos textos medievais. descendentes e irmãos. não é isto que se consolidou na sociedade muçulmana. destinando as mulheres um duplo papel: objeto de fruição e de reprodutora. A mãe de um filho passava a ser designada como Umm Fulân.

sem medo de errar. o qual se encontra exposto na obra:BINGEMER. até que ponto o estabelecimento do Islamismo modificou esta situação? Podemos afirmar. Mas. como as que habitavam a zona rural. Então. enfatizamos mais uma vez a limitação impostas pela documentação. infligilhes oitenta açoites e nunca mais aceiteis seus testemunhos e estes são os difamadores‖ 327. para as mulheres ―trabalhadoras‖. Islamismo e Judaísmo – Três religiões em confronto e diálogo. por exemplo. pois. Que direitos lhe eram reconhecidos? Qual o grau de autonomia que desfrutavam para gerir o seu próprio destino? Que acesso tinham aos bens produzidos? Na sociedade árabe pré-islâmica podemos afirmar que a resposta a estas questões deixa antever uma situação de extremo preconceito. 2001. São Paulo: Loyola. acreditamos que a explicação 327Citação extraída da Sura. Primeiramente.198. Ao finalizarmos este modesto trabalho. o que nos leva a ter uma visão bastante precária do cotidiano das mulheres no mundo muçulmano. ela é praticamente inexistente.). PUC-Rio. se para aquelas pertencentes aos estratos mais ricos da sociedade a documentação é mais abundante. Violência e Religião: Cristianismo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a formulação de uma outra pergunta se impõe. Um outro aspecto da questão é a reflexão sobre a inserção da mulher numa sociedade tribal e de que maneira ela era tratada. gostaríamos de tecer algumas rápidas considerações sobre o tema. Rio de Janeiro: Ed. ficando atrás dos homens. seria ingênuo de nossa parte não concordar com aqueles que apontam a forma discriminatória com que são tratadas as mulheres nas sociedades islâmicas.NEA/UERJ Tinham direito de participar na oração pública de sexta-feira. proteção esta que pode ser lida em diversas passagens do Alcorão: ―E àqueles que acusarem (de adultério) as mulheres castas e depois não apresentarem quatro testemunhas. 263 . p.4. discriminação e até mesmo de violência contra a mulher. 24. Maria Clara Luccheti (org. embora padeça de defeitos inerentes ao próprio meio em que foi produzida. Contudo. que a doutrina islâmica significou uma proteção para as mulheres.

a narrativa do texto corânico não reproduza este episódio. não há nenhuma responsabilização da mulher pela expulsão do homem do paraíso.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a influência desta idéia foi muito forte penetrando a cultura muçulmana. gostaríamos de salientar que a extensão do mundo muçulmano – que. contudo. As passagens do texto corânico que parecem desfavoráveis as mulheres explicam-se. Embora. enfocando períodos temporais diversos poderão proporcionar elementos para a montagem de um quadro em que questões referentes às diversas fases da vida feminina vividas numa sociedade islâmica possam ser apreciadas. apesar de seu conteúdo representar uma mensagem bastante inovadora em muitos aspectos. devemos compreender que o Alcorão foi produzido num determinado contexto social e. uma vez que os teólogos de ambas acreditam ter sido a mulher a responsável pela Queda do homem.NEA/UERJ deste fato deve ser mais procurada no contexto cultural do Oriente Próximo do que nas palavras do Alcorão. tradição esta oriunda do judaísmo. Deste modo. que foi acolhida pelo cristianismo e da qual o islamismo não ficou isento. Nas duas primeiras religiões citadas. romper totalmente tradições há muito estabelecidas. 264 . não poderia. direcionadas para regiões específicas. na idade média abarcou terras que iam da Ásia Central à Espanha – faz com que a compreensão do papel da mulher na sociedade islâmica seja difícil de ser obtido. Não podemos esquecer que a pregação de Maomé inscreve-se numa tradição abrahaânica. isto é. isto é. livres de anacronismos e preconceito. quando atentamos para o contexto histórico onde se originou o Islamismo. Finalmente. a misoginia é patente. Somente a realização de múltiplas pesquisas pontuais.

MULHERES NA ANTIGUIDADE .Porto Alegre : RS: L &PM. Rio de Janeiro : José Olympio. São Paulo: Globo. Maomé uma biografia do Profeta. São Paulo : Loyola .Tradução William Lagos. BURGUIERE .Islã.NEA/UERJ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BALTA. Tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. Maria Clara Lucchetti(org). 2006 KAREN. In: História da Família. Uma história dos povos árabes. Albert.2010 BINGEMER. A família no Islã. 2006 HOURANI. 1996 BOUHDIBA. 2001 265 . Thierry. 2002 SONN. Tâmara. Paul. Uma breve história do Islã. Abdelwahab. Lisboa: Terramar. André. Rio de Janeiro : PUC-Rio. 2001 BLANQUIS. S. A sexualidade no Islã. Tradução Marcos Santarrita. Violência e Religião.Paulo: Cia das Letras. Tradução Andréia Guerrini. Armstrong. Paulo: Cia das Letras. S.

Professora dos Programas de Pós-Graduação PPGH/UERJ e PPGHC/UFRJ. Na década de 90. Atua na Coordenação do Núcleo de Estudos da Antiguidade/NEA. Bennett em Gender and History afirmava que o problema da falta de rumo na historia da mulher Maria Regina Candido é Professora Associada de História Antiga. a ponto de se tornar irreconhecível diante da diversidade das idéias (HILL. A inquietação ocorreu devido à observação da produção historiográfica sobre o tema ter adquirido acentuada amplitude. Diretora do conselho editorial dos periódicos NEARCO e Philia – NEA/UERJ. serem homens que ignoravam sistematicamente as ações das mulheres (SOIHET.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na qual a autora analisa a questão da marginalização da mulher junto as pesquisas históricas. teceu reivindicações e questionamentos sobre o padrão social que privava as mulheres de seus direitos (FREITAS.a pesquisadora Mary Beard atribuiu as escassas referências à mulher na historiografia ao fato da grande maioria dos pesquisadores. Segundo Rachel Soihet. ou seja. que transformaram radicalmente as condições sociais da vida das mulheres em diferentes partes do mundo. O debate em torno da opressão sobre a mulher. na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. a atitude implicava na negação da presença das mulheres como sujeito ativo na história. tanto do século XIX quanto do século XX. destinadas a eterna subordinação a figura masculina. foi tema inaugurado nos anos 40 pela historiadora norte americana Mary Beard na obra Woman as Force in History .1995:09). o tema retorna ao debate junto às norteamericanas que se questionavam sobre qual direção a ser tomada para a realização efetiva da história das mulheres. ao longo da história. 328 266 .1998: 99). Integra a coordenação do Curso de Especialização de História Antiga e Medieval / CEHAM. mas intensas.NEA/UERJ REFLETINDO SOBRE AS POSSIBILIDADES DA ARQUEOLOGIA DE GÊNERO Profª Drª Maria Regina Candido328 Consideramos a passagem do século XX ao XXI como o século das mulheres pelo fato de identificarmos diferentes ações femininas silenciosas. Judith M. 2006: 54). O movimento social feminista.

usado para teorizar a questão da diferença biológica entre homem e mulher. 1995: 10). Por outro lado. O termo feminismo deve ser usado com acentuada atenção quando aplicado ao passado. Foi inicialmente utilizado pelas feministas que insistiam no caráter social das distinções baseadas no sexo (SOIHET. que definia o termo gênero como associado aos estudos de temas relativos às mulheres. O conceito de gênero tem sido empregado de diversas formas junto à bibliografia feminista. O segundo tipo de concepção se preocupa com a interpretação de ordem causal.MULHERES NA ANTIGUIDADE . desde a década de 70. o gênero é a primeira forma de representar as relações de poder. sendo o termo opressão substituído pela expressão ―subordinação da mulher‖ ao poder masculino. A vertente de construção da história das mulheres a partir da perspectiva feminista resultou na abordagem inspirada pela atitude de opressão sobre a mulher. 1995: 11).NEA/UERJ se devia ao progressivo afastamento da perspectiva feminista considerada como um movimento desgastado (HILL. se deve aos movimentos feministas liderados por mulheres que estavam fora da academia. entretanto buscar a motivação dos fenômenos. 1988: 141). O termo têm sido. assumindo um caráter descritivo. buscando as origens da dominação masculina." (SCOTT. ramificadas em três principais abordagens: a teoria do patriarcado. desde os anos 60. A história da mulher têm-se modificado ao longo do tempo assim como o conceito de feminismo (HILL. pois o seu significado mantém-se polissêmico e não adquiriu o status de conceito imutável. porém. sem. Joan Scott define a precisão conceitual do termo ao citar que ‖o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. não temos como mencionar a história da mulher sem antes tecer considerações sobre gênero. Não podemos esquecer que a acentuada expansão na história das mulheres. 1997: 279). tanto no passado quanto no presente. o enfoque marxista que enfatiza a prioridade da determinação econômica na construção dos papéis sociais que determinam o gênero e as posições de base psicanalítica. Na obra A Gender and Politics of History a cientista política Joan Scott reafirma que gênero significa o saber com o significado de compreensão produzida pelas sociedades sobre as relações humanas 267 .

A abordagem de Sarah Milledge Nelson mantém estreito dialogo com arqueólogos anglo-saxônicos tem por proposta delinear teorias para arqueologia de gênero. Tem como proposta que o estudo de gênero não permaneça focado somente na história da mulher.women and Prehistory (Oxford. a saber: uma norte-americana e a outra anglo-americana. 2003: 27). Conkey e Joan M. No continente americano caracterizou-se por duas vertentes. nenhuma compreensão de qualquer um dos dois pode existir através de um estudo que os considere separados (SOIHET. Gênero se afirma como aspecto relacional entre as mulheres e os homens. como tal. no gênero feminino. não antecede a organização social. Gero com Engendering Archaeology. Tal fato resultou na definição de gênero como a organização social definido pela diferença sexual. Para a Scott o significado e o uso do conceito de gênero inserem-se como resultado de uma disputa política e os meios pelas quais as relações de poder de dominação e subordinação são construídas (SCOTT. torna-se inseparável. Para Rachel Soihet o termo indica a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso do termo como sexo. 1998: 10). As propostas apresentam similaridades com a abordagem espanhola do Centro de Estudos sobre a Mulher de Alicante. mas. A pesquisadora reafirma que a abordagem sobre gênero deve 268 . O conhecimento é um modo de ordenar o mundo e.NEA/UERJ definidas entre homens e mulheres. ou seja.1991) buscou estabelecer criticas ao ponto de vista androcêntrico na reconstrução do passado das sociedades humanas. As duas vertentes. por vezes se contradizem. A proposta norte-americana representada por Margaret W. ou seja. As pesquisadoras objetivaram dar visibilidade a presença feminina nos registros arqueológicos ao reconceituar os papéis de gênero na divisão social de trabalho. Através do diálogo interdisciplinar a arqueologia de gênero teve como resultado a proposta de recuperar o papel sócio-cultural da mulher no passado através dos vestígios e indícios deixados pela cultura material (MARTI. A pesquisa sobre gênero tem procedido em diferentes contextos internacionais trazendo como inovadora a proposta da arqueologia de gênero. parecem paralelas e/ou se tornam complementares. por outras.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1988: 146).

O primeiro passo dessa vertente de estudo começa com o reconhecimento do trabalho feminino em atividades consideradas exclusivamente de domínio masculino.NEA/UERJ trazer para debate a interação social. cabe aos pesquisadores ―procurar pelas mulheres‖ revisando os dados arqueológicos e se perguntando em que lugar social a mulher poderia ser vista. O termo arqueologia de gênero não tem similaridade na língua francesa. Segundo Conkey. agricultura e cuidados com a família. sugerindo que a genealogia da antropologia de gênero é marcadamente 269 . Eles apreendem os estudos de gênero visando dar ênfase aos vestígios arqueológicos que forneçam visibilidade as atividades da mulher na préhistória. Cabe enfatizar que a inspiração feminista tem resultado em publicações sobre a Arqueologia de Gênero com possibilidade de se tornar disciplina acadêmica (CONKEY. a arqueologia francesa mantém a perplexidade diante da emergência da arqueologia de gênero e considera ser um. modelo histórico e cultural.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a defesa e manutenção do grupo familiar na qual a voz da mulher é silenciada. Algumas pesquisas usam o material arqueológico para ratificar o comportamento padrão do feminino ligado a procriação. A atividade é determinada pela identificação das funções sociais nas sociedades pré-históricas. especifico da vertente anglo-americana. as formas de negociação que nos apontem para a variedade de caminhos que nos permitam construir a abordagem da arqueologia de gênero. A procura pelas mulheres na pré-história também se estende ao interesse na representação iconográfica e nas imagens de figuras femininas produzidas na Antiguidade (CONKEY.Conkey são motivados pela rejeição do comportamento humano e com o comportamento do homem. Pesquisadores e arqueólogos da pré-história que seguem a abordagem de M. A retomada da re-analise dos dados arqueológicos se deve ao fato que a documentação textual deter uma visão de gênero generalizante na qual os papeis sociais se definem como masculino e feminino. a mulher na antiguidade e no mundo contemporâneo. em qual atividades produtivas e qual o seu papel social na organização de tarefas que envolvia a sociedade ao qual fazia parte. a mulher na história. Segundo Conkey. 1997: 415). 1997: 412) abordando a mulher na préhistória. Enquanto que o masculino está relacionado a caça.

como os de Marie Huot (1892). Roberts nos chama atenção para duas tendências que demarcam a abordagem sobre gênero junto a historiografia de língua anglo-americana ao denomina de ―the archaeology of gender‖ e a outra de ―gendered archaeology‖ (ROBERTS. Nelly Roussel (1907) e Madeleine Pelletier (1911). As pesquisadoras perceberam que. 2006: 54). em artigo no jornal Voix des Femmes de maio de 1920 e ainda guardam a sua atualidade (FREITAS. sendo necessária a definição de cada tendência para efetiva 270 . as mulheres eram submetidas a um poder que lhes oprimia em função de suas características biológicas definidas como sexo frágil. O percurso percorrido foi desde os discursos das primeiras anarquistas francesas. dado que apenas era contabilizado a profissão do homem como chefe de família (PERROT. Para nos latinos estes dois tópicos estão intrinsecamente ligados pelo fato de não termos uma tradução precisa e especifica para os títulos utilizados. O contorno ao fato foi à organização de George Duby e Michele Perrot da coleção sobre a história das mulheres da antiguidade ao século XX. ligado a vertente do novo imperialismo arqueológico (CONKEY. O questionamento se deve a longa duração de silêncio e a imagem voltada para a reprodução materna e atividades domésticas que não detenha espaço na quantificação e na construção da narrativa. enquanto procriadoras de filhos do sexo masculino. após criticas feministas por terem deixado passar a oportunidade de incorporá-la de maneira efetiva. Nessa coleção os autores questionam sobre a possibilidade das mulheres constituírem uma historia.NEA/UERJ anglo-saxão. o trabalho das mulheres agrícolas ou camponesas havia sido constantemente subestimado. Roberts analisa as implicações da categoria de gênero junto as pesquisas arqueológicas na obra A critical approach to gender as a category of analysis in archaeology (1993).MULHERES NA ANTIGUIDADE . A pesquisadora C. 1997: 414). 1997: 423). 1991: 07). Os argumentos sustentados pelas escritoras foram retomados pela conferencista Nelly Roussel. Podemos afirmar que a história das mulheres na historiografia francesa emerge com os Annales. O projeto de busca na construção do lugar de fala da mulher nos leva a perspectiva da cultura na qual as atividades femininas devem ser localizadas na seqüência da produção e organização da comunidade ao qual fazem parte. No século XIX.

NEA/UERJ diferenciação. Para a autora a arqueologia de gênero pode servir como promoção da igualdade social. 2003: 19) . Nelson a tipologia gênero interage com outras categorias como status social e etnicidade. Para Sarah W. Gênero pode ter diferentes perfomance/atividades. Seguindo a proposta de abordagem interacionista. em particular tempo e lugar. pois existem diferentes papeis sociais. Brumfiel reafirma que a arqueologia de gênero teve um aumento na variabilidade dos dados relevantes como vestígios ósseos. porém já encontrando as mulheres fato que se constituiu em primeiro passo. 2003: 01). identidade e etnicidade. ou seja. sociais e econômicas. A autora defende que o significado e resultado da perspectiva de gênero variam porque dependem da interseção com outras identidades sociais como raça. A proposta da autora visa recuperar as teorias feministas na qual o poder e a propriedade também passam pelas mulheres. o que falta é dar-lhe um lugar de fala através de uma abordagem mais específica sobre os diferentes gêneros. classe. a pesquisadora Elizabeth M. sepulturas e representação imagética. dependendo do 271 . Cabe interrogar sobre as negociações pela qual o gênero.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 2007: vii). a ação de um grupo de pessoas afeta direta ou indiretamente as demais pessoas na sociedade ao qual integra e interage. Toda sociedade é constituída de uma rede social humana formada por pessoas que interagem de forma interdependente. A autora considera que essa perspectiva não significa trazer a visibilidade a mulher na arqueologia como afirma Conkey e Ruth Falcó Marti (MARTI. estabeleceu ao lado dos estereótipos construídos a partir de nossa própria cultura (NELSON. implicações políticas. dados que permitem a inclusão da mulher interagindo com os homens e outras categorias de gêneros nas estruturas de analises (BRUMFIEL. A partir desse principio a arqueologia de gênero tem buscado caminhos alternativos para analisar o conceito de gênero em diálogo com outras categorias sociais e demais saberes. através de suas escolhas e abordagens. tendo em vista que os pesquisadores de ciências sociais trazem. existem muitos caminhos para abordagem do tema. A autora ratifica que o conceito de gênero necessita ser teorizado para não permanecer como mais uma variável analítica. mas não de forma isolada. A ação da mulher tem sido visível na arqueologia.

do status social e outras variáveis sociais emergindo através da abordagem multidimensional da mulher (BRUMFIEL.NEA/UERJ contexto e da divisão social de papeis de atuação da mulher em determinada sociedade cuja atuação se modifica ao longo do tempo. Segundo Elizabeth M. a generalização definida pelo viés teórico do social dificultou a abordagem da diferenciação fato que levou a historiografia a qualificar através da homogeneidade. de negociação. O modelo constante e identificado nos permite analisar se a perfomance tem sido alvos de críticas. citamos as mulheres representadas. Entretanto. de formas diferentes. ratificando a tradicional visão binária de oposição homem e mulher. A representação imagética de gênero compõe outro suporte de análise que nos permite um amplo campo de atuação assim como as esculturas. afrescos e cerâmica. os artefatos relacionados aos rituais fúnebres tornam-se o suporte de informação. A arqueologia de gênero aponta para os elementos no qual o gênero foi alvo de contestação e como o desacordo foi ou não negociado e/ou silenciado pela historiografia. particularmente. nos vasos gregos cuja função social do recipiente determina o tipo de vaso associado à pintura iconográfica. As deferentes apresentações do gênero e status social de mulheres gregas integram o elemento da ideologia que compõem o imaginário social grego. Reconhecendo através da comparação as variações na representação imagética de gênero que deixam transparecer as tentativas de se estabelecer uma convenção em um dado momento.MULHERES NA ANTIGUIDADE . As variações apreendidas em determinada sociedade também permitem explorar os meios pelos quais o gênero é materializado e representado pela iconografia. Em arqueologia. A representação humana pode ou não nos apontar a identificação do gênero através das estruturas anatômicas. de recuos diante do grupo social que encomendou os vasos e integra a sociedade no período abordado. 2007: 10). status social definidos pelos estilos dos vestuários e atividade exercida. epigrafia e imagens parietais através da comparação. Brumfiel o material tem sido usado para examinar o ciclo de vida em diferentes culturas por demonstrar o caminho ao qual o gênero varia em relação à interseção da idade. Quando a representação imagética em dialogo com a documentação textual se esforça no estabelecimento de 272 . Como por exemplo. primordial para os estudos da arqueologia de gênero.

recuos e negociação existente no sistema de gênero na sociedade analisada. qualificados para a pesquisa do feminino e da arqueologia de gênero por nos permitir estabelecer a unidade formal mínima de análise de um determinado papel social feminino. O pesquisador passa a atuar como arqueólogo e etnógrafo na reconstituição da temática ao fornecer visibilidade a perfomance/atividade da mulher em sociedades antigas silenciadas pela historiografia.MULHERES NA ANTIGUIDADE .Brumfiel a decoração do artefato pode refletir os embates e negociação da condição da mulher junto a função social tradicional cuja questão tronou-se central ao poder masculino (BRUMFIEL. As técnicas e estilos dos artefatos arqueológicos nos permitem examinar o papel do gênero a partir da dimensão das inovações tecnológicas ou formas de resistências as tais mudanças relacionada à atividade feminina. fato que nos leva a apontar a omissão da historiografia. Para E.M. o meio social de circulação da mensagem e o possível consumidor final. confronto. A abordagem do estudo de caso nos permite evitar as analises generalizantes muito comuns na historiografia tradicional da história das mulheres devido a sua matriz ser a História Social.NEA/UERJ normas. significa que ambos estão sendo usada como instrumento a favor de uma ideologia que cabe ao pesquisador identificar. espera-se apreender as relações de tensão. O estudo de caso torna-se muitas vezes. As diferentes formas de expressão de arte nos apontam para os diferentes autores da representação imagética que estão estreitamente ligados as encomendas de estilos que nos apontam para os diferentes consumidores e seus objetivos. A partir dessa perspectiva. A arqueologia de gêneros tem dispensado atenção aos diferentes modos pelos quais o gênero se materializa no contexto social de produção expressa pelo artesão. A imagem nos artefatos de cerâmica constitui uma excelente oportunidade para examinar o embate e a negociação na arqueologia de gênero.. 2007: 12). identificando o espaço de produção. A abordagem da arqueologia de gênero tem a sua disposição um potencial item de análise que requer ainda ser examinada para dar conta da relação entre o feminino e o masculino nas sociedades fora do tempo 273 . A mesma observação pode ser estendida aos instrumentos de trabalhos que definem ou não papel social masculino e feminino que nem sempre coincide com o contexto social analisado.

