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_A Forca Oculta Dos Protestantes

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A Força Oculta dos Protestantes

Toda religião induz uma política; toda política oculta uma crença.

André Biéler

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Ouverture, Le Mont-sur-Lausanne Labor et Fides, Genebra Suíça

DO MESMO AUTOR

Igreja, Política, Trabalho. Genebra, Labor et Fides, 1944. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. Genebra, Georg et Cie, segunda edição, 1961. O Humanismo Social de Calvino. Genebra, Labor et Fides, 1961. Liturgia e Arquitetura. Genebra, Labor et Fides, 1961. O Homem e a Mulher na Moral Calvinista. Genebra, Labor et Fides, 1963. Calvino, Profeta da Era Industrial. Fundamentos e Método da Ética Calvinista da Sociedade. Genebra, Labor et Fides, 1964. Uma Política da Esperança. Da Fé às Lutas por um Mundo Novo. Paris, Centurion e Genebra, Labor et Fides, 1970. O Desenvolvimento Louco. O Grito de Alarme dos Sábios e o Apelo das Igrejas. Genebra, Labor et Fides, 1973. Cristãos e Socialistas antes de Marx. Genebra, Labor et Fides, 1982.

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A Força Oculta dos Protestantes Oportunidade ou Ameaça para a Sociedade?

Prefácio de Jean-Bernard Racine

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4 .© Todos os direitos reservados sobre a edição francesa em Editions Ouverture. pelos quais experimento sentimentos de respeitosa e calorosa gratidão. e em Editions Labor et Fides.1995 ISBN 2-88413-047-0 (Ouverture) ISBN 2-8309-0799-X (Labor et Fides) À memória de meus pais e em homenagem a minha esposa. eles ajudam-me a compreender o mundo novo que Deus recria cada dia e para cuja renovação ele nos confia o Evangelho. Le Mont-surLausanne (Suíça). Genebra (Suíça) . E a meus queridos filhos e netos.

5 .

SEGUNDA PARTE Os Protestantes e o Desenvolvimento das Sociedades Modernas. “Oportunidade ou Ameaça” para a Sociedade? Primeira Parte Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias. O Engajamento das Igrejas e o Ecumenismo. 6 . Sentinela das Nações. A Igreja Universal. As Raízes da Democracia. Os Combates pela Democracia. Um Imperativo da Ética Cristã: Democratizar a Economia. A Ética Cristã em Luta com as Ideologias Contemporâneas. Os Combates pela Justiça Social. Os Fundamentos de um Desenvolvimento Justo.RESUMO __________ (Ver o índice de assuntos discriminados no final da obra) Introdução da Edição Brasileira Prefácio Introdução Os Protestantes.

os protestantes representariam antes uma ameaça. a fé cristã tem ainda algo a dizer e a oferecer? Num contexto crescente de individualismo e determinação. mas onde se multiplicam. longe de ser uma oportunidade para a sociedade. melhor ainda. os trabalhadores desempenhando o papel de “amortecedores universais de crise”. aprofunda o debate. o professor André Biéler desloca ou. e mediante a redescoberta deles. muitas vezes paradoxais. essas fontes acham-se na Palavra de Deus. Isso não impede que para ele a oposição permaneça pertinente entre a hierarquia sagrada e vertical do catolicismo tradicional de um lado. não seria ela ser um ente que pode testemunhar? Ser e Ter. Gabriel Marcel Na era pós-moderna do “fim das grandes narrativas”. ao constatar-se que o protestantismo favorece o desenvolvimento de certas virtudes. Daí sua decisão de passar pelo crivo os enunciados que se tornaram tradicionais. este seria de origem calvinista. mas também visão e esperança num presente onde as opiniões. O protestantismo: oportunidade ou ameaça? Diagnóstico crítico. a 7 . Ora. e talvez as mais perigosas. “que. do recurso às fontes. na exata medida em que estes derivam da revelação cristã. mais acima. do outro. do retorno. Ainda que ela se oponha às ideologias contemporâneas. sem dúvida. vão cometimento sem dúvida. O autor dirá o que pensa. nos valores originais da Reforma. mas outros não hesitam: se a sociedade moderna se constrói segundo um modelo individualista. tomando a cautela de esclarecer. não se deve concluir que elas estão ausentes naqueles que não compartilham da mesma herança”. da explosão do “mercado religioso” e da religiosidade oscilante tanto teórica quanto prática que o acompanha. tentando revelarlhe a face oculta. mesmo se aqueles mesmos que delas procedem as tenham esquecido. econômico e social justo. sociedades a duas ou três velocidades. as mais bem ancoradas no momento. se é empreendido com desconhecimento de suas raízes. do centro e da esquerda. nuns e noutros. que procedem de autores protestantes ou católicos. elas todas contêm “uma parte de verdade”. onde se amplia a defasagem não só entre países ricos e países pobres. desde o princípio. aquela mesma que vai auxiliar o autor a engajar-se num empreendimento revelador de desmistificação das representações sociais.Prefácio A essência do homem. Rude tarefa procurar no mundo de hoje os frutos da Reforma: uma democracia que funcione. e. Longe de colocá-lo ao nível da oposição entre valores da direita. é chegada a hora da “ética protestante”. com o propósito de ou enaltecer as influências do espírito reformado sobre o curso do capitalismo ou de os denunciar. Para o autor. ele assume o risco de ancorá-lo. divergem e se questionam. um desenvolvimento cultural.

portanto. Bela maneira de ser profeta no duplo sentido de colocar os homens diante de Deus e de pensar o futuro. A responsabilidade assim compreendida e vivida conduz ao exercício do sacerdócio universal na Igreja. remetendo o passado histórico às interrogações e aos significados do presente. de pensar o futuro posicionando os homens diante de Deus. Uma maneira de ser profeta: um método. Desde o princípio do jogo. fornecer-lhe-á as primeiras chaves de uma resposta elaborada. sociais e política estando implicitamente contidas. está continuamente em movimento (eco dos movimentos e dos ritmos da história). se não à razão como pretendia Pascal.afirmação da Reforma quanto à autoridade única da Escritura sagrada. tal é o efeito primeiro da proclamação do Evangelho. que André Biéler define uma ética concreta. intitulada “O Pensamento Econômico e Social de Calvino”. Restava extrair desse conjunto de estudos o balanço prospectivo que ele hoje nos expõe. conjuntamente com sua carreira pastoral. “as liberdades intelectuais. a dramatização da análise mobiliza o leitor de um texto que. tentar responder à questão: qual a nova ética social para a nova sociedade que se instalará após o fim das hostilidades? Sua tese de doutorado em ciências econômicas. Formação teológica e em ciências econômicas e sociais ensejar-lhe-á. o sentido que vai dar a uma vida salva. estimulante. será também firme e solidamente embasada. razão que se inscreve na história mediante a escuta. e subitamente descobre que Deus lhe oferece. talvez se devesse escrever “uma chave”. através de numerosas obras. economia. uma visão. a liberdade que flui da liberação pessoal e da vida nova recebida na comunhão e perdão de Cristo. de sorte que desse significado espiritual e ético atribuído ao salário decorre que o produto do trabalho não pertence. para André Biéler. em seguida a um acidente de avião. O método e o intento estão claramente explicitados: é sempre partindo de considerações teológicas particulares. expressão tangível do salário gracioso e imerecido com que Deus distingue a obra de cada indivíduo. Quanto ao “intento”. sem excluir totalmente. sempre a mesma: o novo nascimento em Jesus Cristo. na liberdade individual”. o salário remete antes de tudo à obra de Deus. Assim procede no tocante ao salário por exemplo. longamente estudado e amadurecido. Profano. simultaneamente regressivo e progressivo. transformado por uma vida nova. hesitante primeiramente entre matemática. base da concepção democrática na Igreja em primeiro lugar. base de uma 8 . se a elaboração da resposta é sempre graciosa e nunca satisfatória. ou melhor ainda. teologia e carreira militar. É proclamar que. à vocação individual endereçada por Deus a cada indivíduo. mais ao patrão que ao operário. ele se inscreve numa mediação essencial. Renovado. o testemunho e o engajamento dos homens. a aceitação da graça de um Deus sensível ao coração. percebe. mas que. os riscos inerentes a uma Reforma “deformada” e igualmente consagrada. uma segunda vida (tema recorrente na obra) para responder a sua verdadeira vocação. claro. na Cidade depois. aos vinte e três anos. no decurso de mais de um quarto de século. valores. ambos sócios de uma atividade comum. como as estruturas do catolicismo. longe disso. consoante o pastor Boegner. associando a ética social à ética individual. ideologizada. Uma problemática ao menos parcialmente inscrita na história pessoal do autor que. “a chave”. “se torna razão”.

ou melhor ainda. que existiu bem antes da Reforma. sublinhando todavia que “o regime democrático não é gerador por si próprio dos valores que o fazem viver”. Boehnhoeffer. em que a uma Igreja sentinela. São o fruto de transformação prévia deste quando aceita ser interpelado pelo Evangelho”. repondo as discrepâncias entre católicos e protestantes no seu contexto histórico e ideológico. e que “só conseguirá sobreviver até o fim como produto de uma ética que deve ser permanentemente renovada por uma fé. A primeira parte (Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias) dedica-se ao exame de como o “cristianismo reformado” suscitou o surgimento. a investigação vai mais longe: é essa reforma portadora de esperança? Caso afirmativo. Mas. Ele demonstrará. “conduzindo a divergências de opinião sobre a estrutura da sociedade”. e muito particularmente a revolução industrial da qual o autor acentua o papel na transformação radical e permanente da ordem social. não da democracia no Ocidente. no seu primeiro capítulo. Impõe-se ir mais a fundo nesse fator religioso para nele descobrir. Boegner. de pôr em evidência o papel cultural como determinante de base. sofredora e combatente seja inerente compreender a natureza e os riscos de uma autêntica ética cristã. por certo. Peyrefitte) decorrente do religioso. Inscrevendo-se na cadeia dos grandes estudos consagrados à longa história das mentalidades. como outros. a primeira revolução anti-colonialista importante. a revolução democrática ocidental. em que ela se radica? Não residiria exatamente. “após e antes”. a descoberta da historicidade de nossas práticas. não são “naturais ao homem atualmente desnaturado. a “qualidade do fator espiritual e teológico”. tão vasta cultura sobre as raízes de nossa transformação coletiva. na origem das três grandes revoluções que moldaram o mundo moderno. de um “terceiro fator” (A . que ele estará incessantemente ameaçado por todas as formas de perversão social prestes a se manifestarem.Reforma na qual o autor descobrirá. Após e antes do advento das grandes democracias: um fator espiritual e teológico. a única capaz de transformar e reconstruir a vida individual e coletiva”. com efeito. Fazy. Alvin. o estudo de André Biéler não se contenta. Dessa forma. vanguardeira. das mentalidades. mantendo cautela para não cair na armadilha do dogmatismo e dos anacronismos. e o esclarecimento das tensões. e num mesmo trabalho. mas sem nada ocultar do que julgue ser a contribuição e as responsabilidades comuns ou respectivas dos cristãos de todas as confissões. de seu sentido e de seus significados. Esses valores. de certo modo. que os herdeiros da Reforma Calvinista se acham precisamente na raiz da democracia. das estruturas econômicas e políticas das sociedades humanas. dos costumes. mediante a ênfase dada a “certos pontos de referência significativos” (mas que trabalho para lhes resgatar o valor e a pertinência!). como “fonte permanente de renovação espiritual e política”? Essa é a tese do autor. que vai indagar o passado à luz daquilo em que ele se transformou e dos significados que assumiu. 9 . as “raízes da democracia”. K. Barth e M. dos hábitos. do “liberal” S. mas igualmente de D. reportando-se ao Evangelho. Sismondi como do “radical” J. Ocasião única para identificá-las ao ensejo da leitura deste sobrevôo histórico de cinco séculos. Incrível deparar no herdeiro de J. mas das grandes democracias modernas.

Uma ou outra dessas expressões da idéia de renovação das coisas e das gentes reapresentam-se ao menos em uma de cada três das quarenta primeiras páginas. utilitarista. Mas. esse equilíbrio assim concebido não foi perseguido em seguida nas sociedades democráticas industriais. das intervenções legislativas do Estado nesse domínio. no trânsito da “moral calvinista para o moralismo calvinista”. transformado em ideologia independente. na consciência e na ciência. a ética social. teologicamente estabelecida. transportando-se depois de Plymouth para New Plymouth. que subsiste do equilíbrio preconizado por Alvin? A necessidade de subordinar a vida econômica às exigências e obrigações de uma ética social rigorosa? A proclamação da solidariedade econômica dos homens e das nações? A necessidade de certa redistribuição permanente das riquezas e do trabalho em favor dos mais desfavorecidos. onde uma vez mais. o mito estabelecido em ideal sagrado. para disciplinar o jogo indispensável de uma sã liberdade. mesmo que esses valores. o “fermento democrático” reformado chegará à América. e as animam todas. Mas. inclusive junto aos utopistas. André Biéler está particularmente habilitado para detectar os valores essenciais da tradição cristã. hoje. transmudada em “verdadeira religião secular” segundo a expressão de R. inclusive no poder protestante. de um país e da comunidade universal? Evidentemente. bem como católicas. Nutrindo sua tese pelo estudo da origem protestante de certo liberalismo econômico moderno e da evolução das sociedades ocidentais. Assim é essa ideologia que A . erigindo-se em absoluto independente de toda referência à fé que o engendrou. individualista. transfigurado em moral burguesa secularizada. orientado para a poupança e o lucro. ao invés de vivido na segregação do mundo como na Idade Média. Weber denomina “o espírito capitalista”. despreocupado com a ética global. à ascese na sociedade. nova interpretação da Palavra de Deus conduzirá a novas relações entre os homens e a novo tipo de sociedade. para cujo desenvolvimento a Reforma havia contribuído intensamente. na medida que ele for revelado enquanto tal. a segunda parte permite ao autor questionar-se: em que medida os próprios protestantes são solidariamente responsáveis por esta evolução? Tentaram eles modificá-la? Em que sentido? A análise histórica está apta para pôr em evidência as conseqüências imprevistas e os efeitos perversos. Certamente. poderá ser esvaziado e substituído pelo retorno às origens. Nascido na Europa. Um desenvolvimento de cor protestante? Analisando os protestantes no desenvolvimento das sociedades modernas. nas relações entre cidadãos de uma cidade. Fé na razão. mais se analisa do que se fundamenta o mito. visão otimista do homem que esquece as verdades evangélicas 10 . principalmente dos desempregados. Aron. destacados do contexto teológico global. A legitimidade. hajam alimentado as ideologias profanas dos séculos subseqüentes.que elas implicam para o futuro. tão distante da religião que por vezes se voltou contra si mesmo. mantêm-se aquém e vão além de práticas protestantes. mas negligente quanto às preocupações sociais importantes que inspiravam a ética do cristianismo reformado original.

O autor não hesita em submeter à consideração as explicações propostas. alargando depois a análise com a indagação sobre as relações posteriores entre o protestantismo e a sociedade ocidental. sentinela da democracia ? Longe das ideologias tornadas crenças secularizadas. O estudo do papel dos protestantes no desenvolvimento das sociedades modernas atualiza. todavia. reconhecendo a legitimidade do comércio. ser transformada para encontrar sua identidade. mas apelando para o controle dos preços nas situações de penúria e de monopólio e para a repulsa aos abusos do poder do dinheiro. Demonstrando como se constituíram as ideologias econômicas. única realidade última para a qual marcha o conjunto da humanidade e toda a criação. Antes de enunciar a exigência de um “dever urgente e de longo fôlego”: “democratizar as decisões no setor da economia. a essa altura do desdobramento da obra. do passado.teologicamente fundada como “sentinela da democracia” num mundo certamente sempre ambivalente mas destinado ao Reino de Deus. o trabalho visionário do Professor Biéler se inscreve numa só e mesma perspectiva: a da esperança que é ato de fé. graças particularmente ao movimento ecumênico. como toda a criação. à hegemonia do capital sobre o trabalho e à supremacia da economia. ou denunciar o protestantismo como responsável por seus abusos recolocando as duas perspectivas no contexto dos patrimônios históricos. Compreende-se então que a empreitada de desmistificação ultrapassa largamente a encenação. cara aos biólogos. o cristão sabe muito bem que o essencial não está nessa controvérsia. prático de uma “cidadania ativa”. mediante melhor harmonia entre o capital e o trabalho. passando-os no crivo. O leitor sabe muito bem. A esperança como ato de fé: a igreja. participar dos mais recentes esforços que as Igrejas têm empreendido no intuito de que a ética cristã seja respeitada. O método faz irresistivelmente pensar na distinção. Oportunidade. mediante análise teórica e prática dos fundamentos de um desenvolvimento justo. das trocas e da divisão do trabalho. quer provenham de sociólogos quer de teólogos.em otimismo trágico à moda de Mounier. entre fenótipos e biótipos. que haverá.que afirmam ser o homem uma criatura decaída que necessita. aqueles mero reflexo e realização destes. “certas nuanças” a subministrar de modo reflexivo e crítico. de assim observar de mais perto o que encobre este outro lugar comum relacionado com a prosperidade das sociedades protestantes e o contraste Norte-Sul no desenvolvimento da Europa. a Eterna Palavra de Deus que ressoa nas Escrituras (a grande lição da Reforma). Mas. exercitando o direito à resistência. numa Igreja que ele quer. ele crê ser. E o autor evita subverter a ordem dos valores e de inverter as causas e as 11 . própria de sua condição de “artesão da paz”. e como elas dividiram o mundo em clãs políticos hostis. hoje como no tempo de seu aparecimento e cristalização. como ao longo da primeira parte. repensando de novo e por nós. . impregnadas de esperanças ilusórias. respeitando tanto a liberdade quanto a dignidade de todos os parceiros”. sobretudo. ele nos enseja assistir aos combates travados pelos cristãos em prol da justiça na aurora de uma era nova industrial. iniciando por Genebra e Alvin. ou em pessimismo ativo à maneira de Rougemont . os enunciados tradicionais visando ou enaltecer as influências do espírito reformado sobre o desenvolvimento do capitalismo. Ultrapassaos. mesmo dinâmica. que ocuparam o lugar da ética cristã.

incrustando em nós uma atitude de contestação. de forma absolutamente atual. ao Evangelho. nem mesmo de estigmatizar certas decisões recentes relativas a problemas de população. o Evangelho no cerne do debate de hoje. está no cerne de qualquer política econômica. Não se trata mais somente de dirigir críticas ao princípio e à prática atuais da confusão dos poderes políticos e religiosos. opondo uma “nova palavra mestre”. no. e mais profundo. ao princípio da igualdade. seja populares seja artísticas. e muito recentemente gerado pelo relatório Minc1 dirigido a Edouard Balladur. Partindo da questão “que Igreja hoje. Daí. e obstáculo à ação ecumênica contemporânea. à simplicidade. o que o autor não revela muito claramente. que sempre pretenderam reprimi-lo na história. e já o comentam tanto na prática religiosa como nas homilias dominicais. princípio que teria caído da moda depois de “ter embalado toda a história social do pós-guerra”. pelo retorno ao patrimônio original. que ele contudo domina admiravelmente. esta é percebida como fonte permanente de renovação espiritual e política. Odile Jacob. mas fundado no princípio chave de renascimento e de novo nascimento. Paris. A respeito. e sob a condição de que a Palavra não seja confiscada pelo poder. do que é revelado na Palavra de Deus. novembro de 1994 Mercedes Bresso et Claude Raffestin. pela volta à igualdade. O dilema. Retorno e recurso às fontes: também e sempre. da “grande surpresa do desenvolvimento louco” e de seus efeitos perversos. à justiça. Presses bibliques 12 . André Biéler situa finalmente o imperativo da ética cristã na democratização da economia. com efeito. 1979. essa reivindicação. ainda cara ao catolicismo como entendido por Roma. a respeito dos quais o leitor logo entenderá que eles podem contribuir para a construção da personalidade humana e para a maneira de viver em seu tempo. 2. antípoda do ópio do mundo. o autor auxiliará todos aqueles que. à Boa Nova. Documentation française. primeiro. Sem dúvida alguma que através deste trabalho consagrado ao que outros poderiam denominar estudo sobre a “analogia da fé”. por que sociedade?”. Jean-Bernard Racine. desejariam esclarecer o debate essencial hoje. Assim é que o texto é todo adornado de notas e proposições incidentes interpelando o indivíduo ao explicar-lhe as intenções originais e ao procurar evidenciar as dúvidas de significado às quais elas hoje se reportam. autoridade suprema. La ville entre Dieu et les hommes. Nem por isso o coletivo é esquecido. Sabemos que numerosíssimos católicos. única.conseqüências: seu pensamento vai além do princípio dialético. L’économie de l’environnement: idéologie ou utopie? L’espace géographique. social. exatamente quando são largamente deformadas ou esquecidas. o princípio da equidade. Ele espera desse “ímpeto regenerador” que se crie um liame entre renovação da religião e novo estatuto da sociedade. territorial2 : trata-se de orientar-se exclusivamente em função das correlações da 1 2 Alain Minc. O autor crê fundamentalmente no caráter imutável. Mas. independente do tempo. o autor uma vez mais mira mais longe ainda. estão dispostos a segui-lo nesta via. Significado do sabat ou significado do trabalho por exemplo. Ser-se-á enfim sensibilizado pela arte que tem o autor de suscitar em sua análise histórica ecos absolutamente contemporâneos. La France de l’an 2000. Bem longe das repressões cruéis.

por políticas muito diferentes. o apelo à juventude e aos leigos contribuir para demolir o isolamento das Igrejas. E se assim é. maximizando unicamente a eficiência. ou antes ele se situa acima do princípio e das definições categóricas. a novo modo de reflexão sobre a ética social pretendendo que as instituições básicas sejam apenas justas na medida que contribuam para tornar a situação dos mais desfavorecidos os hoje excluídos do trabalho . da mesma forma que encontrará na equação entre meta econômica e meta social a razão mesma da economia. “isso passa portanto pelo social”. da produção. prestam homenagem de forma única e específica: Cristo de quem falam as Universitaires. ou de considerar antes uma sociedade mais existencial. no engajamento ecumênico. do custo econômico e da concentração. Fá-lo-ão tanto mais facilmente quanto mais. se uma política econômica e social incarna mal um princípio de justiça e conduz a resultados aberrantes. a não ser na medida que se radiquem no Plano de Deus para Sua criação? Cristianismo social protestante e catolicismo social podem e devem convergir. mas também e correlativamente. por exemplo com a Terra. é a política ou o princípio que se deve incriminar? Resta saber o que é igualdade. Genebra. “As más relações que os homens mantêm com a terra são apenas a expressão das más relações que eles nutrem entre si”. da hierarquia. a economia como meio e não como fim? Trata-se de opor. uma e outra enredadas na própria dinâmica muito contraditória por vezes.a melhor possível? As proposições do Professor Biéler vão além de meras medidas circunstanciais para uma classe também ela circunstancial. da superioridade. no tempo e no espaço. implicando certamente o crescimento.sociedade produtivista. deparando nos princípios da Reforma com a idéia e a força de uma igualdade como equidade. Mas então. em nome da “teoria da justiça” proposta pelo filósofo americano John Rawls. o valor de uso. o que é realmente equidade. Procurando definir as condições de um liberalismo social “ou” de um “socialismo liberal” inteligentes. ele remonta uma vez mais às fontes mesmas do problema. os grandes princípios da comunicação. Esperamos que como o prefaciador. a ambição republicana de igualdade. Porque tais são efetivamente certos preceitos evangélicos importantes traduzidos para termos econômicos e sociais”. “Uma economia que tem portanto por finalidade não só a satisfação das necessidades solváveis. da dissimetria. Mitterand por ocasião da Reunião de Cúpula Mundial do Desenvolvimento Social em Copenhague. do valor de troca. mas também a satisfação das necessidades essenciais de cada indivíduo. qual é o homem do social para André Biéler. Mas. dizia Marx. não serão boas. André Biéler não intervém explicitamente no debate. 13 . e renunciando a encerrar Deus no seu empreendimento humano. a territorialidade. o leitor da última obra de André Biéler ficará convencido de que justamente as más relações entre os homens são antes de tudo a expressão das más relações que eles mantêm com Deus e Aquele a quem as religiões cristãs. a simetria e a solidariedade. senão essa criatura divina cujas relações com as outras. da desigualdade. justas e equitativas. o custo social e a regulamentação. “o homem deve ser o objetivo último de toda estratégia política ou econômica”. da temporalidade. como o dizia F. em respeito às diferenças legítimas e às diversas culturas. um mesmo princípio de justiça podendo traduzir-se. 1993. valorizando a comunhão. sendo a solidariedade tão essencial quanto a produtividade. Visto que.

Jean-Bernard Racine Professor da Unversidade de Lausanne 3 La transformation de l’espace habité.Escrituras. Nesse sentido. julho 1975. “Ethos: simultaneamente morada e modo de viver”. 14 . Um apelo que renovou intensamente a ambição de um universitário geógrafo desejoso de colocar seus conhecimentos e experiências ao serviço de uma ética que se situa no espaço em cujo seio vivemos. Bull. o apelo da Reforma é mais do que nunca oportuno e se dirige a todos os cristãos. lembrava Bernard Rordorf3. du Centre protestant d’Etudes.

1. Eslin4. concebe os próprios objetivos.Introdução Os Protestantes. conclui Eslin. 26 de abril de 1985 15 . não se imporá ela na França?” Eis o problema colocado: em que medida é o protestantismo um dos fatores determinantes do desenvolvimento das mentalidades modernas e das sociedades 4 Le Monde. desassistido. que em princípio é favorável à pesquisa e à imaginação”. “a da Igreja Católica e a da Revolução Francesa.. “Se assim é.. a ética americana. uma de liberdade de concepção na confrontação. -C.. fixa os próprios prazos. “É. questionava-se sobre as conseqüências da vigorosa penetração do modelo americano na Europa. é detestável. A sociedade moderna constrói-se segundo “um modelo individualista de origem calvinista”. “Oportunidade ou Ameaça” para a Sociedade? Os julgamentos emitidos sobre o papel dos protestantes na sociedade moderna são contraditórios. na escola e na universidade. sem contar com o respaldo dos outros (a família. exemplar. prossegue o autor. ele é responsável pelo individualismo destruidor da sociedade contemporânea e inspirador de todos os abusos do capitalismo. foram violentamente requestionadas”. avança só. o modelo que o sociólogo Max Weber. Ambas funcionavam “sobre o modelo de verdade que provém do alto e se transmite do alto para baixo. resumindo. Um colaborador da revista Esprit. “o jovem francês torna-se como o americano. definiu como o do ascetismo no mundo”. o papel é benéfico. assume o compromisso de viver no mundo e nele alcançar sucesso. um indivíduo que define sozinho seu referencial de verdade.. analisando o comportamento dos calvinistas. Esse modelo. Este autor constata que. faz de si próprio o objeto de seu esforço. é tipicamente protestante. E continuava: “Parece que os franceses descobrem nos anos atuais uma liberdade de pensamento que desconheciam desde o século XVI. até que ponto a adoção na França de tal modelo de individualismo de origem calvinista.. é uma oportunidade ou uma ameaça”. Para outros. embora sob a forma mais secularizada que se possa querer. perigoso..” Mas. a ética protestante. dizia ele. professor da Ecole Européenne des Affaires (EAP). Para uns... que ainda domina o país mais poderoso do mundo. Para uns. Para outros. escrevia ele. “É uma questão de saber. a Igreja)”. tanto na política como na educação. as duas maiores influências dominantes. ele está na origem das grandes democracias e do desenvolvimento econômico ocidental.. J. o Partido. motiva-se a si próprio. anos decorridos.

O modelo político do protestante francês. indispensável à compreensão das influências recíprocas do protestantismo e da sociedade moderna. número especial. na França “está-se ainda longe deste modelo” cultural de origem protestante. L’Histoire.” É o que bem demonstrou o filósofo Paul Ricoeur. Dumont. Paris. E reciprocamente. Lionnel Jospin e Michel Rocard. “Os protestantes são alérgicos ao coletivo. da direita (moderada) e Pierre Joxe. no sentido que o protestante é imune das ideologias e dos modelos políticos utópicos. Sobre tema análogo. e espera da sociedade não que ela fixe a cada indivíduo “um destino social comum”. presidente da seção das ciências religiosas da escola prática de Altos Estudos em Paris. Tratava-se de definir a política dos “grandes protestantes” mais conhecidos. defensores do fraco e do oprimido”. os jacobinos tomaram da Igreja o modelo autoritário. e. acresce J. isso deve-se ao fato de que. o protestantismo se bandeia antes para a esquerda moderada. Para certos Puritanos. “deriva mais do modelo puritano que do modelo jacobino”. No entanto. se haja insurgido violentamente contra a primeira. o perseguidor. Por exemplo. Notamos também a menção às duas autoridades hierárquicas dominantes. 135. 1966. Baubérot.e o que se passa hoje parece darlhe razão”. tradicionalmente. Ainda que a segunda. observa J. herança do protestantismo e o que é que advém de outras influências? Assinalamos desde já. Voltar-se-á mais além a essa importante particularidade. A filosofia política do “Contrato Social”. centralizado e hierárquico que permanece o arquétipo das sociedades de origem católica romana. durante a Revolução. “Michel Rocard manifestou muitas vezes essa dimensão crítica a respeito do marxismo”. porque não se cancelará com uma penada toda a tradição política francesa”.5 2. a Igreja Romana e a República leiga.democráticas e industriais contemporâneas? Noutros termos: o que é . sublinha que se trata de sua forma “mais secularizada”. em qualquer outra parte pôde ele encarnar o modelo liberal”. depois na América inglesa. é a Igreja Católica. na Inglaterra do século XVII. Homo hierarchicus. o protestantismo isola e acolhe as minorias. “Se. “Mesmo nos países onde é maioria. A idéia dos direitos humanos nasceu lá. da esquerda (moderada).” “Além disso. Jérôme Monod. na França. de passagem. que a tradição política francesa identifica à direita. a observação pertinente deste autor que. Esta noção é incompatível com sua preocupação com a individualidade. já muito antes. 16 . falando da influência atual da ética protestante. sua situação de minoria ameaçada empurrava naturalmente os protestantes para a esquerda e para o laicato republicano. o do paganismo e de numerosas sociedades religiosas primitivas. Se os protestantes franceses optam muitas vezes por uma política de esquerda (moderada). nessas sociedades. Há portanto “uma cultura política específica dos protestantes”. L. mas que lhe subministre simplesmente “os meios de atingir a florescência individual”. julho-agosto 1990. uma entrevista de Jean Baubérot. aparecia na revista L’Histoire6. “contraditando as teses de Jean-Paul Sartre . “o inimigo. a 5 6 Cf. como Maurice Couve de Murville. Baubérot.

Com interpretação muito moderna das antigas teses do sociólogo Max Weber (trabalhos de que se tratará mais adiante). Peyrefitte. cada vez mais centralizadora e ditatorial. um católico nostálgico. Robert Beauvais. p. Seremos Todos Protestantes. que por toda a parte se engenha em esmagar o indivíduo e em privá-lo de suas responsabilidades. 3. ambas provêm da Reforma. começamos por evocar a primeira. até que ponto essa herança foi influenciada pela evolução histórica das sociedades modernas? Examinemos também outros testemunhos interessantes. O problema está portanto novamente bem colocado: em que medida a herança do cristianismo reformado foi assimilada. 1976. manifestou seu pensamento numa obra muito conhecida e intitulada: “O Mal Francês”. Baubérot observa portanto a existência de duas tendências dominantes no seio do protestantismo moderno. nos dias presentes inteiramente secularizado. A . 1976. J. O Mal Francês. O primeiro. O que pode produzir uma sociedade de tipo liberal ou social democrata”. Cit. Existirá entre eles tensão contínua mas fecunda.7 O segundo. Peyrefitte interroga-se sobre o mal que corrói seu país. e muito particularmente sobre o mal de uma civilização tecnocrata. 9 A . mas não vai mais longe que ele quando este emite a idéia de que o modelo puritano.. em sua forma secularizada. Ora. por certas sociedades da vanguarda do desenvolvimento ocidental e. É a afirmação da individualidade (é também a origem religiosa da filosofia política do “Contrato Social”): cada um é proprietário de seu corpo e de suas capacidades de criar sem ser constrangido por liames indesejados de dependência para com qualquer senhor seja ele qual for. Baubérot se junta a J. op. 29.-C. As idéias capitalistas germinaram nesse terreno cultural. Eslin quando afirma que o modelo político do protestante francês “se aproxima mais do modelo puritano que do modelo jacobino”. algo provocador. está em vias de modelar o caráter dos jovens franceses.Igreja cristã é constituída de voluntários. dois autores franceses emitiram sobre os protestantes juízos que seguem no mesmo sentido daqueles de Eslin. Alain Peyrefitte. cujo título. além disso.”8 Destas duas visões projetadas sobre os descendentes atuais da Reforma. é: “Seremos Todos Protestantes. uns se filiam à direita moderada privilegiando a liberdade. mas dos quais eles tiram conclusões diametralmente opostas. que assinam um pacto entre eles e Deus. Paris. A opinião de dois observadores católicos sobre os protestantes. outros à esquerda moderada insistindo sobre a justiça e a solidariedade sociais. 17 . J. mas não o impõem aos outros. É o mal de uma “sociedade hierárquica e desconfiada”9 . membro da Academia Francesa. publicou um livro aparecido no mesmo ano e na mesma editora. A partir da herança equilibrada do cristianismo reformado original que insiste com igual força sobre o respeito à liberdade tanto quanto sobre o respeito à equidade (preconizando conseqüentemente o que se pode denominar seja liberalismo social seja socialismo liberal). Esta 7 8 Alain Peyrefitte. Robert Beauvais. Paris.

libera a energia emancipadora. Os países católicos.sociedade está constantemente ameaçada pelo “risco de cesarismo”10. Mas tem-se o direito de perguntar se tais censuras não podem ser dirigidas também às sociedades industriais modernas. O autor opõe. uma caminhada caótica. “responsável e contratual”. escreve o autor. p. então. a expressão “economia exaltada” atribuída à Reforma. como se verá. Por conseqüência. nas quais a responsabilidade individual dos acionistas assim como a dos trabalhadores é cada vez mais confiscada por novas hierarquias econômicas e financeiras.”13 Deve-se reter a curta frase “ao menos de início”.14 Observar-se-á ainda. aqui. que é um “liberalismo contido” pela preocupação da justiça social. quebrada por bruscas revoltas”12. cada vez mais centralizador. p. A . 18 . reforça a tendência opressora. Ibid. 174. o sistema econômico dito liberal. em sua obsessão unitária. para tornar-se . Essa situação conduz “à passividade do cidadão. inspirado no cesarismo antigo de Roma que a Contra-Reforma prolongou em oposição às aspirações profundas dos povos modernos. 12 Ibid. aqui. Os países protestantes apropriaram-se da lição de Erasmo. uma marcha rápida para a democracia. 13 Ibid. p.. é devido ao triunfo da Reforma e a seu desdobramento rumo à aquisição das liberdades humanas. O modelo anglo-saxão.em vez de exercê-los”. perseguiram o pluralismo e construíram o monocentrismo. a rotina. . lá. não sem razão. a respeito da origem desses dois modelos.ao menos de início empresa coletiva da qual cada um participa com zelo igual e direitos iguais. diz Peyrefitte. a economia menosprezada. influenciados pela Reforma calvinista. 14 Ibid. elimina pouco a pouco a autoridade cesariana. 173. p. um meio fatal e hierarquizado. 66. Interrogando-se. Os países anglo-saxões ou continentais como a Holanda e a Suíça. a economia exaltada”. lá. que confere restrição importante ao desenvolvimento que assumiu. a inovação. “a sociedade deixa de ser um dado que se impõe a todos. O autor ataca com razão as sociedades políticas hierarquizadas que sufocam a iniciativa econômica individual. “A Reforma. “o cidadão se sente impotente diante de uma máquina cega”11. que têm forte tendência à concentração dos poderes. a sociedade autoritária hierárquica e a liberal democrática.. são exemplos deste último tipo. hoje extremada. Peyrefitte identifica a da primeira na permanência do sistema católico romano. Disso resultou. de passagem. A Contra-Reforma esmaga a virtualidade emancipadora. aqui. p. Lá. 10 11 Ibid. o centralismo da Revolução. 48. desde a Reforma. lá. evoluíram para a tolerância e o policentrismo. corresponde mais ao “liberalismo integral” posterior do que ao da Reforma. Esse “cesarismo” da sociedade civil é a herança tanto do modelo autocrático da Igreja Romana quanto de seu contramodelo leigo erigido sobre o mesmo esquema. ao contrário. a “sociedade hierárquica e desconfiada” àquela que ele chama de “sociedade confiável”. de aparências democráticas. enquanto que essa exaltação. porque a autoridade política nela “detém todos os poderes . 42.

que foi uma verdadeira “revolução cultural” 15. revolução emancipadora ou materialista? O segundo autor católico ao qual nos referimos. o respeito aos valores cristãos tradicionais e. com efeito. 166. hierárquica e autoritária que reduz a importância da personalidade e da iniciativa individual. Retornemos aos controversos juízos sobre o papel do protestantismo e do catolicismo na Europa. que os ditadores Lenin. Ao contrário.. 167. de ressurgir sob diferentes formas hoje no antigo império da Rússia. acerca da história e da evolução dos países do Este assim como da América Latina. eclesiásticas e sociais de numerosas regiões que não conheceram a Reforma. hoje. diz ainda o autor. Stalin. aliás. passando pela filosofia 15 16 Ibid. Análise semelhante poder-se-ia fazer. que vai da Reforma à plutocracia moderna materialista. faz quase as mesmas constatações que Alain Peyrefitte. diz ele. Ibid. todas as deficiências da sociedade democrática e industrial moderna. Notar-se-á. Franco. apesar das reformas em curso). p. 4. Ditaduras ou regimes pessoais aparentemente democráticos neles se instalaram por toda a parte onde subsistia. mas delas apresenta interpretação radicalmente diferente. graças sobretudo às conquistas coloniais. da África ou da Ásia. Denis de Rougemont ponderou que nenhuma ditadura moderna se estabeleceu em país influenciado pela Reforma calvinista. o modelo monárquico russo foi uma transposição do modelo romano. p. a imagem do velho modelo de sociedade hierárquica e autoritária. Num encadeamento de causas e efeitos. pode-se resumir a idéia dominante de Peyrefitte dizendo que a herança de Roma induz uma estrutura mental. A reforma. Deplora o espírito ao mesmo tempo revolucionário e mercantil dos calvinistas aos quais imputa. no rasto de incontáveis polemistas católicos do século XIX. tomado de empréstimo da antigüidade pagã pela Igreja Romana. a hegemonia das nações européias sobre o resto do mundo. Pinochet e tantos outros déspotas de segunda categoria eram todos de origem ortodoxa russa ou católica romana. Salazar. por conseqüência. centralizadora. transmitido à Rússia por Roma por intermédio de Bizâncio pelos fins do primeiro milênio. religiosa e sócio-política. “Quando Calvino. Este modelo. perdurou ou reproduziu-se nas estruturas mentais. Robert Beauvais. são responsáveis pela destruição das antigas estruturas hierárquicas e autoritárias. o “pensamento revolucionário” da Reforma. ele disparou um movimento que eles não podiam prever e que não se deixará facilmente canalizar” 16 . Este modelo autocrático foi inteiramente secularizado e robustecido pelo comunismo. Mussolini. Assim é que. exorta seus correligionários a se tornarem responsáveis por si próprios. freqüente nas civilizações primitivas. conduz a uma mentalidade e a uma sociedade de progresso e de imaginação criadora na liberdade. 19 . (Corre o risco. Os cristãos reformados. Hitler. que proporcionaram aos países latinos a ordem. ou subsiste ainda. por exemplo.. examinando a opinião do segundo pesquisador católico supramencionado. “A mensagem essencial do protestantismo é emancipadora”.Arriscando simplificar um pensamento muito mais matizado.

o que se pensa na surdina em muitos meios profundamente conservadores ou reacionários. os usos. ele. quão desinteressada haja ela sido ou possa ser ainda. que levou os povos protestantes à vanguarda das nações industriais. “A insubmissão essencial. Beauvais. (falar-se-á disso mais adiante). op. sob a influência dominante. arruinou e continua arruinando o Ocidente. precisa da filantropia para se fazer perdoar o lugar que ocupou na vanguarda do capitalismo. ao contrário. Constata-se isso tanto no século XIX.. os conformismos e a simples opinião corrente”18.17 É verdade. 73. Denuncia também a filantropia dos protestantes. quanto no século XX. que destrói nosso mundo moderno.. 17 18 R. a sociedade. Cit. ao contrário. Tem a coragem de afirmar alto e bom som . Ibid. escreve. além de puritano. pressupõe um estado de bravata quase permanente para com suas relações. que a filantropia. considera que o calvinismo está na origem desse espírito revolucionário que. nunca cessou de manifestar-se. justamente quando se devotavam bravamente a reduzir-lhe os efeitos. que o impele para as audaciosas iniciativas.. Robert Beauvais inquieta-se com a marcha da sociedade tecnocrática contemporânea para uma ditadura disfarçada.a má consciência -. é também filantropo”.mesmo que seja de maneira extremada . Como Alain Peyrefitte. Beauvais descobre no seu ardor laborioso e na sua predisposição ao ganho a origem do materialismo devastador.ele vê degradar-se não só o Ocidente mas também a Igreja Romana universal. Provocada pelas primeiras manifestações desse vício impune . escreve ele. 20 . em vez de deplorar como ele a supressão dos indivíduos ante os imperativos de uma tecnocracia políticoeconômica crescentemente despótica. O Puritano. que faz do protestante um opositor nato. o mais nefasto produto do protestantismo . que muitas vezes lhes serviu de biombo para mascarar-lhes o espírito de lucro. benéficos mas igualmente perversos. 42 et 94. A filantropia marcou “o século XIX que foi o século da ascensão econômica protestante na França. que causa no Terceiro Mundo o desenvolvimento econômico acelerado dos países industrializados. e essa independência que lhe faz intoleráveis os regimes autoritários e opressores. p.. onipresente e muitas vezes clandestina dos protestantes. p.do Iluminismo. condena o protestantismo por se ter apoderado dos instrumentos de comando da sociedade financeira e industrial. Mas.segundo ele. aniquiladora daquele sentido de responsabilidade que o calvinismo havia promovido tão intensamente. segundo ele. na maior parte dos comportamentos huguenotes: estar em paz consigo mesmo e com Deus . E enquanto o acadêmico Peyrefitte elogia o gosto pelo trabalho dos Puritanos. a propósito dos efeitos ambíguos. “O protestante. a respeito dos sofrimentos do novo proletariado industrial. tão prejudicial ao mundo operário. a burguesia tratou de lavar-se dele através da filantropia. a franco-maçonaria e a Revolução Francesa . afirma ele. muitas vezes impediu que os cristãos (de todas as confissões) investigassem as causas da miséria. Enquanto Alain Peyrefitte vê na autonomia moral do protestantismo essa força individual. Robert Beauvais.. em graus diferentes.

É a conseqüência de um matraqueado intensivo. que existe uma filiação direta entre o capitalismo e o comunismo. fermento da riqueza. portanto. 44. filho modelar. É certo. Ibid. ela (a Alemanha) não ingressou na idade industrial tão rapidamente quanto os Países Baixos. Se tais coisas se divulgassem. A exaltação do Trabalho tornou-se um dos dogmas da moral ocidental.. impõe-se distinguir o calvinismo. Quando se fala do protestantismo. Capitalismo e marxismo. Mas. subprodutos do protestantismo? Deste desvio dos costumes (subentendido: provocado pelo protestantismo) engendrado pela santificação da Rentabilidade. Mas que ambos sejam. escreve Peyrefitte. cruzado do anti-capitalismo.”. “consumidos pelos prazeres”. a Suíça ou mesmo os Estados Unidos. do luteranismo mais conservador. O autor continua: “A religião do trabalho (subentendido: produto do protestantismo) é de tal modo enraizada no inconsciente que o marxismo só precisou abaixar-se para empunhá-la: observem-se nos primeiros filmes soviéticos os semblantes extasiados dos colcoses diante do espetáculo de uma máquina de ceifar em ação. p. como se verá. Antes de nisso ver uma exceção. nasceu a nova heresia: a sagração do trabalho.” “O luteranismo mantém-se Igreja. foram ninadas por cantigas edificantes. de tendências revolucionárias. isso é um grande exagero. escreve ainda Beauvais.. e Arthur Philips. como pretende o autor. esclarece ainda Beauvais. tomavam a precaução de nos ocultar que o primogênito.”20 Capitalismo e marxismo. morria de infarto aos cinqüenta anos. embora não inteiramente falso. seria a anarquia”. repletas de filhos-famílias preguiçosos e debochados que morriam aos setenta anos. “Nas suas regiões protestantes. a Inglaterra. fundador de uma das mais poderosas multinacionais européias. Nossos dois autores concordam neste particular. Então. e as verdades da Escritura que o tornam uma maldição. Para o politicólogo e o sociólogo. ambos de origem israelita e ambos nascidos e educados na religião protestante à qual se convertera sua família. Entre calvinistas e luteranos. prossegue Beauvais. antiromana certamente. se dão as mãos neste culto da eficiência seja qual for o preço. nuanças. herança de origem protestante. o luteranismo situa-se entre o catolicismo e o calvinismo. em que medida isso é verdade? E de que outras origens advém essa herança? Tais são as apaixonantes questões que urge tentar responder. O que não pode 19 20 Ibid. eram primos (distantes). 6. é instrutivo notar que Karl Marx. 21 . adita Beauvais. esposo exemplar e “sempre no escritório antes dos empregados” como o exige a moral do bom patrão. levando-se em conta certos desvios protestantes deploráveis. “No âmbito da historieta. 44. abatido pelos problemas de gestão e de rentabilidade. mas Igreja hierárquica e dogmática. encarregado de combater as tendências naturais do homem.5. cumpre notar que a Alemanha reformada é luterana e não calvinista. p.”19 “As crianças de minha geração.

Ibid. op. observou ele. É notável que.. a despeito da grande onda de secularização dos espíritos que varreu o Ocidente. p. eles representam o elemento conservador da comunidade.24 Esta última observação. Ouvimos.. “Não confundir luteranos e calvinistas”. são o elemento rebelde. tal é o título de um capítulo de sua obra na qual se lê: “Amigos dos prazeres deste mundo e acomodados à vida. 144. 7. os luteranos protestantes dos departamentos franceses e das nações estrangeiras do Leste. o sucesso de Adolfo Hitler. Sabe-se que a Sicília é particularmente infetada pelos delitos da máfia. bem distintas. desde o púlpito. da Reforma. Os calvinistas. p. 90.. Cit.. liberal e progressista.deixar de ter relação com o fato de que os países reconhecidamente calvinistas hajam iniciado o surto de progresso no século XVII. M. p.”23 “Se o ramo luterano conservador estimula submeter-se às leis de um mundo criado por Deus. que coragem manifestaram os valdenses do 21 22 A . acham-se circundados por terra fértil e produtiva. Beauvais faz análise simétrica. os homens do poder e de apelar para o povo contra eles”. Cit. por exemplo. Mas. bem como dos países europeus do Norte. não está destituída de pertinência. Peyrefitte. austríaco de nascimento. mas para louvar o espírito conservador dos luteranos. como católica é a Áustria. que conduziu os reformadores a adotarem posições diferentes na ordem e na importância das reformas a empreender. 22 . Violente: “A cultura protestante. é uma das regiões mais católicas da Alemanha.”21 Peyrefitte menciona também. “Esse personagem”. Menos atingidos pelas perseguições que os irmãos calvinistas. se a observação delas é útil para explicar certos matizes entre as famílias reformadas. eis o testemunho de um destes magistrados. op. os países luteranos somente no século XIX.. “as confissões e a absolvição levam a comportamentos de irresponsabilidade. enquanto os países católicos deviam aguardar o século XX. Constatar-se-á também que essas diferenças entre luteranos e calvinistas se explicam pela sucessão de duas etapas históricas. o testemunho de um magistrado católico italiano. para confirmar as observações. teve na Baviera seu maior apoio popular. vindo do Sul. por outro lado. as tendências individualistas e liberais do espírito democrático agitam o calvinismo desde a Reforma: os pastores genebreses haviam adquirido muito cedo o hábito de criticar. se constatem ainda hoje sobrevivências típicas da influência confessional sobre o comportamento dos homens em sociedade. 146. as autoridades de mais de vinte municípios foram destituídas do poder e substituídas por comissários nomeados pelo governo italiano. como é sabido. De sua parte. 23 R. Permanência de certos traços de caráter entre os protestantes. “a região mais romanizada do Santo Império Romano Germânico. Nesta última.” Sabe-se. tem maior vigor na sua luta contra a máfia do que a cultura católica”. 47. Ora. Beauvais.”22 A Baviera. p. elas não alteram fundamentalmente as características do protestantismo considerado no seu conjunto. 24 Ibid. Em 1993. que se difundiram pelo Sul da França e o Jura. como se verá diversas vezes.

semente de liberdade que liberta o homem dos conformismos religiosos. o catolicismo. O imperador César e os sucessores desempenharam ambas as funções. Mas. rejeitaram tal amálgama. “Não há na Europa. aos quais nos referimos. o princípio de certa pobreza propícia à meditação espiritual e que não leva à exaltação da riqueza. nota ele. cristianizados. e tão grande número de policiais. pela caridade individual e sua doutrina social contra a miséria. O chefe da Igreja católica romana afirmava ser. mais adiante. Isso deve ser sublinhado desde agora e conservado na memória ao longo desta obra. então. reputando-o indigno de sua fé. e da latinidade. é. que mantém o povo em tranqüila e voluntária submissão. se apressa a prestar homenagem merecida a todos os outros resistentes. baseado. perderam a vida na defesa da legalidade”. não se deve concluir que estas se achem ausentes daqueles que não participam dessa mesma herança. Mas. (Graciano. o protestantismo. é fermento algo revolucionário. o segundo. 8. E ambos concordam em reconhecer que essa noção da ordem hierárquica é uma herança antiga da Roma pagã. apta a conduzir as sociedades a seu apogeu. no tocante ao cristianismo. Tal ambição político-religiosa era totalmente estranha ao espírito dos primeiros cristãos por muitos séculos. vindo de magistrado não protestante. 23 . o Soberano Pontífice. conquanto lute. As notícias de Riesi. que conduz ao desmoronamento da ordem estabelecida. desde o século IV). março 1993. como o papado procurou e definiu essa dupla supremacia pretensamente divina.Piemonte na sua luta secular contra todas as formas de corrupção. “oportunidade ou ameaça” para a sociedade? Em definitivo. de funcionários. invenção relativamente recente. enquanto Alain Peyrefitte se rejubila com a existência dessa força espiritual dinâmica que é o protestantismo. como o primeiro. ao contrário. isso não significa que os protestantes possuam o monopólio exclusivo de tais qualidades. Persistentes disputas ocorreram entre o poder político e o religioso para conseguir acumular esses dois poderes supremos. cristãos ou não. sociais e políticos e o encoraja a iniciativas benéficas que lhe sugere o Evangelho. estimula. Finalmente: os protestantes. Mas quem cita esse testemunho. fazem a mesma análise do protestantismo e do catolicismo: o primeiro. Ver-se-á. 25 Giuseppe Platone. que participaram e participam ainda heroicamente desse difícil combatem e muitas vezes oneroso. O primeiro estimula a sociedade e sua vontade de enriquecimento. depois católica. na Idade Média e até os nossos dias. o segundo. o acúmulo da autoridade religiosa e da autoridade política na mesma pessoa. sobre a autoridade primeira da tradição (religiosa e por analogia social e política) assegura a permanência de uma ordem. Essa dupla hegemonia foi reivindicada pelo papa muito mais tarde. às dezenas. Pois. 25 Ao constatar-se que o protestantismo favorece o desenvolvimento de certas virtudes. Robert Beauvais deplora o desenvolvimento dessa liberdade perniciosa. país como o nosso onde tão grande número de magistrados foram assassinados. Mas os imperadores. contra a corrupção. quando se põem em evidência certas virtudes estimuladas pela Reforma. porém. podemos verificar que os diferentes autores católicos ou protestantes.

evoluíram as relações da sociedade industrial ocidental. Os reformadores nos ensinaram também que a sabedoria não devia permanecer encerrada em obras destinadas a especialistas eméritos. pois. 37). não da democracia no Ocidente que existiu bem antes da Reforma. no respeito das diferenças legítimas e nas suas diversas culturas? (capítulos V e VI). da Reforma aos tempos modernos.de uma parte. e como eles se influenciaram reciprocamente. as responsabilidades comuns dos cristãos de todas as confissões. do que a longa e minuciosa análise.uma das conclusões a que este estudo levou o autor . 9. ele se recorda que. c. como evoluíram estas e sob quais influências. mas que devia tornar-se acessível a qualquer um. com o cristianismo. e de outra. Sem dúvida que tal empreendimento. nem com um livro de história. Por-se-á especialmente a questão de saber quais são hoje. sempre é perigoso emitir observações de caráter geral a partir de fatos particulares. E poder-se-á constatar finalmente . Nosso propósito é considerar o grau de pertinência das observações e considerações dos autores. fornecem melhores indicações sobre a rota do que uma carta topográfica minuciosa. que acabam de serem citadas. Nada tem a ver com um manual de teologia. Trata-se de sobrevôo histórico de cinco séculos. Pois elas contêm todas uma parte da verdade. Depois interrogar-se-á a história para apreender de que modo. se bem que seja um ensaio que interesse também a essas áreas. antes de tudo. Observações pessoais. Certamente. a reencontrar a unidade de seu testemunho espiritual e de sua ética. pelo seu Senhor. Não estão eles convidados. estudo sistemático do gênero acadêmico. em tempo brumoso. dada a experiência da observação aérea que o autor adquiriu outrora no exército. Trata-se. 22. na segunda parte. v. mas sem utilização a grande altitude. bem escolhidas. como lhes pede Jesus Cristo (Mateus. de examinar (capítulos I e II) como o cristianismo reformado suscitou a promoção. depois. é aventura temerária. muitas vezes só eram reais para parte da população.simultaneamente a autoridade política suprema das nações e a autoridade religiosa universal dos cristãos. todavia. que toda política oculta uma crença (profana ou religiosa). menos ainda com um tratado de ética. que procura estabelecer em poucas páginas correlações entre domínios tão complexos e aparentemente tão distantes uns dos outros. Não é. Elas conciliavam-se facilmente com a escravidão antiga ou a servidão medieval. cada vez mais secularizada e materialista. compreender quais foram as relações entre o protestantismo e o desenvolvimento econômico e industrial nas suas origens (capítulos III e IV). particularmente social. 24 . na época dos grandes progressos tecnológicos das sociedades industriais em via de expansão universal. Mas. Este se atém mais a certos pontos de referência significativos.) Tentar-se-á em seguida. que toda religião induz uma política. (As democracias anteriores. a fim de que todos possam também amar a Deus “com todo o seu pensamento”. como a religião e a sociedade política e econômica. mas aquela das grandes democracias modernas. certas referências no solo.

São suas diferenças de visão sobre a Igreja que os levarão também a divergências de opinião sobre a estrutura da sociedade. esses combatentes corajosos. nos efeitos sociais. Entre esses extremos situam-se os presbiteriano-sinodais (no seio dos quais as comunidades locais se atribuem uma autoridade superior). Uns. dizia ele. o autor quer declarar. Outros. O capítulo dedicado ao movimento ecumênico contemporâneo lembrá-lo-á. A exigência democrática depende diretamente da eclesiologia de cada denominação. comparado. 5 e 25).Referindo-se ao pensamento dos reformadores. O diálogo ecumênico é enriquecedor quando essas diferenças são admitidas. que têm “fome e sede de justiça” dos quais fala Cristo e que. por demais esquecidos das exigências de sua fé nesta matéria. o autor não pretende ressuscitar disputas confessionais de outra época. ao do catolicismo romano. como ele se empenha sobretudo em tirar conclusões. que. Pois eles o encontraram. Alguns deles fizeram-no pensar nesses “artífices da paz”. dos doentes e dos prisioneiros que eles visitaram (Evangelho de Mateus. despontam ali entre protestantes de diversas denominações. Mas. sem mediação obrigatória de um clérigo. aliás. os ardentes promotores da democracia. Esta concepção permite a cada indivíduo entrar diretamente em relação com Deus. c. 25 . na prática. hoje. intermediário necessário entre Deus e os fiéis. Ele deparou igualmente com grande fraternidade nos grupos de militantes sem caráter confessional ou religioso. ver-se-á que os mesmos problemas. para a distribuição dos sacramentos especialmente. particularmente no contato com homens e mulheres filiados ao catolicismo romano. juntamente com muitos Puritanos. sem o saber. ao estudar o advento da democracia na Grã-Bretanha. embora não o conheçam ainda. os Anglicanos. Aliás. a tal respeito. dos refugiados que eles acolheram. consoante ela leve em conta ou não. o conhecimento bíblico de muitos deles faria inveja a muitos protestantes. ao contrário. encontrados alhures entre protestantes e católicos. desde agora. Eles serão os fiéis sustentáculos do absolutismo real combatido pelas diversas revoluções. precederão os crentes no Reino de Deus. Eles serão os partidários de uma realeza parlamentar. junto com tudo o que os crentes de diversas origens têm em comum. Verificou. Contudo. serão. quanto ele se enriqueceu espiritualmente por trocas ecumênicas. ele não pode evitar de pôr em evidência as diferenças que surgem entre as confissões. na pessoa dos pobres que eles socorreram. a exigência evangélica do sacerdócio universal (cada um é seu próprio sacerdote). democrática. como os Quakers e os congregacionalistas (para os quais a comunidade local é soberana). muitas vezes inconscientes e inesperadas. são sob muitos aspectos os mais próximos do catolicismo romano. das diversas crenças na construção e na marcha das sociedades.

Primeira Parte Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias Capítulo I As Raízes da Democracia As interpretações do papel dos protestantes na sociedade. Numerosas comunidades urbanas ou rurais obtiveram a grande custo cartas democráticas. e reclamar um retorno à simplicidade e à igualdade evangélicas. Genebra. outorgando-lhes liberdade relativa. Entre os séculos XIII e XVI. prophète de l’ère industruielle. É uma imagem de todos os tempos. Genebra. desde a Reforma. homem da dor. Nesta primeira parte. permaneceu gravada no espírito das massas populares miseráveis. 1959. poderosa corrente de contestação. é apenas um exemplo dentre muitos outros na Europa. autoritária e hierárquica da época. de mais perto. amigo dos humildes e dos deserdados. não cessou de questionar a sociedade profana e religiosa. É preciso examinar. urge recordar brevemente os acontecimentos que a precederam e acompanharam. rejeitado. os fatores que. Genebra. condenado e executado injustamente sob o pretexto de conluios subversivos. e por isso desprezado.26 1. 26 . especialmente: La pensée économique et sociale de Calvin. no espírito e na ação dos cristãos reformados. iniciar-se-á pelo exame do aspecto político desta dinâmica. L’humanisme social de Calvin. preso. alimentada nessa fonte permanente de renovação espiritual e política que é o Evangelho. contribuíram. 1963. Em todo Ocidente cristão e desde suas origens. para favorecer a dinâmica política e econômica do mundo moderno. quais são. O nascimento da Confederação Helvética primitiva. torturado. 26 Encontrar-se-ão nesta obra exposições sumárias de estudos mais completos do autor. A emergência dolorosa de um novo mundo. Genebra. em 1291. mas ela ressurge sempre com mais vigor no espírito das populações subjugadas pela violência ou aniquiladas pela miséria. Calvin. dadas pelos autores citados na introdução. 1964. a imagem profunda do Cristo sofredor. 1961. instigam a mais amplas reflexões. E para compreender o que se passou na Reforma. L’homme et la femme dans la morale calviniste. de fato. que conduziu ao advento das grandes democracias.

a instigação mútua começou muito antes que emergissem na superfície da História as agitações sucessivas. executados ou queimados por terem difundido as verdades evangélicas. dos Anabatistas no Continente. Paris. rebeliões de proletários das regiões mineiras. São dois movimentos complementares sobre os quais difícil é dizer qual engendrou o outro. O desejo acutíssimo de reformas profundas tanto do sistema feudal hierárquico dominante quanto do cristianismo romano. De fato. comentando o Evangelho de São João (c. Um movimento inovador das artes. todos acusados. Ela também experimentou a sina de numerosos movimentos populares em prol da renovação da religião e de novo estatuto para a sociedade. futuro berço da Reforma Calvinista. 27 . com as tentativas de reformas religiosas e sociais anteriores de Pedro Valdo (século XII). príncipe do Império. sublevações populares foram provocadas por uma pletora de folhetos e libelos fervorosos contra os poderes constituídos e largamente distribuídos. enquanto seus discípulos eram perseguidos e freqüentemente exterminados. de novo nascimento. que posteriormente foram aglutinadas sob a denominação de Renascença e Reforma. 6. O despertar maravilhoso dos humanismos complementares. Seus ímpetos renovadores foram habitualmente denunciados pelos poderes estabelecidos.Genebra também. v. das letras e do pensamento teológico. Renascença e Reforma corresponderam ambas ao mesmo anseio. neste 27 Paul Faure. A época da Pré-Reforma foi assim época de intensa efervescência religiosa e social. de João Huss e Jerônimo Savonarola (século XV). p. Vivia-se a extraordinária esperança de um renascimento. 3. atribuindo-se o monopólio de uma interpretação autêntica. movimentos dos Lolardos na Inglaterra. “A Reforma e a renovação das artes e das idéias são solidárias. ou antes são os dois aspectos contemporâneos de um mesmo renascimento”. obteve franquias. muitas vezes traduzidas em língua vulgar por seus próprios préstimos.3). escreve Paul Faure. 1949. não agitava apenas os meios populares. são os mais conhecidos. filosófico e científico apossava-se das elites. e geralmente reprimidos cruelmente. políticos e religiosos conjuntamente. ao mesmo tempo. 2. Sonhava-se ver realizar-se melhor que antigamente o que anunciava o Evangelho quando falava de vida nova. Em muitas regiões da Europa. mas sob a condição de que essa Palavra não seja confiscada por uma autoridade eclesiástica qualquer.27 E acrescenta: “Calvino. La Renaissance. porque ele infundia em todos os conhecimentos e em todas as atividades humanas a luz da Palavra de Deus. Revoltas de camponeses. de John Wyclif (século XIV). que lhes dá seu sentido e que lhes confere sua finalidade. fala. fruto e depois causa determinante dessa efervescência espiritual e política. o papel e a imprensa. condenados. construído segundo o mesmo modelo. A Reforma pode ser considerada. confirmadas em 1387 por seu bispo. graças às recentes descobertas técnicas que acabavam de subverter os meios de comunicação.

Todavia. por desprezo à Idade Média e a seu declínio religioso. a fé repousava sobre a vida mais do que sobre o conhecimento dos artigos de fé”. só sonhavam fazer reviver a antiga civilização pagã greco-latina. existia portanto uma intuição justa: o antigo humanismo. Erasmo recoloca em posição de honra as teologias dos primeiros séculos da era cristã.29 Em 1523. 29 Ibid. despojado de seus artifícios religiosos. antes de divergirem sobre certos pontos. 30 Ibid. a maioria dos humanistas e dos reformadores cogitavam. escrevia Erasmo. se impunha por opressão. traduzida por Roberto Olivetan. considerando o humanismo da Igreja Romana um humanismo tutelado. além disso. integralmente a seu custo. que desejava orar “em língua que se entenda” e não mais em latim. indiferentemente de reforma. no princípio do século XVI. 28 . com razão. vê-se. era partilhada por sábios assim como pelo povo.sentido. 3.28 De sua parte. quando aderirem à Reforma. elabora a primeira tradução da Bíblia em francês. ao mesmo tempo que humanistas italianos e ingleses traduzem e propagam os textos sagrados. p. renovamento. por Pierre Chaunu. ou melhor. aquele da Antigüidade pagã. não mais antropocêntrico. são os próprios humanistas que interpretam e difundem a Palavra de Deus. com prefácio de João Calvino. que impunham aos indígenas do Novo 28 Guy Bedouelle. tal qual o propunha o Evangelho e criar assim um humanismo novo. a dos Padres da Igreja. já no século XIV. isto é. preocupados em liberar-se do aprisionamento acadêmico e eclesiástico para transmitir o saber aos humildes. frutos de imaginação. E os sábios estão. Deplorável divórcio. mas teocêntrico. concorrer para o conhecimento do homem. 76. época dos conquistadores católicos. De l’humanisme aux réformes. e se levanta contra os debates estéreis dos doutores e professores que impõem aos crentes seus “sistemas filosóficos”. Tanto mais que essa tutela se estendia a toda a cultura e que. cristocêntrico. fonte de perniciosas controvérsias. pobres valdenses do Piemonte. Aliás. devia. 1986. “Outrora. discípulos de Pedro Valdo. de uma renovação global do humanismo baseado num retorno às fontes de toda a cultura humana e cristã. renovação. regeneração. violenta se necessária. em L’aventure de la Réforme. o humanismo antropocêntrico.” Mesmo se certos inovadores como Petrarca. aparecida em 1530. a despeito de suas invenções mitológicas fantasistas. a escolástica medieval que adquire autoridade no catolicismo romano. Paris. ressalta Guy Bedouelle.30 Na fértil agitação espiritual e intelectual dos séculos XV e XVI. Lefèvre d’Epales. para publicar. muitos humanistas rejeitavam suas pretensões. Estava-se no século XVI. a magnífica Bíblia francesa que apareceu em 1532. “ele descreve a história da Igreja como lenta asfixia da fé pela razão”. p. este conhecimento cristão do homem tendo sido obscurecido pelos clérigos. cotizarse-ão. 75. A sede da Palavra de Deus.