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e do espaço como as sociedades antigas. Cabe ao pesquisador começar se questionando como ocorreu o entrelaçamento que definiu o lugar social da mulher e como e porque omitiu as suas diferentes identidades sociais, sua atuação na sociedade ao qual está inserida. Cabe identificar os meios pelas quais são definidas as suas atividades/perfomance econômicas e políticas em meio à historiografia definida pela relação de gênero de viés patriarcal. Ao procurar pelas exceções, nos aproximamos das abordagens dialógicas que nos apontam para os embates, os recuos e as negociações. Delimitar a região e a temporalidade nos permite estabelecer a abordagem comparativa que faz emergir as similitudes e diferenças das identidades, dos papeis sociais assim como a atuação interativa do feminino entre si e com o masculino. A aplicação da teoria feminista como estrutura que norteia a pesquisa sobre gênero tende a se definir como arqueologia histórica visando a construção histórica do percurso da arqueologia de gênero que nos apontem para diferentes abordagem sobre o feminismo. O primeiro momento do paradigma feminista critica o estereotipo sexista a partir da diferença biológica determinada pelo predomínio universal do homem no desenvolvimento das atividades publicas. O princípio androcêntrico, centrado nos homens, desloca alguns atributos que são próprios dos seres humanos para uma conta de atributos positivos identificados apenas ao sexo masculino, como se autocontrole, racionalidade, coragem, liderança, autonomia, independência, força de vontade, determinação e assumir riscos fossem qualidades exclusivas dos homens (FREITAS, 2006: 57). Nessa perspectiva definem-se para a mulher as atividades no espaço doméstico e da maternidade características da sociedade patriarcal. O segundo período da teoria feminista, na década de 70, questionou e buscou explicar o viés patriarcal como uma instituição social e ideologia construída culturalmente e que visava manter a desigualdade entre o masculino e o feminino. A teoria feminista pós-colonial, identificada como a terceira vertente na qual o feminismo, define o gênero e a sexualidade como temas diversos, complexos e fluidos. Sua performance não pode ser descrita monoliticamente pela diferenciação do sexo visando definir os papeis sociais das mulheres nas sociedades. Categorias de análise como

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diversidade na identidade de gênero, variação nos papeis sociais, as perfomances, as relações sociais identificadas, as praticas sociais e poder dinâmico do feminino são relatados como essenciais para a arqueologia de gênero.(SPENCERWOOD, 2007: 46). A conceituação feminista de gênero critica o androcentrismo que engessa a sociedade nas categorias de masculino e feminino, naturalizando, desvalorizando e subordinando as mulheres a dinâmica da sociedade patriarcal. A distinção está em repensar a documentação com um olhar para o poder dinâmico do gênero desconstruindo a abordagem tradicional e patriarcal. A conceituação de gênero busca reanalisar as abordagens sobre mulher e a construção estereotipa assimétrica dos papeis sociais do feminino ao longo do tempo e em diferentes sociedades. Ratificar os papeis de atuação da mulher e o poder dinâmicos da perfomance da arqueologia de gênero viabiliza o olhar critico que tem exposto o androcêntrismo envolvido na legitimação da desigualdade de gênero na sociedade ocidental como padrão universal (SPENCER-WOOD, 2007:30). A abordagem critica permite reconstruir a atuação do feminino destacando o lugar de fala da mulher, procurando a perfomance feminina na documentação e a sua atuação no espaço publica e/ou privado. A teoria feminista pós-moderna critica a relação binária de oposição homem x mulher. Busca-se inserir junto à pesquisa a diversidade e fluidez na arqueologia de gênero, definindo espaços para a construção de identidades e papeis sociais, a interseção da mulher em atividades ditas masculinas, a dinâmica do poder de atuação que definem o lugar social da mulher em meios as atividades pelas transitam a relação de poder como categoria não exclusiva do homem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREITAS, Maria Ester. Especial Mulheres: o século das mulheres.Revista da Fundação Getulio Vargas. VOL.5 • Nº2 • MAIO/JUN. 2006 (E-mail: mfreitas@fgvsp.br). HILL, Bridge. Para onde vai a história da mulher? Varia História. Belo Horizonte: UFMG,1995. MARTI, Ruth Falco.La arqueologia Del gênero:Espacios de mujeres, mujeres com espacio. Cuadernos de Trabajos de Investigacion. Alicante: Bancaja,2003. NELSON, Sarah W. Women in Antiguity :theoretical approaches to gender and archaeology. USA: Altamira Press, 2007. SCOTT, Joan. Genre: une catégorie utile d'analyse historique. Les Cahiers du Grif, 37/8, 1988, pgs.125 a 153. SCOTT, Joan. A Gender and Politics of History.New York: Columbia University Press,1988 SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: Domínios da Historia: ensaios de Teoria e Metodologia.Rio de Janeiro:Elsivier,1997. ______. Gênero e Ciências Humanas. São Paulo: Editora Rosa dos Ventos,1998.

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RADEGUNDA POR BAUDONÍVIA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Prof.ª Ms. Miriam Lourdes Impellizieri Siva329 Em ocasião anterior330, tivemos a oportunidade de fazer alguns comentários acerca de santa Radegunda de Poitiers, a partir dos escritos de dois autores do século VI, que lhe foram contemporâneos: Gregório de Tours e Venâncio Fortunato. Nas obras de ambos, ela é retratada ora como a santa rainha, ora como confessora, em papéis freqüentemente associados à santidade masculina, de então. Primeira santa do Ocidente a ter seu culto reconhecido ainda em vida, Radegunda, também, será homenageada em uma outra hagiografia, escrita um pouco depois daquela de Fortunato, por Baudonívia, monja do Mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que ela havia fundado. Em um mundo, até então, dominado pelos homens, o da escrita, Baudonívia, escreve sobre a vida da fundadora do seu mosteiro, motivada pelo pedido que lhe fora feito pelas irmãs, ao qual não se conseguira furtar, conforme revela no prólogo da obra
Às santas senhoras, adornadas com a graça de seus méritos, à abadessa Dedimia e a toda a Comunidade da gloriosa senhora Radegunda, Baudonívia, a mais humilde de todas. Encarregaime de levar a cabo uma obra não menos impossível do que a que seria tocar o céu com o dedo, isto é, pretender dizer algo sobre a vida da santa senhora Radegunda, que vós conheceis perfeitamente. (Prólogo)331 Professora do departamento de História, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 330 Referimo-nos ao nosso artigo, ―Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers‖, publicado em: Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ, 2011, v.1, p. 175-189. 331 Prólogo. In: PEJENAUTE RUBIO, Francisco (int. e trad.). ―La Vida de Santa Radegunda, escrita por Baudonivia‖. Archivium: Revista de la Falcultad de
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Declarando-se pequena para assumir tarefa tão importante, dizendo-se de escassa formação intelectual, de pouco valor, mais devota do que instruída, Baudonívia aceita a incumbência por obediência à abadessa332, e pede às outras monjas que a auxiliem com as suas orações. Ao contrário do que poderíamos pensar, estamos, aqui, diante de um lugar comum dos hagiógrafos ocidentais, desde que, Sulpício Severo, no século IV, declarou-se sem talento e pouco versado nas letras para escrever sobre a Vida de Martinho de Tours. A verdade é que, para Cláudio Leonardi, Baudonívia foi justamente escolhida pela comunidade por causa de sua cultura e capacidade literária, por saber melhor do que as outras expressar os ―valores espirituais que Radegunda representava e ao mesmo tempo os históricos de sua vida e testemunho‖ (LEONARDI, 1991, 68) Assim, se Baudonívia, verdadeiramente, era pouco instruída ou não importa muito pouco, diante do fato de termos uma mulher escrevendo sobre outra mulher, a pedido de outras mulheres, o que se constitui em uma novidade, até então. A maior parte das hagiografias, mesmo a de mulheres santas era escrita por homens. Apesar disto, de acordo com Ana Belén Sánchez Prieto, a escrita não foi, como é comum se pensar, entre os séculos VI-X um privilégio da elite masculina e clerical, existindo um número significativo de mulheres que escreviam e liam. Os mosteiros femininos também serviam de escolas para as jovens da aristocracia local, possuindo scriptorium e biblioteca (PRIETO: 2010, 86). E não podemos esquecer que a adoção da Regra de São Cesário de Arles, por Radegunda, tornava obrigatória a leitura diária para as monjas, duas horas por dia de forma individual (cap.

Filologia. Oviedo. Tomo 56, 2006, pp. 313-360. A partir de agora, as citações retiradas da obra de Baudonívia serão feitas no corpo do trabalho. 3 A Mosteiro de Santa Cruz de Poiteirs seguia, por escolha de Radegunda, a Regra de São Cesário de Arles para as Virgens, que ele havia escrito para sua irmã, Cesária, uma virgem consagrada. No capítulo 18, assim ficava determinado: ―Elas obedecerão todas à mãe, depois de Deus‖.

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19) e, em comum, no refeitório ou quando se realizava algum tipo de trabalho manual (cap. 18). Da mesma maneira, Roberta Krueger recorda-nos da intensa atividade escrita do mosteiro fundado por Radegunda, tanto na época em que estava viva, quando posteriormente (KRUEGER, 2000, 14). Mas, voltando a nossa Baudonívia, esta nos informa que sua intenção não é repetir o que Venâncio Fortunato, a quem chama de bispo333, escrevera em relação à vida da ―bem-aventurada‖, mas apenas aquilo que o outro havia deixado de mencionar por causa de sua famosa prolixidade, coisa que o próprio Fortunato havia reconhecido no final de sua obra. Na verdade, porém, tudo o que sabemos de Baudonívia encerra-se nas suas próprias palavras, no Prólogo. Estava no mosteiro desde a infância, não provinha de família da alta aristocracia franca, tornara-se monja, sabia ler e escrever, demonstrava conhecer bem a Bíblia, as obras de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours e, principalmente, conhecia profundamente os acontecimentos da vida de Radegunda. Além disto, tudo o que se possa afirmar são especulações, que têm levado os especialistas a tecerem as mais variadas hipóteses a seu respeito, assim como às motivações da redação de uma segunda Vida de Radegunda (ocorrida entre 609-614), em data ainda tão próxima da primeira (c. 590). Relativamente à Vida 1, como chamaremos a partir de agora a hagiografia escrita por Fortunato, os autores se dividem quanto à data de composição, para antes ou depois da famosa rebelião que, entre 589/590, manchou a reputação do Mosteiro de Santa Cruz, opondo as monjas Clotilde (filha do rei Cariberto) e sua prima Basine (filha do rei Chilperico), ambas netas de Clotário I, e, portanto, princesas reais, à abadessa Leubovera.

Esta afirmação de Baudonívia é um dos poucos documentos comprovatórios de que Venâncio Fortunato foi realmente alçado a bispo de Poitiers, após a morte de Radegunda. Durante muito tempo, tal fato era considerado duvidoso.
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Gregório de Tours nos narra com detalhes o grave episódio, na sua Historia Francorum, livro IX, caps. 39 ao 43 e livro X, caps. 15 a 17 que, mais do que uma insubordinação de religiosas frente a uma possível atitude hostil de sua abadessa, seria demonstrativo das tensões existentes entre a alta aristocracia franca contra a realeza merovíngia, que atingirão seu ápice a partir da segunda metade do século VII. Enquanto para Franca Consolino
[...] apesar de que, entre os dois livros (Vida 1 e Vida 2) transcorra menos de uma geração, separa Fortunato de Baudonívia um grave episódio de insubordinação, de que foram protagonistas, pouco tempo depois da morte de Radegunda, duas princesas merovíngias, monjas em Santa Cruz (CONSOLINO: 1988, 143).

Francisco Pejenaute Rubio, seguindo a opinião de J. Mc Namara, J. Halborg, Gordon Whatley (editores em inglês das duas Vidas), acredita que os dois textos são posteriores à revolta:
É muito possível, inclusive, que a razão fundamental de que se escrevessem ambas biografias, fosse precisamente devolver ao mosteiro a boa fama e o bom nome que havia tido, enquanto nele viveu a santa fundadora. (PEJENAUTE RUBIO: 2006, 316)

Além desta questão, uma outra cerca nosso texto, Baudonivia redige usando fontes de segunda mão? Ou conheceu Radegunda em vida, escrevendo com conhecimento de causa? Aqui, se colocam três teses que dividem os especialistas. A primeira é que Baudonívia teria sido contemporânea de Radegunda no século, e entrado no mosteiro quando de sua fundação, tendo sido uma das primeiras monjas de Santa Cruz, tese defendida por L. Coudanne, em 1953, sem muita aceitação, já que pesaria contra ela o fato de que, ao escrever, Baudonívia já seria muito velha, teria, no mínimo, cerca de 90 anos.

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datas e fatos. Conhece. confidenciara. nos seus pormenores. excelente mesmo. explicaria o porquê de ter sido escolhida pela abadessa Dedímia e a comunidade monacal para redigir uma nova biografia da santa. Demonstra familiaridade ao tratar de Radegunda. apesar de todos estes dados a favor. que Baudonívia conviveu com Radegunda. pelo que foi dito mais acima. Baudonívia se coloca como estando presente aos acontecimentos que narra (uso do pronome nós). A leitura da Vida II (como comumente se chama o texto de Baudonívia). 281 . posição de Dom Laporte. posicionamo-nos no sentido de acreditar.NEA/UERJ A segunda tese é contrária à primeira: Baudonívia não conheceu pessoalmente a santa e escreveu a partir das informações que lhe foram confiadas pelas religiosas que haviam convivido com ela. respectivamente. ao lado de Venâncio Fortunato e de Gregório de Tours. devido à idade avançada das suas testemunhas. como feito parte do reduzido grupo de companheiras de claustro a quem esta fazia confidências. Mas. nos sinaliza em direção à terceira opção. só para as mais íntimas. faz citações diretas. tese aceita por Francisco Pejenaute Rubio e que. que lhe teriam sido repassados pelas companheiras que os haviam conhecido e guardado na memória? De uma escritora perspicaz e boa psicóloga? Estes questionamentos poderiam levar-nos a aderir àquela segunda tese. inclusive dando os nomes dos beneficiados. e que precisava ser rapidamente passada à forma escrita? De uma excelente organizadora de nomes. a terceira afirma que não só Baudonívia havia conhecido Radegunda. Por fim. deixando perceber o grande afeto que lhe dedicava e que fica patente na emoção com que narra sua morte e exéquias. assim como descreve as experiências espirituais que Radegunda. colocando-se. não podemos deixar de nos perguntar: e se estivermos diante de uma boa. com detalhes precisos. seguida por Franca Consolino. portanto. já que não estariam destituídos de sentido. Em algumas passagens. Contudo. As referências que a escritora faz são muito precisas. além de usar o texto de Venâncio Fortunato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . compilação de segunda mão? De um texto fundamentado em uma tradição oral em vias de se perder. os milagres realizados pela santa.

imersa em seus jejuns e mortificações. poderíamos pensar em uma questão que visaria legitimar a obra de Baudonívia. mas. CHARRONE: 2007. 335 Se. que. que por sua tenacidade. sob a pena de Fortunato. por extensão. já que por se tratar de uma mulher escritora haveria a necessidade de respaldar seu texto. ao se depararem com textos diversos relativos a uma mesma personagem histórica334. não podemos esquecer ser esta uma prática costumeira entre especialistas. aqui. o próprio milagre realizado. no latim cristão. (SILVA: 2011. por outro. no estudo comparativo das fontes sobre São Francisco de Assis. o herói nas línguas neolatinas. à primeira vista.NEA/UERJ como testemunha quanto à grande parte dos assuntos do mosteiro e do século que descreve tão bem. em reconhecimento pelas suas virtudes335. o termo passará a designar ―virtude‖. Portanto. abandona o casamento que lhe desagradara desde o início. 37-38). viril. na realização de milagres com que era aquinhoada pela misericórdia divina. na humildade do seu proceder junto às companheiras. no latim clássico virtus designa o conjunto de qualidades que fazem de um homem um vir. ela é a santa que se isola do mundo. que objetiva apresentar. força de vontade. podemos citar a famosa Questão Franciscana. no cuidado e na caridade para com todos os que a procuravam. E.MULHERES NA ANTIGUIDADE . uma imagem unificada do santo. o poder através do qual as pessoas tocadas pela graça divina conseguem fazer milagres e. apresentando-se como igual ao homem na busca da realização espiritual através da anulação do corpo (modelo dos santos ascéticos do deserto). supera os supostos limites físicos da fragilidade do sexo feminino. Quais as relações entre a Vida 1 e a Vida 2? Em que se parecem e no que se diferenciam? Se. a hagiografia de Venâncio Fortunato acentua as características ascéticas e penitenciais de Radegunda. Como exemplo desta prática. 334 282 . 183-185. no caso da santa é levado ao extremo. fazendo dela um modelo da mulher forte. mantendo-se à margem da vida que deixara para trás. aparece uma outra problemática relativa à nossa autora e sua obra que tem movimentado os especialistas. comparando-o com o de autores masculinos. Assim.

Ela nos oferece uma visão bastante diversa de Radegunda. onde não mais vivia. miracula. conversartio. mesmo do mosteiro. de forma a construir seu modelo. Nossa autora apenas menciona. ela vai além do proposto no seu Prólogo.. ela lançava. tais como: a construção do mosteiro e o ingresso da santa no mesmo. mas com o qual parecia extremamente preocupada. com as querelas envolvendo os soberanos francos. difere enormemente tanto nos objetivos. sua morte e seu funeral. o olhar para o mundo externo. Todos ligados à necessidade de se manter algum tipo de contato com o mundo exterior. mais inclinada a mostrar que. quase sempre em momentos de tensão em que precisava obter algum favor. diga-se de passagem. ao se interessar pelos assuntos políticos de sua época e neles procurar interferir. assim. conversio. nota anterior.MULHERES NA ANTIGUIDADE . II). já que ela continua a ser rainha. Quer relatar as obras que aquela realizou e dar a conhecer ―uns poucos de seus muitos milagres‖ (Prólogo). escrevendo sobre os pontos que aquele deixara de mencionar. a vida de penitências e mortificações da santa. A Vida de Radegunda é narrada em 28 capítulos. Já quanto a Baudonívia. mesmo dentro dos muros monásticos. percebemos de forma clara e linear a presença das quatro partes de uma hagiografia já bem desenvolvidas: vita. já que para Leonardi (1991. 283 . o processo de adoção da vida 336 V. Em seu texto.NEA/UERJ Fortunato omite acontecimentos importantes da vida de Radegunda. Ela está. mesmo quando podemos perceber a influência deste na sua composição. na época de Radegunda. o modelo religioso de Poitiers. alguns dos quais seus enteados. Sua postura diante de Radegunda. que seria de completar as lacunas do texto de Fortunato. seria o de ―um monacato dirigido ao mundo‖. ―por piedade e caridade‖ (cap. a quem não se cansa de chamar de rainha. da narrativa de Venâncio Fortunato. em detrimento de um exclusivismo absoluto da vida monacal. portanto. as preocupações da santa para com os acontecimentos políticos da época. intitulada: ―Começam suas virtudes‖ (Incipiunt eiusdem virtutes)336. seu afã por relíquias e o que fazia para conseguí-las. sem se deter nos detalhes. como na apresentação dos temas. Dito em outras palavras: a vida no século. 70).

o que para alguns autores reforçaria a tese de sua origem não-nobre. ídolos e templos pagãos. bastante interessante. admirando todos a fortaleza e a firmeza de caráter da rainha. Feito isto. auxiliando a comprovar que Baudonívia conhecia a Vida de Martinho de Tours. Radegunda age de forma semelhante a São Martinho de Tours.. a vida religiosa propriamente dita e os milagres realizados. em oposição ao Rei celestial. em nenhum momento Clotário é descrito de forma negativa. Aliás. destruía símbolos. que. Destaca-se. dizendo. enquanto [. com tenacidade e vigor. entregue ao serviço dos servos de Deus‖ (cap. não moveu o cavalo que cavalgava até que o templo ficou reduzido a cinzas e até que. os povos firmassem a paz entre si. Seu casamento com Clotário é descrito como breve. onde ―foi mais celestial que terrena‖ . Uma outra leitura. ou melhor. inspirada. o capítulo 2. escrita por Venâncio Fortunato.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ante seus rogos.NEA/UERJ religiosa ou conversão. no texto de Sulpício Severo. Neste episódio. nos levaria a perceber.. seu comportamento quando no século. pois julgava ―injusto que fosse desdenhado o Deus do céu enquanto eram venerados os instrumentos do diabo‖. que levava a Cristo em seu coração. Baudonívia demonstra respeito. Os quatro primeiros capítulos narram a vida de Radegunda no século. sobre um templo venerado pelos Francos e que Radegunda manda seus criados destruir pelo fogo. dois séculos antes. aí. nesta parte da narrativa. bendizeram ao Senhor. e o filho de Clóvis é qualificado como ―príncipe terreno e rei supraexcelso‖. 1). por sua vez. Os Francos reagem.] a santa rainha. grupo étnico ao 284 . perseverando imóvel. ―não se deixando prender por nenhuma cadeia deste mundo. com quem Radegunda sonhava verdadeiramente em unir-se. Pelo contrário. por onde passava. tentando defender o templo. opondo os Francos (aparentemente cristianizados desde Clóvis). uma certa tensão. dedicação e lealdade profunda à realeza. na defesa da religião cristã. qualquer que seja o soberano mencionado.

aqui. (. chama a atenção. 5.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que em Baudonívia aparece como obra do poder divino é diferente da narrada por Fortunato. como já mencionamos mais atrás. também. Baudonívia utiliza. é feita cerca de um ano depois do que ela chama de ―mudança de vida‖. sua corte e signatários pertenciam. também. onde recebe a notícia de que o rei a queria de volta. 5). e de ―bem-aventurada rainha‖. até pelo contraste. à turíngia e católica Radegunda. dizendo que esta tinha a ―mente voltada para o paraíso‖.. Estaríamos já. Radegunda fica ―aterrorizada por um terror insuperável‖ diante da notícia. A se destacar. que fazia do Cristo o esposo almejado de corpo e alma. 16 e 19). Na seqüência. 8. na ocasião. assim como os verbos e expressões que ela escolhe para descrever as conseqüências: ―desdenhou o trono pátrio. é o fato da autora chamar Radegunda de ―santa rainha‖. o termo que Baudonívia usa para qualificar o casamento. A doação do rei da villa de Saix. pois sofria muito com sua ausência. uma expressão.. Aqui. e que ela transforma em ―mente voltada para Cristo‖ (caps. 13. e a ―bem-aventurada‖ começa a martirizar seu corpo mais amplamente. A ordem dos acontecimentos depois da separação de Radegunda e Clotário. Neste lugar. ao abandonar o leito onde dormia com seu esposo para alojar-se na fria laje (Vida 1. pela primeira vez. 4). ―faz entrega de seu corpo para ser atormentada a um cilício. cap. com o terror que ela sentiu quando soube do desejo do marido de tê-la novamente. quando ele narra as orações noturnas da santa. Radegunda tem uma visão que lhe mostrava a graça a que estava destinada a desfrutar (cap. o mais áspero. diante de um argumento fundamental da mística religiosa feminina medieval e dos séculos da modernidade. para o qual Radegunda voltava às costas.) impôs-se o tormento do jejum. tomada de empréstimo a Fortunato. permanecendo em vigília pelas noites‖ (cap. rechaçou um amor 285 . também. 9. 3) e é. estava arrependido de ter deixado sair do seu lado ―uma rainha de tão grande condição‖.NEA/UERJ qual o rei Clotário. passou por cima da doçura de um esposo. não se esquecendo do título mundano que carregava.

exclamou: ―Aleluia! E isto o fez mil vezes (cap. em Poitiers (cap. na aceitação das limitações alheias. para entregar-se ao ―celestial esposo‖.] o louvor a Deus a tal ponto não se afastava de seu coração e de seus lábios que. a autora não se cansa de elogiar a pessoa do soberano. desprezando os falsos prazeres do mundo e cheia de gozo. então. a quem pede perdão. assim como para seu arrependimento. recorre ao bispo de Paris. elegeu ser desterrada com o fim de não se apartar de Cristo‖ (grifos nossos). na prática. Radegunda. É eleita abadessa. Na narrativa. 8). Paradoxalmente. ao ver passar uma vez a porteira do mosteiro. em vez de seu nome. abandona seus bens. de ser novamente rechaçado pela ―santa rainha‖. um resignado e ―excelso rei Clotário‖ a ajuda a construir um mosteiro. que quer recuperá-la. passando a viver da prática da humildade. para ele extremamente humilhante. caridade. sintetiza a experiência monástica de Radegunda é a do louvor a Deus em todos os momentos e situações: [. onde a ―santa rainha. destaques para a amargura do rei. das bodas com o rei celeste. quando a quis chamar. mas renuncia ao cargo. usava de severidade permanente. Já vivendo no mosteiro. que consegue convencer Clotário a abandonar definitivamente seu intento. Diante de tudo isto. Radegunda novamente sofre com a investida do esposo terreno. Sua vida no mosteiro é apresentada a partir do capítulo 8. ingressa‖. Germano.MULHERES NA ANTIGUIDADE .. com ênfase para o tema nupcial. e da situação. pobreza. percebese a enorme autoridade que detinha e que fazia com que fosse obedecida 286 . humildade. castidade. 5). e para as suas qualidades de bondade. ao mesmo tempo em que considera as investidas de Clotário como obras do demônio. compaixão. Mesmo tenho abdicado do cargo de abadessa. chamada Eodegunda. ―o excelso rei‖.NEA/UERJ mundano. caridade. A atitude que. para Baudonívia. ao se considerar ―indigno porque não havia merecido ter por mais tempo a rainha‖. enquanto para si.. juntamente com seu filho Sigiberto.

além da ascendência moral e espiritual sobre as companheiras. ao mesmo tempo em que orava entre lágrimas e vigílias. remetem a sua ação taumatúrgica e miraculosa 287 . recuperou a vista por meio do cilício da senhora Radegunda). no mosteiro. Sua ligação com o século é recordada especialmente no capítulo 10. 19 (sobre uma ave noturna que cantou no mosteiro e de como uma criada. Neste mesmo capítulo. de ―França‖. pela ocasião. ou que. a quem ela muito amava e para quem havia passado o comando do mosteiro. já fosse viúva. 15 (de como um ilustre varão. a filha espiritual de Radegunda. enviados a dar graças ao senhor imperador e de como passaram um perigo no mar. 17 (acerca de seus emissários. enquanto o reino é chamado de ―pátria‖. obedecendo a uma ordem sua. Uma ausência importante. percebemos uma oposição entre os francos e a turíngia Radegunda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um ano antes de seu trânsito. os reis são denominados de excelsos. curas realizadas à distância pela sua invocação ou acendendo círios em seu nome). chamado Leão. e também aos altos dignatários. abastece o mosteiro com o vinho de sua própria dispensa. apesar de já estar na vida religiosa. 20 (de como.NEA/UERJ pelas outras. após sua abdicação do cargo de abadessa. 12 (de sua serva chamada Vinoberga que ousou sentar-se na sua cátedra). esta se encontra totalmente superada. Os capítulos 11 (da dama chamada Mammeza a quem restitui a vista). mesmo vivendo entre os muros do seu mosteiro. aqui. e a santa perfeitamente integrada ao mundo franco. 18 (de como com o sinal da cruz pôs em fuga do mosteiro a milhares de demônios). da paz e da guerra entre os reis merovíngios. o que nos leva a supor que tivesse continuado a receber algum tipo de rendimento ou mantido alguma propriedade do seu tempo de rainha. durante um ano. a fez fugir). Baudonívia descreve pormenorizadamente a relação da ―bem-aventurada‖ com os assuntos do Reino. é a da abadessa Inês. anteriormente. na obra de Baudonívia. quando. Aqui. também. a quem busca pacificar. escrevendolhes pedindo paz. o lugar que lhe estava sendo preparado por Deus). contemplou. acompanhada pela comunidade. em uma visão. Se.

Da mesma forma. a rainha Radegunda obteve uma porção da verdadeira cruz e a colocou devotamente com outras relíquias no mosteiro que havia fundado em Poitiers‖ (À Glória dos Mártires. a expulsão dos demônios. 338 288 . os jejuns. como a nova Helena338: ―o que fez ela (a imperatriz Helena) em sua pátria oriental. sobre como conseguiu a maior de todas as relíquias junto ao imperador bizantino: um pedaço do lenho da cruz de Cristo. Baudonívia explora bem a atitude firme de Radegunda nos embates que trava contra bispos e agentes do poder laico. Comparada a Helena. a ―boa governadora‖ que. também. que reforçam e confirmam sua santidade diante de todos. Ela é a ―provedora ótima‖. com destaque para o longo e pormenorizado capítulo 16. poder sobre demônios. de são Mames e de outros santos). para não deixar suas ovelhas abandonadas. o fez na Gália. depois da sua morte. Os capítulos 13 e 14 são relativos aos seus esforços na obtenção de relíquias importantes para seu mosteiro (relíquias de santo André. que fez com que fosse chamada. deixou-lhes ―para honra do lugar e salvação do seu povo. sobre os elementos naturais. que queriam impedir a entrada da famosa relíquia em Poitiers. visões)337. V). sempre que estes se colocam como entraves as suas ações. apresenta a preocupação da santa com o futuro da sua fundação. pelas relíquias e méritos. a bem-aventurada Radegunda‖. as curas que beneficiam a todos os que recorrem a sua intercessão. as vigílias (sozinha ou acompanhada pela comunidade monacal). é narrada a luta de Radegunda contra o bispo Meroveu e os grandes da cidade. por Baudonívia. ―a gloriosa cruz do Senhor e as relíquias dos santos no mosteiro da senhora Radegunda.MULHERES NA ANTIGUIDADE . este dom Estas são funções que se espera do santo: seu domínio sobre si próprio. que entronizasse. Suas armas são sempre a oração contínua. 337 Vide Gregório de Tours: ―Da cruz e das suas maravilhas . obrigando a santa a recorrer ao ―devoto‖ rei Sigiberto que. domínio sobre a natureza.NEA/UERJ (curas. o poder sobre os elementos. Na continuação do capítulo. aliada ao recurso à autoridade régia que sempre age a seu favor. com a devida honra. o que assim se fez‖. Eufronio. acaba por ordenar ao bispo de Tours. o restabelecimento da concórdia e da paz sociais perturbadas pelo pecado.

Emmanuelle. até como forma de dotá-los de autonomia frente aos poderes laicos e aos bispos locais.. Documents. a ―sereníssima senhora Brunehilda‖. constituindo-se em ponto de apoio político da realeza na Aquitânia (SANTINELLI. entre lágrimas e com profunda dor.MULHERES NA ANTIGUIDADE . na ausência do bispo local. Nos capítulos finais (do 21 ao 28) Baudonívia narra.] ali. afligido por qualquer tipo de enfermidade. La politique territoriale des reines mérovingiennes. o momento em que escrevia. assim. com a cooperação do poder de Deus e a ajuda da força do céu. Igualmente reforça o uso dos já citados títulos de rainha. os olhos dos cegos recobram a luz. não obstante a afirmação de que ela amava com caro afeto tanto os excelentíssimos soberanos merovíngios. sendo. a língua dos mudos retorna a sua função. o que contribuiria para a sua manutenção posterior: [. 339 289 . reforçando. Assim. Há. Acesso em: 10/07/2011. de sés origines au 19 e siècle. senhora. O que mais? Todo aquele que. devido à presença do santo lenho. Gregório (23 e 24). e as curas que beneficiavam aqueles que visitavam seu túmulo (24 a 28). igualmente. a característica de Radegunda como Para Emmanuelle Santinelli não podemos esquecer que o Mosteiro de Poitiers era fundação régia (de Radegunda e seu esposo Clotário). o mosteiro. volta curado pela virtude da santa cruz (cap. e de garantir a sua sobrevivência material. 16). como as ―sacrossantas‖ igrejas e seus bispos. Os ouvidos surdos se abrem. realizadas. seu trânsito (21 e 22). Disponível em: http://cour-de-france. suas exéquias. um centro espiritual estreitamente ligado à dinastia merovíngia. os milagres e fatos sobrenaturais ocorridos nestas ocasiões. études et ressources scientifiques pour la recherche sur la cour de France. os demônios são postos em fuga. a preocupação em encomendar o mosteiro aos reis merovíngios339.fr.NEA/UERJ celestial‖. principalmente a Sigiberto e sua esposa. chegar com fé. pelo bispo de Tours. e remete à realização dos milagres para o presente. os coxos andam. se tornaria um centro de peregrinação para curas.. pois.

mas enviamos. seja na relação com os poderosos do mundo. seja na evangelização dos pagãos. Oeuvres Monastiques. Vita dei santi Ilario e Radegonda di Poitiers. In: PEJENAUTE RUBIO. sem abandonar seu profundo lado espiritual do amor e da união com Deus. a quem não se cansa de pedir pela paz. pp. Roma: Città Nuova. Vita di Radegonda di Poitiers. Paris: Éditions du CERF. escrita por Baudonivia. uma mãe. 1988. seus desafetos e opositores agem sempre influenciados pelo ―inimigo do gênero humano‖. apesar de sua feição confessional como defensora da religião contra o paganismo. de forma permanente. In: ---.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Vida de Santa Radegunda. 22) e que sintetizam a função do santo na sociedade cristã. 313-360. Règle des Vierges. perdemos no presente século uma senhora. uma intercessora‖! REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS BAUDONIVIA. Tome I. La Vida de Santa Radegunda. seja no socorro ao sofrimento humano. a santa nobre fundadora e mantenedora de mosteiros. 290 . Oviedo. p. 170-273. Francisco.NEA/UERJ a rainha santa. 56. Baudonívia escreve a partir de duas variantes opostas que nela se complementam: a mística e a política. que aparece como componente importante de sua santidade e que move suas ações e seu comportamento. Enquanto a santa e os que estão ao seu lado são movidos pela inspiração divina. aquilo que o povo cristão espera dele. para sempre. Os momentos mais importantes da vida de Radegunda são mostrados a partir do confronto entre bem e mal. Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. para o reino de Cristo. VENANZIO FORTUNATO. as palavras de Baudonívia. e seu ascetismo acentuado. Oeuvres pour les Moniales. Para finalizar. In ---. quando do passamento da santa e do desespero que toma conta do mosteiro (cap. uma consciência política. CÉSAIRE D‘ARLES. 2006. 1977. A Radegunda de Baudonívia mantém. não obstante o modelo em que este possa estar inserido e do gênero a que pertença: ―Para dizer a verdade. daqui.

JOYE. 2010. Los Milagros de Santa Radegunda y dos apendices. Roma-Bari. 25-45. Disponível em: http://redalyc. Roma: Viella. 2005. 2010. Archivum. 1999. 12. 1987. Laterza.univparis1. Cambridge: Cambridge University Press. La Mujer Medieval. ¿Es Dhuoda un caso único? Educación. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. SILVA. 69-94.pdf. La educación de la mujer antes del año 1000. LEONARDI. CHARRONE. PRIETO. Santidade Feminina na Gália Merovíngia: Radegunda de Poitiers. Enciclopédia Einaudi. pp. la biógrafa. Madrid: Alianza. Roberta. KRUEGER.). Minerva. Disponível em: http://lamop. Valladolid.uaemex. pp. Los modelos de santidad en las biografias en prosa de Venancio Fortunato.NEA/UERJ REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BENVENUTI. La santità. _____. In: Mythos/Logos. 2011. XXXI. Miriam Lourdes I. 18. 57. Sagrado/Profano. 20-40. Paris: LAMOP/CNRS. 2007. courts and households.). Archivum: Revista de la Facultad de Filologia. pp. Historiographie. In: CANDIDO. Maria Regina (org. A History of Women‟s Writing in France (ed. pp. pp. pp. In: BERTINI. (ed. Female voices in convents. Roma: Viella.mx/redalyc/pdf/706/70617175003. F. 2003. Acesso em: 03/04/2012. 174-189. Ana Belén Sánchez. Moyen Age. 2003. LX. Les Élites Féminines au Aut. Anna et al. 287-300 _____. Sofia.2. Storia della santità nel cristianesimo occidentale. 291 . 2000. Acesso em: 03/04/2012. Santidade. 171-186.fr/IMG/pdf/joye. 13.). Sylvie. Sonya. 2005. F. BOESCH GAJANO. 1999. 63-74. The French Middle Ages. Baudonivia. Claudio. André. Oviedo. In: STEPHENS. pp. pp. Práticas Religiosas no Mediterrâneo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/PPGH/UERJ. João Paulo.pdf. PEJENAUTE Rubio. El Prólogo de Venancio Fortunato a la Vida de Santa Radegunda frente a los de Baudonivia y Hildeberto de Lavardin.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 289-340. VAUCHEZ. Esperienze religiose nel Medioevo.

Conhecemos as mulheres livres muito menos. constituindo tíasos. Édipo ou Jasão estão diretamente vinculados aos destinos destas mulheres. nem sequer seus nomes. romperam com o contato masculino. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004. o que impossibilita conhecermos suas histórias pessoais. pois estas não constituíram narrativas privadas. aparecem usualmente em grupo. Na Grécia dos documentos literários. e tomarem parte dos acontecimentos públicos apenas em situações de exceção. Antígona ou Medeia. as companheiras do deus Dioniso. que podem ser consideradas domésticas. que certamente são mais bem estudadas. cujas desgraças a épica e a tragédia não se cansaram de narrar. como Helena. e usualmente em contraposição com aquelas que permaneceram fiéis às expectativas de papel social do seu sexo. normalmente nos deparamos com figuras femininas de grande força dramática. mas todas têm em comum o fato de que são filhas ou esposas de homens eminentes. e se comportam de forma beligerante.NEA/UERJ A DIFERENÇA ENTRE A MULHER DOMÉSTICA E A SELVAGEM: MENADISMO NAS BACAS DE EURÍPIDES Prof.ª Paulina Nólibos340 Observemos que os mitos. vinculadas à casa. Penélope. e não individualmente. As amazonas.ª Dr. sendo conhecidas como guerreiras. como em As Bacantes. Odisseu. no Rio Grande do Sul. Já as mulheres de Professora do Departamento de História da Universidade Luterana do Brasil. para se constituir. 177).MULHERES NA ANTIGUIDADE . no sentido de viverem dentro do gineceu. e elas não compartilham do mesmo espaço na literatura que as mulheres comuns. Vamos conhecer a existência mítica de mulheres livres através de raros textos. e as suas histórias são extensão das aventuras destes homens: Menelau. 340 292 . e as menades.

as companheiras que seguem o jovem deus. à loucura e ao milagre. filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele desde a Ásia. e que foram tomadas de furor por vingança de Dioniso. Mas a idéia de Trabulsi (2004). é a de que irão existir dois tipos de ‗loucas‘ de Dioniso. nitidamente distinto do das mulheres do deus. contra a família e a cidade de Tebas. visto dividir a unidade ―sociológica‖ do coro. que terminaria um ano mais tarde. o que permite um desenvolvimento singular: o da ambigüidade e mesmo duplicação da representação do papel feminino no dionisismo. ao poder. em 404. tragédia de Eurípides341. o outro conjunto. e que são as que respondem no coro. ou menades. os rituais dionisíacos se cobriram de uma aura de fascínio sensual. compartilhada com outros helenistas. e esse clima de desagregação da polis se encontrar refletido na catástrofe final do drama. Estas não pertencem ao conjunto orgiástico. Nela se apresenta de forma nítida uma alteração no jogo do coro. neste caso.NEA/UERJ Dioniso têm características específicas que as vinculam ao mistério. Portanto Eurípides poderia tê-la escrito em concomitância com o maior momento de crise por que Atenas passou no século V. que envolve igualmente o erotismo e a experiência mística. críticas e potenciais soluções que se pôde formular sobre o problema da liberdade feminina no último quartel do 341Bacas não tem datação definida. 293 . pois dois tipos de conjuntos se relacionam: o das ―verdadeiras bacas‖. e o das ―tebanas enlouquecidas‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Além de nos criar um problema formal. As menades se diferenciam enquanto aquelas que realmente dominam os mistérios e executam os milagres dos quais a peça se refere. Certamente em parte devido ao efeito inebriante do famoso líquido. Se considerarmos a data provável da morte de Euripides entre 406 e 405. do qual decorre a dissolução da família real e o fim daquele tipo de governo representado por Penteu. no caso d‘―as mulheres‖. de caráter eminentemente político. claramente presente no coro de Bacas. tendo sido exibida após sua morte no festival anual de Atenas. o vinho. certamente abre uma discussão quanto às variações. este faleceu no final sangrento da Guerra do Peloponeso. é presumidamente do final de sua carreira.

mesmo sendo um poder de origem masculina (Dioniso). a questão de gênero colocada. De uma maneira completamente diferente esta comédia aponta para a mesma discussão. de certa forma anômalo pois não almeja ao domínio das cidades. existem questões relacionadas ao menadismo que precisariam ser esclarecidas: sua gênese. enquanto se dizem acompanhadas por Atena. visto apenas mulheres serem admitidas no culto. muitas vezes semi-nuas e saltitantes. Nestes mitos relacionados ao poder de Dioniso. ser reclusa ao interior do oikos. Aqui não se discute se a mulher doméstica tinha ou não atributos de inteligência. mas elas o acompanham livremente. Ele foi escolhido. o representante legal do sexo masculino responsável. portanto. até ser silenciosa. 342 294 . e inclusive no testemunho tardio de Ovídio. ser fértil e gerar filhos legítimos para a linhagem do homem. problema que se refere à liberdade do corpo no universo feminino. citado na epígrafe. que será motivo de discussão adiante por comparação. para isso. Poderíamos certamente ampliar o escopo da pesquisa e tomar também para esta análise a comédia ―Lisístrata‖ de Aristófanes. contamos com o livro de Trabulsi. e por ele deixaram para trás o paradigma de comportamento feminino inteiro. é haver uma separação definida entre as ―livres na montanha‖ e as ―presas dentro de casa‖. o que já modifica o estatuto na base. a função ritual que exerce no equilíbrio da polis.NEA/UERJ século V a partir de um drama em que. possibilidade de existência histórica. Dioniso é refratário à sujeição dos corpos femininos à lei. Certo que. e articulada à relação do dionisismo com o poder. roupas sem amarras. O ponto alto disso é vê-las nas representações da iconografia arcaica e clássica enroladas em serpentes. Para este último ponto. e que é específico nestes assuntos da vinculação histórica e mítica do dionisismo ao poder em suas variantes. personagens femininas da narrativa. nas Metamorfoses. o que corrobora sua erudição. Além disso. que presidia os trabalhos de tecelagem e a inteligência. passar de propriedade do representante legal/pai diretamente para o marido. basicamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . que implica desde ser virgem. as com ou sem kýrios. confronta a hegemonia do próprio poder masculino. seus significados. submissa e leal. Poderíamos dizer que Dioniso é o kýrios das menades. as mineides. decidem contar histórias. se discute sobre o poder342.

em geral. mas que esperamos aqui possam ser brevemente descortinadas. a rainha mãe de Penteu. e das tebanas. enquanto tradicionalmente era dedicado aos homens as posições de protagonismo social. e as bacas o reconhecerão como 295 . Mas ao poder da cidade de Tebas ele não aspira. Ou seja. fazendo das companheiras de Dioniso as únicas leais desde sempre. Pois Dioniso ambiciona o reconhecimento por parte das cidades por onde passa de seu estatuto de filho de Zeus. de Agave. neste caso especialmente acentuada. e Penteu não percebe que está sendo aprisionado numa armadilha. problema que ocupa a centralidade da peça. as responsáveis pela desagregação visível da ordem. por causa desta negligência é capaz de fazer matar. Dioniso é o deus marginal por excelência. que tratam da investigação de personagens femininos e dos papéis sociais representados por cada um dos grupos das mulheres. às novas alternativas que o culto deste deus aporta. o rei. o rei. Trabalho árduo e gigantesco. aqueles que. na cena imediata que antecede sua morte. preparam a catástrofe que se segue. nesta tragédia os pólos acabam por se inverter. selvagem e avesso às práticas normativas. quando não alguma reflexão metodológica quanto à sua abordagem ao longo da escrita mitográfica. a gestora principal da ação trágica. A importância da distinção de gênero. Em Bacas. e a aderência à prática de seus cultos e.MULHERES NA ANTIGUIDADE . visto as pesquisas em história das mulheres na Antigüidade estarem em suas primeiras gerações de especialistas. pois jamais será uma mulher. exigem uma busca às fontes antigas. próprio dos alívios cômicos de Eurípides. e o espaço sagrado fica vazio. quando o clima torna dificílimo o acesso à montanha. o jovem rei é vestido como mulher pelas próprias mãos de Dioniso. e as figurações das mulheres ‗livres‘ serem ainda um tanto remotas. e como elas reagem. no quadro das políticas altamente misóginas da Grécia. e nem ao de nenhuma outra. numa inversão visível e risível. acaba como mulher.NEA/UERJ As outras questões. à espera de novas futuras investigações. mesmo se cultuado em Delfos. A forte presença feminina é ainda mais reforçada pelo travestismo de Penteu. habita o santuário no inverno. Perguntamo-nos sobre qual tipo de poder recai sobre estas mulheres. que podem nos oferecer uma maior quantidade de exemplos. e. aponta que. até mesmo o maior dos homens da cidade.

de Eurípides. foi executado um regicídio e. por causa da recusa inicial (Trabulsi: 2004.. como em As Bacantes. E inclusive para as iniciadas. O que temos então é um exemplo acabado da narrativa de um dos casos em que o deus reage sobre a recusa do seu culto. seguidoras de Dioniso. já que matando Penteu.) trazemos da montanha ao palácio cacho recém-cortado. tecendo e atendendo as necessidades domésticas. Agave. O que não podemos deixar de lembrar é que existe um ressentimento e uma proto-vingança enunciados na chegada do deus no prólogo. não são mais mulheres comuns. estabelecem uma diferença fundamental entre as Mênades que consentem e as que são acometidas da mania à título de punição. É ela quem traz a cabeça de Penteu para a cidade.entre o seu poder e o do rei atual.NEA/UERJ seu inimigo.) agarrei sem rede este filhote de leão agreste como se pode ver‖. caça e assassinato na montanha. venturosa caçada (. pois ele sabe que não é reconhecido como filho de Zeus nem pelas próprias irmãs da mãe. aqui mais gravemente por se tratar da própria família. o que acentua um conflito de poder .6-9): ―vejo monumento à minha mãe fulminada lá perto das casas e ruínas do palácio a fumarem chama ainda viva do fogo de Zeus. Ela chama e anuncia (VV..1168-1175) ―Bacas da Ásia (. que é filho de uma irmã de Sêmele com um dos homens que brotaram dos dentes do dragão 296 . ao mesmo tempo. protegidas. o que significa a pressuposição de que existem mulheres em outra condição daquelas mulheres que ficam em casa. Aquela é sua terra de origem. No menadismo. pois sangue familiar foi derramado. e pensando ter caçado um leão.. Observemos que os mitos. matou seu filho. 177). as domésticas. e Dioniso descreve o túmulo de sua mãe quando o vê (vv. Com a sua perseguição. são consideradas inferiores porque.. estas bacas. um sacrilégio. mais precisamente no documento do período clássico constituído pelo drama trágico Bacas. estas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ignoram os rituais dionisíacos. ou enquanto. uma mãe. numa posição servil. reconhece em si um tanto daquele poder viril do corajoso caçador. imortal agressão de Hera à minha mãe‖.

como também na ética. ―habitam as montanhas aturdidas‖. são primos. que se apresenta na tragédia de um sarcasmo bem-humorado e cruel. por fim. não persegue o lugar instituído do rei (v. bárbaras entre os gregos. mulheres que o seguem desde a Ásia. atacarei chefiando as loucas‖.32 . portanto de mesma geração e de uma linhagem claramente inferior. Pesa sobre sua mãe uma má fama. poderíamos denominar ―iniciático‖. sendo extático e inebriante. Dioniso parece encantar as mulheres de Tebas (vv. Dão valor intenso à vida.MULHERES NA ANTIGUIDADE . passaram por um processo que. grosso modo. 48 -) ―após bem me pôr aqui voltarei o pé para uma outra terra a mostrar-me‖. e os episódios seguintes irão definir qual braço da família segurará o cetro. na sua prática aproximando vida e morte. as que Trabulsi se refere como ―as que consentem‖. As outras. ―enlouqueci de seus lares‖ exemplificam a violência dionisíaca exercida sobre elas. e que certamente é um processo de afastamento radical. manipulando-as segundo a sua vontade. nem de mim se lembra nas preces‖. enlouqueci de seus lares”. de suas casas eu as aguilhoei com a loucura e habitam as montanhas aturdidas. As expressões ―aguilhoei com a loucura‖. não que Dioniso o queira. como criaturas que sangram periodicamente e que são capazes 297 . e toda fêmea semente. mas sem lhes dar qualquer ensinamento: ―por isso. se houver reação negativa.. Seu tipo de poder.36).45-6)―combate o deus em mim e repele-me das libações. Penteu. quantas cadméias mulheres havia. que justifica tais maneiras de agir. Obriguei-as a ter paramentos de meus trabalhos.NEA/UERJ semeado por Cadmo. Sua alternativa.50-2) ―E se a cidade tebana irada tentar com armas expulsar da montanha as Bacas. sendo. as mulheres do cortejo de Dioniso. ou mesmo ―obriguei-as a ter paramentos. Há nelas a força da ambigüidade com que ambas se abatem sobre o ser feminino. O Dioniso de Eurípides vem acompanhado do seu próprio Tíaso.. Penteu e o jovem Dioniso apresentam esta equivalência geracional básica. e ele anuncia no v. portanto.‖ e. conforme Dioniso (v.41 ―devo pronunciar a defesa da mãe Sêmele‖ e isso se soma à negativa de seu culto. pois são descritas como as que são capazes de matar e devorar ainda quente a carne de animais. é explícita (v. não só no comportamento.