Satisfazia assim a expectativa secular da humanidade. na origem da secularização do pensamento ocidental (não confundir com a laicidade da cultura). Tal foi então o infeliz desvio do humanismo antropocêntrico da Renascença. não sem razão: “Se Deus criou o homem à sua imagem. Abria dessa forma ao ser humano o caminho de seu próprio conhecimento e lhe oferecia assim a possibilidade de reencontrar sua verdadeira identidade. E através dessa vida nova. econômica e financeira do Ocidente. Cada indivíduo podia. preconizando primeiramente a tolerância (excelente. Jesus de Nazaré. a distância. depois o ateísmo. de um lado. Os entes humanos não estavam mais condenados a conceberem por si mesmos imagens de Deus. 1). Homens e mulheres eram convocados a renascer na conformidade dessa imagem de Deus. ele também primitivamente criado segundo a mesma imagem. por reação. representações imaginárias. essa nova imagem do homem. Assim. uma tendência cada vez mais importante do humanismo renascente tornava-se anticlerical. Mas. Como dirá mais tarde Voltaire. redescoberta pelo cristianismo reformado. Encontrar-se-á essa tendência ao longo dos séculos seguintes. Ver-se-ão mais adiante os duplos efeitos. deixando profundo vácuo religioso insuportável no homem. sem jamais confessá-lo. ela evocava o humanismo de Deus. que novamente alijava o conhecimento de Deus para o plano do imaginário. 8. conhecer-se a si mesmo e redescobrir que toda a criação era também convidada para sua renovação (Romanos. lembrando-lhes que o homem só se conhece verdadeiramente quando faz em Cristo a redescoberta de sua humanidade primitiva. Vê-se tudo o que. como toda pessoa. a Reforma podia oferecer aos humanistas. c. hoje desnaturada. benéficos e perversos. do mundo inteiro em seguida. permitia a cada indivíduo compreender que sua natureza atual era uma natureza degradada e que devia ser restaurada. Esse humanismo cristocêntrico. Mas essa nova concepção permitia-lhe também descobrir que ele trazia em si. depois os diversos socialismos. que velava por fazer desaparecer todo contestador da autoridade de direito divino da hierarquia romana. que tais ideologias produzirão na história política. de outro lado. De sua parte. e tempo da Inquisição. eles reencontravam ao mesmo tempo o próximo. ídolos. um humanismo cristocêntrico. O liberalismo integral. mas insuficiente sobrevivência da caridade cristã). Reatava assim com o humanismo cristão das origens. Reportando-se às fontes mais antigas do cristianismo original. c. gerará rapidamente todas as ideologias substitutivas dos tempos modernos que ocuparão o lugar da fé cristã. Esta secularização. os traços maravilhosos de sua identidade primeira. esse renascimento. o mistério da incarnação divina no representante da humanidade. só 29 .Mundo a fé pelo terror. A Palavra de Deus tornada carne (Evangelho de João. refugiando-se num deísmo por demais vago muitas vezes. a Renascença podia subministrar à Reforma pelo alargamento dos novos conhecimentos em todas as direções do saber racional. portanto. Anunciava uma atitude antes de tudo de indiferença. 20-21). v. e tudo o que. que haviam assumido com relação à pesquisa teológica renovada certos humanistas. isto é. substituindo a religião. a cuja semelhança haviam sido criados. o homem lhe deu o troco”. o próprio Deus dava-se a conhecer na pessoa de um homem. a Reforma tomava direção divergente. arrefecidos pelo autoritarismo exclusivista do catolicismo romano. tornar-se-ão verdadeiras crenças profanas.

fará aprofundar-se. Ela alargar-se-á, como havia previsto Erasmo, quando receava que a Renascença se restringisse a um retorno puro e simples à civilização pagã da Antigüidade. Irá até à completa separação do cristianismo para incidir na ilusão de um conhecimento do homem por ele mesmo, recurvado sobre si mesmo e indiferente à Revelação cristã. Tal será a fonte de todas as extravagantes utopias que produzirão as ideologias políticas modernas, origem dos sangrentos conflitos do século XX. Esses simulacros da fé cristã arrastarão mesmo no seu desvio muitos cristãos. Essas discrepâncias, já percebidas no século XVI, forçarão os reformadores a marcar, por sua vez, sua distância com referência a essa tendência rumo a um humanismo secularizado. Isto será a fonte de mal-entendidos duradouros entre cristãos reformados e humanistas, a despeito da complementação e das potencialidades de enriquecimento mútuo de seus conhecimentos. Reportar-nos-emos a isso a propósito das ideologias profanas, produtos do século das Luzes, e do bom uso que cumpre delas fazer. Pois, reformados e humanistas se reagruparão nas revoluções democráticas para abater o Antigo Regime de direito divino, sustentado pela Igreja Romana.

4. Do absolutismo de direito divino à democracia. É precisamente na guinada da História, assinalada pela Renascença e pela Reforma, que se desenham os futuros regimes político-religiosos dos tempos modernos. Isso é verdadeiro mesmo para a Rússia, país tão afastado, aparentemente, daquilo que se passa no resto do mundo. Depois do assalto destruidor do Islã na bacia mediterrânea, desde o século VII, e em seqüência à tomada de Constantinopla em 1453, a Rússia permanece a única nação livre do Leste europeu. O cristianismo ali assumira a forma da ortodoxia oriental. Esse império adotara, também, o esquema antigo de governo temporal e espiritual de tipo romano. Mas transformou-o, invertendo-o. Instituiu o césaro-papismo (regime onde o poder político domina o poder religioso). O Czar (César) nele tem a precedência sobre a autoridade eclesiástica. É também regime autoritário e hierárquico. Ora, radicalmente secularizado no século XX pelo ateísmo marxista, esse modelo, onde o Estado é onipotente, era assumido e robustecido pelo comunismo. Subsistirá até seu recente desmoronamento. Essa passagem do antigo para o novo regime assemelha-se, um pouco, ao que ocorrera um século mais cedo na França. O modelo monárquico de direito divino fora reassumido, radicalmente secularizado é verdade, pela República autoritária e centralizada dos Jacobinos, no tempo da Convenção. Os arquétipos de organização social e religiosa ficam profundamente inscritos na memória dos povos, ainda quando os novos beneficiários do poder renegam as origens. No âmbito religioso como no âmbito temporal, no regime teocrático como no regime césaro-papista, a autoridade vem de cima. Ela dita sua vontade, suas ordens e suas leis a um povo educado para recebê-las e obedecê-las. Esta é, como se verá em parágrafo próximo, a razão pela qual o exercício da democracia será tão tardio e tão difícil nos países do Leste assim como nas nações católicas, ou de origem católica mas secularizadas. São esses, também, os motivos por que nelas é tão fácil o advento de regimes autoritários e militares, por vezes totalitários.

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Como foi lembrado antes, a herança das democracias antigas se mantivera, ao longo da Idade Média, em pequenas comunidades rurais ou urbanas. Mas, sempre controlada pelas grandes monarquias reais ou imperiais, esse modelo não gerara qualquer das grandes democracias ocidentais. Ademais, a democracia era freqüentemente muito relativa, acompanhando-se, por vezes, da servidão e, mais tarde, do regime censatário. Com a Reforma e nos séculos seguintes, surgem na Europa outros tipos de governo. Forjam-se a partir das mentalidades protestantes e das estruturas democráticas de suas Igrejas. Desde o século XVI em Berna, Bale ou Genebra, no século XVII na Inglaterra (um século antes da Revolução Francesa), depois na Holanda, nos Estados Unidos, nos países nórdicos, por toda parte onde prosperam maiorias ou fortes minorias protestantes, instalam-se regimes liberais e democráticos, sob a forma de repúblicas ou de monarquias parlamentares constitucionais. Verificar-se-á que, graças à penetração do individualismo desenvolvido pelo liberalismo econômico nos países latinos fiéis ao catolicismo romano, tais regimes democráticos neles se estabelecerão embora progressiva e tardiamente, mas não sem sofrimento e violentas reações contra-revolucionárias. Constatar-se-á, também, que, nesses mesmos países, o comunismo penetrará mais rapidamente e será muito mais ativo e virulento que naqueles outros. Na Inglaterra, por exemplo, o notável esforço do metodismo protestante no intuito de acudir e mesmo sustentar na luta as camadas miseráveis do proletariado, no curso da revolução industrial, encorajou muito cedo um trabalhismo moderado e democrático que por longo tempo erigiu barreiras ao comunismo. Desde os primórdios, a Reforma correspondeu, também, à expectativa dos pobres propondo, como fez em Genebra por exemplo, um novo humanismo social, o do cristianismo original. Tais serão, nos países reformados, os fundamentos de uma democracia equilibrada tanto quanto de prosperidade relativamente equitativa para todos. Importa, porém, evitar de inverter a ordem dos valores e de ver na Reforma um movimento principal e prioritariamente político ou sócio-econômico. Seria esquecer suas prioridades espirituais. Pois, o novo estatuto político, econômico e social, que ela proporá, será apenas a conseqüência de sua preocupação principal: redescobrir, na sua pureza original, a vida nova proposta pelo Cristo dos Evangelhos, e viver retamente, no mundo profano, a fé cristã assim renovada. Portanto, antes de examinar as estruturas políticas e sociais induzidas, em larga parte, pelo curso da Reforma, importa considerar quais foram os valores primordiais que essa renovação propagou para construir uma nova cidade. Esquecendo levar em consideração tais prioridades, arrisca-se nada compreender a respeito das razões profundas e primordiais do aparecimento das grandes democracias modernas. Estas razões são muitas vezes ignoradas ou ocultas por observadores, que tomam os fenômenos aparentes e superficiais da história como causas, quando muitas vezes são meros efeitos secundários de causas religiosas, mais determinantes porque mais profundas. Invertendo assim as relações entre os fatos, fica-se exposto, além disso, aos questionamentos sem resposta, que despontam hoje ante o espetáculo aterrador de tantos regimes políticos insensatos, minados pela corrupção, as intrigas mortíferas e os

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conflitos sanguinários, tribais, étnicos ou raciais encarniçados. A democracia não consegue instalar-se nem permanecer lá, onde as premissas religiosas ou filosóficas profundas das populações são estranhas aos princípios evangélicos, iluminados pelo cristianismo reformado.

5. As prioridades da Reforma. A Reforma não foi nem pretendeu ser em primeiro lugar uma reforma da sociedade apenas; nem mesmo unicamente uma renovação moral, a base indispensável sobre a qual se constroem as relações humanas. Procurando restaurar um cristianismo fiel a suas origens, ela pretendia reproporcionar ao mundo o conhecimento do ser humano, tal qual ele é em sua complexidade, e sobretudo indicar a cada indivíduo as possibilidades de sua restauração, na perspectiva de uma vida política co-participante e de relações econômicas eqüitativas. Propunha-se dignificar os fundamentos originais da vida espiritual, donde derivam os valores morais e cívicos imprescindíveis à boa marcha das sociedades. O pastor Marc Boegner, primeiro presidente do Conselho Ecumênico das Igrejas e ex-presidente da Federação das Igrejas Protestantes, era eclesiástico que usufruía de formação tanto jurídica e diplomática quanto teológica, um pouco como havia sido a do próprio Calvino. No seu livro intitulado A Influência da Reforma sobre o Desenvolvimento do Direito Internacional31, ele escrevia: “Se, no limiar dos tempos modernos, a Europa sofreu um abalo cujos efeitos estão longe de serem exauridos, é porque as consciências dos homens viveram um drama espiritual, do qual saíram tendo encontrado numa completa dependência para com Deus o segredo de uma liberdade moral, da qual deviam nascer todas as liberdades modernas”.32 (Nós sublinhamos). Este historiador protestante reitera portanto, ressaltando-lhes os fundamentos espirituais, as constatações enunciadas pelos autores católicos citados anteriormente (cf. a Introdução). Ele escreve ademais: “Por mais imprevistas aos reformadores que tenham sido as conseqüências sociais e políticas que a Reforma devia provocar, elas se achavam implícitas, todavia, quer na atitude que eles haviam assumido com relação à Igreja quer nas doutrinas segundo as quais formularam sua fé.”33 Um dos primeiros ensinamentos evangélicos exaltados pela Reforma, que mais transtornou a condição humana com relação às concepções da Idade Média, é a proclamação de que um chamamento individual é endereçado por Deus a cada indivíduo qualquer que seja ele, e sem a intermediação necessária de uma hierarquia clerical, o que faz de cada indivíduo uma pessoa única e inteiramente responsável por si própria. Essa responsabilidade primeira dos indivíduos deve exercer-se em todos os domínios. Mas, considerando os desvios que padecerá a ética cristã dos tempos modernos, sob a influência da descristianização do pensamento da qual se falará mais longe, urge determinar que essa responsabilidade não se exerce apenas por cada indivíduo ante si
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Marc Boegner, L’influence de la Réforme sur le développement du droit international, Paris, 1926. Marc Boegner, L’influence de la Réforme... Op. Cit. P. 13. 33 Ibid.

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Nas sociedades protestantes. a autoridade vem do alto descendo até o povo. a responsabilidade de cada indivíduo é o fundamento de uma liberdade particular. quando os protestantes terão dele apreendido todo o significado religioso e político. é essa hierarquia que se apropria do direito exclusivo de distribuir o que é sagrado. lá. que procede de Deus. porquanto. de baixo para cima. mas uma liberdade submissa. depois políticas. por analogia. Pois. Em virtude dessa comunhão com Deus. sujeito à autoridade única e universal da Palavra de Deus. Além disso. às autoridades humanas. Trata-se de um princípio fundamental na construção da vida comum. seu próprio sacerdote. que detém um poder sagrado e que dita a cada indivíduo como deve compreender a verdade do Evangelho e qual deve ser consequentemente seu comportamento moral e social. essa liberdade individualista transformar-se-á na liberdade desenfreada e egocêntrica. plenamente responsável por sua vida espiritual e a de sua Igreja. podese dizer.orienta-se. as hierarquias políticas. por intermédio dos sacramentos. portanto. a hierarquia espiritual comanda e ordena o regime temporal. na sua comunhão com os ministérios particulares que suscita o Espírito Santo. a ideologia profana do liberalismo integral moderno. a autoridade. é comunicada diretamente ao povo dos crentes e. com suas excelentes qualificações mas também com seus perversos aspectos. com efeito. espiritual. na medida da vocação que lhes é reconhecida.importa repeti-lo porque é essencial para compreender as diferentes mentalidades político-religiosas dos povos . que o Evangelho confere a cada indivíduo. É a hierarquia. 33 . de cada crente. O Evangelho faz. a autoridade desce do alto para baixo até o fiel. É um sacerdote leigo. eclesiásticas. Mais profundamente ainda. a responsabilidade individual conferida diretamente a cada crente faz dele o delegado da autoridade divina.próprio. nesse cenário de uma cultura inteiramente secularizada. considerada como valor profano autônomo capaz de bastar-se a si mesma. Neste. sob o aspecto psicológico. Não é mais questão da liberdade louca que requesta o homem natural centrado sobre si mesmo. revoluciona consideravelmente a antiga visão do catolicismo romano. e da cidade. depois. aquela que decorre da emancipação pessoal e da vida nova recebidas na comunhão e no perdão de Cristo. depois temporal. essa liberdade que proporá. contribui intensamente para sagrar as hierarquias eclesiásticas e. tanto no seu comportamento espiritual e moral quanto na sua função eclesiástica e cívica. exatamente no sentido inverso daquele que prevalece na concepção católica romana. Aqui. em seguida. esta comunicação da autoridade . por ele delegada. levam ao exercício do sacerdócio universal na Igreja. O princípio do sacerdócio universal estará na base da concepção democrática da Igreja. Isso. por analogia. quer. mas também e sobretudo diante de Deus e seu julgamento divino. Trata-se de uma liberdade comedida e controlada. Essa perspectiva da plena responsabilidade de cada indivíduo. Outra afirmação essencial da Reforma é que a vocação e a responsabilidade individuais. nas diversas funções da sociedade temporal. que não é uma liberdade incondicional. primeiro. que torna paulatinamente desgovernáveis as democracias modernas. Contrariamente. quer no reconhecimento dos ministérios que o Cristo suscita no interior da Igreja. E estas também se agrupam sob o modelo vertical. Ela é o relé obrigatório que faz a comunicação entre Deus e o homem.

”35 (Nós sublinhamos. faz-se mister que os fiéis. de sua doutrina e de sua disciplina. o chamamento de Deus que suscita a responsabilidade pessoal. os países nórdicos especialmente. que ela seja traduzida para as diversas línguas nacionais e que cada fiel aprenda sua língua materna de modo que possa ler a Bíblia com proveito. A Igreja anuncia o reino de Deus que chega. mas também a cada comunidade encarregada de prover a educação cultural de cada indivíduo. 34 . Calvino e seus companheiros de luta usaram vis-à-vis da Igreja. políticas. Esse é o ponto de partida obrigatório para que desabroche e funcione uma civilização democrática completa. Talvez se faça preciso lembrar. Sua missão é muito distinta. ao passo que os magistrados se acham incumbidos de manter mediante as leis. . porém. “Já que a Bíblia substituiu aos padres como autoridade. que logo repercute na vida política e econômica. que as torna responsável perante Deus no exercício de sua função. 14. pela qual a atividade intelectual do povo é despertada e excitada. também. e a propensão desses países para formarem. portanto. o aparecimento de literaturas nacionais. concebido algo demasiado segundo o modelo romano autoritário e centralizador.. Ela deve recordar a todos os fiéis (que tendem a esquecê-lo) que os 34 35 Ibid. que essa doutrina devia ter conseqüências culturais consideráveis. todos os fiéis. Ibid. que constituem o Estado. as autoridades políticas democráticas. em primeiro lugar a cada fiel. possam conhecê-la e empreendam um estudo pessoal dela. e mesmo pela força se necessária. embora já inaugurado só em muito pequena parte. Marc Boegner escreve: “Seguramente. p. pois. Esta está encarregada de anunciar a vida nova oferecida aos cidadãos e às cidadãs na comunhão do Cristo. têm uma vocação particular. a autoridade única da Santa Escritura. estão implicitamente contidas na liberdade espiritual que Lutero. ainda.”34 Após ter recordado outra afirmação essencial da Reforma. enquanto que o Estado somente pode dele refletir imagem muito distante. um nível de moral na sociedade que deva aproximar-se quanto possível da ética cristã. da qual cada crente é o intérprete único responsável perante Deus. que auxiliam os povos a tomarem consciência de seu gênio e de suas aspirações. com a ética que dela decorre. na vida dos crentes. incumbe. que.para que o nível da ética do Estado seja o mais elevado possível -. dada a natureza corrompida dessa sociedade global. moral. daquela da Igreja. modelos confederados. a esse respeito. para se deixarem enclausurar numa Europa política de tipo excessivamente centralizado. a exemplo da Suíça. A responsabilidade por seu próprio desenvolvimento espiritual. Daí. sociais. no pensamento calvinista. E para que essa imagem seja a mais próxima possível desse reino .. a Igreja tem importante missão de aconselhamento e também de intercessão junto às autoridades. Marc Boegner ressalta. intelectual e até físico. Ela acarreta o florescimento da pessoa. europeus e mundiais. ao mesmo tempo coordenadores das nações e respeitosos das diferentes identidades. mas que jamais poderá atingi-la.as liberdades intelectuais.A respeito da primeira afirmação básica do pensamento reformado que se acaba de mencionar. Daí a necessidade de uma instrução popular.) Pode-se acrescentar hoje: daí também decorre a cautela dos países europeus de tradição protestante. É necessário.

nas observações dos autores citados na introdução. liberdade pessoal e política. artífices da democracia. acabaram por fazer crer que uma civilização arrancada de suas raízes espirituais conseguiria produzir espontaneamente todos esses valores. que se mostram propícios a toda sorte de novidades inflamadas da demagogia religiosa. que tomaram o lugar da fé cristã. que perpassa todas as confissões. religiosa e cívica. transformaram-se em crenças que. filosófica ou política. que a prece de intercessão a favor deles constitui igualmente obrigação pessoal de todo crente. ou mesmo desprezada. Mas. 13). florescimento cultural. Assinalou-se já. econômico e social eqüitativo se frustra. 6. que estão também eles na reação do nazismo. responsabilidade individual e coletiva. que os reformadores não foram todos. quão estranha é ao cristianismo reformado a idéia de que o Estado e a Igreja possam ser dirigidos por uma só e mesma autoridade. As debilidades do primeiro. o liberalismo integral. ateus também eles. Vê-se. em razão de tudo o que acaba de ser dito. Mas. A história contemporânea mostra que a busca pelos frutos da Reforma . a única capaz de transformar e reconstruir a vida individual e coletiva. Ele só pode perdurar como produto de ética que deve ser incessantemente renovada por uma fé.uma democracia que funcione e um desenvolvimento cultural. deixaram no Ocidente e no mundo atual um vácuo espiritual. quando aceita ser interpelado pelo Evangelho. Tais valores não são. posta a serviço de seus sombrios desígnios. engendraram as ideologias seguintes.magistrados são ministros de Deus (Romanos. A íntima interpenetração da Reforma e da Renascença contribuiu amplamente para a sua promoção no Ocidente. portanto. Os estudiosos 35 . Estas últimas ideologias não são atéias. são produtos do convite dirigido a cada indivíduo pelo Evangelho. a cultura dessas raízes. materialista e desenfreado. vasto movimento ecumênico. Em resumo. a igual título. os diversos socialismos. Calvino alargou-o. Ele está incessantemente ameaçado por todas as formas de perversão social. que o regime político democrático não é criador por si mesmo dos valores que o fazem viver. o materialismo e as ideologias substitutivas engendradas pela secularização do pensamento. e da vida nova que se lhe segue quando essa vocação é percebida e atendida. naturais ao homem atualmente desnaturado. Mas. e muitas vezes um desespero. os protestantes não lhe detêm o monopólio. o que é pior. confiscaram a religião. uma vez dissipadas. pois. Constata-se. está na iminência de redescobri-las. no decurso dos séculos subseqüentes. mas. prestes a manifestarem-se. São o fruto de uma transformação prévia deste. Soberano político e Soberano religioso ao mesmo tempo. Protestantes também as esqueceram. Todas essas ideologias. porque suas raízes não são reconhecidas e sua cultura é descurada. As verdades prioritárias afirmadas pela Reforma são destinadas e ofertadas no Evangelho a todo o mundo. também. como a que se acha incarnada pelo Sumo Pontífice. do fascismo e do franquismo. Lutero abriu o caminho. Essas ideologias substitutivas proliferaram. c.

A diferença de concepção entre Lutero e os reformadores de Estrasburgo. que os reformadores da segunda geração. mas os procedimentos são diferentes. de natureza política.37 Lutero insiste sobre a conversão e a vida nova que provém da comunhão com o Cristo. monge. a meio caminho entre o calvinismo e o catolicismo. p. Roger Mehl. Cf. hier. Sem subestimar a importância desta redescoberta primordial. 31. mas uma marcha para um ecumenismo respeitoso das diversidades. preocupa-se com a salvação pessoal. 36 . profundo conhecedor das necessidades de seus contemporâneos. transformar e renovar o mundo para atestar a glória de Deus”. nem arremate. 7.” importa dizer que essa ética insiste sobre “a deliberação luterana de nunca permitir que o Evangelho se torne lei”. explica ele. que ela é oferecida gratuitamente a cada indivíduo. convém colocá-las no seu contexto histórico e bem avaliar o que cada uma dessas confissões protestantes proporcionou de especial para a civilização. aliás. “Se. pode ser formulada como o faz o historiador francês Frank Delteil. de Zurique ou de Genebra. Elas eram.”36 Impunha-se citar aqui essas observações porque. Pour une éthique sociale chrétienne. 1974. como já se viu e como se verá ainda a respeito das influências do protestantismo sobre o desenvolvimento da vida econômica. do mesmo autor. Farel. isto é. 1970. além daquilo com que elas contribuíram em comum. Nós sublinhamos. Um. Zwingli. 67. o outro. Isso significa. econômica e social no mundo (Calvino). com referência a cada ética em particular. uma moral autoritária destacada da fé.católicos mencionados ressaltaram o atraso neste ponto experimentado pelo luteranismo. Neuchâtel. se achavam em melhor posição que Lutero para resgatar as implicações sociais e políticas do Evangelho redescoberto. se pretende repor a ética social no contexto de diálogo entre as confissões da Reforma. em harmonia com a nova maneira de viver o Evangelho. Neuchâtel. pelo professor Roger Mehl. Le protestantisme. Viret. e sobre “a decisão calvinista de organizar. sobretudo. Paris. É preciso notar. p. com a salvação de seu povo. conquanto importantes aos olhos deles. noutros termos. é preciso permanecer atento à observação feita. que a ética decorre da fé e não poderia reduzir-se a uma lei moral autoritária (Lutero) e que não poderia existir fé cristã viva sem engajamento ético concreto. Calvino sublinha e desenvolve as conseqüências dessa renovação para a permanência de uma vida harmoniosa dos indivíduos e das sociedades. seus sucessores puseram em evidência as repercussões que tal descoberta devia ter na vida da cidade. Éthique catholique et éthique protestante. Delteil escreve: “Ambos desejam a purificação da Igreja. A Reforma: nem começo. Calvin. secundárias. escreve ele. a este respeito. após muito sofrimento pessoal. Por isso. desejosos que estavam. por divulgar entre os povos amplo conhecimento da Palavra de Deus. sacerdote e capelão. Bucer. calvinismo e luteranismo são muitas vezes colocados em confronto. Delteil. foi o primeiro a bater-se por lançar luz sobre as condições da salvação individual. 36 37 F. demain. 1967. sem que se faça preciso adquiri-la pelo acúmulo de méritos. Sem desmerecer suas diferenças. A sociedade devia organizar-se de forma nova. Comparando Lutero e Zwingli. Lutero. a propósito da qual havia ele descoberto.

o reencontro com Deus e com seu amor. seu comportamento. Pode-se dizer igualmente de Lutero e dos outros autores reformados. Outro esclarecimento é também necessário. que a Reforma nunca quis ser uma inovação. na história do mundo ou da Igreja cristã. as do Ocidente. mas não dogmas ou princípios eternos na sua formulação ou aplicação. a fé cristã é otimista e repleta de esperança no tocante à Igreja inteira. para descobrir o verdadeiro apelo humanista. A força dos reformadores consiste em nos ter ensinado um método de reinterpretação sempre nova (com referência a situações históricas cambiantes e a culturas diferentes) da eterna e imutável Palavra que Deus dirige a suas criaturas através das Escrituras. dizia um teólogo reformado (K. propriamente falando. Segundo os princípios supremos da Reforma que acabam de ser recordados. mas Jesus Cristo. também. Tal recomeço é condição essencial da vida nova dos cristãos. todas as confissões indistintamente. desde o século XIX. para evitar os mal-entendidos por vezes difundidos mesmo entre os protestantes. Nosso mestre único. porquanto só fez rebuscar e reencontrar as raízes próprias da fé cristã. dinamizadas pelo Espírito Santo. É. o papa católico romano). a eterna Palavra de Deus que ressoa nas Escrituras. a Reforma nada inventou. Estão ligadas a uma linguagem. não é Calvino. suas boas ações. e também ao mundo. A Reforma nunca exigiu dos crentes que repetissem servilmente o que ela fez ou disse. em face do futuro e a despeito de todas as cruéis contradições da história contemporânea. Suas obras. uma cultura. um terreno reservado da graça de Deus. Não há 37 . é dom gratuito oferecido a cada indivíduo. menos ainda. como se verá . As Igrejas doutros locais. sua ética social em particular. sua ética e seus engajamentos são apenas a conseqüência e não a condição desse dom. condição indispensável da renovação das culturas e das sociedades. Barth). de onde advém seu perdão e a vida nova. novamente e para sua época. nem jamais constituirá. sem mérito algum da parte daquele que a recebe. Os reformadores nunca pretenderam ser infalíveis (como pretende ser. a salvação. efeito da pura graça divina (sola gratia). seu declínio é certo. um começo. elas são modelos. que mergulham tanto no patrimônio judeu integral do Antigo Testamento quanto na herança dos apóstolos e dos discípulos de Jesus Cristo. que nos é transmitida pelo Novo Testamento. Os protestantes poderiam extrair disso algum orgulho e esquecer muito facilmente . E é pela fé unicamente (sola fide) que essa salvação pode ser recebida. doutros tempos e doutras culturas devem constantemente refazer o que a Reforma fez: repensar. Não há mérito algum em ser protestante.A esta altura da reflexão sobre o protestantismo e suas incidências sobre a sociedade. Enfim. por sua vez. No tocante às Confissões de fé da Reforma e à sua ética.suas responsabilidades específicas nessas áreas. e. convém. um arremate que marcaria o término de uma marcha dessa Igreja universal. renovação que lhes permite reencontrar sua verdadeira identidade. o mestre de Calvino. dessa renovação espiritual constante. Com efeito. que fazem do protestantismo original um fator decisivo no advento das grandes democracias modernas e na arrancada de seu desenvolvimento econômico. e em certas circunstâncias. O protestantismo nunca constituiu. A cultura ocidental não tem menos necessidade. caso contrário. determinar. Isso deve ser lembrado no momento em que está iminente ouvir os numerosos testemunhos. e pertencem a uma certa época.o que fizeram e fazem muitas vezes. do que qualquer outra cultura.

permite. O atraso no advento de um ecumenismo evangélico e fraterno. que se arrogou o Soberano Pontífice da Igreja Romana. 38 . assim o poder real recebe da autoridade pontifícia o brilho de sua dignidade. A única autoridade suprema reconhecida era. também. autorizada a delegá-la ao poder político. A legitimidade da democracia contestada por Roma. Doumergue. Essa era a autoridade político-religiosa de direito divino. Viu-se. Nesta visão medieval da autoridade. cumpre notar que. o único chefe da Igreja. da justiça e da salvaguarda da humanidade e de toda a criação. a qual é inferior em quantidade e qualidade. com efeito. Após ter legitimado o Antigo Regime e o prolongamento das estruturas monárquicas nos países latinos. E. que atribuía ao Soberano Pontífice a origem do duplo poder político e religioso. sua legitimidade foi contestada pela Igreja Romana. tomo V. divisar progresso na expressão visível da unidade dessa Igreja universal e diversa. por sua vez. com relação às concepções da Igreja cristã primitiva. aqui. A confiança. da mesma forma que é ainda hoje. na América Latina especialmente. a “adesão” à república). da sobrevivência da democracia no Ocidente e. Ela foi constantemente reformulada pelos Soberanos Pontífices no decurso dos tempos. em 1892. mais ou menos religioso e mais ou menos esclarecido. Já se mencionou a origem pagã do duplo mandato político e religioso. exercia-a mediante o único poder religioso então reconhecido no Ocidente. fora definida pelo papa Gregório VII (1025-1085). repetiu-a nos seguintes termos: “Tal como a lua toma emprestado do sol a luminosidade. Jean Calvin. por parte 38 Cf. por fim. o poder civil só adquiria legitimidade em virtude da delegação que ele recebia do poder religioso.monopólio algum na difusão do amor divino. Inocêncio III. recomendando. em seguida. na maior parte do mundo. que infunde a comunhão com Cristo. tem conseqüências terríveis na sua vida social. durante toda a Idade Média e até o fim do século XIX. Recordemos. no tocante ao estatuto da Igreja e do Estado e às suas relações recíprocas. enfim. Essa doutrina. esse modelo inspirou os regimes autoritários e militares nascidos em terra católica no século XX na Europa e. Ela achava-se. depois. com as diversas propriedades da Igreja Romana. Para bem compreender a dificuldade da emergência e. É possível entrever as conseqüências advindas dessa unidade em prol da paz. por religiões que naturalmente encorajam diversas formas de despotismo. a que provinha de Deus e este. por exemplo. no resto do mundo. sobretudo. depois de ter por muito tempo governado os Estados Pontifícios que se estendiam. especialmente política. que prevaleceram na Idade Média e que permanecem vivas nas populações mantidas afastadas da Reforma.”38 Ainda que a Igreja Romana haja reconhecido muito tardiamente o princípio da democracia (Leão XIII. o desenvolvimento tardio dessa pretensão. 8. o da Igreja Romana. p. 393. pretendia-se. algumas noções elementares. O regime teocrático. o modelo autoritário e hierárquico permanece o modelo supremo de referência dessa Igreja. a serviço de todos os povos.

e o chefe de uma Igreja muito peculiar que se diz “católica”. 1171. sobrevive ainda no Estado moderno do Vaticano. em 1870. Paris. mas pela imposição dos adversários. essa dupla soberania política e religiosa foi restabelecida pelos Acordos de Latrão. dos Estados Pontifícios). que devem ser dirigidas ao princípio e à prática atual da confusão dos poderes. assinados pelo ditador fascista Benito Mussolini. 2. São encarregados de observar e influenciar a política desses Estados. Radicalmente contestada e extinta pelos governos da época. funcionando como agentes diplomáticos (e religiosos) que são acreditados.39 Dito isto. E. celebrizados pela “guerra das investiduras” (Henrique IV.importante da Europa. Pode-se. 39 Michel Mourre. Recordem-se a respeito os diuturnos e sangrentos conflitos da História pelo exercício dessa soberania. Está-se um pouco diante do mesmo tipo de relações ambíguas estabelecidas entre poder religioso e poder político que estabelece o Islã. dada a impossibilidade de exercer sobre eles soberania por longo tempo reivindicada. constatar que certos papas têm sido muito ilustres personalidades morais e espirituais e sublinhar. e os encorajamentos na sua fé e sua ética. decididos a reduzir o poder. se o sistema político-religioso do catolicismo romano é altamente contestável. por vezes importantes. que numerosos protestantes só podem felicitar-se pelos enriquecimentos. formada por seus delegados pontifícios. então temível. leigos ou eclesiásticos. p. Dictionaire historique universel. cara ao catolicismo romano. esses dois modelos favorecem a ingerência de uma religião estrangeira nos assuntos públicos de todo o país que mantém relações diplomáticas com eles. cuja política tenta influenciar o mundo inteiro (pela diplomacia). Canossa. nem quando o Estado ( Igreja) estrangeiro se intromete nos assuntos religiosos. tanto sob o ângulo religioso quanto sob o aspecto político. junto a governos. Já se mencionou isso. os Estados modernos. não pela vontade do Papa. isto é universal. ao contrário. No capítulo consagrado à ação ecumênica contemporânea. núncios apostólicos. 1077). políticos e religiosos. São sacerdotes dedicados à Igreja de Roma. Decisivamente incompatível com uma noção evangélica das relações entre a Igreja e o Estado. representando toda a cristandade. Quando os núncios apostólicos intervêm. 39 . t. o papa nunca mais renunciou à pretensão de ser simultaneamente o chefe de um Estado (o do Vaticano). em 1929. nunca se sabe exatamente quando a Igreja ( Estado) estrangeira de Roma intervém na política da nação. que puderam auferir de sua convivência com irmãos e irmãs católicos. O Estado italiano reconheceu “a plenitude da soberania papal sobre o Estado do Vaticano” e “a independência soberana da Santa Sé no âmbito internacional”. O Soberano Pontífice é simultaneamente chefe espiritual da Igreja e chefe temporal do Estado. aliás. ressaltar-se-á que a sobrevivência dessa estranha estrutura político-religiosa constitui obstáculo incontornável ao avanço da unidade dos cristãos. Por mais radicalmente diferentes que sejam. seu chefe político-religioso está nada menos que na direção de vasta rede política (e religiosa) mundial. 1968. como também nenhum membro dessa Igreja considerado no seu valor pessoal. no nível de embaixador. embora esse Estado seja minúsculo (foi reduzido à mais simples expressão. ela é ademais inadmissível sob a visão política de um Estado democrático leigo. importa sublinhar que. a pessoa dos Soberanos Pontífices não poderia ser igualmente posta em questão. mas deve ser reiterado para evitar mal-entendidos a propósito das críticas. Desde então.

a idéia muito reformada da responsabilidade individual dos crentes. que devia daí provir. desses católicos com o sistema suspeito. organizações quase secretas como a Opus Dei. fazia-se necessária. a forma presbiteriana (democrática) da Igreja calvinista. Um freio no desenvolvimento democrático dos protestantes. Sabe-se. nórdicos particularmente. No Santo Império Germânico. mostraramse necessariamente em oposição à estrutura episcopaliana da Igreja anglicana e ao absolutismo real do agrado dessa Igreja. dividido por disputas religiosas e submetido à pressão dos turcos muçulmanos que ameaçavam suas fronteiras. no serviço voluntário da Santa Sé. Se o Estado-Igreja do Vaticano tem seus padres-diplomatas e seus diplomataspadres que são os núncios apostólicos reconhecidos. são marcadas por tais intervenções. motivação política a par da justificação religiosa. 9. outorgando ao povo o poder de decisão na Igreja. desenvolvidas a título pessoal com os católicos (assim como as relações entre Igrejas). As lutas contra a Reforma e os protestantes democratas tinham também.Além disso. obscurecem-se por isso. assim. portanto. Zwingli e Calvino. É que existe cumplicidade tácita. O luteranismo teve. portanto. de se adaptar bem ou mal a essa nova modalidade de césaro-papismo da cúpula. com sobrevivências desses antigos esquemas muito profundamente inseridos nas mentalidades conservadoras. Mas. Assim é que na Grã-Bretanha. também. Os magistrados e os príncipes decidiam. acaba triunfando tanto no anglicanismo quanto no luteranismo. todas as decisões recentes. ao menos provisória. que John Knox lá introduzira. quão marcantes para a época foram as inovações introduzidas na Europa pelos reformadores Bucer. inevitável que tais concepções democráticas novas encontrassem resistência encarniçada e violenta da parte dos realistas. completam essa ação semiclandestina do poder político-religioso da Igreja Romana no mundo. Após a revolta dos camponeses de 1525. em detrimento das opções das outras Igrejas. As relações ecumênicas. Isso permite à religião católica de agir oficialmente junto a todos os Estados da ONU e fazer valer suas pretensões particulares por via diplomática. concernentes aos problemas da população. Percebe-se. com a introdução das monarquias parlamentares em numerosos países. A Reforma calvinista chocou-se. muitas vezes oculta. porém. Conforme as concepções tradicionais da Idade Média. 40 . a sorte política e religiosa de sua população. tanto no plano religioso quanto no âmbito político. o Estado ( Igreja) do Vaticano é a única Igreja ( Estado) que tem acesso às inumeráveis instituições internacionais enquanto tal. como se verá no capítulo seguinte. o poder religioso e o poder político só podiam exercer-se de forma autoritária e hierárquica. o que rapidamente se propagou pelas cidades e nações reformadas. pois. e a forma democrática do Estado. mesmo em territórios protestantes. Tornava-se. que muitos deles o desaprovam e começam a agir para modificá-lo de dentro. foi adotado o princípio segundo o qual a religião do povo devia ser a do príncipe que decidia sobre ela. Por exemplo. seguindo-se a Dieta de Augsburgo de 1530. uma paz confessional.

A obediência dos cidadãos às autoridades políticas. à paciência. “Quando os povos se submetem aos reis. sem o qual. sob todos os tipos de pretextos frívolos ou interesseiros. a democracia será o resultado do amálgama da corrente humanista republicana nascida da Renascença com a corrente democrática proveniente do calvinismo. será recebido em sua liberdade e. Quando aceitarmos o poder. observa Ricoeur ao comentar esse texto. A submissão por razão moral é um efeito da vontade de Deus. amigo de Franklin. o estado mais desejável é quando os magistrados são eleitos. essa consciência deixa-se arrastar à insubmissão ou à revolta. Mas. tais observações de Calvino foram. um governo autoritário. Sabemos quanta é a ambição inata em cada homem e quanto cada indivíduo é ávido de dominação. hoje como antigamente. pode-se constatar diariamente. interpretadas erroneamente como legitimação possível dos poderes autoritários.Em países como a França. é que o reformador pôde dizer que em certas circunstâncias em que a democracia está gravemente enferma e corrompida. Do contrário. em todos os níveis. é não só dever cívico mas também religioso. a democracia instaura um poder que avança de baixo para cima: o sujeito se faz cidadão e faz o poder. Mas. Obrigação e limites da submissão às autoridades. Que a responsabilidade cívica democrática não seja natural ao homem degenerado. A Reforma dirá que os homens. certamente isso ocorre sob um impulso e um instinto divinos. Por isso. que isso se faça pela voz comum de todos”. . com o filósofo Paul Ricoeur que o cita. por vezes. Ademais. ele não cessou de exortar os cidadãos. mas de uma consciência que precisa ser esclarecida pelo espírito de Deus. “Verdadeira revolução filosófica. cego que é pelas múltiplas formas de demagogia. graças mormente ao marquês francês de La Fayette. diz Calvino. Pois. 10. que combatera com as tropas de Virgínia em 1777 pela emancipação dos Estados Unidos e que. certamente. antes de insistir sobre esse ponto importante de seu pensamento. é melhor que a anarquia. e que é absolutamente contrário à nossa natureza curvar nossos pescoços sob um jugo”. Para o não- 41 . Voltar-se-á a esse assunto no próximo capítulo. Por esta razão. particularmente os crentes perseguidos. podem governar-se porque a luz divina é concedida a todos. Foi Deus que inspirou aos homens esse temor. acaba-se de ver. magistrados. se referirá explicitamente às Declarações Americanas. Essa insistência prende-se ao fato de que a propensão à contestação revolucionária. convém notar que.. e do tipo oligárquico ou mesmo monárquico. conferiu à doutrina cristã do direito de resistência às autoridades um vigor novo. de fato. sábio e provisório. Calvino. na prática. constitui ameaça permanente à democracia. ademais. participando no seu regresso a Paris da redação da Declaração dos Direitos do Homem. esclarece Calvino. podendo ir até o martírio.. e em todas as regiões do mundo. disposto a deixar-se arrastar por toda sorte de aventuras. importa ressaltar um texto claríssimo do reformador sobre a democracia: “O povo. sem motivo moral imperativo... eles nunca se submeteriam. a influência reformada americana desempenhará nisso papel não desprezível. escreve. É um dever de consciência. o homem é por natureza anarquista insubmisso e ávido de poder pessoal. à prece pelos seus governantes. príncipes.

40 Faz-se mister lembrar que Calvino tinha sérias razões para insistir. 42 . pois. que não devem atemorizar os crentes fiéis. Urge. que em meio a tal perversão. 42 Cf. p. que o respeito devido às autoridades se torne servidão. parece. Ela estimula-o a uma cidadania ativa”. 499. 41 Cf. é uma proclamação de submissão dos protestantes ao soberano que exerce o poder dignamente. 498. na desordem. ao mesmo tempo. escreve também Calvino.41 O fim dos mal-entendidos. não estamos habilitados a fazer da rebelião um princípio via de regra legítimo. Não é absolutamente espantoso que tal fidelidade seja não apenas mal compreendida. le christianisme social 1945-1970. a oportunidade que lhe é oferecida para participar no governo dos homens desejado por Deus. E. E. diz ele.. a Epístola a Francisco I publicada no início da primeira edição da Institution chrétienne. Quanto a nós. tal pode ser também o destino do Evangelho e de suas testemunhas no nosso mundo degradado. os atos “divinos extraordinários”. devemos confiar a Deus o cuidado desse mal. Trata-se. graças ao aparecimento daquilo que ele denomina um libertador providencial. Ibid. o testemunho fiel prestado ao Evangelho suscite inquietações. a prédica da pura doutrina evangélica não se acompanhe de rivalidades. dos conflitos. de chefe carismático convocado pela Providência para ministério de salvação pública. das perseguições e dos sofrimentos. elucida o reformador. Ele aplicarlhe-á o remédio.42 40 Citação de Raul Crespin. Mas. Não é preciso. as sublevações populares dos camponeses e dos proletários urbanos. deixemos sucumbir o culto de Deus. “Qualquer risco que possa daí advir. porém. cabe permanecer com coragem. p. que impeça o cidadão de exercer sua liberdade de cristão. esperar que. 84. E sabemos que essa fidelidade pode causar perturbações inopinadas. a democracia é apenas o melhor sistema de governo. Ibid. das desordens. Tais vocações são raras. se apodera do poder provisoriamente para restabelecer a legalidade. acrescenta o reformador. “É quase impossível. Confiramos à Providência essa honra de crer que ela intervirá nas dificuldades. a pura religião da qual depende nossa salvação. Pois. suscitadas pelos Anabatistas. não convém que atribuamos aos principados transitórios da terra tal valor que. serviam de pretexto aos príncipes contrários à Reforma para denunciar os reformados como revolucionários políticos desenfreados. ingratidão dos homens. destinado por Deus para destituir as autoridades legais. p. E porque são raras. e substituílas por magistrados íntegros. Doumergue. por causa deles. de conferir um destino útil às inquietações e desordens. Não é necessário.”. ela é.cristão. Doumergue. Tal foi a sorte de Cristo. esclarece o reformador. 1993. se lhes cumpre sofrer. Deus vela por eles. Ele encarregar-se-á. que “se imitem temerariamente” os atos “singulares”. É provavelmente uma forte personalidade que. pode ocorrer. dissensões e conflitos. Recordar-se-á que o primeiro escrito de Calvino destinado a grande repercussão. porém ilegítimas moralmente.. que podem resultar dessa fidelidade mal compreendida. Paris. ademais. mas sobretudo mal recebida. malícia. Des protestants engagés. hoje ou amanhã. Para o cristão. que as fiéis testemunhas do Evangelho podem suscitar e que devem suportar com paciência. sobre os benefícios da democracia e sobre as inclinações naturais do homem para a insubmissão e a revolta? Naquele momento da história. que não nos é dado evitar habilmente”.

Depois. em certos países coloniais emancipados. até então. Elas os conduziram a definir. nos nossos dias. Estão encarregados de ser os porta-vozes vigorosos da vontade popular ou de representá-la. pode ser aplicada a um grupo representativo com a missão de interpor-se entre um déspota e a população. op. após algumas últimas observações sobre a missão da Igreja no que respeita à salvaguarda da democracia. lá onde eles não eram autoridades. convidado a representar a voz do povo. por 43 M. parece que Calvino alude. teológicas. Crappe. 43 . também E. como pode ser o Terceiro Estado. não diz necessariamente respeito à pessoa humana. Genebra. ressalta também E. parte da população e principalmente os servos ou escravos. ajunta ainda Boegner. no tocante à racionalidade. freqüentes eram os combates pela hegemonia de um grupo sobre outros. Duplessis-Mornay. de que foram vítimas os protestantes.”43 É no exame dessa ascensão das aspirações populares rumo à democracia que se detém o capítulo seguinte. “Quem há de negar. num regime monárquico ou despótico por exemplo. sentinela da democracia. aprofundando-os. a democracia é dominada por uma tribo. 16. Hotman. Marc Boegner ressalta que as perseguições.. Quem fala democracia.. é. funcionaram no seio de uma classe privilegiada da sociedade. portanto. aos representantes do povo. Cf. os fundamentos teológicos e morais do direito de resistência. sob proteção e direitos freqüentemente muito restritos. era o galardão da luta entre aqueles dois. Durante mais de dois milênios.A par desses libertadores providenciais. existe o que o reformador designa de autoridades inferiores. com a Reforma em seguida. A grande transformação política. no que respeita às motivações espirituais. as nações. p. a Reforma fez despontar em cena um novo ator. ou certas regiões alpinas. aquele que. é que ao lado do papa e do imperador que disputavam na Idade Média o governo do mundo. Fuchs et C. Transposta para nossa época. No rasto de numerosos historiadores da ciência política que ele cita em apoio de suas teses. pelo exército. convocadas para assumir a defesa do povo. o povo. de toda pessoa humana. com sua âncora popular. ou mais precisamente os povos. Marginalizavam. contribuíram intensamente para estimular suas reflexões sobre os direitos e limites do poder civil.. Cit. esta concepção de um poder novo. Le droit de résister. Boegner. Doumergue citando Paul Janet. que separa a Idade Média da Idade Moderna. L’influence.” “O que importa reter aqui. 1990. que a necessidade de existir não haja levado os protestantes. A Igreja. como ocorrerá em seguida nos países colonizados. a discutirem os direitos dos governos e a perscrutar-lhes a origem?” “Foi na esteira de tais discussões que o princípio da soberania popular foi sucessivamente desenvolvido por numerosos autores.. que Deus pode suscitar para destituir os tiranos e os governos injustos. 11. um fruto mesclado da Renascença. Entre os homens livres dessas democracias. tais como Théodore de Bèze. etc. Conquanto tais instâncias não sejam claramente definidas. do Ocidente. os regimes parcialmente democráticos da Antigüidade greco-romana e aqueles que subsistiram em algumas cidades.

a Igreja. Mais profundamente. Constata-se. a plena liberdade de ensino e prédica. estava incumbida de exortar e criticar se necessário. mas o favorecimento e a emulação da vilania muitas vezes triunfam. Seu egoísmo o impele a abusar de sua liberdade para dispor da liberdade alheia. mais profundamente ainda.uma casta sacerdotal ou laica. Fez o direito modificar-se antes de cada etapa de sua ascensão à ditadura. para eles a salvaguarda das liberdades consistia em primeiríssimo lugar no anúncio do Evangelho libertador. impõe-se que sejam constantemente revitalizados pelo ensinamento ético do Evangelho. Os interesses particulares dos diversos grupos são muitas vezes camuflados por ideologias profanas que lhes servem de justificativa. Por isso. laica. Essa era a convicção dos reformadores. que a democracia é um estatuto político frágil. indispensável à regeneração da sociedade civil e do Estado. introduzidos por Descartes no pensamento puro. carregadas de esperanças ilusórias. é o insubstituível terreno sobre o qual podem crescer as virtudes cívicas e. Não é uma invenção espontânea da natureza humana. por Montesquieu na filosofia política e por Rousseau ou mesmo Voltaire na sua aplicação universal. Todos os grupos sociais. Assim. pelos membros do seu partido. o verme que a corrói aloja-se no coração do homem. E eles reivindicavam. Não tem em si mesma qualquer garantia de sobrevivência. que preparam as mentalidades. não sejam explorados em proveito de minorias egoístas. Ideologias transformadas em crenças secularizadas. pois. Praticam por vezes o nepotismo: os governos distribuem os cargos públicos pela própria família. mas cuja vocação é divina. sobretudo mediante o ministério dos pregadores. é muitas vezes capaz de entusiasmar as massas populares. pois. pelos seus amigos. E como o direito constitucional pode ser modificado segundo as paixões dominantes do momento. Mesmo numa república. enquanto instituição. Preservando-se rigorosamente de exercer qualquer tipo de poder político. fosse mantido saudável. para que reine ordem social viável. finalmente quanto a educação familiar e a instrução pública popular. Fazia-se necessário que o Estado. A fim de que os valores da civilização. reapresenta-se e novamente se impõe a importância da difusão do humanismo cristão. Cumpria que o Estado fosse preservado especialmente de todas as 44 . raiz insubstituível de uma democracia viável. por um regime presidencial vitalício ou ainda outras formas de despotismo sob aparências democráticas. porém. quer mediante a Palavra de Deus anunciada ao povo e aos dirigentes. são possíveis diversos gêneros de despotismo camuflado. absolutamente imprescindíveis. O remédio para tal perversão não é menos que a liberação espiritual que Deus oferece ao mundo. A demagogia. Vê-se. quão importante é a visão do homem e da sociedade que veiculam essa educação e essa instrução pública. Tal despotismo pode às vezes ser um despotismo esclarecido e pôr em evidência o mérito pessoal das grandes personagens. Adolf Hitler chegou ao poder por vias legais. a conduta dos cidadãos tanto quanto a dos magistrados. instituição profana. percebe-se quão frágeis são as garantias jurídicas e constitucionais da democracia. que explora essas ideologias. quer através da prece de intercessão proferida pelos fiéis a favor das autoridades. extremamente delicado. isolados ou aliados a outros. aristocráticos ou populares. esperam apoderar-se do poder. para a Igreja incumbida dessa missão eminentemente cívica.

. nem todo o seu Conselho detêm privilégio algum. serem corrigidos pelos guias espirituais. aliás. ou ainda quando sua doutrina popularizada não se ajusta simplesmente às idéias dominantes convencionais.. Doumergue. convençamo-nos de que na Igreja a Palavra de Deus alcança tal grau de soberania que nem os sacrificadores. Intransigente no tocante à liberdade de palavra de que precisava a missão profética da Igreja. Ela só merece crédito na medida que os seus representantes se permitam ser julgados e reformados. quando estes lhes censuram os privilégios sociais ou o egoísmo de classe. a liberdade da Palavra de Deus. Calvino não hesitava de arriscar seu ministério sempre que ela era ameaçada. que a Palavra de Deus é absolutamente rejeitada. não só resmungam e murmuram nas tabernas ou cabarés. A seus olhos. como se a vida deles não estivesse sujeita à Palavra de Deus”. a proclamação do Evangelho era a condição da renovação permanente da fé dos cidadãos. mais ou menos conscientes e incessantemente renovadas. não detém um poder de crítica que lhe seja próprio. quaisquer que sejam. e não apenas uma parte dele.. Os simples cidadãos. Ibid. Consciente.. sempre que a divina Palavra os contradiz. não pode de forma alguma silenciar os profetas e impedi-los de censurar (repreender) indistintamente tudo o que mereça repreensão. a saber. É contestada.. de quanto se faz necessário prestar honra e reverência aos juízes. que eles não pudessem transgredir? Mas nós estamos atentos para o que diz o profeta. os superiores e os subordinados.44 O princípio da submissão comum da cidade e da Igreja à soberania da Palavra de Deus não confere às autoridades eclesiásticas qualquer poder de coação para impô-la. mas também recriminam e censuram que se outorgue amplo poder aos ministros da Palavra de Deus e reclamam medidas que os façam pregar mais comedidamente... Resumindo. quantos há que desejariam impor leis aos servos de Deus. pela Palavra que lhes cabe anunciar.. o poder político e o religioso. Ora.tentativas de sagração do poder. pessoas que detêm o governo das outras. Nosso Senhor quer sem exceção guiar todos os homens mediante sua Palavra. “a palavra de Deus não está tão atada. escrevia o reformador. pois que a função do Espírito Santo é julgar o mundo. não poupando nem mesmo os príncipes e aqueles erguidos ao grau de homens acima dos outros”. eles mesmos. que isto. p. precisava ele. A Igreja. que não desfralde a sua virtude e poder contra os mais altamente situados e os mais humildes. é constantemente contestada pelos poderes políticos. todavia. Somente essa prédica e sua aceitação estavam em condições de reformar constantemente as autoridades e os cidadãos.... pois. 45 . 426. eles não estão tão altamente situados que Nosso Senhor não os sobreleve com sua Palavra. “Pois..”. não aceitam. mais facilmente do que as autoridades. no entanto. nem gozam de qualquer isenção com relação aos demais. .. porém. quando a Igreja se mostra vigilante e não se deixa submeter a interesses particulares. fundamento de sua ética individual e social. quando se repreendem os vícios com conhecimento de causa. No entanto.. E. Pois os maus e os que desprezam a Deus. quando a plena liberdade de ensinar é suprimida ao ministro.. “Entre nós. nem os reis nem os príncipes. 44 Cf.

com adversários revolucionários que. mas o povo guiado e esclarecido pela Palavra Divina da qual não é ele senhor. urge dar uma olhadela no que era a democracia em Genebra na época da Reforma. Seu objetivo fundamental é restabelecer a fé cristã sobre as bases da tradição evangélica mais antiga. Têm a oposição de adversários cruéis. sobretudo.Apenas sua livre prédica é a verdadeira salvaguarda da sociedade e da democracia em particular. sem levar em consideração suas bases espirituais. os mais zelosos conservadores da Igreja Romana e de suas tradições. Desde longa data os cidadãos aspiravam a certa autonomia. 1. ao mesmo tempo que de sua dominação temporal. em 1536. Defrontam-se. Capítulo II Os Combates pela Democracia Antes de examinar o que foi o verdadeiro terremoto das revoluções democráticas sucessivas. Tal interação é particularmente evidente numa cidade como Genebra. pouco antes da chegada de Calvino à cidade. como muitos revolucionários de todos os tempos. sob que padecem. sob a influência dos primeiros reformadores Guilherme Farel. não é o povo dono de si mesmo que é um bom soberano. Muitos anos de agitação conduziram à adoção simultânea pelo povo. antes que uma oligarquia aristocrática se houvesse apoderado das rédeas do poder e não houvesse ainda provocado novas revoluções democráticas nos séculos subseqüentes. teve motivações de natureza simultaneamente religiosa e política. doutro lado. 46 . O triunfo da democracia operou-se ao mesmo tempo que a propagação da Reforma. A democracia na cidade de Calvino. Mencionou-se anteriormente a estreita imbricação das aspirações democráticas advindas seja da Renascença seja da Reforma. da república e da fé nova. de seus ritos e de seus dogmas. A sublevação inicial dos cidadãos. Antônio Fromment e Pedro Viret. para estabelecer nova ordem. já parcialmente conquistada pelos conselhos da cidade. desejosos de se emanciparem tanto da tutela espiritual e temporal do bispo quanto da soberania da Sabóia. harmoniosa e durável. para o reformador. Aqui como alhures. imaginam que bastará subverter o regime. Assim. que abalou progressivamente todos os povos europeus a partir da GrãBretanha. e. verifica-se que os reformadores devem manter-se numa linha de conduta perigosa e rica em mal-entendidos. a dos apóstolos e dos primeiros concílios.

6. Esse amálgama dos motivos sociais e religiosos explica por que o refrão dos reformadores será o mesmo por toda parte: não somos nós. denunciando aos príncipes e governantes os reformadores como agitadores políticos perigosos. compelido pelos seus ouvintes que se haviam tornado excessivamente numerosos nas salas de reunião. reunido em 21 de maio de 1536. declara no início de 1533: Nós tomamos Deus por juiz “que não faz distinção de pessoas..” “Ora. responder-vos-ei como fez Elias a Acab: és tu. comerciantes e artesãos.46 Apesar das ameaças e dos atentados reiterados contra sua pessoa. aquelas vestes talares que exploram as viúvas. que perturbamos a ordem social. recordemo-lo. Foi assim em Genebra como alhures. op. que prega na rua. Editado por Gustave Revilliod. v. por agitadores políticos. as patas sobre quase todos os bens terrenos. a terra. quem perturbou a terra. lhe darão boa acolhida. político e econômico. Não fui eu. e julgai vós mesmos quem são os que usam aqueles adornos. Genebra. Lê-se nos registros do Conselho: “. se mostrarão muitas vezes hostis à Reforma. que compartilham do poder religioso. porque quem falar disso será subitamente condenado à morte. c. porque estamos vestidos como as demais pessoas do povo. p. Cit. que julga com justiça. Farel responde aos seus detratores assim: “Não perturbo. suprimindo as tradições religiosas que a perverteram no decurso dos séculos. então.. Compreende-se. E não reclameis. os reformadores Farel. como dizeis. ao passo que nossos adversários “fazem tudo ao contrário.. na sua Epístola a Francisco I que abre seu primeiro escrito reformador. esta foi finalmente adotada democrática e unanimemente pelo Conselho Geral.Vê-se toda a vantagem que podem tirar dessa situação os conservadores. nem esta cidade. de modo que colocaram.. as incidências da prédica evangélica sobre as relações sociais entre ricos e pobres não são encobertas pelos reformadores. Mas. não eu. 18. Na seqüência de decisões positivas sucessivamente tomadas pelos Conselhos a favor da Reforma.45 É em termos semelhantes.. ou acusado de herético ou luterano”. como vedes. Antônio Fromment. Pretendia. na Igreja e na sociedade. I Reis. 1854. 46 A . foi geralmente resolvido e 45 Antônio Fromment. aos olhos dos príncipes europeus. Ao mesmo tempo. a despeito dos riscos de tais confusões. nem esta cidade. e isso tanto mais facilmente quanto os reformadores e seus adeptos pretendem exatamente implantar uma ordem nova. sem distinguir pobre nem rico. sem criar diferença com cousas externas. por que as classes dominantes da população. atentai agora. 47 ... Fromment. Fromment e Viret movimentam-se com corajosa perseverança. e mais. Toma várias medidas relacionadas com a vida social. mediante vossas tradições e invenções humanas. também.. 39-40. ele decreta a instrução pública obrigatória. dizem eles.. ou excomungado. responder às insinuações dos adversários da Reforma que tentavam fazer passar os reformadores. mas fostes vós e os vossos que perturbastes não só esta cidade mas também todo o mundo. de forma alguma. Vós bem percebeis que não somos nós. e vidas dissolutas”. gente. queremos restabelecê-la sobre as bases do Evangelho. rei. se dirigirá ao rei da França. pelo povo soberano. p. rogo-vos. também.. Mas.. Les actes et gestes merveilleux de la cité de Genève. que perturbas todo Israel. absolutamente numa única voz. que Calvino. que eles desejam conformada às orientações do Evangelho. não estimulamos o povo humilde a que nos dê seus bens”. 18. isto é. Cf. Ao contrário. enquanto as classes populares e a burguesia emergente.

que lhe pediu permanecesse para realizar essa missão sobre-humana. De passagem por Genebra depois da adoção democrática da Reforma. Calvino foi intransigente num ponto: a Igreja devia ser independente espiritualmente do Estado e soberana em todas as suas supremas decisões. viver em união e obediência de justiça. estes eleitos pelos paroquianos. E a sociedade civil devia ser organizada e pensada a partir do modelo democrático da Igreja. restaurando os quatro ministérios bíblicos de pastor. 48 . Percebem-se os problemas de toda ordem que deparará João Calvino para reorganizar a Igreja e a sociedade. o estabelecimento de disciplina tal que garantisse a autonomia espiritual da Igreja. Tal destruição voluntária permanecerá sem nada comparável nos anais de uma cidadezinha: cerca de 1. imagens e ídolos.pela suspensão das mãos para o alto decidido e a Deus prometido e jurado unanimemente. não sem enormes dificuldades. a constituição que embasa a estrutura da Igreja. Dita exigência. e tudo o que isso poderia incluir.500 habitantes. e só a seguir. no interior das muralhas. os magistrados haviam já tomado anos antes medida heróica: tinham decidido demolir os arrabaldes da cidade para construir novas muralhas. Com seu espírito sistemático e jurídico. fosse claramente formulada. quando é situada em seu contexto histórico. cujos habitantes deverão comprimir-se ainda mais para acolher. julgada exageradamente restrita pelos cidadãos habituados com os antigos costumes. que queremos viver na santa lei evangélica e Palavra de Deus tal como ela nos é anunciada. E os paroquianos devem ratificar democraticamente as proposições de seu conselho no tocante a essa escolha de ministros. valeu-lhe ser escorraçado de Genebra. para menos de 10. depois de ter exigido e conseguido. Esses ministros são escolhidos pelos conselhos eclesiásticos. isto é. ancião e diácono. concebido segundo as orientações da Palavra de Deus: é a comunidade que reconhece os diversos ministérios que Deus lhe encaminha. tempos depois. Ora. foram desalojados e reinstalados. Para assegurar mais ampla independência eclesiástica. Ele só retorna a pedido dos genebrinos mergulhados em suas disputas internas em 1538. Alguns descontentes vieram engrossar as fileiras dos adversários da república. com a ajuda de Deus. Quaisquer que tenham sido nessa cidade as modalidades freqüentemente cambiantes das relações institucionais entre a Igreja e o Estado. Calvino exigiu que a disciplina eclesiástica. ele a contragosto foi lá retido por Farel. e abusos papais. como condição de seu retorno. esse novo reformador começa por restabelecer a ordem na Igreja. repudiar todas as missas e outras cerimônias. vinha a organização da cidade. doutor. bem ou mal. a afluência de refugiados perseguidos da França e da Itália. os magistrados tinham um direito de fiscalização e decisão sobre a Igreja. como é possível imaginar.000 que nela moravam. O reformador colocou ao dispor dos poderes civil seus talentos de organizador e seus conhecimentos jurídicos. 21 de maio de 1536. especialmente para a elaboração do Código Civil adotado pelos conselhos em 1543. Contra as ameaças repetidas das tropas da Savóia que aravam as terras às portas de Genebra. na maioria das regiões onde a Reforma fora adotada.”47 Avalia-se quanto essa decisão foi excepcionalmente corajosa. A seguir. que reputava superior a suas próprias forças. 47 Registres du Conseil.

delimitaram progressivamente os direitos populares. por exemplo. a cidadania de Genebra. Não cessou de endereçar às autoridades protestos corteses. só se aprende lentamente e não sem surpresas e reveses.48 Na tentativa de restabelecer esse regime democrático em Genebra. Conquanto despótica. ao mesmo tempo que a lembrança reanimada das antigas liberdades e dos direitos populares. Foi o que aconteceu em Genebra.. Pierre Fatio salvou a honra da aristocracia e da cidade reformada. 413. Moral calvinística e moralismo calvinista. as virtudes que enobreciam os protestantes de seu tempo. duros na repressão. “Esse governo de patrícios de colarinho duro. que haviam estimulado os estrangeiros a abrir mão de tudo para permanecerem fiéis à sua fé e procurarem refúgio nessa cidade hospitaleira. Seus membros são íntegros.. para impor sua autoridade. O gosto pela democracia não é natural às coletividades humanas. é das fileiras mesmas dessa aristocracia que sai um chefe revolucionário. 49 . Finalmente. sustentado por uma ortodoxia estreita. Contido nos princípios da Reforma.. Pouco a pouco.. uma oligarquia aristocrática pouco a pouco se constituiu. Por mais decisiva que haja sido a influência espiritual e moral de Calvino sobre a cidade. que nada havia esquecido de sua herança reformada. Haviase passado da moral calvinística para o moralismo calvinista. não pôde suportar por muito tempo essa privação de seus direitos legítimos. As altas qualidades morais.. eles se impuseram por seu valor pessoal. contrariamente ao que por vezes se disse para desacreditá-lo falando-se em teocracia. p. Ocupando cargos públicos cada vez mais numerosos. Pierre Fatio. essa aristocracia intransigente conservava. encabeçou a revolta popular. que usava de certo moralismo intransigente. 1951.. fizeram deles uma nova elite pronta para assumir importantes responsabilidades na cidade. descendente de uma família italiana de refugiados por motivos religiosos. a instrução sempre mais difundida. 48 L’histoire de Genève des origines à 1798 publicada pela Société d’histoire et d’archéologie de Genéve. cumpre salientar o fato de que ele nunca exerceu mandato político. já no século XVII. Desse modo. O exercício da democracia. Só quatro anos antes de sua morte recebeu. administra bem e sabiamente.Mas. no curso de gerações. que não hesitou em apelar para as tropas estrangeiras com a finalidade de manter seus privilégios. observam os historiadores. 2. a título de reconhecimento. Genebra. onde subitamente todas as opiniões podem fazer-se ouvir e querem triunfar. apesar disso. Sublevou o povo genebrino impaciente por recuperar todos os seus direitos cívicos. fuzilou-o em 1707. herdeiro da Reforma democrática. mas em vão: as raízes da democracia implantadas pela Reforma eram demasiado profundas para não reflorescer imediatamente. escrevia um observador. não foi sempre cultivado pelos próprios protestantes. impelem toda uma parcela da opinião para a democracia”. uma Igreja e uma cidade não se reorganizam na primeira tentativa. Mas o povo. O poder oligárquico. Mas o vento” (do despotismo) “que sopra de Versalhes inclina o patriciado para o poder de direito divino.

já que não mais se ousa falar de moral numa sociedade que a rejeitou. mais fácil a evolução para uma sociedade democrática nas regiões onde o calvinismo foi adotado. 66. A primeira e mais importante é sua função espiritual. mas para todo o rebanho. na cidade e no Estado. A . para a Revolução”. ela se dissipou. mulheres engajados. Um pouco por toda parte. P. e mesmo a outros. também. Ela oferecia aos fiéis. como a França. tendo perdido sua legitimidade original. não a sair do mundo. sendo sua presente natureza desnaturada com referência a sua identidade primeira. de fato. não para um grupo restrito de cristãos excepcionais. Transmudada em moralismo incômodo. 1990. 43. de três funções da moral ou da ética. fé no mistério da Palavra de Deus que lhe é pessoalmente dirigida e não simples conformismo de comportamento e de pensamento a uma religião tradicional. inexistia. M. c. por fim. Reforma religiosa fundamentada sobre a Palavra de Deus que não envolvesse transformações em toda vida política. A ética reformada. por conseguinte. depois de ter sido totalmente secularizada. 50 . também. Cf. 49 50 Sobre todas essas matérias.” “Ele requer zelo. na sua comunhão. Villaneix. o sentido da moral no pensamento reformado. mais tardia essa mesma evolução nos países que continuaram fiéis ao catolicismo. 51 P. Reforme et révolutions. a Reforma religiosa era um preâmbulo à transformação da sociedade. portanto. Ela tornou. ardor. porém. Biéler. c. “comitês de ética” tentam reanimá-la). Kingdon. hoje tende-se a dar-lhes significados diferentes. na família.”51 Rememoremos. Tal exigência conclama. militantes. Paris. (Etimologicamente. engajamento completo no serviço de Deus e dos homens. como nos países anglo-saxões. Genebra. 22) formulado por Cristo. bem como confiando o governo da Igreja aos leigos e não ao pastor. proclamando o sacerdócio universal dos crentes e a igualdade dos ministros.. modelo mais adequado que a monarquia para a organização de uma comunidade. p. R. Caracterizando a fé e a moral reformadas. ação. Kingdon50 faz a seguinte observação: “Esse novo tipo de Igreja era.Se. 20) e no resumo (Mateus.. 1959. arrepender-se. fazendo dos cristãos homens e. Paris. econômica e social da cidade. Exige a santidade. Viallaneix escreve: “O protestantismo exige antes de tudo escolha pessoal. La pensée économique et sociale deCalvin. Trata-se. consagração total a Deus. sintetizada nos Dez Mandamentos (Êxodo. Ele deve. um derivando do latim. na profissão. o historiador M. o outro do grego. em P. mais violento. Réforme et révolulutions. A Lei divina deve ajudar cada indivíduo a descobrir que. 1990. Mas.49 A esse propósito. Foi isso que impulsionou a França para um processo de mudança social mais brusco.. Calvin et la démocracie. na Igreja.. e converter-se para beneficiar-se da vida nova para a qual Cristo o convida. A ausência do modelo calvinista tornou mais difícil e. possui três funções. Calvino fala dos três usos ou dos três ofícios da Lei. Viallaneix. ele está muito longe de conduzir-se naturalmente na conformidade da vontade de Deus. p.” “Ele recusa a distinção de natureza entre clérigos e leigos. pedindo perdão. para os governos monárquicos dos tempos modernos. difícil de aceitar. mas a nele integrar-se para nele trabalhar e transformá-lo. os dois termos se eqüivalem exatamente. para este reformador.

que já antes da chegada de Calvino. não ocorreu a mesma coisa no seio das grandes potências ocidentais protestantes. por exemplo. Graças à lei de Deus. Se. repercutem sobre sua representação da organização política da sociedade. O exemplo inglês atesta. ela tem uma função política. além disso. Calvino contribuiu para isso. todos os cidadãos e magistrados sabem segundo quais critérios morais podem e devem elaborar as leis e conformar sua conduta na sociedade para obter ordem social. Vê-se que reformas sociais. são corolários da reforma religiosa. foi preciso certo tempo para que a prática democrática instalada no interior das comunidades religiosas se transpusesse para a sociedade civil. a Reforma exigia correção dos costumes. Por toda parte. uma graça. em seguida. As prostitutas haviam sido expulsas. desenvolvimento da instrução pública. impostas pela primeira geração de reformadores. com proibição de blasfemar. econômica e política viável e durável. entre os protestantes também. estabelecendo a abolição da servidão nos campos. Enfim. o Conselho dos Duzentos havia adotado novo regulamento para as tavernas. a democracia se estabelecera juntamente com a Reforma. segundo a concepção de sua Igreja. se não mais. A menção dos problemas da Grã-Bretanha põe em evidência que. mas causa de alguns desregramentos de costumes. Mas. proibiu-se a parada salvo aos domingos. 51 . sempre propenso a esquecê-la. jogar cartas ou dados. depois das nove horas. eram tão opressivas. Em Genebra. uma função moral propriamente dita. Convém recordar que as exigências morais. As origens da democracia na Grã-Bretanha. também. 3. transformações políticas. onde ainda subsistia. vender bebida durante o sermão ou à noite. com ele e antes dele. reforma moral. que as observações feitas aqui sobre as relações entre o espiritual e o temporal não decorrem da controvérsia confessional. A reorganização do hospital e da assistência pública aos pobres e aos enfermos havia sucedido àquela que Zwingli introduzira em outro lugar quinze anos mais cedo. vindas em socorro. relaxados tanto na Igreja quanto na sociedade. Limitaram-se os preços do pão e do vinho nos tempos de escassez. contra as suspensões abusivas de trabalho. e a destinação do dízimo para benefício dos indigentes e doentes.A ética tem. Se é verdade que um efetivo rigor caracterizou a ética reformada. em Genebra e noutras cidades reformadas. a cidade reformada havia tomado essas medidas morais de reformas sociais. as idéias que de si fazem os crentes sobre sua relação com Deus. nos quais era obrigatório assistir ao sermão. Em conseqüência da presença das tropas bernenses na cidade. tem-se equivocadamente atribuído com freqüência a paternidade exclusivamente ao calvinismo. Notemos. Nelas. Ele se torna obediente por reconhecimento e não mais por obrigação. tendo-a aceito como um dom consecutivo ao perdão. que as provindas da influência de Calvino. foi já a pedido de Farel que foram interditas as danças na rua. como também todo o movimento reformador. essa vontade de Deus a qual ele é convidado a amar. A Lei divina relembra incessantemente ao crente convertido.

inevitável.Encontram-se. serão os mais ardorosos democratas de todos. Depois. elevando-nos à primeira e mais elevada posição da Igreja para a defesa da verdade e para servi-la com todas as nossas forças em nossa majestade real. Histoire génerale du protestantisme. submissa ao rei. 178. entre os protestantes atrelados a uma eclesiologia herdada do catolicismo romano. o rei se prevalecia de sua autoridade divina. tomo 2.”52 A Reforma. na América. conseqüentemente. Ela prosseguirá em três direções. foi substituída por novo regime onde a preeminência retornava ao Estado. A antiga forma de sociedade legada pelo catolicismo romano. portanto. são estes herdeiros da Reforma calvinista que estão na origem das três grandes revoluções que moldaram o mundo moderno. Essa Igreja colocava-se. na Grã-Bretanha. para todo o Ocidente e depois para o resto do mundo a ritmos 52 Cf. mas a monarquia conservara as antigas estruturas políticas e eclesiásticas. p. a primeira revolução industrial que se desenvolve desde o século XVIII na Grã-Bretanha. com efeito. assim. contra os ingleses. Presbiteriano-sinodais. Antes de tudo. a primeira grande revolução democrática ocidental. mas sob a condição de que a monarquia seja constitucional e parlamentar. Um liame comunitário fortíssimo desenvolvia-se nessas novas assembléias democraticamente constituídas. não suscitou seitas. A Igreja Anglicana realizara uma primeira Reforma. Seus grupelhos proliferavam. pouco a pouco. Já os Puritanos. Os reformados. Ela se estendeu. mantendo vistas idênticas sobre sua organização e. na origem da revolução republicana. para os quais as comunidades são democraticamente organizadas (presbiterianas). Cobravam sempre o dízimo. A Igreja anglicana era. enquanto que as igrejas tradicionais se esvaziavam. Celebravam-no nos domicílios particulares. pois. A discussão com os representantes dos novos princípios criados pela Reforma de tipo calvinista era. a teocracia onde o chefe da Igreja detém também a supremacia política. Pretendiam retornar o culto à simplicidade evangélica. Os Anglicanos. reproduzir na sociedade civil a imagem profunda de sua concepção do corpo eclesiástico. Sob influência da vigorosa corrente calvinista em expansão há mais de um século. fervorosos congregacionalistas. na Grã-Bretanha. em oposição à classe ascendente da nova burguesia. E. caso contrário optarão por uma democracia republicana. problemas semelhantes àqueles que se observam entre os adeptos desta última denominação. como antes delas procedera a Igreja Romana privilegiando as estruturas políticas autoritárias e hierárquicas segundo a visão de sua eclesiologia. Para opor-se à vontade reformadora dos calvinistas. na qual se recrutavam os partidários de uma mais completa reforma da Igreja. seus sacerdotes eram praticamente funcionários governamentais e seus bispos não haviam absolutamente renunciado a suas vastas propriedades. permanecerão realistas. O rei Henrique VIII da Inglaterra repudiara a autoridade do papa. 52 . a primeira revolução anticolonial importante. pois. cujas comunidades locais são autônomas. Léonard. sobre a da sociedade. permanecerão realistas. o césaropapismo. conquanto devam ser subordinadas a uma autoridade central (sinodal). os que reclamavam tal transformação eram chamados de “puros” ou Puritanos. Tiago I não hesitou em referir-se a “essa dignidade de que Deus nos revestiu. episcopalianos. Como se verá. Cada uma dessas três variantes da Igreja protestante desejava. Serva dócil da coroa. Em seguida.

possuía uma prédica social muito engajada. A esse respeito. Pendia. No plano social. enquanto as terras comunais permitiam outrora que os camponeses mais pobres nelas fizessem pastar seu gado onde encontravam magra pastagem. Lutaud. Um desses grupos. algo aparentado aos Diggers. Lutaud. 53 . agitadores de inspiração mais ou menos religiosa assumiam a liderança dos numerosos revoltosos. “Se o rico. os novos proprietários. Lutavam contra a concentração da propriedade agrícola. de tempos em tempos. delas se apropriavam e as cercavam para vedar o acesso aos pobres sem terra. Doutra parte. escrevia. Apresentavam-se. 35 Cf. Queriam instaurar uma sociedade à imagem do Reino de Deus. Lutaud. dedicados ao desenvolvimento econômico dos países industriais. Gérard Wistanley. a influência determinante das estruturas mentais profundas da religião (e de suas formas eclesiásticas principalmente) sobre o desenvolvimento das estruturas políticas da sociedade. nascido sob influência de Wyclif (falecido em 1384) que preparara e ajudara o advento da Reforma. Les Nivelers. como “os diaristas espoliados que estão dispostos a trabalhar até o último suspiro para o bem do Reino”. diziam eles. persiste em dizer: “Esta terra me pertence”. Paris. “Eles fazem moer nossa carne na mó da miséria para que vivam no meio de seus gordos carneiros. p. melhor ainda que alhures. ricos e poderosos. rural ou urbano. Desde o décimo quarto século já. Os que fazem cercar as terras comunais.variáveis. No tocante à primeira das revoluções. relata O . desempenhará papel particular na revolução democrática: o dos Levellers (niveladores). inspirando-se na doutrina calvinista do testemunho do Santo Espírito. para certo comunismo inspirado nas comunidades cristãs primitivas. Este último acontecimento será a matéria dos capítulos seguintes desta obra. Era conseqüência do movimento dos Lolardos. são tiranos que atentam contra a vida do povo privando-o dos seus meios de subsistência. os revolucionários proclamavam a intenção de arrombar essas cercas e de assim prestar ajuda às “pobres comunidades que morrem de fome”. também elas inspiradas no Evangelho. 1963. ele desempenhou papel decisivo no advento da Reforma e da democracia na Grã-Bretanha. Foram dos primeiros a contestar a pretensão do Sumo Pontífice e do clero católico ao exercício de um poder temporal. estudado também por O .53 O movimento assumiu nova dimensão com a Reforma. Cromwell e a République. ensejavam. a revolução democrática. O . bem como o fim do celibato sacerdotal. os Lolardos atacavam a riqueza da Igreja e advogavam o retorno do clero à pobreza evangélica. em sentido inverso. dedicavam-se a atividades mais ou menos revolucionárias. a influência dos grupos sociais e das diferentes classes da população sobre as mentalidades e a seleção preferencial das estruturas religiosas. urge não se subestime a importância espiritual e política do proletariado. ímpetos revolucionários. 1l967. Ainda que informe e desorganizado. Suas aspirações religiosas e sociais de tipo igualitário. Numerosos grupos. perceber-se-á que ela é particularmente interessante porque permite medir. La révolution anglaise. São eles que despovoam nossas aldeias”. ele também. Paris. ela põe em destaque. Esses arrombadores de cerca receberam o nome de Diggers (escavadores). Nos folhetos ou perante os tribunais. deve-se deixá-lo lavrá-la.54 Um deles. 53 54 Gérard Walter. E.

Será considerado perigoso. Lutaud. indignaram o povo e também a nobreza. 1976. que punham em risco a ordem pública. Olivier Cromwell. O . Walter. por sua vez. ele recrutou 55 Cf. que reclamava a salvaguarda dos direitos do Parlamento e dos indivíduos. Por outro lado. de uma grande “Representação”. G. 54 . A despeito desse requerimento. 4. p. Seu filho. Menosprezando como o pai o Parlamento. O proletariado. que a burguesia pretendia reservar só para ela.Ninguém tem o direito de ocupar mais terra do que a que está em condições de cultivar pelas próprias mãos. que o espírito da Reforma desenvolveu firme vontade de transformação. que suscitavam temores e queixas nas pessoas importantes. William Laud. Processo idêntico marcará a maioria das revoluções democráticas européias até o fim do século XIX. A ocasião de introduzir o espírito renovador democrático da Reforma na sociedade civil foi proporcionado aos Ingleses por uma seqüência de imperícias da realeza. Aqueles que nada possuem devem começar a libertar a humanidade cultivando e semeando as terras comunais maninhas e que são muito especialmente propriedade dos pobres. porque reivindicava. Socialisme et christianism sous Cromwell. Um destacamento de cavaleiros celeremente dispersou e esmagou esses “sediciosos”. a partilha dos direitos e privilégios inerentes às novas atividades industriais. Cit. quer religiosa quer política e social. Após o brilhante reino de Elizabete. A indignação aumentou e os protestos multiplicaram-se. cujos conselhos não levava em conta alguma. 93 et sq. sucedeu-o . Op. Estes rapidamente recrutaram tropas e organizaram por todo o país vastas cobranças de impostos. De fato. Winstanley congregava os trabalhadores de enxada. com as quais consentiram todos os cidadãos possuídos do sentimento de liberdade civil e religiosa. Vê-se. este lhe apresentou a famosa “Petição de Direitos” (Petition of Rights) em 1628. Assustado. fora enviado à Câmara dos Comuns por seus concidadãos. Um jovem “gentleman farmer”. a oposição ao rei foi em breve seguida de detenções. Jacques Stuart acreditou poder fortalecer sua autoridade prescindindo do Parlamento. ao mesmo tempo ávido de piedosa meditação e de football. esportivo. em 1641. Carlos I partiu de Londres para Oxford onde organizou uma luta armada contra os parlamentares. Winstanley. os abusos do clero e particularmente as exações de um prelado pouco escrupuloso. até a apresentação ao rei. a miséria humana terá fim”. A primeira revolução democrática de uma grande potência européia. pois. Paris. “quando o homem pode prover a si próprio com bebida e comida com o próprio trabalho. aliado à burguesia na conquista dos novos direitos populares. antes de por ela serem rejeitados.55 Diggers e Levellers darão seu concurso à revolução democrática da burguesia. Assim. Após as primeiras derrotas das tropas do Parlamento. arcebispo de Canterbury e primaz da Inglaterra pelo favor do rei. que mais pode ele pretender?” Passando à ação.. Os Puritanos. será deles despojado. Carlos I.

O choque revolucionário provoca sempre repiques. As comunas da Inglaterra. Richard Baxter. se apoderou do poder executivo. Nomeado Lord-Protetor em 1657. pouco a pouco. deixando um filho incapaz que o sucedeu. Walter. são levados a se mostrarem valentes. Cf. quer por um rebate. dirá sobre Cromwell: Ele “é particularmente atencioso para com os homens religiosos que fazem parte de suas tropas. que haviam já lutado ao preço de duras privações pela sua liberdade. bem como do poder de legislar por decretos.. os Puritanos e os Independentes não concordam. que se aliaram às tropas dos Dissidentes e dos Independentes. riqueza comum). a origem de todo poder justo . Nunca se dobraram perante o inimigo”. As tropas de Cromwell esmagam os Escoceses. geralmente efêmero. capelão num regimento de cavalaria. p. Esses homens possuem entendimento superior ao do comum dos soldados. isto é.. Cromwell encontrou entre os dissidentes. a causa da liberdade política e a da liberdade religiosa eram indissociáveis.56 um pregador puritano. Proclamou a liberdade de consciência para as principais Igrejas. Em 4 de janeiro de 1649. foi assim na GrãBretanha.sobretudo entre os Puritanos. A Inglaterra. os Cabeças Redondas. quer por um ditador a pretexto de protegê-la. eleitas pelo povo e representando o povo. 1989. Mario Miegge. longa luta fratricida se trava... Genebra. 57 G. do Antigo Regime. Op. A intervenção do exército da Escócia permitiu a Carlos II. Para ele. Essai sur l’éthique puritaine. 68. que escapara às guerras religiosas que devastaram anteriormente a França e sobretudo a Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos. porque a noção de soberania do povo já fora adquirida. mergulha numa guerra sangrenta que põe em confronto ramos diferentes do protestantismo. 55 . O rei é feito prisioneiro. Historiadores ingleses chamam essa primeira revolução de Guerra Civil. reservando o termo Revolução para os acontecimentos que se desenrolaram uma geração mais tarde. Na realidade. entre o povo e a nobreza. O exército dos Puritanos.” Revolução alguma contra o Antigo Regime numa grande potência ocidental jamais conseguiu estabelecer um poder democrático durável na primeira tentativa. O ato de constituição reza: “O povo é. Carlos I foi condenado à morte e o ato de acusação foi lido em nome do povo da Inglaterra. novos esquadrões. Os escoceses. Como na França um século mais tarde. Vocation et travail. O anglicanismo foi restabelecido.. de ascender ao trono. exceto os Anglicanos e os Católicos romanos. amigos seus. em 1688. todos os pastores não 56 Sobre esse personagem.. combatentes de qualidade. sob o olhar de Deus. propõem instaurar o presbiterianismo como religião oficial. reunidas no Parlamento. faleceu no ano seguinte. a verdadeira revolução democrática já está realizada a essa data. As tendências sociais radicais dos Levellers e de outros Independentes algo anarquistas acabaram por indispor Cromwell que. Cit.. o filho do rei defunto. do comando do exército e da marinha. A revolução ameaçada é o mais das vezes assumida. Desdenhosos do dinheiro. ocupa Londres e o Parlamento é expurgado.57 Entre as tropas do Parlamento e as do rei. Mas. têm o poder supremo na nação. foi votada a instituição da República ou Commonwealth (prosperidade.

saiba que é Deus que lhe delega sua autoridade e o faz plenamente responsável perante ele do uso que dela faz. e o esposo Guilherme d’Orange. todo cargo público sendo-lhes interdito. de modo menos durável. formado por sua educação religiosa. nos países nórdicos e. 6. O espírito da Reforma difunde um fermento democrático por diversas regiões da Europa. ao contrário da revolução precedente que fora sobretudo empreendimento do povo. para a América sobretudo. adversários dos Tories. ou então. o Parlamento declarara soberanos a filha de Jaime II. Suíça. Elas se manifestaram no continente de maneira marcante na Holanda. Cabe a ditos cidadãos. adeptos do Parlamento. em seguida.conformistas foram destituídos e logo presos com milhares de adeptos. França. Sob a forma de uma realeza parlamentar e graças às influências da Reforma calvinista sobre o povo. ia produzir efeitos novos sobre todo o continente. Não se tratava mais de realeza de direito divino e o princípio da soberania do povo é doravante conquistada. O germe da democracia. Jaime II. emigraram. decidem então fazer um apelo ao genro do rei. Desde janeiro de 1689. Começa. Os Whigs. suas conseqüências políticas variaram também segundo as circunstâncias históricas. realistas. como o calvinista neles foi acolhido de forma muito diversa conforme os países. a burguesia não cederá facilmente ao proletariado os benefícios dessa conquista. Todavia. Inumeráveis Puritanos. Após o desembarque de Guilherme que mobiliza rapidamente a maioria do país. consagraram-se à indústria. que sucede ao irmão em 1685. que consagrava definitivamente a supremacia do Parlamento. evadiu-se para a França. robustece seu absolutismo contra o Parlamento e outorga sua proteção aos católicos. mas lhes impusera o famoso Bill of Rights. delegar essa autoridade aos poderes religiosos e civis. Maria. Jaime II. pastores e leigos. para fundar uma democracia viável. em 56 . segundo os tipos de organização que reputem mais sensatos nas circunstâncias históricas particulares em que vivem. 5. Guilherme III d’Orange. O espírito reformador penetrou desigualmente nos países europeus. precisa terse na sua base um povo que. em seguida aos primeiros migrantes ingleses. neste ínterim. Como na França um século mais tarde. É o Great Ejectment de 1662. Resumindo. ao comércio e aos negócios bancários. a de 1688 foi também obra da aristocracia e da burguesia abastada. a primeira grande democracia é solidamente estabelecida na Europa. para que todo o povo acabe por dela beneficiar-se plenamente. cujo sucesso assegurarão graças ao seu rigor moral calvinista legendário. do qual provinha a autoridade do rei. constata-se que. Mas. que provocara sucessivamente as duas revoluções inglesas. ao longo da Revolução Industrial. Diuturnas lutas far-se-ão necessárias. a “revolução gloriosa” de 1688. Uma democracia moderada: a realeza parlamentar. assustado.

só a Escritura. Guilherme invocava claramente a doutrina calvinista dos contratos e da responsabilidade representativa. antes da Contra-Reforma. constata-se que rapidamente “se estimula a reconstituição abrandada do que se havia destruído. na Áustria e até na Boêmia. Dourmergue. Op. ela neles conhecerá sortes diversas. para bem administrar a fé só e a Escritura só. E. E que. 137.. guardiã crítica da sociedade. Neste último país. 60 P. Saxônia e no Leste do Império” e naquelas das “cidades-estados” que não se situam na proximidade de Roma. p. L’aventure de la Réforme. a Reforma penetra dificilmente nas monarquias de direito divino. desobrigado de seus juramentos”61. Ela “só se arraiga duradoiramente na região dos pequenos Estados territoriais. a partir dos escritos calvinistas sobre o direito de resistência aos tiranos. seus professores ordinários e seus in-fólios latinos. à testa do movimento de independência neerlandesa das províncias calvinistas (Províncias Unidas do Norte) contra o despotismo da Espanha. Guilherme d’Orange. isto é.. sobretudo. mas construídas sobre um tipo governamental análogo.demain. Com efeito. mas seu grau de influência aí será em geral inversamente proporcional à distância que separa esses Estados de Roma.”. terá muitas vezes a tentação de confiscar o poder dos leigos. convertido ao calvinismo em 1573. Delteil. de adaptar-se aos hábitos de seu meio social e de associar-se aos poderes dominantes. se. “as confissões de fé. corretamente interpretada no espírito dos reformadores. Op. justificou sua tomada do poder.. na Itália. 58 59 F. Cit. na redescoberta do cristianismo primitivo. p. “Em vinte e cinco anos. apenas menos pesada que a antiga ortodoxia”60 Muito rapidamente aparece todo um aparelho eclesiástico. Le protestantisme ontem. indispensável à vida cotidiana durável de uma Igreja mas que. tudo se agita. Paris.. tomo V. A influência do calvinismo sobre a democratização das regiões conquistadas pela Reforma é considerável. no início. ver-se-á. amigas ou adversárias de Roma. P. 621. 57 . Cit. a população adotou tão profundamente a Reforma genebrina que.. “não se pode renegar a Igreja tradicional sem ser decapitado. 61 Cf. o adjetivo calvinista nele se tornou sinônimo de húngaro.certos países do Leste europeu. Depois. políticos e econômicos.. a fé que os crentes reformados propunham é “só a fé. que os revolucionários democratas justificaram sua ação.” De fato. Posteriormente na justificativa endereçada aos Estados gerais. privilegiando os Estados nórdicos.” em linguagem clara e simples e com espírito comunitário. com prejuízo de sua missão permanente de sentinela. Numa palavra.59 Quanto à penetração da Reforma no império de Carlos V. o príncipe d’Orange estava. 1986. Foi. 140. afirmando que ele era “um dos principais membros dos Estados”. nos dezessete Estados que reagrupa.. Foi o caso da Holanda. Cit. tem sempre a tendência a apresentar-se como a Igreja e a valorizar mais suas próprias obras do que só a Palavra de Deus. que “os Estados haviam sido constituídos para resistir à tirania do príncipe” e que “o rei” tendo “violado a lei. por conseguinte.. tudo se cristaliza.58 Exceto o que ocorreu na Grã-Bretanha.” assim como na Península Ibérica. Pois.. p. cognominado o Taciturno.. à imagem da Igreja romana. 52.. onde a Reconquista sobre o Islã restabeleceu a hegemonia da Igreja Romana. Polônia e Hungria. Chaunu. se juntam à autoridade da Escritura. Pierre Chaunu. Op. instaura-se uma ortodoxia com suas redes universitárias.

em 1492. o apego profundo do povo à realeza. Expulsas de sua pátria. É sobretudo no Novo Mundo que os descendentes espirituais de Calvino. que decorre da lei evangélica tanto na Igreja quanto na sociedade. até nossos dias e para o mundo inteiro. “Deus não criou os povos escravos de seus príncipes. depois na região dos Grandes Lagos até o Mississipi (Luisiânia.. as perseguições aos Huguenotes na França. dizia.” No mesmo espírito é redigida a Declaração da Independência holandesa de 1581. Um desses navegadores. também. Em certa medida. odiada pelos tiranos.. conjugado à influência determinante do cristianismo reformado. Aventureiros desembarcaram. do espírito reformador democrático tanto religioso quanto político. aliás muito diferentes entre si. que iam engendrar as novas sociedades modernas. na região que hoje é a Venezuela e nas costas da futura Honduras. 58 . está lá escrito. O fermento democrático chega à América. àqueles que tiveram. A assembléia dos Estados. criado por um cosmógrafo alemão em 1507). Num e noutro caso. pelas autoridades temporais e espirituais associadas. esses refugiados por motivo religioso não foram os primeiros a transpor o Atlântico para lá se estabelecerem. Mais ao Sul ainda. a Califórnia e outros Estados do Oeste e do Sul. produziram efeitos idênticos. para obedecer suas ordens. as perseguições às minorias religiosas. ao contrário. haviam-se introduzido nos territórios norte-americanos que constituem atualmente a Flórida (em 1565). vão estabelecer formas de democracia que terão. para o mundo novo. Cortez desembarcara no México em 1519. 62 Ibid. De sua parte. 1682). Como na Grã-Bretanha. convencido como estava de haver chegado às Índias. os franceses tinham penetrado no Norte do continente. criou os príncipes para seus súditos”62. para a Europa. algum tempo depois. amada pelos príncipes leais. mas todos em marcha para o mesmo horizonte político. democráticas e industriais. na Inglaterra. ao contrário do que cria seu comandante até o último dia. antes do Edito de Nantes e após sua revogação. essas minorias eram perseguidas porque reivindicavam a liberdade. as mais decisivas conseqüências. Na América do Norte. essas minorias transportaram para seus países de refúgio forças espirituais e morais renovadoras. depois o Texas. Américo Vespúcio (cujo nome está na origem do termo América. foi provavelmente o primeiro a imaginar que havia posto os pés sobre um novo continente. boas ou más. no solo americano. Antes deles. prosseguindo na penetração da América. no Canadá (Champlan em Quebec em 1608). 7. depois que Cristóvão Colombo chegara a Cuba e Haiti. Lembrar-se-á brevemente que elas foram os primeiros enxertos. freio e barreira à tirania. é o único fundamento do Estado. conduziu à forma moderada da democracia que é a realeza parlamentar. há obrigação recíproca. os Espanhóis.“Entre os senhores e os vassalos.

chamados a forjar suas convicções sobre o fundamento de uma interpretação pessoal e contemporânea da Palavra de Deus. partidos de Plymouth. Como estes. puritanos. Estabeleciam-se em territórios quase desérticos. 59 . Fundaram New-Plymouth63. consideravam o desenvolvimento intelectual indispensável aos cristãos reformados. em setembro de 1620. Roger Williams que. na nova colônia. Esse novo lar da cultura inglesa na América ilustrou-se com a criação da brilhante universidade Harward em 1636. em virtude do rigor de seu clima. com o fim de neles criar uma sociedade nova. a cidade de Providence. Seu entusiasmo no trabalho e seu espírito de empreendimento inventivo orientaram-nos para novas atividades. Esses novos colonos fazem-se donos de um país novo mas inóspito. como seriam denominados posteriormente. a metade deles pereceu e os sobreviventes estabeleceram-se em terras ingratas e incultas. o objetivo principal de sua exploração era a descoberta de metais preciosos ou de especiarias e o comércio de peles. a cidade de Boston. Esses exilados devotaram cuidado muito especial à instrução pública. tendo John Smith como chefe. em 1536. 1958. na costa leste. Dissidentes ingleses. anglicanos de tendência puritana haviam-se instalado. Outros Puritanos. uma nova tempestade desviou-lhes a embarcação. ao menos em todas as vilas com mais de cinqüenta famílias. fundaram mais tarde (1629). 398. Antes da escala holandesa. que eles arrotearam com obstinação (cultura do milho). Paris. haviam-se refugiado nos Países-Baixos. Connecticut. Na origem de Rhode Island. Mas. esses protestantes votaram em 1647 uma lei ordenando a abertura de escolas gratuitas. haviam deixado a Inglaterra com a esperança de aportar eles também na Virgínia. Reembarcaram. que se desenvolveu uma sociedade inglesa de novo tipo na América. enviados pela Companhia da Baía de Massachusetts. em Virgínia. fundou em 1636. Foi. a pequena república reformada de Genebra. 63 René Sédillot. portanto. emigrados por causa de suas opiniões religiosas e políticas. Histoire des colonisations. Essa cidade estava destinada a ser “a cidade das pessoas perseguidas por razões de consciência”.Para todos esses conquistadores. amontoados no Mayflower. no continente norte-americano. E tal como o havia feito um século mais cedo. Era totalmente diferente com os colonos ingleses do século XVII. que atingiu a costa deserta que Smith havia já entrevisto e batizado de Nova Inglaterra. com novo contingente de fugitivos. a exemplo dos reformadores. fundada nos princípios que lhes eram caros. entre a América francesa do Norte e a América espanhola. Maine. Eram os famosos “pais peregrinos”. acha-se antigo estudante de Oxford e sacerdote anglicano de tendência calvinista. que os fizeram prosperar rapidamente. como Rhode Island. depois de fixar-se provisoriamente. para consertar suas embarcações improvisadas nas quais se haviam evadido. em 1631. mais ao Sul. em Massachusetts. provisoriamente. fugindo da repressão provocada pelo absolutismo religioso e político de Jaime I. O afluxo contínuo de emigrados no decurso de todo o século XVII levou à criação de outras colônias. New Hampshire. Em 1607 já. p. No primeiro inverno.

bem como a seus governados de Pensilvânia. faz-se mister citar William Penn. A constituição da Pensilvânia expressa bem os princípios dessa nova geração de cristãos reformados. cidadãos bons fazem melhor”64. Entre os ingleses da América. Foi o respeito à pessoa humana e à liberdade de consciência levado ao mais alto grau. Era membro da comunidade dos Amigos. 60 . porém. também. percebe-se que os Puritanos se embebiam já no otimismo da teologia natural. Eles extraíam-nos de sua interpretação. era pacifista. Léonard. “Os governos. p. movem-se segundo a impulsão que se lhes dá. e o governo não poderá ser mau. já que todos os homens são iguais perante Deus. Os Quakers lutaram. em seguida. Esta triunfará no século seguinte e engendrará em seguida as diversas ideologias antagonistas baseadas todas numa fé inabalável no progresso contínuo da humanidade. Guilherme III. 8. porque se pretendia que alguns deles buscavam uma espiritualidade que os levasse ao êxtase. 305. e a melhoria do tratamento dado a prisioneiros e alienados. “Deixai o povo ser bom. que tentaram criar relações novas entre cidadãos de uma mesma sociedade. 64 E. alcunhados Quakers (tremedores) pelos contemporâneos. Uma primeira experiência favorável em New Jersey incitou-o a estabelecer-se um pouco mais ao Oeste para aí fundar uma nova sociedade civil. lê-se aí. Voltar-se-á a falar disso mais adiante. como os relógios. pela justiça social. a pretexto da “não-violência”. o direito de recusa a servir na guerra lhes foi reconhecido.. Dependem dos cidadãos muito mais do que deles os cidadãos dependem. dotada de estatuto radicalmente novo. Depois que expuseram os princípios aos quais obedeciam. A sociedade dos Amigos (Quakers) estava de tal sorte impregnada dos princípios democráticos e do senso de igualdade e liberdade. mas livremente. Boas leis fazem bem. Sob a influência do pastor George Fox. que discípulos de George Fox chegaram até a recusar prestar juramento (porquanto eles entendiam só dever obediência à própria consciência) e até mesmo descobrir-se diante da autoridade qualquer que fosse. aposentadoria decente para os idosos. como todos os Quakers. Entendia que a lei não devia ser respeitada por causa da coação ou ameaça das armas. Cit. de subtrair-se.Essa colônia recebeu uma constituição democrática com separação da Igreja e do Estado. pelo governo inglês que o repreendia. Foi incomodado. Um tipo de sociedade protestante radicalmente novo. O rei. tomo II. ameaçada pelos franceses do Canadá. contra a pena de morte. o justo salário. Op. fundador da comunidade. William Penn. Essa colônia levará o nome de Pensilvânia (floresta de Penn) em 1681. declara a Constituição.” Nesses textos fundamentais. contra o tráfico dos negros e a favor da salvaguarda dos Índios. da Palavra de Deus. reconheceu o alcance dos objetivos dos Quakers. da defesa comum da Nova Inglaterra. também ela nova. que fez dos Quakers os pioneiros intrépidos da luta contra a escravidão. William Penn empreendeu a criação no novo mundo de uma colônia onde devia reinar perfeita liberdade de consciência.

que acabavam de abandonar essa colônia (1763).9. O clima espiritual. que fora eleito membro da assembléia de Pensilvânia (em 1747). um plano de união foi submetido às treze colônias (em 1754) por Benjamim Franklin. Quanto aos demais emigrados. O governo inglês replicou com leis ainda mais restritivas. Elas se revoltaram. a idéia de autonomia do conjunto das colônias americanas com relação à metrópole inglesa impunha-se pouco a pouco. Os colonos americanos não admitiam as decisões do Parlamento de Londres onde não tinham representante. Todavia. Essa rebelião era encorajada pela crescente independência que os americanos experimentavam com relação à metrópole. suas sociedades a rápido desenvolvimento econômico. Elas eram livres para se outorgarem constituições e se administrarem como quisessem. Um segundo congresso continental confiou a George Washington o comando do exército e as treze colônias insurrectas adotaram a Declaração da 61 . um primeiro choque ocorreu perto de Boston. A Nova Inglaterra reagiu com vigor. Mas. Era o começo (1775) da difícil guerra da independência dos americanos. mas aos próprios colonos. Essa repressão estreitou os laços entre as colônias americanas. Pensava-se que a terra devia pertencer não mais à coroa britânica. de parte das tropas inglesas encarregadas da manutenção da ordem. Como medida de represália. utilizando sempre mais amplamente a mão-deobra servil negra. A despeito dessas diferenças. um bom pretexto para separação. desde que não mais precisavam dela para sua defesa contra a ameaça dos franceses do Canadá. a Inglaterra intervinha muito pouco nas suas colônias. eles dedicavam-se à agricultura. Entre insurretos e representantes da força britânica. o liame que os unia uns aos outros era extremamente frouxo. O espírito criador e o trabalho assíduo dos reformados conduziam. sobretudo o chá. na América como na Europa. devia muito naturalmente tornar-se o local de sua união. entre os quais se achavam numerosos prisioneiros europeus. Os fundamentos espirituais da independência. depois de diversas desavenças. Aliás. capital da pacifista Pensilvânia. Outrossim. A pacífica Filadélfia. os do Sul e do Oeste. Surgiu então. Lá se reuniram num primeiro congresso. importada da África. político e social destas últimas colônias era muito diferente daquele das colônias do Leste. O espírito de liberdade e de independência destes ingleses de nascimento estava bem enraizado além-Atlântico. precipitaram a irrupção das hostilidades. onde sobrevivia a influência puritana. Elas significavam o fim das liberdades de Massachusetts e a ruína comercial de Boston. A Inglaterra impôs a suas colônias novo imposto sem consultá-las. as importações provenientes da América foram gravadas com pesadas taxas. A primeira revolução anticolonial. Tinham seus próprios orçamentos. Algumas fuzilarias desatinadas. evadidos ou liberados para aumentar o número insatisfatório dos colonos. esse plano não foi aceito. amplamente autônomas com relação à metrópole. ao contrário da França ou da Espanha. Cargas de chá da Companhia das Índias foram destruídas (“Tea Party” de 16 de dezembro de 1773).

lembremo-lo. presbiterianos. Coroando essa evolução. Galtier. a Espanha e os PaísesBaixos enviaram reforços para os insurrectos. particularmente desenvolvidos. Nela constava a menção. Para evitar o predomínio dos grandes Estados sobre os pequenos. votou tal constituição (definitivamente adotada. que se opõem à tendência para um Estado europeu de tipo centralizador. elas constituíram-se em confederação. que levou alhures a ditaduras. nórdicos e ingleses principalmente. enquanto uma delegação proporcional à população se manifestava na Câmara dos Representantes. Protestants en révolution. que se estendia do Atlântico ao Mississipi e dos Grandes Lagos do Norte às possessões espanholas da Flórida ao sul. cuja conquista progressiva remonta à Grande Carta inglesa (1215). Estava. redigida em conseqüência da independência americana. porém.Independência de 4 de julho de 1776. 1989. à Petição dos Direitos (1628) e à Declaração dos Direitos. após numerosos conflitos históricos.65 Esse novo modelo americano de democracia confederativa perdura ainda em nossos dias. dos Direitos do Homem. inspirado na tradição latina. Pode-se desejar que os Estados europeus. Paris. 1787). (“federativo”). A vitória americana conduziu ao reconhecimento da independência dos Estados Unidos. J. de 1783. Todos os deputados. quakers. Este modelo de confederação não é centralizado. não podia “aceitar a fraca unidade federativa dos Estados Unidos e da Suíça”. provocadas pela revolução industrial. A Declaração de Independência dos Estados Americanos merece especial atenção. mais ou menos desenvolvida. dez anos depois da Declaração da Independência. aos direitos inalienáveis 65 66 Citado pelo Dictionnaire de la langue française. 62 . que criava um Estado federal com poder central algo reforçado. em via de unificação. embora ligados por pactos federais pouco coativos. Para esses pais fundadores. A França. huguenotes ou metodistas66. Tornaram-se Estado federal em 1848. é a primeira de um grande Estado moderno que empresta tanta importância aos Direitos do Homem. Genebra. que são os Estados de maioria protestante. Vários desses Estados já se haviam outorgado constituição de tipo democrático. dizia Michelet. O Tratado de Versalhes. congregacionalistas. As hostilidades atraíram a simpatia dos adversários europeus da Inglaterra. até então independentes. a constituição. Constata-se. todos estavam igualmente representados no Senado. 1989. Sabe-se a composição do Congresso que. a independência dos Estados dotados de constituições democráticas. a nova constituição unindo os Estados Helvécios. levem em conta sempre mais esses ensinamentos da História e que não caiam na rotina das tradições centralizadoras. conferia-lhes autonomia. assegurada notabilíssima forma nova de democracia do tipo confederado. A França (com La Fayette). assim. a legitimidade do governo vem de seu respeito às leis de Deus. Foi sobre esse modelo que se concebeu. por ocasião da “Gloriosa Revolução” britânica de 1689. por Paul Robert. como são numerosas democracias modernas tendo no ápice governo de tipo mais ou menos hierárquico e autoritário. p. no ano subseqüente. ademais. 39. Nova constituição foi elaborada em 1787. Com uma primeira constituição redigida em 1777. com exceção de dois católicos e de alguns cujo credo religioso se ignora. são anglicanos. às leis da natureza. Conseguiu atravessar indene numerosas crises. É produto característico da tradição anglo-saxônica e puritana. notadamente a guerra da Secessão e as violentas agitações decorrentes das desigualdades sociais. proveniente da GrãBretanha. mantendo.

deve ser estimulada pela educação e pela prédica. privada e civil. no início. Derivada da fé cristã.. Cit. governo algum democrático conseguirá subsistir. também. os poderes civis e religiosos são estritamente separados. também. que os governos foram instituídos entre os homens. J. afirmava-se. Na ótica do cristianismo reformado. desde muito tempo. limitado por eles. na Europa e no mundo. Mas. e os outros Estados do Sul e do Oeste. e dos outros continentes depois. 63 . para ser constantemente renovada. essa ideologia tornou-se 67 68 Em Throughts on Government. cuja população era formada. Sem tal moralidade. entre os quais o direito à vida. 35. Os princípios da Constituição de 1787 inspiraram a maioria das revoluções democráticas. ao lado da fé do cristianismo reformado. seja ela qual for. O princípio da separação da Igreja e do Estado está fortemente ancorado nos costumes americanos. Sua autoridade legítima repousa no consentimento dos governados. Nessa perspectiva. só a busca dessa ética podia tornar as autoridades bem como os proprietários dignos de sua vocação para a liberdade e para a justiça social. que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis. única capaz de impedir que os cidadãos sacrifiquem o bem comum aos interesses privados. soava o dobre do despotismo de direito divino bem como do imperialismo colonial. Importa dizer que. Quando uma forma de governo. trai essa missão. é direito do povo resistir-lhe. acha-se renovada pelas promessas e exigências do Evangelho. E esta moralidade. à liberdade e à busca da felicidade.dos homens. a despeito da forte imigração proveniente dos países latinos e católicos). ocidental pelo menos. havia também. os treze Estados que formam os Estados Unidos têm uma população de ampla maioria protestante68. Referiam-se à teoria política dos direitos naturais e divinos. Galtier. que oporá os Estados do Leste (de origem reformada e progressivamente transformados em antiescravagistas. E o poder está a serviço dos Direitos do Homem. Estarão. porque sem justiça não há liberdade duradoura. por imigrantes de todas as procedências. esses iniciadores de uma nova sociedade pensavam que a convivência necessária à sobrevivência de uma democracia repousava na ética do Evangelho. É para proteção de tais direitos. a ideologia filosófico-religiosa americana. cuja repercussão foi mundial. Esses grandes princípios constitucionais de 1787 constavam já na Declaração de Independência americana de 1777. op. na base dos movimentos de libertação anticolonial da América Latina. Por essa época. redigida por Thomas Jefferson. toda vida. Afirmavam que todos os homens são criados iguais. subjacente. produto da secularização do pensamento ocidental no fim do século das Luzes. afirmava Adams. p. a despeito de seus vãos esforços de sobrevivência do século XIX e da primeira parte do século XX. o que exclui todo absolutismo. Será tudo completamente diferente no século seguinte. Esse acontecimento revolucionário. destituí-lo e implantar novo governo. (um dos eleitos para a Câmara dos Representantes)67. E. por ocasião da guerra da Secessão especialmente. principal motor dessas gigantescas transformações na ótica social da época.

por vezes opostas mas muitas vezes convergentes: a influência da filosofia da Renascença e das Luzes. a de 1789 na França é o produto combinado de duas correntes distintas.uma espécie de deísmo otimista. É uma fé que sustentará o ideal do capitalismo liberal. Viallaneix. Quando se pode dizer tudo isso. e a da separação dos poderes de 69 Citado por P. de tipo quase religioso. quando este já houver decepcionado a expectativa dos povos. 95. Não existe entre eles ignorância nem miséria. de uma parte. Os velhos não padecem necessidades. Como as revoluções democráticas que a precederam na Grã-Bretanha. Examinar-se-lhe-ão os benefícios e os malefícios nos capítulos seguintes. Cit. p. Os impostos não são extorsivos. ele escreve: “Meus pobres são felizes. o pensamento do século XVIII tornou-se cada vez mais anticlerical para acabar momentaneamente no anticristianismo radical. será reencontrada naquele dos diversos socialismos. A filosofia do século das Luzes permanecera algo religiosa.. os protestantes (porque não dependiam de uma Igreja-Estado estrangeira como os católicos) não foram. nem mendigos nas ruas. A Revolução Francesa. Essa independência permitiu-lhes exercer certa influência sobre os acontecimentos. no automatismo dos mecanismos da felicidade social. transformado no “sonho americano”. Com esse otimismo. nos PaísesBaixos e na América. inspirada na espécie de progresso que se constata no domínio científico e técnico (onde os avanços são cumulativos) e transposta para o campo da espiritualidade e da moral (onde os avanços nunca são adquiridos. à medida que a Igreja Romana se opôs a suas reivindicações de liberdade. Os princípios da Revolução repousavam sobre a teoria dos direitos naturais. Paine começa criticando severamente a monarquia e todo preconceito aristocrático. segundo o qual as aptidões humanas naturais tornam o cidadão capaz de conhecer a Deus nele mesmo. Dissertando sobre o novo regime em que sonha. Essa fé no progresso ininterrupto. que se opõe ao reconhecimento dos talentos e dos méritos. No contato com a segunda. mas devem ser sempre reconquistados de novo). mesmo durante esse breve período. cara aos Enciclopedistas e também aos protestantes. de outra. que caracteriza magnificamente o que será e ainda permanece sendo o ideal liberal. Op. Tom Paine publicava. O mundo racional é meu amigo e sou amigo de sua felicidade. dito de descristianização. e da Reforma.69 Lê-se nitidamente. ou foram apenas pouco hostilizados por suas convicções e suas práticas religiosas. produto comum do espírito das Luzes e do fermento protestante. 64 . Ambas decorrem da Antigüidade: a antigüidade pagã e a antigüidade cristã. a primeira pouco a pouco cristianizou-se. nessas linhas. Depois. Mas. no início do ano de 1776. Todavia. Era sobretudo deísta. muito propalado naquele tempo. aquela confiança. é uma crença que se acha na origem de todas as ideologias profanas modernas. então um país pode vangloriar-se de sua Constituição e de seu governo. sem a mediação de Cristo. um panfleto intitulado Common Sense. 10. e de gerar a sociedade guiando-se exclusivamente pela razão e seus instintos. Não há prisioneiros nas prisões.

70 que La Fayette apresentou à Assembléia Constituinte. que seu modelo de Declaração dos Direitos fora o da Virgínia. afirmara claramente: “Esta nobre idéia (de uma Declaração de Direitos). o arcebispo de Bordeaux. O próprio Jefferson estava em Paris em 28 de agosto de 1783. Em 1783. mais tarde. sobretudo a dos Puritanos. Na conformidade do pensamento reformado. este. o relator do projeto de Declaração perante a Assembléia. As revoluções anteriores. p. 1989. Voltaire insistia na necessidade de defender o indivíduo contra o arbítrio judiciário do absolutismo político e religioso. que Rabaut Saint-Etienne declara na Assembléia: “Decidistes redigir uma Declaração dos Direitos porque nossos Relatórios de Reivindicações nos impunham esse dever e nossos Relatórios nos informaram isso porque a França teve o exemplo da América”.. em seguida. Gravemente ferido em Pensilvânia. inglesa. Aliás. Jean-Jacques Rousseau desenvolvera a teoria da vontade universal do povo precedendo à das autoridades. Foi. traduções do projeto de constituição de Massachusetts. Entusiasmado com a revolta dos colonos americanos contra a Inglaterra. Grotius (Hugo de Goot). Amigo de Necker. Todos esses pensadores corajosos e independentes contribuíram para a elaboração progressiva dos Direitos do Homem. também. devia de preferência transplantar-se para nossa sociedade. quaker da Pensilvânia. Galtier. Galtier. Impressionado com as constituições desses Estados. encarregado por Washington da defesa da Virgínia. como deputado da nobreza. considerado herói da independência americana. um comitê secreto entretivera correspondência clandestina com os revolucionários americanos. Ela nos mostra sobre que princípios devemos 70 Cf. eleito delegado girondino para a Convenção. Aliás. um católico liberal. ressalta ainda J. Thomas Hobbes. 59 sq.Montesquieu. Numerosas traduções da Declaração dos Direitos inglesa (Bills of Rights de 1689) haviam sido difundidas na França há um século já. John Locke. ressalta J. desde 1779. foi. 65 . Um deles. Importante foi. um projeto de Declaração dos Direitos do Homem. Philippe Duplessis-Mornay. foi junto dele um dos primeiros a encorajá-lo a convocar os Estados Gerais. holandesa e americana. La Fayette reconheceu. Ele chegará a dizer: “Nossa maneira de agir foi considerada por eles (os constituintes) como modelo. É tão verdade. espalhara pela França. também. J. a influência jurídica ou política de autores protestantes anteriores. desde Passy próxima de Paris. que desempenhou o católico liberal Marie-Joseph Motier. em 1789. Protestants en révolution. por ocasião do debate sobre a Declaração.. Galtier. voltou à França e participou em 1787 da Assembléia dos Notáveis. Pode-se citar o papel excepcional de traço de união entre a revolução americana e a revolução francesa. Pierre Bayle. John Adams. John Milton. ele equipou às próprias custas uma fragata para lutar ao lado deles. Benjamim Franklin difundia. David Hume e Thomas Paine. Nossa autoridade foi acolhida como a da Bíblia. que se originam as três diretamente da fé reformada. que sonhava transplantar para seu país porque correspondiam às idéias filosóficas que lhe eram caras.. Champion de Cicé. foram também fatores decisivos para o advento da democracia na França. concebida noutro hemisfério. marquês de La Fayette (1757-1834). tais como Théodore de Bèze. François Hotman. na França e nos Estados Unidos.. Devolvemos à América sua liberdade. os textos das outras constituições americanas e expedia exemplares delas para os ministros franceses..

Entre os personagens influentes. O rei Luís XIV obedecia às ordens políticas e religiosas da Igreja-Estado de Roma. Reconhecia-se-lhes um estado civil. Privou. a França. convém lembrar o nome do primeiro-ministro Jacques Necker. 80% camponeses. chefe político e religioso. Sua exoneração. as da França não estabelecem a separação da Igreja e do Estado.. E não teme acrescentar. ao contrário. que provocou a primeira crise grave da Revolução. o Edito de Tolerância. em 1787. J. Ibid. afastando-o sempre do Conselho do Rei porque recusava abjurar. diversamente da Declaração e da Constituição americanas. curvara-se ao mais duro e intolerante regime autoritário. Por conseqüência. tomo V. J. por toda parte nos países protestantes.. Essa idéia é. o exercício do sacerdócio universal dos crentes na Igreja prepararaos para a prática da democracia na vida política. a França de uma monarquia constitucional democrática. Levando em conta seu número . que se acaba de citar. Às influências anglo-saxônicas de origem protestante. em março de 1791. Essa infeliz intervenção estrangeira do Vaticano teve o desagradável efeito de provocar a queda da realeza. E foi precisamente o artigo 100 da Declaração dos Direitos do homem e do cidadão. em 11 de julho de 1789. É que lá as Igrejas não recebem ordem alguma de potência estrangeira como a do Sumo Pontífice de Roma. Op. p. como aquelas da Inglaterra. Acabavam de receber um início de reconhecimento pelo rei Luís XV que promulgara. aludindo sem dúvida à escravidão: “É o Novo Mundo.apoiar a manutenção da nossa”. que nos ensina hoje a nos preservarmos da desgraça de portá-los nós mesmos. das quais se acaba de falar. será uma das razões da tomada da Bastilha três dias mais tarde. e E.”71 Mas. urge naturalmente acrescentar o papel essencial que desempenharam os huguenotes franceses na Revolução. quando os ingleses tinham conquistado suas liberdades pela Gloriosa Revolução. Doumergue. que permaneceu no país malgrado as perseguições. para onde outrora só leváramos ferros. as condenações à prisão ou às galeras. as prisões arbitrárias. Galtier faz notar que foi graças ao aumento dos deputados do Terceiro Estado. contrária à mentalidade tradicional católica romana.. especialmente na sua primeira parte. porém. proclamando o princípio da liberdade religiosa. que achou refúgio nos países vizinhos e lhes trouxe a prosperidade de que se tem conhecimento. aceita antes pelo rei. 66 . esses huguenotes foram numerosos para desempenhar papel importante na Revolução. Cit. Ela agravou-se quando o papa. todos protestantes. Galtier. aliás. com efeito. reformado genebrino que se tornara banqueiro do Estado. desaprovou a Declaração que fora. o reino se esvaziou de grande parte de sua elite. da Holanda e dos Estados nórdicos. Mas. na atividade parlamentar. assim.os protestantes eram amplamente minoritários na França. o rei o havia protegido por causa do seu valor pessoal e fizera dele o Diretor Geral do Tesouro Real. Mesmo a reivindicação pela liberdade religiosa só aparecera muito raramente nos Relatórios de Reivindicações. 71 Cf. é preciso recordar que um século antes. promulgando a Revogação do Edito de Nantes de 1685. as execuções sumárias por causa de suas convicções religiosas. com algumas famílias da nobreza e da alta burguesia -. 614. Como. mas não ainda a liberdade de culto. Malgrado suas convicções protestantes que ele não ocultava. para compreender a coragem das intervenções dessa pequena minoria. 613.

Op. Barnave. conta-se uma quinzena de protestantes. que os Estados Gerais se transformaram numa assembléia nacional. nota André Encrevé73. adornar a todos os franceses igualmente e da mesma maneira. a liberdade concedida aos não-católicos.. entre os quais o pastor Jean-Paul Rabbaut Saint-Etienne. Naquele momento. Será. ele que se opusera ao sufrágio universal e mesmo à extinção da escravidão. em P. enfim. no ensejo da grande crise revolucionária precipitada pela ingerência de Roma nos assuntos franceses. a imensa maioria dos protestantes situam-se no campo dos “patriotas”. A liberdade deve.. ele foi o comissário encarregado de trazer a família real a Paris após sua fuga para Varennes.. Cit. trabalhavam para Mirabeau e preparavam suas intervenções. em 10 de março do mesmo ano. p. 75 Ibid. Galtier. escreve Galtier. Boissy d’Anglas. seja no que for. pelo discurso importante que pronunciou sobre a Declaração dos Direitos do Homem. Meynier.. p. O pastor Rabaut Saint-Etienne tornou-se célebre pela vida clandestina que levou no deserto de Cévennes e depois. ataca a sua própria e merece perdê-la por seu turno.”74 J. Entre os deputados do Terceiro Estado que se reuniram em Versalhes em 5 de maio de 1789. Galtier ressalta. a liberdade dos outros. 1990. por sua vez. Galtier. Senhores. ia ser destruída pela intervenções sucessivas de uma potência estrangeira à França: a Igreja-Estado monárquico de Roma. Cit. que quatro genebrinos protestantes. Aquele que agride. contrário que era ao juramento que os eclesiásticos deviam 72 73 J. sua atitude moderada valer-lhe-á ser executado em 5 de dezembro de 1793. é com Sieyes e Mirabeau um dos “pais” da Declaração e um dos oradores mais brilhantes da Assembléia Nacional76. Barnave. Op. naturalmente hostil à democracia. Mas.. Quanto ao advogado protestante delfinadense Barnave.. depois a Convenção. Viallaneix. também. que entusiasmara a França após os dois acontecimentos principais da tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789 e da noite de 4 de agosto. presidirá a Assembléia Nacional. 58 sq. entre os quais o pastor Etienne Dumont. Devem-se a esse pastor ardorosas intervenções a favor dos Direitos do Homem durante os debates da Assembléia. 64. Réforme et reéolutions. Fora julgado perigoso porque demasiadamente moderado. em particular as relativas aos Direitos do Homem75. como deputado do Terceiro Estado. “É sobre nossos princípios que me fundamento. condenará sucessivamente a Declaração dos Direitos do Homem. 74 J. 76 Ibid. Paris. consagrando a abolição dos privilégios. em 23 de agosto de 1789. dizia. para pedir-lhes declarar num artigo que todo cidadão é livre em suas opiniões. Em 1790. Les protestants et la révolution française. 67 . em 29 de março de 1790. que depois será canonizado. tem o direito de professar livremente seu culto e não deve ser de forma alguma importunado por causa de sua religião. p. preso e executado em 29 de outubro de 1793 como fundador do clube dos “Frondescentes”. A bela unanimidade.promovido por Necker.. p. uma constituição pondo termo ao Antigo Regime72. 62. 108. p. O papa Pio VI. 63.. em 7 de março de 1791 e a Constituição. um dos fundadores do futuro clube dos “Jacobinos”. capaz de votar a Declaração do Direitos do Homem e de dar à França. portanto.

descobrem por sua vez indivíduos. contra o tráfico dos negros e pela abolição da escravatura começará a travarse desde o século XVI. e mesmo contrarevolucionários. Voltar-se-á a falar nisso (capítulo V). 11. os maltratam cruelmente. se distribuem por todos os partidos em competição. moderados sobretudo. depois 1815. As intervenções sucessivas puseram fogo à pólvora das hostilidades. que começaram dificilmente a ser levados em conta na época das grandes revoluções democráticas ocidentais. são ainda apenas privilégio reservado aos brancos. São transportados para ilhas. conduzidos por um certo Cristóvão Colombo. convivência mais ou menos pacífica entre os diversos grupos da nação termina. reduzidos ao estado de escravos. Centenas de infelizes cativos são logo enviados para a Espanha. permitiu às diversas Igrejas recobrarem sua liberdade e sua identidade. enfermidades e tratamentos brutais. com menor precaução do que a que se toma com o gado. Remontemos aos inícios da história. isto é. de curta duração felizmente. Todavia. entre revolucionários extremados. prelúdio aos esforços ecumênicos do fim dos séculos XIX e XX. Com seus companheiros. que os europeus dizem novo e que se chamará América. Índios e negros. Serão privados da democracia e entregar-se-ão a lutas fratricidas (o terror. o papa proclama sua “anuência” à República (Encíclica de Leão XIII. enfim. Pouco depois da descoberta do que se cria ser a Índia. brutalmente arrancados de sua família e de sua tribo por negreiros impiedosos. os habitantes deste velho mundo. 1830. na separação da Igreja e do Estado em 1905. sob condições tais que pouco mais da metade lá chegam vivos. fossem eles católicos ou protestantes. em sórdidas embarcações. viu florescer os cultos do Ser supremo ou da Razão. enfim.prestar de respeito à constituição. Uma vanguarda do protestantismo levanta-se contra a discriminação racial e a escravidão. são amontoados. O fanatismo anticristão do período da descristianização. não sem enormes. desde sua chegada. deles não participam. Alguns anos mais tarde os negros da África. É. escapando aos imperativos de Roma. a neutralidade do Estado no domínio religioso. (não confundir com a secularização do pensamento correspondente à supressão da religião). ele lhes leva uma civilização bárbara. 68 . de 16 de fevereiro de 1892). os franceses divididos. depois de ter lançado rápido olhar sobre a influência do cristianismo reformado no desenvolvimento econômico ocidental (capítulos III e IV). alcançando mesmo a supressão. a partir de uma vanguarda de protestantes corajosos que a luta contra o racismo. que lhes são desconhecidas (Haiti. em 1492. Uma laicização na tolerância. de todo outro culto público. 1848. os índios. especialmente. também. A partir dessas intervenções pontifícias de 1791. 1852 e 1871) até que. Não admitia que os clérigos fossem empregados do Estado. Os outros foram dizimados pela fome. suscitado pelo ardor contra-revolucionário do catolicismo conservador. O que choca nossas mentalidades modernas é que os Direitos do Homem. que iam dividir os franceses durante quase um século. a dos invasores belicosos e destruidores que. Cuba). estranhos a seus olhos. violentas e tenazes resistências.

durante três séculos “realizando a mais extraordinária migração forçada da história: milhões de homens foram. que todo oponente fosse morto ou feito cativo. pois. muito natural exterminá-los. 342. por isso. que escapavam da exterminação. era o famoso tráfico triangular dos negreiros. não os tornava disponíveis para servir de mão-de-obra nas minas e no cultivo. Histoires des colonisations. Um sursis lhes era concedido. transplantados de um continente para outro. eles eram cerca de trinta milhões antes da chegada de Cristóvão Colombo. A Coroa espanhola. resistiam bravamente aos invasores. reservava-se a venda das licenças de importação de negros e taxava cada transporte de escravos. 1958. por exemplo.Assim começa a era da opressão dos indígenas da América e o tempo do tráfico dos negros que são reduzidos à escravidão. Os indígenas deviam. 69 . como em qualquer outro campo de batalha. O tráfico dos negros prosseguiu. justificava a instituição da escravatura alegando o direito de propriedade (circunstância muito pouco evangélica) e sublinhando o fato. exigindo dos proprietários de escravos o trato humano deles. Quanto aos índios. porque os negros eram pouco prolíferos visto que. Não restavam mais que treze milhões deles um século mais tarde e apenas doze milhões no fim do século XVIII. por misericórdia e por interesse também. Paris. Utilizando o mesmo navio para ir e vir. Sédillot. Os colonos acharam. submeter-se às exigências dos conquistadores vitoriosos ou ser exterminados. portanto. Esse destino era reservado aos vencidos em conflitos armados. No espírito dos conquistadores espanhóis e portugueses. No fim do século XV. na lógica antiga de toda a conquista guerreira. Mas o tráfico dos negros foi ainda por longo tempo praticado. como os índios da América não estavam dispostos a se renderem. portanto. notadamente pelos muçulmanos que constituíam a maior parte dos negreiros africanos. muito natural também apelar para a mão-de-obra estrangeira importada da África. Mas. somente ou quase. os homens eram 77 R. com os tesouros das minas e as mercadorias das colônias compradas a preço vil. ainda mais lucrativa porque escrava. transportavam estes para a América. sem proteção contra a crueldade de que é capaz o ser humano. Ademais. porque era altamente remunerador. Extremamente lucrativo. dessa forma. assim. estes julgavam. prestar serviços a baixíssimo preço aos seus senhores vencedores. p. povoando a América”77. A tradição da escravidão é um velho costume estabelecido no Ocidente já na Antigüidade. porém. esvaziando a África. o tráfico dos negros era encorajado pelos soberanos dos países colonizadores. onde as embarcações eram carregadas. de que uma instituição legal. observado na prática. alguns humanistas começaram a indignar-se contra a instituição dos servos e dos escravos no continente europeu. A seguir. então. A Igreja. Tal solução. também. assim. A invasão armada de um país para conquistar suas riquezas exigia. Malgrado esse tráfico. a sujeição ou o extermínio dos indígenas índios estava. já que podiam. na volta. a mão-de-obra estava sempre em falta na América. era preferível ao abandono puro e simples das vítimas. levavam da Europa pacotilha que trocavam com os africanos por escravos.

importados. Para preencher essa deficiência, a Espanha enviou para suas colônias a escória de suas cidades, vagabundos e criminosos78. Compreende-se por que a luta contra a escravidão partiu de regiões povoadas de refugiados por motivo religioso, fiéis a sua fé cristã, antes que das colônias fortemente interessadas nesse tráfico e cuja população não tinha as mesmas motivações religiosas. Por isso, desde suas origens, a luta antiescravista será fortemente combatida nos Estados Unidos pelos representantes dos Estados do Sul e, como por toda parte aliás, pelos promotores do grande capitalismo atlântico nascente, especialmente sob a forma das poderosas companhias coloniais corporativas. Importa assinalar, aqui, uma primeira tentativa de luta contra a escravidão dos índios da América, que foi infelizmente mal sucedida. A escravidão começara, portanto, já com o próprio Cristóvão Colombo. Não enviara ele, em 1494, para a Espanha cerca de quinhentos prisioneiros indígenas, destinados a serem vendidos como escravos em Sevilha? Sem demora, um padre dominicano, Bartolomeu de Las Casas, tomou corajosamente a defesa desses indígenas, denunciando a crueldade dos espanhóis para com eles. Mas, para fazer face às necessidades crescentes de mão-de-obra, ele cometeu a imprudência de sugerir, em 1517, que cada colono de Haiti tivesse o direito de importar da África uma dúzia de escravos negros. A grande vaga da escravidão africana, arrebentando sobre a América, ia ampliar-se. O princípio da escravidão, pois, fora claramente denunciado pelo cristianismo reformado desde suas origens. E uma tentativa de estabelecer novas relações com os indígenas dos países em via de colonização fora mesmo empreendida por calvinistas desde a metade do século XVI. Procedentes de Genebra, protestantes tinham a intenção de fundar no Brasil uma colônia de novo tipo. Desejosos de respeitar plenamente as pessoas e os direitos dos indígenas, queriam criar uma verdadeira comunidade evangélica naquele país. Em março de 1557, um contingente de refugiados franceses, acompanhado de dois pastores huguenotes, foi enviado pelo reformador João Calvino para junto do cavaleiro de Villegagnon. Este desembarcara, em 1555, na embocadura do rio de Janeiro (Rio de Janeiro). Desejava estabelecer lá uma colônia francesa professando a fé reformada. Naquela comunidade nova, todos os membros deviam viver em pé de igualdade, no espírito do Evangelho. Um deles, Jean de Léry, teólogo e artesão sapateiro, escreverá mais tarde a história de uma viagem feita às terras do Brasil, onde ele narra essa aventura que foi muito mal sucedida, em razão do caráter versátil de Villegagnon79. Contrariamente às idéias difundidas pelos colonizadores da época, Jean de Léry proclama que os indígenas colonizados são não apenas pessoas respeitáveis, mas que possuem qualidades de que muito freqüentemente carecem os cristãos, mesmo aqueles que se reputam mais civilizados. “Ainda que eu tenha sempre amado e ame ainda minha pátria, escreve, todavia, vendo não só a pouca ou quase nenhuma lealdade e fidelidade que nela existem, mas, o que é pior, a deslealdade com que nela se tratam mutuamente as pessoas, lamento muitas vezes que não esteja entre os selvagens, cuja sinceridade conheci mais que a de muitos daqui, os quais, para sua condenação, levam o
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Ibid. p. 343. Jean de Léry, Le voyage au Brésil, Paris, 1927. Ver também Olivier Reverdin, Quatorze calvinistes chez les Tupinambous, Genebra, 1957.