como menades. quando Dioniso conversa com elas sobre o que vai se delineando e as prepara para os próximos acontecimentos. nos vasos de figuras vermelhas. embora não dessexuadas. e sim pela dança. Existe uma força de vida no grupo das bacantes que só é empanada. água. que infelizmente é muito lacunar. “mania”. Conhecem e ―dominam‖ a loucura. o cortejo dionisíaco. “kyrios”. mesmo divergindo em suas opiniões sobre a situação. leite. e em grande número. pelo movimento rítmico pulsante. As ménades serão. existem as que estão sendo arrancadas com 298 . Percebemos que. se limitava a tragédias com coros que eram uma unanimidade: as náiades do Prometeu. diferentes das ―outras‖. de alguma forma. sátiros. desde o início. como as da apolínea Kassandra. atestando a presença marcante destas mulheres dançantes e desgrenhadas. de estilo mais antigo. Nosso estudo. vinho. vivem soltas na zona selvagem. os cidadãos de Agamêmnon. de peplos soltos.NEA/UERJ de conceber e parir. Estão livres de homens. da montanha. quase inumana. Até a produção deste texto. Dioniso representado tanto em forma humana. seja histórico ou literário. Seus corpos dobram. segundo o mensageiro da tragédia. nitidamente construída na tragédia Bacas. A dança exprime o corpo feliz. ou mesmo duplicação de papéis das figuras femininas. se remete à análise desta ambivalência. pela violência do revide. tinham uma posição de conjunto coeso como uma única figuração social. Certamente delinear estas personagens com tais poderes já nos permite demarcar seu registro único. os marinheiros de Filoctetes. Fazem a pedra produzir mel. enquanto algumas o ouviram e responderam livremente ao seu chamado e tornaram-se. tanto nos vasos de figuras negras. o corpo envolto em serpentes. o que definitivamente as separa do grupo maior das gines. no imaginário clássico ático. Muitas cenas diferentes aparecem. nosso conhecimento. as mulheres de Corinto de Medeia. E. embora de mesma matriz referencial. cenas sexuais explíticas entre sátiros e menades.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. das mulheres domésticas. Em Bacas não. mas não por convulsões dolorosas da visão profética. como em estátua votiva. estes motivos dionisíacos já eram pintados em vasos. mesmo muito antes da tragédia de Eurípides. ou como máscara teatral. portanto. quanto. propriamente o coro no sentido dialogal.

segundo TRABULSI. amplamente tratado por Trabulsi. p. Este fenômeno de resistência a Dioniso. 258. Questões Gregas. (c) o de Penteu. IV. nota 6 do cap. segundo DETIENNE. O episódio das Miníades é encontrado em Plutarco346. 299 E-300 A. dedica-se a narrar este confronto e o das filhas de Proitos345. p. em uma tragédia perdida. nomeadamente a zona de ocupação feminina por excelência. de Dodds. 38. 345 Apolodoro. Biblioteca.NEA/UERJ furor de dentro de suas casas. 344 Ésquilo. ―Os mitos de resistência mais importantes são (a) o de Licurgo. 347 Antonino Liberalis. Mette. 274). que pode ser visto como o das Cadmeanas‖ (TRABULSI: 2004. 175).124. segundo DETIENNE. X. sua tarefa doméstica de maior alcance. nota 49. p. 346 Plutarco. pois ele persegue as amas de Dioniso. já aparece num artigo de 1940. 343 299 . 348 Ovídio.125. XIV. Antonino Liberalis347. III. 2004. 176). Na história de Licurgo notamos um anti-feminismo violento (TRABULSI: 2004. e Apêndice I do livro Os Gregos e o Irracional. nota 54.J. M.1. Edônios344. Diz ele que ―resistir a Dioniso é reprimir o que há de mais elementar na nossa própria natureza. nota 6 do cap. Histórias Variadas III. Metamorfoses. p. Ésquilo. rei dos edônios. M. 877-881) ―Que é a sapiência? Que privilégio dos Deuses entre mortais é mais belo? É descer supremo o braço acima dos cimos de inimigos? O que é belo é amigo sempre‖. p. e do tear.33. nota 50. 69-81 ed. 258. 1988. Ovídio348 e em Eliano349. XIV.125. Metamorfoses. 5. quando o elementar rompe a compulsão fazendo desaparecer a civilização‖ (DODDS: 2002. H. sobre o Menadismo343. segundo DETIENNE. M. 2004. (b) os das Proitidas e das Miníades. 2002. 349 Eliano. posteriormente. segundo TRABULSI. e o castigo é o repentino e completo colapso das represas internas. narra o episódio de Licurgo. foi publicado originalmente na Harvard Theological Review. 1988. Também Apolodoro. As bacas são capazes de falar da amizade e da beleza na caça e retaliação do inimigo comum e da sabedoria como o vínculo básico entre Dioniso e a amizade com elas (vv. F. 31. 42. 1988. v.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

o telhado é tomado por um delírio báquico. dispersa as portadoras de tirso. Levanta o machado de dois gumes. Mas Licurgo. as altas muralhas do palácio real começam a oscilar. para o interior das florestas geladas. Por sua vez. os edônios o levam. Licurgo torna estéril toda a terra à sua volta (1988: 28. As cadeias das Ménades portadoras de tirso caem por si mesmas. desta vez. amarrado. Assassino de seu próprio filho. até a criança-vinha aterrorizada que tenta escaparlhe. Dioniso o faz voltar à razão. Licurgo entra em delírio. Assim Detienne recria a situação em Dioniso a Céu Aberto: Pois é na Trácia. mas. o rei dos edônios. persegue o jovem deus assustado. Turvando sua visão. Dioniso o leva até seu filho. e foi tomando seu filho Drias por uma vinha que ele o mata a golpes de machado. à maneira de Apolo nas alturas de 300 . que profetiza pela voz de uma mulher. rei-delirante. a dançar. As bacantes são acorrentadas. o bando de sátiros aprisionado.NEA/UERJ notamos também seu ódio contra a vinha. põe-se a balançar. e torna a dirigir contra o possuído seu desejo de violência e de homicídio. quer derrubar a vinha. que Dioniso encontra seu primeiro adversário. desta vez partindo de Apolo. ataca as amas de Dioniso. onde se ergue um santuário oracular de Dioniso. corta os sarmentos e o pé da vinha. Segundo a descrição de Detienne: Seguindo o conselho do oráculo de Delfos. e estivesse manchado com o sangue familiar. Depois que as extremidades foram cuidadosamente cortadas. cercado por seus sacerdotes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . o Delirante (mainómenos). terra suposta de suas origens nãogregas. no monte Pangeu. Licurgo. Dioniso arrasta Licurgo até os limites de sua loucura. Licurgo recebe uma última punição. Como tivesse executado um ato sacrílego.29). golpear o arbusto maldito trazido pelo Estrangeiro.

já que as filhas de Cadmo.NEA/UERJ Delfos. morte política. adivinho que conhece o remédio para o mal. ele organiza corridas de perseguição 301 . Lisipe. como as Miníades. entre as quais Agave. mas pela força de cavalos. Segundo Trabulsi (2004: 176): Elas são. Outra narrativa é a das Proitidas. as filhas do rei de Argos (ou Tirinto). terá purificado a região. A cidade condenou Licurgo. em As bacantes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . num primeiro momento. o rei culpado é estraçalhado por cavalos selvagens (1988: 29. Embora o dilaceramento do corpo faça parte do ritual dionisíaco. a mãe de Penteu. Nem Licurgo e seus descendentes. Ifinoe e Ifianassa. Assim como as Miníades. a linhagem é destruída e o poder dionisíaco aniquila o poder da casa real em questão. em número de três. que é um homem muito jovem). matam seus filhos. atravessada por pathos. que este número é quase uma constante nesses mitos. como em Bacas. elas não aceitam os ritos de Dioniso. Exposto em meio à paisagem na qual Dioniso parece exercer um solitário poder. condenado por seu pai. também são em número de três. de passagem. como Proitos. o sparagmos aqui não se dá por mãos femininas. Proitos.30). e Melampo cura as mulheres levando o mal até o seu cúmulo de exasperação. Proitos então cede. Elas largam as casas em direção aos grandes espaços abertos. o mal se generaliza e atinge todas as mulheres. elas vagam por toda parte e. Nesta narrativa. como a de Hipólito. embora com alto teor dramático. nem os descendentes de Penteu reinarão mais depois dos eventos sangrentos dos quais foram os protagonistas. Acometidas de mania. Observemos. Teseu. e seu sangue terá restituído a fecundidade à terra. As fontes insistem no fato de que elas são moças púberes (ver o caso de Penteu na peça de Eurípides. recusa-se a ceder uma parte do seu reino ao irmão de Melampo.

se destacam pelas repreensões dirigidas às outras mulheres que abandonam a cidade e vão fazer o papel de bacantes na montanha. em Tebas e em Orcômeno. Leucipe. leopardo. são mortos. as filhas de Mínias. que a parúsia dionisíaca revela seus rigores extremos. as de Proitos e as 302 . E perturba-as com suas metamorfoses: touro. As três Miníades. segundo Eliano. Leucipe. que promete oferecer uma vítima a Dioniso e. que nos fala da recusa de seus ritos por parte das filhas do rei de Orcômeno. colocam. Sob a máscara de uma jovem. enquanto do tear – o objeto técnico que parece justificar a vocação doméstica das Miníades – começa a escorrer leite e néctar pelos montantes. Detienne o narra em Dioniso a Céu Aberto: Mas é em terra beócia. Apavoradas diante de tais prodígios. Elas não lhe dão atenção. depois de matar seu filho. e o primeiro. leão. cronologicamente colocado antes do episódio do Dioniso tebano. com a ajuda de suas irmãs. Aristipe e Alcitoe. Dioniso pode dar livre curso a seu ressentimento. segundo Antonino Liberalis. que balançam. dilacera a carne de seu próprio filho. na região da Beócia. reis. Temos ainda um terceiro documento narrativo. filhas do rei de Orcômeno. dedicandose loucamente às cerimônias do novo deus. as três irmãs se precipitam para o culto de Dioniso. a sorte cai em Leucipo. as três. sortes em um vaso. O castigo dionisíaco recai sobre mulheres ou homens – basta que recusem praticar seu culto: Licurgo e Penteu.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ele exorta as Miníades a não faltarem às suas cerimônias e a não negligenciarem os mistérios do deus.NEA/UERJ com gritos rituais e danças de possessão. Dioniso lhes oferece uma oportunidade de reconhecer sua natureza divina. Arsipe e Alcatoe. ―Sem perda de tempo. Finalmente elas deixam a montanha. Mínias.

O trabalho doméstico é contrastante com a aplicação ao ritual de Dioniso: (. Elas são levadas à montanha. Em Eurípides. onde há uma multidão de mulheres longe das rocas e dos teares por aguilhão de Dioniso‖.MULHERES NA ANTIGUIDADE . pois aos homens pertence o poder político. O romano Ovídio descreve a transformação das filhas de Mínias em morcegos.Só nós na cidade por Báquio dançaremos?‖ Tirésias responde (v. ou se debruçam sobre o pano e estimulam o trabalho das servas (Ovídio: 1983. Mas que ritos seriam estes. no Párodo. dominadas por uma força maniática. conforme descritas 303 . 69). avô de Dioniso e de Penteu. convidam os habitantes de Tebas com gritos para irem à montanha. 195) ―. mas sem anuência.) Somente as Mineides. os outros mal‖. praticados fora e sem o consentimento da cidade? Segundo Dodds: O caráter das festas pode ter variado bastante de uma localidade para outra. demonstra que todos devem acorrer.Só nós pensamos bem.. estas são iniciadas sem iniciação. quanto às mulheres recalcitrantes. num castigo peculiar. O discurso de Tirésias e todo o diálogo entre este e Cadmo. não como verdadeiras menades. dançará a terra toda. são levadas a deixar a casa e a matar os filhos. perturbando a festa com sua intempestiva aplicação a Minerva.. à montanha. o velho rei da cidade. Quando Cadmo pergunta (v. são levadas a experimentar o estado báquico. que possibilita reconhecimento e validação ou não do culto dionisíaco nas cidades respectivas. ressaltando a ligação das três jovens com a casa. quando as bacas. sem a consciência do que estão fazendo. quando Brômio trouxer os tíasos à montanha. em sua casa.NEA/UERJ de Cadmo. O sexo masculino é o primeiro alvo. elas terminam as narrativas impuras. Nos versos 114-119 temos: ―santifica-te. fiam a lã ou tecem os fios. princesas. mas não podem permanecer entre as bacas. que faz com que percam as qualidades de pudor e obediência. em analogia com o morcego. 196) ―. mas é difícil duvidar de que elas normalmente incluíam orgia feminina de tipo extático ou quase extático. todos estão sendo chamados.

potente analogia do poder real. A estas ele reserva o exílio. Terminado o ritual-sacrilégio-sangrento. o que. Harmonia. 272). e o mata. Encontramo-nos novamente frente ao sacrilégio. As mulheres desta tragédia. parte com um futuro promissor pela frente. para a história da cultura. devendo cada parte dirigir-se a lugares diferentes. a família cadméia está desfeita.NEA/UERJ por Diodoro. envolvendo frequentemente – senão sempre – danças da montanha (oreibasia) noturna. Mas como este foi leal ao apelo religioso báquico. carregando sua cabeça até a cidade. filial. cujo poder faz jorrar líquidos das pedras. é que se descortina a verdade e ela consegue. tias do deus.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nem o antigo rei e sua esposa. por fim. que incluem um aumento significativo de força física. configurando a distinção que. Cadmo. podem ficar em solo tebano. e. com requintes de elaboração. Este estranho rito. uma vez na montanha. descrito nas Bacantes. e a ordem de Dioniso é implacável. depois de esforços por parte do pai. Agave. assim como nas outras histórias. já foi encenada frente a milhares de olhos por várias 304 . impuras. Fica nítido que em nenhum momento estes dois grupos femininos chegaram a se misturar. e sem alternativas de redenção. uma potência transmutadora. são oficiantes de estranhos prodígios. que lhes permite dilacerar animais vivos com as próprias mãos. o que não é o caso das filhas. uma fúria assassina. embora estivessem todas na mesma região da montanha. A mãe deste. Apenas então. toda coberta de sangue humano. assume proporções significativas. pretendeu-se estressar sobre a condição feminina submissa e a necessidade de simetria entre as liberdades políticas de homens e mulheres. que lhes estimula a perseguir e destruir Penteu. é praticado por sociedades femininas (2002. o final é funesto para os desafiantes: enquanto Dioniso e suas mulheres partem adiante. O estudo da tragédia aponta a idade do problema: 2400 anos atrás esta questão já esteve colocada numa produção artística amplamente apreciada. sofre de tal confusão sensorial que confunde o filho com um leão. enxergar literalmente o ocorrido. os dois grupos voltaram novamente a configurar unidades distintas. nas últimas décadas. e neste drama. e.

Oxford: Clarendon Press. As Bacas. José Antonio Dabdab. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL: EURÍPIDES. CARPENTER. desagregação pelo abandono destas forças. Carol.E. Erwin R. no entanto contemporâneas a qualquer experiência subjetiva. Os Gregos e o Irracional. Belo Horizonte:UFMG. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. DODDS. visíveis no Menadismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. a discussão mudou de nomes. Wilfred G. destas potências que são arcaicas e imemoriais. CALASSO. 1995. Roberto. PSIQUE – La idea del alma y la inmortalidad entre los griegos. Marcel.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Dioniso a Céu Aberto. Princeton: Princeton University Press. e as figuras femininas também. DETIENNE.381 a 392. São Paulo: Companhia das Letras. Its Developement in Black-Figure Vase Painting. Dionysos in Archaic Greece: an Understanding through Images ROHDE. Desde então. Ellen. 1983. São Paulo: Hucitec. 1995. Pandora – Women in Classical Greece.NEA/UERJ gerações. pp. 2002. Cornelia Isle e WATSON. qual seja. Poder e Sociedade. ―Maenads‖. 1986. 2004. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS: BENSON. 1988. Erwin. in REEDER. 305 . Dionisismo. Mexico:Fondo de Cultura Económica. mas o sintoma é o mesmo. 1991. TRABULSI.. KERENYI. São Paulo: Escuta. Thomas. Dionysian Imagery in Archaic Greek Art.

da pesquisa de conclusão de curso orientada pelo Prof. 1999: 161). 2008: 42-44. 2006: 73. Pode-se dizer que. 2003: 111-122. 2003: 117). [re]invenção e [re]construção de um suposto ―passado celta‖. por exemplo. CUNLIFFE. Foi nesse período que boa parte dos mitos modernos em relação aos celtas foram sendo criados como. Adriene Baron Tacla. 351 A celtomania tem suas origens em movimentos intelectuais do século XVIII e XIX (cf. NEREIDA (UFF) e colaborador do NEA (UERJ). 1986: 17). a ideia. Tal fenômeno vem ganhando proporções cada vez maiores nos dias atuais. sobretudo por um público não-acadêmico. CUNLIFFE. podemos claramente identificar 350 306 . igualmente. [re]descoberta.ªDrª.NEA/UERJ IDENTIDADES. especialmente devido à celtomania 351 e. A celtomania pode ser classificada como um movimento de busca. oficinas e debates realizados em eventos acadêmicos e. O presente capítulo foi escrito a partir de comunicações. RELAÇÕES DE GÊNERO E CONSTRUÇÕES DISCURSIVAS: AS REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES CELTAS NOS TEXTOS GREGOS E LATINOS Pedro Vieira da Silva Peixoto350 Havia [entre os celtas] uma harmonia entre os papeis dos homens e das mulheres não centrada na superioridade de um sobre o outro. em parte. ao fortalecimento dos movimentos Possui graduação em História pela UFRJ. e mais especificamente. 1997: 197.MULHERES NA ANTIGUIDADE . afirmações dessa natureza tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo do século XX até os dias atuais. sob a orientação da Prof. COLLIS. de que teriam sido os celtas. mas na igualdade com a qual cada um deles poderia sentir-se confortável (MARKALE. É membro do LHIA (UFRJ). Ao longo de todo o século XX e primeira década do século XXI. os responsáveis pela criação dos monumentos megalíticos europeus (COLLIS. Fábio de Souza Lessa.Dr. ainda. os druidas. ao longo das últimas décadas. A epígrafe utilizada neste capítulo é intencional: ela foi extraída de um dos livros mais vendidos entre aqueles que se dedicam a discutir a temática das mulheres nas sociedades célticas. e atualmente é mestrando do PPH da UFF. GUYONVARC‘H & LE ROUX. completamente anacrônica.

Como busquei já demonstrar em outras ocasiões (PEIXOTO. festivais de música. (3) o anacronismo. são advindas. Em linhas gerais. Isto porque boa parte das imagens representadas no senso comum de ideias. seitas e grupos pseudo-religiosos. por exemplo.AMIM. de fazer um alerta: ainda hoje a postura historiográfica que é amplamente divulgada e que prevalece – inclusive. Para aqueles não familiarizados com a produção historiográfica relacionada às dinâmicas de gêneros entre os celtas. encontros. tradicionalmente tendem a ser percebidas como meras figuras passivas e sem importância. 2006a: 165-172. sobretudo. que intervém em interesses masculinos. enxergavam nas mulheres celtas um símbolo de resistência. além de terem um grau considerável de anacronismo e fantasia. Gostaria. todos reclamando por uma suposta herança celta comum. mas também exercem controle e dominação (EHRENBERG. como aquelas que giram em torno de um suposto sistema matriarcal celta. vem. no Brasil (cf. iguala-se aos homens em diversos aspectos. (2) a ausência de qualquer preocupação histórica e/ou metodológica e. que se faz ser obedecida. muitas vezes. um aumento significativo de eventos. como veremos a seguir. ainda nos dias atuais. majoritariamente. portanto. em linhas gerais. acredito que argumentações de tal natureza. uma sociedade na qual as mulheres não somente possuem igualdade em relação aos homens. sobretudo. 2010). 307 . Condren (2002) e Berresford Ellis (1995) e identificar um visível reflexo dessa postura mencionada. de acordo com três fatores básicos: (1) o fanatismo. basta direcionar o olhar. isto é. as quais. 1989: 63). publicações impressas ou digitais. para produções como as de Markale (1986). primeiramente. a celtomania pode ser qualificada. 2006b: 13) – é aquela que busca argumentar que os celtas teriam vivido em uma espécie particular de sistema ginecocrático/matriarcal.NEA/UERJ feministas que. força e combate contra uma suposta opressão e tirania masculina. e que. participa de disputas. associações e sociedades. as mulheres gregas. em contraposição as suas ―vizinhas‖ mediterrâneas. por fim. a respeito das mulheres celtas. a mulher celta que pega em armas. na maioria dos casos. A meu ver. da documentação escrita na Antiguidade.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de um tratamento não crítico e descuidado em relação à documentação disponível para o estudo de tais sociedades.

ao invés de meramente desconsiderar tais relatos. os relatos gregos e latinos apresentam-se a nós como importante corpus documental para o estudo daquelas populações. ações sociais – criados no Mediterrâneo sobre tais mulheres. outro tipo de documentação de natureza distinta.NEA/UERJ inclusive no que diz respeito à força física e coragem. como veremos a seguir. Plutarco.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Estrabão. isto é. Tácito. Logo. 308 . políticas. quais as relações entre tais discursos e as dinâmicas existentes entre o Mediterrâneo antigo e as comunidades celtas? As mulheres celtas nos textos gregos e latinos Devido ao fato de as sociedades da Europa da Idade do Ferro. Esses textos. em autores como. esse esteriótipo de representação tem suas origens na Antiguidade. algumas dificuldades e desafios singulares. entretanto. devido ao fato de trazerem sempre um olhar de fora. não é. como muitos pensam. comumente designadas como celtas. não nos terem deixado registros escritos significativos – salvo algumas poucas inscrições em ocasiões particulares –. econômicas e culturais distintas daquelas das populações que são por eles relatadas (GREEN. unicamente. como a cultura material –. apresentam-nos. fruto de uma invenção romântica moderna – ao contrário. Amiano Marcelino. ainda. comprovações empíricas a respeito de como as relações de gênero se davam entre os celtas. de indivíduos inseridos em dinâmicas sociais. dentre outros. Diodoro da Sicília. nesses relatos. parece-me que os textos gregos e latinos possam e devam ser explorados pelo historiador em sua análise: bastalhe que se posicione frente a tais documentos encarando-os como produções culturais (WELLS. igualmente. 2002: 109). WELLS. Em vez de buscar. em especial. gostaria de propor um esforço contrário: desenvolver uma análise crítica e problematizada a respeito dos discursos – entendidos aqui como práxis. ou considerá-los inadequados para os estudos célticos – privilegiando. apresento algumas das questões cujo debate gostaria de poder estimular: como as mulheres celtas são representadas pelos autores antigos e. 2002: 105) construídas a partir de um Mediterrâneo que se pensa ―civilizado‖ em relação a sociedades outras. por exemplo. Assim sendo. então. 2004: 09.

309 . não vem de uma unidade e não é igualmente forjada – ela varia ao longo dos tempos (cf.NEA/UERJ diversas. a respeito das mulheres celtas. Para não alongar muito este texto. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. É nesse sentido que gostaria de propor um estudo comparado dos relatos gregos e latinos. de descobrir uma ―essência celta‖ nos relatos trabalhados. por exemplo. chama a ajuda de sua esposa. em batalha.CUNLIFFE. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. uma vez que tal comparação torna-se uma possibilidade interessante que permite ampliarmos e enriquecermos nosso foco de análise. 2003: 139-145). 2008: 12-3). então. ou o que caracterizaria os celtas como tais. perceber como as obras selecionadas em meu corpus documental constroem os regimes de historicidade do ―feminino celta‖. Em outras palavras. que possuímos nos dias atuais. 12. portanto. nem tampouco de articular de forma apressada o semelhante e o diferente. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se. até mesmo porque comungo com a opinião de que a noção do que é ser ―celta‖. Autor Amiano Marcelino Obra Rerum gestarum libri Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. Ao confrontar os escritos. assim.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Trata-se. como é o que ocorre nos discursos que dizem respeito aos celtas. organizei o seguinte quadro de referências que resume e apresenta alguns dos principais comentários antigos. (XV. Não se trata. um gaulês. buscando. FILHO. de buscar identificar e perceber múltiplas formas de como se pensar a construção das ―mulheres celtas‖ como objeto/fenômeno discursivo. consideradas como vivendo em estado de barbárie. como se construiu ao longo dos anos aquilo que entendemos por ―mulher celta‖ (LESSA. pois tais mulheres golpeiam sem cessar. desejo discernir comparáveis.

mas elas também a eles se igualam em força física.‖ (IV.NEA/UERJ Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Estrabão Gheographiká (gr. existe uma ilha habitada somente por mulheres. estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. navegavam em certas ocasiões para o continente. por sua vez. elas mesmas.‖ (V. Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. 39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis.6) Citando Possidônio. eles possuem suas mulheres as quais.)/ Geographia (lat) (V. Nenhum homem. colocava os pés em tal ilha. 4. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano. contudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE .me refiro ao fato de que suas tarefas são exercidas ao contrário.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . 310 . as mulheres. por sua vez.‖ (IV. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. 4.

em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. no final.)/ De Mulierum Virtutibus (lat.) (III. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. Os dois morrem. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião 311 . um dos mais poderosos homens da Galácia. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. não tendo conseguido engravidar. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria. Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. (XXII) – Relato sobre Chiomara. esposa de Ortiagon.NEA/UERJ Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matálo. O marido. (XXI) – Relato sobre Stratonice que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . inclusive em questões militares. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. em segredo.

rainha dos icenos. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. A troca de fato se dá. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. mulher que tomou o poder. após a morte de Prasutagus. porém Chiomara. visando assim a obter riquezas em troca. provando.. a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales romano. toma a 312 . após os romanos. Boudicca. seu marido. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido.MULHERES NA ANTIGUIDADE . (III. chefe dos Catuvellauni. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. (XIV. terem derrotado os gálatas em 189 a. o centurião negocia a devolução da mulher aos gálatas. sua própria honra e valor ao seu marido. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de sua tribo.C. ela dá a última palavra. 35) Relato sobre Boudicca. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. assim.

descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. em comando. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. Deve-se ter em mente. igualmente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . ainda. o poder de liderança e comando militar – havendo. quase sempre. que tais relatos constituem-se em discursos e.elas. mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. violentas. . perigosas. causando.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. que tais representações construídas em relação às 313 .essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. Cartimandua e Boudica). seriam bastante imprevisíveis. Camma. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam. . Estrabão. portanto. primeiramente. portanto. indomáveis. na concepção dos autores. Essas características. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. Plutarco e Tácito). assumindo para si funções vitais políticas.‖ Pode-se. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. mencionadas por Tácito). destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. dessa forma. (I. fazem parte de discursos particulares. contudo. em geral. assassinas e vingativas. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo.

NEA/UERJ mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. 1996: 18). propriamente ditas.) presume algum antecedente oriental. Dessa forma. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. que é difundido. tanto através da escrita. Isto é. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia‖ (SAID. com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito das mulheres celtas. 2003: 12) e. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. inclusive. mais enquanto discursos possíveis do que. defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres.. constituem-se como representações – com implicações políticas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID.. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. algum conhecimento prévio do Oriente. os celtas. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. antes de tudo. um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo. Nesse sentindo. de certa maneira. existem nos textos gregos e latinos. em sua maioria. 1976: 114). consequentemente. poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: ―Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. como pela tradição e educação desses indivíduos. sociais e culturais. 1996: 33). Ou seja. 314 . 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. Não nos falta. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. 1996: 32). se dão. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente.

onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. autocontrolados e civilizados. 1998: 100) 352 315 . por isso. quanto como. a um determinado grupo social. como construções culturais (WELLS. necessitavam estar sob o controle masculino352. os celtas só podem ser pensados como os Outros. 1999). a meu ver. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. Em outras palavras.NEA/UERJ ―realidades concretas‖. consequentemente. delineado a partir daquilo que tais homens não eram e. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. 2002: 105). acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. (BLUNDELL. antes de tudo. a uma tradição. Embora tal afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. HARTOG. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. indivíduos pertencentes a uma sociedade. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor Ressalta-se. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. Esses discursos. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. ainda. mas. sim. 2001: 222. tanto como indivíduos. Assim. por sua vez. especialmente. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. também necessitam. Esta definição. devam ser entendidos. destacando seus atributos de barbárie. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. seria sustentada pela imagem do outro. construir noções próprias de identidade. por sua vez. portanto.

Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural.MULHERES NA ANTIGUIDADE . ainda. ser aplicado aos romanos. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas353. 1998: 95). ou seja.. tratam de mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. na visão dos autores antigos. A construção de tal alteridade. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . a mais comum na arte imperial romana.NEA/UERJ possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. por sua vez. o mesmo princípio poderia. Segundo Iain Ferris (2003: 54). Isto. Conclui-se daí que. O autor analisa. de construírem uma noção particular de barbárie. o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. consequentemente. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. portanto. [. a imagem da mulher bárbara é. não estando. atualmente. entendido aqui como não-civilizado. A autora demonstra que.. de fato.] mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da ‗alteridade‘. Parece-me que. na concepção desses autores. 2003: 79). por sua vez. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. contudo. de certa maneira.sejam elas bárbaras ou não. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. limitadas à interioridade do espaço doméstico. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. 353 316 . 2003: 55-60). dentro da concepção clássica.

39) [referindo-se aos Lígures] ―Para ajudá-los nos momentos mais difíceis.3) [em relação aos habitantes da Gália]“Considerando os costumes relativos a homens e mulheres . Autor Obra Amiano Marcelino Rerum gestarum libri Diodoro da Sicília Bibliotheca historica Comentários feitos pelos autores em suas obras com referências. nem mesmo uma tropa inteira de estrangeiros pode enfrentá-los. chama a ajuda de sua esposa. (V.‖ (V. 33) ―As mulheres gaulesas não são somente iguais aos homens em tamanho. eles possuem suas mulheres as quais.MULHERES NA ANTIGUIDADE .‖ (IV. mas elas também a eles se igualam em força física.me refiro ao fato de 317 . estão tão acostumadas aos labores nas mesmas bases que os homens. 4. misturando chutes com outros golpes e acertam os inimigos com a força de uma catapulta. por sua vez. por exemplo. 2003: 80). em batalha. um gaulês. 1) – O autor menciona que as mulheres celtas são tão ou mais fortes que os homens e diz que se.NEA/UERJ influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. (XV. 12. pois tais mulheres golpeiam sem cessar.

Plutarco diz que naquela ocasião eram as mulheres celtas que teriam poder de decisão e julgamento. elas mesmas. existe uma ilha habitada somente por mulheres. navegavam em certas ocasiões para o continente.6) – Relato sobre a presença de mulheres celtas junto aos mercenários celtas utilizados pelos cartagineses como reforço contra as tropas romanas. descreve que próximo à saída do rio Loire no oceano.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Estas são tomadas por um deus [nomeado pelo autor como Dionísio] e realizam performances sagradas. por sua vez. em tudo que dissesse respeito aos guerreiros celtas. contudo. as mulheres.‖ (IV.)/ Geographia (lat) que suas tarefas são exercidas ao contrário. 4. (III.)/ De Mulierum 318 .NEA/UERJ Estrabão Gheographiká (gr. de maneira oposta ao que ocorre entre nós – este é um dos costumes que eles compartilham com demais outros povos bárbaros. (XX) – Relato sobre Camma: mulher que tem seu marido Plutarco Gynaikôn Aretái (gr. onde tinham relações sexuais com os homens e retornavam a seguir a sua ilha. Nenhum homem. colocava os pés em tal ilha.6) Citando Possidônio. inclusive em questões militares.

(XXI) – Relato sobre Stratonice que.. Chiomara teria sido feita prisioneira por um centurião romano.) morto (Sinatus) por um pretendente (Sinorix) e. esposa de Ortiagon. sob a liderança de Gnaeus Manlius Vulso. em segredo. após ter sido forçada pela sua família a se casar novamente. com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela. um dos mais poderosos homens da Galácia. porém Camma regozija-se ao ver Sinorix morrer primeiro e por seu plano ter funcionado. após os romanos. (XXII) – Relato sobre Chiomara. no final. o centurião negocia a devolução 319 . terem derrotado os gálatas em 189 a. O marido.C. Depois de ter se aproveitado de Chiomara. fazendo-lhe ingerir uma libação envenenada após ela mesma ter bebido da mesma taça. utiliza-se da astúcia para criar um plano: ela tenta convencer o marido de ter um filho. acaba por consentir e Stratonice cria a criança como se fosse nascida dela própria.NEA/UERJ Virtutibus (lat. ela decide aceitar as investidas de Sinorix somente para que durante o rito de união ela possa matá-lo. não tendo conseguido engravidar. Os dois morrem.MULHERES NA ANTIGUIDADE .

A troca de fato se dá. a qual Chiomara pessoalmente leva até seu marido. sua própria honra e valor ao seu marido. (XIV. Boudicca. 35) Relato sobre Boudicca. após a morte de Prasutagus. dizendo que a morte do romano seria justificada uma vez que o correto seria que somente um único homem permanecesse vivo após ter tido intimidades com ela. faz um sinal com a cabeça e é obedecida: um guerreiro imediatamente corta a cabeça do romano. assim. rainha dos icenos. Sendo questionada por Ortiagon em relação a suas atitudes. mulher que tomou o poder. visando assim a obter riquezas em troca. no exato momento em que o centurião se despede dando as costas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a liderança e o governo da tribo dos Brigantes e que traiçoeiramente capturou Caratacus. seu marido. então líder que organizava uma frente de oposição a Roma. 45) Narra a história da Rainha Cartimandua. e os abusos e humilhações públicas aos quais os romanos a submeteram junto com suas filhas e as pessoas de 320 . chefe dos Catuvellauni. ela dá a última palavra. porém Chiomara. (III.NEA/UERJ Historiae Públio Cornélio Tácito Annales da mulher aos gálatas. provando.

elas. seriam bastante imprevisíveis. assumindo para si funções vitais políticas. na concepção dos autores.‖ Pode-se. em comando. portanto. militares e de mando (a exemplo das mulheres celtas. estar restritas somente aos melhores indivíduos do sexo masculino. assassinas e vingativas. destacando que para os bretões serem liderados por uma mulher seria algo comum. violentas. o poder de liderança e comando militar – havendo. Cartimandua e Boudica).MULHERES NA ANTIGUIDADE . notar que a documentação textual antiga constroi algumas das seguintes características no que diz respeito às dinâmicas entre gêneros nas sociedades celtas: . mal aos homens (conforme os relatos de Chiomara. uma vez que eles ―não fazem distinção de sexo no que diz respeito à sucessão no poder/liderança. Camma. igualmente. perigosas. uma clara inversão dos papeis de gêneros (de acordo com o que é comentado por Amiano. indomáveis. em geral. mencionadas por Tácito). (I. . 321 . descritas por Plutarco e das mulheres bretãs in imperiis. quase sempre. toma a liderança e o comando militar e inicia uma das maiores rebeliões dos bretões contra a ocupação romana. como era no mundo Mediterrâneo – por exemplo. causando.as mulheres nesse tipo de sociedades desempenhariam as funções de gênero que deveriam.essas mulheres poderiam gozar de um altíssimo poder de liderança. . 16) Narra a rebelião dos bretões sob a liderança de Boudicca. dessa forma. Plutarco e Tácito). Estrabão.NEA/UERJ De vita et moribus Iulii Agricolae sua tribo.

poderia também fazer uso de algumas colocações de Edward Said repensando-as em relação ao nosso contexto de análise: Todo aquele que escreve sobre o Oriente (. Nesse sentindo.) presume algum antecedente oriental. ao qual ele se refere e no qual ele se baseia (SAID. Partindo de alguns pressupostos colocados por Said (1996) em seu estudo em relação ao Oriente. algum conhecimento prévio do Oriente. 1996: 32). defendo que as diversas semelhanças presentes na documentação que dizem respeito a essas mulheres. conduzir erroneamente à ideia de um matriarcado celta. 1996: 32) e que justamente por isso acaba por dizer mais a respeito daquele que o elabora do que daquele que é relatado (SAID. fazem parte de discursos particulares. primeiramente. se dão.NEA/UERJ Essas características.MULHERES NA ANTIGUIDADE . um conjunto de anedotas que são transmitidas das mais variadas formas possíveis.. que é difundido. inclusive. como pela tradição e educação desses indivíduos. que tais relatos constituem-se em discursos e.. ―público‖ ou de ―senso comum‖ da audiência Mediterrânea em relação aos celtas (NASH. consequentemente. constituem-se como representações – com implicações políticas. representando os celtas como os outros (CUNLIFFE. pela existência do que poderíamos chamar de um conhecimento ―geral‖. Eis que uma leitura não crítica dos autores greco-romanos pode. que tais representações construídas em relação às mulheres celtas mais do que um fiel retrato sobre as relações de gêneros nestas sociedades. Dessa forma. 1996: 33). ainda. diga-se de passagem – de uma (dupla) alteridade – do ―outro‖ mulher e do outro não-civilizado. acredito ser possível fazer uma ponte entre a argumentação desenvolvida pelo autor em relação ao Oriente. Deve-se ter em mente. sociais e culturais. 2003: 12) e. dentre eles o da necessidade de se buscar entender o orientalismo enquanto um discurso (SAID. em sua maioria. portanto. Não nos falta. 1976: 114). com o que ocorre nos relatos greco-latinos a respeito 322 . 1996: 15) e um sistema de conhecimento sobre o Oriente (SAID. como detentores de diversas marcas e traços de alteridade. tanto através da escrita. que por sua vez está baseado na exterioridade de quem o cria e representa (SAID. contudo. 1996: 18).

antes de tudo. Creio que os relatos antigos possam ser encarados como um importante meio através do qual os autores mediterrâneos buscavam. ser entendidos na medida em que estejam inseridos dentro das dinâmicas de produção de identidades e alteridades da Antiguidade: enquanto bárbaros. Esses discursos. 1999). destacando seus atributos de barbárie. a meu ver.NEA/UERJ das mulheres celtas. 2001: 222. tanto como indivíduos. devem ser caracterizados de um modo que facilite sua compreensão e identificação. com os valores e ideologias daqueles que escrevem. 2002: 105). mas. Embora tal Ressalta-se. tais textos acabam sintetizando valores e ideologias que pouco se parecem com a desse ―outro‖ que é relatado. como construções culturais (WELLS. autocontrolados e civilizados. os celtas que a nós são apresentados pelos autores antigos podem ser pensados a partir do mesmo problema que Said discute em seu estudo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Esta definição. de certa maneira. quanto como. indivíduos pertencentes a uma sociedade. ―realidades concretas‖. especialmente. Ou seja. existem nos textos gregos e latinos. a um determinado grupo social. propriamente ditas. Sue Blundell (1998: 100) argumenta que as mulheres na Antiguidade Clássica eram vistas como criaturas selvagens e desenfreadas e. sim. delineado a partir daquilo que tais 354 323 . ainda. Isto é. antes de tudo. que dentro deste modelo os homens eram idealmente vistos como ativos. Assim. construir noções próprias de identidade. mais enquanto discursos possíveis do que. HARTOG. por sua vez. portanto. por isso. devam ser entendidos. também necessitam. diferentes do Nós-Mediterrâneo e. onde os indivíduos pertencentes à sociedade que elaborava tais discursos pudessem olhar e perceber aquilo que eles próprios tinham em comum entre si (HALL. os celtas só podem ser pensados como os Outros. seria sustentada pela imagem do outro. Em outras palavras: um dos propósitos das digressões ―etnográficas‖ nos textos antigos é a de manter os hábitos dessas populações ―não-civilizadas‖ como um espelho. por sua vez. os celtas. Em outras palavras. necessitavam estar sob o controle masculino354. a uma tradição. com exemplos e narrativas de supostos acontecimentos relacionados às mulheres celtas. acredito que os relatos antigos que tratam das mulheres nas sociedades celtas ou das sociedades da Idade do Ferro como um todo.

o quão mais bárbara uma determinada comunidade fosse. maior seria o poder das mulheres em tais sociedades (HALL.sejam elas bárbaras ou não. contudo. tratam de homens não eram e. de fato. portanto.NEA/UERJ afirmação tenha sido pensada pela autora para o modelo clássico proposto de reclusão feminina no interior do espaço doméstico. Parece-me que. atualmente. articulando tais representações com o discurso de barbárie construído pelo poder imperial romano (FERRIS. o mesmo princípio poderia. Segundo Iain Ferris (2003: 54). ou seja. a mais comum na arte imperial romana. dentro da concepção clássica. 1998: 95). não estando. (BLUNDELL. limitadas à interioridade do espaço doméstico. ser aplicado aos romanos. Embora tanto Blundell (1998) quanto Hall (1989) centrem suas análises essencialmente no caso grego. algumas cenas da coluna de Trajano em que mulheres da Dácia (território. o que mais caracterizaria tais mulheres bárbaras em contraposição às mulheres gregas ou romanas é o fato de que as ―celtas‖ seriam deixadas em um estado social de ―selvageria‖ mais próximo do natural. consequentemente. A construção de tal alteridade. de certa maneira. por sua vez. na concepção desses autores. tal aspecto acaba por fornecer indiretamente as bases para que melhor possamos identificar e compreender o suporte ideológico no qual os diferentes discursos apresentados pelos autores antigos sobre as mulheres celtas se fundamentam. ainda. René Rodgers (2003: 76) também defende que um aspecto importante da ideologia romana é a concepção das mulheres como outro por excelência . 2003: 55-60). consequentemente. far-se-ia mais visível em textos relacionados a sociedades bárbaras que. correspondente à Romênia) aparecem torturando prisioneiros romanos. 324 . em seu estudo a respeito das representações dos bárbaros na coluna de Trajano. entendido aqui como não-civilizado. de construírem uma noção particular de barbárie. as mulheres apareciam primeiramente como o outro por excelência. a imagem da mulher bárbara é. Igualmente válido parece ser o argumento levantado por Edith Hall (1989) em seu estudo sobre como os gregos foram capazes de inventar os bárbaros. A autora demonstra que. na visão dos autores antigos. no tocante à representação de figuras femininas não-divinas355.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1998: 100) 355 O autor analisa.

demonstrou como as diversas narrativas gregas que tratam das práticas alimentares de outras populações. 2003: 80). acabam por construir um mecanismo baseado na distinção e identidade. Isso seria uma marca/ indício de um estágio de não civilidade e atraso por parte daquelas respectivas sociedades. na concepção dos autores helenos e latinos. Isto é. ou lógica argumentativa. influenciava a representação romana de tais mulheres (RODGERS. sempre situados à margem do universo. por sua vez. Defendo. situando.. o mesmo mecanismo. Conclui-se daí que: [. esses grupos como selvagens ou civilizados graças aos seus costumes alimentares (SAÏD. Por outro lado. Em outras palavras. bárbaros. assim. visando a facilitar a compreensão de minha argumentação. vê-se. o que. por excelência. Todos esses aspectos serviriam de justificativa e explicação para que as mulheres celtas fossem relatadas assumindo funções particulares e atuando em espaços sociais que são concebidos. portanto. acabaria por resultar em ações e condutas inimagináveis para uma mulher.. sendo vistas como o contrário aos ideais romanos de feminilidade. também. em seu estudo sobre a utilização de figuras femininas e a selvageria nos relatos gregos de Heródoto a Diodoro da Sicília e Estrabão.NEA/UERJ mulheres exercendo importantes funções de poder (RODGERS. então. 1985: 139-150). como restritos ao universo masculino. 2003: 79). Suzanne Saïd (1985).]mulheres em posições de poder podiam somente ser percebidas através das lentes da „alteridade‟. Isto. o mesmo acontece em relação às mulheres celtas. no caso. de fato. que as mulheres celtas figuram nos relatos antigos como portadoras de virtudes importantes na concepção daqueles autores. por sua vez. tal como aos costumes e ritos de comensalismo. Elaborei. uma tabela que resume e retoma alguns dos principais aspectos apresentados pela documentação estudada: 325 .MULHERES NA ANTIGUIDADE . é construído igualmente no que diz respeito às relações de gênero. as mulheres não estariam submetidas às devidas regras sociais e aos mesmos espaços de gênero que as mulheres civilizadas. que.

ao contrário de virtudes. portanto.NEA/UERJ Tabela comparativa entre os atributos das mulheres celtas construídos pelos autores: Mulheres atributos/ com Mulheres que possuem Virtudes ou funções igual ou maior autoridade atributos que os homens femininos encontrados nestas mulheres não femininas Diodoro Sim – são dotadas de atributos físicos Não há referência. excelência as criação na dos de consequentemente mulheres gênero. carinho e que há uma inversão encontram-se dos espaços invertidas. BH. não se constituindo como atributos desejáveis em uma ― mulher idealizada‖. BH.356 comparáveis aos dos homens e estão a tarefas acostumadas exercer masculinas. 39). 32) e o fato de as mulheres ajudarem os seus maridos por estarem acostumadas a trabalhar em níveis iguais aos deles (DIODORO. Estrabão Sim . V. A coragem/ espírito destemido (DIODORO.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nenhum. parecem ser mais as marcas de uma alteridade presente nestas mulheres e. assumiriam filhos. cargos e funções de poder.na medida em Sim – já que as funções Zelo. 356 326 . V.

si só. inseridos em um contexto sócio-político-econômicocultural distinto (GREEN. as circunstâncias. WELLS. Boudicca o autor relata ser um costume comum homens serem liderados por mulheres na guerra. o marido acima em os homens de Chiomara lhe de qualquer coisa. senso questões palavra final em debates. no caso de de Boudicca. obedecem imediatamente e fidelidade ela dá a última palavra na extrema em todas discussão com seu marido. na verdade. assuntos militares.NEA/UERJ Plutarco Sim – mulheres Sim – mulheres são a Sabedoria. decidem públicas. 2002: 109). 2004: 09. negociações intervêm disputas. Deiotarus segue e obedece cuidado para com e às indicações de Stratonice.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Nem tampouco é estranho que esses autores. mais respeito às sociedades que as escreveram do que propriamente às sociedades que são por elas relatadas 327 . não me parece estranho que as principais virtudes destacadas pelos autores clássicos em relação às mulheres celtas estejam perfeitamente em diálogo com a mensagem que eles buscavam transmitir e com suas próprias concepções de gênero. Sendo assim. Assim sendo. relatem essas comunidades a partir de um universo e daquilo que conheciam e com os quais estavam familiarizados. reinando sobrevalece com o auxílio a família. de justiça. Tácito Sim – mulheres Sim – Cartimandua tenta Senso de justiça e o marido e cuidado para com lideram e comandam dominar homens. defendo a hipótese de que os relatos antigos das mulheres celtas dizem. no caso em alguns casos por de Roma.