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nome de cristão”.80 E como as novas descobertas geraram, nesse século de ardor colonizador, violentas paixões pelo ganho e especulações financeiras pouco escrupulosas, o autor sublinha que o nível moral dos colonizadores não poderia servir de modelo para os colonizados. “Nesta matéria, escreve, considerem detidamente o que fazem nossos ricos agiotas, que sugam o sangue e o tutano, e por conseguinte comem em vida tantas viúvas, órfãos e outras pobres pessoas, cujas gargantas era preferível cortar de um só golpe a fazê-los languir dessa forma.”81 Identifica-se nessas observações a linguagem mesma de Calvino quando equipara a escravidão ao assassinato. “Subtrair a liberdade a um homem, escrevia esse reformador, equivale a matá-lo”. “Privar um homem de tão grande bem, é como que cortar-lhe a garganta” (Comentário Gênese, cap. 12, v. 5). Calvino não partilhava absolutamente das idéias de seu tempo sobre a colonização. Se bem que a pressão da Igreja antiga sobre a sociedade ocidental tivesse levado à proscrição, desde o século X, do comércio dos escravos (conquanto muito remunerativo), a sede de poder e dinheiro desenvolvida na Renascença, robustecida pela descoberta dos mundos novos, levara a opinião a se acomodar a novas práticas de escravização dos colonizados. Recordemos que, de acordo com o pensamento de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino, se pensava que, legislando-se sobre a proteção dos escravos, se protegiam estes contra a crueldade de seus senhores. Calvino não compartilhava dessa opinião. Em diversos comentários e sermões, afirmava que a escravidão era absolutamente contrária à ordem natural correspondente aos desígnios de Deus. Demonstrava que essa ordem fora e continuava degenerada pelo pecado dos homens. “Ainda que os primeiros que hajam sido escravizados, escrevia, tenham sido oprimidos por direito de guerra ou porque a pobreza os haja constrangido, é absolutamente certo que a ordem da natureza se corrompera violentamente. “E, se bem que seja útil que uns superintendam outros, conviria mais, todavia, preservar uma condição de igualdade entre irmãos.”82 O reformador insiste, também, sobre o fato de que a libertação dos escravos é muito freqüentemente de tal sorte explorada que os libertos tombam para situação pior que a anterior. Por isso, ajunta, o Antigo Testamento prescreve que o escravo emancipado deve receber, no momento da libertação, toda a ajuda necessária para a assunção de sua plena liberdade. E o ensinamento do Novo Testamento e de São Paulo em particular, prossegue, confirma o do Antigo. Ele nos esclarece que a escravidão, “contrária a toda ordem natural”, é, com muito maior razão, oposta à ética cristã. Mas, adita ainda o reformador, a ordem da sociedade não pode ser mudada, enquanto os próprios crentes não se ajustem à Palavra de Deus de forma muito estrita, para deslanchar as transformações necessárias da ordem política. Caso contrário, esta permanece “a ordem de Deus perturbada”.83 Vê-se, pois, que o pensamento original da Reforma é completamente oposto aos costumes e hábitos de seu século e dos séculos seguintes, acerca de tudo o que se refere à escravidão e à sorte dos indígenas colonizados. Ora, esse compromisso de lutar contra a escravidão, afirmado pela Reforma, foi retomado mais tarde pelos Quakers. Estão, entre os cristãos, e especialmente entre os
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J. de Léry, Op. Cit., p. 13. Ibid. p. 208. 82 J. Calvino, commentaire sur les cinq livres de Moïse, Gênese, cap. 12, v. 5. 83 Ibid.

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protestantes, aqueles que melhor compreenderam a doutrina da ética dos Evangelhos neste assunto. Conta-se, explicam J. H. Louis e J. O . Héron,84 que à sua chegada na América, instigados pelo fundador de sua comunidade, George Fox, e estimulados por William Penn, vários desses Amigos, apenas desembarcados, se puseram em contato com os índios. Uma tradição pretende que estes lhes hajam declarado: “Sois nossos irmãos e vivemos convosco fraternalmente. Marcharemos juntos por longo caminho. O caminho será comum. Não se achará cepa alguma que possa ferir o pé.” Assim principiava, com a fraternidade dos colonos entre si e a amizade dos índios, a aventura da “Santa Experiência” dos Quakers naquela Pensilvânia, cuja importância política resumidamente se evocou mais acima e a originalidade de sua constituição. Quando a nova capital, Filadélfia, começa a erguer-se às margens do Delaware, na região precisamente onde os chefes indígenas realizavam suas assembléias, Penn concluiu com eles, em 1683, o Grande Tratado de Shackamaxon. “Se os cristãos, diz o texto constante de tradição posterior, percebem que um perigo ameaça os índios, ou se os índios percebem que um perigo ameaça os cristãos, eles correm como amigos para avisar os interessados. Se um filho de Onas (pluma, tradução indígena de Pen, em inglês) ofende um Pele Vermelha, ou um Pele Vermelha ofende um filho de Onas, o ofendido não tratará de vingar-se, mas queixar-se-á aos chefes e a Onas para que a justiça seja feita por doze homens probos e a ofensa enterrada num poço sem fundo...”85 É também conhecida, relatam J. H. Louis e J. O . Héron, a carta que os índios endereçaram a Guilherme d’Orange, em 1701, para defender a causa de William Penn, convocado à Inglaterra onde estava ameaçado de prisão. “Nós, reis e chefes das antigas nações indígenas..., escreveu-se, estamos sabendo que William Penn, nosso amigo e irmão bom e fraterno, deve, para nosso grande pesar e para a infelicidade de todos os indígenas da região, viajar para a Inglaterra, para se encontrar com o grande rei e chefes do governo de nossas terras. Urge no mínimo reconhecermos que ele foi sempre não apenas justo, mas também extremamente bom para conosco e para com nossos antigos reis e chefes...” “Além disso, ele nos comprou nossas terras, o que governo nenhum antes dele fizera. Esperamos e desejamos que o grande rei dos ingleses acolha, com benevolência e bondade, a ele e seus filhos, dando-lhes permissão de voltar para governar para sempre nossa região... Sabemos que seremos bem tratados e encorajados a continuar a viver no meio dos cristãos, na conformidade do acordo que ele solenemente concluiu conosco, para benefício nosso e de nossa posteridade, em vigência enquanto sol e lua durarem,...”. Podemos também falar “de seu sábio conselho e de suas instruções... a respeito da vida sóbria e virtuosa, o melhor meio de agradar ao grande Deus e de ser feliz, aqui e para sempre.” Este documento foi “entregue ao governador, na presença de muitas testemunhas, cujos nomes seguem, dentre os quais muitos assinaram com uma cruz...”86 Tal relacionamento entre brancos e índios na América foram excepcionais. Valia a pena deter-se aqui.
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Jeanne-H. Louis et Jean-O . Héron, William Penn et les Quakers: ils inventèrent lr Nouveau Monde, Paris, s.d. p. 47. 85 Ibid. p. 58. 86 Ibid. p. 118.

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prática admitida. todavia. Entre essa vanguarda do protestantismo desenvolveu-se muito cedo uma mentalidade antiescravista. 73 . há muito tempo já. a escravatura permanecia. “Que vossa Luz ilumine os índios. ele lutou. só foi em 1807 que obteve a abolição do tráfico negreiro. em prol da abolição da escravatura e arrastou consigo o jovem amigo William Pitt. a rainha da Inglaterra se opôs à entrada em vigor dessa lei. mormente nos famosos Estados do Sul até a Guerra da Secessão. o próprio Lincoln vencê-la-á contra os sulistas. escrevera já George Fox para as comunidades americanas. em declarar que possuir escravos era contrário à fé cristã. Com Canning. esta autora descreveu com emoção a existência dolorosa de um negro corajoso. um Quaker pediu ao governo inglês a abolição legal da escravidão na Pensilvânia. Estes chocavam a opinião pública e suscitavam veementes diatribes. fortemente representados nos meios governamentais. Puritana. as Comunas votaram “a liberdade 87 M. Desde então. contra os maus tratos para com os negros. Mas.O espírito. Imposto proibitivo. os negros e os brancos”. Na Inglaterra. Mas. que prevalecia entre os Quakers e os índios. naquele ano. Como freqüentemente ocorre. Lorde William Wilberforce conseguira entrar para a Câmara dos Comuns. p. a senhora Peecher Stowe publicou. incarnando as mais belas virtudes evangélicas. filha e mulher de pastor. acabam por ganhar a aprovação de crescente número de seus concidadãos. Contrapunha-se a costumes que eram. apesar de tudo. que sentiam seus interesses escravistas ameaçados. a Câmara dos Representantes decidiu que um imposto de vinte libras seria pago na importação de cada escravo. 87. seu pai. a intrépida autora estava habituada a esse tipo de hostilidade. Em 1712. alguns anos mais tarde. ainda aceitos. Lincoln. de fato. organização clandestina americana que se empenhava por colocar em segurança os escravos fugitivos provenientes dos Estados escravistas. Mas. Em 1758. sempre em maior número. notadamente nos Estados do Sul. que se levantavam. A data de 1852 permanecerá memorável na história do abolicionismo. elogiou a coragem “dessa mulherzinha. a assembléia anual dos Quakers reexaminou o problema e decidiu condenar radicalmente a escravatura. Dando prosseguimento a mais de um século de esforços de valentes minorias. onde se localizavam riquíssimos agricultores pouco dispostos a concordar com prejudicar seus interesses. O pastor Peecher. Sem ir tão longe. mesmo nas comunidades Quakers na América. a despeito de longo insucesso. A Cabana de Tio Tomás. Essa guerra. que dera início a uma grande guerra”87. crentes batiam-se contra os poderosos beneficiários dos interesses do comércio dos escravos. era um dos condutores do Underground Railway. L’esclavage. 1955. foi o mesmo que aquele que marcará as relações desses Amigos com os escravos negros. Paris. e mais tempo ainda nas colônias espanholas e portuguesas. Na Inglaterra. Em 1784. os pioneiros da vanguarda. Lengellé. Combatendo infatigavelmente por essa causa. no seio do governo. porém. dizia ele. ele pregava os mesmos princípios anti-racistas. Dita condenação alastrou-se nos meios protestantes. George Fox não se constrangia. conta M. depreciados pela opinião convencional dos oportunistas desprovidos de coragem e privados de imaginação. Lengellé. O incrível sucesso dessa obra suscitou muito naturalmente a cólera daquelas personalidades altamente posicionadas.

que reputam as lei econômicas como uma fatalidade inexorável: o país. “Seria porventura um progresso quimérico. evocava. enfim. envergonhei-me de ser homem. o protestante metodista William Wilberforce. lhe vislumbram a necessidade. encontram-se também antiescravistas. esses dois protestantes profetas a seu modo. Necker. tentavam fazer com que as autoridades percebessem a necessidade de uma legislação social. Também ele pleiteia. eles foram denunciados como estrangeiros a soldo da Inglaterra (velho 74 . como Diderot. E. que uma legislação universalmente aceita poderia modificar essa pretendida fatalidade econômica. para que esta seja eficaz. o ministro protestante de Luís XVI. percebia. Pertencem ao “escritório” de Mirabeau. dizia. membros da Sociedade dos Negros fundada em 1788 segundo o modelo da sociedade inglesa. mas que se confundia com seu sonho de uma nova sociedade. intervém na Câmara britânica para levantar-se contra o tráfico.civil e religiosa dos dois mundos”. citando Necker. “Vendo a quarta parte de meus semelhantes transformados em animais para o serviço dos outros. ou genebrinos refugiados por suas idéias avançadas. como Etienne Clavier. Assim. Du Roveray. Mas. colocando assim a Grã-Bretanha na vanguarda dos movimentos antiescravistas. esse pacto geral pelo qual todas as nações renunciassem de comum acordo o comércio negreiro? Posicionar-se-iam. Suspeitos. na qualidade de cristão reformado. o tempo em que poderão realizar “essas felizes revoluções”. Voltaire. De sua parte. Foi retardada por todos aqueles que. Jean-Jacques Rousseau denunciava a escravatura na Nova Heloísa. uma utopia cristã a seus olhos. argumentava como todos os economistas de todos os tempos. questiona ele. esse ardente defensor inglês da causa dos negros que se acaba de citar. desejava muito que a situação dos escravos melhorasse. precisase de uma legislação internacional (falar-se-á disso mais adiante). ele verá as Câmaras britânicas decretarem a extinção do tráfico em 1807. dizia. onde SaintPreux expressa sua indignação. a 5 de maio de 1789. como Necker. que renunciasse às vantagens econômicas proporcionadas pela escravidão. Ora. enquanto nutrem a esperança de que chegue. Necker deseja ver “abrandar-se uma escravatura considerada necessária”. uma semana depois.” E no Contrato Social. porque é unicamente a condição relativa que interessa para o cálculo das potências”. na abertura dos Estados Gerais em Versalhes. em Diálogos entre um Selvagem e um Bacharel. consciente das responsabilidades confiadas por Deus ao Estado. mas preferem manter a maior prudência. Mas. E os filósofos exaltavam a experiência idílica de William Penn. Na França. Decorridos vinte anos de luta. Necessitou-se de dois séculos de duros embates. assim mesmo. a abertura progressiva dos protestantes ao antiescravismo juntava-se às preocupações da corrente humanista do século das Luzes. um capítulo consagrado a essa calamidade termina com esse julgamento radical: “As palavras escravidão e direito são contraditórias: excluem-se mutuamente”. as qualidades do “bom selvagem” cujo bom senso o fazia prevalecer sobre o dos sábios e dos colonialistas apoiados pela realeza. notadamente protestantes exilados de volta a Paris. Etienne Dumont. perderia incontinenti sua força política. conseqüentemente sua independência. Está-se na época em que Sismondi e Legrand. para que essa compreensão das necessidades sociais fosse compartilhada por maior número de pessoas. nas mesmas proporções que atualmente existem. uma ação combinada dos Estados. umas em relação às outras. Da parte dos revolucionários franceses (moderados).

91 Ibid. mas igualmente com a situação deles após a emancipação."89 Eles se propõem. que a própria filha Albertina traduziu. A . p. op. Chega até a condenar. Sismondi Genevois et européen. enquanto nada mais é que a chave de seus próprios interesses. que faz Sismondi contra o comércio mundial desordenado dos produtos agrícolas. p. ele não nega o interesse que têm as nações. como Deus não permite de forma alguma tratar até mesmo os animais. 76. baseando-se nos sete anos de experiência abolicionista britânica para sublinhar-lhe os benefícios88. Genebra. seus semelhantes e seus irmãos. 88 89 Cf. 1991.”90 Crê-se ouvir um terceiromundista contemporâneo quando Sismondi escreve indignado: “O preço da jornada do índio livre é quase cinco vezes menor que o preço da jornada do negro escravo”91 Ora. Berchtold. ela lança um Apelo aos Soberanos Reunidos em Paris para Obter a Abolição do Comércio dos Negros. porque os meios econômicos que auferem proveitos da escravatura são poderosos e não pretendem deixar-se despojar de seus privilégios. Aí faz. observações de pertinência política que em nada perderam sua atualidade. terrível. Preocupa-se não apenas com a libertação dos escravos.. É preciso. protesta contra o direito que reivindicam os franceses. Berchtold. faz notar ainda A . 75 . p. É também admoestação de intensa atualidade.procedimento das autoridades no poder para desacreditar e eliminar os que as importunam). Madame de Staël e Benjamin Costant notadamente. denunciando o colonialismo no momento em que Napoleão tenta conquistar o Egito.. Ressalta o valor cultural humano da vinculação de uma população à sua terra. dizem. Mas. Influenciado por seus amigos de Coppet. que despersonaliza tanto produtores quanto consumidores. do novo proletariado industrial. que o negro liberto seja vinculado a uma terra mediante novos elos.” Em 1814. depois de 1798. como a França. de se enriquecerem nas costas dos indígenas colonizados. ainda depois de 1814. E a prosperidade ou a ruína dos Moluscos faz sentir sua influência até o cume dos Alpes suíços. vai mais além que eles na análise dos fatos que condicionam a escravidão. Entre os precursores da abolição da escravatura. logo aqueles que usufruem desse abuso não deixam de discriminar todos os benefícios de ordem social que dele decorrem. prossegue A . A filha de Necker. de “corromper de novo os costumes dos negros” e de “retornar aos crimes interrompidos durante sete anos com a abolição do tratado com a Inglaterra. 74. Cit.. dizia Sismondi. Sismondi publica uma brochura intitulada Da Condição na qual Convém Colocar os Negros ao Libertálos. p. É a coisa mais importante. 51 sq. contrariamente às pretensões de um comércio internacional dos produtos agrícolas. qualquer empreendimento colonial. Alfred Berchtold relata seus propósitos da seguinte forma: “Quando se propõe suprimir um abuso qualquer. abraça a causa de Wilberforce e prefacia uma de suas obras. Ainda que preocupado com “o aviltamento da dignidade humana” em todas as latitudes. Germaine de Staël. 90 Ibid. ano da morte de Wilberforce. a respeito dos economistas. diz. Alfred Berchtold. Necker. a tratar novamente “homens. “a sorte de todos os povos está ligada doravante. 75. a fim de que possa redescobrir no seu trabalho e no seu novo enraizamento o prazer e a dignidade do homem verdadeiramente livre. cumpre citar novamente o economista protestante Simonde de Sismondi. Berchtold. 92 Ibid. Essa situação igualava-se àquela.”92 Em 1833.

A despeito dos esforços das Igrejas de todas as confissões em prol da reconciliação das raças. Ela levou a Convenção a adotar um decreto sobre a escravidão ( 4 de fevereiro de 1794). defendidos por Malouet. o recente martírio do pastor Martin Luther King e de tantos outros crentes corajosos demonstra claramente quão vivo está o racismo. os Estados do Sul promoveram a separação (fevereiro de 1861).Assim. de se submeter integralmente à grande e muitas vezes funesta oportunidade do comércio. que conhecia muito bem a América e que dizia: “a desigualdade acirra-se pelo instinto nos corações. como já se observou. enquanto Bonaparte restabelecia oficialmente a escravidão em 1802. mas foi contestada cada vez mais duramente pelos senhores de escravos. Legenllé. mas definitivamente aplicada ao tempo da Revolução de 1848. É sempre verdadeira a observação de Tocqueville. p. que jamais desanimaram. as necessidades dos pobres serão satisfeitas antes que se pense nas fantasias do rico.”93 Sismondi repete em várias oportunidades que sonha ver o Haiti exportar menos açúcar e comer melhor. graças a numerosos e corajosos cristãos. 81. Cit. que despejava a maioria dos negros no proletariado. Proclamada pelo governo federal em primeiro de fevereiro de 1863. M. Para o conjunto dos Estados Unidos. Resumindo. que se devotava a mostrar as grandes vantagens que as colônias e a França podiam auferir da exploração dos negros. lá também. Convém notar que a ética reformada anti-racista foi também traída por protestantes. Op. Foram necessários quatro anos de guerra para reconduzi-los à razão. promulgada em 1817 na França. ela começará por aquilo que deveria sempre ser sua primeira destinação: os produtos do país nascerão para os habitantes do país. Esse antagonismo foi uma das causas da guerra da Secessão. Os preconceitos contra os negros não cessaram então. “a agricultura trocará de objetivo: em lugar de destinar a grande massa de seus produtos para uma exportação longínqua. no Congresso de Viena (Tratado de 1815). e isso até os dias de hoje. Mas. negros e também uma minoria branca. Foi. p.. a Inglaterra que. a revolta sangrenta dos indígenas do Haiti teve deplorável efeito sobre a opinião pública francesa e tornou o decreto inoperante. Acentuaram-se sensivelmente com as discriminações sociais introduzidas pelo desenvolvimento industrial. na África do Sul especialmente. Quando o abolicionista Lincoln foi eleito presidente da União. fosse qual fosse a confissão religiosa. vê-se que na França a ação dos filósofos e dos protestantes mencionados foi finalmente eficaz. Mirabeau opusera-se aos interesses dos escravistas. a luta anti-racista. se os antigos escravos não são mais explorados para que vivam as metrópoles. Infelizmente. de que se falou. alcançou pouco a pouco 93 94 Ibid. que nenhuma comunidade cristã se acha ao abrigo de trágicas perversões espirituais ou éticas. a propaganda antiescravista. 79. Percebe que o problema da escravidão suscita também o da distribuição eqüitativa e inteligente das riquezas produzidas. impôs às nações européias a supressão da escravatura. à proporção que esmaece nas leis” 94 . portanto. tornou-se progressivamente vitoriosa nas populações de origem protestante. 76 . a emancipação dos negros dos Estados Unidos só se consumou depois da vitória dos Nortistas. Esse fato atesta.

numa calma relativa. Uma história inacabada. Mas. A paz racial foi restabelecida. pelo papel muitas vezes determinante que nela desempenharam e ainda desempenham os protestantes. mas frágil. 12. A breve rememoração dos acontecimentos. deveria ser completada com a menção da história mais recente e igualmente vibrante das conquistas democráticas nos outros continentes. que honra aqueles que a respeitam. Ela é ilustrada. também. que não tem a pretensão de ser completo. na luta contra mentalidades religiosas hostis e muitas vezes radicalmente opostas aos princípios básicos da democracia.o sucesso. que marcaram o nascimento das grandes democracias no Ocidente. essa história é complexa. marcada por incessantes turbulências. 77 . Importa lembrar que só se trata de um sobrevôo histórico rapidíssimo e parcial. tumultuada e sobretudo inacabada. tanto negros quanto brancos.

Segunda Parte Os Protestantes e o Desenvolvimento das Sociedades Modernas Capítulo III Os Fundamentos de um Desenvolvimento Justo As observações dos autores supracitados. devem ser examinadas com maior profundidade para verificar-lhes a pertinência. especialmente na introdução. No capítulo seguinte. que demonstram de forma convincente as disparidades. de compreender como. que foram dadas por sociólogos ou teólogos. recolocar no seu contexto histórico todas essas observações. de natureza muito complexa. para elucidar essas relações. não teriam eles ocultado muito facilmente os benefícios? Convém. no plano econômico. portanto. o protestantismo influenciou a sociedade na sua evolução econômica e social. portanto. procurando compreender como eles se influenciaram reciprocamente. trata-se. questionar-se-á a natureza das relações posteriores entre o protestantismo e a sociedade ocidental. sobre o desenvolvimento econômico e social desigual das sociedades protestantes e católicas. denunciando o protestantismo como responsável por tais abusos. Todavia. particularmente em Genebra e sob a influência de Calvino em especial. antes de iniciar esse debate. nas suas origens. Depois considerar-se-ão resumidamente algumas das explicações. entre sociedades protestantes e sociedades católicas. Elogiando os efeitos incontestavelmente positivos do espírito reformado sobre o surto do capitalismo. Neste terceiro capítulo. não haveriam elas com demasiada facilidade esquecido os aspectos negativos deste último? Ou ao contrário. já identificadas no plano político. mencionar-se-ão ainda algumas observações e alguns números. para verificar se não existem matizes a acrescentar-lhes. 78 .

Estados Unidos. ao examiná-los sem preconceito.. em 1957. nove são de maioria católica”.4 Também ele se dizia chocado pelo 1 2 W. escandinavo ou germânico. Suécia. “Constatamos. Eles são tão eloqüentes que. Ibid. page économique. 79 . que os mais prósperos dos treze cantões. no tempo como no espaço. Por ocasião do septuagésimo quinto aniversário da Sociedade Suíça das Indústrias Químicas. os de renda per capita mais elevada.1 “Problema que pouco nos deterá.. 1965. o professor William Rappard. Rappard. Rappard. descobre-se que entre os dez países mais ricos do mundo. Octave Gélinier. Com efeito. o protestantismo parece favorável ao capitalismo moderno. de um lado. p.3 Alguns anos depois da publicação das observações do professor W. é o da causalidade recíproca. 3 Journal de Genève. liberal e individualista. Não se mostrou aquela. prossegue W. 6. 54. 4 Octave Gélinier. sem dificuldade. Zurique. 8. Declarando-se “absolutamente alheio a qualquer idéia de propaganda religiosa”. é extremamente raro na estatística deparar-se com igual paralelismo entre séries de números tomados de áreas tão distantes uma da outra e aparentemente tão estranhas uma à outra como a teologia e a economia política”. Não se questionará certamente se a prosperidade engendra ou atrai o protestantismo. dez são de maioria protestante.93. 1957. Paris. favorável ao desenvolvimento deste último? Um relance sobre o mapa do mundo livre. No fim da exposição. A prosperidade das sociedades protestantes e o contraste norte-sul no desenvolvimento da Europa. E “os cinco cantões mais prósperos. anglo-saxão. Les conditions de la prosperité helvétique. No “Atlas do Banco Mundial” publicado em fins de 1993. página 52.12. Dos doze cantões menos prósperos.. Dinamarca. Entre a ética racionalista. 4. Reconhecer-se-á. todos. que aliás nasceu quase no mesmo tempo que ele. parece mesmo haver muitas afinidades íntimas. excetuando-se dois (Luxemburgo no segundo lugar e Japão no terceiro). 31. e o capitalismo fundado na prosperidade privada e na concorrência. 7. que é o inverso. 9. são de tradição protestante (1. Rappard. como são todos católicos os seis cantões menos prósperos”. todos são protestantes. E o orador continua seu discurso com a observação seguinte: “Inútil analisar com mais profundidade esses números.” 2 Impressiona ver a perenidade de tais observações e constatar sua coincidência no plano regional e no plano mundial. apresentava um quadro comparativo do nível de riqueza dos cantões católicos e dos cantões protestantes da Confederação Suíça. se questionou sobre as razões da origem tardia do desenvolvimento econômico da França. Morale de l’entreprise et destin de la nation. em todas as partes.1. não demonstra com efeito que também aqui a geografia ilustra a história e parece confirmar suas lições?” “Limito-me a aventurar a opinião de que. Noruega. Finlândia). não se pode senão ficar chocado com seu ensinamento. então diretor do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais de Genebra. 5. um convidado de renome mundial. Suíça. dizia. apresentou profundo estudo sobre a prosperidade suíça. Islândia. 53. Alemanha e 10. ele se interrogou sobre as razões dessa prosperidade. um grande industrial francês. do outro.

Aí se encontram simultaneamente os postulados básicos da democracia. igualmente determinante. não foram até ao fim de sua descoberta. a mentalidade econômica.”6 Retorna-se. mas a questão consiste em saber por que. “Ora. sobretudo depois da Contra-Reforma.”5 Com as considerações de novo pesquisador católico.. o fator religioso. ensinadas à guisa de preceitos morais. parece ter sido profundamente assinalado pela marca de descendentes do ramo calvinista: os Puritanos. ao lado do fator econômico e do fator cultural. Prosseguindo sua análise. e naturalmente o Papa. E mais próspera. às observações de Alain Peyrefitte que nota que muitos sociólogos ou economistas. Op. Gélinier escreve: “Os Puritanos rejeitaram em bloco como nefasta toda hierarquia social: os reis. havia um terceiro. Quando se parte de tal experiência profissional. depois de Peyrefitte e Beauvais supramencionados. “O desenvolvimento da sociedade industrial. a leitura dos textos dos Puritanos dos séculos XVII e XVIII reveste-se de surpreendente relevância: aí se encontram com extraordinária clareza todas as idéias básicas da moderna Administração Científica. 7 A . 80 . aqui. 162 8 Ibid. liberais ou marxistas.”8 5 6 O ..7 Não perceberam que ele próprio tinha um efeito determinante. como e até que ponto ela lhes é a causa efetivamente. Menos materialistas. ainda. os Países Baixos. Cit. o gosto pela pesquisa científica e pela técnica. o preconceito antieconômico. É que. o entusiasmo dedicado à iniciativa. Op. Mas. uma organização hostil à autonomia e à inovação. também materialistas. está-se assim situado no cerne do nosso problema: constata-se que a Reforma calvinista que. Cada homem deve ser livre em suas escolhas e responsável por seu destino. como fator do desenvolvimento. só tomaram em consideração. consagrou vinte anos de vida às técnicas de organização e gestão eficiente de empresa. a Suíça especialmente. a confiança conferida aos indivíduos e aos grupos.. os bispos. Constatava que o Sul da Europa era aquela região do continente que rejeitara a Reforma e o Norte da Europa aquela onde o protestantismo penetrara profundamente. “contata-se a submissão a uma autoridade hierárquica. p. valores materiais quantificáveis. escrevia. Nos países reformados. os nobres. se acha também na origem do desenvolvimento industrial. de cada município. outros fizeram intervir o fator cultural. a autoridade administrativa. 133. Peyrefitte. a desconfiança com relação aos indivíduos e aos grupos. está no ponto de partida das revoluções democráticas e de seu triunfo sobre o Antigo Regime. A descentralização das decisões deve ser a mais ampla possível ao nível de cada homem. que esse terceiro fator é mais decisivo que os outros dois e que os domina a ambos.. Nos países católicos. continua Peyrefitte.contraste Norte-Sul dos países europeus no que tange ao nível de riqueza. viu-se. Gélinier. constata-se a ruptura com toda tutela de direito divino. O . Ademais. era aquela onde predominara a influência do calvinismo: a Inglaterra. p. parece-me. de cada empresa. corroborando as de um economista protestante. Cit. Engenheiro e economista. evoluindo com este último. fizeram desse fator cultural um subproduto do desenvolvimento econômico.134 Ibid. não perceberam que.” E prosseguia: “O autor (que julga dever esclarecer que é católico) não se arroga conhecimentos apurados em matéria de teologia.

mesmo quando promovida a sua justa posição com relação aos outros. A Palavra de Deus proclamada. E esta diferença de acolhimento determina o comportamento dos homens e molda o destino das sociedades. tais variantes. Jesus de Nazaré. Esta vocação. E graças à ação do Espírito divino (ou Espírito Santo). esquece que por trás e à frente do fator religioso. para tornar-se o que é hoje. no mistério de sua incarnação. Ora. vivida ou deformada. então. É que sua relação com seu Criador está atualmente desnaturada. o que é primordial nesse conhecimento proporcionado pela cultura cristã. é que Deus não cessa de procurar retomar uma relação pessoal com o homem. isto é.Mas. se a reconhece e aceita. uma vida nova. e. Mas constatar. Alguns princípios fundamentais na origem de um desenvolvimento econômico justo. com seus benefícios e seus malefícios. e sob quais influências. aquela que só Deus lhe pode revelar. de outra parte. que Deus dirige a cada indivíduo. está a qualidade do fator espiritual e teológico. para manifestar-lhe seu amor e restaurá-lo na dignidade e identidade primitivas: as de uma criatura outrora criada à sua imagem. Enfim. o impacto que ele tem sobre a sociedade. O fato supremo da cultura e do conhecimento que o cristianismo revela à humanidade é. Vai-se. O que importa assinalar é que a maior parte dos sociólogos. isto é. a questão de saber qual foi a contribuição exata e original da Reforma para esse progresso e como este desenvolvimento econômico evoluiu. esse mistério da natureza humana e de sua relação com Deus é esclarecida. Põe-se. também aqui. 2. e modificar. podem instilar-se em toda a cristandade. é preciso ir mais longe ainda na análise deste fator religioso. suscita nele. mais ou menos radical conforme os lugares. O que foi dito para entender os fundamentos da ética política deve ser resumido. e isso na pequena cidade onde se desenvolveu o calvinismo original. para o bem ou para o mal. segundo sua verdadeira natureza. vida que deve recriar-se diariamente na comunhão com Cristo. que o homem é uma criatura maravilhosa dotada por Deus de capacidades notáveis. começar examinando quais são os efeitos sociais do Evangelho novamente proclamado pela Reforma. pois. que tal desenvolvimento assumiu no curso dos últimos séculos a forma do capitalismo liberal contemporâneo. Deus tornou-se acessível a todos mediante a adoção da existência de um homem como os outros. pode ser acolhida ou negligenciada. e portanto também no protestantismo. ver-se-á. para restituir-lhe sua natureza original e para conferir sentido a sua existência presente. constatar que os protestantes foram os artesãos do desenvolvimento econômico ocidental. é incapaz também de discernir verdadeiramente o que lhe benéfico ou não. Conseqüentemente. Este é por excelência determinante. Além disso. que ele se tornou incapaz por si próprio de conhecer-se verdadeiramente. De fato. de uma parte. é uma coisa. 81 . como foram nas origens das grandes democracias. no curso de sua história. aquilo que é mau segundo Deus. para compreender os riscos da vida econômica. difundida pelo Evangelho. também. entre os quais se inclui Peyrefitte. em seguida. é outra coisa.

Ora, o Evangelho afirma que esta vocação é universal. Dirige-se a cada ser humano sem exceção. Fundamenta sua dignidade perante Deus, mas dela decorre também sua responsabilidade inalienável, quer perante ele próprio quer perante os homens, no que tange à sua fé tanto quanto à sua conduta. Dessa vocação essencial provém a igual dignidade intrínseca de cada indivíduo na sociedade, fundamento da solidariedade. O reconhecimento dessas verdades básicas do humanismo cristão tem importância tanto para a construção da democracia política quanto para o desenvolvimento de uma vida econômica justa para cada indivíduo. Cada ser humano deve poder usufruir de direitos iguais, com a liberdade de dedicar-se à atividade criadora. E seu trabalho produtivo deve exercer-se na solidariedade, o que determina que a liberdade seja domada em favor de uma justa redistribuição (mas não estritamente igualitária, obrigatoriamente) das riquezas produzidas, já que estas foram elaboradas a partir de recursos gratuitamente postos por Deus à disposição de todos. De acordo com um dos pesquisadores católicos já citados, O . Gélinier9, foram esses dois princípios fundamentais do cristianismo original e reformado, a responsabilidade e a igualdade individual, que tiveram um efeito revolucionário para transformar a sociedade herdada da Antigüidade, tradicionalmente autoritária e hierárquica. Pois, desses dois princípios decorrem as duas conseqüências sociais seguintes: “O homem, escreve, todos os homens, se torna o fim da sociedade e a satisfação das necessidades de todos os homens deve constituir o fim da economia.”10 A economia tem, portanto, por finalidade não apenas a satisfação das necessidades quitáveis, mas também a das necessidades essenciais de cada um, a solidariedade sendo tão importante quanto a produtividade. Estes são alguns dos preceitos evangélicos supremos traduzidos em termos econômicos e sociais. Em conseqüência de desvios do cristianismo e da sociedade medieval, que haviam reassumido numerosas características da sociedade pagã antiga, a vida social afastou-se dos princípios fundamentais do cristianismo. O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o trabalho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da Antigüidade, foi todavia considerado como uma necessidade temporal desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e banqueiros, eram particularmente desconsiderados. “Então, os lombardos, escreve ainda Gélinier, inventores geniais da contabilidade moderna e banqueiros eficientes, são isolados nos guetos e condenados por usura”.11 O próprio Erasmo, o mais humano dos humanistas cristãos anteriores à Reforma, mostra-se cheio de comiseração por essa categoria da sociedade. “Os mais loucos e os mais desprezíveis atores do teatro da vida humana, escrevia, são os negociantes: nada mais baixo que sua profissão e eles a exercem de forma vil”.12 Ora, tais concepções correspondem à visão de uma sociedade estática e hierárquica. “O princípio hierárquico, prossegue Gélinier, herdado do império romano que havia este assimilado das tiranias orientais, é adotado para base da organização social, com seu corolário: a
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O . Gélinier, Op. Cit., p. 133 e seguintes. O Gélinier, Op. Cit., p. 127. 11 Ibid. p. 128. 12 Citado por O . Gélinier, ibid.
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eliminação da concorrência”. E, “na lógica de uma sociedade hierárquica e estática, os bens adquiridos, que se usufruem sem esforço, são considerados nobres e preservados; enquanto as riquezas novas, criadas com esforço, são menosprezadas e muitas vezes espoliadas”. Para redescobrir e redignificar os princípios supremos do cristianismo original, foram necessários os duros e prolongados combates que precederam e acompanharam a Reforma.13

3. A luta clássica entre conservadores e inovadores na sociedade e na Igreja. Como, neste contexto pré-industrial, o poder dominante está estreitamente associado à posse dos bens adquiridos e conquistados de longa data, os bens terrenos sobretudo, aqueles que partilham esse poder lutarão asperamente para conservá-lo contra as pretensões dos novos atores econômicos da sociedade, os negociantes e financistas recém-enriquecidos, porque estes reivindicam por sua vez um lugar dominante na comunidade. Pretendem muito naturalmente conquistar esse poder, já que se tornam os novos detentores de bens, os novos ricos, e porque os diversos componentes desse poder, as forças econômicas, políticas e religiosas, têm tendência marcante para se concentrarem nas mesmas mãos. É no íntimo desse conflito de poder que a Reforma vai atuar. Estamos naquele estágio da evolução do Ocidente tão bem caracterizado por Alexis de Toqueville, que não fala de luta de classes, mas que se contenta com descrevê-la, observa O . Gélinier, no momento da emergência da burguesia enriquecida do fim da Idade Média. “Os reis arruinam-se com os grandes empreendimentos, escreve Tocqueville, os nobres esgotamse nas guerras particulares, os plebeus enriquecem nos negócios. A influência do dinheiro começa a fazer-se sentir nos negócios do Estado. O negócio é uma nova fonte que se abre para o poder e os financistas se tornam um poder que se menospreza e se bajula.”14 Importa precisar, todavia, que a preeminência nessa ascensão não será apenas aquela dos ricos. Será também obra de novas camadas, modestas mas dinâmicas, da população, graças ao restabelecimento do prestígio, pela Reforma, dos antigos princípios cristãos reunindo a responsabilidade individual e a solidariedade social, graças especialmente aos reformadores sociais como Bucer em Estrasburgo, Zwingli em Zurich, Nicolas Manuel em Berna e Calvino em Genebra. Esses dois princípios dificilmente mantêm-se em equilíbrio, como evidencia-lo-á a seguir a história do capitalismo primitivo, propenso a privilegiar o individualismo libertário às custas de seu indispensável corretivo, a solidariedade social. Ou como ilustrá-lo-á, também, a história dos diversos

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O . Gélinier, ibid. p. 129. A . de Toqueville, De la démocratie en Amérique, citado por Gélinier, Op. Cit., p. 130.

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socialismos, invertendo as prioridades, a solidariedade esmagando por vezes a liberdade indispensável para o exercício da responsabilidade.

4. As novas dimensões do mercado. Da ética individual à ética social. A primeira forma do capitalismo ocidental em rápido processo de desenvolvimento foi o capitalismo comercial.15 Uma acumulação de capitais fizera-se necessária para quem queria comprar, transportar e estocar grandes quantidades de mercadorias. Esse desenvolvimento dos negócios era decorrente da prodigiosa ampliação dos mercados, provocada pelas grandes descobertas. O audacioso desafio de Martinho Lutero, em 1517, sucedia de poucos anos apenas à ampliação brutal do horizonte ocidental, provocada por Cristóvão Colombo. A atração prodigiosa das novas riquezas e o deslocamento das vias do comércio à longa distância pelo Atlântico causavam efeitos de concentração, financeira inicialmente, e depois, mais tarde, industrial. Criava-se assim, entre os homens, tipo absolutamente novo de relações sociais e econômicas: as relações a longas dimensões. Outrora, os agentes econômicos mantinham, na maioria dos casos, relacionamento direto uns com os outros: o comprador abastecia-se diretamente junto ao artesão, o consumidor junto ao produtor. Na nova sociedade, os comportamentos econômicos do indivíduo repercutem sobre uma cadeia de intermediários, que tendem cada dia a expandir. Uma rede de relações nova estabelece-se entre os homens que, à longa distância, no espaço assim como no tempo, molda seus destinos. A concentração da produção nas manufaturas, e depois mais tarde nas indústrias, vai produzir, entre outras transformações, a multiplicação daquela classe social que os alemães denominam de “der Vierte Stand”, o quarto estado, abaixo dos burgueses do Terceiro Estado, e que devemos alcunhar, por carência de melhor terminologia, de proletariado. Ora, nestas relações curtas entre agentes econômicos da antiga sociedade artesanal, o valor moral individual do trabalhador desempenhava papel importante no cálculo do preço dos serviços que ele prestava. Estava, portanto, nas possibilidades de cada indivíduo melhorar sua situação pela qualidade do seu trabalho, de sua iniciativa, de suas habilidades pessoais. E no interior dos enclaustramentos corporativos, o trabalhador detinha de alguma forma poder de disposição sobre seu trabalho. Não é a mesma coisa, à proporção que se estabelecem relações mais longas. O novo capitalismo não mais remunera segundo seus méritos os indivíduos, que oferecem seus serviços ao longo da cadeia de produção ou de distribuição. Não os conhece. Fixa os salários unicamente em função da massa de trabalhadores disponíveis, sem levar em conta suas qualificações morais, pessoais, nem suas necessidades vitais. Os salários são fixados, em primeiro lugar, pela lei da oferta e da procura no mercado e não mais em função da qualidade do trabalhador, pelo menos no que diz respeito à massa crescente de proletários, transformada na “classe mais numerosa e mais pobre”, como a denominará Buchez. A antiga escala de valores, que atribuía a miséria à preguiça e a prosperidade à virtude, vai perder progressivamente todo o sentido, à medida que se alonga a distância
15

Cf. nota 23, p. 39.

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Tal processo do anonimato só fez ampliar-se no curso da história industrial ocidental e caracteriza hoje as relações mundiais. que escapou a tal equívoco. 85 . à política econômica. os crentes não compreenderam a importância e a dimensão dessa exigência. E quando o movimento ecumênico. entre o capital e o trabalho.entre aquele que paga o trabalho e aquele que o realiza. nem dimensionaram o alcance de tal modificação. À ética tradicional adicionou dimensão social e política perfeitamente adaptada às proporções do novo capitalismo. portanto. sem se preocuparem com as estruturas da sociedade. não 16 17 Cf. esforçar-se por discernir os efeitos à longa distância de sua conduta no interior desses mecanismos anônimos. O que se mostra excepcional nele é que. Um profeta da era industrial. incessantemente mais numerosas. Arthur Rich. E essa irresponsabilidade política e sócioeconômica de tantos crentes acentuou-se com a boa fé com que se dedicavam. deve agregar-se uma ética social. que se propõem conformar sua vida inteira às exigências e aos compromissos do Evangelho. que se tornara incontornável para todo cristão consciente. Refugiaram-se com demasiada facilidade numa piedade e numa moral estritamente individuais. deverão. Os cristãos. uma atitude consciente de natureza política. E a ética social concerne. em virtude de sua ignorância. desatualizados em relação a sua nova vocação. mecanismos econômicos sobre os quais agirá cada vez menos a ética individual e cada vez mais as decisões tomadas por representantes de poderes financeiros anônimos: precisamente os das sociedades anônimas. p. muitas vezes. note 23.16 5. Genève. contemporâneos e também da maioria dos teólogos e moralistas cristãos dos séculos subseqüentes. ao contrário de seus predecessores. sobretudo. À ética individual. Ethique économique. esse aspecto novo das relações distantes entre os diferentes atores econômicos. o COE e as Igrejas começaram a imiscuir-se nessa problemática. que determinam clandestinamente a sorte dos indivíduos e muito particularmente a das categorias sociais desfavorecidas. escreve Herbert Luthy.17 “A grande ruptura com a doutrina social medieval da Igreja Católica. ele discerniu. 1994 (traduzido do alemão). A passagem da ética individual para a ética social exige. que exige reflexão sempre muito atenta para a complexidade dos mecanismos. o fator quantitativo predominando amplamente sobre o qualitativo. de maneira profética. às vezes. tanto local quanto mundial. Ver-se-á que. que se tornaram cada vez mais opressivas para a grande maioria das pessoas. à qual são de hábito sensíveis. Ora. destarte. muitos desses cristãos. portanto. mas totalmente ineficazes para corrigir-lhe as causas. João Calvino é um dos raros teólogos da época moderna. É essa carência que em parte motivou a desafeição crescente do mundo operário para com as Igrejas e sua crescente aposta nas ideologias e na ação revolucionária. particularmente entre os países ricos e os países pobres. O proletariado será mergulhado numa miséria que escapa a toda preocupação ética da parte dos empregadores. capazes de suavizar um pouco os efeitos da miséria. entre o Ocidente e a maior parte do Terceiro Mundo. 39. Desenvolver-se-ão. à realização de obras de caridade freqüentemente notáveis. Cf. ofuscaram-se com essa atitude.

mas não necessariamente. é também absolutamente verdadeiro que. A ética 18 19 Herbert Luthy. Como toda a ética do reformador. Não cessou de insurgir-se contra as injustiças de uma liberdade econômica sem compensação social e esforçou-se por corrigir-lhe os efeitos nocivos. A intervenção legislativa do Estado no domínio econômico é. Vão-se examinar alguns aspectos da ética equilibrada da Reforma nessas matérias.ocorreu com Lutero. como um teólogo que estimulou o desenvolvimento do liberalismo econômico. de sua atividade. A legitimidade de tal legislação fundamenta-se na vocação providencial do Estado. base do atual capitalismo liberal. abandonarão a economia sem reservas às forças do egoísmo individual e social que a desfiguram. a suas próprias forças. n0 2. p. ele insistiu muito nos corretivos sociais.19 6. portanto. 39. Com a Reforma. Calvino é muitas vezes considerado. que pode confirmar. A via social não poderia ser abandonada a ela própria. porque dita liberdade corresponde a aspecto importante da vocação. Naqueles tempos. que devem beneficiar a livre iniciativa. corolários da fé deísta. É uma ética teológica. Essa fé no progresso espontâneo da humanidade caracterizará a ideologia do liberalismo integral assim como a dos diversos socialismos. como muitas vezes se ressaltou. não sem razão. 86 . reflete-se a partir de uma visão bíblica da sociedade.desde que ele seja consciente dos deveres e dos limites de sua missão . sem intervenção ética corretiva. embora de maneira demasiadamente simplista às vezes. capaz de proteger os fracos e os pobres contra os abusos sempre possíveis dos fortes e dos ricos. mesmo legítima. Genebra. próximos ou longínquos.”18 Ë absolutamente exato que. a ética natural. Calvino valorizou a livre iniciativa.para frear e reprimir os abusos do homem natural. diante de um capitalismo em via rápida de emancipação de toda coerção moralmente fundada. nota 23. por outro lado. na visão bíblica das realidades sociais. pois. para evitar os abusos sempre sedutores da liberdade. Cf. por conseguinte. deve-se a bem da verdade dizer que ele é. Os parágrafos que seguem são resumo muito sucinto dos numerosos trabalhos consagrados a esses problemas. espírito sistemático formado na jurisprudência e erudição humanista. um princípio conforme à ética social que foi adotada desde o início da Reforma. 31. também. indiscutivelmente o ancestral do cristianismo social. a Providência divina serve-se do Estado . Deu evidência à necessidade de legislação social rigorosa. que Deus dirige a cada indivíduo pelo exercício de um trabalho particular. mas de forma definitiva com Calvino. sempre inclinado a enriquecer-se sem preocupar-se com os efeitos perversos. a ética do trabalho baseia-se. essa vocação específica do Estado não repousa ainda numa ideologia profana. p. Se. Mas. somente em parte com Zwingli. estadista de uma república urbana. 1963. Em verdade. capaz de desfigurar-lhe o sentido. em Cahier Vilfredo Paretto. a de uma humanidade atualmente desnaturada. A ética calvinista do trabalho. otimista e determinista do século das Luzes. É só mais tarde que as ideologias profanas do progresso.

I. Todavia. Pode mesmo fazer dele seu Deus. Esse é o significado do dia de repouso. o sentido de sua vida inteira. Se proporciona ao trabalhador um descanso físico e psicológico desejado. de forma autônoma e egoísta. a saber. para escutá-lo. do trabalho alheio e particularmente dos frutos do trabalho daqueles que por ele são remunerados.. um como o outro.evangélica destina-se a servir de referência aos seres humanos para ajudá-los a discernir o bem e o mal. com a comunidade dos crentes. Não poderia aspirar à sua sagração. faz-se preciso que o homem restaure sua situação perante Deus. Faz-se necessário que se associe de novo. isso é uma feliz conseqüência. desligado da ordem de Deus que lhe confere seu sentido e sua dignidade. o prolongamento do trabalho que o próprio Deus empreende para a manutenção de suas criaturas. o sabá a que alude um dos dez mandamentos da Lei de Deus (Gênese. retornar às fontes e reencontrar. como bem lhe apraz. a fim de permitir que Deus opere neles”. pessoalmente. T. Degrada-se ao ponto de não ser considerado mais que simples mercadoria.”20 Ora. É necessário que silencie diante d’Ele. VIII. assim. postas por ele gratuitamente à disposição delas. para o bem de todas as suas criaturas. O que se faz mister. devem repousar de seus próprios trabalhos. para isso alcançar. É a resposta à vocação que este Deus lhes dirige para que elas se utilizem das riquezas da criação. Não é o essencial. Paradoxalmente. Assim. “Os fiéis. E “agir é. atém-se ao fato de que ele é. por causa de sua natureza desnaturada. a obra humana resta. c. esse trabalho pode transformar-se em servidão. par. maldição. É o dia da santificação. para que o trabalho recupere seu sentido original? Urge que seja novamente considerado como serviço e reconhecido como tal. E para tanto. aderir em todas as coisas à ação de Deus. fonte de sofrimentos e lágrimas. do bem de seu próximo. Para que reconquiste o justo sentido de sua existência e de seu trabalho. 87 . escreve Calvino. Institution chrétienne (1560) t. necessário. mas um efeito secundário. O dia do repouso foi instituído para permitir a cada indivíduo reencontrar-se com Deus. Epître aux Colossiens. Quem a executa assume toda a responsabilidade perante Deus e perante os homens. E pensa naturalmente que pode dispor igualmente. E é preciso que associe igualmente a essa obra divina seu próprio trabalho e o dos outros. obra profana. c. como o destacarão os economistas do século XIX. porque bem e mal lhes são igualmente naturais. de certa forma. essa tomada de posição do homem diante de Deus só é possível pela mediação de Cristo. o repouso humano não possui valor em si mesmo. 28 e Commentaire N. com sua dignidade. por conseguinte. Assim. da marcha espiritual. a fim de readquirir nova comunhão com Deus. motivada e estimulada por seu amor. pela qual cada indivíduo é convidado a reencontrar sua verdadeira identidade de criatura de Deus. v. portanto. Crê poder dispor de seu trabalho como bem lhe parece. e particularmente de seu trabalho. c. para si mesmo e para os outros. porém. quando em conformidade com o desígnio de Deus. II. o homem deve entrar na comunhão com Deus pelo caminho que lhe abre 20 João Calvino. 10. à obra espiritual que Deus persegue incansavelmente no mundo. o homem deve parar momentaneamente de trabalhar. 20). A dignidade do trabalho humano. e tornar-se. pois. o homem despreocupa-se da glória de Deus e. A despeito dessa eminente dignidade.

por isso. pelo espírito de Deus. age sempre no contexto de uma história concreta e evolutiva. como se pode constatar por vezes (examinar-se-á esse assunto). é obra pela qual o homem se realiza correspondendo à vocação que Deus lhe dirige. 10. na comunhão com aqueles que buscam em conjunto a renovação de sua existência. mas dinâmico. Fazem dele um valor em si. Aliás. 88 . Só desse modo pode tornar a ser uma obra em conformidade com o desígnio de Deus e restabelecer entre os homens relações sociais justas. escreve Calvino. Ao contrário. E essa santificação opera-se na comunidade dos fiéis. ou mesmo sociedades de origem calvinista. ao relacionamento entre senhores e súditos. assim como a preguiça. de maneira flexível. Commentaire N. Já que o trabalho. Calvino. também nas trocas comerciais e financeiras. (Mas estes não constituem objeto das reflexões desta obra. apartado de suas raízes espirituais e da ética que delas deriva. Porque Deus.21 É. v. a ociosidade é vício que corrompe sua humanidade. 3. (remunerado ou não). como o liberalismo integral ou o marxismo. passar pelo arrependimento e deixar-se santificar. T. quando autêntica.22 Ei-nos novamente bem distantes tanto dos usos da sociedade feudal anterior à Reforma quanto dos que prevaleceram em seguida nas sociedades onde floresceu o 21 22 J. detentoras de seu verdadeiro significado. A espiritualidade cristã. É contemplação do agir de Deus. não é pois fuga na interioridade. pois. é um equívoco censurá-lo de haver instituído a religião do trabalho. restaurar. que obriga cada indivíduo a adaptar-se às circunstâncias.. “A bênção do Senhor. É necessário. que Calvino conferiu ao trabalho sua dignidade. entre empregadores e empregados. no trabalho e na cidade. que convoca o homem ao trabalho. c. 7. Eis porque o mandamento bíblico da santificação do dia do repouso faz menção às relações do trabalho. Descreve esses “ociosos e inúteis que vivem do suor alheio e não prestam contribuição alguma para ajudar o gênero humano”. que quer ser especialmente o árbitro das relações humanas. Assim. Ibid. A ociosidade. vieram a ceder a essa extravagância. consideram o trabalho sem levar em conta o sentido que Deus lhe empresta. sob a ótica calvinista. as situações novas. Acrescentemos que esse sentido do trabalho não é estático. em termos modernos. que Calvino denuncia a culpa dos que obtêm suas posses do trabalho alheio sem proporcionar à comunidade trabalho pessoal. com toda justiça. é porque adotaram ideologias profanas que.Cristo. Se protestantes. O repúdio ao trabalho. somente dessa forma o trabalho cotidiano pode readquirir seu significado e reencontrar sua qualificação. é apelo para enfrentar. isto é. está nas mãos daquele que trabalha. Mas. uma forma de ruptura com ele. serviço real. significa para o homem a negativa de corresponder à expectativa de Deus. É certo que a preguiça e a ociosidade são malditas por Deus”. A vocação de Deus não enclausura o cristão em atividade imutável.) Pode-se por isso dizer. entre patrões e operários. II Thessaloniciens. entre os que fornecem o capital da empresa e os que executam o trabalho. autônomo. como também em todos os demais domínios da vida. o desemprego e os lucros abusivos.

É por isso que. que prevaleceu mais tarde na ideologia profana do liberalismo integral e dos economistas sem imaginação. isto é. escreve Calvino. pela qual o homem se realiza na obediência a Deus. do ponto de vista desta ética. Sempre em função de seu significado espiritual e ético.”. independente da busca de justa solidariedade entre os parceiros sociais.. Que nessas sociedades alguns trabalham demasiadamente.25 Então. pelas mesmas razões teológicas relacionadas com o valor do trabalho. que eles não sejam onerados imoderadamente. ele nos ordenou trabalhar. 1-4. o desemprego não pode ser tolerado. subtrair-lhe um pouco a vida. se a liberdade é indispensável ao exercício da vocação para o trabalho. os quais empregam pessoas pobres. c. 25 Ibid. Sermon CXLII sur le Deutéronome. Interveio constantemente junto às autoridades. “Então. todos os atores da economia. já que Deus lhes depositou assim a vida em suas mãos. por uma lassidão social tolerante demais com os preguiçosos. o trabalho de cada indivíduo deve ser respeitado e não é lícito dele retirar lucro abusivo. eis um indício grave do esquecimento da ética cristã ou do desprezo por ela. Já que o trabalho é essa obra indispensável. que se tornava ameaçador quando os refugiados estrangeiros afluíam para a cidade de Genebra. Não imaginavam. Foi em razão de suas insistências que o Pequeno Conselho. Sermon CXXXVII sur le Deutéronome.23 A ética reformada do trabalho ordena. não pode ser encorajada. enquanto outros são reduzidos ao repouso forçado. tanto para eliminar a ociosidade quanto para combater o desemprego. v. c. Privar o homem do seu trabalho é verdadeiro crime. Preconizavam a intervenção moderadora do legislador para melhor distribuição de bens em função da conjuntura. J. escreve ainda Calvino. mas possam prosseguir no seu trabalho e nele tenham oportunidade de dar graças a Deus”. Tal ética estava na origem das múltiplas intervenções de Calvino e de seus colegas na luta contra esse flagelo. nem admitido como uma fatalidade. inerentes a sua vocação. E a ociosidade. portanto. Calvino. 24. mas não as recompensam pelo seu trabalho”. de certa forma. 1 a 6. Sabe-se com que vigor Calvino se esforçou em pôr em prática o ensino espiritual e ético que ele ministrava cotidianamente. no seu trabalho. 89 .24 Deus quer “corrigir a crueldade que existe nos ricos. essa liberdade não pode ser considerada isoladamente. O trabalho é eliminado? Então a vida humana é aviltada. o desemprego é uma calamidade social que deve ser combatida com o máximo vigor. que nos cabe tratar com tal humanidade os que cultivam a terra para nós. ação social eficaz para prevenir o desemprego e intervir em benefício de suas vítimas.” “Sabemos que toda a renda de todos os artesãos e operários decorre de poder ganhar a vida. É. preocupada com o próprio trabalho e com o alheio. que a ética cristã combate. também.. tampouco. que Deus dirige a toda a pessoa humana. Para eles não estava em discussão abandonar-se à filosofia do “laisser-faire”. que o Estado devesse assumir a função econômica: isso equivaleria a subtrair aos indivíduos suas responsabilidades e iniciativas. um dos conselhos da cidade. “Deus nos ensina. privá-los dos bens necessários é como degolá-los”. 25. Calvino. 23 24 J.capitalismo primitivo ou selvagem. “Se bem que recebamos nosso alimento da mão de Deus. v.