NEA/UERJ (cf. com este volume. 1995: 153. cultura material. é uma caricatura. uma matrona romana e que. enfatizar que aos olhos do Mediterrâneo. ainda que pequena sob diversos aspectos. para a necessidade de entender-se a categoria ―gênero‖ como um constructo sociocultural. 251. Contudo. 2002: 109) e que manipulavam. espaço e grupos sociais. portanto. os celtas são bárbaros por excelência e tal fato fica igualmente visível. tais diferenças tão gritantes provavelmente causaram certo impacto entre os autores mediterrâneos não familiarizados com algumas instituições e práticas sociais. ARNOLD. portanto. 2003: 11). resulte em uma ginecocracia. 1989: 152. de certa forma. 253). inclusive. Minha intenção de contribuição. seja a variedade de papeis possíveis de serem desempenhados pelas mulheres bem como o modo como algumas mulheres específicas foram capazes de se inserir em espaços privilegiados e desempenhar funções. nesse sentido. a partir do que os autores antigos descrevem sobre as interações entre gêneros nessas sociedades. resume-se. pode-se. fazerem dialogar documentos de diferentes naturezas (relatos clássicos. o estereótipo deve ser sempre generalizado. Consequentemente. 357 328 . que busca. comumente. embora ainda tenha certa base na realidade (CUNLIFFE. WEELS. parece ser possível argumentar que a maior diferença existente entre o mundo greco-romano e os celtas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . observar haver um contraste nítido nas dinâmicas de papeis de gênero desempenhados por uma mulher gaulesa. acredito. Tentei. em uma tentativa de A partir de uma análise mais ampla. mais efetivamente. masculinas. O que surge. naturalmente. sem que isso. tais construções devido a motivações das mais variadas357. espero ter sido capaz de chamar a atenção. 1985: 150). também. 2002: 147. documentação medieval irlandesa) em alguns casos. SAÏD. (RANKIN. dentro de uma metodologia comparativa. e como todas as caricaturas. indiretamente a partir de um estudo de caso específico – a representação das mulheres celtas nos textos gregos e latinos –. ainda. que tais representações não eram completamente inventadas – elas se baseavam em uma realidade transmitida e transformada por indivíduos que não entendiam a dinâmica interna das sociedades as quais retratavam (EHRENBERG. seletivo e exagerado. em relação a uma esposa ateniense do Período Clássico ou. que possui variabilidades de acordo com o tempo. Assim. por exemplo. ainda.

H. de acordo com diferentes momentos de sua história. a alteridade da alteridade. por conseguinte. The Annals. até mesmo no âmbito de uma mesma sociedade. Trad: J. Oxford: Oxford University Press. London: Loeb Classical Library. S. Acredito. assim. III).MULHERES NA ANTIGUIDADE . que uma definição concisa e condizente pode ser encontrada em G. The Histories. TACITUS. Geography (Vol. Trad: Alfred John Church e William Jackson Brodribbb. 2000. II). Levene. Trad: Frank Cole Babbitt.02. III) Trad: C. C. Trad: Anthony R. na visão daqueles que as relatam. o outro mulher dentre os outros bárbaros e. Dísponível em: http://www. cultural e discursivamente produzido‖. Trad: W. detentoras de marcas dessa ex-centricidade. STRABO. DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL AMMIANUS MARCELLINUS. On the Bravery of Women. Trad. Library of History. nada mais do que um mero reflexo da condição de não-civilidade das sociedades às quais elas pertencem. DIODORUS SICULUS. 1917.: Horace Leonard Jones. Oldfather. History (vol. ainda. 1997. ______.tufts. Birley. textuais ou imagéticos). 329 .edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.NEA/UERJ demonstração de que as noções de gênero são culturalmente construídas através de discursos (orais. 1931. é social. (Vol. assim. 1935. Fyfe e D. variando segundo as sociedades ou. London: Harvard University Press.perseus. São. London: Loeb Classical Library. London: Loeb Classical. ______.00 78 (Acessado pela última vez em 11 de maio de 2010). Rolfe. Frainer Knoll (2006: 2): ―o gênero. ___________. Agricola. Oxford: Oxford University Press. (Vol. 1999. Moralia. Books 14-19). assim como toda identidade. In: PLUTARCH. I. as mulheres celtas que são representadas nos diversos textos gregos e latinos da Antiguidade são. H. Portadoras de virtudes importantes ou não. consequentemente.

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Pudentila. escrito por Apuleio. também orientado por esta professora. as matronas e as relações de gênero entre os romanos do período em que foi escrita. Ainda como nos lembra Vincent Hunink (1998: 275). Tudo isso torna Apologia e sua caracterização de Pudentila. É importante ressaltarmos que os textos da literatura romana são dominados pelo universo masculino e Apologia não foge desta característica. extremamente interessante como documento para o tema.MULHERES NA ANTIGUIDADE . mais conhecida como Apologia. 149). rica viúva de Sicinio Amico em seu primeiro casamento e casada pela segunda vez com escritor Apuleio.NEA/UERJ MULHER E CASAMENTO EM ROMA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATRONA PUDENTILA Profª Doutoranda Semíramis Corsi Silva 358 Introdução O objetivo deste texto é apresentar aspectos das matronas e do casamento romano através do estudo sobre Pudentila. como Messalina e Agripina. reflexões e considerações posteriores em torno do objeto de estudo do texto. procurando destacar as diferenças a partir do reconhecimento da realidade histórico-social. uma matrona real. na literatura latina poucas mulheres sobressaem-se como indivíduos ou. como Lésbia de Catulo e a lendária Casta Lucrecia. De acordo com Lia Zanotta Machado (1998: 107-108). Ao nos propormos analisar Pudentila em uma perspectiva dos estudos de gênero estamos preocupados em perceber a mulher em suas relações com o homem. a estas informações foram acrescidas leituras. Profa. Algumas informações deste texto são fruto de nossas pesquisas de Mestrado. ou ao extravagante e cruel. a metodologia dos estudos de gênero Aproveitamos este espaço para agradecer o apoio constante de nossa orientadora de Doutorado. as mulheres romanas em destaque estão ligadas à poesia e as lendas. como expressa Moses Finley (1991. trazendo-nos fortes impressões sobre uma mulher romana. Nosso documento de pesquisa trata-se da obra Pro Se de Magia Liber. discurso de autodefesa diante da acusação de práticas mágicas. Margarida Maria de Carvalho (UNESP/Franca). Dra. 358 332 . e referências para compreendermos aspectos sobre os casamentos. a matrona Pudentila.

Assim. a família do marido falecido de Pudentila. Apuleio. Já os casos de promessa de casamento entre o irmão de um homem e sua viúva eram comuns na antiga Roma. LXXII. relacionando as ações femininas com as dos homens e seu contexto histórico. Antes de tratar da situação de Pudentila propriamente. por isso. acusou Apuleio de estar interessado na riqueza da viúva e. 1954). Apuleio também nos informa que a viúva negava-se a contrair novo matrimônio e que tinha estabelecido um contrato de futuro casamento. Sicinio Claro. rompendo a noção biológica do sexo. Pedro Paulo Funari (1995: 180) sugere uma mudança na tradicional metodologia de trabalho. na Líbia) para pronunciar conferências e reencontrou Ponciano. 1980: 170). Tratar sobre Apuleio é fundamental.MULHERES NA ANTIGUIDADE . em diferentes períodos históricos e diferentes sociedades‖. gênero e etnicidade. LXIX). passou pela cidade de Oea (atual Trípoli. Diante da dificuldade em conhecer o universo das mulheres antigas ―por elas mesmas‖.NEA/UERJ supera impasses dos estudos da ―História das Mulheres‖. os estudos de gênero evitam uma abordagem centrada em estudos sobre mulheres. um antigo amigo dos tempos em que estudou em Atenas. a viúva Emília Pudentila. 5-6. Apologia. Na autodefesa de Apuleio desta acusação. formada por membros da elite local de Oea (GUEY. segundo as indicações de Apuleio. portanto seu cunhado. ter praticado magia amorosa para casar-se com a ela. cabe comentarmos sobre o autor de nosso documento. Ponciano apresentou Apuleio a sua mãe. buscando a compreensão ―do „masculino‟ e do „feminino‟ enquanto construções sociais que variam em termos de classe social. para uma abordagem de gênero como construção relacional. com quem ele se casou pouco tempo depois com o consentimento do amigo (Apologia. essa promessa foi rompida antes de sua chegada na cidade de Oea (APULEIO. segundo Bradley (1991: 93). entendendo que a construção social de gênero perpassa diferentes áreas sociais. Apologia. LXVIII. há várias referências em relação ao seu casamento As sponsalias (esponsais) eram os contratos que precediam os casamentos entre os romanos (MUNGUÍA. pois o discurso nos remeterá à sua visão sobre Pudentila. sponsalia. 359 333 . Apuleio era da região da África Proconsular e numa de suas viagens como sofista.359 Mas. Após o casamento. LXXIII). com o irmão de seu falecido marido Sicinio Amico.

escravas.NEA/UERJ com Pudentila. e as libertas. as romanas eram as responsáveis pela reprodução do grupo e tinham seu destino fixado pela maternidade (ROUSELLE. Da palavra mater podemos perceber o surgimento da palavra matrimonium. Dessa forma. por isso eram respeitadas e honradas. como protetora do lar. assim como a de um pai de família. As matronas eram protegidas por leis e decretos. 1990: 352).MULHERES NA ANTIGUIDADE . tais mulheres eram consideradas marginais e recebiam direitos diferentes das matronas. Assim. 360 334 . para os É neste sentido que Finley (1991: 161) interpreta Vesta. Casamento. Portanto. um estudo historiográfico sobre alguns aspectos da condição feminina no Império Romano e sobre os casamentos romanos. prostitutas. dançarinas. A maioria das fontes latinas. uma deusa feminina. Sabemos que a função primeira do casamento romano era a descendência. mulheres que pertenciam a estatutos sociais diferentes e eram regidas por outras regras morais. Em latim o casamento chama-se justum matrimonium ou justae nuptiae. paterfamilias. matresfamilias. Às matronas romanas. Mulher e casamento no Império Romano É preciso distinguir no mundo romano dois tipos de mulheres: as matronas. quando dão alguma informação sobre mulheres. Feito isso. preparadas para receberem um dia um marido. cabia a responsabilidade do casamento e a vida doméstica360. além de aspectos biográficos da matrona e representações do autor sobre sua mulher. Faremos. A designação jurídica de uma mãe de família. se remete a essas romanas honradas. Deviam ser recatadas e cuidar do ordenamento da casa e da educação dos filhos até os sete anos. dependia do casamento. analisaremos como características sobre as matronas e o casamento romano foram mostradas na Apologia em relação a Pudentila. deveriam ser mães e se casarem. a seguir. o que caracteriza a mulher romana com sua condição de ser ou ter a capacidade para ser mãe. não sendo aplicada necessariamente apenas ao nascer dos filhos. concubinas. com o ato do casamento uma mulher era considerada uma matresfamilias e o homem um paterfamilias. mulheres oriundas das famílias abastadas. O matrimônio era das instituições mais sólidas da vida romana.

O casamento cum manu caracterizava-se como a transmissão da patria potestas da mulher de sua família para a família de seu marido. no caso da morte deste. levou à criação de uma nova forma de casamento. De acordo com Jèrome Carcopino (1990: 99). prevalecendo a forma de casamento sine manu. O casamento sine manu seria uma forma de favorecer a permanência do patrimônio das famílias ricas. através da Lei Canuléia de 445 a. de um parente agnado mais próximo. De acordo com Bradley (1991: 85). produzindo uma alteração nos padrões tradicionais do casamento. introduziram-se novos costumes. ou pelo futuro marido e por quem possuía o direito de pátrio poder (patria potestas) sob a mulher (DURANT. uma vez que a mulher casada sob a forma cum manu transmitia inteiramente seus bens para a família do marido. já no século II d. Em geral. Na Roma Antiga houve duas formas de casamento: cum manu e sine manu (com a mão e sem a mão). o afluxo de riquezas provenientes das províncias e a permissão do casamento entre aristocratas. sendo que não havia matrimônio em Roma se não houvesse um consentimento entre ambas as partes. o poder ilimitado do marido sobre a mulher. como se fosse uma de suas filhas (loco filiae). com membros das camadas populares. neste segundo tipo de casamento a mulher e seu dote eram apenas ―emprestados‖ para o marido. 1991: 65). o casamento nunca deveria ser confundido com a felicidade do casal e o sentimento era algo 335 . as mulheres estavam sob o poder do pai ou. era entendido como uma comunhão monogâmica entre um homem e uma mulher.C. Em casos de casamentos sine manu esse poder sobre a mulher não era transmitido para a família do marido e ela permanecia na dependência de sua própria família (CARROZZO. No período republicano. p. Durante o Império o casamento cum manu tendeu a desaparecer. Assim. 271). colocada sob sua autoridade na forma de casamento in manu..MULHERES NA ANTIGUIDADE . Conforme Norbert Rouland (1997. A manus identificava-se com o poder (patria potestas) que era exercido pelo pai ou ascendente homem de maior idade (paterfamilias) sobre a mulher. havia gradativamente se transformado. Os casamentos eram negociados pelos pais dos noivos. o casamento sine manus.NEA/UERJ romanos. 1971: 55).C. ainda mais enriquecidos.

principalmente se o primeiro casamento não tivesse gerado descendentes. não sendo uma decisão individual do casal.-14 d. e a necessidade do estabelecimento de novas alianças entre famílias.C. As alianças e as regras sobre o retorno do dote poderiam configurar-se tanto como um empecilho para o divórcio acontecer como uma forma de novas alianças serem estabelecidas. que vinculavam as uniões matrimoniais a suas carreiras (BRADLEY.C.MULHERES NA ANTIGUIDADE . O segundo casamento acontecia na aristocracia romana porque o matrimônio estava intimamente ligado à vida dos homens públicos. no I século. que se casassem novamente em caso de viuvez ou de divórcio. mais casamentos são também encontrados. 1991: 79). que possivelmente não tivessem sido gerados em casamentos anteriores. os divórcios e os novos casamentos aconteciam de acordo com a necessidade de gerar filhos. e diz que o filósofo Sêneca. Dessa forma.) exigiam dos cidadãos. A Pudentila da Apologia Segundo Hunink (1998: 275) há muitos estudos sobre Pudentila. comentava admirado que nenhuma mulher podia se envergonhar por romper o casamento. 1991: 06). 336 . assim também eram os casos de divórcios. homens e mulheres. 1967: 105). elas divorciavam-se para casar e casavam-se para divorciar. demonstrando que divórcios e novos casamentos eram muito comuns para homens públicos. pelo menos em relação a todo o material que conseguimos examinar ou do qual apuramos a existência durante nossas pesquisas. Assim. ―o amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta‖ (GRIMAL.NEA/UERJ mais que incidental para o arranjo do casamento. Carcopino (1990: 124) ressalta a existência de muitos divórcios no período dos Antoninos. no qual viveram Apuleio e Pudentila. mas de suas famílias (CROOK. Sabemos que o segundo casamento feminino também foi comum no período Imperial. Os historiadores modernos de Roma têm verificado que quanto mais se descobre sobre pessoas de notoriedade pública. Discordamos dessa segunda afirmação de Hunink. Por serem os casamentos da elite romana consolidados por alianças políticas. Discordamos porque. talvez até mais do que os existentes sobre seu marido Apuleio. As leis baixadas pelo Imperador Augusto (27 a.

podemos perceber como as mulheres romanas eram classificadas como espécie de propriedade de sua família e. com a morte deste. ―primeira‖. ela passaria para a potestas de seu sogro. há diversos estudos sobre ele e sobre suas obras. mas estava vivo quando Apuleio se casou 361 337 . os mais frequentes no período. A Apologia está repleta de dados biográficos de Pudentila que nos levam a algumas reflexões sobre a mulher romana. ―é como se os romanos quisessem sugerir. deveria voltar para a potestas de alguém de sua própria família. mas apenas frações de uma família. ou Emília Pudentila. a viúva continuaria sob a potestas da sua própria família e. com a morte deste. as mulheres romanas não recebiam nome individual. que as mulheres não eram ou não deveriam ser indivíduos genuínos. conforme Finley (1991: 151-152). Caso o casamento de Pudentila com seu primeiro marido tenha sido na forma cum manu. só temos informações sobre Pudentila na Apologia. ―segunda‖. No caso de Pudentila estar sob a tutela de seu filho. Seu nome. 2) temos a informação de que Pudentila permaneceu viúva por catorze anos até se casar com Apuleio. podendo também ficar sem tutor por certo momento.‖ Na Apologia (LXVIII. este consentiu com o amigo Apuleio sobre o casamento da mãe. já que. acrescidos de termos como ―mais velha‖. e em segundo lugar porque. sob a tutela do filho Ponciano. Neste sentido. ou ser uma mulher emancipada. ―mais nova‖. Pudentila casou com Apuleio antes da morte do filho361. Consideramos as hipóteses de Pudentila estar sob a potestas de seu filho Ponciano. apenas o nome da gens e da família a que pertenciam com terminação feminina. Apuleio não sugere em nenhuma passagem da Apologia se ela estava sob a potestas de alguém antes de se casarem.MULHERES NA ANTIGUIDADE . provavelmente. Segundo informações da Apologia. por ser Apuleio um escritor que transitou por diferentes modalidades de textos.NEA/UERJ primeiramente. e com a morte do sogro para a de seu próprio filho ou parente agnado mais próximo. não muito sutilmente. Ponciano havia morrido pouco tempo antes do processo contra Apuleio. Aemilia Pudentilla. De acordo com Finley (1991: 151). faz primeiramente menção ao nome da gens Emília e depois à família Pudente. como citamos na Introdução. o que era possível no período. Porém. Na hipótese do casamento ter ocorrido na forma sine manu.

A morte de Ponciano aconteceu no período entre os dois anos decorridos do casamento e a abertura do processo. mesmo se Pudentila tivesse se casado com seu primeiro marido. havendo ainda um mecanismo criado para que a mulher pudesse trocar de tutor mediante pagamento. 338 .C-14 d. foi traduzida por nós. Caso a mulher com sua mãe.). [. 3-5). Acreditamos ainda que talvez Pudentila pudesse ser uma mulher emancipada. Pudente. 362 Esta citação. segundo Arcadio Del Castillo (1988: 191).] Depois da morte de seu filho Ponciano. Em uma passagem da Apologia Pudentila é mostrada como capaz de deserdar seu filho mais jovem. na forma cum manu. após as leis do Imperador Augusto (27 a. Pedi-lhe com insistências e súplicas que suprimisse a cláusula testamentária que continha tão grave decisão [. assim como as demais citações da Apologia. com muita resistência de sua parte.C. ou seja. Talvez fosse este o caso de Pudentila.. tive que convencê-la.] (APULEIO. o marido poderia deixar em seu testamento que a esposa tinha direito a escolher seu novo tutor. já que através de leis estabelecidas pelo Imperador Cláudio (41-54 d. por este estar sempre contra ela.. Neste sentido. estando viúva. ficou estabelecido que para as mulheres viúvas casadas no regime cum manu.C.. as mulheres viúvas dispunham de uma verdadeira liberdade testamentária. já que Apuleio não cita ninguém opinando no estabelecimento do testamento da viúva.MULHERES NA ANTIGUIDADE .) regulamentando o casamento. Pudentila caiu doente e redigiu seu testamento. não havia grandes obstáculos para dispor de seus bens da forma como quisesse.NEA/UERJ Sobre a possível situação jurídica de nossa matrona. se ela tivesse casado na forma sine manu e seu pai morresse. Apuleio a descreve como capaz de dispor de seu próprio testamento. Sicinio. movida por tantos ultrajes escandalosos e tantas injúrias.. ela escapava do controle dos seus irmãos. para dissuadi-la de que deserdasse Pudente. Apologia.362 Neste sentido. tios e primos. XCIX.