O conceito reformado do salário. O salário humano retira seu significado de uma analogia com a recompensa que Deus concede ao homem por suas obras. Mateus. 26 Ler-se-á com interesse sobre esses assuntos a recente obra de Liliane Mottu-Weber: L’économie genevoise de la Réforme à l’Ancien Régime: XVIe-XVIIIe siècle. sem qualquer outra consideração ética. 90 . mas por amor. um dom a partilhar. o produto do trabalho não pertence. Além disso. que o dono do trabalho possa dispor como bem lhe aprouver. Patrões e empregados são em conjunto e igualmente devedores de Deus. ambos sócios na atividade comum. Tudo o que recebe um ser humano é devido à graça de Deus. Dando ao trabalhador a remuneração de seu trabalho. por mais profano que seja. De fato. não por obrigação. escreve Calvino. Devem. Remunera suas obras. Deus nada deve a ninguém”. 1990. 1. “Por sua bondade gratuita. 20. Expressa de forma visível a intervenção de Deus em favor da frágil existência humana. como a tecelagem. o salário se reporta à obra de Deus.”28 O salário humano concedido a todo o trabalhador é. Disso decorre que não se trata simplesmente de regular-se pela lei da oferta e da procura. aqui como alhures. por pura misericórdia. em seguida as manufaturas de tecidos de seda para criar assim novos postos de trabalho e absorver o desemprego. mas levando em conta a contribuição inicial e a responsabilidade de cada um. repartir esses frutos de comum acordo. dono do que produz em conjunto com os outros. E assim é mais notadamente. é sua orientação espiritual que importa observar. a propósito do salário. ela depende unicamente de seu amor. sozinho. mais ao patrão que ao operário. Assim. 28 Ibid. O produto permanece sinal concreto da graça de Deus. Deus não está absolutamente obrigado a pagar-nos salário algum”. Genebra. Calvino. porque esse salário é o sinal da graça de Deus. o dono nada mais faz que transferir ao próximo aquilo a que este tem direito da parte de Deus.T. c. E mesmo que tal ética jamais haja sido aplicada à letra.estimulou a criação de novas indústrias. porém. escreve ainda o reformador. sem mérito maior para uns ou outros. A negociação é um princípio social superior.26 8. o qual lhe é devido mesmo sem a remuneração. “Falando com propriedade. a expressão tangível do salário gratuito e imerecido com que Deus privilegia a obra de cada indivíduo. que deriva diretamente do fato de que nenhum ator econômico é. segundo os dons que receberam e puseram em atividade. 27 J. aluga nosso trabalho. deve ocorrer. não pode ser considerado como favor. Por causa desse significado espiritual e ético conferido ao salário.27 Na sua bondade. portanto. livremente. Em conjunto. ainda.. v. portanto. A negociação. É sempre a partir de considerações teológicas particulares que Calvino define uma ética concreta. É ele que provê gratuitamente a sustentação da vida. recebem o produto como a recompensa providencial de seu esforço. Commentaire N. Deus não larga suas criaturas sem lhes dar o que lhes é necessário para viver. “Qualquer obrigação de que nos desincumbamos. portanto. oferece-nos salário.

ou por violência ou força.29 Destarte. clama vingança aos gritos. particularmente quando a conjuntura é adversa para os trabalhadores mais fracos. Mas. precisamente estas não podem ser as únicas que devem ser levadas em conta. essa maldade tão absurda é muito comum. apesar disso. 5. caracterizado por alta generalizada do custo de vida. muitas vezes. Estes estão desprovidos de tudo. quando estes não têm onde empregar-se. 29 30 J. usamos de tal maldade. É que existem muitas pessoas que possuem temperamento tirânico e pensam que a humanidade foi feita somente para eles. v. o reformador constata que Deus está atento às reclamações dos trabalhadores espoliados: ele não se esquece dos empregadores que abusam deles. ou por fraude. 24. suprimindo seu direito a associação. tomou medidas para regulamentar a atividade gráfica. embora contra a vontade. porque precisam. 14-18. como na maioria dos países vizinhos. São Tiago afirma que o salário grita. Impõe-se especialmente levar em consideração as necessidades e a dignidade de todos os parceiros. a fim de que saibamos que as maldades. Advieram perturbações sociais. Calvino. dirá o rico. pois. Genebra evitou as greves que perturbaram Lion e Paris naqueles tempos. há sempre crueldade. J. Essa paz social. Tiago c. escreve Calvino. Devem ser complementadas e corrigidas de acordo com essas referências espirituais e éticas. o proletariado. Sermon CXL sur le Deutéronome. tê-los-ei por um pedaço de pão. do que fazer morrer de fome e de miséria os que nos fornecem o pão com o seu trabalho? E.30 Ainda nessa matéria. para prevenir qualquer rebelião. de se renderem a mim.9. o que é justo sob o aspecto da ética está. a população atravessava período difícil. em matéria de remuneração. o Conselho. 4. e lesamos um pobre”. de comum acordo com os representantes da profissão. porque tudo o que os homens retêm em seu poder. É que a cupidez ameaça sempre perverter as relações sociais. Commentaire N. v. contribuiu para a recuperação da economia de Genebra e para seu desenvolvimento rápido em comparação com as economias vizinhas. o Conselho. c. proibiu a reunião de trabalhadores. Espreitam as ocasiões favoráveis para reduzir à metade os salários dos pobres. T. Sob a iniciativa dos pastores. Os assalariados menos aquinhoados. Àquela época. entre os gráficos principalmente. Faz-se imperioso observar o que acrescenta: o grito dos pobres chega até os ouvidos de Deus. Os salários não acompanhavam essa elevação. Calvino não ignora as regras do mercado. conquanto não tenhamos negado o salário. Em 1559. distante do que é a norma no mundo econômico. Por certo. “com que maior violência se pode deparar. Contra a exploração dos trabalhadores. Dar-lhes-ei meio salário e têm que contentar-se. que lhes são feitas. Quando. “Eis como muitas vezes procedem os ricos. não ficarão impunes”. De fato. Sem que nem por isso recomende a revolução dos assalariados explorados. Graças a essa intervenção e à ponderação dos interessados. obtida mediante a negociação entre todas as partes. entraram em agitação. escreve. Calvino interveio junto aos seus colegas para que a ética da justa remuneração fosse aplicada na sua cidade. Calvino.. 91 .

Os açambarcadores e os especuladores. torna-o dessa forma dependente do trabalho e dos serviços alheios. Assim pois.. a livre troca. que manterão seus armazéns fechados: é como que se degolassem os pobres. Nenhum deles pode bastar-se. Já que Deus convoca cada indivíduo para uma missão particular. As trocas são por conseguinte indispensáveis para que se realize a ordem social harmoniosa que Deus quer ver reinar entre os homens. v. Calvino denunciou com vigor tais práticas especulativas. dizia. mas sob a 31 32 J. Amos. a liberdade do comércio. Cada indivíduo é dependente dos outros. Desse modo expressa-se a solidariedade que liga os homens entre si. Calvino. J. Nas situações de penúria e de açambarcamento. É pouco provável. proclama com intrepidez profética. 35. se estão em conformidade com a vontade de Deus. o cristianismo reformado o reabilitou inspirando-se uma vez mais no ensinamento bíblico.10. O comércio por conseqüência é o corolário da vocação individual para um trabalho particular.32 Portanto. o homem desnaturado inclinase a falsear esse tipo de relações econômicas. “Quando não mais se pode comprar nem vender. Enquanto a sociedade medieval menosprezava o comércio. Leçons sur le douze petits prophètes. 19. as trocas somente são úteis. os negociantes estocavam os bens de primeira necessidade para lucrar com a alta dos preços. quando os esfomeiam desse modo”. reciprocidade de serviços. A fraude e a desonestidade insinuam-se nas trocas e desnaturam-nas. tais quais foram feitas. Calvino. diz Calvino. Lévitique. “Hoje. por todos os meios artificiais. causando-lhes a raridade e aumentando destarte os lucros. v. Certa divisão do trabalho está. 5. Mas. porém. individual. E tal solidariedade implica troca permanente entre os indivíduos. portanto. que Calvino tenha aplicado essas observações. que reduziu o homem a simples máquina. explica Calvino. resposta a uma vocação personalizada. Ela manifesta a interdependência de suas criaturas e acentua a utilidade dos vínculos que a atividade econômica tece na sociedade. um controle de preços é indispensável.31 Ora. porque privam os mais pobres dos bens indispensáveis à sua subsistência. 92 . levada ao exagero como foi a partir do século XIX. é um grande bem. das trocas e da divisão do trabalho. Enquanto o custo de vida crescia a cada dia na cidade de Calvino. que. 8. Legitimidade do comércio.. à divisão industrial do trabalho que não conheceu. Como todas as outras atividades humanas. a companhia dos homens é como que destruída”. cada indivíduo tem necessidade de usufruir das outras atividades humanas. no pensamento do reformador. não são nada menos que assassinos. 11. entravam a circulação dos bens e dos produtos. É que tal divisão. Commentaire Moïse. c. vemos diante da carestia que negociantes haverá . os autores de tal subversão são acima de tudo os especuladores e os açambarcadores. c. em conformidade com o desígnio de Deus. já numerosos no século XVI. destruiu a natureza mesma do trabalho criador. à ética cristã..

para evitar que a liberdade desenfreada de uns destrua a preciosa liberdade dos outros. a especulação e os monopólios. certo controle dos preços nos tempos de penúria para os bens de primeira necessidade: pão. Em tempos de penúria sobretudo. Ele ressalta o parentesco estreito. fruto da fé naquele cujo amor é gratuito. seja qual for o preço pago pelos pior aquinhoados. como se acaba de lembrar. graças a grande perspicácia na análise dos mecanismos econômicos e inabalável vontade de submetê-los aos imperativos de ética que reflita a vontade de Deus. deve fazê-lo sem pactuar juros. doutrina o reformador. considerados em sua evolução histórica. o empréstimo sem remuneração. 12. A .33 33 Cf. mediante lei. de la possession au don. Assim. com referência às antigas concepções medievais. mediante empréstimo pecuniário. legitimaram moralmente a prática do empréstimo a juros. mas ao mesmo tempo a distância crescente. de que estas fossem igualmente subordinadas a uma ética severa. entre o cristianismo reformado e o capitalismo. Recomendaram ao legislador assegurar. a propósito de nossas relações atuais entre nações ricas e nações pobres. de muitas precauções e restrições. Por isso o ensinamento bíblico recomenda prioritariamente o empréstimo desinteressado. É empréstimo gratuito. Calvino e Bucer são. Argent sur table. Este controle do Estado protegia a justa distribuição dos bens indispensáveis entre todos os cidadãos e combatia o açambarcamento. as autoridades da futura cidade de Calvino haviam instituído em Genebra. porém. Perrot. Calvino interroga a Bíblia para conhecer os desígnios de Deus nesta matéria. com efeito. devem ser controlados por legislação em conformidade com ética severa e lúcida. Recordemos que na mesma época em que haviam adotado a Reforma. os primeiros teólogos cristãos da era moderna que. e entre países credores e países devedores! Devemos também extrair daí ensinamento pessoal. assim como a uma legislação correspondente. carne e vinho.condição de que se lhe combatam os abusos. transposta para a atualidade. sob a condição. essa autoridade. não só das trocas econômicas. 93 . porém. sinal autêntico do amor. A poupança e o empréstimo a juros Examina-se agora um dos assuntos mais característicos e mais controversos do pensamento social e do alcance concreto da ética calvinista. Quem pode sair em socorro de alguém em dificuldade. 1989. Em conformidade com o método reformado. já antes de sua chegada. O reformador soube discernir de forma absolutamente nova. o papel útil e necessário. Lombard e A . Que lição. Cercaram-no. Constata que os juros nela são severamente condenados. sempre abundantes nas ocasiões de crise e em todo o setor castigado pela escassez. a fim de impedir que se transforme em fonte de destruição das relações sociais e das liberdades humanas. Por quê? Trata-se. mas também das atividades financeiras. de prevenir abusos da humanidade desnaturada. isto é. em primeiro lugar. Lausanne. o lucro auferido de empréstimo assistencial é usura injusta. sempre ávida por lucros.

abandonado a uma liberdade desenfreada. Retirará essa importância da receita oriunda do trabalho executado graças ao empréstimo dessa terra. em particular com relação aos trabalhadores. a economia atlântica em pleno desenvolvimento no início do século XVI. Trata-se de eliminar os abusos sempre ameaçadores do poder do dinheiro. Calvino não cerra os olhos para os perigos de liberalização indiscriminada do empréstimo a juros. não se refere ao fenômeno relativamente recente do empréstimo produtivo. Contra os abusos do poder do dinheiro e a hegemonia do capital sobre o trabalho. que consiste em repetir determinada prescrição bíblica aplicando-a pura e simplesmente a situações históricas novas. Dito isso. gerador de produtos novos. e empréstimo para a produção. por causa dos riscos adicionais que correm. e estimulam-se involuntariamente os usurários que se aproveitam de tal interdição para aumentar seus lucros. 39. Convém discernir os abusos que a ameaçam e desenvolver ética adequada. nota 23. importa distinguir o empréstimo assistencial do novo tipo de empréstimo que exige a expansão dos mercados. Aplica-se ela a todas as formas de juros? Para responder a essa questão. sendo empréstimo assistencial deve ser gratuito. Reparte comigo essa receita (à taxa pactuada). empresto a um agricultor terra para que a cultive para seu benefício. também.34 13. Discerne ao contrário. Se.Calvino questiona. Analisa a realidade econômica contemporânea e compara-a com a antiga economia dos tempos bíblicos. Não lhe inflijo prejuízo algum exigindo esse aluguel. Ela faz refletir. de modo algum. Na economia à longa distância. “o dinheiro não produz dinheiro”. dominá-la. 94 . E constata: quando a Bíblia fala de juros ou de usura. Para que a liberdade necessária e mesmo indispensável ao desenvolvimento econômico seja benéfica a todos. de maneira profética. o reformador não se contenta. em seguida. dizia Aristóteles. Eis restrição importante que o reformador indica para a legitimidade do empréstimo a juros. pode extrair de uma liberdade abusiva nesse domínio. porque representa salvaguarda de excepcional 34 Cf. úteis ao desenvolvimento econômico legítimo. proibindo-se quaisquer juros. pouco preocupada com o respeito a uma ética adequada. argumenta Calvino. dissuadem-se os emprestadores honestos. é preciso. com um literalismo muito freqüente na interpretação das Escrituras. Cerca. p. Calvino propõe distinguir entre empréstimo para o consumo que. o aluguel que obtenho desse empréstimo não é a remuneração de um empréstimo assistencial. sobre a extensão que convém atribuir à interdição bíblica dos juros. Por que não se daria a mesma coisa com o lucro daquele a quem empresto capital que expandirá com seu empreendimento? A tradição antiga assumida pela Igreja Romana condenava qualquer interesse porque. nota-o. por exemplo. sua legitimação dos juros com numerosas restrições. cujo trabalho se acha na origem do ganho realizado pelo capital emprestado. portanto. Um empréstimo produtivo é um capital necessário à realização de um trabalho remunerador. Além disso. todos os abusos que a humanidade desnaturada.

se fosse aplicada com discernimento. o amor ao próximo. os pastores opuseram-se sob a liderança de Théodore de Bèze. sobretudo. É preciso não se aproveitar da situação de monopólio e. que essa supressão da proibição do empréstimo a juros pela ética do cristianismo reformado constituiu o desvio supremo da história econômica ocidental. diz o reformador. a respeito da democratização da economia. quando se legisla sobre os limites da taxa de juros. Calvino recusa-se a dar resposta que decorra de moralismo ou casuística. A negociação entre os representantes das diversas partes interessadas era princípio de ética válido tanto para a vida pública quanto para a particular. Quando os negociantes de Genebra projetaram fundar um banco para facilitar a aplicação de sua poupança. a saber. que rejeitara expressamente a idéia de que alguém 95 . pois que os juros são pagos no final. negociantes e pastores. com espírito de análise que ultrapassa o estado da ciência econômica de seu tempo. Lembravam-se das advertências severas do Evangelho a respeito do poder do dinheiro (Mamom) transformado em força autônoma. que favoreça a preguiça moral e espiritual. no capítulo VII. políticas e econômicas da cidade de Calvino. Importantes debates. (Falarse-á novamente disso. à proporção que as circunstâncias se alteravam. com a soma emprestada. levar em conta este fator. magistrados. Foi dito. no espírito desses protestantes. taxa que era muito inferior à taxa permitida alhures. não devem ser tolerados se o mutuante não ganhou. no sentido nobre do termo. a saber. é a caridade. sem a subordinação a uma ética rigorosa. em regime verdadeiramente liberal. nem sempre fácil. portanto. anônima.gravidade. para explorar seu próximo mediante a elevação desavergonhada das taxas de juros. em grande parte ao menos. tomando em consideração tanto exigências éticas quanto interesses contraditórios da vida em sociedade. Em seguida. Mas. pelo consumidor. o que é a taxa normal? A tal questão como a tantas outras. Importa. A primeira norma a tomar em consideração. Os juros. no sentido principal do termo. todos os juros excedentes à taxa normal transformam-se em usura e devem ser condenados. na busca de solução justa. A preocupação com anular os efeitos perversos do dinheiro caro sobre a vida pública inspirou constantemente as autoridades religiosas. que deveriam erigir-se em exemplos. Às restrições que o próprio reformador indicara para contê-la e moderá-la.) Além disso. generoso e respeitoso da dignidade de cada indivíduo. Recordavam-se de seu mestre. Noutros termos: a remuneração do trabalho tem prioridade sobre a do capital. a liberalização total dessa prática. Fixavam conjuntamente o nível da taxa de juros legítima. seus herdeiros acrescentaram reservas que bem assinalam sua preocupação com aplicar e viver concretamente a ética cristã que proclamavam. na distribuição do produto de suas agregações comuns. acrescenta o reformador. que se sublinhe que dita liberação não significava. não sem razão. E retornavam a uma mesma discussão. Deveria existir pelo menos paridade entre os direitos do trabalho e os do capital. todavia. diz. Convém. Calvino faz notar que a taxa de juros exerce influência sobre o custo de vida. o valor desses juros. da penúria. de forma pragmática. especialmente em período de crise e desemprego. reuniam. com taxa legal equivalente a 10% (de acordo com nossa maneira atual de calcular). entre todas as partes interessadas. Que extraordinária repercussão poderia obter tal ética.

como toda atividade humana legítima. sabe-se. a necessidade de certa redistribuição permanente das riquezas e do trabalho. se não se fazem acompanhar de considerações morais. à guisa de certo capitalismo primitivo. pelo contrário. 14. ao menos quando ele é consciente de sua vocação original. Compete subordiná-la às exigências de ética responsável. procurado nas sociedades democráticas industrializadas modernas. se não se toma cuidado. Mas. tentaram modificála? Em que sentido? O exame desses problemas é o objeto dos capítulos seguintes. Seja qual for a atividade lucrativa ou seja qual for a forma de crescimento. que esse reconhecimento dos valores econômicos haja podido justificar mais tarde a exaltação e a sagração deles. O capítulo IV analisará o problema da origem protestante de certo liberalismo econômico moderno e a evolução das sociedades ocidentais. dessa forma endiabrado. de preocupações ambientais e com o destino das gerações futuras. Nada há de mais contrário à ética cristã do que a primazia conferida à economia. de um país e de uma comunidade mundial? Coloca-se. a necessidade de subordinar a vida econômica às exigências e às promessas de rigorosa ética social? Não proclamou a solidariedade econômica dos homens e das nações. libertos de todo o comedimento. Tal poder é a sedução. do interesse de todos. especialmente na política econômica. e como 96 . consciente ou inconsciente. qualquer que seja o regime político. Importava evitar entregar-se às especulações financeiras jogando no anonimato do dinheiro. nas relações entre cidadãos de uma cidade. Segundo a ética do cristianismo reformado. que tal reabilitação teve repercussões excepcionalmente favoráveis sobre o desenvolvimento das sociedades protestantes primeiramente. com força até então desconhecida. Calvino não ressaltou. então. não podem ser como tais justificadas pelo protestantismo. na medida das exigências do desenvolvimento industrial e comercial. É necessário evitar que a vida da sociedade seja perturbada pelos excessos de todos os tipos a que os homens podem entregar-se. como se formaram as ideologias econômicas. a área do dinheiro e dos negócios é setor da vida privada e pública que precisa ser facilitado. e depois no mundo ocidental. a favor dos mais despojados. dos desempregados especialmente? Não fundamentou teologicamente a legitimidade das intervenções legislativas do Estado nesta área. que ocuparam o lugar da ética cristã. uma questão: por que tal equilíbrio não foi. em seguida. quer nos negócios privados quer na vida pública. como se pretende às vezes. em conseqüência de sua avidez. do dinheiro e da vida econômica em geral. a economia deve ser governada.pudesse exercer “a profissão da usura”. ídolos estes aos interesses dos quais tudo acaba por ser sacrificado. para o desenvolvimento das quais a Reforma havia contribuído tão fortemente? Em que medida os protestantes são solidariamente responsáveis por essa evolução? Ou. também. Controlar a Economia. para disciplinar o jogo indispensável de uma sã liberdade. de sua subordinação ao poder sempre ameaçador de Mamom. e sem preocupação ética. que provoca a divinização do dinheiro e do lucro. tanto ao nível pessoal quanto ao coletivo. Verificar-se-á. isso não pode ser imputado ao calvinismo. em seguida. É inegável que a ética do cristianismo reformado conduziu à reabilitação do trabalho. É certo. Mas.

a situação dos operários e operárias das minas e das fábricas se tornara insuportável. particularmente. Capítulo IV A Ética Cristã em Luta com as Ideologias Contemporâneas No início do século XX. Diversos sociólogos e teólogos tentaram explicar esses fenômenos. propositadamente. com efeito. mas também conseqüências infelizes e perversas.35 Nem se examinou. talvez. 97 . as razões dos surpreendentes desvios do sistema. ao movimento ecumênico. Especialmente A . graças. Constatavam. embora frágil. urge remontar no tempo e pesquisar quais foram as causas da rápida progressão da prosperidade e quais foram. numerosos historiadores questionaram-se acerca de como. a ética sexual. esse sistema. se pudera chegar ao sistema capitalista ocidental moderno. participar-se-á dos mais recentes esforços que as Igrejas empreenderam para que a ética cristã seja respeitada. a literatura e as artes. Ética cristã e capitalismo: convergências e divergências. em especial Max Weber. pois. depois. através de melhor entendimento entre capital e trabalho. em Genebra especialmente. que produzira tanta riqueza. a considerável influência que tal ética reformada exerceu sobre a cultura. Biéler. a quem já se fez rápida alusão mais acima. malgrado suas virtudes. 1961. 35 Cf. respeitando a liberdade bem como a dignidade de todos os parceiros. tão pouco. oriundo da ética reformada vivida pelos protestantes. a conjugal e a familiar. abundantemente analisadas em inúmeras obras especializadas. a filosofia. Deixou-se de lado. no capítulo V. L’homme et la femme dans la morale calviniste. também. assistir-se-á aos combates que promoveram os cristãos pela justiça no albor da nova era industrial e. pudera engendrar tanto sofrimento? E por que provocara tanta revolta? Para compreender o que se passou. Por último. de um desenvolvimento econômico justo e socialmente equilibrado. desenvolver-se-ão algumas considerações sobre um dever urgente e de longo fôlego: democratizar as decisões na área da economia. não produzira apenas benefícios. É. Como. tomada aqui em consideração. Este. 1. pelos mesmos motivos. só se refere à vida política e econômica. No capítulo V. que durante os anos negros da revolução industrial no Ocidente.dividiram o mundo em clãs políticos hostis. assim como sobre o desenvolvimento das ciências. útil recordar que a ética social cristã. Genebra. nos séculos XVIII e XIX.

a aquisição da riqueza. o trabalho fazia parte das atividades próprias da vida material. É precisamente isso que caracterizou o protestantismo. porém. porque trabalhar é uma ordem divina. Parece pois. o trabalho é considerado como uma vocação. que conferiu caráter religioso ao trabalho. Naquele tempo. portanto. Não é. Esse desejo é comum a todas as sociedades e em todas as épocas. essas atividades temporais não tinham relação direta com a salvação eterna e a vida espiritual. naqueles séculos da industrialização. que se beneficiam de tal desenvolvimento. São constituídas de pessoas que se dedicam às técnicas comerciais e financeiras mais espontaneamente do que os representantes de outras confissões ou religiões. e a acumulação de grandes fortunas. deve ser realizado para a glória de Deus e o serviço do próximo. para que tal ímpeto empolgue o conjunto de um povo de forma constante. como em todas as sociedades primitivas . 1920. prossegue. que o cristianismo reformado seja gerador de certo espírito.para situação característica do desenvolvimento econômico moderno. A ganância e a cupidez caracterizam já o grande capitalismo medieval anterior à Reforma. além disso. é comum a toda uma população. Ele se pergunta em seguida: qual é a natureza desse espírito? É preciso observar que o que constitui o motor da atividade econômica dessas populações ativas não é somente o desejo de enriquecer. visavam como fim primeiro ao prestígio e ao poder. Era preciso esbanjá-los largamente. Permanece. constata-se que. trabalha exatamente o bastante para satisfazer suas necessidades vitais. Tübingen. Ensinou a primeira moral cristã. um apelo de Deus. observa Weber. como toda a atividade. No cristianismo reformado. de criatividade. em particular. Max Weber nota. regalar-se ou possuir. pelo contrário (como se viu a propósito do pensamento de Calvino). é certo. Ora. Antes da Reforma. Mas. mesmo se não se precisa ganhar mais para viver. 39. E esse ideal tem tendência para 1 Max Weber. Ora. Trabalhar-se-á. diz.em que o povo. é preciso que seja produzido por religião comum a todo o povo. para ser considerado. Tal espírito incita cada indivíduo a trabalhar além do mínimo necessário e. Cf. que são essencialmente as populações protestantes. nota 23. é de fato fruto da fé reformada. em geral. Mas. Max Weber não hesita denominar de “o espírito do capitalismo”. em primeiro lugar. em geral. com zelo. mas. p. que domina as sociedades puritanas daquele tempo. se a ética do trabalho. Die protestantische Ethik und der Geis des Kapitalismus. um pouco rápido? Pode-se associar tão prontamente o espírito criador da ética reformada original e o espírito capitalista moderno? Importa notar que Weber fala do que observa no século XVIII. sobretudo puritanas. um espírito novo. 98 . Cumpria exercê-lo na medida em que era indispensável de uma maneira ou de outra. essa moral já está em parte deformada: emancipou-se das raízes religiosas originais para tornar-se ideal profano novo. provocou a transposição de uma situação précapitalista . Esse espírito de empreendimento. atividade profana. que suscita o desenvolvimento econômico e a prosperidade social1.Analisando a composição de alguns povos adiantados e prósperos na Europa e no mundo.

Eis algumas de suas máximas morais típicas: “Lembra-te de que o tempo é dinheiro. Vocation et travail. A Idade Média estimulava um ascetismo vivido numa religiosidade isolada do mundo. a ética calvinista deslocou o centro de gravidade da ascese. Quem mata uma porca destrói-lhe todos os descendentes até o milésimo. põe em evidência duas virtudes essenciais que caracterizam as sociedades puritanas e que são. despojando-se da crítica positiva e regeneradora da ética do cristianismo reformado. por vezes. Lembra-te de que o crédito é dinheiro. Lembra-te de que o dinheiro é prolífero e produtivo. 2 3 M. a Declaração da Independência das colônias americanas e. estimulando o trabalho e privilegiando essas duas virtudes.3 Max Weber constata que o espírito capitalista se apartou finalmente tanto da religião que. mas negligencia as preocupações sociais supremas que prescrevia a ética do cristianismo reformado original. Sempre que pôde. em seguida. que o controlava na origem. também. exerceu intensa atividade para desenvolver a instrução pública e a cultura. com Jefferson. ao seguir a evolução histórica do Ocidente rumo à secularização dos espíritos. Refere-se especialmente aos escritos de Benjamim Franklin (1706-1790). Quem destrói uma moeda de cinco xelins aniquila tudo o que ela poderia vir a produzir.erigir-se num absoluto. continua. E essa ascese no século transformou-se numa moral burguesa secularizada. explorando sua resignação com o sofrimento. Weber. Tornou-se uma ideologia independente. utilizou de preferência. diz. esse espírito que glorifica o trabalho. que Weber qualifica de “Fachmenschen ohne Geist. pilhas de libras esterlinas. se voltou contra ela. herança da ética do cristianismo reformado: a sobriedade e a poupança. tornou-se presidente da Pensilvânia. Calvino introduziu um ideal ascético no interior do século. Essai sur l’éthique puritaine. não hesitou em tirar vantagem do espírito religioso dos operários. esse trabalhador gráfico que. É preciso estar-se atento a todos os atos insignificantes que favorecem o crédito de um homem. por fim. com a expansão da técnica e da indústria. Ibid. Genebra. Esse autor cita. por todos os países industriais. nos antípodas da fé que engendrara. Promoveu não mais uma ascese isolada do mundo. pôde mesmo dar à luz esse tipo de homens de negócios frios e lúcidos. técnicos sem alma e perdulários sem coração. elucida o autor. Ora. Cf. independente de toda a referência à fé que o gerou. à força de trabalho e economia. a fé extinguiu-se na maior parte das pessoas.4 Muitos autores demonstraram que. exemplos chocantes desse ideal tornado absoluto e sagrado. em apoio a suas observações. “aqueles que se prestavam à sua exploração por razões de consciência”. 99 . para neles produzir o espírito capitalista. mas uma ascese no século. 4 M. 1989. Genussmenschen ohne Herz”. Weber. Ibid. o capitalismo se desenvolveu cada vez mais. É essa ideologia que Weber chama de “o espírito capitalista”. Assim. Mas com a secularização de toda a sociedade ocidental. criou uma grande imprensa na Filadélfia. dedicou-se a pesquisas científicas (é o inventor do páraraios). a poupança e o lucro. a qual se alastrou pouco a pouco. Mario Miegge. Enfim. Foi ele quem redigiu.”2 Max Weber.

nos meios e países protestantes. 100 .. Se como se viu. “A evolução da conjuntura em Genebra. é verdade que a ética utilitária se difundira na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.”. mesmo depois da onda de secularização característica da cultura européia. para alcançá-la. 2. como havia sido a ética do cristianismo reformado original. negligenciou-se a preocupação com uma ética global. a perspicaz distinção de Amintore Fanfani entre o homem pré-capitalista e o homem capitalista. O último entendia que a finalidade da moral (como do direito) fosse a busca da felicidade máxima para o maior número de pessoas. sob a influência de David Hume († 1776) e sobretudo de Jeremy Bentham († 1852). o historiador suíço Jean-François Bergier. Não necessita mais de ética. Os bons aspectos da ascese intramundana. a missão profética de crítica da sociedade. o cristianismo reformado foi e permanece fator determinante para o desenvolvimento econômico. que logo se tornou materialista. antes de expandir-se por toda a Europa. qualquer que seja a confissão. O segundo tende a separar uma da outra: seu critério é sobretudo utilitário. descrita por Max Weber como um dos frutos do protestantismo. particularmente nos meios puritanos. nutridos da forte Palavra de Deus para 5 Cf. sobre qualquer outra consideração. que lhes havia sido confiada. escreve. analisando o destino do banco protestante. como a ética cristã. tornar-se-á celeremente a moral vulgar da procura prioritária. com demasiada facilidade. 2 vol. La banque protestante en France. entendido como a soma dos interesses individuais. Essa moral do utilitarismo. que a controle.É o que elucida. A insubstituível vocação crítica da ética cristã.. apresentava-se de acordo com a da economia da Europa Ocidental no seu conjunto. Não se mostra menos verdadeiro que os efeitos positivos da ética do cristianismo reformado sobre o desenvolvimento ambíguo do liberalismo econômico se manifestaram. selecionar os prazeres capazes de fazer chegar lá. Lüthy. que caracteriza as sociedades capitalistas modernas.” (três expressões sublinhadas por nós) Ora. marcaram e continuam a marcar muitos industriais e banqueiros de origem protestante. 1959 e 196l. ao nível da produção tanto quanto do consumo. procurado por cada indivíduo. A atividade econômica do primeiro permanece ligada à sua finalidade espiritual. quer em Genebra quer no resto do mundo. Era necessário. Mas. é ditada por opção ética. com o desenvolvimento exacerbado do individualismo. de objetivos louváveis mas sem fundamento espiritual real. A moral de Bentham estava tão harmonizada com o racionalismo utilitário do Iluminismo na França e na Europa que esse filósofo inglês foi declarado cidadão francês pela Convenção Nacional. importa sublinhar que ele só pode desempenhar esse papel se os crentes. do lucro máximo. por muito tempo ainda. prossegue. uma ética social. e o interesse geral. Paris. Sob a perspectiva desse utilitarismo primitivo..5 Compartilhamos aqui. democrático e cultural dos povos. Os crentes esqueceram. por exemplo. também H. já que ela pretende gerar espontaneamente o Bem. a atividade econômica e financeira justifica-se por si mesma.

onde se jogam mais diretamente ainda os interesses de cada indivíduo.. notadamente pela ideologia do liberalismo integral. “Subleva o povo”. tal missão crítica é sempre difícil de exercer... em Annales d’Histoire économique et sociale. E isso é válido para os crentes de todas as confissões cristãs. o que valeu aos ministros severas recriminações.. “Se permanecêssemos calados. Georges Goyau. 5). rebela-se A .. “Não se deve permitir. Essa crítica tem sido. 233. 6 101 . diziam já de Jesus os que eram molestados pela sua prédica. Quando a limitação da taxa de juros foi decidida pelos Conselhos de Genebra. no início do século XVI. Genebra. que demonstrará com seus colegas a mais extrema reserva..”. Já se observou o fato no âmbito político. 31 de maio de 1935. elas arrastariam após si . Mas. para sua salvaguarda.. responsabilidade particular em virtude de sua história. cumprido dignamente sua obrigação de sentinela. O velho ídolo. Foi exatamente essa a experiência que adquiriram. desde o início de sua história. é amplamente sabido que a cidade está repleta de usurários”. mantiverem. defronta oposições. políticas. p. a exemplo de Cristo. a liberdade abstrata.. escrevia com malícia um historiador do início do século XX. o desenvolvimento da cidade desacelerou. declarava. Sayous.7 Não se deve esquecer que crítica positiva mais firme das autoridades religiosas.. também. que as riquezas sejam desejadas pelos genebrinos. que se opõe a qualquer intervenção nesse sentido. muitas vezes.. e por vezes perigosa. uma infinidade de abusos. Lembremos. a altiva resposta de Théodore de Bèze aos protestos daqueles que reprovavam aos pregadores provocar o ódio contra os ricos. Mesmo nos países protestantes. p. É ainda mais verdadeiro no campo econômico. (Evangelho de Lucas. econômicas e sociais constituídas foi sempre serviço que os cristãos conscienciosos acreditaram dever prestar à sociedade. por exemplo. porque questiona os interesses egoístas dos indivíduos e dos grupos sociais. Choisy. mal recebida por essas mesmas autoridades. conferindo primazia à ética social sobre os lucros ilícitos. diante dos sistemas econômicos e políticos. não possuem por si mesmos qualquer predisposição especial de que possam prevalecer-se. e em Genebra como alhures.. 7 E . v. Ora. e especialmente os pastores quando mantinham a indispensável independência da prédica que lhes ordena o Evangelho. os pastores encorajaram-nos para que não exorbitassem com relação às margens de lucro dos mutuantes. Recordemos.6 Eles haviam. a liberdade em maiúscula. É esse mesmo pregador que. Quando é fielmente realizada. 23. a idéia de que a fé cristã deveria levar os crentes e suas comunidades a levar em consideração os problemas sociais da cidade foi incessantemente combatida por todos os tipos de ideologias. -E. 191. 1902. a tal respeito.regeneração do mundo. Talvez. o que diria o povo?” Que os pregadores “são cães mudos. seja qual for a classe da população a que pertençam. Calvinisme et capitalisme à Genève de la Réforme à la fin du 18e siècle. L’Etat chrétien calviniste à Genève au temps de Théodore de Bèze. alguns anos após a morte de Calvino.. porém. Se os protestantes têm. c. os cristãos reformados. a distância crítica que lhes prescreve o Evangelho. quando se porá o problema de criar um banco na cidade reformada. historieta significativa. “não exista na Europa uma só cidade protestante onde a idéia do “cristianismo social” e “protestantismo social” se aclimate tão desconfortavelmente como em Genebra. dirá aos membros do Conselho.. depois da Igreja primitiva e.

sistemática e cruel. 1919. Urge. passar-se-á a nova colonização. especialmente nos países pobres. com relação a tais ideologias que substituíram a ética cristã. pois. porque a valentia dos cristãos foi surpreendida por sua condescendência. Ao pensar na Reforma. Repete-se a mesma coisa hoje. 8 Georges Goyau. ameaçado. as grandes descobertas que abriam a todas as nações do mundo antigo horizontes repletos de sonhos e de insaciáveis ambições. assim como nos regimes ditatoriais de outras origens. excluindo a difícil crítica da vida pública e dos sistemas econômicos. justo sustentar que o cristianismo reformado contribuiu fortemente para o desenvolvimento da economia ocidental e mundial. que esta se desgarrou progressivamente da influência da religião que a havia gerado. pois.contra os métodos evangélicos que se esforçam. aliás). essa modernidade ocidental cujos vícios se rejeitam. todas as vezes que as atitudes assumidas em matéria de ética social atingem. sem confessar que se sonha poder usufruir de suas vantagens. questionar por que e como nasceram essa ideologias políticas. que jamais renunciou à conquista da bacia mediterrânea (até nossos dias. da secularização. benéfico sob certos aspectos. também. desses mesmos territórios... outrora conquistados pelo islamismo. em todos os tempos. é expressão típica da revolta contra uma cultura imposta do exterior. de um lado. tais recriminações foram dirigidas aos cristãos engajados por amor nos combates em prol da justiça. Une ville-église: Genève. Paris. se é. importa não esquecer que ela é contemporânea. por esses “pastores sociais” que de bom grado rotula de socialistas”. em parte pelo menos. do outro. Concluindo. no processo geral. muitas vezes inconsciente. 102 . 2 vol. Nos países do Leste e junto a seus aliados comunistas do resto do mundo.8 Sabe-se que. Dá-se a mesma coisa com relação a uma multidão de minorias cristãs. Sente-se afrontado. E isso foi possível. convém notar. esta de tipo ocidental. ou quase. o drama dos colonizadores colonizados. seja qual for a natureza política. Deixou-se empolgar por ideologias profanas contraditórias que a subjugaram sucessivamente. e como. A reação contemporânea do integrismo islâmico. por fazer reinar mais justiça social. com relação ao Conselho Ecumênico das Igrejas. no Oriente e notadamente na África. o florescimento prodigioso do humanismo nos séculos XV e XVI e. Situações adquiridas serão subvertidas. desse extraordinário surto da civilização européia que provocou. Origem e desenvolvimento das ideologias modernas. É o início de um drama que ainda hoje dá o que falar. conseguiram limitar a ética de grande parte dos cristãos unicamente ao âmbito da vida privada. Da colonização islâmica. por vezes. com sede em Genebra. esse renascimento súbito do cristianismo. interesses particulares. a reação contra as críticas dos cristãos resistentes revestiu a forma de perseguição organizada. A irresistível e ancestral necessidade de competição e de enriquecimento dos povos vai conduzi-los a inexpiáveis rivalidades na conquista de novos territórios. de perto ou de longe. 3.

O imperialismo autoritário religioso e político do catolicismo romano afastara dele homens de pensamento e esperança. concebe uma sociedade ideal. voltado para o passado pagão. o que se reencontrará nas ideologias do tipo socialista e comunista. a intransigência dos teólogos e a insuportável tirania política dos déspotas belicosos. os exageros desse retorno ao passado haviam obrigado os reformadores a assinalar a distância entre esse novo entusiasmo. um monge dominicano. primeiro. expressa seu desgosto com a vida. Imagina uma Cidade do Sol (1643) concebida como uma república ideal. então. havia. a liberdade 103 . destacados de seu contexto teológico global. imaginado outro mundo enviando Pantagruel para uma dessas ilhas fantasiosas do Oceano. começam a sonhar num mundo absolutamente novo. No ímpeto um tanto místico do fervor colonizador. contemporâneas da Reforma. Estes criam encontrar na antigüidade pagã visão renovada do mundo em reconstrução. que imaginam construir numa dessas ilhas distantes. não é mais na Inglaterra. que almas nobres. constroem cidades. No século seguinte. descrito em seu livro Utopia. para as ideologias dos séculos XIX e XX. baseada na lei e na religião naturais. de forma irônica. François Rabelais. na França em 1534. Que se recorde. Sua independência. por outro lado. aprisionado e decapitado. Expressam. em virtude da secularização progressiva do pensamento nos séculos intermediários. intensa carência de comunidade. valeu-lhe ser detido. de comunismo. o sonho do chanceler da Inglaterra Thomas More. da Renascença e da Reforma. mas na Itália. daquela liberdade cristã restaurada pela Reforma. Esses valores. Trata-se de sonhos de cristãos aos quais repugnam as lutas religiosas contemporâneas. Infelizmente. exaltada como valor em si mesma. Mas. e. que um cristão decepcionado. mas segundo imaginavam. num primeiro tempo. Querem realizar repúblicas novas. anteriormente evocado. que os fascinam e estão ainda por serem descobertas. o encontro parcialmente frustrado. comunista. e. e a redescoberta da atualidade repleta de prosperidade do cristianismo renovado. com clero liberado dos compromissos sacerdotais autoritários e eleito democraticamente em escrutínio secreto. especialmente com referência ao rei Henrique VIII cuja união com Ana Bolena recusava admitir. enquanto na Espanha Cervantes confiava a Sancho Pança o governo de outra ilha imaginária e conferia a D. Lá.Essa turbulências far-nos-ão passar. Transmite. sacudidas por todas essas transformações contraditórias. de partilha espiritual e material. em seguida. Viver-se-ia numa fraternidade religiosa. alimentaram as ideologias profanas dos séculos subseqüentes. Thommaso Campanella. tudo seria perfeito. do antigo cristianismo autoritário para as utopias humanistas dos séculos XV e XVI. congraçando todas as seitas igualmente respeitadas. desejo de independência e liberdade. Acham-se nessas utopias certos valores essenciais da tradição cristã. de um lado. não mais sobre modelos antigos. no entanto hierarquizada. Sem todavia romper com o cristianismo tradicional. essa liberdade transformar-se-á naquela do liberalismo integral. Quichote (1605) imagem caricatural de um conquistador. em 1516. para começar. É. É. destacada de suas raízes espirituais. Entre esses dois sonhadores. independente. governada por um pontífice máximo representante de Deus. que celebrariam seu culto no mesmo templo.

Ao contrário. e de designar. o economista francês Bodin torna-se o teórico do mercantilismo e Colbert se apresenta como seu eminente realizador. que se tornará a base de todas as ideologias políticas progressistas modernas. conduz a uma ética absolutamente otimista. desejosa e freqüentemente capaz de realizar o melhor. basta para iluminá-la para fazer as boas escolhas. Diderot exalta o bom selvagem. 104 . desenhar-se-á novo sonho autoritário e totalitário. Naquela época. Crê-se no progresso espontâneo e contínuo da humanidade rumo a uma sociedade luminosa e sempre melhor. Não se leva na mínima conta as admoestações do Evangelho que acentuam a ambigüidade da natureza humana. A ideologia do progresso torna-se crença profana. Contra as tiranias ocidentais que se entrechocam para explorar os habitantes das novas colônias. através do século das Luzes. pensa-se. passa-se. são portadoras de crítica diretamente endereçada contra as paixões nascidas da conquista do novo mundo. o que favorece o aparecimento de uma liberdade selvagem. na medida que o pensamento se seculariza. paradoxalmente. a liberdade dos ricos que exploram os pobres. Tais desvios marcarão. que afirmam que o homem é uma criatura decaída que necessita. ancestrais das ideologias modernas. importa lembrar que depois da época das utopias. Assim. Essas primeiras utopias. Elas vão entregar-se a combates imperdoáveis para garantir seu triunfo. levando de roldão a exploração das populações. porém. E. a igualdade é imposta pela coação. Da antiga ética.dos fortes que abusam dos fracos. em seguida. Para compreender o processo dessa secularização. se ingressou na idade das Luzes. pelos povos ocidentais. Naquela época. ao contrário da ética cristã que sabe que o Mal e o Bem podem alojar-se em cada pessoa. exaltando uma liberdade sem subordinação a uma ética global. como foi dito. da Renascença ao mundo contemporâneo. Tais ideologias modernas têm sobre o cristianismo a vantagem. Não se crê mais nas verdades evangélicas. para lutar contra as desordens desse modo provocadas. sem muita sutileza. para com a religião cristã. onde. declara Rousseau. de indicar de forma simplista onde se acha o Bem e onde se acha o Mal. A natureza é boa. dizem os enciclopedistas. que se tornou autoritária. o período de expansão colonial e mercantilista. quais são os bons que devem triunfar e onde se escondem os maus que devem ser eliminados. como toda a criação. Assim. da direita ou da esquerda. É uma fé no progresso espontâneo. transforma rapidamente essa liberdade em virtude independente. a confiança ilimitada colocada na razão e na ciência. mas deixando-se igualmente extraviar pelo pior. em plena expansão. o homem é bom. A consciência natural. assim como a insensibilidade paralela. a ideologia do liberalismo econômico adquire aspectos de crença do tipo quase religioso. portanto. absolutamente ilusória mas sedutora. sustenta uma sociedade igualitária. Os últimos sempre se encontram entre os adversários e os primeiros sempre se acham entre nossos aliados. raiz longínqua de todas as ditaduras modernas de esquerda ou de direita. para uma ética libertária que. desde o início. Revela-se nelas protesto firme contra o primado do dinheiro e da violência na busca do ouro e das riquezas. de ser transformada para reencontrar sua identidade. sonho já esboçado na imagem do Soberano Pontífice de Campanella que. pouco respeitosa das liberdades alheias. assiste-se a lenta progressão das utopias e das ideologias profanas.

em conjunto. promissora e ilusória ao mesmo tempo. única apta a libertálas de sua auto-exaltação quase religiosa. A liberdade econômica sem contrapeso ético. Eglise et société. A . estimulam os interesses dos grupos sociais para torná-los vitoriosos. Foi a miséria para a maioria. Berne e Lausanne. sem corretivo social. Essa é a tendência da ética do capitalismo sem freio. A repulsa legítima. A primazia da busca do prazer. Biéler. preponderava sobre toda outra motivação. na Europa do século XIX. Pois. Lefranc. 1993. Paris. é. Mas. a revolução industrial (já iniciada na Inglaterra no século XVIII). como ele. Contrariamente à ciência médica. no início. 105 . portanto. Cf. Histoire des doctrines sociales. Do capitalismo ao comunismo.Vale precisar. e a liberdade outorgada ao mais rico para explorar o mais pobre. prometendo progresso e consagrando a liberdade. As falsas esperanças das ideologias profanas. que não se trata de subestimar a insubstituível contribuição da herança das Luzes. em continuação daquilo que a Reforma encorajara. razão e consciência não poderiam bastar-se a si próprias e garantir um verdadeiro humanismo. Por quê? Porque. Certamente. Mas. segundo a expressão de Raymond Aron. também a liberdade conferida ao mais forte para aniquilar o mais fraco. privilegiavam na moral os preceitos que justificassem a preferência de suas observações. 1960. 4. que chegou. como se estes não fossem fortemente influenciados pela ausência ou pela presença de uma ética.9 E essa religião ambígua. Deve-se-lhe notadamente a valorização da razão e da consciência humanas. O deísmo muito vago. que as priva de sua vocação original de serviço.10 A justa concorrência leal serve para legitimar as lutas fratricidas. Necessitam de serem esclarecidas pela Palavra de Deus. como se se tratasse de ciências exatas. das formas dominadoras e autoritárias adotadas pelo cristianismo constituído não justificava o esquecimento sempre prejudicial do Evangelho. Essa fé na razão. a economia 9 10 Citado por G. eram moralistas. se oculta o egoísmo. conduzirá às trágicas desditas de que padece ainda cruelmente o mundo atual. permitir que a moral intervenha na análise dos mecanismos da economia. É a liberdade de uns que mata a liberdade de outros: a ética libertária engendra finalmente a liberdade liberticida. os economistas clássicos. indispensável para sua sobrevivência. objetos da devoção profana do século das Luzes. L’Eglise sentinelle? Em: Ethique. as pretensões científicas da ciência econômica lhe interditam. aqui. Com reservas. p. que os filósofos nutriam. pode-se também falar de ausência de ética na economia clássica. na consciência e na ciência transformou-se em verdadeira “religião secular”. Quando surgiu. É essa ética que se tornará rapidamente a ética dominante da sociedade industrial. por trás da liberdade erigida em absoluto. 76. por exemplo. como Adam Smith. devia demonstrar-se totalmente inoperante para realizar a transformação permanente do homem e da sociedade. pelas Luzes. que conferiu novo ímpeto à pesquisa científica e à vontade de fazer triunfar a democracia e os direitos do homem. O egoísmo individual e o egoísmo coletivo que. estava-se na expectativa da prosperidade para todos.

isto é. ao contrário de todas as promessas otimistas. Crê-se na virtude primeira do “laisser faire” (não intervenção do Estado) e do “laisser passer” (supressão dos direitos alfandegários). embora também cego pela crença na moda do determinismo liberal. Na proporção do desenvolvimento da sociedade industrial. pelo contrário. Os liberais otimistas haviam substituído o Deus da Bíblia. sob tal ótica. e isso em qualquer sociedade onde a conduta natural dos homens não é corrigida por uma ética consciente. Esse princípio transformou-se rapidamente em verdadeira crença. verdade parcial. têm poder de açambarcamento das riquezas e dos direitos alheios. que ordenara uma vez por todas o bom funcionamento do universo para a realização do melhor dos mundos. Nem todos os economistas. como sabe fazer a medicina. por um deus da Natureza transmudado em Providência mecânica. e Ricardo. a miséria do proletariado. Ele era o pai espiritual de Adam Smith. que conduz os homens para a busca do máximo de satisfação com o mínimo de esforço. os terríveis sofrimentos que a insensibilidade de uns é capaz de impor à fraqueza de outros. Basta aguardar. essa verdade é insuficiente. Mas estes. sobre o princípio do prazer. ver-se-á crescer. que afirma que o livre jogo das atividades individuais assegura espontaneamente a realização do interesse geral. O pastor Malthus. aconselhasse a seus pacientes: “Deixe agir e deixe fluir seu mal e tudo correrá bem. Mas. os mecanismos e os efeitos perversos das leis naturais. acredita sem embargo na responsabilidade moral do indivíduo. ao contrário. que se diria de um médico que. então surgirá um novo mundo. tal era a crença enunciada na filosofia liberal do inglês David Hume. sem ilusão sobre a bondade da natureza humana. já citado antes. Finge-se ignorar quantos interesses individuais privados. desde que o Estado se abstenha de intervir. agregados em interesses coletivos de grupos sociais e políticos. porém. onde a prosperidade para todos triunfará. Mas amanhã. o economista de Glasgow que publicou em 1776 seu Tratado sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Esse infortúnio põe a refletir os economistas mais sensíveis sobre a degradação da civilização. porque também estão firmemente agarrados à crença e ao determinismo fatal dos economistas liberais. ao mesmo tempo que se multiplicam as camadas mais pobres da população. capaz de forjar seu 106 . acentua os antagonismos cruéis e os conflitos desastrados. Seu autor baseava sua esperança de regulação espontânea da economia no interesse pessoal. Ora. São notadamente os ingleses Malthus. Denominar-se-á essa obra de bíblia dos economistas. Não mais compartilhando dessas ilusões. como dados científicos não obstante mensuráveis. à maneira dos economistas clássicos. Afirma que esse motor de toda a atividade humana repousa sobre o princípio hedonístico da vida. considerado capaz de conduzir a um futuro de progresso garantido para cada indivíduo. A liberdade deve ser controlada. a par com os prazeres incontestavelmete procurados por cada indivíduo.clássica recusa corrigir. partilhavam dessa crença otimista e simplista do liberalismo integral. pela única virtude das leis naturais abandonadas a si próprias. Recusa-se de levar em conta. desabam do mais eufórico otimismo no pessimismo mais negro. porque as leis da natureza agirão espontaneamente para suprimir seus sofrimentos”? Se há. que surgem nessa Natureza insensível e implacável de cujas leis nada pode escapar e que urge seguir cegamente. que Cristo nos dá a conhecer. Se essa liberdade plena de cada indivíduo é respeitada. o pessimista Ricardo.

E enquanto Malthus situava a ação da fatalidade natural no crescimento demográfico e no pauperismo. fora então momentaneamente anexada à França. como nele também. No momento em que enfrenta duras provações. isolado. Bastiat. na segunda metade do século XVIII onde apareciam cada vez mais visivelmente os frutos amargos da liberdade econômica sem freios. a ideologia do liberalismo econômico inglês de Adam Smith. ora pessimista. em Genebra (essa cidade. e voltará a ser suíça alguns anos 11 D’Alembert. francês de J. pode ser corrigida por medidas de prevenção impostas por uma “disciplina moral”. por alguns inovadores espiritualmente motivados. desafortunadamente. para quem podia reconhecê-lo. no melhor dos mundos possíveis. decorrido um tempo de euforia cega em uns e de resignação trágica em outros. Vê-se tudo o que esse determinismo econômico. que dele decorria necessariamente se não fosse corrigido. Um dos primeiros economistas a reagir contra o lado desumano da exploração capitalista é Simonde de Sismondi. afirma. inspirado por aquele das ciências naturais então em pleno desenvolvimento. B. a Verdade natural. 107 . os valores de liberdade prometidos pelo século das Luzes. o vazio. produto fatal. C. de início. logo se rebela contra todas as formas de despotismo: aquele que marcara o Terror jacobino e que se restaura sob o Império.. Histoire de lídée de nature. só vê na Natureza. Cf. Lenoble. p. de Genebra. Casamentos mais tardios com menor número de filhos diminuirão o crescimento demográfico e por conseqüência a pobreza.11 Não se pode melhor expressar. postos em seguida em ação pela Revolução Francesa. Sismondi escreve em 1803 obra intitulada “Sobre a Riqueza Comercial” onde preconiza o sistema de liberdade herdado de Smith.”. 347. e. Após a euforia dos primeiros economistas liberais e o catastrofismo de seus sucessores. R . Paris. Nasceu em 1773. Está-se no ápice da exaltação filosófica da Natureza divinizada. Mas. 27 de fevereiro de 1777. “Encontro-me. Dunoyer e S. o vazio espiritual destarte formado foi parcialmente preenchido. Essa crença fatalista. escreve. outrora livre. todos vítimas de um determinismo cego. O salário dos operários. Querer evadir-se dessa fatalidade é simplesmente insensato. assim como aquele da nova riqueza. ao ceticismo ou mesmo ao desespero. a Moral natural. as Virtudes naturais. Lettre à Frédéric II. Ricardo a via agir na “lei de ferro” dos salários. irracional. Este último é o famoso economista que exalta as “Harmonias Econômicas”. no campo político. Secretário da Câmara de Comércio do Departamento de Léman. A fatalidade da Natureza. traz em apoio das teses do capitalismo liberal primitivo. Não escondia seu entusiasmo ao ver desenvolverem-se. Say. segundo ele. D’Alembert fornece os primeiros indícios disso. depois. filho de pastor e herdeiro da ética reformada. jamais ultrapassará o mínimo necessário para a sobrevivência do operário e de sua família. Adota. conduz rapidamente. o desapontamento de um espírito lúcido e honesto.. dizia. revestida de poder crescente. escorraçando o cristianismo para substituí-lo pela Religião natural. mantido aparentemente surdo aos avisos e às regozijantes promessas de renovação espiritual e moral da humanidade... que a Palavra de Deus faz repercutir na desesperança de nosso mundo.futuro impondo-se disciplina moral rigorosa. Minha solidão estarrece-me e gela-me e assemelho-me a um homem que vê diante de si longo deserto a percorrer e o abismo da destruição no fim desse deserto. ora otimista. 1969. da inevitável concorrência.

é a participação de todas na renda nacional que tem origem no trabalho”. D . “é descobrir a combinação e a proporção entre riqueza e população. e por isso imoral a seus olhos. e sim o benefício que a produção distribui entre todas as classes que para ela contribuem. Esse economista liberal. segundo ele. enquanto cresce.mais tarde).. 15 Citado por Alfred Berchtold. que tende a “negar a existência do mal” e que caricatura o cristianismo concebendo a Providência como um poder frio. porque “não é o lucro do fabricante que constitui o interesse nacional. 14 Citado por Alfred Berchtold. Trata-se de refutação parcial das idéias novas difundidas por seu mestre. Cumpre “fazer participar o maior número possível de indivíduos” da felicidade comum. 1958. Cit. 108 . lançam ao desemprego seus operários.”13 O que importa. Paris.14 Fiel ao ensinamento da Reforma.. “A riqueza. escreve. a facilidade com que os industriais. despojados de toda renda até que reencontrem trabalho. sempre mais numeroso e mais miserável. P. 27.. realização do trabalho e do capital. Indigna-se contra a idéia de que se possam considerar as relações entre os homens sob ângulo estritamente abstrato e quantitativo. porque sem ética e sem preocupação com a felicidade global dos homens.15 Ele ataca.. Op. segundo o historiador A . insolente prosperidade de uma minoria dominante. Deve ser “o protetor do fraco contra o forte e o representante do interesse permanente. Horroriza-se ao ver a feição que nela assume o desenvolvimento industrial abandonado a si próprio pela ideologia do liberalismo integral. Op. tem uma vocação divina e que é chamado para corrigir as injustiças que nascem entre os homens. Sismondi não esquece de que o Estado. É por isso que. Sismondi genebrino. apenas falando friamente de progresso e de equilíbrios automáticos. p. 216. sem qualquer preocupação com os sofrimentos que estes padecem. por outro lado.12 Insurge-se contra a “crematística”. Cit. especialmente pela Inglaterra. o aumento da riqueza ao qual só interessa a economia política. negligenciou demasiadamente a repartição justa dos produtos da comuna. que garantirão o máximo de felicidade à espécie humana”. por mais profano que seja e que deva continuar a ser. p. Esse calvinista não suporta tal doutrina. Propõe um “eudemonismo humanitário e moral” que opõe ao “hedonismo calculista. ao contrário de seus colegas economistas liberais com os quais concorda em muitos pontos.. mas tranqüilo. diz. Cit. publica o primeiro volume de seus Novos Princípios de Economia Política cujo subtítulo é renovador: Sobre a Riqueza em suas Relações com a População. insensível aos sofrimentos dos mais despojados. Berchtold. Citado por D . com crença fatalista que consagre cientificamente a miséria dos assalariados. reconhece a utilidade da intervenção do Estado. egoísta e materialista” do capitalismo. Villey. A economia clássica. O proletariado amontoa-se sem proteção em vilas tentaculares. da riqueza produzida de forma solidária por eles. é o primeiro a inquietar-se verdadeiramente com a instabilidade do emprego e com o ritmo das crises 12 13 Cf. de um liberalismo esclarecido e generoso. no sistema liberal integral. é útil para “multiplicar as posses de todos os homens”. escreve ainda. de todos contra o interesse temporário e arrebatado de cada um”. Em 1819. Op. Petite histoire des grandes doctrines économiques. O legislador. viaja muito. Villey. 28. só é desejável na sociedade pelo bem-estar que difunde por todas as classes. Adam Smith. também.

A despeito da surpresa repetida das crises de superprodução que Sismondi predissera. diminui fortemente a demanda global. no clima de triunfo quase religioso da ideologia profana do liberalismo integral. Que extraordinária modernidade! Segundo a melhor ética reformista.. Decepcionado.”16 Sismondi é também um dos primeiros.. não nutria a esse respeito qualquer ilusão. produzem efeitos perversos.. Op. Paris. Cit.17 Mas. a propor uma legislação social assegurando aos operários melhores condições de trabalho e salário. 1966. motor do crescimento. harmonizando-a com as exigências de igual importância do amor. à qual se atinha firmemente Sismondi. 201. isto é. de produzir em todos os ramos de atividade.. abandonada a si mesma. É. p. Com instinto excepcionalmente premonitório. escrevia no fim de seus dias: “Eu grito: acautelai-vos. L’économie et la morale aux débuts du capitalisme industriel en France et en Grande Bretagne. que restam . esse liberalismo. da solidariedade. o repouso semanal obrigatório e a obrigação da empresa de conceder um salário mínimo aos trabalhadores demitidos. Sismondi preconiza um bem-estar modesto e digno para cada indivíduo. uma melhor redistribuição das riquezas produzidas. o primeiro a observar que o regime do capitalismo primitivo. 30. morais e sociais. Grito e ninguém me ouve”. A . Biéler. hajam convocado todas as energias latentes para secundá-los. hajam aplaudido de todo o coração. conforme a doutrina do Evangelho. Aliás. 109 . Mas. Provocam modificações profissionais demasiadamente rápidas para serem assimiladas por uma sociedade tradicional. em virtude da condição miserável à qual reduz os proletários quando não são protegidos pela lei. 17 Citado por A . suas idéias não hajam conseguido maior eco então. Berchtold. Sismondi chega até mesmo a prever também as contingências de um crescimento desenfreado e os efeitos desestabilizantes de inovações tecnológicas muito bruscamente introduzidas no mercado.. vós esmigalhais.. de aperfeiçoar. igualmente. notadamente o direito de associação (sindicalismo). Cit. eqüitativamente distribuído. Chrétiens et socialistes avant Marx. juntamente com o patrão social Daniel Legrand de quem se falará adiante). da justiça. Reprova nos economistas o fato de que. É o que provarão mais tarde. Epsztein. é um dos valores essenciais da humanidade. ela somente pode sobreviver subordinada a uma ética global. 16 Citado por L . a História dá-lhe razão. compreende-se que. testemunhas “de uma ânsia industrial que parece empolgar todos os Estados com um anseio de inovar. a que produz o verdadeiro liberalismo social generoso... (no plano prático. sem corretivo social. p.econômicas. em todas as aplicações das forças humanas. aumenta e reparte melhor a demanda interna. 113 sq. essa liberdade. Op. enquanto uma melhor remuneração. sem contrapeso ético. para rivalizar umas com as outras para seguir sempre mais célere. p. Cf. Se a liberdade. como valor autônomo secularizado. mesmo quando não possa mais oferecer-lhe ocupação completa. os aumentos de salário obtidos pelas lutas trabalhistas: o próprio capital lucrará com essa elevação do poder de compra. aniquilais os desgraçados. mutilados no caminho. entre os pensadores da época. também. de preferência a uma riqueza rápida para uma minoria e que escapa à maioria da população.

aplicando. os interesses do capital conduzem-no a reduzir ao máximo o custo de produção. escolher entre uma revolução industrial e social pacífica. não há injúria alguma.. capitalistas e trabalhadores. foi deputado radical na Dieta Federal. p. Muito consciente das vantagens para todos de uma liberdade tão ampla quanto possível. em 1847. Esta exigência leva necessariamente à luta entre duas classes hostis. que o capitalismo é o pai do comunismo. Restava ao oprimido alguma esperança de evitar provocar seu opressor. É preciso evadir-se dela. Diminuir-se-iam notavelmente as tensões políticas.. conduzida segundo os princípios de um liberalismo reformista democrático. escrevia Sismondi. é mister notar que esse encadeamento trágico já fora pressentido por vários observadores lúcidos. nada de cólera. Cit. James Fazy. Semelhante servidão impede “a massa trabalhadora” de produzir tudo o que poderia e. É necessário. Tornando-se chefe do movimento democrático na Suíça.. Op. contribuem para a prosperidade geral da nação. por conseqüência. não percebe que prejudica seu país e a si próprio. A “fria opressão da riqueza” não pode evitar o desenvolvimento de antagonismos de classe. Na fria e abstrata opressão da riqueza. esforça-se por só deixar ao trabalhador o justo necessário para manter-lhe a vida e retém para si mesmo tudo o que o trabalhador produziu acima do valor dessa vida”. Essa ciência deveria estudar prioritariamente a situação dos pobres. Além desse frio anonimato. seria necessário que a preocupação maior da economia política fosse. afastando os trabalhadores de suas reuniões e de uma associação em prol do progresso.” O despotismo do capital sobre o trabalho é o de uma nova “espécie de aristocracia” escreve também Fazy. se as regras do trabalho produtivo “fossem esclarecidas pela discussão entre proprietários. é “para uma espécie de servidão” que conduzem tais concepções. viram-se indubitavelmente da parte dos senhores atos de ferocidade que fazem estremecer a humanidade. algum motivo havia excitado sua cólera ou sua crueldade. relação alguma homem a homem”. denuncia a ilusão que faz os capitalistas crerem que. Reprova. Ver-se-á como se produziu essa filiação. exercer insuportável tirania sobre os operários. “O capitalista. nos tempos da escravidão. ao menos. advertia já esse economista clarividente. Mas. a quem se referiu em numerosos escritos publicados durante a Restauração. “Nos tempos da maior opressão feudal. Pode-se dizer.. portanto. para Sismondi.Um dos produtos históricos gerado pelos vícios de um liberalismo não controlado foi o comunismo. muito antes da carta.. Profeta. mas do que deveria ser. “E o capitalismo que acreditou defender seus interesses sempre impedindo o trabalhador de deliberar e mantendo-o numa dependência forçada. e redigidas no seu interesse comum”. como ele também. Ao contrário. diz ainda Sismondi. pois. outro economista protestante. com efeito. nascido em 1796. Um pouco mais jovem que Sismondi e de Genebra como ele. encurralando os operários numa miséria crescente. notadamente nos financistas e detentores de capital. Espztein.64 Por isso. entusiasta pelas teorias de Adam Smith. associando-se democraticamente o trabalho às decisões do capital. e sem exagero. 113 sq. 110 . Mas antes. do que se denominará mais tarde “a participação operária”. e a manutenção desse 64 Texto citado por L . não o estudo do que é. de mais consumir. fora. o princípio e “o espírito de associação” ao sistema de produção. ele não lhe ressalta menos os limites. quando se examina bem o encadeamento dos fatos.