Apologia. 1991: 76). segundo Carcopino (1990: 107). tios e primos de seu marido. apesar de marido e mulher não serem herdeiros naturais um do outro (GRIMAL. segundo Apuleio. estivesse sob a potestas dos agnados adquiridos com o casamento. C. ela escapava do controle dos irmãos. porém. casada em regime cum manu. podendo contrair um novo casamento à vontade. a favor do matrimônio. 2). Acreditamos que mais interessante do que compreender dados biográficos e a situação jurídica de nossa matrona. as mulheres do século II d. Sobre o casamento de Pudentila com Apuleio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . como marido. talvez seja 339 . p. já que. Pudentila podia ser uma mulher emancipada sendo casada sob qualquer uma das formas de casamento romano. se mostrou. perante o qual estaria na posição jurídica de irmã. Mesmo Apuleio defendendo que o fato dele estar mencionado no testamento é apenas para amparar o próprio filho de Pudentila. Caso ela estivesse sobre a tutela de alguém era de seu filho mais velho.C.NEA/UERJ viúva. 184) se a mulher não tivesse filhos. eu. não estando sob nenhuma tutela antes de se casar com Apuleio. Sabemos que Apuleio estava mencionado no testamento de Pudentila: Verão que é o filho que é intitulado herdeiro e que a mim será deixado somente um legado insignificante para cumprir as aparências e para evitar que em caso de percalços. podendo deixar parte para o marido. Conforme Yan Thomas (1990. é bem provável que tenha sido na forma sine manu. Talvez Pudentila fosse emancipada antes de casar-se com Apuleio pelo fato da Apologia não trazer nenhuma referência a interferências de outrem no estabelecimento de um novo matrimônio. Assim. sua menção no testamento não deve nos causar estranhamento e pode até ser algo considerado normal para a época. permanecendo assim se seu casamento com o escritor também foi sine manu. tinham direito de dispor de suas heranças. que. não necessitando nem da autorização de seu filho. não o deixe sem amparo (APULEIO. também não precisaria da autorização dos irmãos de seu marido ou de seus outros parentes em linhagem masculina. a mais frequente do momento.

colocou-o à parte do assunto e lhe expôs. deviam permitir a ela colocar fim a sua solidão e doenças [. Acrescentava que já não havia razão alguma para que permanecesse mais tempo em seu estado atual. como boa matrona. Ponciano havia persuadido a sua mãe para que me preferisse em relação aos demais pretendentes e colocava uma paixão incrível em realizar o mais rápido possível o casamento. depois disso. 8-9). Nas passagens abaixo. Apologia.NEA/UERJ perceber como Apuleio se refere a ela em meio à sua defesa. LXX. Apuleio mostra Pudentila como uma mulher zelosa. Ao mesmo tempo. se fosse emancipada. assim. ponto por ponto. LXXIII. que age sempre pensando no bem dos filhos e que necessitava da opinião do filho mais velho. que. com desprezo de sua própria saúde.. mediante sua prolongada viuvez. o cuidado de ouvir os conselhos de seu filho mais velho. posto que.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Apologia. pois. todos os motivos de sua decisão. escreveu pessoalmente a Roma para seu filho Ponciano.. e em outras da Apologia. por vontade dos deuses. combinamos de nos casar logo em seguida (APULEIO. Como bem nos indica Hunink (1988: 282). A duras penas conseguimos dele um curto espaço de tempo. Além disso. até o momento em que ele se casou e que seu irmão tomou a toga viril. o que mostra que ela poderia estar sob sua tutela antes do casamento com nosso escritor ou. todo o detalhe antes mencionado a propósito de sua saúde. Explicou-lhe. esta caracterização de Pudentila como uma prudente proprietária de terras deve ser interpretada por nós dentro das intenções de Apuleio em mostrá-la 340 .] (APULEIO. havia conseguido para seus filhos a herança de seu avô e até a havia aumentado graças a uma administração hábil. Que. 5-6). Ponciano já estava em idade de casar e seu irmão já podia tomar a toga viril. tinha.

cujos bens. Na segunda passagem citada acima. eu havia gastado completamente. ainda podemos perceber que a menção de Ponciano como persuadindo a mãe nos leva a refletir sobre a possível emancipação de Pudentila antes de seu casamento com Apuleio. cevada. Tais atributos da esposa e do marido ideal podem ser lidos em passagens da Apologia. Acrescentamos que a caracterização de Pudentila como boa mãe e boa gestora do lar a torna uma matrona ideal. repito. 5-6) podemos perceber que Apuleio cita sua esposa como desejosa e capaz de decidir sobre um novo casamento. protegê-la e estimá-la (GRIMAL. e uma grande quantidade de trigo. de seu próprio patrimônio. azeite de oliva 341 . segundo dizem meus adversários. a imagem da esposa ideal era aquela que confiava no marido e o encarregava de administrar os seus bens. provida de toda abundância. ademais. ao fim. o que ajudaria. Nesta mesma passagem ainda podemos perceber como Pudentila era uma mulher de riqueza considerável. nas quais Apuleio mostra que ele aconselhava Pudentila sobre a melhor forma de administrar seus bens e também a ajudava pessoalmente a administrar suas propriedades. uma casa grande. Aconselhei minha esposa. e logrei convencê-la. aconselhei. 1991: 266). segundo a avaliação de seus próprios filhos. na confiança creditada a ela na escolha de Apuleio como marido. já que Aline Rousselle (1990: 357) nos indica que as romanas não escolhiam seus primeiros casamentos nem os segundos. em forma de terras tachadas por baixo. conforme seus acusadores alegam. Aconselhei-a que lhes desse. Tal caracterização talvez não passe de mais um dos recursos de Apuleio na defesa de seu casamento sem práticas mágicas. alguns campos férteis. no caso das viúvas. para que atendesse as reclamações de seus filhos sobre o dinheiro do que antes haviam falado e para que o devolvesse rapidamente. não estando sob a força de seus poderes mágicos. Segundo a historiografia.NEA/UERJ como mulher decidida e capaz. supostamente.MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ao marido cabia salvaguardar a fortuna pessoal da esposa. Na primeira passagem da Apologia citada acima (LXX.

se via próxima da morte por causa das crises que a deixavam completamente prostrada [. como as atenienses. SILVA. tarefa deixada aos escravos‖ (GONÇALVES. 5).. temos o trecho da obra citado abaixo. Uma forte representação de mulher honesta e boa mãe nos é transmitida na Apologia. não menos de quatrocentos escravos e numerosos rebanhos de preço não desprezado (APULEIO Apologia.. 1997: 14).] (Apologia. sem dar lugar a falatórios. Conforme Rousselle (1990: 386). XCIII. a mulher considerada sábia para os romanos era justamente aquela que gerenciava bem o ordenamento da casa e a educação dos filhos363. 363 342 .] (Apologia.] esta mulher prudente. Como exemplo. ao descrever Pudentila. Esta mulher de castidade provada havia suportado os largos anos de sua viuvez imaculada.. Novamente. privada do uso habitual do matrimônio. Apuleio não deixa de transmitir os valores dos Cumpre destacarmos que as mulheres romanas das famílias abastadas gerenciavam a casa. LXVIII. referindo-se a Pudentila com a imagem típica da perfeita matrona de sua época.MULHERES NA ANTIGUIDADE . tomada por graves transtornos. 3-4). Rousselle (1990: 383) também nos indica que as mulheres da camada favorecida eram educadas para contenção sexual. LXIX. segundo os olhares masculinos da elite.. esta mãe extraordinariamente responsável [. mostrando-a em perfeita continência sexualmente após a viuvez.. debilitada pela prolongada abstinência. Apuleio reforça sua imagem de Pudentila como uma matrona ideal. CARVALHO.NEA/UERJ e demais produtos agrícolas. 2).. Assim. [. mesmo em meio à situação dramática da acusação. mas ―não tinham obrigação de cuidar da casa. de forma que chega a parecer exagerada.

estamos diante. dentro da perspectiva da História de Gênero buscamos analisar a representação feminina de Pudentila sob a ótica masculina de Apuleio. É neste sentido que vimos características descritas como próprias de Pudentila reconhecidas à luz da historiografia sobre mulheres e casamento em Roma. vários aspectos sobre a situação feminina no período do II século e características do casamento da aristocracia romana. os valores masculinos romanos para a mulher e sua idealização como matrona e esposa. 343 . da visão masculina de Apuleio. tais como os tipos de seus dois casamentos. etc. contendo. a obra é repleta de recursos retóricos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . portanto. Consideramos ainda que a Apologia trata-se de um discurso de defesa diante de uma acusação em que o casamento de Apuleio com Pudentila foi colocado em questão. Para compreender melhor a situação de Pudentila. contida e extremamente preocupada com seus filhos. que fizemos mais em termos de conjecturas do que de afirmações. portanto. mas não fugiu à regra ao apresentá-la dentro das características da matrona ideal para a sociedade patriarcal de sua época. sua situação jurídica. obviamente. acima de tudo. Assim. conforme o objetivo que pretendeu. Considerações finais Como percebemos. uma matrona virtuosa. Devemos salientar que nesta obra não temos o ponto de vista de Pudentila.NEA/UERJ homens romanos para as mulheres das camadas aristocráticas e representa sua mulher. já que as citações que referem a Pudentila e a construção das situações entorno do casamento e da representação dessa matrona obedeceu aos interesses da defesa. Sendo assim. foi preciso analisar esse discurso a partir de sua situação concreta de produção. Como uma defesa. como uma mãe zelosa. seu cuidado com os filhos. Neste sentido. estiveram presentes nas descrições da Apologia. Apuleio mostrou várias facetas de Pudentila. a disposição sobre sua própria herança. acreditamos que Apuleio moldou um diálogo com os homens da camada social que fazia parte (a elite romana) e que provavelmente foram o público leitor sua Apologia.

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364 Professor de História Antiga da Universidade de Brasília. além do mais. que lembraria um Homero rude. não me servindo de uma abordagem ―de gênero‖. Vol.por várias razões -. para que não tivesse de parafrasear a mim próprio. Collins na obra de Charlesworth supracitada. Sibyllinische Weissagungen. Os pseudepígrafos em geral foram citados a partir da edição de James H. cotejada com os trechos em grego do software BibleWorks 7. é sua presença quase cotidiana em minha vida (acadêmica. The Old Testament Pseudepigrapha. Para os textos clássicos utilizei as edições da Loeb Classical Library. As interpretações dos trechos oraculares e as traduções dos mesmos baseiam-se em larga medida em trabalhos anteriores de minha autoria.NEA/UERJ SEXUALIDADE E COMPULSÃO PROFÉTICA NOS ORÁCULOS SIBILINOS  Prof. é uma figura mitológica . 346 .1 (OTP 1). As citações dos Oráculos sibilinos seguiram a tradução de John J. dentro da importância que atribuí à Sibila (ou ―Sibilas‖. A primeira. 1951. e mais óbvia. bem entendido) . As demais fontes encontram-se listadas conforme aparecerem ao longo do capítulo. em que pese seu grego de meteco e sua métrica precária. como seria de esperar? Há várias razões para a escolha da Sibila como tema de minha contribuição a esta obra.). Professor Visitante em Clare Hall – Cambridge. Berlin: Heimeran. mas que possivelmente não foi descrita por mulheres. Vicente Dobroruka364 Este artigo trata de uma figura feminina notável . Em segundo lugar. e membro do Ancient Indian and Iran Trust – Cambridge. Ao menos não o foi nos documentos de que dispomos. de  Para as citações bíblicas utilizei a Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus.0. como é comum no mundo pagão antigo.MULHERES NA ANTIGUIDADE . optei por mudar apenas alguns poucos tópicos. New York: Doubleday. Charlesworth (ed. notadamente de minha tese de doutoramento. 1983-1985.lido com os Oráculos sibilinos (daqui para a frente ―OrSib‖) há muito tempo estão entre os textos oraculares mais fascinantes do mundo antigo. Doutor em Teologia.como justificar sua presença num artigo que trata de mulheres no mundo antigo? E mais ainda. já que trata-se. mas cotejei as traduções com o texto grego estabelecido por Alfons Kurfess. 1985). Dr.

Falam abertamente de sexo e matrimônio.C.106.MULHERES NA ANTIGUIDADE . dão testemunho de uma coleção de textos estranha. o termo designasse uma figura profética apenas. 2. mas o simples fato dos OrSib terem sobrevivido tanto tempo (ainda que em organização precária de manuscritos366). Faço a ressalva pelo fato de que não sabemos como essas características eram interpretadas na Antigüidade e no Medievo. entre outros -.V a. casamento.em suma. 3.Servem-se da pseudepigrafia em nome de uma mulher. como disse). Potter. permito-me dizer que a Sibila Embora após Heráclides Pôntico . para isso. os OrSib são os que mais falam de sexo.já se possa afirmar que no séc. pois: 1. que tratam do fenômeno visionário em termos da sensibilidade feminina. teríamos de ter muito mais informações acerca das condições de leitura e consumo de livros no mundo antigo. para falar de coisas que não caberiam (por mentalidade ou impossibilidade biológica) na boca de outros heróis apocalípticos. compulsão profética como castigo . entre os autores antigos. o uso do gênero feminino pode ter sido um pretexto. Em suma. Oxford: Clarendon Press. David S. Prophecy and History in the Crisis of the Roman Empire: a Historical Commentary on the Thirteenth Sibylline Oracle.A ―pseudepigrafada‖ é uma figura pagã (nada de novo nisso .vide Hystaspes e Apolo. Se não for exagerado. 1990. P. 365 347 . embora no Oriente a Sibila também tenha tido uma longevidade textual comparável à sua lendária longevidade física).sua presença colorida e viva no teto da Capela Sistina basta para recordar a permanência de sua memória no Ocidente.o primeiro a nomear uma ―sibila‖ como tal . aos olhos de um observador moderno. mas sua longevidade é surpreendente. 366 Nota com mss. E não dispomos.NEA/UERJ uma divindade com variações e nuances regionais365 . outro fator salta aos olhos do observador: entre os textos que podem ser agrupados com os demais apocalipses da Antigüidade (ainda que os OrSib tenham muitas características em comum com os apocalipses. desde temas até personagens).

as ―filhas dos homens‖ (1En 6-11)367. VanderKam.o autor de Jb conhece a tradição dos ―Vigilantes‖. Columbia: University of South Carolina Press. Assim. temos uma relação estreita das mesmas com os anjos que conspiraram contra Deus a fim de manterem relações com elas. 1985. nesse sentido. mas com certeza nos facilita o entendimento do que lhe era permitido dizer na qualidade de figura mítica. 367 348 . interpolações judaicas e/ou cristãs e a confusão nas coleções de manuscritos. Greek Religion. 1995. os anjos que pecaram contra a criação de Deus. mas considera que inicialmente os ―Vigilantes‖ haviam descido para ensinar aos homens o que é certo. Os OrSib estão entre os mais compósitos dos textos religiosos sincréticos da Antigüidade e a Sibila. Algumas palavras quanto à origem do personagem são convenientes. Enoch. A mulher surge noutros apocalipses.MULHERES NA ANTIGUIDADE . MA: Harvard University Press. num certo sentido. Há de se fazer uma ressalva . 368 De cultu feminarum 1.3. mas por vezes as mulheres são as figuras centrais. Pp. Cambridge. A Man for all Generations. o Testamento de Ruben (Test12Rub). retomamos o tema enóquico com as mulheres como culpadas: elas é que teriam seduzido os anjos (Test12Rub 5 e em Tertuliano também368).NEA/UERJ constitui-se. Como observa Burkert. Noutro pseudepígrafo notável. Para a tradição enóquica e as questões referentes às mulheres. Hystaspes ou Apolo). no entanto. convém observar que de um lado as sibilas nada trazem de No Livro dos Jubileus (Jb) temos um quadro semelhante . Falar da Sibila pode ajudar pouco a entender a mulher no cotidiano do mundo antigo. por assim dizer. constituem-se como narrativas em prosa (ou com pouca interpolação de versos). 369 Walter Burkert.a de não confundir a Sibila dos OrSib com a figura mítica ―original‖. não faz mais do que emprestar-lhes seu nome e fama (a exemplo de outros como Zoroastro. o fenômeno da profecia extática é observado bem antes no Antigo Oriente próximo do que na Grécia369. com seu grego macarrônico. ao contrário dos OrSib.116-118. Pp. na figura mais notável na apocalíptica. no Livro etiópico de Enoch (1En). e não por luxúria (Jb 4:17-19). juntamente com o visionário pseudônimo de 4Ezra. recomendo James C.112 ss. não apenas como elemento secundário mas por vezes essencial à trama: os apocalipses.

uma de nossas principais fontes para as sibilas anteriores aos OrSib. pela proximidade dessas localizações). ―frigia‖ ou ―troiana‖. ao baru cananeu370. Firenze: La Nuova Italia. tornou-se cada vez mais velha.12 refere-se á uma ―Sibila palestinense‖. A Bíblia hebraica preservou a memória de um baru.MULHERES NA ANTIGUIDADE . e que podem mesmo estar associadas. no livro 10. a líbia (lembrando que o termo compreendia. La sibila babilonese nella propaganda Ellenistica. a eritréia (da Ásia Menor . boa parte da África conhecida e pode estar relacionada à visita de Alexandre ao oráculo no oásis de Siwah. A Sibila teria oferecido sua virgindade ao deus em troca da duração de sua vida no mesmo número de anos equivalente aos grãos de areia que apanhara com uma mão. eventualmente. a Sibila persa por vezes é confundida com a da babilônia. O baru era. As sibilas de que temos localização geográfica confirmada são a persa e hebraica (que por vezes se confundem371). a Ciméria e a Tiburtina. até que por fim restara apenas sua voz. Dt 23:3-6). sendo esta última a de existência mais duvidosa. incompletos ou negados. pois ela esquecera-se de pedir também o dom da juventude eterna. 22. Tornara-se tão encarquilhada que passou. 1943. Embora os OrSib sejam. Ovídio explica as origens da Sibila e de seu dom profético em termos de uma troca de gentilezas com Apolo malinterpretada pelo último. que nomeia ―Sabbe‖. no qual foi-lhe revelado ser ―filho de Zeus‖). como os profetas pré-exílicos. 14. na Antigüidade. Nas Metamorfoses. 371 Pausânias. as sibilas alinham-se com o dionisismo em sua origem não-grega. Como outros cultos ou práticas extáticas. desde as origens mitológicas da Sibila a vemos envolvida com favores sexuais incompreendidos. a de Samos. Aurelio Peretti. Apolo concedeu o favor.NEA/UERJ novo (ao analisarmos seu número e procedência vê-se claramente que as orientais são mais numerosas). O deus nada fez. Balaão (Nm 22:4-5. a de Delfos (que não deve ser confundida com a pítia de Apolo). como o nabi (―profeta‖). na forma em que os conhecemos. 370 349 . mas a Sibila não cumpriu sua parte no acordo. um visionário extático que profetizava a serviço do rei local. Cf. a caber num vasinho (ampulla). nos legou uma Descrição da Grécia na qual. a de Cumae.também chamada de ―helespontina‖. Portanto.

James R. as passagens mais importantes são OrSib 2:1. 11:315-324.e. cf. The Provenance of the Pseudepigrapha.NEA/UERJ uma compilação com muitas camadas redacionais. A passagem reforça o caráter impositivo da inspiração da Sibila. Em termos de preparação visionária. a Sibila .único personagem de origem pagã na literatura examinada. e podem ter sido escritos entre 30 a.186. não seria plausível um texto sapiencial atribuído a Adão. em função de sua enorme complexidade temática e argumentativa. 3:1-7. Davila. 2:340. bem como a natureza prazerosa dessa experiência. 13:1-5 e o fragmento 8. Vou dizer o que se segue com toda a minha pessoa em êxtase Pois eu não sei o que dizer. 372 350 . renovada graças ao Possivelmente uma glosa.): Quando de fato Deus parou minha canção mais perfeitamente sábia enquanto eu orava [pedindo] muitas coisas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 5:51372. Embora não se possa definir os Oráculos sibilinos como apocalipses. Jewish.i. Christian or Other? Leiden / Boston: Brill. o uso da mesma figura. Todas as passagens dos Oráculos sibilinos que nos interessam estão em primeira pessoa e em geral envolvem ordens dadas. 2005. A pseudepigrafia na Antigüidade nunca era aleatória: cada assunto a ser tratado tinha seu ―patrono‖ . não pode ser acidental. mas Deus me anuncia cada coisa. e 250 d. o que justifica um exame bem detalhado de certas passagens. Feitas todas essas ressalvas. ainda que a transposição dessa figura profética tenha sido feita por mãos cristãs ou judaicas. a Sibila. muito de seu conteúdo é comparável ao dos apocalipses tradicionais e a sibila é especialmente loquaz quanto aos processos de preparação para visões. ou um de teor legalístico a Baruch.C. P. Ele colocou em meu peito novamente a maravilhosa enunciação de palavras incríveis.C. Todas têm em comum o mesmo pretenso visionário. a primeira passagem a ser examinada é OrSib 2:1-5 (os dois primeiros livros dos OrSib sendo notoriamente difíceis de datar.

OsSib 3:1-7 (deve ser de origem egípcia . quando o dom já havia sido perdido (a oração garante esse retorno). como 2:340: Ai. tanto quanto Deus me ordenar falar aos homens.fala de um reino egípcio que sucede à Macedônia . de origem pagã e que retoma o tema dos favores prometidos a Apolo num olhar judaico ou cristão. eu te imploro um pouco de descanso para mim que tenho profetizado a verdade infalível. celestial. eu me fechei para os necessitados. que me compele de dentro. pois meu coração está cansado por dentro. A Sibila indicada..como em 4Ezra 5:20. que tem os querubins como trono.MULHERES NA ANTIGUIDADE .C.e provavelmente foi composto entre 163 e 145 a.] Aqui a referência não é à prazer mas antes à culpa e vergonha por parte da Sibila: não se trata do luto indutor de um ―estado alterado de consciência‖. mas sim do remorso por uma vida mal vivida. estúpida [que sou]. 351 . e cometi atos ilegais com pleno conhecimento [. ocupando-me de tudo mas não me importando com casamento nem com os motivos? Mas também no meu lar. pode implicar uma camada redacional mais antiga. ou ―ASC‖ . que trovoas nas alturas. chicoteia meu espírito com um oráculo para todos? Mas eu irei falar tudo de novo. pobre de mim. Isso contrasta com outras passagens sibilinas.. O que será de mim naquele dia em troca do que eu pequei. que era o de um homem rico.NEA/UERJ favor divino. pecadora e promíscua.―altered state of consciousness‖ . Mas porque meu coração treme novamente? E porque um chicote.) mostra um quadro de profundo cansaço: Bendito.

estou cansada de encher meu coração com o anúncio de desastres E [do] canto inspirado dos oráculos. Ele saberá o que houve e o que vai haver a partir das nossas palavras. príncipe374. e portanto podemos falar de possessão nesse caso. The Method and Message of Jewish Apocalyptic .MULHERES NA ANTIGUIDADE . Então ninguém mais chamará a vidente divinamente possuída de vaticinadora barata. Mas.. 374 Epíteto de Deus. jogue fora o frenesi e a voz verdadeiramente inspirada e a terrível loucura. pare agora meu adorável discurso. uma redação judaica para o trecho. o cansaço e a natureza agradável da experiência visionária. Pp. Assim.. que não desanime deles. Ainda em OrSib 5:52 ss.] O cansaço da Sibila é seguido pela compulsão para profetizar e pela perturbação de espírito (um lugar-comum nas passagens dos OrSib descrevendo ASCs).142 ss. temos em OrSib 11:315-324 (o livro 11 deve ter sido escrito no começo da era cristã no Egito. Philadelphia: The Westminster Press. eu. A passagem repete certo número de temas já conhecidos. o ―coração‖ é a sede do pensamento na apocalíptica judaica373 e sua menção sugere. Nela o proferimento profético é também atribuído à um agente externo. Mas quando ele se aproximar dos livros.. que sou amiga íntima de Ísis [. 1964. 373 352 . mas garanta uma pausa agradável.: Três vezes desgraçada. David S.] alguém irá me chamar de mensageira com espírito alucinado.NEA/UERJ Aqui temos um quadro diverso da passagem anterior. Russell.. uma vez que a história humana inicia-se e termina lá): [. nesse contexto.

E.). sem adornos e sem perfumes. Por fim. o fragmento 8 é muito curto mas repleto de indicações sobre o ponto de vista do visionário relativamente ao processo de indução extática376: Então a eritréia [a Sibila]. O divino Deus também me pressiona muito. a proclamar essas coisas aos reis. até o dia de Vossa abençoadíssima vinda? Em comum. novamente para cantar uma palavra grande e incrível. pela referência à Odenath de Palmira) mostra a sibila relutante: O Deus imperecível me pede. Jr 4:19 ss. para Deus: ‗Por quê. todas as passagens sibilinas atribuem o dom da profecia a um poder externo à Sibila (Deus) e encaram esse dom como compulsão ou obrigação (compare com os sentimentos expressos por Jeremias quanto aos próprios dons proféticos. Ecl 3:2 ss.ex. ó mestre. Um fragmento do qual sabemos muito pouco. proferindo coisas das quais não se deve rir. alcança mil anos com sua voz com a ajuda de [um] deus‖ ou seja.C.NEA/UERJ OrSib 13:1 (deve ser datado em torno de 265 d. retornando ao tema das origens da Sibila. Ele que deu o poder a reis. por mais que eu relute.. e lhes delimitou um tempo para ambas as coisas. e deles o tomou de volta. diz ela. me infliges a compulsão da profecia e não me poupas. já em seus primeiros relatos os temas do adorno e Lugar-comum na literatura sapiencial: cf. p. Heráclito nos diz que ―A Sibila. Pela franqueza do trecho. erguida sobre a Terra. para a vida e para a morte375. acerca do domínio real.MULHERES NA ANTIGUIDADE . com voz enlouquecida. Talvez elas se relacionem ao contexto de 3:1-5 e 296. é de se lamentar não termos mais passagens semelhantes. localizado no Discurso aos santos de Constantino. 375 376 353 .

quer nas descrições mais antigas. a Heráclito. vol.como no fr.317-326. ao fato da Sibila não esconder sentimentos e intimidades de seu leitor. ou da falta do mesmo (embora nos textos proféticos as queixas em sentido estrito os exemplos sejam comuns. fr. negligente quanto ao auxílio a terceiros (atributo tipicamente materno). a Sibila exibe comportamento semelhante .12. Mas aqui. até o momento carece de investigação mais detalhada. Recomendo ao leitor não-familiarizado uma leitura da ―Introdução‖ aos OrSib por John J. Não faria sentido um visionário queixar-se do casamento. Pp. As questões mais prementes do ponto de vista deste capítulo dizem respeito. 377 378 354 . Que esse elenco de queixumes e confissões tenha sido posto na boca de personagem feminina por homens é algo surpreendente. sem atrativos femininos. judeus e cristãos é ainda mais notável e é algo que.8 dos OrSib). Nesse sentido. contra a vontade própria (mas de acordo com os desígnios inspiracionais de Deus). um estudo ―de gênero‖ da Sibila não faz sentido . até mesmo a possibilidade de ter permanecido. romanos.NEA/UERJ embelezamento (atributos tipicamente femininos) estão presentes na caracterização da Sibila377. é mediante o recurso à pseudonímia mas este. questionamento da maternidade (ainda que apresentado sob a forma de arrependimento . era comum à apocalíptica judaica. Jr 20:7 é ótimo exemplo. por outro lado. quer nos OrSib. depravada (ou insinua tê-lo sido) e negligente para com marido e família: eis aí um conjunto nada típico para uma mulher da Antigüidade. de substratos pagãos a textos puramente cristãos.independência quanto ao mundo doméstico. em que pese a variedade de camadas redacionais (e são inúmeras. portanto. O que parece estar em jogo é a natureza do que se pode colocar como palavras atribuídas à Sibila. Feia (por imprudência ou desleixo). se o faz.). pseudepigráficos) tenha se mantido entre gregos.ela se insere na tradição extática comum a homens e mulheres (embora suas queixas quanto ao casamento e lar sejam peculiares). Collins na edição de Charlesworth dos OTP. proveniência ou localização geográfica378). que tal proeza em termos autorais (ou melhor.1.MULHERES NA ANTIGUIDADE . não existindo consenso quanto à sua datação. como disse no início do texto.