Quiseram fazer uma contrareligião. Cf.1864). Cabet.. Biéler. nenhum desses economistas de vanguarda foi compreendido. pois. Fazy. O comunismo. e não o 65 66 J. de descendente direto do capitalismo. Para os trabalhadores ela desempenhou o papel.. cit. Sublevaram-se. 1889) e da Terceira (Moscou.66 Vítimas das gritantes injustiças da nova civilização industrial. é preciso reconhecer objetivamente. Depois das disputas amargas da Primeira Internacional (Londres. p..absolutismo retrógrado que é o capitalismo primitivo. uma crença profana que substitui a fé cristã. é o material. A . Esse parentesco é. Contra a ideologia do liberalismo integral. proposta por Karl Marx e F. 60. atestado pelos fatos. E ambos consagram a primazia dos valores econômicos sobre todos os demais. Para a multidão crescente dos proletários oriundos da revolução industrial do século XIX. portanto. 203. mas filho assim mesmo.65 Na realidade. a do marxismo. como se acabou de dizer. conforme suas concepções. também. Principe. Rejeitaram a ideologia profana do capitalismo primitivo. Trata-se. 111 . cit. também. de tipo mítico. Berchtold. e em seguida mais radicalmente no comunismo revolucionário e totalitário. igualmente materialista. adotaram rapidamente nova ideologia profana.. Citado por A . Essa ideologia dava prosseguimento aos ensaios pouco sedutores dos socialistas ditos utópicos. o marxismo incarnou-se parcialmente nos socialismos reformistas e democráticos. que exerciam as crenças profanas precedentes na burguesia triunfante secularizada. Filho indesejado e incômodo. Foi engendrado. A História confirmará as admoestações de Madame de Staël. Romperam com estas os últimos laços. como Fourier. pela miséria decorrente do desenvolvimento industrial. buscando daí em diante alhures a verdade. 250. p. Para James Fazy. Isso significa que.. Op. em todo o caso. que constatava que “a violência das revoltas dão a medida dos vícios das instituições”. por certo. feitas a respeito da Revolução Francesa. tratouse desta vez de uma religião da anti-religião. Constata-se.. contra a cumplicidade que lhe emprestou certo silêncio das Igrejas estabelecidas. de cabeça para baixo.. o marxismo tornou-se uma esperança. Seu pai deve ter a coragem e a honestidade de aceitar essa paternidade e de assumir-lhe as conseqüências. aliás. Chrétiens et socialistes. Louis Blanc e seus êmulos. o protestantismo posto em prática é gerador dum reformismo social inteligente. cada um prometendo um futuro radioso para quem lhes segue as instruções. Engels.. p. que o marxismo se tornou também uma “religião secular”. 1919). que ainda causa estragos à indústria e que conduzirá necessariamente a novas revoluções. 278. Proudom. Mas. Op. cit. que capitalismo e marxismo são ambos subprodutos da ideologia precedente do progresso contínuo. apresentando-se como crença de tipo quase religioso. 243. Op. sob diversas formas. Marx e Engels operaram conscientemente verdadeira subversão do cristianismo de onde provieram. segundo a terminologia já citada de Raymond Aron. as massas trabalhadoras revoltaram-se de fato. Não foi por acaso. segundo imagem que lhes era cara. Essa nova ideologia é. não caiu do céu subitamente. em consonância com o sistema do liberalismo integral. da Segunda (Paris. que precede e determina o espiritual.

67 Foi. cit. Essa carência encorajou Marx e Engels a promoverem essa subversão radical que se acaba de evocar. nasceu em Barmen em 1820. devendo o espiritual comandar e modificar o material. esses esforços foram. dele apoderar-se. que penetraram até nos bairros industriais e nos pardieiros miseráveis do proletariado urbano. especialmente na França e na Alemanha. sobretudo nas relações econômicas. afora aqueles do metodismo inglês. desemprego. Foi editado em russo em Genebra em 1860. mas graças à subversão revolucionária brutal. Ali se lê: “Toda a história da sociedade humana até nossos dias é a história da luta de classes”. o de um progresso. publicado em alemão..a religião é o ópio do povo . Os discípulos de Marx e de Engels foram os primeiros a se mostrarem surpresos ao assistir ao triunfo do comunismo na Rússia. 112 . em particular os do cristianismo social protestante e do catolicismo social. Quanto a Frederico Engels. a via aliás preferida pela Reforma. também. Lefranc.contrário. que grassava àquela época no seio da burguesia industrial. haviam deparado um poder despótico e hierárquico ao qual o povo. op. para governar. antes que em qualquer outro país mais industrializado. empreendidos por corajosas minorias cristãs. Esse despertar suscitava magníficos impulsos de generosidade humanitária para aliviar os sofrimentos do proletariado. Chega à conclusão de que “a guerra dos pobres contra os ricos é inevitável”. Esses dois autores redigem em 1848 o famoso Manifesto do Partido Comunista. de tipo apocalíptico. os pais de Karl Marx (nascido em Trèves em 1818) queriam que seguisse um catecismo protestante. o renascimento pietista dessa época era salutar reação contra a onda do liberalismo filosófico freqüentemente ateu. onde analisa as fases clássicas das crises econômicas (recessão. ele também assegurado.data de 1844. até quando ele produz exatamente essa subversão dialética e desenvolve seu materialismo militante e revolucionário. depois em francês e em inglês. Mas lá. na opinião deles ao menos. Mas. era incapaz de conceber reformas estruturais da sociedade pela via política. louváveis e dispersos. Engels redige As Classes Trabalhadoras na Inglaterra. Mas. p. à religião que esses autores tomaram emprestado o caráter messiânico de sua ideologia. enquanto que alhures a democracia estava já em processo de realização. Ela devia proporcionar aos proletários a felicidade. Dele guardou certa inspiração idealista na primeira parte de sua existência. já que a religião demonstrava. não mais pela via do progresso contínuo prometido pela ideologia do capitalismo. e instalar-se no seu lugar. e em seguida retomada). mas por outro caminho. 67 Cf. em ambiente muito fervoroso de pietismo alemão. em geral. de inspiração reformada. A fórmula de Marx . a piedade muito individualista. tanto protestantes quanto católicas. Falar-se-á no capítulo seguinte dos numerosos esforços. Impunha-se ser anti-religioso. Ora. como o ensina a ética cristã. Judeus de nascimento. estava ainda docilmente submetido. via de regra. e assim retardaram o avanço do comunismo na Grã-Bretanha. no sentido de desviar o desenvolvimento industrial ocidental na direção de maior justiça social e menores sofrimentos e humilhações para o proletariado. G . 84. ser incapaz de promover a renovação fundamental das estruturas da sociedade. que ele despertava. neutralizados por uma cristandade passivamente submissa à ideologia dominante do “laisser-faire”. Bastava. portanto. No ano seguinte.

que subsistem apesar de tudo. o orgulho nacional.) As crises econômicas sucessivas. em virtude dessa divina e indelével vocação do homem. geralmente conservadoras. Acham-se desorientados depois do desmoronamento das ideologias substitutivas da fé cristã. a compulsão pela morte. ressurgiram as velhas ideologias pagãs da nação consagrada. acentuaram os conflitos sociais. Estas ideologias. que acompanharam regularmente o desenvolvimento do capitalismo industrial. como “solução final”). O absurdo e o vazio espiritual apoderam-se dos povos. otimistas e progressistas. A tempestade das novas ideologias profanas. e depois os ossários e a shoah nazista (o sacrifício e a exterminação dos judeus. esboçassem proposições de reforma social no rastro distante de suas minorias proféticas. em seguida. o instinto racista. Não somente elas os iludiam. isso não deve mascarar as virtudes magníficas que todo ser humano pode aliás exibir. na conformidade da vocação de santidade que Deus não cessa de endereçar-lhe. seitas diabólicas assassinas e financeiras. (Ver o capítulo seguinte. pretendia-se aniquilar uma vez por todas as ilusões de ideologias antagônicas. em conseqüência do processo de secularização do pensamento. a profundeza das trevas. não há mesmo mais ética alguma. Não mais repousa sobre visão otimista da humanidade. o ódio. Esses conflitos acabaram por precipitar as nações ocidentais nas guerras cruéis do fim dos séculos XIX e XX. Então. A ética de tais ditaduras é. o fascismo. o rancor cego.Será preciso aguardar os primeiros sucessos das lutas operárias para que as Igrejas estabelecidas. etc. nas quais haviam colocado sua confiança. porém. a crueldade. Mergulha suas raízes no que há de mais profundo e mais obscuro no homem. Mas. que se desencadeiam em nosso dias um pouco por todas as partes. do nacionalismo quase religioso. e que lhes serviam de crença. aspirações permanentes para o Bem. Vestígios da criatura de Deus original permanecem em toda pessoa humana. Pensava-se que a antropologia bíblica estava ultrapassada. É à luz do Evangelho que esses 113 . do racismo e do autoritarismo militar e totalitário. haviam conseguido fazer crer que o homem não seria mais capaz de perpetrar os horrores que nos aterrorizam hoje (internacionais do crime mais poderosas e mais ricas do que os governos. fundadas numa visão progressista e determinista da História. Reencontra-se essa crueldade cega e esse ódio implacável no furor das “purificações étnicas” e nas violências anárquicas perpetradas ao ensejo dos massacres de todas as procedências. cada vez mais estimulados pelas ideologias em competição. seja qual for seu estado de degradação atual (Pascal). mas também os tranqüilizavam arrastando-os a gloriosas cruzadas. onde cada indivíduo sabia que o Bem estava do seu lado e o Mal no lado adversário que era preciso abater. como as precedentes. Mediante esse retorno aos antigos demônios. Esses espantosos excessos nos lembram. otimista quanto à regeneração para a qual Deus chama a humanidade. salvo uma ética diabólica: o triunfo do Mal absoluto. É. massacres cegos de dezenas de milhares de vítimas. Totalitarismo de esquerda e totalitarismo de direita se equiparavam em seus excessos. o nazismo e o franquismo desencadeou-se sobre a Europa e.). não menos denuncia a onipresença do Mal no mundo. sob muitos aspectos e malgrado as aparências. muito próxima daquela do comunismo estalinista. Com o gulag comunista. pretendendo pôr fim a tais oposições de classe social. nas ideologias e nas crenças de todas as origens. nas quais indivíduos e grupos são capazes de cair. a qual. sobre o mundo.

nem nós mesmos. enquanto valores secularizados difundidos pelo mundo. não poderia desacreditá-los globalmente. deu-nos maravilhosa chave para compreender e penetrar todas as crenças do mundo. isoladas. Assim. (Pensées. nem Deus. se não estivessem acompanhadas dessa afirmação globalizante e universalizante: “Considero Jesus Cristo em todas as pessoas”. de transformar inteiramente a natureza do homem e suas relações sociais. não sabemos o que seja nem a nossa vida. de mais ou menos longa duração. E na medida que não possuam a pretensão. também. E seriam restritivas. assim como todos os valores profundos que contém a maioria das religiões não cristãs. elas permanecem portadoras de certos benefícios para a vida dos homens. humana e divina. “Fora de Jesus Cristo. filósofo. são úteis. em lugar de Cristo. No tocante às ideologias. nem a nossa morte. e notadamente para ajudá-los a recuperar a nobreza de seu trabalho e de sua vocação social. Ver-se-ão. tais ideologias transformam-se em crenças enganosas. 548) Essas premissas magistrais de todo o conhecimento profundo da realidade. que é Blaise Pascal. O parágrafo seguinte tenta pôr em evidência o modo de descobri-los. 785) As ideologias profanas que foram mencionadas acima e as diversas crenças seculares ou religiosas que seduzem os homens. para restituir a todos os homens sua dignidade. não há política válida sem projeto de sociedade. no curso desses períodos trágicos. notadamente para a elaboração de projetos políticos temporais numa sociedade laica. e isso especialmente por cristãos de todas as confissões engajados no movimento ecumênico. em todos os períodos da história. supostamente. Urge descobrir o que cada uma contém de válido para a construção provisória desse mundo.” (Pensées. Todavia. e em seguida no resto do mundo. de serem idolatradas. O bom uso das ideologias profanas e das diversas crenças. A preciosa liberdade cristã no diálogo das religiões. sem a Escritura. muitas vezes inconfessada. ou o cristianismo enquanto religião. aliás. Eles devem ser respeitados e cultivados. portadoras de falsas esperanças. se Pascal houvesse citado a Igreja. em que consiste a política. no próximo capítulo os esforços magníficos que têm sido empregados. Levam ao desencanto rápido 114 . que só tem Jesus Cristo como objeto. O fato de que esses valores de nossa cultura judaico-cristã hajam sido arrancados de suas raízes espirituais pela secularização do pensamento e da vida moderna. e que hajam substituído a religião que os controlava. a despeito de seus efeitos enganosos. fez crescer e amadurecer na civilização ocidental. físico e matemático. adoradas e erigidas em crenças capazes. freqüentemente frutos que o cristianismo histórico. nada conhecemos e só vemos escuridão e confusão na natureza de Deus e na natureza própria. O eminente pensador. seriam impostura intolerável. Muitos desses valores são. Com efeito. que constitui sua ideologia. são muitas vezes portadoras de valores humanos que merecem ser reconhecidos.vestígios podem ser detectados. separadas dos outros valores. 5. mantendo-os num conjunto ético coerente. a despeito das suas múltiplas infidelidades.

esse Salvador único é também o verdadeiro homem. têm razão. ele se disse claramente o único Filho de Deus. em qualquer ética e qualquer religião. para muitos cristãos mal informados. que dirige a todos os homens de qualquer raça. É a criatura humana perfeita. entretanto. Pode-se não crer nisso e isso deriva da liberdade que Deus concede a cada indivíduo. 21-22. 1. que Deus ama. Essa distinção entre a religião cristã e Cristo é capital. encerrando-o em seu empreendimento inteiramente humano. em que o Criador incarnou sua Palavra. Cristo de quem falam as Escrituras. Não se pode honestamente. v. com seus aparatos eclesiásticos e seus ritos. pretensamente detentoras da verdade única. v.14-21. 1. etc. sobretudo. apresentam sua religião. quando nos referimos a ele. qualquer crente cristão. estejam eles no ápice de uma hierarquia considerada sagrada. Importa. existe sempre e em cada um dos seres. De fato. Em compensação. negar que Jesus de Nazaré se haja apresentado como tal. decaída. de distinguir. porque essa imagem de Deus no homem está hoje desnaturada. Dá-nos assim. Pois. confiscam de fato o nome e a pessoa de Deus. (Cf. a ética dessas ideologias políticas conserva alguma utilidade. Pode identificá-la por si mesmo na comunhão com Cristo. foi por ele restaurada. cometem uma impostura. Epístola aos Colossenses. 1. o dispensador exclusivo da comunicação divina entre os homens. Aquele do qual esta religião e estes crentes cristãos prestam testemunho. Num certo sentido. é uma religião como as outras. ou quase. não pode contestar. aos Efésios. apesar disso. daquele humanismo das origens agora perdido. É o homem novo. no momento. reconciliada com Deus. uma grande esperança. o meio. criada à imagem de Deus. porque não são facilmente evidentes. A antropologia cristã é uma antropologia específica. pode prevalecer-se de ser diferente e superior a qualquer outro fundador de religiões. e suas estruturas eclesiásticas inscritas numa história muito profana ilustrando épocas bem determinadas. o novo Adão (Cf. pensam. se é sério e honesto. porém. é que ela é em parte resto da ética humana original. É que cada um é convidado a recuperar essa imagem. 5. com suas formulações dogmáticas vinculadas a uma linguagem e a uma cultura. 42-49). com suas múltiplas confissões. sua religião. Ora. como o lugar da revelação única de Deus. Mas. Romanos. a religião cristã. c. de uma parte. cp. c. qual é sua origem e qual é seu destino. Ora. e. qual é sua natureza. diferente de qualquer outra. Ele e só Ele. fazer a distinção entre. o que é de Deus e o que 115 . seu Pai. Com efeito. o representante autêntico da humanidade que. É a única referência segura de que dispomos para saber quem é o homem.). o cristianismo não poderia prevalecer-se de alguma superioridade absoluta sobre as outras religiões. reconstituída. em parte pelo menos. e não a religião cristã. enquanto religião histórica. com o qual só compartilha seu Espírito. Só pode ser concebida à luz da Palavra de Deus. o fato de que Cristo se haja apresentado como o único representante legítimo de Deus. Evangelho de João. Convém introduzir aqui certas precisões a respeito de tais afirmações. ou simples membros de outras seitas reservadas. c. c. porém. suas querelas e seus escândalos que atestam quanto ela é uma realidade muito humana e imperfeita.aqueles que nelas põem sua confiança. a que revela aos homens quem era a criatura original. sempre que cristãos. na expectativa do advento definitivo do Reino de Deus. para todo crente. com base em inumeráveis testemunhos das Escrituras que nos foram transmitidos nos Evangelhos. I Coríntios. 15. doutra parte. Se. E todas têm o mesmo valor. Conserva vestígios longínquos daquela humanidade que foi criada à imagem de Deus.

porque. . o que lhe parece útil estimular. sobretudo. todas as crenças ideológicas e todas as morais em vigor sobre a terra. II Coríntios. Independência da qual não está sempre consciente e da qual muito raramente aproveita. com a maior liberdade. No plano político e face às ideologias que foram mencionadas. perdeu (Cf. desconfia do laicismo. Por isso. “Considero Jesus Cristo em todas as pessoas. que deveriam ser as suas. 6.). discernir em cada uma delas os vestígios da ética do homem original que subsistem em cada pessoa humana. Pois. e o que. em cada religião. a reinterpretarem a mensagem e a redescobrirem tudo o que a ela corresponde na sua própria cultura religiosa. ao contrário. v. c. Pode. o programa que lhe parece momentaneamente mais justo e mais urgente para construir uma sociedade viável e duradoura. v. 17-21. de fato. contatar e apreciar todas as crenças religiosas. nem sempre 116 . para poder estar em todas as pessoas e poder ser modelo em todas as situações”. o que é constitutivo do homem verdadeiro e o que lhe é alheio ou contrário. etc. Cristo dá-nos a ver o que é conforme com a identidade primitiva de cada ser humano. em princípio. a esse Jesus de Nazaré que fala através dos Evangelhos. a fim de ajudar os cristãos que não são herdeiros da cultura ocidental. a laicidade erigida em ideologia nova. o crente. com outros irmãos de facção diversa da sua.. 15. 5. não se situa à esquerda. na qual lhes fala o Evangelho. em tal lugar. portanto. o que é bem e o que é mal. parcialmente aqui embaixo. que o cristão crente prefere um Estado laico a qualquer outro. Para isso ele assumiu essa infeliz condição (humana). e plenamente na realização futura e plena do Reino de Deus. destarte. a fim de realizar. Em resumo. o cristão liberado acha-se. se tem a coragem de usar de sua liberdade. Vestígios que não são suficientes para que o homem possa deles prevalecer-se e ser reconhecido justo diante de Deus.não é dele. que julga poder o cidadão ser bom cidadão. c. na precariedade de nossa situação. essas virtudes. Está. pode livremente selecionar. nem à direita. e em seguida mundial. para que cada indivíduo possa governar-se aqui embaixo. colocado numa perfeita independência de espírito. esse ser agora convidado a tornar-se a criatura de Deus original cujas virtudes naturais. em tal momento e em tal circunstância. equipado para engajar-se temporariamente na cidade. mas suficientes. é graças a essa referência única ao Filho de Deus. lhe parece dever ser firmemente combatido. porque seus critérios de julgamento têm outra origem. diz Pascal. que o cristão crente pode discernir o que há de bom e de válido em todas as civilizações e em todas as religiões. Pode abordar. diz Pascal (Pensées 425). nem no centro. de modo incondicional. libertado dos crivos ideológicos habituais. tão grande é o poder de sedução das ideologias de substituição. Todavia.. Deve. que os políticos no poder procuram sempre impor. Na política. Mas. Ora. em toda a ideologia e em toda a religião. este não lhe propõe oficialmente uma ideologia ou uma religião de forma compulsória. mesmo que um Estado laico nunca exista verdadeiramente. Gálatas. o laicismo transformase rapidamente em ideologia profana que se oculta em proveito de outra. em cada cultura. em cada grupo humano. como se disse a respeito do vazio espiritual propagado pelo processo de secularização do pensamento ocidental. é-se convidado a recuperá-las. Mas. se desdenha de toda religião. prisioneiro que é muito freqüentemente das convenções sociais e religiosas de seu meio. quando são descobertos com o auxílio do Evangelho. fervoroso defensor da laicidade. usar desse discernimento no seu trabalho missionário e evangelizador.

também. pior ainda. também. Importa ressaltar. É-lhe. Tal convicção permite-lhe nunca desesperar. a modernidade à tradição. Guillaume le Taciturne. sempre inclinado a cometer erros e inventar novos ídolos ou ideologias. Todavia. Nunca é prisioneiro de um sistema ou de um partido. seu comportamento e suas opções políticas. E deve sempre recordar que. a tradição não contivesse vestígio algum da humanidade autêntica. profana ou religiosa. e à sua ética. que todo o futuro do mundo é condicionado pelo Reino de Deus que se aproxima. é comparável ao uso de um contador Geiger. toda religião induz uma política e toda política oculta uma crença. o cristão crente deve permanecer humilde. uma real confusão na total obscuridade. única realidade última para a qual marcha o conjunto da humanidade e toda a criação. e como se. em processo de cura. pode-se dizer que a referência ao Cristo dos Evangelhos. Tomando-se emprestado às ciências físicas imagem recente. que às vezes se apresenta como o produto da tolerância. ao preço de duros sacrifícios. é vão opor. as radiações perigosas nas éticas. arma-se com o que Emmanuel Mounier denominava otimismo trágico ou com o que Denis de Rogemont chamava pessimismo ativo. econômicas e ecumênicas de sua vocação. Lembrase de que ele próprio é doente. como já se sublinhou acima.confessada. Sabe. confortado por sua vocação de testemunha no mundo. que marcha sempre para um mundo novo que virá e cujos sinais precursores tenta discernir. nem ter sucesso para perseverar”. ideologias e religiões que lhe são propostas. 117 . Quaisquer que sejam os valores que reconhece na sociedade que é a sua. que o poder tenta fazer triunfar. podia dizer: “Não é preciso esperar (o sucesso) para empreender. de que vive numa sociedade desnaturada que tem necessidade de suas admoestações e de sua coragem para prosperar. que revela por momentos os abismos de crueldade e de fanatismo de que é capaz essa humanidade (comprova-o o que ocorre hoje em tão numerosas regiões do globo). Esforça-se para contribuir para isso mediante seu testemunho pessoal. também. ou no que discerne de bom no futuro. recorda-se. ao contrário. que não perde de vista esse horizonte triunfal da História. que essa régia liberdade do crente cristão no diálogo das crenças e das religiões não deve ser confundida com certa indiferença tépida ou. Mas. Ver-se-á no capítulo seguinte como os cristãos viveram essa marcha em um mundo sempre ambivalente e como progressivamente descobriram as dimensões políticas. isento de distorção espiritual. ao contrário. É nessa perspectiva encorajadora que um cristão crente e empreendedor. necessário lutar sempre para superar a corrente de desumanidade e promover maior humanidade. como por vezes se faz. Sabe. Seu sossego terrestre é sempre condicional e revogável. Nessa marcha caótica. Essa referência permite ao homem com ele equipado descobrir. Um cristão crente é livre para escolher suas referências tanto no passado como no presente. o crente. expondo sua vida e comprometendo-se. ao lado das forças benéficas que haja assinalado. como se a modernidade representasse um valor em si. Por esse motivo. por conseguinte. sabe que há sempre contravalores que devem ser eliminados e valores antigos ou novos que devem ser estimulados e propagados.

80% das matérias-primas. ainda por muito tempo. científica e tecnológica prossegue e acelera-se no mundo inteiro há três séculos. Paris. as relações inversas. é igualmente demasiado difundida para que se permita ocultar. G . as mentalidades e as estruturas econômicas e políticas de todas as sociedades humanas68.Capítulo V Os Combates pela Justiça Social O Engajamento das Igrejas e o Ecumenismo 1. para serem enumerados aqui. Cf. A . Depois da teoria. carregadas de esperança em virtude de modificação na evolução econômica e social do mundo. 1982. 118 . melhoria extraordinária do bem-estar e do bem-viver de parte não negligenciável da população do mundo. Esteva. os costumes. social. Seus benefícios. as catástrofes que tal crescimento cego e irresponsável reserva para as gerações futuras. Lausanne. Biéler. La révolution industrielle. 1990. também. os ambicionam. Léglise et les pauvres. deles privados. demasiadamente numerosos. Les Eglises chrétiennes d’Occident et la prise de conscience progressive des problèmes socio-économiques de la révolution industrielle. Lausanne et Paris. E a falsa idéia de que tal propagação seja possível. 70 Cf. Rist. A grande surpresa do desenvolvimento louco. como a Revolução Industrial. Entretanto. É necessário agora sublinhar o fato de que nenhuma outra revolução da História transformou. de forma tão radical e tão permanente a ordem social. Max Pietsch. Acaba-se de evocar sumariamente a emergência das crenças ideológicas profanas no Ocidente e sua influência sobre o desenvolvimento econômico do mundo. Le Nord perdu. também. são demasiadamente conhecidos pelos que deles usufruem. sem a degradação rápida e trágica do ambiente humano e natural. 85% da madeira? 68 69 Cf. a esperança de vê-los propagarem-se automaticamente pelo conjunto dos habitantes da terra.69 O balanço desse terremoto transformador consta de ativo e passivo. Rahnema et G . bem como pelos que. 1963. como o imaginam todas as ideologias profanas que preconizam um crescimento sem limite. von Garnier escreveu: “Não é imoral que 22% dos habitantes (os do Norte) consumam 75% de toda a energia mundial. 70 A propósito da Conferência Intergovernamental do Cairo sobre a População em 1994. os hábitos. C . Ressaltaram-se. de Santa Ana. em J . atesta-se cada vez mais ilusória. a prática. como as carências desse desenvolvimento engendraram por sua vez novas crenças. M . Repères pour l’après-développement. Essa revolução moral. isto é.

a socialização das 71 72 C . 1993. von Garnier.72 Simultaneamente. 11. de tortura e de repressão. A acumulação dos lucros incitava tanto à expansão rápida das novas indústrias quanto à conquista de novas colônias.o modelo de desenvolvimento ocidental. é tal que a confusão da história contemporânea só faz complicar-se ainda mais. entre o suicídio coletivo e a utilização inteligente das conquistas científicas”. far-se-iam necessários os recursos de dois planetas pelo menos” para realizá-lo. isto é moral. p. é uma fuga dos países do Norte diante de seus próprios problemas. Mas ninguém. . que preparam despertar apocalíptico. Mas. 27. “revoltar-se contra “a explosão” demográfica dos países do Sul. em todos os continentes.Caso se aplique ao resto do mundo . Ainda sobre o assunto da Conferência Mundial sobre a População. essa matéria tem dimensão não apenas pessoal. meios de aniquilamento químico. 73 C. A servidão industrial nas novas aglomerações tentaculares prosseguiu. é proposto como regra de conduta universal. nenhum economista especialmente. recordemolo. Des protestants engagés.07. é já relativamente antigo. Citado por R . Paris. le christianisme social 1945-1970. 119 . mas com objetivos diferentes”. sob tal ótica.94. técnicas permitidas e proibidas. bem como as forças militares necessárias à expansão colonial lá longe. “Um suíço consome 15 vezes mais recursos naturais que um habitante de Bengladesh. a par com a exploração dos indígenas nas colônias. destarte. em futuro mais ou menos próximo. massas humanas inumeráveis proliferam.. massas imensas que.71 Essa visão de crescimento desenfreado. também. Quem pois. realmente. acampam e se amontoam na periferia das cidades iluminadas. e isso tanto mais seguramente quanto mais estivessem às expensas financeiras do Estado os custos da infra-estrutura indispensável à expansão industrial da metrópole. descontrolado. mas também de ética social.” Por outro lado. mas seus efeitos multiplicadores só começaram a tomar feição sempre mais perturbadora a partir das últimas gerações.é aliás o que se procura fazer para dele tirar proveito . von Garnier. como se viu. C. reservadas para as minorias.” “Para os protestantes. pode afirmar ter compreendido suficientemente bem o processo de tal crescimento para pretender que se possa controlá-lo hoje. Riquezas inacreditáveis e potencialidades magníficas de desenvolvimento acumulam-se em todos os centros importantes da civilização técnica. esmagadas sob o peso da miséria e da dependência.. biológico ou atômico. Après la Conférence préparatoire de New-York. As causas de conflito multiplicam-se. ações devem ser empreendidas tanto no Norte quanto no Sul. repetir sempre “há filhos em demasia”. A renda do capital na indústria continental repousava nos mesmos excessos que nas plantações ou nas minas dos países colonizados. no Journal de Genève. ibid. Crespin. ao mesmo tempo. para usos civis ou militares. é mais superpovoado?”73 Esse fenômeno. Vai precisar escolher. desenvolvem-se. Alcançava-se. von Garnier escreveu também: “O Vaticano parece restringir o problema demográfico à questão do controle de nascimentos. no momento em que adquire dimensões mundiais. No jornal “Combat”. ao mesmo tempo que se aperfeiçoam as técnicas de subversão e os instrumentos de destruição. A complexidade de seus componentes. Albert Camus escrevia já em 1945: “A civilização mecânica acaba de atingir a seu último degrau de selvageria. Nestas florescem o luxo e a abundância. e ao enorme medo do aborto.

em ações da verdadeira caridade e em opções políticas por ela inspiradas. justamente quando os acaba destruindo para uma multidão de pessoas. acrescentar-lhe saldo credor. é de natureza a interpelar fortemente os cristãos. Cai em estado de dependência econômica. nas condições normais. os comportamentos que lhes recomenda o Evangelho. p. criatura de Deus. caracteriza-se por uma situação sociológica e antropológica perigosa na qual o homem é despojado da propriedade. muito freqüentemente essa compensação só consiste em distrações e em prazeres que não são menos mecanizados e vazios que o trabalho”. O meio de realizar a vida interior. 36. Constituem exceção. massas inteiras a seguir líderes. a despeito dos serviços reais. tal qual é construída por uma tecnologia do lucro. a do capitalismo primitivo. Freiburg am Brisgau. “O fenômeno da proletarização. 1941. Quanto mais se torna sensível o vazio interno do trabalho. Impediram-nos de adotar. mas insuficientes. também. É desenraizado. desligados dos laços familiares e de relações de vizinhança. Numa palavra. Tais sentimentos paralisaram.” “Ademais. de fenômeno que destrói radicalmente a natureza do homem. militarizado no seu trabalho. tradução francesa. muitas vezes a custo de duros sacrifícios pessoais e julgamentos desdenhosos provenientes de seu círculo de amizade. Que sinistro balanço para uma ideologia. que fornece de modo totalmente desequilibrado. Die Industrielle Revolution. 120 . Assim. 75 Ibid. que pretende valorizar o significado do trabalho e a responsabilidade individual. O revés surpreendente e mais grave ainda das ideologias opostas não pode servir de escusas e de justificativa para tais resultados. Trata-se. nos países ricos e mais ainda nos países do Terceiro Mundo. a proletarização carrega em si mesma um fator poderoso de desmoralização. 74 Max Pietsch. Mas. muitas vezes os cristãos. e a deixar-se levar por sentimentos revolucionários. a respeito dos sofrimentos humanos. mas em progressão nas grandes regiões do Sul. Seu temor os conduz muitas vezes a sonhos e políticas de dominação e repressão. ao mesmo tempo que a privatização dos lucros em benefício principalmente das minorias. escreve Max Pietsch74. do crescimento e da publicidade. que prometem porvir sorridente. não se pode melhor descrever a vaidade profunda da sociedade de consumo mundial. importantes minorias que se engajaram. dilapidando o salário. torna-se vulgar utilidade e as horas empregadas no trabalho inscrevem-se no passivo do balanço da existência quando elas deveriam. e ainda se engajam. Esse processo de proletarização e empobrecimento. prossegue o autor. compreende-se que essas frustrações múltiplas hajam conduzido.despesas a cargo da comunidade. e isso ainda mais quando se sentem ameaçadas e se apegam a seus privilégios raramente merecidos. afinal. Paris 1963.75 Transpondo e estendendo essas observações para o conjunto da civilização técnica moderna. o que caracteriza a proletarização é a desvitalização e a despersonalização do homem. porém. puramente materialista e vazia de sentido. o trabalho. mais se procura compensação. se bem que atenuado hoje nos países do Norte. Tornam-no alheio à natureza e mecanizado nas suas atividades cotidianas. e conduzam ainda hoje. Nem também surpreende que as pessoas abastadas. considerem insuportável tal disposição para a revolta. privado em todos os domínios de posições de retirada.

é o socorro direto e imediato proporcionado àqueles que sofrem física e moralmente. Hoje. onde foi celeremente dominado pelo marxismo revolucionário. As obras de mútuo auxílio material e de formação espiritual e moral são frutos tradicionais da fé. que a caridade dita ao cristão. as Trade Unions. criava escolas nas favelas. nascidos do desespero e da miséria desse proletariado. nas regiões mineiras e industriais. o conformismo com ideologias dominantes paralisa também muitos cristãos diante dos avisos circunstanciados dos ecologistas. Os cristãos em socorro dos pobres. desde 1830. de forma corajosa e lúcida. os Batistas. 121 . os Quakers e os Plymouth Brethern. O primeiro movimento. que agitou a Igreja 76 Cf. no seio mesmo do proletariado industrial. os metodistas colocaram-se entre os primeiros a prestar socorro aos alcoólatras de maneira sistemática. um dos discípulos de Wesley. a caridade cristã pôs-se a agir na medida da renovação espiritual das Igrejas. Na Inglaterra. Esse movimento religioso excepcional conseguiu despertar. freqüentemente acompanhada ou precedida por revolução democrática. E esses frutos multiplicam-se regularmente com o despertar da fé no seio de uma população. agindo em diversos níveis. já que trabalhavam como mão-de-obra barata todos os outros dias da semana. que fere os pobres e que não conduz a nenhuma decisão política corajosa. bairros de pardieiros. Procurou responder ao crescimento dos sofrimentos populares. Quando se examina o comportamento dos cristãos até nossos dias e durante todo o curso dos séculos de turbulências que assinalaram a revolução industrial ocidental. Biéler. a reforma das prisões e a luta contra a escravidão. foi influenciada pela ética cristã. Atentos aos novos flagelos. Em 1785 já. depois nas colônias. Penetrando até nos meios mais desprovidos do proletariado. contra os danos já irreversíveis de um crescimento econômico desequilibrado. 2.76 Examinemos primeiramente o nível pessoal. em colaboração com outras minorias cristãs. de Santa Ana. uma minoria consciente de seu próprio destino e encorajou-a a determinar o seu próprio destino. Desde o início da revolução industrial e da colonização. em J . O “evangelismo” foi um movimento espiritual. o terreno fora preparado pelo despertar religioso suscitado pela atividade de John Wesley e a propagação rápida do metodismo de origem reformada. 19 seguintes. Assim. reunindo aos domingos as crianças. em virtude desse fato. cit.Recordemos que essa caridade autêntica não deve ser confundida com o paternalismo condescendente e humilhante. A evolução do sindicalismo. A . P. a criação ulterior dos sindicatos operários. A influência de Wesley conquistara mesmo as Igrejas tradicionais mais entorpecidas. tomou na Inglaterra feição totalmente diferente da dos outros países industriais. Hannah More. pessoal e coletivo. esse movimento de evangelização encorajava simultaneamente a formação dos adultos e a escolarização das crianças. constata-se que importantes minorias de crentes de todas as confissões enfrentaram os desafios da sociedade. op.

animados de preocupações sociais e missionárias. em 1833. a London Missionary Society (1795). O pastor luterano Louis Meyer criou em 1833 a Société des Amis des pauvres. Paris 1955. Em 1825. Um destes. Deu origem a uma Société Biblique (1804) e à célebre Société missionnaire (1816). nasceu em 1780 na Suíça: a Société de Bâle pour la diffusion de la vérité chrétienne. Fliedner. Clémence Cuvier. iam de encontro aos interesses da famosa Companhia das Índias que os explorava. desenvolveram-se simultaneamente em todo o continente europeu. a ação de despertar religioso e social do pastor J. arrasta com ela. t. militava pela abolição do tráfico dos negros. votada em 1813. fundara.77 Essa admoestação algo amarga dirigida aos bem de vida deriva do fato de que seus grupos se irritavam contra os missionários que. Histoire de l’Angleterre chrétienne. H. filha do grande naturalista. no mesmo ano em que Armand de Melun funda com alguns amigos católicos a Société SaintFrançois Xavier. 1935. quer no catolicismo quer no protestantismo. Paris. o Barão de Staël. que se tornara pastor batista. William Carey. p. a Baptist Missionaru Society. 210 e seguintes. em 1822. Movimentos de evangelização operária achavam-se em atividade desde 1805 na França. 122 . entre os primeiros. a Church Missionary Society e a British and Foreign Bible Society (1804). Um humilde sapateiro. 1807). despertando a consciência popular dos indígenas. Foram posteriormente criadas a Religious Tracts Society (1789). as altas classes e a burguesia a redescobrir os sofrimentos e as necessidades do povo. von Kottwitz. 1830) multiplicavam-se na Alemanha. Foi necessário que uma lei. 359. Obras em favor dos desempregados (E. lá longe como aqui perto. Toledano. filho da ilustre mulher de letras. que precede “a grande primavera dos povos” europeus de 1848. movimentos similares de despertar religioso. Nesta vê-se iniciar simultaneamente. conhecida sob o nome de Mission de Bâle. numerosas personalidades na Association protestante de bienfaisance de Paris. Wichern (criação da Rauhe Haus) e a obra da sociedade católica Saint-Vincent de Paul. Esta fora fundada na França por Frédéric Ozanam.78 A despeito de tais obstáculos e outros mais. Histoire du christianisme. e considerado insano porque se preocupava com a sorte dos povos distantes. O período. a Société des Missions Evangéliques entre povos não cristãos. em socorro dos mais pobres. 77 78 André D. fundada sob sua iniciativa. enquanto Victor e Pressensé e Agénor de Gasparin inauguravam a atividade da Société évangélique de France. Em obra publicada em 1797. 1826. como fizera anteriormente a Société SaintJoseph que não sobrevivera à revolução de 1830. VI. Paul Fargues. De sua parte. p.Anglicana e ajudou a corte. fundador do movimento antiescravista e da “Sociedade para a Supressão do Vício”. depois a Mission intérieure (1840). prisioneiros e enfermos (Th. em 1792 já. é um dos mais férteis em criações religiosas e sociais. Amélie Sieeveking. para acolher os operários. a Missão organizava-se e desenvolviase. pusesse fim a esses abusos. William Wilberforce. opunha “o verdadeiro cristianismo” ao “sistema religioso daqueles que se dizem cristãos nas classes altas e na burguesia da Inglaterra”. enquanto se criava em Paris. Em virtude de feliz convergência histórica.

o trabalho e a instrução de todos. criadas em 1844 por George Williams e mais tarde as de jeunes filles. Mas. ditas obras de caridade continuam a ser o remédio principal para o empobrecimento e a proletarização das regiões onde se desenvolve a indústria. destinadas a proteger os trabalhadores em posição de fraqueza. Para muitos cristãos. simultaneamente para a saúde. A caridade é a primeira virtude. destinadas a tratar as feridas novas provocadas pela desestabilização das sociedades coloniais e industriais. Este tornar-se-á suspeito ao se converter em álibi para recusar as reformas sociais. Nesse mesmo espírito William e Catherine Booth começam na Inglaterra. centros hospitaleiros de Bad Boll (J. Certamente. onde se desenvolvem assim como na Inglaterra. a partir de 1855. Blumhardt). inaugura-se a Maison des diaconesses da França. na década de quarenta do século passado. logo se torna cega. as ações caritativas. porque as preocupações sociais dos protestantes convergem. fez construir moradas para seus trabalhadores no decurso dos mesmos anos. mais tarde. Com os anos. mas também sua vida moral e 123 . se não é acompanhada pela justiça. Como a Armée du Salut. Em Paris. um dos famosos “patrões sociais protestantes” da época. o industrial alsaciano Jean Dollfus. sua obra universalmente conhecida de evangelização e socorro dos excluídos. procurando transformar não mais a sorte individual apenas das vítimas da sociedade. multiplicam-se e diversificam-se. De sua parte. a despeito das difamações e sarcasmos dos ambientes cristãos convencionais e conformistas. sensíveis aos sofrimentos de seu tempo. que foram os primeiros a reconhecer os males de uma liberdade econômica integral e levar a sério os avisos e as exigências da ética cristã. C. Em seguida. Benjamin Delessert encoraja sua criação para ajudar os trabalhadores a se assumirem. Nascido da Christian Revival Association. Na origem das leis sociais: alguns protestantes corajosos e desacreditados. que sempre se apresentam para oporem-se a tudo que incomoda sua boa consciência. as Unions chrétiennes de jeunes gens. A exemplo dos economistas liberais citados acima. ainda mesmo se. Já alguns cristãos se engajavam em novos caminhos. Ao mesmo tempo também multiplicar-se-ão as casas de diaconisas e os centros evangélicos de acolhimento para todas as formas de miséria moral. segundo a tradição da Reforma. logo compreenderam que o “laisser-faire” devia ser corrigido por medidas sociais. proliferarão em inúmeros países. física ou mental: Asiles de la Force (John Bost) na França em 1848. também elas produtos da caridade autêntica. Ver-se-á o papel excepcional que desempenharão tais associações de jovens na criação do movimento ecumênico.As primeiras caixas de poupança destinaram-se a facilitar a previdência nos meios populares. chamar-se-á desde 1865 Armée du Salut e operará com eficácia em todas as partes do mundo. também nessa época. etc. protestantes também. era preciso refletir e ir mais longe ainda. mas pouco atentos às causas deles. empresários. Mas. de Bielfeld (Fred. Não era somente o trabalho dos operários que estava em jogo. ficaram algo desacreditadas por certo paternalismo conservador. mas a própria sociedade e o sistema econômico que a regia. tais obras foram e permanecem grandes empreendimentos. obras de Charles Spurgeon na Inglaterra. Datam do fim do século XVIII na Alemanha. tais como Sismondi e Fazy. Bodelschwing) na Alemanha. legislativas notadamente. 3.

124 . O que se denominou o “patronato social protestante” francês. Urgia pois agir. Opunham-se a qualquer intervenção do Estado. invocar a inexorável fatalidade das leis do mercado. por inevitáveis. Paris. Ele. e diretamente sobre as causas. para começar pelo que é a seus olhos urgentíssimo.79 Não obstante. Mas. esse industrial declarava: “O fabricante deve aos trabalhadores algo mais que o salário”. Sabe-se que estes nela trabalhavam maciçamente. tomou importantes medidas inovadoras. não só a título individual. De fato. Em 1850. com efeito. Histoire sociale du travail. consoante o hábito fácil da maioria dos colegas. as felizes iniciativas sociais individuais de alguns patrões inovadores não resolviam os efervescentes problemas da nova sociedade industrial.sua existência familiar cotidiana. um industrial alsaciano. de tais acidentes. Contrariamente aos usos do capitalismo liberal em plena expansão. Mas. notadamente os dramas pessoais e familiares vividos pelos operários. limites à sua apatia ou à sua cupidez. sem tal coação legal válida para todos. sob horário de trabalho inimaginável e sob condições de saúde. desde seus primeiros anos. se obriga todos os chefes de empresa a adotar pelo menos certas medidas. higiene e segurança impossíveis de conceber hoje em dia. Daniel Legrand. 79 Citado por Pierre Jaccard. em Haute-Alsace principalmente. se ela impõe a todos os patrões. constatava que seus esforços esbarravam nos limites que o jogo da concorrência dos outros industriais impunha à sua generosidade. Formados na ética do cristianismo reformado. Angel Dollfus organizou inspeção de fábricas e sistema de segurança muito antes que o Estado se ocupasse de tais problemas. Estes estavam paralisados pela ideologia determinista do capitalismo liberal integral daquela época. Oberlin. Fazia-se mister intervir contra os vícios de um sistema econômico cujas virtudes aliás eram reconhecidas. Pode-o. estava persuadido de que a lei pode modificar o sistema industrial. tocado pelo renascimento evangélico do início do século XIX suscitado por intermédio do pastor F. As célebres pesquisas do Dr. irremediáveis portanto. pela ideologia dominante. 303. os mais generosos. alguns empresários recordaram-se de que cumpria ao Estado. mas também padecem além disso prejuízos que repercutem sobre os operários. mas também mais ainda coletivamente. sua ética não lhe permitia. p. não somente se acham penalizados pela generosidade no terreno da livre concorrência. Yvan Schlumberger levou a Sociedade Industrial de Mulhouse a promover uma investigação sobre os acidentes de trabalho nas novas manufaturas. inquietava-se com a sorte desgraçada da classe operária. Ademais. legislar para proteger os fracos e os pobres. 1960. às vezes desde os cinco anos. Pouco depois das observações de Sismondi. conseguindo leis sociais que fossem válidas para todos. encarregado por Deus de uma missão de justiça. que protestara contra a exploração dos trabalhadores e das crianças. ao mesmo tempo. fatais. ao contrário. preocupando-se com a de seus próprios operários. sobre os efeitos perversos do sistema industrial. Daniel Legrand se apresenta como o promotor convincente de lei destinada a melhorar as trágicas condições de trabalho das crianças na indústria e nas minas. Esforçava-se por vir-lhes em auxílio. muitas vezes para nela morrerem. conformes às leis da natureza e do mercado. para justificar qualquer inércia de sua parte. na França. Villermé haviam demonstrado a freqüência. que a caridade sugere aos melhores dentre eles. Essas desgraças eram tidas então.

Far-se-iam necessários ainda duradouros combates para chegar-se. também. Em Zurich. utilizando. a amizade que o unia ao ministro Guizot. não obstante numerosa oposição e a irritação dos meios industriais que invocavam as ameaças da concorrência internacional. Legrand empenhou-se. Isso incita certos representantes de um liberalismo extremo a suprimir ou reduzir as leis sociais em vigor alhures. em 1779. Limitou-lhes o tempo de trabalho a nove horas diárias e impôs condições mínimas de higiene como. escolas para “andrajosos”. Será sempre assim doravante. por exemplo. por exemplo. em 1847. onde todavia eram submetidas às terríveis asperezas do trabalho existentes na indústria e nas minas). sempre que nova lei social for proposta. Não se satisfazia. Empenhou-se com vigor para obter das autoridades inglesas. cruelmente tratadas. a construção de dormitórios para que as crianças pudessem repousar à noite. em vão. depois de consultar Pestalozzi e Pictet de Rochemont. que essa lei foi inteiramente aplicada. que a concorrência desempenhava também no plano internacional contra os patrões mais generosos. apenas com a atividade caridosa individual que realizava. preocupou-se muito cedo com essas incidências nefastas. por mais generosa que já fosse. que Robert Owen lançou de Lausanne seu apelo em prol da proteção das mulheres e das crianças na indústria. Entre outras instituições. com o industrial filantropo inglês Robert Owen que. Aí um busto presta homenagem a Daniel Legrand. desprovidas de leis protetoras. uma primeira lei social foi adotada na França em 1841. lei que limitasse a duração do trabalho dos operários adultos em dez horas. com a industrialização de certas regiões do Terceiro Mundo. principiara a regulamentá-lo. pelas nações industrializadas.Graças a Daniel Legrand. Em certas cidades protestantes suíças. 125 . o Parlamento Britânico. menores mais ou menos abandonados. Cabe lembrar aqui o que já foi mencionado. semelhantes esforços. onde a industrialização era mais precoce que noutras partes. A dita lei proibia o trabalho infantil abaixo dos oito anos (!) nas minas e nas fábricas e limitava a duração a oito horas até os doze anos (seis dias por semana). porém. tampouco. o precursor da importante legislação social internacional que deveria florescer mais tarde. outros militantes pela proteção dos trabalhadores agiram no plano local ou nacional. em 1919. uma legislação operária internacional. Daniel Legrand permanece (após as reflexões teóricas dos economistas citados acima). Tais condições de trabalho das crianças reaparecem hoje. Só foi em 1874. desde 1812. também. Mas essas medidas não foram logo aplicadas. invocando a concorrência internacional. Destituídos de visão tão universal quanto aquela desses pioneiros da legislação internacional do trabalho. em diversos países. Consciente do fato. já que não voltavam para casa. em vão igualmente. pastores eram encarregados de fiscalizar o trabalho das crianças. por fazer adotar. fundara os Ragged Schools. desde 1818. já sensível. empreendera. as ações generosas de Lord Shaftesbury. Mas. Recordar-se-á. sob a pressão de industriais filantrópicos. que foi em 1818. Citaram-se. a respeito da escravidão e do tráfico dos negros. especialmente nos asilos paroquiais (locais de refúgio para numerosas crianças. à criação do Bureau International du Travail (BIT) cuja sede está localizada em Genebra. com o Factory Act. como legislação social. No que tange ao trabalho das crianças.

e se é útil reclamar do Estado medidas legislativas de proteção social. também. introduzir reformas. ao menor preço. para oferecer trabalho aos membros da associação reduzidos ao desemprego. a idéia de certos economistas de associar os representantes do capital e do trabalho. carentes de capitais suficientes. 126 . o que se faz necessário é transformar as condições mesmas do trabalho e as relações entre os proprietários e os trabalhadores das empresas. Fazy expressa-se. queriam primeiramente criar uma cooperativa de produção. entre o capital e o trabalho. Tratava-se inicialmente de fornecer aos participantes. Em seguida. desde essa época. embora seja bom e urgente ir em socorro dos desgraçados. a criação de oficinas de fabricação de artigos imediatamente úteis. Mas. Mas. Aparecem então. Sismondi e Fazy. especialmente na Inglaterra. criaram a Associação dos Justos Trabalhadores de Rochdale. Prevenir é melhor que remediar. mas apenas de passagem. mesmo custosas. em seguida. Em 1844. Sismondi conclamava os chefes de manufaturas para que tornassem seus operários “homens e cidadãos”. e. retornariam diretamente para os membros da cooperativa. sobretudo entre o trabalho e o capital. por causa da inércia e da resistência dos outros patrões. sob o impulso de Robert Owen. vale mais para todos que experimentar revoluções sangrentas e destruidoras. os alimentos e as roupas de que necessitavam. À procura de melhores relações sociais. agir sobre as causas dos sofrimentos vale mais que socorrê-los tarde demais. Com suas economias. mediante greves e ameaças revolucionárias. estas últimas tentativas só duraram pouco tempo. A obtenção de benefícios deveria facultar. foi sob pressão dos próprios operários. Era convencionado que os benefícios realizados. na impossibilidade de obter de seus empregadores aumento de seu miserável salário. finalmente. posicionaram-se entre os primeiros visionários de um liberalismo social e do que se denominará mais tarde a participação operária na gestão de empresas. e talvez. ou na França. em vez de apenas se prestarem a “deles fazer máquinas”. Em 1819 já. também. provavelmente porque a função do capital era subestimada e o receio por lucros acumulados impedia essas cooperativas de renovar suas reservas e seu material. Empresas cooperativas haviam sido esboçadas. em virtude dos esforços de Philippe Buchez e dos socialistas cristãos. para criar melhores relações na sua atividade. no Lancashire. graças à iniciativa de uma minoria de industriais cristãos ou filantropos. Mencionou-se já. que a legislação do trabalho melhorou progressivamente as condições de existência do proletariado. no mesmo sentido por 1830. associaram-se para constituir uma cooperativa de consumo. por exemplo. não investidos. pobres operários tecelões ingleses. O cristianismo social protestante e o catolicismo social À proporção que prospera o sistema industrial e que se expande a ideologia que o domina. a situação operária progrediu. porque sua aspiração a uma vida em comunidade as privava de uma indispensável hierarquia na organização do trabalho. tentativas de pôr em prática tais princípios. alguns crentes começam a compreender que.Assim. 4.

O movimento para a unidade dos cristãos será finalmente partilhado pelo Papa João XXIII que agregará. 45.Todavia. 143. das reuniões ecumênicas mundiais. bem como social. quer no seu país quer no estrangeiro. herdeiro de longa tradição protestante do Midi. já se haviam discutido questões sociais efervescentes. nessa mesma época. verdadeira reforma social. no entanto. 140. Propõe. “O que é o sistema cooperativo?” pergunta. Mützenberg. Genebra.. não obstante isso. É de suas fileiras que sairão numerosos pioneiros de diversos movimentos ecumênicos que. Charles Gide descreveu-lhe os objetivos. Charles Gide. Deixa sobressair bem a ótica profunda do cristianismo reformado que não crê na suficiente capacidade das virtudes naturais do homem para construir uma sociedade viável.82 80 81 G. diz ainda o manifesto. os cooperados deveriam criar uma ordem superior que não fosse o resultado espontâneo de leis naturais e como tais amorais. p. Lefranc. “como o declarara um deputado da Câmara. op. mais pacífica do formidável problema das relações do capital e do trabalho. a solução mais verdadeira e. foi fundada a Federação das Cooperativas Francesas.81 Charles Gide e a Escola de Nîmes. cair nos excessos de um estatismo que afetaria a liberdade e responsabilidade individuais. Com a Escola de Nîmes. p. parte desses benefícios deveria ser dirigida para a educação e para a formação profissional dos cooperados. onde o senso da responsabilidade individual. l’Ecole de Nîmes. 1992. com Emmanuel de Boyve. surgiu um “Manifesto” a favor da cooperação.”80 Em 1885. Létique sociale dans l’histoire du mouvement oecuménique. Em 1868. declara Gide. torna-se célebre teórico da cooperação. que ensinavam que não mais restavam na hora atual injustiças graves a abolir na ordem econômica... 82 G. assinado por numerosos nomes ilustres da época. 127 .. mas sim o resultado de esforços coordenados e incansáveis em prol de um ideal que urgiria exibir ao povo”. “Não ignora nenhuma das leis econômicas constatadas pela ciência”. quando da criação da Aliança Evangélica em Londres. é muito desenvolvido. “Diferentemente dos economistas. p. o segundo Concílio do Vaticano. O professor Charles Gide. o cooperatismo (ou cooperativismo) suscitará na França a esperança de nova organização da sociedade. por data. formam um dos componentes franceses do que se tornará o grande movimento do cristianismo social protestante.. Naquele ensejo. 46. Este experimentará grande surto nos países reformados e puritanos ingleses e americanos especialmente. Na Alemanha.. Nos países nórdicos protestantes. É “a aliança do princípio liberal com o princípio da solidariedade”. citado por G. criarão o Conselho Ecumênico das Igrejas. Convém notar que já em 1846. p. desde 1962. ao contrário da ideologia liberal subjacente ao capitalismo. 15. op. cit. sem. Lefranc. Schulze-Delitsch e o famoso fundador das Caisses Raiffeisen aplicam o princípio da cooperativa a novos órgãos bancários de poupança e de crédito. cit. ou pelo menos injustiça que não se pudesse sanar com o livre jogo das leis econômicas. para evitar as crises e o desemprego e corrigir as injustiças do capitalismo. o princípio cooperativo difunde-se celeremente e as cooperativas multiplicam-se com sucesso. em 1948. a primeira.

diz. 51. na redação da revista. Eglise et Société. a antítese daquilo que Cristo ensina no Sumário da Lei (Mateus. “A sagração da política. Paris. J. publicação do Institut d’Ethique sociale da Fédération des Eglises protestantes de Suisse. 1978 e R. que “têm as mãos limpas porque não possuem mãos”. é engajamento perigoso.85 O movimento foi abrilhantado pelo filósofo Paul Ricoeur. a de piedade individualista que esquece e despreza a política. Engajamento político que. desaparecidos já depois da crise revolucionária de 1848. por isso. Wendland (Alemanha) e Paul Niebuhr (Estados Unidos). 83 Cf. O fanatismo político de direita e de esquerda é aqui também considerado. O homo oeconomicus. Crespin. cit.84 É no Sermão da Montanha e especialmente nas Bem-aventuranças (Mateus. dinheiro. cabe citar Hermann Kutter. é o maior perigo que o homem pode correr”. se os crentes e as Igrejas tradicionais assumissem plenamente a responsabilidade social que lhes prescreve o Evangelho. É o erro que consiste em alçar a política ao nível de valor divino. propriedade. Movimentos paralelos desdobram-se em diversos países: na Alemanha. op. afirma Charles Gide.86 Paul Ricoeur denunciou muito cedo duas tentações que espreitarão sempre os militantes da ação social das Igrejas e do Conselho Ecumênico. Le christianisme social. Quanto a Elie Gounel. A segunda tentação é a da exaltação do espiritual às custas do temporal. Este lhes recomenda. com Elie Lauriol. Leonhard Ragaz. Lausanne e Berna. Des protestants engagés. Baubérot.. corrigir as práticas e os sistemas econômicos. c. c. H. Karl Barth.-D. 84 R. com efeito.83 Fazem notar com razão que o cristianismo não teria necessidade alguma de que se lhe acrescentasse o adjetivo social. estimulado na França pelos célebres pastores Tommy Fallot e Wilfred Monod. liberdade”. na Inglaterra e nos Estados Unidos.87 Charles Péguy denunciava já esses cristãos “puros”. Crespin. recusa ocupar-se “de questões colocadas pelo trabalho. 54 e seguintes. reunidos mais tarde por Alfred Keller. Arthur Rich (Suíça). ibid. os agrupamentos do Social Gospel (Evangelho Social) e aqueles dos Socialistes chrétiens católicos. repete que o fundamento da missão social do cristianismo se acha no discurso de Jesus sobre o juízo final (Mateus. aquele ao qual se referem as escolas econômicas clássicas. Un christianisme profane? Paris. 25). não constantemente controlado pela ética cristã. poder. porque pertence a um mundo emporcalhado e. que participava já. Maurice Vogt e o futuro ministro André Philip. 1993. 87 R. 85 Ibid. 1945-1970. como estudante. 128 .O movimento do cristianismo social foi. Crespin. 5) que Wilfred Monod encontra os fundamentos de uma ética cristã destinada a esclarecer a vida de cada dia. o Congrès évangélique-social. p. Ethique. formarão um dos componentes importantes do movimento ecumênico do início do século XX. 22). Grandes teólogos abrilhantaram essa época: depois de Charles Secrétan. Emil Brunner. 86 Cf. é “um homem que se ama a si próprio em primeiro lugar e somente a si mesmo”. porque não nutrem preocupações em primeiro lugar com a ética cristã e com a sorte dos pobres. c. porque pode facilmente tornar-se absoluto e totalitário. É a tentação inversa. na comunhão pessoal com Cristo. em seguida. Todos esses movimentos. 1993. A primeira é o que chama de a sagração da política.

Nesse capitalismo. Está-se na época em que. diz. o papa Leão XIII publica sua famosa encíclica Rerum Novarum. acrescenta. Marca a abertura de princípio do catolicismo para a democracia e o apoio que entende dar às reivindicações legítimas do mundo trabalhador. Em 1891. a sobriedade propícia para a poupança e o respeito à família. insurge-se contra a “afluência da 88 89 Citado por G. é caracterizado por injustiça crescente. Desejoso de fundar seu julgamento sobre a ética cristã e não sobre as ideologias novas. p. Perceber-se-ão certos acentos proféticos nos escritos de La Tour du Pin.. 161. o cardeal Manning se posiciona publicamente do lado dos estivadores que fazem a greve em 1889. 158. O individualismo tem conduzido o capitalismo. Está-se na época em que o Papa Leão XIII começa a orientar-se para a democracia. não hesita em declarar que “o capitalismo é a exploração do trabalho de todos para o proveito único de alguns. O grande choque da guerra de 1870 e mais ainda a revolução popular da Comuna de Paris. na França.. Ibid. apoia-se na idéia da produtividade do capital e do dinheiro”. na Alemanha notadamente. o bispo de Fribourg. como Frédéric Le Play ou La Tour du Pin. Mgr Mermillod. que denuncia como “o maior mercado de escravos do mundo inteiro”. La Tour du Pin preconizava o retorno às antigas corporações. Não convém incriminar os atos individuais dos proprietários. p. 90 G. onde o abade Ketteler. severa limitação do trabalho industrial das mulheres e das crianças. já que repousa inteiramente sobre o interesse dos valores improdutivos. ibid.”90 Depois do patronato social e dos economistas protestantes citados acima. abalaram seriamente o antigo conservadorismo católico que só via a salvação num retorno aos bons tempos do Antigo Regime. no ano seguinte. mais tarde cardeal. é o próprio regime que é usurário e o é na sua essência. Lefranc. Lefranc.89 Na Suíça. “O sistema capitalista.” “O estado social de hoje.Ao lado do cristianismo social protestante. p.”88 Noutros países europeus. cit. Funda em 1884 a Union de Fribourg. que seria preciso melhor aplicar. viam a salvação da sociedade num retorno à moral tradicional. a Union de Fribourg pede intervenção legislativa do Estado para garantir o repouso dominical dos trabalhadores. o pauperismo é conseqüência do relaxamento dos costumes e o retorno ao decálogo garantirá bom entendimento entre patrões e operários. Alguns precursores desse movimento. vai desempenhar papel determinante junto à cúria romana para abri-la às novas exigências da sociedade industrial. assim como redução da duração do trabalho dos homens e melhor proteção dos trabalhadores. se insurge com virulência contra a ditadura do dinheiro e contra a liberdade integral da economia capitalista. 162. assegurando a proteção da mulher que cumpre sair das fábricas. futuro arcebispo de Mayence. Em dezembro de 1871. o catolicismo social surge também.. na Inglaterra. assiste-se a uma evicção do patronato por uma plutocracia cada vez mais oligárquica que se apodera da riqueza e do Estado. desenvolvia-se o catolicismo social. Se denuncia ainda os revolucionários democratas como “homens turbulentos e astuciosos”. 129 . Segundo ele. Le Play publica em 1864 La réforme sociale. uma justa remuneração. “Mas. Albert de Mun cria os Cercles catholiques d’ouvriers. op.

Nascimento e progresso do movimento ecumênico. na Suíça. importa notar que os diversos movimentos do cristianismo social. a autoridade é “a Bíblia toda. depois a Centesimus Annus em 1991. que conhecem o assunto e como os enfrentam? Dando a essas perguntas respostas profundas e matizadas. Essa atitude é tipicamente calvinista. Estudo.” É interessante constatar que.”92 5. Histoire sociale du travail. étude de Research International Observer (1993). no mundo da língua inglesa. apresentado pelo Journal de Genebra. Jaccard. que é o mais revolucionário de todos os livros. mas somente a Bíblia”. Antes de mencionar-lhes as diferentes etapas. que a inquietude referente à poluição da água potável ou do ar. “é bagagem comum em todas as regiões do mundo”. 10 de fevereiro de 1994. foi inspirado pelo pensamento bíblico. p. porque o trabalhador nutre aversão pela autoridade patronal quer de particulares quer do Estado. sociólogos. para os protestantes. à cultura social e religiosa. 92 91 130 . para ajustar a doutrina social da Igreja às exigências dos novos tempos. esses pesquisadores constatam.” “Efetivamente. Entre as reformas preconizadas pelo Soberano Pontífice figura a multiplicação das associações de trabalhadores.riqueza nas mãos de pequeno número ao lado da indigência da multidão”. Todavia. é o salário que se quer decente.” Assim.91 “Nos países protestantes. impregnaram intensamente a evolução da sociedade industrial com mais justiça. graças à influência direta de seus membros engajados. nos Países Baixos. o grau de responsabilidade é muitas vezes ligado. recentemente. por exemplo. ressalta P. Em 1931 apareceu a Quadragesimo Anno. Noutros termos. “a responsabilidade individual é muito importante nos países protestantes (países nórdicos). realizado em 1993 em vinte e oito países pelo grupo de consultores Research International. 1960. bem o assinalou quando escrevia: “O socialismo britânico deve infinitamente menos a Marx do que à Bíblia. descobrem-se diferenças de comportamento entre os países latinos e os do Norte. O fim agitado do século XIX leva muitos cristãos a reconhecer a validade das interrogações dos pioneiros do cristianismo social e a importância de um empenho comum dos crentes para ajustar ao Evangelho seu comportamento na sociedade. A Veritatis Splendor atualizará. na Escandinávia e na Alemanha. pesquisando sobre a abertura das populações para problemas ecológicos. essa Bíblia fala a linguagem que o trabalhador entende bem. “cabe sublinhar. escreve esse sociólogo. Falarse-á mais minuciosamente sobre os grandes movimentos ecumênicos do século XX. 308. frutos da vontade de muitos cristãos de recuperar a unidade perdida da Igreja de Cristo e maior fidelidade à ética social que decorre do Evangelho. Mon corps et son environnement. fizeram observações análogas. em 1993.” E P. quando é educado no seu conhecimento. Paris. ainda quando o nível de informação das populações é equivalente. A encíclica de Leão XIII será completada por diversos papas. primeiro ministro inglês. na origem dos conflitos sociais. Ora. as principais doutrinas às quais os católicos romanos devem aderir. Jaccard acrescenta: “Tudo o que foi feito de válido. em matéria social. Clement Attlee. procurava responder à questão: quais são hoje as populações que se interessam pelos problemas do meio ambiente. antes de tudo.

Oldham. positivos e negativos. engajou-se nos movimentos cristãos de estudantes e foi um dos fundadores da Fédération universelle des associations chrétiennes d’étudiants (FUACE. De fato. com todos os espíritos atentos desse tempo. A quem mais poderiam recorrer? 93 Entre os incontáveis jovens com que se deparou. para encorajá-los a reconstruir a unidade da Igreja universal. num mundo continuamente dividido e em perpétuos conflitos. E os movimentos da juventude expressam hoje “um protesto contra o passado” e “efervescente desejo de independência e de livre disposição de si mesmos”. 131 . eles dão em nome do Evangelho. “A adolescência. Também dirigia seu trabalho para rapazes e moças. Mas. Mott. Pois. da secularização dos espíritos. de demonstrar “novo espírito nas águas turvas da juventude do mundo”. dizia. Animado de ardente sentimento missionário. os delegados questionavam-se sobre a natureza da universalidade de Cristo e perguntavam-se como este deveria expressar-se através das diferentes culturas. em inglês WSCA) da qual foi nomeado secretário geral em 1895. Com o pastor escocês H. Este “grande estrategista missionário e evangelizador” que era John Mott. p. eis o maior trunfo de uma nação”. se supõe. acrescentava. que se reuniu em Edimbourg em 1910. Fora em 1888 secretário da Alliance universelle des unions chrétiennes de jeunes gens e de jeunes filles (YMCA). Esses eclesiásticos de vanguarda dirigiram apelo sobretudo à juventude e aos leigos. uma das grandes figuras do ecumenismo nascente. como o denominava um dos participantes dos múltiplos encontros que ele organizava pelo mundo. tinha plena confiança na renovação espiritual das novas gerações. que nem sempre haviam sido suficientemente respeitadas no entusiasmo generoso das missões cristãs. constatava. que levou em sua companhia em 93 W.-H. Participou naturalmente do comitê de organização da primeira Conférence missionnaire internationale. cabe citar em primeiro lugar o pastor metodista americano John R. John Mott pôde discernir no holandês Wilhelm Visser t’Hooft um ser excepcional. a emergência de civilização sem fundamento nem critério religioso. Após o choque das guerras e das revoluções sociais que abalaram fortemente os espíritos no final do século XIX. a divisão dos cristãos constitui escândalo que prejudica gravemente o testemunho de paz que. “Graças a Deus. com todos os efeitos ambíguos. Dentre esses aglutinadores geniais. Ela está na iminência. Le temps du rassemblement. estas fizeram-se acompanhar dos secretos desejos de dominação e de lucro dos Estados nacionais colonizadores. alguns homens notáveis e empreendedores conseguiram reunir crentes de diferentes igrejas cristãs para refletir com eles sobre a nova missão do cristianismo nas conturbadas circunstâncias de então. 27. de diferentes confissões e diversos continentes. nascido em 1865. A . temos um Evangelho que pode influenciar e canalizar essas ondas transbordantes de interesse e de paixão pela vida. Paris. Visser t’Hooft.Faz-se necessário em todos os tempos apelar para a juventude e os leigos para descercar as Igrejas. de outros ambientes além das universidades. 1975.

Quando John Mott deixou a presidência da Fédération universelle des associations chrétiennes d’étudiants. de abordar as divergências doutrinais que separavam as Igrejas. E qual devia ser a atitude dos cristãos diante da guerra que ameaçava? Em face de tantas infrações do Evangelho. Percebia-se que se passara da era constantiniana. delegados de diferentes confissões enviados desta vez pela principais Igrejas (exceto a romana. com as Unions chrétiennes de jeunes gens et de jeunes filles (cujo comitê internacional era igualmente animado por Visser t’Hooft). Sob a autoridade do deão de Canterbury. e o segundo ocupando-se mais especificamente com problemas teológicos ligados ao ministério da Igreja. em Lousanne. No decurso dos anos seguintes.numerosas viagens e formou para sua vocação futura de líder do movimento ecumênico mundial. o segundo principalmente eclesiásticos. Visser t’Hooft no secretariado. que possuísse visão verdadeiramente universal da missão do cristianismo. nazistas e comunistas. O holandês reformado Hendrik Kraemer. por ocasião dessa reunião. não deviam as Igrejas unir-se para tornar mais autêntica e. Depois da Conférence internationale des missions. Não se punha ainda a questão. conseguiu reunir. o futuro diretor do Institut oecuménique de Bossey (nas proximidades de Genebra). a situação internacional degradava-se. em 1927. mas sim fazer dele apelo sem escapatória e questão inevitável para 132 . Não se punha. declarava numa reunião universitária: “Não nos cabe tornar o cristianismo aceitável pelo mundo. os delegados pretendiam precisar as ações concretas. mais crível sua mensagem? E não deviam expressar sua vontade em face das crises de toda natureza. esta. na realidade. onde a mensagem das Igrejas era ouvida. experimentava mais fortemente que nunca a necessidade de constituir. estavam conscientes da incompatibilidade dessas falsas esperanças com as promessas e as exigências do Evangelho no mundo. eminente pioneiro do futuro Conselho Ecumênico das Igrejas ( COE). e com a intensificação dos movimentos fascistas. Mas poucos cristãos. O arcebispo luterano de Upsal. George Bell. ainda. o evento mais marcante no crescimento do ecumenismo foi a Conferência de Estocolmo em 1925. organizada pelo movimento do cristianismo prático. porque o movimento ecumênico Foi et constitution preparava com essa finalidade outra conferência internacional. uma comunidade cristã mundial. e a da Foi et constitution em Edimbourg. que não via unidade possível fora de suas fronteiras eclesiásticas). o primeiro interessando-se mais particularmente por dar respostas concretas aos problemas da ética social. com a participação de W. A crise econômica nascida do craque financeiro de 1929 perturbava os espíritos preocupados com o crescimento do desemprego e da miséria. a do Christianisme pratique em Oxford. vencendo “os cépticos e os prudentes”. para o afrontamento sempre mais violento de novas e poderosas ideologias profanas às quais era necessário resistir. pela primeira vez na história. cujas preocupações eram de natureza diferente. com suas novas formas políticas de paganismo insinuando-se cada vez mais nas Igrejas. Urgia sair dessa época de caos espiritual e intelectual que desorientava os jovens. que deviam derivar dos princípios cristãos na vida social e internacional. que se apoderavam dos povos? Tais foram as razões da organização de duas novas conferências ecumênicas em 1937. portanto. a questão da fusão desses movimentos. que teria lugar dois anos mais tarde. Nathan Söderblom (nascido em 1866). O primeiro reunia sobretudo leigos.

“a discussão com o mundo moderno é antes de tudo exigente discussão crítica. Chrétiens désunis. Em 1919 já. De resto.. dito espírito ecumênico parecia perigoso à hierarquia romana. O acento foi posto sobre a necessidade de reunir “pessoal de alta qualidade intelectual”. porque os problemas a resolver eram da mais alta importância para o futuro das Igrejas e do mundo moderno. “ocupassem no mundo secular postos de responsabilidade e influência”. homens e mulheres.”94 Visser t’Hooft observava com razão que a secularização era conceito demasiadamente negativo para explicar a situação espiritual da época moderna. Impunha-se escolher entre “Deus e os deuses do Ocidente”. p. o Conseil internatinal des missions e a Alliance pour l’amitié internationale par les Eglises) e dois grandes movimentos da juventude. Os católicos só podiam participar dos 94 95 Ibid.. p. das quais só podia esperar hostilidade e agressividade crescentes.96 No curso dessas diversas conferências. Um Comité des 35 recebera a missão de submeter propostas às conferências de Oxford e de Edimbourg em 1937. àquela época. E tornava mais exato: “Pertencemos ao mundo e sob muitos aspectos temos sido vítimas de seu modo de pensar e de sua consciência não cristã. Kraemer (especialista nas religiões asiáticas) recomendava profundo respeito às diversas crenças. Esse jovem dominicano demonstrava muita coragem porque. 61. a Alliance universelle des unions chrétiennes de jeunes gens et de jeunes filles e a Fédération universelle des Associations chrétiennes d’étudiants. Em 1933. conosco e com o cristianismo tal qual é. 74. Era necessário que leigos.97 O novo organismo devia ser composto de uma assembléia geral de cerca de 200 membros e de um comitê central composto de 60.. Foi por esta época (1937) que apareceu um dos primeiros marcantes trabalhos católicos que se abria para o ecumenismo. a idéia de fundar um único Conselho Ecumênico das Igrejas avançava seu caminho. O pastor Marc Boegner (França) e alguns outros insistiram por que as próprias Igrejas tomassem a responsabilidade de formar tal conselho e que este incluísse numerosos leigos. inaugurava nova era na discussão entre católicos e cristãos das outras confissões. O neopaganismo era “o nacionalismo como religião”. esse comitê redigiu um projeto que deveria ser submetido às Igrejas. 96 Ibid.. que foi traduzido para o Francês como “Conseil oecuménique des Eglises”.o mundo”.95 Quanto ao universalismo do cristianismo. representada por Visser t’Hooft. Chamar-se-ia “World Concil of Churches”. p. Nathan Söderblom sugerira que um único conselho ecumênico representasse a cristandade. o teólogo reformado suíço Karl Barth perguntava-se se o cristianismo tinha a noção de que estava cercado por religiões novas e agressivas. H. Por trás da secularização. 107. 97 Ibid. Naquela época. Reunido em Londres. com relação às outras religiões. havia a emergência de falsas religiões ideológicas. p. 133 . descristianizada”. 59. do Padre Yves Congar. o Christianisme pratique. alinhados em formações políticas fanáticas de tipo quase religioso. E era necessário analisar o caráter pseudo-religioso dos novos movimentos de jovens. aliado a uma sólida convicção do caráter único e universal de Jesus Cristo. 108. o arcebispo anglicano Temple convidou para sua arquidiocese representantes dos quatro movimentos ecumênicos da época (Foi et constitution. Ibid.

como nunca o fizera anteriormente uma conferência desse tipo. do Leste. como o bispo Dibelius. R. Arah Chakko. p. Foi um grito. proclamando uma mensagem. Ela ascendeu à presidência colegial do Conselho por ocasião da celebração do 190 centenário da chegada de São Tomé à Índia.. da juventude de diversos países que iam entrar em guerra algumas semanas mais tarde. o arcebispo Temple e seu sucessor Jeffry Fisher. Aquela assembléia de mil e quinhentos jovens. distribuídos por cerca de quarenta grupos para estudar a Bíblia. “Deus é para nós o Deus vivo. sempre maior.. A .. Emil Brunner. a da juventude. um engajamento total à fé que nos reunira e que nos manteria unidos. em 1939. porém. A primeira mulher. às vésperas da guerra. das Igrejas ortodoxas de Paris. os ingleses William Paton. “Muitos dentre nós. assim como numerosos representantes dos países nórdicos (o bispo Bergrav).98 A importância do diálogo ecumênico mostrava-se. que desempenhou papel eminente nesse mundo ecumênico. Mais tarde vieram ajuntar-se representantes de inumeráveis Igrejas de diferentes confissões espalhadas pela Ásia. pólos de ação do movimento ecumênico. Dulles (Estados Unidos). por exemplo: Max Huber (Suíça). Philip. relata Visser t’Hooft. da Grécia. presidente da Corte Internacional de Permanente de Justiça. e não obstante as origens extremamente variadas dos delegados. “Nunca ouvi cantar esse cântico como naquela reunião de encerramento no Concertgebouw. o pastor Niemöller. da Hungria. Seus participantes transformaram-se em militantes incondicionais da aproximação dos cristãos durante as hostilidades e depois do armistício. em 1939. em virtude da eminência dos teólogos e dos leigos que por ele se interessavam. Convidado para a conferência de Oxford. Paul Tillich (Estados Unidos). graças à hospitalidade principesca que ofereceram em diversas ocasiões às reuniões ecumênicas. vivendo por nós e por nossa geração”. A . As hostilidades estouraram alguns dias depois do fim da conferência. Karl Barth e Edouard Thurneysen (Suíça). todos aqueles jovens cantaram A Ti a Glória. como o filósofo Nicolas Berdiaeff. e a que constituiu a primeira Assembléia Ecumênica das Igrejas. Aquela reunião. sem esquecer os futuros e célebres resistentes alemães. futuros ministros de diversos países como J. Antes de partir. Ellul (França). descobriram novamente a Bíblia”. Robert Mackie. Marc Boegner e Pierre Maury (França). o teólogo Dietrich Bonhoeffer e os famosos holandeses Berkof e Visser t’Hooft. von Thadden (Alemanha). do Egito. Vale a pena mencionar o papel excepcional que desempenharam o Príncipe Bernard e a Rainha Wilhelmine dos Países Baixos no desenvolvimento do ecumenismo. escrevia mais tarde um participante.encontros com protestantes em caráter confidencial. John Bennet. 134 . em 1948. muitas vezes pioneiros do movimento ecumênico como o patriarca Athenagoras de Constantinopla. África e Oceania. Marcou o primeiro triunfo da unidade dos crentes. e o jurista J. 96. apresentou-se como um milagre providencial para renovar a missão das Igrejas durante a tormenta. teólogos da geração nova tais como Reynold Niebuhr. F.” “Penso que nenhuma 98 Ibid. foi uma indiana. a aurora de nova era ecumênica. Hendrik Kaemer (Países Baixos). foi verdadeiramente um acontecimento histórico. notadamente às duas célebres conferências de Amsterdã. o Padre Congar viu ser-lhe recusada a permissão necessária pelo Secretário do Estado do Vaticano.

por vezes com a aprovação confessa ou tácita da hierarquia. 131 e seguintes.000 dentre eles estavam seduzidos e excitados misticamente nas formações paramilitares rigorosas pela devoção ao Führer Adolf Hitler. A guerra e o neopaganismo. dizia.. Mas. p. que iam atravessar. A confusão era completa até nas Igrejas. não obstante os obstáculos excepcionais que defrontava sem cessar. 53. Mas. Convém dizer que a noção de ordem e de autoridade hierárquica das ditaduras correspondia melhor à visão religiosa romana da organização do mundo e da Igreja do que à percepção democrática do cristianismo reformado. Com uma equipe reduzida mas eficacíssima. L’éthique sociale. pelo entusiasmo e pela ameaça. Convém voltar ao período anterior à guerra para compreender a natureza dessas dificuldades. Visser t’Hooft. sob todos os aspectos. cit. obtiveram o apoio junto aos católicos romanos.100 No início. o Dr. nomeado secretário geral. materialista e anti-religioso. os Estados e os povos só dispunham de raríssimas instituições sociais. as Igrejas não puderam pôr em execução o projeto que haviam feito preparar pelo famoso Comité des 35 para constituir um Conselho Ecumênico das Igrejas. um luteranismo enrijecido. p. ou nas novas manifestações de um fenômeno social e político até então muito pouco conhecido. a defesa da Igreja e do catolicismo contra o comunismo.. O fascismo italiano atacava a Etiópia. esses movimentos fascistas encontraram eco favorável até nas paróquias mais recônditas. favoreceu na Alemanha mais fácil complacência dos crentes para com a nova ideologia política. as juventudes hitlerianas alemães mobilizavam até 90% dos jovens. resistiram mais depressa. os protestantes dos países nórdicos ou as minorias dos países latinos. Crise econômica sem precedente abatia-se com violência sobre todos os países industriais. precisamente. Número sempre maior de necessitados punham suas esperanças no marxismo revolucionário. e selaram a unidade. o espiritual e o temporal. Perto de 600. Invadindo a Europa toda. Além da caridade individual. Mützenberg. transmitiram sua vontade de união e de ação a um Comité provisoire du Conseil oecuménique des Eglises. mergulhadas na mais extrema miséria e muitas vezes reduzidas à mendicidade. que lhes permitiu manifestar o amor de seu Senhor apesar das trágicas turbulências que os separavam. Sob esse aspecto. W. cuja piedade estabelecia uma parede estanque entre os dois reinos. o franquismo saía vitorioso da guerra civil da Espanha.. Os cristãos reformados. que pretendia utilizar o cristianismo para seus fins ambíguos. um neopaganismo nacionalista. cuja direção confiaram a um teólogo eminente. para combater o materialismo marxista. que nenhuma jamais teve influência tão direta sobre seus participantes”. 135 .-A . porque representavam.99 Aqueles participantes figuraram entre os mais ativos elementos das Igrejas durante os anos sombrios.. a França inclusive. Como resistir? Surpreendidas pela guerra. é nesse 99 100 Ibid.grande conferência ecumênica jamais viera tanto a calhar. op. a seus olhos.. 6. G. ele desenvolveu atividade extraordinária durante todas as hostilidades. capazes de socorrer a multidão de famílias sem recursos porque sem trabalho.

como a ética social dos cristãos se renovou concretamente nos combates. 101 102 W. Ela serviu de confissão de fé para os cristãos alemães da resistência e depois. a Igreja desperta. que se apresentou ao Conselho Ecumênico em formação. Fora nesse contexto histórico ocidental. condenem o movimento ecumênico e o denunciem como uma Internacional cristã destinada à mesma sorte que a Internacional marxista!101 Vê-se assim. formando uma Eglise confessante no seio das Igrejas estabelecidas. que se haviam reunido as conferências ecumênicas de Oxford (Vie et action) e de Edimbourg (Foi et constitution) em 1937. de onde partira. 136 . que se desenvolveram muito rapidamente forças de resistência importantes. oferecidas pela Eglise confessante às paróquias que quisessem participar da resistência. Em 1936 já.país. reunidos em Eisenach. não esqueçamos. Himmler. O chefe dos SS alemães. Opuseram-se com firmeza a esse neopaganismo. não hesitava em preconizar o terrorismo e genocídio contra os judeus. 113 e 123. em 1934 já. Na noite de 9 de novembro de 1938. denominada “A Noite de Cristal”. contra os Deutsche Christen. os Cristãos Alemães. esse corajoso leigo do movimento dos estudantes cristãos da Alemanha. o nacional-socialismo desencadeou uma “explosão de forças brutais e demoníacas contra a humanidade”. por intermédio sobretudo do Conselho Ecumênico. Visser t’Hooft. e organizar assim a resistência dos povos a esse novo flagelo. p. 52. também. O redator principal dela fora Karl Barth. favoráveis ao nazismo. seguidas da constituição do Conselho Ecumênico das Igrejas em formação (COE) e do maravilhoso encontro da juventude cristã internacional em Amsterdã. dos organizadores das Semaines évangeliques. Não será surpresa que os Cristãos Alemães.102 Tratava-se também. de denúncias e de prisões freqüentes. Eis porque a primeira tarefa. ibid. por conseqüência. Essa minoria corajosa lutou. E foi nesses encontros que se fortificaram as convicções dos cristãos. p. que eles souberam enfrentar para permanecer fiéis à fé evangélica. uma escola de teologia em Barmen. H.-A . na sua luta contra o neopaganismo em processo de progressão rápida. e ver-se-á mais ainda nas linhas que seguem. A Eglise confessante organizara. entretanto. em nome do Evangelho. que os ameaçava. Duzentas sinagogas foram incendiadas e milhares de lojas judias pilhadas. Assim. à vista de um combate visionário pela unidade dos cristãos e em prol da paz e da justiça. Ibid. a famosa “Declaração de Barmen”. para os cristãos do mundo inteiro. a custo de duros sacrifícios. também. Fazia parte. mas pela emancipação espiritual real dos povos e. que iam trabalhar a renovação das Igrejas. foi o de arrastar os crentes para se devotarem a um combate em todas as frentes contra o neopaganismo. o próprio fundamento da ideologia e da prática do nacionalsocialismo. Um dos signatários desse manifesto era Reynold von Thadden.. em 1939. pela sua libertação temporal. de perseguições. quando se bate não por ela mesma. a Eglise confessante endereçara a Hitler um memorando denunciando. de despertar a atenção dos cristãos para a onda anti-semita que varria a Europa e atingia até mesmo as Igrejas.. para o Conselho Ecumênico.

William Paton e Visser t’Hooft assinaram. O Evangelho de Jesus Cristo é a realização da esperança judia. muita coragem. sobretudo comunista depois da ruptura do pacto germano-russo. utilizava o que chamava de “a via suíça” para facilitar 103 Ibid. Na Alemanha. não se lhes neguem as relações. 11). v. inclusive a política e a ideologia. em razão do fato de que o conselho era apenas provisório e não podia. Convém assinalar a esse respeito que a oposição ao nazismo e à expansão nacionalista alemã exigiu. que glorificava o nacionalismo e o patriotismo de um povo entusiasta. a resistência a esse nazismo racista. é a essência mesma da Igreja. exigia muito mais coragem ainda. Só pequena minoria de cristãos. portanto. 38. v. mas toda autoridade no céu e na terra. lutando contra uma invasão estrangeira.” “A Igreja de Cristo só deve obediência a Jesus Cristo e. O pastor balense Alphonse Koechlin.. dos oportunistas e dos colaboradores com o inimigo. não se confunda. orgulhoso de seu passado e extasiado por suas novas conquistas. nação ou sexo (Gálatas 3. o que se inferia naturalmente. a segunda sendo subordinada à primeira. Os movimentos de resistência foram notáveis.. Com efeito. em nome do Conselho.. Colossenses 3. obteve das autoridades federais facilidades não negligenciáveis para o trabalho muitas vezes clandestino desse Conselho. 125 e 127. falar em nome das Igrejas. motivados por fé vigilante e consciente das traições do neopaganismo. 137 . como Karl Barth e o bispo anglicano Bell. também clandestinamente. foi capaz de empreender tal combate que exigia alma de mártir. particularmente das Igrejas alemãs. em compensação. O escritório de Genebra tornou-se centro importantíssimo de comunicação entre todos os movimentos de resistência onde militavam cristãos. o pastor Boegner. Essa importante declaração dizia especialmente: “O reconhecimento da unidade espiritual de todos aqueles que permanecem em Cristo. Redigiram em conjunto uma declaração que o arcebispo Temple. Visser t’Hooft. de uma parte. reconhece que a Jesus Cristo foi dada não apenas parte.” E por isso. a salvação vem dos judeus (João e. da outra parte. o secretário geral do novo Conselho teve de abandonar a discrição que lhe impunham certas Igrejas. da Federação das Igrejas Protestantes da Suíça. muitas vezes clandestino. a santidade do Reino com a laicidade da política. Os resistentes eram frequentemente tidos por traidores a sua pátria e perseguidos por sua suposta cumplicidade com o inimigo. em todos os países em guerra contra a Alemanha. Ela não pode subtrair-se à missão de proclamar sua soberania em todos os domínios da vida. O exemplo dessa valente resistência foi encorajamento muito estimulante para os cristãos dos outros países.” “A fé cristã é a obediência a Jesus Cristo. p. que viajava muito. o Messias de Israel. Mas. mas.. no início de 1939. graças aos laços que o Conselho Ecumênico Provisório mantinha com eles a partir de Genebra. sem distinção de raça. v. Não se podia opor com maior clareza aos Chrétiens allemands que declaravam: “A fé cristã é o adversário irresistível do judaísmo..”103 A luta da Igreja resistente alemã foi um combate verdadeiramente heróico. Visser t’Hooft convocou certo número de eminentes representantes das diversas confissões. 22).Tão logo instalado em Genebra. a despeito das traições freqüentes dos covardes. por parte de porção não negligenciável de seus compatriotas. eles beneficiavam-se de certo apoio moral e ativo.

Não obstante as censuras que podia receber de diversos lados. especialmente junto aos refugiados. O princípio da capitulação incondicional adotada pelos aliados fazia ainda mais impopular a resistência aos olhos dos alemães. 175 e seguintes. eram muitas vezes mal compreendidas e suspeitas. 170 e 211... As intervenções do COE. em parte. e dos Estados Unidos. que provocara o triunfo do niilismo totalitário quer fascista quer comunista. de volta a seu país.105 A exterminação dos judeus tomara proporções pavorosas. questionavam-se sobre a reconstrução do futuro. difícil alertar a opinião pública a favor deles. Sobre que bases reconstruir? Após os inúmeros e sinistros bombardeios.importante circulação de pessoas e de documentos. cujos objetivos eram muitas vezes mal compreendidos. 195. p. com o apoio do pastor Marc Boegner e a enérgica colaboração de Madeleine Barrot. refugiados em Londres. o fracasso do atentado contra Hitler em 20 de julho de 1944. que haviam destruído cidades inteiras. As democracias estão gravemente doentes e as economias arruinadas. muitos crentes de origens confessionais diversas descobriram uma fraternidade que deveria fazer deles. Isso explica. Era-lhe. Favoreceu a formação de “paróquias do cativeiro”. e em particular o COE provisório. simplesmente porque eram judeus. Colaborava com diversas organizações de socorro. 208. Esse fracasso levou. mulheres. p. Ibid. ardentes militantes do novo ecumenismo. 104 105 Ibid. no Oeste como também na Polônia e na Rússia. entre outras. Seu departamento de auxílio mútuo aos refugiados e aos prisioneiros de guerra alcançou intensa atividade.104 Todos esses contatos secretos deviam servir em particular para obter dos governos dos países ocupados. se os resistentes conseguissem derrubar o governo. os cristão vigilantes. na Rússia sobretudo. p. 106 Ibid. e constatando o desmoronamento das bases espirituais e morais da antiga civilização ocidental. Tratava-se de encorajar essa resistência. O COE empenhava-se ardentemente em prestar-lhes socorro por todos os meios possíveis. porque o que se passava atingia tal grau de desumanidade e de horror e tanta crueldade era perpetrada contra as crianças. idosos e inocentes. onde sustentava a resistência das Igrejas contra o Estado totalitário comunista. quando este combatia os aliados. 193. Homens corajosos como o arcebispo Temple tomavam publicamente a defesa do COE na Grã-Bretanha. notadamente nos meios militares. todavia.106 Nestes campos de prisioneiros ou de refugiados. como o Cimade (comitê agrupando grande parte dos movimentos protestantes de juventude) na França. a certeza de que concederiam aos alemães condições de paz dignas. 138 . que isso a muitos parecia inverossímil e se afigurava provir de propaganda pouco objetiva.. à condenação do teólogo Dietrich Bonhoeffer que fora detido exatamente antes do golpe. o COE continuou incansavelmente sua atividade corajosa. 7. cuja esmolaria ele mantinha. junto ao governo.

uma vez encontrada uma unidade respeitosa das diferenças legítimas a reconsiderar. quando “os homens abandonam sua fé em Deus.. Assistia-se na realidade à emergência de diversas formas de neopaganismo. a questão era mais delicada. muitas vezes clandestinas. fazia contato com os chefes de Igreja ou da Resistência. necessário combater as novas formas da idolatria. O secretário do COE provisório estava em contato com a comissão por uma paz justa e durável do Conselho Federal das Igrejas nos Estados Unidos. se a democracia tinha ainda raízes sólidas na Europa nos países de tradição reformada. 60 e 61. O que se fazia 107 Ibid. fosse prestado a Jesus Cristo107 e que seja doravante dado pelas Igrejas. Doutro lado. 139 . Havia-se já. denegrida e desacreditada. Pierre Maury e Karl Barth haviam já chamado a atenção dos estudantes para o perigo de um cristianismo encerrado nos seus dogmas e cristalizado nas suas organizações eclesiásticas concorrentes. os movimentos cristãos de juventude haviam constatado a ambivalência da secularização do pensamento na Europa. todos perguntavam-se que Europa era preciso reconstituir e que tipo de democracia era necessário almejar. Mas. Se ela continha o benefício certo do laicismo do Estado. herdada do czarismo. a fragmentação de fronteiras. em conjunto com a perda de confiança na democracia. novo e vivido. colocava-se a questão do como a reconstrução. Urgia retornar a Jesus Cristo. Presidida por J. pois. se voltam para falsos deuses”. Bonhoeffer e Visser t’Hooft tentavam fazer com que as Igrejas alemãs entendessem que sua recusa legítima do absolutismo estatal de tipo marxista não significava forçosamente a aceitação de uma forma de democracia excessivamente individualista. Do lado dos russos. Desde antes da guerra. e a partir daí somente.O problema maior não era o dos meios. Era necessário que testemunho livre. conduzia. suscitavam paixões violentíssimas e exigiam os maiores sacrifícios. ela recomendava organizar a Europa em uma Federação. Visser t’Hooft. porém. Em vista dessa unidade e bem antes do fim das hostilidades. não se tinha certeza de que renasceria espontaneamente alhures. que eram outras tantas religiões novas e agressivas. estas não seriam destruídas por simples combate negativo. oposto a todas as tentativas de dominação clerical. Após os maciços deslocamentos de populações. que. p. É óbvio. a um vazio religioso perigoso. A partir daí. “mais rico do que qualquer de nossas fórmulas. era pouco compatível com a democracia. que. porque as Igrejas ortodoxas se mantinham sempre reticentes ao ecumenismo e sua organização. as deportações. por ocasião de numerosas e arriscadas viagens. mais poderoso para salvar o homem do que qualquer uma de nossas teologias” (Maury). Fazia-se. Constatava-se. acrescentava o escocês Oldham. Essas Igrejas debruçadas sobre si mesmas esterilizavam a fé dos cristãos e os impediam de corresponder às novas expectativas dos povos. aliás. constatado que tal secularização generalizada constituía o terreno privilegiado de novas pseudo-religiões: as ideologias políticas. ao contrário. Dulles. do como. desde antes da guerra. a fim de garantir transição pacífica para nova comunidade européia democrática. transfiguradas em verdadeiras místicas profanas. mas sim o dos fundamentos. com vários limites de soberania impostos aos Estados. sobretudo em certas grandes potências onde haviam triunfado as diferentes formas de fascismo. Era absolutamente ilusório imaginar que esse vazio espiritual iria limitar-se a simples indiferença para com as Igrejas tradicionais. F.

Receavam muito que este Estado não aceitasse nem aplicasse esses princípios elementares. de um mundo pervertido. sobre a necessidade de uma “distribuição dos recursos entre todas as nações”. infelizmente. porque como respeitar as convicções de cada indivíduo sem cair na confusão e perder a especificidade e a universalidade da mensagem cristã.. uma declaração clara sobre os direitos do homem e a soberania democrática. e a despeito da queda do regime totalitário. quando os crentes são fiéis. 221. Isso dava certo peso à propaganda nazista quando proclamava: “As plutocracias não têm nenhuma proposta concreta a apresentar no que toca a uma paz justa e a uma nova ordem social. mas muito especialmente ao de sua aplicação à sociedade. A primeira tarefa das Igrejas é. Ninguém se torna naturalmente democrata. fonte.necessário garantir. essas Igrejas estão em vias de adotar uma mesma atitude e de prestar um mesmo testemunho no que concerne ao verdadeiro fundamento da paz”. notadamente da Rússia. para que se construa a unidade. 110 Ibid. de Evanston (1954) e de New Delhi (1961).. O Conselho Ecumênico tinha grupos de discussão em todos os países europeus. É aquela que assistirá ao desenrolar das três primeiras grandes assembléias ecumênicas das Igrejas de Amsterdã (1948 com a criação definitiva do COE).) O período da reconstrução no após guerra pode ser aproximadamente fixado na vintena de anos que se seguiu ao fim das hostilidades. seguidas do Segundo Concílio Católico do Vaticano (1962 a 1965).”109 O Conselho fazia circular entre as Igrejas abundante documentação sobre suas diversas reflexões para a reconstrução de uma sociedade justa e durável. sobretudo quando vestígios longínquos da história e da religião não o favorecem. Verificava que a Carta do Atlântico. pelo menos. dessa transformação permanente de que o mundo precisa? Esta obra. p. sobretudo. que os aliados haviam elaborado sobre os objetivos de guerra. p. de uma Federação Européia. ética indispensável à vida dos indivíduos assim como à dos povos. tais princípios encontrem obstáculos a sua aplicação nessas pretensas repúblicas que a Rússia dominava. “Pela primeira vez desde séculos. as Igrejas reencontravam sua vocação.. inclusive a Alemanha. que 50 anos depois. não era suficientemente explícita a respeito de muitos assuntos. Reclamavam. nas suas relações com seus próprios cidadãos e com os outros Estados108. Para isso fazse mister muita fé e perseverança. sempre despedaçada. 198 e seguintes. Ibid. No curso desses anos. 140 . p. chamadas que são a testemunhar a unidade do Corpo de Cristo no mundo e a anunciar a ética que dela decorre. recuperar essa unidade através do aprofundamento dos problemas teológicos e eclesiásticos que as dividem. Elas insistiam. entre as nações. portanto.110 (Constata-se. não estando destinada ao estudo dos problemas teológicos fundamentais. era que o poder do Estado fosse limitado pela lei. e 220 e seguintes. Existia entre elas certo consenso. onde a divisão destrói incessantemente tanto a paz conjugal e familiar quanto a das nações ou dos homens e mulheres no seu trabalho. 228. não entrará nessas discussões teológicas. constatava Visser t’Hooft. a não ser para ressaltar a importância dos debates a 108 109 Ibid. A maioria dessas Igrejas recomendavam a constituição.

a esse propósito e de passagem. e também muito precisa. entre a fé cristã e a cultura ou a política ocidentais. também. escrita. Era preciso. e todas. da esperança cristã. no que concerne aos conselhos que elas dão a seus fiéis no plano moral. costumes. constante do primeiro artigo de sua constituição: “O Conselho Ecumênico das Igrejas é uma associação fraterna das Igrejas. que os problemas espirituais que preocupam as Igrejas são muito mais importantes. que os povos colocam cada vez mais nas ideologias políticas e econômicas. infeliz oposição entre os partidários de uma piedade muito exclusivamente interior e em demasia preocupada unicamente com a salvação eterna do indivíduo. pois. Ao mesmo tempo. e por vezes preconceituosa. para ser entendida por cada indivíduo e para conseguir. Eis o texto dessa “base” que define a natureza e o objetivo do Conselho Ecumênico. É preciso notar. sempre e por toda parte. aliás. leva pessoas mal informadas e talvez mal intencionadas a dizer que o COE só se ocupa de política! Convinha que aquela base. Filho e Espírito Santo. presente e último. porque a relação entre o Reino de Deus e a história humana contemporânea. e se esforçam por corresponder em conjunto à sua vocação comum para a glória do Deus único. confundir. que muitas vezes os cristãos haviam feito. que faziam certas Igrejas novas com as religiões locais. quanto as mesclagens. evitar tanto a confusão. Há. que fundamenta o pensamento e a ação do COE. os adeptos de um ativismo social ou político. segundo as Escrituras. punha-se a questão de como os cristãos deviam marchar juntos no combate universal. ademais. de um lado. ao mesmo tempo. econômico e social. que tinha por tema “A Esperança Cristã no Mundo de Hoje”. Pai. Sua visão restrita. Na assembléia de Evanston. era necessário confrontar essa esperança com todas as falsas esperanças.. p. fosse muito breve. fundamento de sua razão de ser e de sua missão. sucintamente expositiva dos objetivos do COE. convidadas a pensar sua missão através de todas as culturas e com relação a todas as políticas. político. por exemplo. que deviam empreender em prol da justiça social e da paz internacional111. O que estava em debate é importante. já que essas ideologias lhes prometiam todas futuro radioso. muitas vezes. entre a esperança última e as esperanças imediatas de um mundo melhor. especialmente à época da colonização. que decorre do Evangelho. Tais tentações subsistem. precisar o significado temporal e espiritual. do que permitem pensar muitas vezes os comunicados da imprensa. com os valores. ideologias e convenções de seu meio social. congregar os fiéis de todas as confissões e de todas as partes do mundo. que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador. a ética social. e do outro. quer o capitalismo quer os socialismos. tido por suficiente em si mesmo e muito facilmente esquecido das promessas da vida espiritual e da comunhão pessoal com 111 Ibid. Importava. 388 e 394. se reputavam científicas. Os crentes de todas as regiões do mundo devem evitar. 141 . assim. como fizeram e como ainda fazem muitas vezes. falada ou visual. divide muitas vezes os cristãos e comanda seu interesse ou seu desinteresse pela coisa pública e pelos sistemas econômicos e políticos.propósito da base escritural. isto é. que lhes são propostos. Devia recordar ao conjunto dos cristãos a universalidade e a especificidade única de Cristo.” As Igrejas achavam-se. às vezes inconsideradas.

”114 O Conselho retoma várias vezes essa advertência. Reportando-se à crise mundial. África e particularmente na África do Sul. 250. Nesse contexto bipolar mundial. não somente quebravam a unidade dos cristãos. Essa tensão crescente entre o Leste e o Oeste.” Essa mensagem atraía a atenção das nações para a advertência bíblica: “Pus diante de ti a vida e a morte: escolhe. Israel e golfo de Suez. Cuba. cit. cit. bem como os múltiplos conflitos que surgiam uns depois dos outros.. Essa juventude não se interessa por uma Igreja. depois Budapeste. a vida. que na realidade é apenas desordem mais ou menos grave aos olhos de Deus. 1948. Mutzenberg. em virtude. Falar-se-á doravante de “Responsable Society” que se faz necessário reconstruir porque. op. A menos que o homem não mude totalmente sua visão do mundo. Além disso. Genebra. também. do comportamento muitas vezes unilateral das Igrejas locais.. quanto à responsabilidade concreta destas para corrigir as desordens da sociedade. em Chipre. 1963. Paris. de credibilidade seu testemunho. portanto. 113 W. J. salvo algumas importantes minorias. A primeira bomba atômica havia explodido alguns meses antes da nomeação dos primeiros cinco presidentes do COE (os pastores Boegner e Mott... nem à direita. lhe faz eco. É na comunidade dos crentes que. p.-A . p. Deveriam arrancar os homens dessa falsa alternativa. também na Ásia. Cf. tanto que as jovens gerações se voltam para todas as falsas crenças que lhe são propostas. e G.-A . pedia aos governos que “sustassem por acordos internacionais as experiências e o desenvolvimento das 112 Ibid. Ellul. Fausse présence au monde moderne. Présence au monde moderne.Cristo. 258. Praga. Ellul. Visser t’Hooft. os cristãos. podem ser concebidos os compromissos concretos equilibrados. alertavam sem cessar o COE. destarte. nem no meio do leque político. Le temps.112 E agravando-se a guerra fria. op. Ellul. J. e de vivê-la. por princípio. se contentam muitas vezes com a ordem estabelecida. por sua atitude parcial. que só se apresenta como a passiva “serva do Estado ou do capitalismo”. com efeito. preocupação premente. Fsicher e Eidem).. La royauté de Jésus-Christ. à esquerda. nossa civilização perecerá. mas também acentuavam os antagonismos que os separavam uns aos outros e privavam. nas ideologias profanas. os delegados da Assembléia do COE repetiam: “As Igrejas deveriam repelir de uma só vez a ideologia do comunismo e a do laisser-faire capitalista. como o constata o jurista e teólogo francês J. 55 e seguintes. escolher livremente o que. que decorre da especificidade do Evangelho. 114 W. Genebra. Ela tem autonomia própria. diante de atualidade sempre nova. Suas referências estão alhures. 142 . p. Visser t’Hooft. Pode. que é revolução permanente. W... A fim de evitar esse duplo desvio. Estas.-A . Em 1957 já. notadamente. os temas de reflexão importantes propostos às assembléias ecumênicas referem-se tanto à autoridade da Bíblia na elaboração da mensagem política e social das Igrejas. op.. p. ao invés de proclamar incessantemente a ordem de Deus. os bispos germanos.. deixaram quase completamente de assumir pessoalmente sua vocação missionária evangélica. cit. 1948. 258 e seguintes. Visser t’Hooft.”113 A ética social dos cristãos não está. o problema do desarmamento e da utilização das armas nucleares tornava-se. é também ameaça de aniquilamento. pois. sempre recorrente nos meios cristãos. liberando a energia atômica. eles redigiram uma mensagem que dizia notadamente: “O triunfo do homem.

33 e seguintes). em 1937. 26. do que aos ensinamentos do Evangelho. o reprovavam por favorecer a propaganda e ação revolucionária comandadas de Moscou e de se deixar manipular. com sua Igreja. e que corrompe as mais nobres intenções pelas quais é feita. Ao contrário. conviria examinar um problema que interessa a todos os cristãos: que ligação existe entre o movimento ecumênico e o catolicismo romano? Essa questão será objeto do parágrafo seguinte. quando dos conflitos de Praga. Em Oxford já. Budapeste e China onde as Igrejas eram perseguidas. Eles aí se defrontam com deveres 115 Ibid. que foram muitas vezes resistentes corajosos. durante a guerra. sem minimizar os crimes às vezes inexpiáveis sob o aspecto moral cometidos coletivamente pelos exércitos ou individualmente pelos militares ou seus chefes a pretexto de que a sua causa é legítima. a comprometer-se para o triunfo do amor e da justiça. foi acusado pela esquerda política de desenvolver “atividades contrarevolucionárias” nocivas aos povos e às Igrejas. 143 . na ordem do dia do COE desde suas origens. Por causa dessas diversas atividades com vistas a desenvolver uma “sociedade responsável”. Antes de entrar nesse período. c. ditos cristãos.”115 Diversas intervenções do COE contribuíram para acelerar a redação de tais acordos antinucleares. no pecado que despedaça o mundo. Na época seguinte. As Igrejas tiveram que se questionar sobre a participação dos cristãos nas forças armadas. temerosos de se engajarem politicamente e esterilizarem assim seu testemunho de cristão. Isto deve ser dito com a humildade que comanda o Evangelho. p. e permanecerá sendo para sempre. 381. o preço da fidelidade e da liberdade dos cristãos. mas não violentos. Tal é. que lutam por que triunfem aqui em baixo a justiça e o amor de Deus por todos os povos. militares crentes pensam que. Os cristãos estão todos enredados. outros meios. Os pacifistas ativos. sendo sempre destrutiva. favorecendo a paz e a justiça. na direta sucessão do apóstolo Pedro (Mateus. Temple reivindicava com justiça para os cristãos a livre escolha entre essas duas posições espiritual. pode acontecer-lhe que se equivoque. sobretudo internacional. moral e democraticamente respeitáveis. chamado. A propósito das atitudes assumidas.. a questão fora debatida e viu-se desenhar posições que refletiam muitas opções habituais dos crentes diante da guerra. O arcebispo anglicano W. financeiros notadamente. cada vez mais abominavelmente mortífera. v. Quando reclamava mais justiça para os povos colonizados. mas mais atentos a seus interesses particulares. no entanto. deve ser absolutamente denunciada pela Igreja e que os fiéis devem recusar dela participar militarmente. pelas armas. consideram que a guerra. após a da reconstrução propriamente dita. E é esse risco que impulsiona muitas vezes certos cristãos. cegos por sua ideologia. e em particular para os negros da África do Sul. afirmando firmemente sua fé em Cristo e procurando seguir concretamente seus ensinamentos evangélicos. de uma forma ou outra.armas nucleares. um mínimo de ordem política. o COE foi inevitavelmente atacado no seio mesmo das Igrejas por numerosos ambientes. É preciso ainda examinar problema difícil. as Igrejas devem apoiar aqueles que defendem. e mesmo por vezes os renegue. porque cada crente sabe que. abordar-se-á freqüentemente o tema do desenvolvimento dos povos e isso muitas vezes em colaboração fraterna com os cristãos da Igreja Romana.

116 Em plena guerra.contraditórios. Que unidade com Roma? A propósito da preparação da primeira assembléia do COE em 1948. podia ser suscitado pelo Espírito Santo.118 Todavia. Suscitavam numerosas reuniões. deve sobretudo manifestar que é a Igreja sempre unida como Corpo de Cristo. Villain e o escritor Guitton representavam a vanguarda do ecumenismo católico. de participar. precisava que só se podia considerar a unidade como retorno de todos ao seio da Igreja Católica Romana. nas quais se acha implantada. orar para que. os observadores católicos. sem sua autorização. com seus escritos audaciosos. 118 W. a despeito das imensas dificuldades que deparava: “A Igreja. op. Temple definia um comportamento dos cristãos em caso de guerra que foi sempre estimulado pelo COE. Em 1950. O jesuíta Jean Danielou. “A corajosa confissão das Igrejas em guerra convoca todas as outras a renovar sua fé e sua vida. Cada indivíduo deve poder optar pelo que lhe parece uma escolha relativamente melhor ou menos má. P. em 1942. Severas reservas foram pronunciadas contra a falsa expectativa de um ecumenismo realizado fora dessas condições. pela encíclica “Mortalium animos” em 1928. Essas Igrejas manifestam-nos o que significa ser a Igreja de Cristo. mesmo quando as nações. Hamer. novas perspectivas.. Paris. Mas. p.. que deve ser feita com total liberdade diante de Deus. Visser t’Hooft. W. Ecumênicos católicos abriam. cit. uma “Instrução” do Santo Ofício reconhecia que o desejo de unidade. não hesitam entrevistar-se com Visser t’Hooft em Genebra. também. p. de encontros entre Igrejas. deve ser politicamente respeitada. p. mais tarde cardeal e confessor do papa Pio XII. Mas. manifestado pelo movimento ecumênico. por ocasião da segunda assembléia do COE em Evanston. quando procuram desempenhar a missão profética da Igreja para com as nações. op. Cf. Ellul. Mas em 1954 ainda. endereçaram de Genebra para todas as Igrejas mensagem resumindo bem o ensinamento. quando tudo arriscam na Palavra de Deus. entre os quais os pastores Marc Boegner e Alphonse Koechlin.-A . nacionalista. racista ou comunista. o dominicano J. por vezes confidenciais. 144 . se combatem. lembrou-se que o Vaticano renovara a proibição feita aos católicos. Muitos deles haviam-se corajosamente oposto às novas formas de paganismo contemporâneo. 400. dizia. quer nos campos de prisioneiros e refugiados. 172..117 8. que haviam solicitado ao bispo local autorização para dela participar a fim de acompanhar os debates. J. de forma unânime. o nome de Deus seja santificado. 1972. um pouco mais livre na França que alhures.-A . Visser t’Hooft. alguns membros do COE provisório. 100. cit. futuro cardeal. Contre les violents. Além disso. através de seus protestos e suas reservas no tocante às ideologias e aos comportamentos anticristãos”. homens como o R. mais tarde responsável pela Secretaria do Vaticano para a Unidade. cristãos de diversas confissões haviam criado novas e preciosas relações entre si durante a guerra. quer na resistência. Augustin Béa. não alcançaram a 116 117 Ibid. Deve. quando reconstroem sua vida paroquial segundo o modelo bíblico de comunidade e solidariedade. que deviam tirar da força espiritual dos cristãos resistentes. o R. P. seu Reino chegue e sua Vontade seja feita em todos os países em guerra”. E essa escolha relativa.

a Visser t’Hooft para encontrá-lo numa entrevista. As discussões referiam-se evidentemente à natureza da fé cristã e da Igreja. 145 . Realizou-se em Milão. o papa Paulo VI publicou sua primeira encíclica. Tiveram influência.permissão. o COE fixou sua posição: a Igreja Católica Romana é uma Igreja como as outras e o Conselho Ecumênico é um conselho de Igrejas situadas todas no mesmo nível. de transmitir às outras Igrejas a verdade detida pela de Roma. produzia uma segunda encíclica social intitulada “Pacem in terris”. sobre a redação das constituições e decretos. novas relações teceram-se entre o Vaticano e o COE. Desejara que o COE fosse diretamente informado. Para a preparação desse concílio. foram muito eficazes..121 119 120 Ibid. econômicos e sociais. para tentar dar soluções aos imensos problemas da sociedade contemporânea. A terceira sessão do concílio votou o decreto sobre o ecumenismo. Tiveram que fixar seus escritórios na periferia da cidade. Os ecumenistas católicos ficaram consternados. Este papa pretendeu criar um novo departamento no Vaticano. por vezes decisiva. intitulada “Mater et magistra”. as recomendações práticas dessas encíclicas coincidiam. No entanto. dizia com razão (e isso permanecerá verdadeiro até nossos dias). O problema fundamental. 412. João XXII publicava sua primeira encíclica social. aí. parecia. Mas. Ele está a serviço delas e as iniciativas procedem das Igrejas. de onde acompanhavam o desenvolvimento das reuniões. Como aliviar o sofrimento de tantas multidões humanas. para o catolicismo. a partir dos relatórios que lhes faziam jornalistas amigos. o decreto retirava com uma mão o que oferecia com a outra. que não devia realizar-se nem em Roma nem em Genebra. que devia ser confiado ao cardeal Béa.. Eleito em outubro de 1958. enquanto se multiplicavam os encontros privados entre leigos e eclesiásticos de diversas confissões. anuncia. Depois de vários retoques feitos pela autoridade superior. 121 Ibid. p. Decidiu-se. 397 e seguintes. p.120 Em agosto de 1964. com as das assembléias do COE que se referiam aos mesmos problemas políticos. 410. que observadores católicos seriam enviados a New Delhi e que delegados do COE seriam convidados para o evento inesperado e extraordinário que se preparava: o Segundo Concílio do Vaticano. a Secretaria para a União. Béa pediu. Em seguida. portanto.. onde insistia sobre a necessidade do diálogo com os cristãos não católicos. p. No tocante ao diálogo. após a terceira assembléia do COE em New Delhi e pouco antes de sua morte. a convocação de um concílio ecumênico a realizar-se em 1962. as intervenções dos observadores do COE no concílio. o pastor Lukas Vischer (suíço) e o ortodoxo Nikos Nissiotis (grego). a encíclica considerava-o sobretudo como uma forma. com o papa João XXIII. cristãs ou não? Em 1961. já no ano seguinte. Não se tratava de renunciar a essa capacidade igual das Igrejas. elas estendiam-se também às conseqüências. Tudo devia mudar. Ainda que fundadas sobre teologia antes natural que solidamente bíblica. sob muitos aspectos. que se impunha tirar da mensagem cristã.119 Antes desse concílio e para evitar qualquer confusão. que teria início em 1962. era aquele da “primazia papal”. Ibid.

a vida sexual em geral e o crescimento demográfico em particular. Indicava que muitas coisas haviam mudado nas suas relações. paz. todas as outras divergências. problemas nos quais a autoridade exclusivamente masculina do magistério católico se demonstra especificamente inadequada. que pretendem dar em prol de Jesus Cristo. há alguns anos. quando as Igrejas falam de justiça. ela não foi suficientemente profunda nem suficientemente regular. social notadamente.) Mas. Quando se lêem as obras que foram publicadas a respeito do Segundo Concílio do Vaticano. 420 e seguintes. 146 . p.. aproveitou para reafirmar sua primazia a que não pretendia renunciar122. não se trata de preocupações alheias à sua missão. (Consideradas sob este ângulo. escreve: “Se. A Igreja Romana e também outras Igrejas estabelecidas são todas sectárias. e isso permanece sem dúvida. Sua visita ao Centro Ecumênico daquela cidade foi. convidou Paulo VI a um encontro na oportunidade de sua participação no qüinquagésimo aniversário da Secretaria Internacional do Trabalho em Genebra. momento histórico na história das relações entre cristãos. impede tal marcha unitária no respeito mútuo. publicou sobre essa matéria um livro no qual. num plano de igualdade. A propósito da convergência de suas proposições. falando da colaboração com os observadores do COE. como deixam entender por vezes certas críticas infundadas. importantes pontos de convergência. como a propõe o COE. pelo menos. Foi. Todas as confissões poderiam então. os 122 Ibid. não se abordem os problemas relacionados com as mulheres. o aspecto propriamente pascal dessa Soberania e o cuidado de não mesclá-lo com temas de “direito natural” decorrem. por ocasião das discussões relativas tanto à missão da Igreja quanto aos problemas sociais. Diante das questões efervescentes que as Igrejas têm que responder. já que esses problemas dizem respeito em alto grau à ética dos crentes. contanto que. convém precisar que. elas descobrem as vantagens que teriam em se ajudarem mutuamente. Era. Mas. econômicos e políticos. o obstáculo principal que se opõe à unidade dos cristãos. dogmáticas em particular.. sobretudo.Na primavera de 1969. as Igrejas mantêm. Por exemplo.” E adita mediante nota: “. continuar a marchar conjuntamente confrontando suas divergências legítimas ou suas diferenças no testemunho. em nossa opinião. na Igreja e na sociedade.. é-se chocado ao ver a importância que seus autores atribuem à contribuição dos teólogos ortodoxos e protestantes. desenvolvimento. não há somente seitas protestantes. Só a pretensão das seitas de confiscar a verdade evangélica. Com efeito. depois da carta de Lukas Vischer. sua importância não deixa de ser menos incontestável. sucessor de Visser t’Hooft na secretaria geral do COE. proclamando que são as únicas intérpretes fiéis. que participou de todas as discussões conciliares para a preparação da “constituição pastoral Gaudium et Spes” sobre “a Igreja no mundo de hoje”. a despeito dessas oposições. da influência ecumênica. sem dúvida. na confissão de sua fé e na sua ética. Charles Moeller. o pastor americano Eugen Blake. Paulo VI qualificou aquele encontro de “momento profético”. não impediriam o estabelecimento de uma unidade orgânica das Igrejas. Mais precisamente. que o comitê de redação da época tomou consciência da necessidade de falar da Soberania de Cristo e de fazer dela uma idéia central.

também apareceu a encíclica de Paulo VI sobre o mesmo tema (Populorum Progressio). enquanto o dos armamentos está em forte progressão. Esta havia rasgado o véu que. a maioria se multiplicava em pobreza crescente. onde Igrejas membros do COE e a Igreja Romana se encontraram. Os secretários gerais do COE. intitulada “Igreja e Sociedade”. L’Eglise dans le monde de ce temps. em virtude das novas tensões políticas entre o Leste e o Oeste. logo. 1968. em Genebra. em Upsal. se parte delas enriquecia. nasceu de uma redescoberta fundamental para a ação ética dos cristãos: novamente compreenderam que Cristo não é somente o Salvador dos crentes e o único chefe verdadeiro de suas Igrejas. que. em 1966. Ela suscita grande interesse por esses novos problemas. Paris. Que Igreja hoje. são chamados a conhecêlo. denominaram-se essas imensas regiões de em via de desenvolvimento. por que sociedade? O renovamento ecumênico dos anos sessenta. p. Naquele mesmo ano. no curso das recentes décadas. pela Conferência de Beirute sobre o desenvolvimento. ainda. mas que é também o Senhor de todos os povos e de toda a criação. fez disso uma de suas maiores preocupações. Debater-se-ão. Nos anos seguintes. Blaser. De fato. a primeira . os governos põem em funcionamento instituições. não se falará aqui dos diversos aspectos dessa ética social. tanto para sua salvação espiritual pessoal quanto para as conseqüências éticas que dela daí decorrem para eles e para a sociedade. K. Todos os seres humanos. enquanto em 1968 tem lugar a quarta assembléia ecumênica das Igrejas. urbanas notadamente. esses problemas nas assembléias seguintes. notadamente em Nairóbi em 1975 e em Vancouver em 1983. Por pudor. A terceira assembléia do COE em New Delhi.conferência de alcance mundial. na sua crueldade. É o que foi proclamado no curso dessas últimas décadas. seu financiamento é sempre avaramente medido.e infelizmente a última até hoje . durante os anos cinqüenta. Deixava-se subitamente aparecer. reuniu-se pela primeira vez a CNUCED (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento). Em 1964. tantas vezes comum às diversas confissões. 1990. Une église. assistira-se às lutas dramáticas pela descolonização.124 9. que se manifestou na maioria das confissões. des confessions. quer pelas assembléias do COE quer pelo Concílio do Vaticano. que sucederam a M. que multiplicam as declarações em prol do desenvolvimento mais rapidamente do que as ações. 62. L’élaboration du schéma XIII. Interrogava-se seriamente sobre as causas desse subdesenvolvimento de imensas populações. 124 Cf. em 1961. 63. em pé de igualdade. Visser t’Hooft 123 Charles Moeller. Depois o COE organiza. aos olhos dos habitantes das metrópoles ocidentais. Vão aparecer na problemática do “desenvolvimento” que ocupará as Igrejas nos últimos tempos.”123 Para evitar as repetições. 147 . ocultava a miséria dos povos colonizados. de comum acordo.católicos e o Conselho Ecumênico tomam consciência da importância crescente dos problemas que unem a Igreja. o mundo e o Reino. Genebra. a pobreza inquietante de grande parte do Terceiro Mundo. em 1967. É seguida. sem compreender. quaisquer que sejam. Ë preciso recordar que. importante conferência mundial.

G.. Esse laisser-faire. 1992. 1990. que teve por tema “A Paz. M. pode realizar-se? Para dar prosseguimento às recomendações da assembléia do COE de Vancouver. Il était un fois. Este teve lugar em Bale (Suíça). porém. Esse local afigurava-se predestinado a esse evento: em 1431 aí se reunira o famoso Concílio de Bale. Genebra. Strahm. 148 . que fazem pesar sobre o planeta as teorias clássicas da economia no seio de uma situação demográfica mundial explosiva. a Reforma aí fora pregada e adotada sob a influência de Oecolompade. Uma jovem estudante finlandesa pôs o dedo sobre a ferida de que padece nossa época. têm sido muito ativos no estímulo das Igrejas para sua reflexão e sua ação ecumênica e em tentar vencer o enclausuramento de suas instituições.até nossos dias. depois o humanismo aí florescera com Erasmo e. 1986. le développment. que se realizou um verdadeiro encontro ecumênico de certa amplitude. estão envolvidas com a incapacidade da humanidade de cultivar e de conservar a terra. como tal milagre. a Justiça e a Salvaguarda da Criação”. sobretudo nas sociedades de alto consumo. sua vontade de rever todas as idéias recebidas. tomar em consideração o crescimento da pobreza da maioria e as ameaças. Com efeito. se preguiçosamente contentar-se com preconizar um crescimento cego. para a multidão. correntes nos meios políticos e econômicos assim como entre os cristãos. locais especialmente. Diante do crescimento da miséria e do desemprego. negligenciavam. 1973. Sabelli. tão benéfico sob tantos aspectos. Coleção: Le développement en questions. G. graças a um convite do governo solicitado por alguns protestantes influentes. Lausanne. Le développement fou. repères pour l’après-développement. Rist. a questão que se põem todos os meios conscientes de suas responsabilidades torna-se lancinante. intimamente ligada à primeira: que tipo de democracia urge encorajar. onde protestantes e católicos europeus proclamaram. Le Nord perdu. R. pouco antes da queda do muro de Berlim. a Conferência Ecumênica das Igrejas Européias (que congrega as Igrejas do Leste e do Oeste) convidou o Conselho das Conferências Episcopais Européias Católicas (CCEE) para agregar-se a ela para a organização de um encontro plenamente ecumênico. Rist et F. para os mais ricos. de voz unânime. A . e negligenciam ainda. Ela se formula assim: qual é o tipo de desenvolvimento que é melhor apropriado para a situação atual do mundo? Imediatamente põe-se uma segunda questão. como nos primeiros encontros ecumênicos (e contrariamente aos costumes de muitas organizações eclesiásticas entorpecidas). disse. muitas concepções. que se vai ver como as Igrejas tentaram responder a tais questões. a juventude desempenhou nele grande papel e foi ouvida. ao mesmo tempo que o aumento do desperdício. não controlado por ética social rigorosa. Pourquoi sont-ils si pauvres? Faits et chiffres sur les mécanismes du développement. até então. Mas. Rahnema e G. Esse encontro resume bem as decisões já tomadas nas conferências precedentes e tem a vantagem de expressar. Lausanne. 1990. Esteva. Genebra. Biéler. o pensamento de todas as confissões. “As Igrejas.. em 1983. pela primeira vez. o de um ecumenismo pleno. vai intensificar ainda seus efeitos negativos. a respeito do crescimento e do desenvolvimento. Yverdon (Suíça). para assegurar a participação de cada um e de todos os povos nesse desenvolvimento?125 É examinando as recomendações do encontro ecumênico europeu de Bale. Foi em 1989. em Bale. negligências que as gerações futuras pagarão muito caro e muito cruelmente. Note-se também que. por fim. Fazem 125 Cf.

von Weiszäcker. Mostra a todos a nova forma de viver. no entanto. que seguem. da economia e do ambiente. É nessa comunhão espiritual com o Espírito de Cristo que cada homem e cada mulher podem encontrar sua identidade. inteligente e eqüitativa de todas as riquezas da criação. 128 J. A justiça social é para nós. Urge encontrar as modalidades práticas de uma gestão responsável. por vezes elas mesmas contribuem para promovê-lo”. que se revela na vida e ensinamento de Jesus de Nazaré. porque esses domínios são fortemente interdependentes. autor do livro O Tempo Urge127 e que lançara a idéia de um concílio da paz. dupla exigência: justiça social para com essa maioria que são os pobres e os famintos dos países do Sul. com referência às falsas crenças e às éticas enganosas que constantemente o solicitam. Além disso. 1987. esse mundo sempre dominado pelas ideologias. europeus.. justiça social para com as minorias pobres nos nossos próprios países. resumem muito sucintamente (e por conseguinte simplifica inevitavelmente). aliás.”128 Toda reflexão sobre a ética social cristã comporta análise dos fatos contemporâneos. É a partir disso que cada indivíduo pode adquirir certa liberdade. “O problema não está tanto nas palavras que pronunciamos em nossas preces.. primeiramente. atenção particular dada ao sofrimento de suas vítimas e séria busca de suas causas assim como de seus remédios. As linhas. 1989. antes de ser desnaturada. inclusive nos meios de Igrejas.parte de um sistema econômico injusto. reconhecimento dos seus efeitos positivos e negativos. Prieur.-M. declarava de sua parte: “A justiça significa justiça social e direitos humanos. cabe pôr em evidência aqueles aos quais a ética de Cristo confere prioridade ou nos quais põe insistência particular. Responsables de la création. as premissas teológicas sobre as quais se assentam essas declarações. estão de acordo e sobre as quais se baseia sua ética. F. depois as principais recomendações práticas propostas no domínio da política. Genebra. Paris. do reconhecimento da soberania universal e cósmica de Deus e de sua Palavra de amor. a fim de que se tornem todos capazes de criar entre si uma vida social harmoniosa. ou quase todos. C. 39 e seguintes. e que o viva. antes de mais nada. Tal classificação apresenta. p. que necessitam de espiritualidade vivida e de ética social corajosa. Op. 149 . cit. que as ajudem a ver claro no mundo presente. p. mas no fato de que. que devem ser traduzidas nos fatos concretos. consoante o desígnio de seu Criador.”126 Não se poderia expressar melhor a expectativa das novas gerações. ideologias essas que prevalecem em todos os meios. Contentou-se em Bale de enumerar algumas grandes linhas da teologia cristã sobre as quais todos os crentes.. Essas afirmações espirituais fundamentais conduzem a reflexões éticas. Trata-se. Um dos oradores desse encontro. sem exceção. Devem. Esse Homem novo representa perfeitamente a criatura humana. se é que rezamos. Precisamos de Igreja que crê no que proclama e no que reza. mas quando se defrontam com os problemas das comunidades. As Igrejas parecem muitas vezes capazes de emitir juízos morais sobre o comportamento dos indivíduos. rezamos de maneira tépida. 16. muitas vezes. subitamente não encontram mais critério algum”.-M. tal qual fora criada à imagem de Deus. aspecto arbitrário. 126 127 J. entre todos esses fatores. Prieur. manter “diálogo contínuo com as pessoas que se ocupam dos problemas de nosso tempo.

vigiar para que a pesquisa científica. 65. 85 e 86. que leve a atos concretos e cotidianos. abster-se-á de contestar que a vocação divina. contestou-se a tese consoante a qual as degradações da natureza.. que teria conduzido o ser humano a se julgar o senhor da criação. Os partidários de teologia e de moral natural pensam que toda pessoa humana está em condições de encontrar Deus por si mesma na sua consciência. 15 e seguintes): Em Cristo “temos a redenção. Com efeito. Convém. eliminar as desigualdades entre homens e mulheres na Igreja e na sociedade. que resume a obra de Deus (Epístola de Paulo aos Colossenses. especialmente a que procede a manipulações genéticas. bem como do esquecimento pelos cristãos das exigências de justiça e de paz do Evangelho. seriam devidas ao espírito da religião judaico-cristã. a hostilidade nas suas relações.Sobre o estado atual da natureza. enfim. que conduzem à guerra e às enormes despesas com armamentos. a discriminação racial e cultural.. mas todas as divisões superficiais e rotineiras. p. que só a Palavra divina transmitida ao mundo por Cristo pode dissipar. 57. as opiniões divergem. hoje tão alarmantes. p. 131 Ibid. c. endereçada ao homem para que cultive inteligentemente a terra.. as Igrejas têm a responsabilidade de facilitar a unificação do Leste e do Oeste..”130 Com justa razão.. 58. combater o anti-semitismo que existe em nossas sociedades e mesmo em nossas comunidades religiosas. por vezes. 59 e seguintes. no céu e na terra. a tortura. Prieur. especialmente entre os adeptos de crenças e de 129 130 Sobre esses assuntos. o perdão dos pecados. segundo as percepções pessoais ou as concepções confessionais. com as leis morais que asseguram seu pleno desenvolvimento e o bom funcionamento das sociedades. Ibid.”. p. não suas diferenças legítimas. v. os seres visíveis como os invisíveis.132 No contexto atual. É preciso corrigir nosso estilo de vida e rejeitar os meios de produção e de circulação que poluem a natureza. o cardeal francês Etchegaray.-M. bem como suas múltiplas formas de intolerância. constatam que a criação no seu todo está de tal forma separada de Deus que ela vive numa obscuridade. 132 Ibid. dizem. op. conduziu as Igrejas a solicitar aos cristãos que se arrependam e considerem uma nova conversão. foi muitas vezes mal entendida e continua a ser. que é a Igreja. que contraditem seu testemunho e desacreditem suas Igrejas.. p. 80. “Tudo foi criado por ele e para ele. Ele é a imagem de Deus invisível” ao mesmo tempo que é o “primogênito de todas as criaturas”. o que impõe aos crentes e às Igrejas permanente dever de evangelização. lutar contra a violação dos direitos do homem. 1. que lembrará (em particular aos protestantes que a teriam esquecido) esta afirmação importante da teologia cristã. para que tenham credibilidade em todos esses esforços. empenhar-se em superar as divisões entre ricos e pobres. se aplicarem a suprimir. especialmente pelos adeptos do crescimento cego da economia e da demografia. não se perfaça sem sérias preocupações éticas.129 É um católico. poderosos e fracos. ler-se-ão os debates relatados por J. 8).. As Igrejas enumeram alguns desses atos. denunciar a idolatria da violência e o militarismo. “nele tudo foi criado.131 A constatação desse abuso. além disso. fazem-nos ridículos. Outros. e ele é a cabeça do corpo. os cristãos devem. atentos aos ensinamentos bíblicos e em particular aos do apóstolo Paulo (Romanos. A desconfiança e. cit. encorajando o diálogo. 150 .. Mas. c.

p. aos pleiteantes de asilo e aos refugiados. aos trabalhadores migrantes (71). pela ascensão ou sobrevivência. os delegados das Igrejas entendem ainda favorecer a criação de nova ordem econômica mundial (NOE). também as páginas mais particularmente consagradas à guerra. cujo desperdício atingiu proporções gigantescas nos países industrializados.concepções do mundo diferentes. também. portanto. que exige imediatamente gestão racional dos recursos naturais não renováveis. também. a atenuação das dívidas dos países pobres. Propõe-se a inteligente regulamentação das relações comerciais internacionais. pela irresponsabilidade de abastecidos perdulários. cujo consumo poderia ser reduzido mediante técnicas de economia energética eficazes e o desenvolvimento de fontes de energias renováveis (sol. Esta deverá prestar. onde alguma raiz espiritual não engendrou as condições favoráveis à eclosão de uma real responsabilidade dos indivíduos. 135 Ibid. 77. de autoridades despóticas com aparências democráticas. face às autoridades religiosas e políticas. ao desarmamento e à não-violência (72 a 74). Todo desenvolvimento econômico deverá ser avaliado segundo seus resultados no plano social. notadamente lá onde ela está ameaçada pelo ressurgimento do comunismo ou. Os delegados recomendam.. que mais satisfazem as ambições dos dirigentes locais e os interesses dos países ricos exportadores do que as necessidades reais e prioridades das populações. 65 e seguintes. das medidas sociais e das normas ecológicas. 151 . entrava perigosamente a boa marcha da democracia. Enfim. em virtude de seus riscos técnicos e militares”. aos oprimidos. Deseja-se “desenvolvimento durável” e equilibrado. Cf. notadamente limitando as concessões de crédito destinadas a projetos grandiosos. a energia.135 Falando dos resíduos. muitas vezes. 69. Quanto à energia nuclear. o caso nos países.. “modificação na utilização dos recursos naturais. Isso é particularmente verdadeiro a respeito dos combustíveis fósseis. no outro extremo. fechado ao resto do mundo. também.134 A Conferência insistiu fortemente nessa salvaguarda da criação e dos interesses das gerações futuras. autoritárias e hierárquicas de certos países e combater as forças que tendem ao nivelamento por baixo dos valores morais. não deveria constituir a energia essencial do futuro. 134 Ibide. cada vez mais clandestinos e cada vez mais concentrados. segundo seu impacto sobre o ambiente e seu cuidado com as gerações futuras. atenção contínua aos pobres.. que atenção especial seja reservada pelas Igrejas aos conflitos étnicos e regionais. Trata-se. em todos os continentes. O processo de integração da Europa Ocidental deve ser favorecido num sentido que respeite ao máximo as autonomias regionais. sob diversas formas. não poderia tratar-se de criar um baluarte da Europa. O fortalecimento de poderes financeiros. aos desempregados e aos fracos. especialmente.133 No plano econômico. Preconiza. p. vento). Cumpre a todo custo evitar que triunfem as tradições centralistas. de estimular reformas democráticas em todos os países onde a democracia está presentemente em perigo. muitas vezes preocupados exclusivamente com seu bem-estar. local e internacional. A democracia está também ameaçada. água. Tal é. p. ao racismo (70). que se multiplicam com a aceleração do consumo e de seu 133 Ibid. de sorte que se faz necessária uma redução draconiana. Exige “reviravolta total no conceito de crescimento econômico constante”.