BUITENWERF. 1985.e essa pessoa.). New York: Doubleday.). 1982.1. Nils (ed. 1967. Seers. Paul J. ALEXANDER. de modo muito semelhante ao dos demais visionários da tradição apocalíptica do judaísmo do Segundo Templo.afinal. 1974.MULHERES NA ANTIGUIDADE . de quem estamos falando? Do autor ou autores ―reais‖ ou do personagem retratado? Aqui também a Sibila comporta-se. Vol. que não são suficientes para que se possa tratá-la como. Rieuwerd. MA: Harvard University Press. o fato dela ser uma mulher introduz algumas curiosidades no texto. The Old Testament Pseudepigrapha. ANDRÉ. 1997. ―Introduction‖ [aos Oráculos sibilinos] In: CHARLESWORTH. Berlin: Walter de Gruyter. ―Ecstatic Prophesy in the Old Testament‖ In: HOLM. Studien zur Überlieferung des Neuen Testamentes und seines Textes / Arbeiten zur neutestamentliche Textforschung. BURKERT. o texto dos OrSib. Greek Religion. afinal de contas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAND. ―Das Problem der Anonymität und Pseudonymität in der christlichen Literatur der ersten beiden Jahrhunderte‖ In: ALAND. é uma mulher. Leiden: Brill. on the 26th-28th of August 1981.mas tampouco são irrelevantes para que se deva desconsiderar que. nos coloca diante do obstáculo definitivo ao tratarmos de um texto e seu autor . mais uma vez. John J. tal como o temos. A pseudepigrafia. ______.). no texto. the Tiburtine Sibyl in Greek Dress. o visionário de 4Ezra . The Oracle of Baalbek. Kurt. ―The place of the Fourth Sybil in the development of the Jewish Sibyllina‖ In: Journal of Jewish Studies 25. Sibyls and Sages in Hellenistic-Roman Judaism.NEA/UERJ Sibila pode perfeitamente ter sido um personagem feminino que tomou forma literária pelas mãos de homens. Stockholm: Almqvist & Wiksell International. (ed. COLLINS. Kurt (ed. Washington: Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. compõe-se de oráculos sombrios anunciados em primeira pessoa . Walter. 355 . digamos. Book III of the Sibylline oracles and its Social Setting. Religious Ecstasy. Gunnel. Based on Papers read at the Symposium on Religious Ecstasy held at Abo. ______. por assim dizer. Cambridge. 2003. James H. 1983-1985. Leiden / New York / Köln: Brill. 1967. Finland.

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De entre las mujeres de la antigüedad. ¿Qué sería de la lírica arcaica sin la obra de Safo? Otras mujeres destacaron por su poder. gobernante de Halicarnaso. algunas mujeres de la antigüedad accedieron al poder en sociedades no democráticas del norte de África y Asia Menor. Paralelamente a la monumentalidad de figuras femeninas excepcionales pertenecientes a casas reales. no menos excepcionales. Dr. en sentido similar. 379 358 . entre las que se encuentran las fuentes escritas. Entre las faraonas egipcias sobresalen nombres como Hatshepsut. las que vivieron en sociedades democráticas representan un campo de estudio privilegiado por una gran variedad de razones. protagoniza parte no desdeñable de las Historias de Heródoto. Víctor Hugo Méndez Aguirre379 Introducción ¿Cómo reconstruir la situación de las mujeres en las diferentes culturas de la antigüedad? Existen diversas fuentes que pueden ser utilizadas para tal propósito.NEA/UERJ LA MUJER CIUDADANA EN LA ATENAS DE PLATÓN Prof. Los estudiosos de la democracia en general se enfrentan al reto de la exclusión de las mujeres en la democracia ateniense. los Professor de Filosofia Antiga. donde imperaba progresivamente la igualdad y la libertad. ninguna mujer se adjudicó realmente el poder. Por una extraña paradoja. vivieron en las primeras sociedades democráticas de Occidente. pero en las primeras democracias. entre las griegas Artemisia. lo cual en sí mismo constituye un aliciente para la investigación. Las fuentes son abundantes. Los estudios de género no pueden ignorar el capítulo heleno de la ―querella de las mujeres‖. me refiero a las helenas. Algunas mujeres escribieron desde épocas muy tempranas.MULHERES NA ANTIGUIDADE . otras mujeres. quien no oculta su admiración por la sagacidad política y las proezas marciales de esta singular mujer. da Universidad Nacional Autónoma de México. particularmente a partir de las reformas de Solón y de Clístenes y del empoderamiento de los grupos ciudadanos censitarios inferiores.

al tener control sobre el voto. Y es que el pueblo. El propósito del presente trabajo es reconstruir la situación de algunas mujeres de la antigua Grecia a partir de los testimonios indirectos ofrecidos en los diálogos de Platón. El sorteo de algunos cargos públicos para su desempeño de manera temporal garantizaba que la inmensa mayoría de los ciudadanos participaran en la administración de los asuntos públicos – incluso el apráxico Sócrates se vio obligado a servir a su polis sin haberlo 359 . Sea como fuere. Busco en estos textos tanto a las mujeres que los protagonizan como los discursos pronunciados acerca de ellas en general. Y la tercera –con la que aseguran que adquirió más fuerza la gente común–. ¿Por qué? Las principales razones son históricas. El Estagirita afirma que ―[…] el ciudadano (polites) en sentido absoluto por ningún otro rasgo puede definirse mejor que por su participación en la judicatura y en el poder‖ (ARISTÓTELES. el ciudadano de la democracia originaria gravita en torno de las asambleas y los tribunales. Política. El tándem entre lo jurídico y lo político en la democracia de Atenas se reforzó con uno de los procedimientos para la elección de algunos funcionarios y de jueces en particular: el sorteo. el que no se hicieran prestamos bajo la garantía de las personas. que le fuera posible a quien lo quisiera buscar reparación de los agravios. La constitución de los atenienses. La mujer ciudadana en la Atenas democrática es el tema que motiva la presente pesquisa. 1. III i 1275 a 22-24).MULHERES NA ANTIGUIDADE . Ciudadanos y ciudadanas en la democracia clásica Existe un debate ya varias veces centenario sobre la continuidad o discontinuidad entre las democracias clásicas y las contemporáneas. el derecho de apelación al tribunal. cuando menos Aristóteles lo plantea así.NEA/UERJ historiadores de las ideas reconocen las elaboraciones clásicas de la gran cadena del ser y el lugar de las mujeres en ésta. Solón suele ser considerado el padre de la democracia ateniense. llega a tener control sobre el poder político (ARISTÓTELES. Luego. y añade: Parece que las medidas del régimen de Solón más favorables al pueblo fueron estas tres: la primera y más importante. 9).

pero también garantizaba la alternancia de los ciudadanos en algunas posiciones de influencia y poder. mientras que politis necesariamente debería remitirse de alguna manera a la ciudad [. 2002: 15-16). Menón..MULHERES NA ANTIGUIDADE .] podría. La constitución de los atenienses de Aristóteles consigna explícitamente que: ―[…] participan en la administración de la ciudad los que son hijos de padre y madre ciudadanos‖ (ARISTÓTELES.. El lugar de las mujeres es el espacio privado.. [. no es difícil referir que ésta debe llevar bien su casa. Fuentes como ésta permiten afirmar ―[…] que la finalidad del matrimonio griego era la de tener hijos para mantener el linaje y en consecuencia asegurar 360 . se contemplaría a la mujer en tanto que esposa. que es denominada politis pero no aste] no ocuparía el rango de esposa con toda su significación dentro del oikos y de la familia (CALERO. siguiendo el razonamiento de Mossé. Las funciones principales de las ciudadanas. hija o madre de atenienses.. gravitan en torno de la procreación de hijos legítimos y la administración del hogar. Sin embargo. Menón. 71 e). Para ser ciudadano en la Atenas de Pericles se requiere que ambos progenitores lo sean.] Aste estaría en relación con el derecho de familia. existen ciudadanos y ciudadanas..NEA/UERJ buscado deliberadamente. La constitución de los atenienses. esposas y madres de los ciudadanos.. que los términos griegos para ―ciudadano‖ tengan sus respectivos femeninos no implica necesariamente que la ciudadanía haya sido exactamente igual entre hombres que entre mujeres. Politis y aste son los femeninos de polites y astos. en el diálogo epónimo. significar que [Jantipa. y cuidarse de no sufrir esto él mismo. el hogar u oikos. afirma: [. En Atenas clásica pues. 42). Si quieres la virtud de la mujer. conservar lo que está en el interior y ser obediente al marido (PLATÓN. hijas.] es fácil decir que ésta es la virtud del varón: ser capaz de manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos.

En lo que respecta a 361 . Mujeres y hombres en los diálogos de Platón Los diálogos platónicos ofrecen diversos retratos de la Atenas clásica. Esta doble ciudadanía. y cuando retorna. regresa a sus actividades tradicionales. política y jurídica para los hombres y familiar y hogareña para las mujeres. la ciudadanía femenina en la Atenas clásica estaba más bien restringida. 2.MULHERES NA ANTIGUIDADE . De joven discute con filósofos mayores (Parménides). Ellos pueden ser empleados como una fuente para reconstruir la vida cotidiana y las ideas corrientes entre los contemporáneos de Sócrates. Asiste a congresos de sofistas en la casa del rico Calias (Protágoras). Finalmente es ejecutado (Fedón). 2011: 218). Las ciudadanas no se alternan en el poder con los ciudadanos. Va a fiestas religiosas al Pireo y pasa toda la noche en discusiones sobre política con sus amigos. Pasea a las afueras de la ciudad con un amigo para discutir si un joven debe favorecer a quien lo ama o a quien no lo ama (Fedro). y alternar en el poder corresponde a los varones. Sócrates desarrolla una intensa vida filosófica y social. Es recluido en prisión (Critón). como afirma explícitamente Menón. 1991: 39) en el que las mujeres tenían restringido el acceso a algunas actividades relevantes (MOSSÉ. exhibe una asimetría fundamental entre ciudadano y ciudadana. El patriarcado ateniense establece que la mujer debe ―ser obediente al marido‖. a pesar de que la lengua griega posea el femenino de ciudadano. Celebra los triunfos de sus amigos en banquetes organizados con tal fin (Banquete). La mayoría de los diálogos retratan la vida cotidiana de un ciudadano ateniense muy particular: Sócrates. Y esta geografía política de género que asigna lugares y actividades diferentes a los ciudadanos y a las ciudadanas es asumida por los personajes que protagonizan los diálogos de Platón. y cuidarse de no sufrir esto él mismo‖. ciudadana en tanto que politis y aste. ―Manejar los asuntos de la ciudad y al realizarlos hacer bien a los amigos y mal a los enemigos. Se ha dicho que la polis ateniense es un territorio masculino (JUST. Combate en las batallas libradas por su polis. Y Sócrates posee membrecía en este exclusivo ―club‖. 1991: 155) como la política y la judicatura. Por lo tanto.NEA/UERJ la pervivencia de la polis‖ (FONT. Se ve obligado a presentarse ante los tribunales donde es condenado por impiedad y pervertir a los jóvenes (Apología).

Libanio.MULHERES NA ANTIGUIDADE . según el exhaustivo estudio de Inés Calero. enseñó retórica en Atenas. a diferencia de las otras dos. La mujer de Sócrates no podía ser ignorada por los socráticos -aquí no entraré al debate sobre si era esposa o concubina de Sócrates. Jenofonte. Diógenes Laercio. una politis (CALERO. Sinesio. Tertuliano. Cirilo. Galeno. perteneció. no a Diótima. A pesar de la importancia filosófica y dramática de Diótima en la obra platónica no se cuenta con información de que residiera durante un tiempo significativo en Atenas. Él nunca discute sobre filosofía con una mujer de su familia aunque esté más que dispuesto a hacerlo con cualquier desconocido que le presenten. La vida de Jantipa puede ser considerada una existencia típica de una ciudadana ateniense común y corriente. fue mujer de Pericles. a pesar de ser originaria de Mileto. Suda. El personaje epónimo le relata a Equécrates que cuando él y los demás amigos de Sócrates llegaron a visitarlo el día que bebió la cicuta: 362 . Jantipa. Estobeo. Tzetzes y Valerio Máximo. Epicteto. la segunda de Mileto y la última de Mantinea. Sócrates. Aspasia. se afincó en Atenas. Jerónimo. Plutarco. Teodoreto. Es curioso notar que ningún diálogo platónico se desarrolla en la casa de Sócrates. Luciano. incluyen nombres de la talla de Aristipo. Prácticamente no hay mujeres en los diálogos. Marco Aurelio. Filopon. Temistio. Sólo tres mujeres pronuncian algunas palabras en ellos: Jantipa. Aspasia y Diótima. tenemos testimonios de ella merced a la conspicua actuación de su marido. al círculo intelectual ilustrado ateniense. Por tales razones este trabajo se abocará exclusivamente a Jantipa y a Aspasia. La primera de esta tercia femenil es ciudadana ateniense de pleno derecho. ciudadana ateniense Jantipa es una ciudadana ateniense. las otras proceden de poleis diferentes. Platón. Ateneo. quien la amó tierna y apasionadamente. Olimpiodoro. Eliano. junto con otros extranjeros entre los que destaca Protágoras de Abdera. 2003: 1516).NEA/UERJ las mujeres. y procreó con él. Las fuentes que mencionan a la esposa del padre de la ética. 3. los textos platónicos son evidencias fundamentales para determinar cómo vivían las antiguas griegas y qué se pensaba al respecto. tanto como a la democracia. Las únicas palabras pronunciadas por Jantipa en todos los diálogos platónicos aparecen en el Fedón. Cicerón.

ésta es la última vez que te dirigirán la palabra los amigos y tú se la dirigirás a ellos(PLATÓN.] nos encontramos a Sócrates que acababa de ser desencadenado. Fedón. citan a 509 hombres contra veintisiete mujeres. La esposa del principal protagonista de los diálogos platónicos no dice nada más. Su discurso Contra Afobo.MULHERES NA ANTIGUIDADE .con su hijo en brazos y sentada a su lado. A lo largo de éste Sócrates interroga a Meleto para demostrar la falta de base de las acusaciones que pesan sobre él. Sócrates!. su lugar es el hogar. La presencia de las mujeres en las prisiones donde estaban recluidos sus parientes no era infrecuente. en defensa de Fano ofrece un par de ejemplos protagonizados por su propia progenitora (DEMÓSTENES.. Bremmer observa que esta curiosa manera 363 . ajena a las actividades en las que sí participa su esposo. aunque Sócrates hubiera podido llevar a algunos de sus parientes para que los jueces se compadecieran de él y de su familia. XXIX.NEA/UERJ [. 26 y 33). Sin embargo. ‗!Ay. Jantipa nunca es llamada para que abogue en favor de su marido. y a Jantipa -ya la conoces. esto es. La exclusión de las mujeres de la judicatura El que quizá sea el primer diálogo platónico. 60 a-b).. la ausencia de Jantipa no es más que un ejemplo de la exclusión de las mujeres en la vida judicial ateniense. Diez de éstas son de alguna clase de presuntas prostitutas y cuatro esclavas. 4. 1980: 45). Los discursos privados de Demóstenes. Quizá Sócrates mismo no hubiera aceptado tal testimonio. Jantipa rompió a gritar y a decir cosas tales como las que acostumbran las mujeres. Demóstenes nos hace pensar que era aceptada la declaración de una madre que juraba por la vida de sus hijos. corromper a los jóvenes enseñándoles a no creer en los dioses patrios sino en otros demonios. por ejemplo. Al vernos. narra el proceso en el que Sócrates fue condenado a beber la cicuta. Obviamente el orador omite los nombres de su madre y hermana en los cinco discursos en los que las menciona (GOULD. El testimonio de las mujeres era admitido bajo circunstancias especiales. Pero lo importante es que. las mujeres consideradas decentes sólo en circunstancias muy particulares podían comparecer ante los tribunales. la Apología.

pudiéndose pronunciar tan sólo el de las de dudosa reputación. frecuentó su casa. 1981. Jurídicamente. 249 d). El Sócrates platónico afirma haber aprendido retórica de ella (PLATÓN. Y agrega que el epitafio pronunciado por Pericles en honor de los caídos en la guerra del Peloponeso fue redactado por esta mujer.MULHERES NA ANTIGUIDADE . 1977: 323-330). 2010: 39). y de Pericles mismo. Plutarco. 426). La exclusión de las mujeres de la política Aspasia. el de aquellas pertenecientes a la familia del oponente a quien precisamente se intenta dañar. o al de las ya difuntas (VIAL. 1994. 1994: 85). Nicias. entre ellos.NEA/UERJ de mostrar respeto exasperó a historiadores tan tempranos como Plutarco. a pesar de ser originaria de Mileto. pero fue incapaz de enterarse de los nombres de las madres de Demóstenes. p. protagonista de uno de los diálogos de Platón. como Protágoras y Sócrates. existía una interdicción de mencionar incluso el nombre de mujeres consideradas decentes (SCHAPS. pero su ―minoría de edad‖ no la tornaba inimputable. con sujetos bien conocidos. Lamachus. al menos en algunas esferas judiciales. quizá sea la mujer más relevante en la vida intelectual y política de la Atenas de Pericles. p. de quien fuera o bien esposa o bien ―refinada amante‖ (DE ROMILLY. un proceso por impiedad. 1985: 48). y varios de los que la trataron llevaban sus mujeres a que la oyeren. ¿Acaso fue procesada por desafiar el orden patriarcal al no renunciar a la alta política? 5. algunos autores toman muy en serio la información aportada por Platón‖ (SOLANA. pues el mismo Sócrates. Menéxeno. Estaba impedida de ocupar la dignidad de jueza. la mujer en Atenas nunca dejaba de ser una ―perpetua menor de edad‖ (MAS y JIMÉNEZ. Y Aspasia de Mileto. David Schaps hace hincapié en que entre los atenienses parece haber existido una especie de regla de urbanidad de acuerdo con la cual. Si bien es evidente el tono irónico de este diálogo. quien sabía que la nodriza de Alcibíades se llamó Cleobule. sufrió. Trasíbulo o Terames (BREMMER. porque vivía de 364 . XLI). consigna que: […] algunos son de opinión que Pericles se inclinó a Aspasia por ser mujer sabia y de gran disposición para el gobierno. sin embargo de que su modo de ganarse la vida no era brillante ni decente.

Ahora bien. como eran poderosos y de autoridad.. Pericles.] siendo de buen parecer y reuniendo la gracia con la sagacidad. se puso al lado de hombres muy principales entre los Helenos. XXIV). Solana afirma [. 1994: 84). Pericles. Este autor añade que Pericles inclinó a los atenienses en favor de los milesios contra los samios debido a la influencia de Aspasia. mujer y extranjera en Atenas. lo confirman muchas fuentes. a partir del 440 y tras su unión con la milesia perfeccionara en sentido técnico dicha capacidad ni con el hecho de que fuera ella quien escribiera los discursos de aparato de su esposo (SOLANA. y relaciona la forma de proceder de Aspasia con la de Targelia: [. Aspasia de Mileto logró incidir en la alta política ateniense sólo indirectamente. a través de Pericles. en la Atenas democrática ―[…] la mujer está en el grupo de los que siempre son mandados porque carece de voz política […]‖ (MAS y JIMÉNEZ. XXIV). Plutarco afirma que las mujeres que querían actuar en política solían hacerlo a través de sus relaciones con hombres influyentes.MULHERES NA ANTIGUIDADE . a pesar de su gran influencia intelectual y afectiva 365 . y en particular de Pericles... Algunas ideas de Plutarco sobre la actuación de las mujeres en la política siguen siendo suscritas por helenistas contemporáneos. años antes de unirse con Aspasia. lo cual no es incompatible ni con que. y a todos los que la obsequiaron los atrajo al partido del rey.] que Aspasia fue maestra de oratoria. Sucintamente.. es indudable que la actividad política del estratego ateniense. le exigiría una capacidad retórica adecuada. 1994: XXIX). sembró las primeras semillas de medismo en las ciudades (PLUTARCO. pero esta milesia.NEA/UERJ mantener esclavas para mal tráfico (PLUTARCO. y por medio de ellos.

366 . Quizá la información proporcionada por el autor de los diálogos sobre las mujeres en la antigüedad no sea exhaustiva ni pretenda serlo. Sucintamente. Pero que para ser reconocido como ciudadano fuera necesario descender de padre y madre ciudadanos. Los diálogos de Platón ofrecen imágenes de algunas de ellas. Jantipa y Aspasia son mujeres históricas que vivieron en la Atenas de Pericles y que ilustran cómo vivían diferentes mujeres en la antigüedad. es una ciudadana ateniense. Sea como fuere. no implicaba necesariamente la igualdad jurídica y política entre ciudadanos y ciudadanas. con actividad política del más alto nivel. es una ciudadanía restringida que gravita en torno de la procreación de ciudadanos legítimos.MULHERES NA ANTIGUIDADE . estaba excluida del ejercicio directo de la política al igual que el total de las mujeres residentes en la Atenas del siglo V. creo que su retrato marginal de una ciudadana ateniense sí puede ser considerado valioso en tanto que complementa otras fuentes. estimo que puede concluirse legítimamente que la sociedad patriarcal imperante en la Atenas clásica necesitaba ciudadanas para la transmisión generacional de la ciudadanía. a. hija. Sin embargo. la ciudadanía de las mujeres en la Atenas de Pericles tal y como puede ser reconstruida. entre otras fuentes posibles. C. a partir de los diálogos de Platón. Aspasia de Mileto conjugó su vida conyugal y maternidad con el ejercicio de la retórica y. Que esta incursión en una actividad reservada a los ciudadanos atenienses fue considerada transgresora en una sociedad patriarcal puede deducirse del proceso de impiedad incoado en contra de esta figura tan destacada. Jantipa. esposa y madre de ciudadanos. A manera de conclusión: ser ciudadana en los diálogos de Platón Existían diferentes grupos de mujeres en la Atenas clásica.NEA/UERJ sobre el gobernante democrático por antonomasia. labores imprescindibles para la existencia de las poleis. a través de ésta. el cuidado de la casa y la obediencia al marido. una más entre muchas mujeres anónimas dedicadas a la procreación y al cuidado del hogar.

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a partir da cultura material. rainhas. Dentre esses indivíduos se situavam mulheres que desempenharam papéis e funções sociais específicas nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade como sacerdotisas. cotejar a produção de sentido para os indivíduos que por lá transitaram. guerreiras. deusas. mas. santuários e artefactos arqueológicos escavados.Analisar o Mar Mediterrâneo não significa apenas estudar os seus aspectos geográficos ou a catalogação de monumentos. feiticeiras ou profetisas. O diálogo com os demais saberes nos permite desvendar as Mulheres na Antiguidade. .

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