Coste. ou é necessário também prevenir esses padecimentos agindo sobre suas causas. do cristão fiel nunca deve ser motivo para abatimento. Para a segunda questão. esse isolamento. Paris 1989.136 O problema delicado da demografia e da superpopulação é abordado pelos delegados. especialmente. Paix. Cf.. ou geram desequilíbrios no ambiente? Em Bale. a modificação das estruturas. assim como ao do aborto. R. p. Uma vez mais.. e por conseguinte político. Para os cristãos. isto é. op. é feito dos centímetros de cada um de nossos passos. respondeu-se que importa operar. 81. por causa da inconformidade com as normas do mundo. Carecendo muitas vezes de sentimento profético. muitas vezes ausente. 152 . a resposta das Igrejas de todas as confissões é clara: para a primeira questão. também. modificando as estruturas socio-econômicas e políticas que engendram as injustiças. por isso. são colocadas duas questões éticas que dividem os cristãos: devem as Igrejas engajar-se mediante atitudes públicas no domínio ético. Schäfer-Guigner. 85. Genève. procurando amplo consenso. Et demain la terre. em particular dos resíduos nucleares. 83. a violência e as guerras. isto é. 76. correspondendo melhor às exigências nunca atingidas do amor divino.. justice. São matérias incandescentes a respeito das quais as Igrejas divergem. os cristãos e suas Igrejas têm com excessiva facilidade limitado seu conceito de justiça ao direito em vigor. por vezes doloroso. A esperança vem menos das grandes idéias do que dos pequenos sucessos” dizia um delegado ao término desse importante encontro ecumênico. É. jamais existe repouso na ação em prol de um mundo melhor. os delegados declaram que é necessário e urgente estabelecer um regulamento internacional para a eliminação dos resíduos. Mas. p. o que exige educação contínua nesse sentido. 79.acondicionamento. cit. à questão do celibato dos padres e à do acesso das mulheres aos diversos ministérios eclesiásticos. 80. que não há vida cristã sem a aceitação de certa distância com referência a seu próprio meio social. 137 J. ou basta que seus membros o façam a título individual? Segundo: é preciso contentar-se com ações caritativas. Prieur. 75. estreitamente ligado ao da proteção da vida. as Igrejas e os cristãos em conjunto devem engajar-se. “Ninguém pode dizer que ele ou ela não tem influência alguma. gérance de la création. que conduz ao seu Reino. Certos oradores sublinham fortemente que “a defesa do meio ambiente se tornou o problema número um da humanidade”. Nos seus negócios.. consideradas as orientações pouco flexíveis do Vaticano. Impõe-se absolutamente evitar que os países europeus os evacuem com prejuízo de outros países.christianisme et écologie. assim como no que se refere às relações entre homens e mulheres na Igreja. cuidar dos males de que sofre o próximo. 137 136 Ibid. Uma ética séria é muito mais exigente. porquanto sempre existem novas situações às quais cumpre adaptar-se. M. mas também praticando verdadeira tolerância para com as convicções divergentes. O . O caminho de Deus. o cristão não pode pautar seu comportamento somente pelo direito existente. 1990.

em seguida. as Igrejas devem redescobrir sua vocação original que é a evangelização. Diante dessa inquietante evolução. Na raiz de todos esses males. acaba-se de ver. o primogênito de toda a criação. Viu-se. Um dever urgente e de longo fôlego. lembrar a cada indivíduo o sentido de sua vida. de todos os continentes indistintamente. O combate do próximo século. Essa Palavra é dirigida a todos os povos e a todas as civilizações de todos os tempos. em lugar de controlá-lo e de melhor distribuí-lo. Consumo insensato. O primeiro dever dos crentes é. bem ou mal. a responsabilidade dos cristãos é considerável. A praga do desemprego. está a confusão espiritual dos homens e mulheres de nosso tempo. bem como o desgaste irreversível causado à natureza. pólo histórico do futuro desenvolvimento mundial. sob a condução de líderes carismáticos insensatos. enquanto a maioria pobre continua a proliferar na penúria. os especialistas da política e os especialistas em economia. se esforçam por vencer. Urge que reafirmem mais forte que nunca a soberania universal da Palavra de Deus.Capítulo VI Um Imperativo da Ética Cristã: Democratizar a Economia Viu-se nos capítulos precedentes desta obra que os protestantes têm contribuído largamente para o nascimento das grandes democracias modernas e. proporcionam às Igrejas desafios de grande dimensão que. para o surto econômico excepcional do Ocidente. por carência de integrar a seus cálculos materialistas os fatores determinantes do padecimento e do sofrimento dos homens. É a minoria rica de seus habitantes. vida. a terrível pressão das migrações. qualquer que seja a região do mundo. a eclosão de conflitos étnicos e nacionalistas. o Cristo. pois. intoxicados pelas ideologias caducas do crescimento que se faz necessário reencetar ou perseguir a todo o custo. Em tais circunstâncias. morte e ressurreição de Jesus. que deles se aproveita. da aids e da corrupção sob todas as suas formas. que Cristo é “a imagem de Deus invisível. com 153 . sem cessar. É preciso proclamar e repetir. Sua cegueira espiritual impede-os de compreender que seus conceitos são inadequados à realidade. essa Boa Nova (Evangelho) incarnada na obra. que tanto a democracia quanto o desenvolvimento econômico evoluíram de tal forma que o mundo inteiro está hoje num impasse. Para isso. aventuras coletivas novas podem assumir de um momento para outro formas dramáticas e dimensões inopinadas. repetem seus slogans que enganam as multidões. 1. a propagação da droga. destrói os recursos não renováveis do planeta. Foi nele. Não têm coragem de constatar e de confessar que estão no término de seu saber. também. Na desordem e na confusão contemporâneas.

devem com urgência encontrar uma unidade constitucional e universal. Essa vocação é fundamento da responsabilidade inalienável de todo trabalhador e de toda trabalhadora. Ademais. É tarefa da ética permanecer atenta a essa mudanças. tendo feito a paz através do sangue de sua cruz” (Epístola de Paulo aos Colossenses. gozem de todos os direitos que ela implica. que decorre do Evangelho. para administrar e fazer frutificar sua criação. em todos os domínios e em todos os continentes. se o homem e a mulher. Na sociedade moderna. Trata-se da democratização da economia. de suas pretensões eclesiásticas e de seus compromissos sociais e nacionais. O trabalho dos homens e das mulheres de nosso tempo perdeu sua dignidade. sejam elas políticas. Tal unidade não requer a uniformidade formal e constrangedora dos dogmas e das práticas cultuais. único Senhor de sua Igreja e do mundo inteiro. às representações místicas e míticas de cada cultura. É preciso extrair as múltiplas implicações do Evangelho para a renovação da vida dos povos. levando em conta tanto sua situação particular quanto sua solidariedade universal. v. que. A maioria desses direitos estão hoje nas mãos daqueles que fornecem ao trabalho o capital. Elas não devem confundir a Palavra de Deus vivo. A propósito dessa urgente missão de evangelização.. Essa ética reconhece a justa 154 . Há um. infalíveis. Além disso. não devem apresentar-se como sendo. Deus. 15-20).. em todos os domínios da existência. e no qual convém se detenha agora. e da ética social em particular. com a evolução contínua das circunstâncias históricas. esses direitos são apenas parcialmente reconhecidos e respeitados. Isso não se adequa absolutamente à ética cristã. para merecerem credibilidade em meio à presente e desconcertante dispersão de verdades e ideologias contraditórias.. econômicas ou financeiras. Tal responsabilidade só pode efetivamente exercer-se. que dê conta da única verdadeira unidade que as congrega. à imagem desse Cristo. do qual necessita para ser realizado. ao qual não se tem dado até aqui atenção suficiente. porém. nos limites estreitos de sua própria cultura. o visível e o invisível. São facilmente confiscados pelas minorias dominantes. portanto. as Igrejas. a mensagem cristã deve ser traduzida sempre de novo em decisões concretas. prestando esse testemunho à pessoa de Cristo. 1. sua fé em Cristo. graças à qual o homem e a mulher podem pôr em ação os dons postos à sua disposição por Deus. da qual cada indivíduo é responsável perante ele. importa sublinhar imediatamente. seja qual for sua ocupação (e desde que evidentemente esse trabalho seja moralmente honroso e socialmente tolerável). que tudo foi criado no céu e na terra. A partir dessa vocação inicial que é a evangelização. às linguagens.. que vencer os inúmeros desafios aos quais se aludiu antes. com sua própria forma de entendê-la. considerados os infelizes desvios históricos dos cristãos. se não querem desnaturá-lo. as Igrejas têm. agradouse de fazer habitar nele toda sua plenitude e de reconciliar mediante ele todas as coisas com ele mesmo. pois.efeito. c. Essa dignidade é a que Deus lhe confere fazendo-o uma vocação pessoal. pois dogmas e práticas estão ligadas em parte às sensibilidades. que têm a missão de proclamar. É condição da criatividade. que estão dela investidos. especialmente na gestão de seu trabalho e de seus frutos.

que lhe foram confiscados no curso da história. que sejam capazes de reduzir os conflitos sociais. a dominação das ideologias modernas tornam as partes confrontantes incapazes de dirimir esses conflitos. e de descobrir estruturas de participação e de negociação entre o capital e o trabalho. Lembram-se as propostas apresentadas para maior participação dos operários nas decisões de sua empresa. Já se viram no capítulo precedente os esforços empreendidos pelo cristianismo social protestante e o catolicismo social. No Antigo Regime. sempre mais centralizados. supracitados. Nesses dois regimes antagônicos. Não o autoriza açambarcar a seu favor aqueles direitos. que procedem do trabalho humano. que degeneram muitas vezes em crises nacionais. A concentração de poderes. estes sábios especialistas nada podiam. depois em confrontações bélicas internacionais. o sistema capitalista transferiu a maior parte dessa responsabilidade unicamente para o capital. cada vez mais. Na sua origem. Para bem entender o que se acha em jogo nesse vasto problema. porque exigiam o respeito real aos direitos dos trabalhadores. crescimento territorial garantido por novas conquistas militares. são os investidores os únicos que têm o direito supremo de decisão sobre o trabalho. já iniciada atualmente. Com efeito. por analogia. para que o processo da democratização da economia. Esse problema não é novo. em devolver ao trabalho os direitos. Procuravam. Mas. cercar-se dos melhores conselheiros para administrar e aumentar seu domínio. exigindo certa liberdade.função do dinheiro. no sentido de identificar as melhores relações entre o trabalho e o capital. mas uma liberdade controlada e equilibrada pela justiça. se conclua da forma mais pacífica possível. Assim. os princípios já proferidos a esse respeito pelos primeiros economistas protestantes. Mas. o liberalismo insistira sobre essa responsabilidade de cada indivíduo no seu trabalho. convém recuar um pouco e examinar alguns aspectos importantes da história da democracia. seus ensinamentos podem ser muito úteis. Efetivamente. Estes mesmos lutavam por sua sobrevivência que exigia. 2. também. o feudalismo medieval foi muitas vezes sujeito aos poderes despóticos. para compreender o jogo das forças confrontantes e os procedimentos que urge imaginar. Estes monarcas estavam enredados no jogo cruel da concorrência internacional nos campos de batalha. Ora. Recordam-se. veio o tempo dos filósofos políticos. portanto. não lhe atribui a supremacia sobre o trabalho. dos reis e dos imperadores. Mas. a fim de enfrentar a concorrência impiedosa entre Estados monárquicos. Como então ultrapassá-los ou suprimi-los? Alcançar-se-á isso provavelmente tentando democratizar a economia. não uma liberdade selvagem abandonada a si própria. modelo histórico que já foi condenado. pouco a pouco. custosamente pagas com o sangue dos povos. excelentes conselheiros dos regimes monárquicos. O problema urgente de nosso tempo consiste. constata-se tal usurpação desses direitos quer no sistema do capitalismo privado quer naquele do capitalismo do Estado. Eram verdadeiros liberais generosos em ruptura com o liberalismo integral estreito de seu tempo. 155 .

esses direitos foram parcialmente reconquistados. acham-se de novo gravemente ameaçados. as da nobreza. nos negócios. de um capital cada vez mais gigantesco e anônimo. Os vencedores dessas revoluções democráticas. dos poderes de decisão. ainda. os que tomam decisão são múltiplos. 156 . interditaram as coalizões. e da concorrência exacerbada que dele decorre. nova classe da sociedade. Tal concentração. pelas novas exigências da ideologia do neoliberalismo. Todavia. esses burgueses enérgicos maquinaram privar dos direitos democráticos novos essas novas camadas sociais. esclarecida.acreditavam. o direito de cuidar de seus negócios. Então. Os operários foram. Conseguiram açambarcar o poder outrora detido pelas minorias. os povos não eram muito mal governados. Essa classe reclamava. É verdade que hoje e nesse nível. um pouco como se considera hoje inexorável. direito que faz a dignidade do homem. a concentração. E tais direitos são. Sabe-se a custo de quais lutas sangrentas. inexistentes em grande parte do Terceiro Mundo. lançando-se na conquista vibrante desse direito legítimo. exercendo a pluridisciplinaridade e muitas vezes a descentralização geográfica ou setorial. Mas. se bem que sempre ameaçadores. Essa concentração era já considerada naquela época como inevitável. que reservava o direito de voto unicamente aos cidadãos abastados. abaixo dessa burguesia triunfante. muitas vezes exclusivos. Nesse regime. como o denominaram mais tarde os historiadores. o sistema despótico e centralizado de antigamente faliu. por mais esclarecido que fosse. por mais esclarecido que fosse. ainda uma vez. Mas. não são menos representantes. de seus direitos políticos e de seus direitos sociais elementares. Além disso. também. cuja origem protestante e humanista se viu. que constituíam os operários das minas e das indústrias. lá onde existem. Mas. o proletariado. Suprimiram as corporações. destarte. foram os burgueses conquistadores. como votada a uma espécie de fatalidade do destino. 3. Era o tempo do despotismo esclarecido. é conseqüência dos imperativos do crescimento. A corrida atual para a concentração dos poderes econômicos e financeiros. que só vê a salvação numa concorrência internacional impiedosa e prestes a reduzir ao mínimo possível as conquistas sociais. por muito tempo. ou os especialistas incapazes. com justiça condenados. Os filósofos desempenhavam junto aos governos o papel assumido atualmente pelos especialistas econômicos e financeiros nos conselhos de administração. porque esse absolutismo. Por quê? Não foi porque os governos eram incompetentes. E. privava os povos do direito elementar de decidir o seu destino. tido por obrigatório. diz-se. no seio de cada nação. contra a tendência para o crescimento e para a concentração de poderes. Impuseram o censo eleitoral. privados. fosse ela. os indivíduos demonstraram que preferiam a incerteza das experiências novas à tranqüilidade da servidão coletiva. a revolução industrial logo criou. em certos meios também cegos por uma sorte de crença determinista. especialmente as associações operárias. Inútil falar da privação desses direitos elementares nos regimes marxistas totalitários.

hospitais. migrações maciças de mão-de-obra não qualificada para cidades pouco preparadas para acolhê-las e cujas autoridades se acham desprovidas dos meios necessários para enfrentar as novas necessidades sociais tão subitamente criadas (vias. a emigrar para subúrbios imensos e miseráveis das cidades. sob o pretexto de que é legalmente admitida neles. etc. a introdução demasiadamente rápida ou demasiadamente maciça de inovações técnicas. com efeito. das grandes metrópoles onde se empilham os novos pobres. não se opera apenas clandestinamente. rico ou pobre. Essa é. escolas. que desestabiliza rapidamente uma sociedade. assim. podem ser cometidas impunemente graças à proteção do sigilo bancário. Todas essas perversidades. Ora. ela é. a despeito do advento da democracia na maioria dos países industrializados. as margens de ação de que dispõem esses governos para amenizar a situação das vítimas do desemprego. sugando-lhe os recursos e proporcionando. fornecimento de água. É o poder econômico. ainda. consideram-na moralmente tolerável. abertamente mesmo e ao arrepio das leis promulgadas pela autoridade política. ser fator importante de desequilíbrio cultural. Ele se perfaz. Isso reduz. demonstra. Por exemplo. que recebem os frutos dessa fraude. de muitas outras formas. E a concentração de poderes destes últimos processa-se a ritmo muito mais rápido do que o observado no Antigo Regime. assistimos a um fenômeno que recorda os últimos dias do Antigo Regime. a que não pode ocultar suas rendas no estrangeiro. que poderiam ser benéficas se fossem introduzidas progressivamente. destruída pela inconsciência social e a incúria política dos que decidem muito apressadamente. Ademais. os países. assim. capazes de neles criar empregos. desse modo.). uma pobreza geradora de revolução. o mais das vezes. em grande parte. Mas. é geralmente considerada como legítima pelos meios econômicos dos países de destino. a fuga dos capitais. Não só fingem ignorar que as fugas de capitais escapam ao fisco e privam as autoridades políticas dos países lesados de seus meios de ação. e novas camadas da população são compelidas.Hoje em dia. também. social e demográfico de populações inteiras. Por exemplo. o econômico domina o político. que se originam nos países ricos. por carência de desenvolvimento local apropriado e capaz de criar empregos novos. Progressivamente. Esse açambarcamento de poderes. os capitais em fuga privam esses países dos investimentos locais que poderiam neles ser feitos. Mas. em virtude dessa instantaneidade inconsiderada. contrária às leis sancionadas pelo poder político dos países de origem. não é mais o poder político que se concentra e se enrijece antes de desmoronar. porém. seja qual for o país. mas também fazem recair a carga fiscal coletiva sobre a parcela mais pobre da população. incapazes de incluir em seus cálculos todos os fatores sociais interativos de suas decisões. as instituições políticas estrangeiras. por vezes. a causa da formação desses imensos cinturões urbanos. Tal confisco clandestino do poder político pelos que tomam as decisões econômicas manifesta-se. São os rejeitos da antiga sociedade. Ofícios antigos são muito rapidamente suprimidos. o poder de decisão nas sociedades modernas passa progressivamente das mãos das autoridades políticas eleitas para aquelas dos que tomam as decisões econômicas. não sendo proibida! Menosprezam. conhecimentos profissionais e empregos muito subitamente aniquilados. dessas favelas. Com efeito. 157 . esgotos. Produzem-se.

como os déspotas esclarecidos de outrora. Sem qualquer preocupação social. a fraude e a corrupção instalam-se com sempre maior probabilidade de escapar da justiça. pretensamente sem o querer. Tal é o preço da libertação total dos mercados. especialmente por suas especulações. os verdadeiros atores da obra econômica. Os detentores dos meios de comunicação. pálidas juntas de registro. as assembléias de acionistas sendo apenas. e os produtores de filmes. esses administradores de sociedades anônimas não são em realidade. os preços de matérias-primas e de produtos primários de certas regiões. a democracia esvazia-se. Sempre mais influentes. de seu conteúdo. favorecem assim. são tanto mais prejudiciais às instituições políticas quanto mais os poderes decisórios financeiros responsáveis por tais mudanças socio-econômicas são hoje cada vez mais anônimos. E as perturbações. Nesse labirinto. como também ninguém a domina de outra forma qualquer. especialmente dos “produtos derivados”. E a profusão dos novos instrumentos financeiros. que se tornaram muito mais remuneradoras do que os antigos produtos locais arruinados. que daí decorrem. para enriquecer sua sociedade. de fato e em definitivo. Mas. No Norte como no Sul. televisões. Só fazem segui-lo docilmente. autênticos poderes decisórios. jornais. excita a especulação. nos mercados financeiros cujos lucros são mais rápidos. do que os da produção. por intermédio dos bancos. a maior parte do tempo. que deserta as urnas. rádios. não se equivoca. portanto. fazem cair. vêem-se cada vez mais despojados de seus direitos e de suas responsabilidades. mediante o jogo das concentrações e das OPC (Ofertas Públicas de Compra). sem ética. totalmente alheias aos dramas dos países interessados e beneficiários de um mercado sem proteção legislativa racional. E. estão eles também sempre mais concentrados. Só fazem. mas sem deter qualquer influência sobre sua orientação. embora também mais arriscados. eles escapam de todo controle. apanhados na violenta guerra da concorrência dos grandes. sempre mais concentrados. sempre mais condicionados por um sistema de evolução imprevisível. pequenos ou modestos poupadores que fornecem o capital. aumenta a instabilidade. deixar-se arrastar no movimento geral do crescimento e das concentrações. em proveito de administradores onipotentes. Em valor. Faz-se necessário avaliar bem a ameaça que faz pesar sobre nossa vida comum a hegemonia crescente dessas poderes financeiros anônimos. Só têm que prestar conta a si mesmos. e trabalhadores que emprestam suas habilidades. E jogam aliás sempre mais.. que invadem nossas telas e 158 . nem bem nem mal. quando estes últimos são os únicos capazes de conservar ou de criar empregos a longo prazo. cada vez mais afastados das regiões interessadas e cada vez mais ignorantes das necessidades prioritárias das populações atingidas. mais ou menos amistosas. Detentores da vida comum. as trocas de capitais anônimos são atualmente infinitamente mais importantes do que as trocas de mercadorias no plano internacional. esvaziam progressivamente de seu poder as instituições democráticas. multiplica os intermediários e favorece a proliferação das sociedades testas-de-ferro. sempre mais clandestinos. em proveito dos poderes decisórios irresponsáveis porque anônimos. O povo. Trata-se de evolução que se acelera e que não somente ninguém controla democraticamente. de modo algum. muito próximos do comando dos negócios é verdade.Constata-se a mesma ingerência política indireta e irresponsável das autoridades econômicas quando estas. a produção e o tráfico da droga ou das armas.

ao contrário mata essa responsabilidade na grande maioria. são verdadeiros impérios que impõem seus produtos ao mundo inteiro. de nossa informação. Já que. Por um liberalismo social ou um socialismo liberal inteligentes. é tempo de redistribuir os direitos e as responsabilidades dos atores da economia. de tipo puramente materialista. mais o poder econômico se concentra e se reforça. a desconfiança recíproca e finalmente o esgotamento nervoso dos mais ativos. democratizar a economia. Viu-se que essa vocação à responsabilidade individual era fruto da ética cristã. que deve reinar entre todos os parceiros da empresa. sob a aparência da liberdade. Para designar tal sistema a palavra liberalismo é imprópria. gerada pela vocação de cada crente para o sacerdócio universal. embora também eles arrebatados por uma corrente tida por fatal. O liberalismo orgulha-se. contrária à dignidade humana e à ética cristã. Mas. E esses poucos não são nem mesmo os que autenticamente tomam as decisões: são mais objetos que sujeitos de uma evolução tida indevidamente por fatal. o estresse dos mais zelosos. também. político e econômico. da educação de nossas crianças. o artificial estímulo ao trabalho mediante prêmios de zelo ou de produtividade. 4. certo liberalismo de fachada. o que conduz à concentração dos poderes nas mãos de alguns e à irresponsabilidade crescente dos trabalhadores por seu trabalho. Considerando-se esse açambarcamento de poderes por minorias. É necessário devolver. cientificamente concebida para moldar nosso inconsciente e ditar-lhe nossas decisões e nossos comportamentos.moldam a mentalidade das novas gerações. Podem mesmo ser muito competentes no seu domínio e por vezes íntegros no seu comportamento privado. mais diminui o poder político dos magistrados e dos cidadãos. reformada especialmente. a cada parceiro do trabalho criador. sobretudo. o neoliberalismo. inspirando-se no que foi feito para os direitos políticos nas democracias. altamente 159 . Opõe-se disfarçada mas eficazmente à liberdade e à responsabilidade dos indivíduos. de desenvolver a responsabilidade de cada indivíduo nas decisões importantes da sociedade. é preciso. fatores indissociáveis dessa dignidade e dessa ética. que busca o enriquecimento individual pelo açambarcamento dos direitos de disposição do trabalho alheio. já que todos são arrastados numa marcha cega que apenas alguns manipulam. esses novos déspotas que agem na sombra não são necessariamente incapazes ou imorais. quando é racional e não selvagem. Suscita a inveja. Para corrigir o desinteresse crescente dos trabalhadores. o favorecimento. é procedimento que destrói o clima de confiança. como se disse. É. essa nova forma de servidão anônima torna-se cada vez mais incompatível com uma verdadeira democracia. o poder de exercer sua responsabilidade de ser humano adulto e digno. Uma vez mais. agem sobre nossa vida particular e nossa saúde. Essa vocação no plano espiritual induz outra no plano temporal. Todos estes poderes financeiros dispõem cada dia mais de nossa cultura. Finalmente. submetidas a sua influência publicitária incisiva. Mas. A margem de liberdade estreita-se para cada indivíduo. É.

portanto. por conseguinte. em todos os níveis. os descontentamentos e a revolta provocados por essa injustiça. considerados seres menores por muito tempo. no quadro de uma restruturação consensual. de Sismondi (ver acima). para a empresa e para a comunidade. e conduz definitivamente à destruição da vida conjugal. quanto os trabalhadores. do movimento do personalismo cristão. tal experiência. as greves. sobretudo. Como o estatismo. como haviam sido os cidadãos antes do advento das democracias. Trata-se de humanismo espiritual. D. bem antes que os marxistas tivessem explorado. impõe-se inventar novas estruturas de redistribuição do poder econômico. Os trabalhadores. Mesmo se seus interesses divergem aparentemente a curto prazo. também. Mounier. onerosa e antieconômica. de personalismo social e federalista. católicos e protestantes. Trata-se de restaurar entre eles uma colaboração harmoniosa. como aqueles dos quais se falou acima. será sempre menos onerosa. seguida de redistribuição de tarefas. matar na raiz a oposição arcaica. que fornecem o capital da empresa. como na democracia. a tendência para aumentar a concentração dos poderes e a irresponsabilidade dos indivíduos. por causa dos seus reflexos sobre a saúde. Importa. do que o imenso desperdício que engendram os conflitos sociais. progressiva e não autoritária e brutal. familiar e social. A negociação entre as partes interessadas. nem. que o capital se arrogava sobre o trabalho. Mas. Urge conceder aos atores da economia. harmonizar os direitos e as responsabilidades desses dois fatores de produção. Cumpre levar em conta o fato de que os atores reais da economia são tanto os coletores de capitais. Cabe. ou. que estão na origem dessa tradição. direitos novos: direitos de participação nas decisões importantes que lhes dizem respeito. convergem a longo prazo. é o lugar aqui de recordar que os precursores clarividentes. na eleição dos órgãos de direção. do capital e do trabalho. é verdade. afora a exceção ainda possível às vezes no comércio e no artesanato. Mas. Gruson e mesmo o General de Gaulle (ele falava da associação entre trabalho e capital). são hoje seguramente tão capazes de avaliar uma gestão inteligente quanto certos acionistas. que são também os seus. aliás. o regime do Estado empreendedor. porque tem. nada resolve. e mais ainda o desemprego. Reflexão que deve tanto aos méritos do liberalismo social quanto aos das diversas correntes socialistas e sindicalistas. haviam já denunciado os direitos exclusivos.oneroso para todos. mesmo difícil para as duas partes. é objeto de experiência que pede certo período de aprendizagem para todos. É preciso. mais recentemente. dar ao trabalho o direito de participar. C. Há muito tempo já que homens clarividentes. segundo modalidades eqüitativas a inventar. sabe-se que não há capital sem trabalho prévio para constituí-lo. o 160 . mostraram o caminho de uma reflexão nova sobre essa matéria. como E. cujas raízes mergulham em tradição cristã muito antiga. Hoje. que contribuem com suas habilidades. a todos os atores. muitas vezes perturbada por conflitos prejudiciais a todos. E muitas vezes estão melhor situados que a maioria destes últimos para discernir onde se acham os interesses reais da empresa. ao menos nas grandes empresas onde o capital é cada vez mais anônimo. de Rougemont. trabalho sem capital anteriormente investido. o capital e o trabalho. como também os do capital do qual sabem muito bem que não podem prescindir. a custos sempre crescentes. poderia ser reduzido em tempo de crise por inteligente repartição do trabalho. Em seguida ao liberal S. Este. em prol do comunismo.

obrigatórias para todas as empresas do ramo. a produção acha-se exposta “a milhares de acidentes imprevistos”.. 161 . Tal democratização nada tem a ver com a estatização. também este conquistado ao liberalismo. atingir-se-á “alta civilização”. por exemplo. “a classe que oprime”.“radical” de Genebra. cada vez mais numerosas aliás. aliás. mas muito superficialmente.139 É preciso ir urgentemente mais longe para realizar verdadeira democracia econômica. em vez de essa distribuição ser “operada pelos próprios trabalhadores”. 138 Nas diversas concepções da participação operária e da gestão paritária. não se trata de restringir os poderes da indispensável autoridade de execução do trabalho. 243. associando trabalho e capital na distribuição do capital. que lhe permitiu tornar-se um dos mais ricos do mundo. 71 a 76. Essas convenções podem ser modificadas pela negociação entre as partes interessadas. São os mecanismos de funcionamento de nosso sistema econômico que devem ser modificados. ao contrário. Trata-se para as novas gerações de entrar. nos diversos níveis. Na Suíça. reforçá-los conferindo aos conselhos executivos (conselhos de administração) legitimidade democrática nova. na segunda fase da história da democracia. 1933. desde 1830. dizia. p. nos últimos decênios. porque muitas vezes se formam mal-entendidos a esse respeito. Empresas. de problema de ética social e política. 81 a82. convenções coletivas de trabalho obtiveram da parte do governo reconhecimento conferindo-lhes força de lei. Lausanne. “os outros executam. Principe. Por vezes. porque “os benefícios. 2000 a 201. convenções desse tipo garantiram a este país. op. E. Fabien Dunand. Ethique.. a paz do trabalho. impedem estes de consumir. tendem a reforçar as responsabilidades de cada indivíduo. e que constitui nova “espécie de aristocracia” antidemocrática. Fazy.” Era partidário de nova forma de crédito. 236 a 237. 138 J. Os que fornecem o capital e os que emprestam suas habilidades para o trabalho são cada vez mais solidários. O princípio de gestão paritária das empresas já foi introduzido. James Fazy. mau cálculo econômico. trabalhos manuais que só lhes conferem magro salário”. denunciava. Institut d’Ethique sociale da FEPS.. pela participação operária em diversos níveis. Urge sublinhá-lo. porque. 139 Cf. graças às relações harmoniosas entre os sindicatos operários e as organizações patronais. Os primeiros fazem.. os abusos de poder da “classe financeira”. 251 e 278. Não se trata apenas de questão que decorre da ética individual. julgando alguns que um pouco mais de moral pessoal bastaria para assegurar um funcionamento normal da economia. Reprovava os capitalistas por conduzirem “segundo vistas estreitas e determinadas todas as operações centrais da produção” e de perceber “salário exorbitante por esse trabalho sem inteligência”. prosseguia. ao contrário. O objetivo de tal redistribuição de poderes na empresa é. Se bem que muito tímidas ainda. Le modèle suisse. 1991. Eglise et société. o crédito mútuo. “o crédito deve ser para a vida civil o que a eleição é para a vida política. 250.” Se. desde que possível. Assim. cit.. realmente. projetam-se nessa direção adotando novas formas de participação. dizia também. Confundem-se mesmo progressivamente em novas formas de capitalismo popular em plena decolagem. Trata-se. 232 a 233. que arrancam dos trabalhadores. em vários países. o capital é distribuído de forma “anárquica e arbitrária”. dizia. Berna e Lausanne.

é preciso que essas leis ajam no interior de um quadro de leis sociais iguais para todos. de acordo e de negociação reduzirão as perdas enormes devidas aos conflitos sociais e às hostilidades políticas que deles decorrem. nacional e mundial. os problemas pessoais graves. os riscos são tanto locais quanto mundiais. enquanto o capital se mantiver sozinho decidindo a marcha dos negócios. Com efeito. sobretudo. A confiança. a economia prosseguirá numa corrida louca. E. porque desequilibrada. a legislação reguladora. especialmente a cultura intelectual e a formação científica e técnica. repitamo-lo. boas estruturas de participação. de negar a existência das leis de mercado. quer para a escolha das orientações importantes quer para a eleição dos órgãos de direção. 162 . convém. que se atingirá o domínio progressivo do desenvolvimento econômico mundial. com a preocupação dominante do lucro máximo. que convém renovar à luz da ética social cristã. e em crescimento cego sob todos os aspectos. Com efeito. Diminuir-se-ão as graves tensões sociais universais de hoje. Lembrar-se-á de quantos precursores da legislação do trabalho. Perigosa é a visão ideológica atual. e sem a perda de motivação dos colaboradores. sem o temor paralisante do amanhã. numa dada região. Passar-se-á. de uma economia de marcado para uma economia social de mercado digna desse nome.É preciso apelar-se para nova ética coletiva. universalmente ameaçadas. a transparência. em colaboração com as empresas e as organizações sociais e humanitárias privadas. fontes de explosões em cadeia de amanhã. fundada em parceria verdadeira entre capital e trabalho. Esse objetivo figura entre muitos outros. dos deficientes e sua reinserção social. soluções fossem procuradas em comum pelos representantes do capital e do trabalho. a proteção e a promoção dos fracos. Não se trata. Que progressos seriam realizados se. tinham sido clarividentes ao reclamar tal organização internacional. para os acionistas antes de tudo. como são hoje os que se opõem ao desmantelamento das aquisições sociais. a cada indivíduo segundo sua capacidade. É preciso dirigir-se para uma legislação internacional cada vez mais universal. É essencial. as exigências do ambiente e as necessidades particulares de sua própria empresa. imperativas no mundo inteiro. Já eram desacreditados. Para retomar ritmo de cruzeiro inteligente. só deixaria para o Estado o que deriva de sua vocação legítima. que citamos. devidos à falta de confiança entre colaboradores atrelados ao mesmo trabalho. os novos órgãos de direção assim democratizados estarão mais livres e mais tranqüilos para apreciar e realizar simultaneamente o bem geral da economia. sancionada por poderes políticos também universais. assim. em todos os níveis. atenuar-se-ão. que importa realizar para equilibrar hoje a economia local. também. assim. Mas. Mas. Uma vez alcançado. É. Além disso. em tempo de desemprego e de dispensa do emprego. incorporando em si mesma seus mecanismos reguladores. por exemplo. as habilidades agregadas são as condições necessárias de eficácia inteligente. portanto. no plano nacional e internacional. desde o início do século XIX. que o trabalho se associe ao capital nas grandes empresas. é certo que todos os problemas econômicos e sociais do planeta não serão logo por isso resolvidos. Construir-se-ia uma economia que. que preconiza uma globalização precipitada da economia mundial.

O combate pela democratização da economia, vê-se, será longo, difícil e complexo. Como foi e como permanece sendo, aliás, o combate pela democracia política e os direitos do homem, há muitos séculos. Mas, trata-se da dignidade de todos os atores da economia, cujo reconhecimento é tão importante quanto o dos direitos do homem, para o desabrochar dos povos e a estabilidade das sociedades.140

5. As advertências da História. A História nunca se repete. Mas, tem lições muito esclarecedoras para situações análogas. Quando no século XVII, os detentores dos poderes políticos concentrados do Antigo Regime ouviram em tempo, como na Inglaterra, as justas reivindicações dos reformistas moderados, conquanto estes já fossem muitas vezes tidos por perigosos utopistas, a conquista dos direitos democráticos novos fez-se com relativa calma. Relativa, porque se sabe que toda reforma, referente a redistribuição de direitos e de privilégios de minorias, depara inevitavelmente com a oposição violenta dos conservadores interessados, cegos para seus verdadeiros interesses a longo prazo. Mas, quando os moderados são ignorados e os conservadores obstinados, como foi o caso na França no século seguinte ou também na Rússia um século mais tarde, são os violentos que acabam vencendo, ao custo de sangrentos combates revolucionários, seguidos de brutais vinganças provisórias dos conservadores contra-revolucionários. Foi necessário na França o Terror, depois de um século de revoluções e contrarevoluções, para que acabassem por triunfar os direitos do homem, não obstante solenemente proclamados no início desse longo processo. É pouco menos de um século que nos separa da revolução bolchevique, e a Rússia não conseguiu ainda verdadeiramente livrar-se do despotismo, que reconstruíra, tomando emprestado certos traços ao dos czares. Mas hoje, a História acelera-se e os eventos contemporâneos precipitam-se. Se há utopia particularmente perigosa atualmente, ela acha-se do lado daqueles que fingem ignorar que não se brinca com as pressões históricas surgidas da pobreza e da humilhação. O tempo do despotismo esclarecido em economia será em breve completado, o das minorias que decidem, concentrados nos países ricos, e cujos vassalos se acham dispersos no Terceiro Mundo. Bilhões de atores sem poder aguardam, na sombra, novas leis que sua dignidade reclama. Se os moderados, respeitando os autênticos direitos do homem, não inventarem rapidamente novas estruturas, aqui como alhures, para quebrar o antagonismo entre o capital concentrado e o trabalho rarefeito, essas massas vigorosas (50% de jovens), mas pouco instruídas e sem futuro, lançar-se-ão em aventuras sangrentas e sem saída, sob a condução de novos déspotas demagogos. Todos os tipos de integrismos exploram já seu desespero. O verdadeiro liberalismo, o
No último instante da releitura desta obra, vem-se a saber que a Europa dos Doze, exceto a GrãBretanha, acaba de redigir uma norma obrigando as maiores empresas européias a constituir comitês de empresas com seus empregados. A nova lei, que entrar em vigor em 1996, foi adotada em Bruxelas, em 22 de setembro de 1994, após catorze anos de discussões. Ela só contempla agora procedimentos de “informação e consulta”. Ainda se está longe de uma verdadeira participação. Mas esse pequeno passo, num longo caminho, merecia ser ressaltado.
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liberalismo social, o que reivindica ao mesmo tempo a responsabilidade de cada indivíduo e a solidariedade de todos, poderá abrir os olhos? Saberá criar, em tempo, as novas estruturas da sociedade, capazes de harmonizar a vida social e de quebrar as estéreis ideologias de combate? Saberá abrir, para todos, verdadeiros espaços de responsabilidade, respeitando ao mesmo tempo a liberdade racional e a justiça inteligente?141 Ou o liberalismo destruir-se-á, recusando sua aliança com um autêntico socialismo liberal, e soçobrando numa forma de integrismo capitalista já atuante de modo visível hoje? Esse é o risco ideológico do mundo atual. E os cristãos, detentores de visão equilibrada do mundo, saberão transmitir seu encorajamento às novas formas de democratização, que exige sua ética nas circunstâncias particulares de nossa época?

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Sobre esses assuntos, convém ler C. Gruson, Programmer l’Espérance, Paris, 1976; e P. Ladrière, C. Gruson, Ethique et gouvernabilité, un projet européen, Paris, 1992; Coleção, Ethique, Eglise et Société, Institut d’Ethique Sociale de la Fédération des Eglises protestantes de Suisse, Berna e Lausanne, 1993.

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CONCLUSÃO

A Igreja Universal, Sentinela das Nações

O imperativo missionário e profético das Igrejas foi claramente definido por Cristo, quando ele deixou seus discípulos: “Todo poder me foi dado, declarou ele, no céu e na terra. Ide pois: fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos ensinei. E eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.” (Mateus, c. 28, v. 19, 20) Essa vocação não se concretiza por si mesma. Com efeito, os crentes estão sempre tentados a furtar-se à sua tarefa pessoal de evangelização e à missão profética, e muitas vezes custosa, de sua Igreja. Perdendo sua liberdade espiritual, são freqüentemente inclinados a se adaptarem sem reserva aos interesses, costumes, valores e crenças de sua civilização, nação e meio social.142 Por isso, para auxiliá-los a perceber, nessas heranças preciosas mas muitas vezes enganosas, o que é bom e o que não é, o apóstolo Paulo dá aos crentes esta recomendação fundamental para a elaboração de sua fé e de sua ética: “Não vos conformeis com o mundo presente, mas sede transformados pela renovação de vossa inteligência, para discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito.”(Romanos, c. 12, v. 2) Essa inconformidade cristã e essa exigência de conformidade com o Evangelho conferem, ao mesmo tempo, emancipação preciosa e exigência custosa. Emancipação que permite a cada um desfazer-se das servidões e das coações da sociedade, do medo das oposições, das perseguições mesmo, ou simplesmente do que-dirão. Mas, é uma exigência que faz também dos fiéis seres a parte, testemunhas, “enviados”, “missionários” no mundo, “núncios”, “apóstolos” (todos esses termos sublinhando o fato de ser “enviado”). A independência de seus comportamentos e de seus julgamentos morais, especialmente em ética social e em política, assim como em seu testemunho explícito dado a Cristo, está na origem da rápida expansão do cristianismo na bacia mediterrânea, depois no mundo inteiro. Ela permanece a condição primeira de nova expansão do cristianismo no mundo atual, correspondendo à expectativa secreta dos povos modernos desorientados. Mas, essa liberdade dos crentes é muitas vezes mal compreendida, e às vezes mal recebida, mesmo no seu próprio meio religioso, familiar ou civil. No tocante a essa ética, independente dos julgamentos e dos hábitos das pessoas de seu convívio, e dependente só da Palavra de Deus, é notável constatar que, contrariamente aos judeus de sua época e aos filósofos e moralistas profanos ou religiosos de todos os tempos, Jesus nunca procurou fazer um resumo sistemático da verdade divina, de cuja transmissão fora encarregado. Também não se interessou pelo problema do Bem e do Mal, considerado como um problema em si, que pudesse ser resolvido independentemente das promessas e das exigências da Palavra de Deus. Essa realidade trágica do Mal, tão terrivelmente visível em toda a criação desnaturada, ele a
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Cf. A . Biéler, Le service de l’éthique chrétienne, em Choisir, Genebra, dezembro 1979.

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em seqüência àquelas que o próprio Cristo experimentou. a calúnia. c. Rumpf. com efeito. prática e concretamente. as campanhas de difamação (como regularmente padece o Conselho Ecumênico das Igrejas) e. c. Por isso. em alguns países. ao invés de se surpreenderem e desencorajarem. Politique de Dieu. 166 .deparou ao longo de todo o curso de seu ministério. Maury. venceu-a no dia de Páscoa. Ph. Do mesmo modo. no Leste como no Oeste. politique de l’homme. A ética cristã. segundo os termos do teólogo T. a fim de que os crentes com isso se regozijem e encorajem. essa sociedade nova e perfeita que Jesus chama de Reino de Deus. (João. 4. hoje. 3. sua única preocupação. podemos ler essa verdade. 1985. Certos teólogos católicos falam de “cristificação” do homem. religiosos. e pode ser um “seguimento crucificante”. finalmente. essa ética anda contra a correnteza das idéias recebidas. E porque esse “seguimento de Cristo” é custoso. esclarecidos pelo seu Santo Espírito e na perspectiva daquilo que ele denomina seu Reino. Essa última advertência sobre o advento do Reino. a prisão. mas ela também se faz. nada mais é que “o seguimento de Cristo”. não tem outra finalidade última senão sua vocação para refletir. Para vencê-la no cotidiano. a tortura e por vezes a morte. cara à teologia protestante. dizia ele. seu alimento. Paris. seja qual for. políticos ou econômicos. os sarcasmos. todo homem e toda mulher não têm outra identidade última. 1957. 21). Urge que com isso se robusteçam. dos conformismos sociais ou religiosos. na sua profanidade. em comunhão espiritual com Cristo. v. J. que ele reinterpreta completando seus ensinamento de forma perfeita. 1966. na sua ética social e suas instituições. senão sua vocação para viver uma vida nova. a par da gratidão e às vezes do elogio. De nossa parte. ao mesmo tempo próximo e longínquo. ele atrai muitas vezes sobre os cristãos. Chega mesmo a formular uma expressão inopinada. não há diferença alguma entre conhecer a verdade e praticar a vontade de Deus. à luz da vida e da obra de Cristo. 34). ouvir e fazer. Käsemann. como nos lembra Bonhoeffer. no Norte como no Sul. E essa verdade de Deus. neste tempo provisório da História do mundo. dizendo que é preciso “fazer a verdade” (João. Chrétiens devant l’injustice.143 143 Cf. Ellul. deve ser constantemente repetida. muito significativa sob o aspecto semântico. É para esse modelo de vida que devem marchar os indivíduos e também. E. L. Esse Reino é a sociedade perfeita que Deus projeta no horizonte da História universal. Em qualquer que seja a sociedade. Evangélisation. v. a perseguição. Ela contradiz os privilégios injustos e as concentrações e poderes usurpados. pois a prática da ética cristã é muitas vezes acompanhada de contrariedades e mal-entendidos. Genebra. Notemos igualmente que para ele. era fazer a vontade de Deus. na Lei e nos Profetas. um pouco no sentido da “teosis” dos ortodoxos e na linha da “santificação”. com uma ética nova. acte politique. como o fim último da humanidade e de cada vida humana. quando ela é a verdade de Deus. toda sociedade. Revelou-nos sua amplidão na cruz. para retomar a expressão de Dietrich Bonhoeffer. Assim. e sobretudo dos interesses egoístas dos poderosos e dos violentos. sabendo todavia que não o alcançarão jamais perfeitamente. suscita oposições e recriminações. Isso quer dizer que a verdade não se diz apenas. Genebra. Cristo a lê na Lei e nos Profetas. as civilizações.

diz-nos o apóstolo Paulo. não é tão simples assim. mas ao mesmo tempo muita humildade. o Senhor busca-os incansavelmente. v. os primeiros poderiam apresentar-se como modelos perante os segundos. os não cristãos não estão mais garantidos do que os cristãos de se comportarem conforme a verdadeira vocação de sua humanidade. sob esse aspecto. 23. v. Com efeito. porque arrastam consigo toda a sociedade para o caos espiritual. Mas. aspira à sua liberação. E isso traduz-se na sua ética. das místicas políticas perversas. 34. Por isso. que é às vezes mais próxima da de Cristo que a moral praticada pelos cristãos. v. na direta sucessão do apóstolo Pedro. 3). Ele é severo para com os crentes. mesmo. Também eles o procuram às apalpadelas. De fato. Ezequiel. esses ideais acham-se pervertidos. E os cristãos não têm o monopólio dessa conformidade. Também eles são 167 . para não serdes pretensiosos” (Romanos. O serviço específico e grandioso da ética cristã consiste. 33. deixando-se assim neutralizar e renunciando à sua missão de sentinelas incumbidas de vigiar os povos para evitar que se afundem na autodestruição. por outro lado. portanto. 2. se acha na sua vocação para encontrar Cristo.) Mas. no que elas têm de bom e no que elas têm de perverso. não há especificidade externa da ética cristã. o Mestre de todos os homens e de todas as mulheres da terra. como nos ensinam Cristo e os profetas (Mateus. aquela que congrega todos os cristãos do mundo no serviço de todos os povos. como lhes recomenda o apóstolo Paulo. de ídolos. eles tornam-se involuntariamente cúmplices das crises de civilização. c. Por isso. Ora. E. aos indivíduos e aos grupos sociais. “Sede muito razoáveis. em proporcionar. a Palavra ao mesmo tempo de julgamento e de liberação que Deus pronuncia no Evangelho. a única razão de viver. 25) no-lo adverte. muitas vezes sem conhecê-lo. c. v. eles percebem-no já. se os cristãos e seus teólogos vivessem sempre e sob todos os aspectos a ética de Cristo e se os não cristãos não a conhecessem de nenhum modo. Lucas.Por todos esses motivos os cristãos são continuamente tentados a adotar as éticas de seu meio. Mas. Ora. as Igrejas e os crentes assumem terrível responsabilidade. jamais pretender ser exemplar em todos os aspectos. (Já se sublinhou isso. que usurparam o lugar de Cristo na vida dos povos e dos indivíduos. 6). A especificidade da ética cristã só é garantida pela sua adequação ao ensino e à vida de Cristo. não pode. Dessa forma. 12. ao mesmo tempo. das extravagâncias religiosas. o que deve ainda tornar os cristãos mais humildes é que o Senhor da Igreja lhes diz que ele é. O comportamento e o copo de água do cristão oferecido a quem tem sede não são externamente diferentes do comportamento e do copo de água do não cristão. sempre de novo. c. por outro lado. com toda a criação que. O ensino de Cristo sobre o Julgamento Final (Mateus. dizia-lhes. quando se falou do bom uso das diversas crenças difundidas no mundo. ser muitas vezes cometidas aparentemente em nome dos mais nobres ideais. Esse magnífico ministério de aconselhamento confiado aos cristãos reclama de sua parte audácia. A ética dos cristãos. Está perto deles e diante deles. trata-se de uma Igreja que. o renega com freqüência. Estas podem. para estes. porque foram consagrados indevidamente e elevados ao nível de valores independentes. 13. c. e de se instalarem no conformismo ideológico e social. saibam-no ou ignorem-no. 37. às vezes tão distante da ética de Cristo. c. das guerras e das revoluções. Mas. se é muito verdadeiro que Cristo é o Senhor único da Igreja universal. portanto.

o mais possível das exigências divinas. 5. não é aquela que os cristãos adotam para si mesmos. em razão de sua fé. Por isso. com os apelos do Evangelho. 8. se ela favorece ou não seus interesses particulares e os de seu meio social. que concorrem para sua autodestruição. Por exemplo.tentados a se entregarem a uma ética ilusória. o cristão será muito mais exigente moralmente consigo. Assim. E nesta busca de natureza política. 7. E o que é bom para todo homem. os cristãos devem empenhar-se por fazer que. Neste difícil. segundo o apóstolo Paulo. a respeito do álcool. que acham justa. sabem que são. prisioneiro desta ou daquela ideologia. as éticas ideológicas do capitalismo privado e das diversas formas de capitalismo de Estado) consiste. no plano político e nos limites das contingências históricas e das relações de força. 21). ainda assim. para reter o que é bom e rejeitar o resto (Tessalonicenses. procede deste ou daquele grupo político. 11). Estes são sempre relativos. o serviço específico dos cristãos com referência às éticas religiosas ou de origem profana ( como. o sal da terra. toda mulher e toda sociedade é o que segue o sentido da ética de Cristo e de seu Reino. se contradiz ou não as idéias herdadas. do que poderá ser para a sociedade no seu conjunto. o fermento regenerador de toda civilização e de toda cultura. perceptível pela escuta do Evangelho. mas insubstituível. 14. objetos de combate permanente. os portadores da esperança do mundo. no plano da ação coletiva. por exemplo. fruto de ideologias e de crenças enganosas. sejam ouvidos ou sejam desacreditados. Se ele é abstêmio. ou se ele se impõe em matéria de despesas a sobriedade que lhe recomenda o Evangelho. que não partilha ainda no seu conjunto suas motivações. sujeitos a revisão e aperfeiçoamento. para uso de toda a sociedade profana. 168 . um dia “todo joelho dobrar-se-á perante o Senhor e TODA LÍNGUA GLORIFICARÁ A DEUS”. saber se tal norma proposta. v. serviço da evangelização e da difusão da ética cristã no mundo. do sexo e do dinheiro. c. os cristãos. a lei se aproxime. O único critério de sua ação é a convergência desta. transposta para o plano político. a examiná-las soberana e livremente. v. ele não recomendará as mesmas normas para toda a sociedade. por solidariedade com os alcoólatras. a despeito de suas enfermidades. que possam ser compreendidos e aceitos pelo maior número de pessoas possível. com discernimento. essa vontade divina deve ser traduzida pelos cristãos em projetos de sociedade. mais exigentes consigo que para o corpo social. Enfim. se são verdadeiramente livres. Trata-se de nível ético inferior que. Com efeito. pouco lhes importa. (Romanos. da droga. os cristãos nunca podem esperar obter resultados inteiramente satisfatórios. mais ou menos imediata e real. Todavia. c.

nuanças.......... 40 10....................................................... 8................................................... revolução emancipadora ou materialista? ... Do absolutismo de direito divino à democracia........... Calvino alargou-o ................................................................ ............... sentinela da democracia.......................................................................... 21 Finalmente: os protestantes.......................................... Um freio no desenvolvimento democrático dos protestantes. 2........................... 16 A Reforma..... 36 8............. A Reforma: nem começo................................................................................................... 20 Entre calvinistas e luteranos...................................................... Obrigação e limites da submissão às autoridades.............. subprodutos do protestantismo?................... 30 5............................................................... 26 2................................... 43 169 ............... 41 11........................... 23 Primeira Parte Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias Capítulo I As Raízes da Democracia 1................................ 27 3.. ....... mas uma marcha para um ecumenismo respeitoso das diversidades.....................ÍNDICE Introdução à Edição Brasileira Resumo ............................................................. 7......... 32 6...................................................... “oportunidade ou ameaça” para a sociedade? ....................... 38 9........................ 14 A filosofia política do “Contrato Social” ... ......................... ........................... A sociedade moderna constrói-se segundo “um modelo individualista de origem calvinista”................................................................................... ..................... A Igreja.......................................... .............................................. 4................................................................ 6 Introdução Os Protestantes........................................................................... 3.................................................................. 22 Observações pessoais ................................ 28 4............ ............ 35 7............... Lutero abriu o caminho.......... 5 Prefácio ........................... O despertar maravilhoso dos humanismos complementares......... 18 Capitalismo e marxismo........... “Oportunidade ou Ameaça” para a Sociedade? 1. 15 A opinião de dois observadores católicos sobre os protestantes...................... .................................. 9......... 6........ ...... A legitimidade da democracia contestada por Roma................. 5..... As prioridades da Reforma.................. A emergência dolorosa de um novo mundo. ..... nem arremate....................... 20 Permanência de certos traços de caráter entre os protestantes........... Deplorável divórcio..................................

............... A prosperidade das sociedades protestantes e o contraste Norte-Sul no desenvolvimento da Europa.......................................... 87 6... 68 12.......................... 57 7....................... 96 14........ ......... A Revolução Francesa....... .............. ..................... Da ética individual à ética social........................ 60 9.......... um controle de preços é indispensável..... O conceito reformado do salário.. Contra os abusos do poder do dinheiro e a hegemonia do capital sobre o trabalho....................... Alguns princípios fundamentais na origem de um desenvolvimento econômico justo.... ................................................................... A poupança e o empréstimo a juros............. Uma democracia moderada: a realeza parlamentar............ 88 7............................................................... A ética calvinista do trabalho......................... 58 8................ O fermento democrático chega à América..... .................................. 83 3.................... . Nas situações de penúria e açambarcamento.................. 93 11..... 80 2... das trocas e da divisão do trabalho.......... 92 10............................................................. A primeira revolução democrática de uma grande potência européia.. .......................... Um tipo de sociedade protestante radicalmente novo................ A ociosidade............................. 94 12....... 56 6. na sociedade e na Igreja.............. 65 11........ A democracia na cidade de Calvino......................... As novas dimensões do mercado.......................... ...... ...................... ..................................... Uma vanguarda do protestantismo levanta-se contra a discriminação racial e a escravidão...... ...................................................................................................... 85 5.......... 97 Capítulo IV A Ética Cristã em Luta com as Ideologias Contemporâneas 170 ........................................................ 91 9...................................................... produto comum do espírito das Luzes e do fermento protestante........................................................................................... 61 10................ A primeira revolução anticolonial................... 84 4.......... ............. A luta clássica entre conservadores e inovadores........................................... o desemprego e os lucros abusivos............ Um profeta da era industrial... 90 8.................... .................................... ............................................................. Uma história inacabada..... Controlar a economia......... O espírito da Reforma difunde um fermento democrático por diversas regiões da Europa........... ...........................Capítulo II Os Combates pela Democracia l... .................... ......................... 47 2...... ..... 55 5. 52 4. Os Puritanos ................... 77 Segunda Parte Os Protestantes e o Desenvolvimento das Sociedades Modernas Capítulo III Os Fundamentos de um Desenvolvimento Justo 1............. .. 94 13................................................................................... As origens da democracia na Grã-Bretanha .. Moral calvinística e moralismo calvinista ......... Os fundamentos espirituais da independência................................ ....................... 49 3.................................. Legitimidade do comércio............................................................... ...... Contra a exploração dos trabalhadores..... .............. ..................

................................................................................... modelo histórico que já foi condenado............... Sobre que bases reconstruir? ........... A insubstituível vocação crítica da ética cristã.......................................................... Um dever urgente e de longo fôlego........... 102 3...................................................................... 147 6........ Bom uso das ideologias profanas e das diversas crenças............. 124 À procura de melhores relações sociais......................... ............ 3............................. especialmente entre o trabalho e o capital..................... 3............................ O cristianismo social protestante e o catolicismo social................... Do capitalismo ao comunismo........ O Engajamento das Igrejas e o Ecumenismo 1................ ......................................... 99 2............................... 165 A Igreja Universal................ .... 131 A guerra e o neopaganismo. 8....................................... ........................ 139 Que unidade com Roma? ... ................. Faz-se necessário em todos os tempos apelar para a juventude e os leigos para descercar as Igrejas................... 4................. 163 Conclusão ............................................................ 7.......................... 156 A corrida atual para a concentração dos poderes econômicos e financeiros................. 122 Na origem das leis sociais: alguns protestantes corajosos e desacreditados.......................... 5.......................... 157 Por um liberalismo social ou um socialismo liberal inteligentes..... por que sociedade? .............................. 144 Que Igreja hoje......... As falsas esperanças das ideologias profanas........ ................ 169 171 .................................................................................................... 106 5................................... ................................... ............................. 103 4............ 9.................. 2...................... Capítulo VI Um Imperativo da Ética Cristã: Democratizar a Economia 1......................................... 160 As advertências da História......................... ... 5...................................... ......... 4.................... 135 As democracias estão gravemente doentes e as economias arruinadas.................. ....... Sentinela das Nações Índice................ 127 Nascimento e progresso do movimento ecumênico. ................................. .............1..................... 115 Capítulo V Os Combates pela Justiça social................ A grande surpresa do desenvolvimento louco......................................... Ética cristã e capitalista: convergências e divergências.. 154 A concentração de poderes............ Origem e desenvolvimento das ideologias modernas....... O combate do próximo século................................... 2................ A preciosa liberdade cristã no diálogo das religiões................ 119 Os cristãos em socorro dos pobres........................................................................................................ Como resistir? ....................................................................

ao mesmo tempo. herança do protestantismo e o que provém de outras influências? Esse estudo fundamental de André Biéler ressalta o desafio dessas questões. estagiário na Igreja Reformada da França (em Chey. Capelânia Universitária. Em A Força Oculta dos Protestantes. É autor de numerosas obras. É. O Desenvolvimento Louco. é licenciado em teologia e doutor em ciências econômicas. obras traduzidas. esse papel é benfazejo. assim como na Universidade de Genebra. alemão. Nascido em 1914. A Força Oculta dos Protestantes acaba de ser impresso em novembro de 1995. é detestável. exemplar. Para uns. da Universidade de Genebra). perigoso. sinceramente ecumênico e cortesmente crítico. nas impressoras do Atelier Grand SA. o autor. depois em Genebra (Chancy. a fim de que a força oculta do Espírito alcance pouco a pouco sua realização. próxima de Poitiers). após rápido sobrevôo histórico. na Toussaint. nessas sociedades. Eis o problema proposto: em que medida o protestantismo é um dos fatores determinantes do desenvolvimento das mentalidades modernas e das sociedades democráticas e industriais contemporâneas? Noutros termos: o que é. Para outros. impresssores-editores em Mont-sur-Lausanne (Suíça). espanhol. Primeiro. Nela ensinou ética social. 172 . Possa essa pesquisa congregar todos os artesãos da paz.André Biéler é professor honorário da Universidade de Lausanne. Malagnou). Antes de ser chamado para o magistério. Alguns pensam que ele se acha na origem das grandes democracias e do desenvolvimento econômico ocidental. segundo os títulos. português e japonês. exerceu o ministério pastoral. das Libraires religieux de France). André Biéler A Força Oculta dos Protestantes Oportunidade ou ameaça para a sociedade? Prefácio de Jean-Bernard Racine. 260 páginas Os julgamentos feitos sobre o papel dos protestantes na sociedade moderna são contraditórios. Outros julgam que é responsável pelo individualismo destruidor da sociedade contemporânea e inspirador de todos os abusos do capitalismo. Uma Política da Esperança (Prêmio Noël. em inglês. tenta ver o mundo contemporâneo à luz da revelação cristã. Liturgia e Arquitetura. especialmente de O Pensamento Econômico e Social de Calvino (Prêmio Schapler.

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